Cardiomiopatias
Conceitos Iniciais
As cardiomiopatias são um grupo de doenças que afetam o músculo cardíaco, resultando em disfunção e, frequentemente, insuficiência cardíaca. Elas são classificadas principalmente com base nas alterações estruturais e funcionais do coração.
Classificação
- Cardiomiopatia Hipertrófica: Caracterizada pelo espessamento do músculo cardíaco, geralmente com fração de ejeção preservada.
- Cardiomiopatia Dilatada: Caracterizada pela dilatação das câmaras cardíacas e redução da força de contração, resultando em fração de ejeção reduzida.
- Cardiomiopatia Restritiva: Caracterizada pela rigidez das paredes ventriculares, que impede o enchimento adequado do coração, mas com fração de ejeção geralmente preservada.
- Cardiomiopatia de Estresse (Takotsubo ou "Síndrome do Coração Partido"): Pode apresentar fração de ejeção reduzida e é desencadeada por estresse emocional ou físico intenso.
🧠 Conceito: A fração de ejeção (FE) é uma medida importante da função cardíaca. Na cardiomiopatia hipertrófica e restritiva, a FE pode estar preservada, indicando um problema no enchimento (diástole). Já na cardiomiopatia dilatada e de estresse, a FE é frequentemente reduzida, indicando um problema na contração (sístole). 💡
Cardiomiopatia Hipertrófica
A cardiomiopatia hipertrófica (CMH) é uma doença genética que causa o espessamento anormal do músculo cardíaco, especialmente dos ventrículos. Esse espessamento pode dificultar o bombeamento de sangue para fora do coração.
Características e Formas Clínicas
- É uma doença genética, com padrão de herança autossômica dominante.
- Mais comum em pacientes jovens e com história familiar positiva.
- É a principal causa de parada cardiorrespiratória (PCR) em atletas.
- A hipertrofia ventricular pode se apresentar de diversas formas:
- Hipertrofia simétrica.
- Hipertrofia septal assimétrica (a forma mais comum e clinicamente relevante).
- Hipertrofia apical assimétrica.
- Outras hipertrofias segmentares.
🧠 Conceito: A hipertrofia septal assimétrica, ao espessar o septo interventricular, pode gerar uma obstrução dinâmica à saída do ventrículo esquerdo (VE). Isso simula uma estenose aórtica, causando um sopro sistólico. A diferença crucial é que, na CMH, a obstrução é dinâmica (obstrui-desobstrui), piorando quando o coração está mais vazio. ⚠️
Clínica
- Sopro sistólico: Caracteristicamente, piora com a manobra de Valsalva (que diminui o retorno venoso) e melhora com agachamento/cócoras (que aumentam o retorno venoso).
- Sintomas comuns incluem síncope, angina e dispneia aos esforços.
- Ao exame físico, o ictus do VE é tópico, porém propulsivo e sustentado.
- Pode haver presença de B4 devido à sobrecarga de pressão.
🔎 Diagnóstico Clínico: A manobra de Valsalva e o agachamento são cruciais para diferenciar o sopro da CMH de outras valvopatias. Se o sopro piora com Valsalva e melhora com agachamento, pense em cardiomiopatia hipertrófica! 💡
Exames Complementares
- Eletrocardiograma (ECG): Pode apresentar sinais de hipertrofia ventricular esquerda (HVE).
- Ecocardiograma (ECO): É fundamental para o diagnóstico, evidenciando a hipertrofia septal assimétrica, que pode levar à obstrução do trato de saída do VE, disfunção diastólica e isquemia miocárdica. Um achado característico é o movimento anterior sistólico da valva mitral (MAMS).
- Ressonância Magnética (RM) e Testes Genéticos: São opções, mas menos disponíveis.
Tratamento
- Triagem: Recomenda-se ecocardiograma a cada 1-2 anos para parentes de primeiro grau de pacientes entre 12 e 20 anos.
- Controle de PA e FC: Utiliza-se betabloqueadores e bloqueadores do canal de cálcio (verapamil, diltiazem).
- Medicamentos a evitar:
- Nitrato: Diminui o retorno venoso, podendo piorar a obstrução.
- Diurético: Pode descompensar o paciente.
- Digitálicos e bloqueadores do canal de cálcio diidropiridínicos (nifedipino, anlodipino).
- Cardiodesfibrilador Implantável (CDI): Indicado em casos de morte súbita abortada, síncope ou taquicardia ventricular.
- Medidas Invasivas: Embolização septal/alcoólica ou ventriculomiectomia são consideradas em casos graves e refratários.
💊 Tratamento: O objetivo principal é reduzir a obstrução e melhorar o enchimento ventricular. Evitar medicamentos que diminuam o retorno venoso é crucial. 🚨
Cardiomiopatia Dilatada
A cardiomiopatia dilatada (CMD) é caracterizada pela dilatação e disfunção sistólica de um ou ambos os ventrículos, resultando em uma redução da fração de ejeção e, consequentemente, em insuficiência cardíaca.
Etiologia
A CMD resulta de uma agressão ao miocárdio que leva à diminuição da força contrátil, fibrose e, por fim, à dilatação ventricular. Pode ser idiopática (sem causa conhecida) ou secundária a diversas condições:
- Infecções: Doença de Chagas, infecções virais (HIV, HCV, coxsackie, entre outras).
- Tóxicas: Uso de cocaína, álcool, quimioterápicos (QT), metais pesados.
- Endócrinas: Hiper ou hipotireoidismo, síndrome de Cushing, feocromocitoma.
- Nutricionais: Kwashiorkor, beribéri, deficiência de selênio.
- Deficiência de eletrólitos: Hipercalcemia, hipofosfatemia.
- Doenças sistêmicas: Colagenoses, diabetes.
- Cardiomiopatia periparto.
Clínica
Os sintomas são predominantemente de insuficiência cardíaca, afetando tanto o ventrículo esquerdo (VE) quanto o ventrículo direito (VD):
- Dispneia aos esforços, que pode evoluir para dispneia em repouso.
- Sinais de congestão pulmonar (crepitações, ortopneia, dispneia paroxística noturna) e/ou sistêmica (edema de membros inferiores, turgência jugular, hepatomegalia).
- Risco aumentado de arritmias e fenômenos tromboembólicos devido à estase sanguínea nas câmaras dilatadas.
Exames Complementares
- Radiografia de Tórax: Evidencia cardiomegalia (coração aumentado).
- Eletrocardiograma (ECG): Pode mostrar diversas arritmias.
- Ecocardiograma (ECO): Confirma a dilatação ventricular, disfunção sistólica do VE e, frequentemente, insuficiência mitral e tricúspide.
- Peptídeo Natriurético Tipo B (BNP): Níveis aumentados, correlacionando-se com a gravidade da insuficiência cardíaca.
- Investigação de doença coronariana: Para excluir isquemia como causa da disfunção.
- Biópsia Endomiocárdica: Reservada para casos duvidosos, mas seu uso é questionado, pois pode ser inconclusiva (evidenciando apenas fibrose) e não revelar a causa subjacente.
💊 Tratamento: O tratamento da cardiomiopatia dilatada segue o mesmo esquema da insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida (ICFER), visando otimizar a função cardíaca e controlar os sintomas. 💡
Detalhes Importantes
Cardiomiopatia Dilatada Idiopática
- Acomete principalmente pacientes entre 30 e 50 anos.
- Cerca de 20% dos casos têm história familiar positiva, sugerindo influência genética.
- Provável influência de fatores genéticos, virais e autoimunes.
- História Natural: Aproximadamente 20% dos pacientes apresentam melhora espontânea, enquanto 80% evoluem para insuficiência cardíaca progressiva.
- Não possui tratamento específico para a causa, sendo o manejo focado nos sintomas da IC.
Cardiomiopatia Dilatada Alcoólica
- Etiologia multifatorial, envolvendo o consumo de álcool e predisposição genética.
- A toxicidade direta do álcool no miocárdio é potencialmente reversível com a abstinência. No entanto, a degeneração de miócitos e fibrose podem tornar o quadro irreversível.
- Importante associação com alto risco de desnutrição.
- Tratamento: Reposição de tiamina e abstinência alcoólica rigorosa.
Cardiomiopatia Dilatada Chagásica
- Resulta da infecção pelo Trypanosoma cruzi.
- Chagas Agudo: Evolui com miocardite, diagnosticada pela parasitemia.
- Chagas Crônico: Evolui para cardiomiopatia dilatada, com algumas características peculiares:
- Preferência pelo ventrículo direito.
- Pode evoluir com aneurisma apical e trombos murais.
- ECG: Frequentemente apresenta bloqueios de condução, como bloqueio de ramo direito (BRD) e hemibloqueio anterior esquerdo (HBAE).
- Diagnóstico: Clínica sugestiva e sorologia positiva para Chagas.
- Tratamento: Segue o mesmo esquema da ICFER.
Cardiomiopatia Dilatada Periparto
- Condição rara que surge entre o último trimestre da gestação (principalmente no último mês) e o sexto mês pós-parto.
- Fator de Risco: Fração de ejeção (FE) < 40% antes da gestação.
- Clínica: Apresenta-se como insuficiência cardíaca aguda.
- Prognóstico: 50-60% das pacientes recuperam a função cardíaca, enquanto 40-50% evoluem para IC crônica.
- Manejo na Gestação:
- IECA/BRA: Contraindicados na gestação.
- Diuréticos: Usar apenas se houver sinais de congestão.
- Betabloqueadores e hidralazina + nitrato: Considerados seguros na gestação.
Cardiomiopatia Restritiva
A cardiomiopatia restritiva (CMR) é uma condição cardíaca caracterizada pela rigidez das paredes ventriculares, o que impede o enchimento adequado do coração durante a diástole. Essa disfunção leva a um aumento das pressões de enchimento e, consequentemente, à insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEP).
Características Principais
Redução da Complacência Cardíaca: O principal achado é a incapacidade do ventrículo de relaxar e se encher adequadamente, mesmo com a função sistólica (contração) geralmente preservada. Isso resulta em uma insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEP).
🧠 Conceito: A cardiomiopatia restritiva é uma doença do miocárdio que afeta primariamente a fase de enchimento ventricular (diástole), levando à disfunção diastólica grave. A função de bombeamento (sístole) costuma estar preservada inicialmente.
Etiologias
A cardiomiopatia restritiva pode ser causada por diversas condições, que podem ser divididas em doenças infiltrativas e não infiltrativas:
Doenças Infiltrativas
Essas condições envolvem o acúmulo de substâncias anormais no miocárdio, levando à sua rigidez.
- Amiloidose: Deposição de proteínas amiloides no coração. É uma das causas mais comuns e importantes de CMR.
- Hemocromatose: Acúmulo excessivo de ferro nos tecidos, incluindo o miocárdio.
- Sarcoidose: Doença inflamatória que pode formar granulomas em diversos órgãos, incluindo o coração.
- Endocardiomiopatia Eosinofílica de Loeffler: Caracterizada pela infiltração de eosinófilos no endocárdio e miocárdio, levando à fibrose e restrição.
Doenças Não Infiltrativas
Nessas condições, a restrição não é causada por infiltração, mas por outros mecanismos.
- Cardiomiopatia Restritiva Idiopática: Diagnóstico dado quando não se encontra uma causa específica para a CMR.
- Endocardiomiofibrose Tropical: Mais comum em regiões tropicais e afeta principalmente adolescentes e adultos jovens. Caracteriza-se por fibrose do endocárdio, levando à restrição ventricular.
⚠️ Atenção: A amiloidose cardíaca é uma causa comum de cardiomiopatia restritiva e deve ser sempre considerada no diagnóstico diferencial, especialmente em pacientes idosos com ICFEP.
Manifestações Clínicas
Os pacientes com cardiomiopatia restritiva geralmente apresentam sintomas de insuficiência cardíaca devido à dificuldade de enchimento do coração.
- Síndrome de Insuficiência Cardíaca: Os sintomas incluem dispneia (falta de ar), fadiga, edema de membros inferiores e congestão pulmonar. Ao exame físico, pode-se observar:
- Ictus de VE tópico: O impulso apical do ventrículo esquerdo pode ser palpável em sua localização normal.
- B3 e B4: Presença de terceira (B3) e quarta (B4) bulhas cardíacas, indicando disfunção diastólica e aumento das pressões de enchimento.
- Risco Aumentado de Bloqueios/Arritmias: A fibrose e a infiltração do miocárdio podem afetar o sistema de condução cardíaco, predispondo a bloqueios atrioventriculares e arritmias, como a fibrilação atrial.
- Trombos Murais: O fluxo sanguíneo turbulento e a estase nas câmaras cardíacas podem aumentar o risco de formação de trombos murais, especialmente no átrio esquerdo, com risco de embolia sistêmica.
Exames Complementares
O diagnóstico da cardiomiopatia restritiva envolve uma combinação de exames de imagem e, em alguns casos, biópsia.
- Radiografia de Tórax: Pode ser útil na investigação inicial para excluir outras causas de dispneia e avaliar o tamanho das câmaras cardíacas. Pode mostrar aumento do ventrículo direito (VD) em casos avançados.
- Eletrocardiograma (ECG): Frequentemente revela baixa voltagem do complexo QRS, especialmente na amiloidose, e pode mostrar sinais de hipertrofia atrial ou bloqueios de condução.
- Ecocardiograma (ECO): É um exame fundamental. Pode evidenciar espessamento discreto do miocárdio (paredes ventriculares), dilatação atrial e, mais importante, disfunção diastólica grave, com padrão restritivo de enchimento ventricular.
- Biópsia Endomiocárdica: Reservada para casos duvidosos ou para confirmar a etiologia subjacente (ex: amiloidose, sarcoidose), quando outros exames não são conclusivos.
🔎 Diagnóstico: O ecocardiograma é crucial para identificar a disfunção diastólica e o espessamento miocárdico, enquanto a biópsia pode confirmar a causa subjacente da cardiomiopatia restritiva.
Tratamento
O tratamento da cardiomiopatia restritiva é desafiador e foca no manejo dos sintomas e da etiologia subjacente, quando possível.
- Manejo da Insuficiência Cardíaca: O tratamento é semelhante ao da insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEP), visando o controle da congestão e a otimização do enchimento ventricular. Isso pode incluir diuréticos para reduzir a sobrecarga de volume.
- Tratamento da Causa Subjacente: Se uma etiologia específica for identificada (ex: amiloidose, hemocromatose, sarcoidose), o tratamento direcionado a essa doença pode retardar a progressão da CMR.
💊 Tratamento: O foco principal é o manejo dos sintomas de insuficiência cardíaca e o tratamento da doença de base, se identificada. Não há cura para a maioria das formas de CMR, e o prognóstico é frequentemente reservado.
Cardiomiopatia de Estresse | Síndrome de Takotsubo (Coração Partido)
A Síndrome de Takotsubo, também conhecida como Cardiomiopatia de Estresse ou Síndrome do Coração Partido, é uma condição cardíaca aguda e reversível que mimetiza um infarto agudo do miocárdio, mas sem evidência de obstrução coronariana significativa. É frequentemente desencadeada por estresse físico ou emocional intenso.
Características Principais
- Epidemiologia: Mais comum em mulheres pós-menopáusicas, geralmente acima de 50 anos.
- Relação com Estresse: Fortemente associada a eventos de estresse físico ou emocional agudo, como perda de um ente querido, acidentes, cirurgias ou notícias chocantes.
💡 Dica: Pense na Síndrome de Takotsubo quando uma mulher de meia-idade ou idosa apresenta sintomas de infarto após um evento estressante, mas com coronárias normais na angiografia.
Achados Clínicos e Diagnósticos
Os pacientes com Síndrome de Takotsubo apresentam um quadro clínico que pode ser indistinguível de um infarto agudo do miocárdio.
- Sintomas: Dor precordial (dor no peito) súbita, que pode ser acompanhada de dispneia.
- Eletrocardiograma (ECG): Frequentemente exibe supradesnivelamento do segmento ST e/ou inversão de ondas T nas derivações precordiais, simulando um infarto.
- Troponina: A elevação dos níveis de troponina é geralmente discreta em comparação com um infarto agudo do miocárdio extenso.
- Cateterismo Cardíaco (CATE): Um achado crucial é a ausência de obstrução coronariana significativa (estenose > 50%) nas artérias coronárias, o que diferencia de um infarto.
- Ecocardiograma (ECO) ou Ventriculografia: Revela uma disfunção ventricular característica, com hipocinesia (redução do movimento) ou acinesia (ausência de movimento) apical e/ou mesaventricular, e hipercinesia (aumento do movimento) basal. Essa configuração dá ao ventrículo esquerdo uma forma semelhante a um vaso de pesca japonês chamado takotsubo, daí o nome da síndrome.
🔎 Diagnóstico: A combinação de dor precordial, alterações no ECG (supra de ST), elevação discreta de troponina, coronárias normais no cateterismo e a disfunção ventricular característica no ECO (hipocinesia apical com hipercinesia basal) é diagnóstica para Takotsubo.
Tratamento
O tratamento da Síndrome de Takotsubo é principalmente de suporte, uma vez que a condição é geralmente reversível.
- Melhora Espontânea: A função ventricular costuma se normalizar espontaneamente em 1 a 4 semanas na maioria dos pacientes.
- Suporte: O manejo inicial é semelhante ao da insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida (ICFER), com foco no suporte hemodinâmico e alívio dos sintomas.
- Anticoagulação: Pode ser considerada se houver evidência de trombo mural no ventrículo esquerdo ou se a fração de ejeção (FE) for < 30%, desde que o paciente apresente baixo risco de sangramento. Isso visa prevenir eventos tromboembólicos.
💊 Tratamento: O tratamento é de suporte, e a recuperação da função ventricular é a regra. A anticoagulação é reservada para casos específicos de alto risco de trombose.