Bradiarritmias
Conceitos Iniciais
Definição de Bradiarritmias
As bradiarritmias são caracterizadas por uma frequência cardíaca (FC) abaixo dos limites considerados normais. Embora existam variações na definição, geralmente considera-se bradicardia uma FC inferior a 50-60 batimentos por minuto (bpm). Para fins de ACLS (Advanced Cardiovascular Life Support), o valor de corte é 50 bpm, enquanto outras referências, como Braunwald, utilizam 60 bpm.
🧠 Conceito: Bradiarritmia = Frequência Cardíaca < 50-60 bpm.
Cálculo da Frequência Cardíaca no Eletrocardiograma (ECG)
Existem diferentes métodos, que variam de acordo com a regularidade do ritmo cardíaco.
Ritmo Regular
Quando o intervalo R-R (distância entre dois complexos QRS consecutivos) é regular, podemos utilizar as seguintes fórmulas:
- Método dos 1.500: Divida 1.500 pelo número de quadradinhos pequenos entre dois complexos QRS.
- Método dos 300: Uma forma mais rápida e prática é dividir 300 pelo número de quadradões grandes entre dois complexos QRS. Por exemplo, se houver 6 quadradões grandes, a FC será 300/6 = 50 bpm.
💡 Dica: Lembre-se que 1 quadradão grande = 5 quadradinhos pequenos. Assim, 300 bpm (1 quadradão) → 150 bpm (2 quadradões) → 100 bpm (3 quadradões) → 75 bpm (4 quadradões) → 60 bpm (5 quadradões) → 50 bpm (6 quadradões).
Ritmo Irregular
Quando o intervalo R-R é irregular, as fórmulas acima não são precisas. Nesses casos, utiliza-se um método alternativo:
- Conte 15 quadradões grandes no traçado do ECG.
- Conte o número de complexos QRS presentes dentro desses 15 quadradões.
- Multiplique o número de QRS por 20 para obter a frequência cardíaca estimada.
Por exemplo, se houver 6 complexos QRS em 15 quadradões, a FC estimada será 6 x 20 = 120 bpm.
⚠️ Atenção: Para ritmos irregulares, o método dos 15 quadradões é essencial para uma estimativa mais precisa da FC.
Tipos de Bradicardia
As bradicardias podem ser classificadas em diferentes categorias, dependendo da sua origem e mecanismo. As principais são:
- Disfunção do Nó Sinusal: Inclui bradicardia sinusal, arritmia sinusal e pausa sinusal.
- Ritmos de Escape: Ocorrem quando o nó sinusal falha e outras estruturas assumem o comando, como escape atrial, juncional ou ventricular.
- Bloqueios Atrioventriculares (BAV): Classificados em BAV de 1º, 2º (Mobitz I/II, avançado) e 3º grau (BAVT).
Algoritmo Básico para Avaliação de Bradiarritmias
- Calcular a Frequência Cardíaca (FC): Se a FC for menor que 50-60 bpm, confirma-se a bradicardia.
- Verificar se o Ritmo é Sinusal:
- Onda P positiva em DII, seguida de QRS.
- Intervalo PR entre 120-200 ms (3-5 quadradinhos pequenos).
- Se PR > 200 ms ou P não é seguida de QRS, deve-se considerar um Bloqueio Atrioventricular (BAV).
Disfunção do Nó Sinusal
Bradicardia Sinusal
A bradicardia sinusal é o ritmo sinusal mais comum na prática médica e geralmente é benigna. Para identificá-la, três perguntas são essenciais:
- Há onda P positiva em DII? Sim.
- A onda P é seguida de um QRS? Sim.
- O intervalo P-R está normal (120-200 ms ou 3-5 quadradinhos)? Sim.
Se todas as respostas forem
sim, trata-se de uma bradicardia sinusal.
🧠 Conceito: A bradicardia sinusal é um "ritmo sinusal lento", geralmente benigna e assintomática.
Características e Causas
- Extremamente benigna, não costuma gerar sintomas.
- Comum em atletas de alto rendimento devido ao condicionamento físico.
- Causas:
- Vagotomia: Aumento do tônus vagal (ex: durante o sono).
- Drogas bradicardizantes: Betabloqueadores, bloqueadores de canal de cálcio, digitálicos, amiodarona, entre outros.
Conduta
- Assintomático: Observação.
- Sintomático:
- Atropina: 1 mg a cada 3-5 minutos, dose máxima de 3 mg. A atropina inibe a ação vagal, que é parassimpática e reduz a FC.
- Causas benignas: Geralmente respondem bem à atropina.
- Causas malignas ou refratárias à atropina: Marca-passo temporário, adrenalina ou dopamina. As bradiarritmias malignas não respondem à atropina porque a inervação parassimpática está presente apenas nas regiões mais altas do coração, e a disfunção pode ser estrutural.
💊 Tratamento: Atropina é a primeira linha para bradicardia sinusal sintomática, mas não age em disfunções estruturais.
Arritmia Sinusal
A arritmia sinusal é caracterizada por uma variabilidade perceptível nos intervalos P-P, tornando o ritmo irregular. Pode ser de dois tipos:
- Tipo Respiratório: Os intervalos P-P se reduzem na inspiração (taquicardiza) e aumentam na expiração (bradicardiza). É um fenômeno fisiológico comum.
- Tipo Não Respiratório: Não possui relação com a respiração e pode indicar outras condições.
Pausa Sinusal
A pausa sinusal ocorre quando o nó sinusal "esquece de bater", resultando em um "silêncio elétrico" no ECG. Na maioria das vezes, é benigna, especialmente se a pausa for menor que 3 segundos.
Causas
- Vagotomia: Aumento do tônus vagal.
- Drogas bradicardizantes: Conforme listado anteriormente.
- Disfunção do nó sinusal: Deve-se suspeitar na presença de diversas pausas sinusais prolongadas (períodos sem onda P e sem QRS).
Tratamento
- Pausa < 3 segundos: Benigna, apenas observação.
- Pausa > 3-4 segundos: Maligna, indica necessidade de marca-passo. Pausas prolongadas podem causar síncope. Nesses casos, a atropina é ineficaz, pois a disfunção do nó sinusal é fibrosante e a atropina não age em fibrose.
🚨 Emergência: Pausas sinusais > 3-4 segundos requerem intervenção imediata, geralmente com marca-passo.
Disfunção do Nodo Sinusal (DNS)
A disfunção do nodo sinusal é uma condição não fisiológica que pode causar pausas sinusais. Pode ser classificada em extrínseca (geralmente reversível) ou intrínseca (condições degenerativas).
Causas
- Intrínsecas: Doença do nó sinusal (fibrodegenerativa), doença coronariana, pericardite, miocardite, doenças reumáticas, colagenoses, doença de Lyme, febre amarela, amiloidose.
- Extrínsecas:
- Drogas: Antagonistas dos canais de cálcio, digitálicos, amiodarona, betabloqueadores, adenosina, clonidina, metadona, cimetidina, amitriptilina, fenotiazinas, pentamidina.
- Vagotomia: Hipoxemia, hipertensão intracraniana (HIC), passagem de cateter nasoenteral (CNE), infarto agudo do miocárdio (IAM) de parede inferior, micção, dor, medo, manobra vagal.
💡 Curiosidade: A atropina é ineficaz em pacientes submetidos a transplante cardíaco porque o novo órgão é desprovido de inervação parassimpática.
Doença do Nó Sinusal
É uma doença fibrodegenerativa do nó sinusal ou perinodal, mais comum em mulheres entre 60-69 anos. Os sintomas são de baixo débito cardíaco, como tontura, síncope e lipotimia.
Causas
- Idiopática ou Primária: Genética, autossômica dominante, mais comum em jovens.
- Secundária: Doença de Chagas, cardiopatia isquêmica/degenerativa/depósito.
Achados no ECG
Os achados no ECG podem variar amplamente, incluindo:
- Pausa sinusal maior que 3 segundos (sintomática).
- Bradicardia sinusal.
- Síndrome bradi-taqui (alternância de bradicardia e taquicardia).
- Fibrilação/flutter ventricular (embora menos comum como manifestação primária de DNS).
Conduta
O tratamento envolve tratar a causa subjacente. A atropina, devido à fibrose, provavelmente não funcionará. Se a doença for permanente (não transitória), o tratamento definitivo é o implante de marca-passo.
💊 Tratamento: Para doença do nó sinusal permanente, o implante de marca-passo é o tratamento definitivo.
Ritmos de Escape
Quando o nó sinusal falha em gerar o estímulo elétrico, outras estruturas cardíacas com automatismo intrínseco podem assumir a função de marcapasso, gerando os chamados ritmos de escape. Estes são batimentos tardios ou de suplência, que surgem após uma pausa, diferentemente das extrassístoles, que são batimentos precoces.
🧠 Conceito: Ritmos de escape ocorrem quando o nó sinusal falha, e um foco ectópico assume o comando, gerando batimentos tardios.
Ritmo Idioatrial (Escape Atrial)
Neste ritmo, o estímulo elétrico é assumido por um miócito atrial. Geralmente é benigno e pode ocorrer, por exemplo, durante o sono.
- Origem: Miócito atrial.
- QRS: Estreito.
- FC: Entre 40-60 bpm.
- Onda P: Diferente da onda P sinusal (tardia, após pausa, antecedendo o QRS, mas com morfologia anormal e/ou não positiva em DI, DII e/ou aVF).
- Conduta: Observação. Atropina pode ser considerada se necessário e se houver resposta.
Ritmo Idiojuncional (Escape Juncional)
O estímulo elétrico é gerado por um miócito localizado entre o átrio e o ventrículo (incluindo o nó AV). O estímulo chega normalmente ao ventrículo, por isso o QRS não se altera.
- Origem: Miócito na junção atrioventricular (nó AV).
- QRS: Estreito/tardio, após pausa.
- FC: Entre 40-60 bpm.
- Onda P: Ausência de onda P sinusal ou presença de onda P negativa e PR curto (indicando que a condução não é sinusal).
- Conduta: Observação. Atropina pode ser considerada se necessário e se houver resposta.
Ritmo Idioventricular (Escape Ventricular)
Este é um ritmo de escape mais grave, onde o ventrículo assume a função de marcapasso. É considerado maligno e frequentemente associado a sintomas de baixo débito cardíaco.
- Origem: Miócito ventricular.
- QRS: Alargado e aberrante, tardio (após pausa).
- FC: Entre 8-40 bpm.
- Onda P: Ausência de onda P.
- Malignidade: Maligno.
- Sintomas: Sintomas de baixo débito, como síncope, são muito frequentes.
- Conduta: Marca-passo. Não há resposta à atropina.
🚨 Emergência: O ritmo idioventricular é maligno e requer implante de marca-passo, pois a atropina é ineficaz.
💡 Dica: O ritmo idioventricular é o ritmo típico de parada em Atividade Elétrica Sem Pulso (AESP).
Bloqueios Atrioventriculares (BAV)
Os Bloqueios Atrioventriculares (BAV) são condições em que a condução do impulso elétrico dos átrios para os ventrículos é retardada ou interrompida.
Definição e Classificação Geral
Um Bloqueio Atrioventricular (BAV) ocorre quando uma onda P, originada no átrio, é bloqueada e não consegue atingir o ventrículo. Essa interrupção na condução elétrica pode ser classificada de acordo com o local do bloqueio e sua gravidade.
🧠 Conceito: A localização do bloqueio (supra-hissiano ou infra-hissiano) determina a resposta à atropina e a malignidade do BAV.
Localização do Bloqueio e Implicações Terapêuticas
A compreensão da fisiologia da condução elétrica cardíaca é crucial para diferenciar os tipos de BAV. Os bloqueios podem ocorrer em duas regiões principais:
- Supra-hissianos (Altos/Benignos): Ocorrem acima do feixe de Hiss. Nesta região, há receptores parassimpáticos, o que significa que a atropina (um agente parassimpaticolítico) pode ser eficaz no tratamento. Inclui o BAV de 1º grau e o BAV de 2º grau Mobitz I.
- Intra/Infra-hissianos (Baixos/Malignos): Ocorrem no feixe de Hiss ou abaixo dele. Nestas regiões, a ausência de receptores parassimpáticos torna a atropina ineficaz. Inclui o BAV de 2º grau Mobitz II, BAV de 2º grau 2:1 (em alguns casos) e o BAV de 3º grau.
⚠️ Atenção: Bloqueios intra/infra-hissianos são considerados mais graves devido à sua menor resposta a terapias farmacológicas e maior risco de assistolia.
Bloqueio Atrioventricular de 1º Grau
Definição e Características
O BAV de 1º grau é caracterizado por um retardo na condução do impulso elétrico dos átrios para os ventrículos, mas sem bloqueio completo. Todas as ondas P são seguidas por um complexo QRS, porém com um intervalo PR prolongado.
- Intervalo PR prolongado: Maior que 200 ms (ou mais de 5 quadradinhos pequenos no ECG, ou 1 quadradão).
- Benigno: Geralmente assintomático e de localização supra-hissiana.
- Nunca bloqueia: Todas as ondas P são conduzidas aos ventrículos, apenas de forma mais lenta.
🔎 Diagnóstico: No ECG, observe um intervalo PR constante e prolongado (> 200ms), com cada onda P seguida por um QRS.
Conduta
Na maioria dos casos, o BAV de 1º grau não requer intervenção, especialmente se o paciente estiver assintomático. A conduta é similar à bradicardia sinusal:
- Assintomático: Observação.
- Sintomático: Atropina. Se não houver resposta ou se a condição persistir, pode-se considerar marca-passo temporário.
Bloqueio Atrioventricular de 2º Grau Mobitz I (Fenômeno de Wenckebach)
Definição e Características
O BAV de 2º grau Mobitz I, também conhecido como Fenômeno de Wenckebach, é caracterizado por um alongamento progressivo do intervalo PR até que uma onda P seja bloqueada e não seja seguida por um complexo QRS. Após o bloqueio, o ciclo se reinicia.
- Fenômeno de Wenckebach: Alongamento progressivo do intervalo PR até o bloqueio de uma onda P.
- Benigno: Geralmente supra-hissiano e, na maioria dos casos, assintomático.
- Às vezes bloqueia: Nem todas as ondas P são conduzidas aos ventrículos.
🔎 Diagnóstico: No ECG, observe o PR que se alarga progressivamente até uma onda P ser bloqueada, sem QRS subsequente. O eletro "avisa" o bloqueio.
Conduta
A conduta para o BAV de 2º grau Mobitz I é semelhante à do BAV de 1º grau e da bradicardia sinusal, focando na presença de sintomas:
- Assintomático: Observação.
- Sintomático: Atropina. Se não houver resposta, considerar marca-passo temporário. Adrenalina ou dopamina podem ser usadas como alternativa se o marca-passo não estiver disponível ou for inviável.
Bloqueio Atrioventricular de 2º Grau Mobitz II
Definição e Características
O BAV de 2º grau Mobitz II é uma condição mais grave, caracterizada por um bloqueio súbito e imprevisível de ondas P, sem o alongamento progressivo do intervalo PR observado no Mobitz I. O intervalo PR, quando presente, permanece constante.
- Sem Fenômeno de Wenckebach: O intervalo PR é constante antes do bloqueio. O bloqueio ocorre sem aviso prévio.
- Maligno: Geralmente infra-hissiano, com maior risco de progressão para BAV de 3º grau e assistolia.
- Às vezes bloqueia: Algumas ondas P são bloqueadas, outras são conduzidas.
🔎 Diagnóstico: No ECG, observe ondas P bloqueadas de forma intermitente, mas com um intervalo PR constante e normal nas ondas P conduzidas. O eletro "não avisa" o bloqueio.
Conduta
Devido à sua natureza maligna e ao risco de progressão, o BAV de 2º grau Mobitz II geralmente requer intervenção mais agressiva:
- Marca-passo: A conduta principal é a instalação de um marca-passo, pois a atropina é ineficaz devido à localização infra-hissiana do bloqueio.
- Sintomas: Mesmo na ausência de sintomas, a indicação de marca-passo é forte devido ao risco de parada cardíaca súbita.
Bloqueio Atrioventricular de 2º Grau Tipo 2:1
Definição e Características
No BAV de 2º grau tipo 2:1, a cada duas ondas P, uma é bloqueada. Isso significa que há uma condução de 2:1 entre átrios e ventrículos. Devido a essa proporção fixa, não é possível avaliar o fenômeno de Wenckebach.
- Proporção 2:1: Duas ondas P para cada complexo QRS.
- Avaliação de malignidade: Pode ser benigno ou maligno, dependendo de outras características.
🔎 Diagnóstico: No ECG, observe duas ondas P para cada QRS. A malignidade é sugerida por QRS largo sem BAV de 1º grau associado, ou por ausência de resposta à atropina.
Conduta
A conduta para o BAV 2:1 depende da avaliação da sua benignidade ou malignidade:
- QRS estreito + BAV de 1º grau (PR > 200ms): Sugere BAV benigno. Conduta similar ao Mobitz I (observação/atropina).
- QRS largo, sem BAV de 1º grau: Sugere BAV maligno. Conduta similar ao Mobitz II (marca-passo).
- Casos duvidosos: Realizar dose-teste de atropina (ausência de resposta indica malignidade), estudo eletrofisiológico (EEF) ou teste ergométrico (TE) para determinar a localização do bloqueio.
Bloqueio Atrioventricular de 3º Grau (BAVT) ou Bloqueio Atrioventricular Total
Definição e Características
O BAV de 3º grau, ou Bloqueio Atrioventricular Total (BAVT), é a forma mais grave de bloqueio, caracterizada pela completa dissociação entre a atividade elétrica dos átrios e dos ventrículos. Nenhuma onda P é conduzida aos ventrículos, que passam a bater de forma independente, impulsionados por um ritmo de escape ventricular.
- Dissociação AV completa: Átrios e ventrículos batem de forma independente. As ondas P e os complexos QRS não têm relação entre si.
- Ondas P sempre bloqueadas: Nenhuma onda P é capaz de estimular o ventrículo.
- Ritmo de escape ventricular: O ventrículo assume a função de marca-passo, mas com uma frequência cardíaca muito baixa e instável, pois não é sua função primária.
- Maligno: Infra-hissiano, com alto risco de assistolia e morte súbita devido à instabilidade do ritmo de escape ventricular.
🔎 Diagnóstico: No ECG, observe a presença de ondas P e QRS com frequências e ritmos independentes. A frequência atrial (P) é geralmente maior que a ventricular (QRS). É comum ver ondas P "entrando e saindo" do QRS, ou até mesmo escondidas dentro dele ou da onda T.
Identificação de Ondas P Escondidas
Em alguns casos de BAVT, as ondas P podem estar ocultas dentro do complexo QRS ou da onda T, dificultando sua identificação. Para auxiliar no diagnóstico:
- Identifique duas ondas P que sejam claramente visíveis.
- Meça o intervalo entre elas (intervalo P-P, que é regular no BAVT).
- Use essa medida para projetar a localização das ondas P subsequentes, revelando as que poderiam estar escondidas.
Causas do BAVT
As causas mais comuns de BAVT incluem:
- Doença de Lev-Lenègre: Degeneração senil do sistema de condução, sendo a causa mais frequente.
- Infarto Agudo do Miocárdio (IAM): Pode ocorrer tanto em IAM de parede anterior (associado a Mobitz II e BAVT) quanto em IAM inferior (associado a BAVT).
- Miocardiopatias: Especialmente a miocardiopatia chagásica e as miocardiopatias infiltrativas, como a amiloidose.
💊 Tratamento: A conduta é a instalação de um marca-passo definitivo, pois a atropina é ineficaz e o risco de assistolia é iminente.
Bloqueio Atrioventricular Avançado
Definição e Características
O BAV Avançado é uma forma de bloqueio de 2º grau onde há o bloqueio sequencial de múltiplas ondas P. Embora não seja um bloqueio total (como o BAVT), a condução é severamente comprometida, com relações P/QRS como 3:1, 4:1, 5:1, etc. É um bloqueio súbito e imprevisível, sem o fenômeno de Wenckebach.
- Bloqueio sequencial: Mais de uma onda P bloqueada consecutivamente.
- Relações P/QRS: Exemplos incluem 3:1, 4:1, 5:1, indicando que para cada 3, 4 ou 5 ondas P, apenas uma é conduzida.
- Maligno: Considerado um ritmo maligno devido ao risco de progressão para BAVT e instabilidade hemodinâmica.
🔎 Diagnóstico: No ECG, observe múltiplas ondas P bloqueadas em sequência, com um intervalo PR normal nas ondas P conduzidas. É uma forma de BAV de 2º grau Mobitz II, mas com bloqueios mais extensos.
Conduta
Devido à sua natureza maligna e ao risco de progressão, a conduta para o BAV Avançado é a instalação de um marca-passo.
💊 Tratamento: Marca-passo definitivo é a conduta indicada, pois a atropina é ineficaz e o risco de assistolia é elevado.
Conduta para BAVs Infra-Hissianos
Para os Bloqueios Atrioventriculares de 2º grau Mobitz II, BAV Total (BAVT) e BAV Avançado, a conduta é sempre a instalação de um marca-passo. Isso se deve à localização infra-hissiana desses bloqueios, onde não há receptores parassimpáticos, tornando a atropina ineficaz.
🚨 Emergência: Em BAVs infra-hissianos, a instalação de um marca-passo é crucial, mesmo na ausência de sintomas, devido ao risco iminente de parada cardíaca.
Indicações para Marca-Passo Definitivo
A decisão de instalar um marca-passo definitivo é baseada na presença de sintomas e no tipo de bloqueio atrioventricular. As principais indicações incluem:
- Doença do Nódulo Sinusal Sintomática: Pacientes que apresentam síncope, cansaço ou dispneia relacionados à disfunção do nódulo sinusal.
- Doenças Degenerativas do Sistema de Condução AV: Manifestando-se como BAV maligno (Mobitz II, BAVT, BAV Avançado).
- Situações Especiais:
- Pós-Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) com BAVT ou BAV de 2º grau persistente com Bloqueio de Ramo Esquerdo (BRE).
- Síncope associada à hipersensibilidade do seio carotídeo e assistolia maior que 3 segundos após estímulo discreto do seio carotídeo.
Comparativo - Bloqueios Atrioventriculares
| Característica |
BAV 1º Grau |
BAV 2º Grau Mobitz I |
BAV 2º Grau Mobitz II |
BAV 3º Grau (BAVT) |
| Definição |
Retardo na condução AV, todas as P conduzidas. |
Alongamento progressivo do PR até bloqueio de uma P. |
Bloqueio súbito de P, PR constante nas P conduzidas. |
Completa dissociação AV. |
| Intervalo PR |
> 200ms, constante. |
Progressivamente alargado. |
Normal/constante nas P conduzidas. |
Variável, sem relação com QRS. |
| Fenômeno de Wenckebach |
Não presente. |
Presente. |
Não presente. |
Não presente. |
| Localização |
Supra-hissiano (benigno). |
Supra-hissiano (benigno). |
Infra-hissiano (maligno). |
Infra-hissiano (maligno). |
| Resposta à Atropina |
Sim. |
Sim. |
Não. |
Não. |
| Conduta |
Observação / Atropina. |
Observação / Atropina. |
Marca-passo. |
Marca-passo. |