Pericardiopatias
Conceitos Iniciais
As pericardiopatias englobam um conjunto de condições que afetam o pericárdio, a membrana que envolve o coração.
Causas
As causas das pericardiopatias são variadas e podem incluir:
- Infecciosas: Frequentemente idiopáticas, mas muitas vezes de origem viral (como Coxsackie B, Citomegalovírus - CMV, HIV). Outras infecções incluem as piogênicas.
- Imunológicas: Doenças autoimunes como Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) e Artrite Reumatoide (AR).
- Metabólicas: Uremia e hipotireoidismo.
- Pós-lesão: Pós-infarto Agudo do Miocárdio (IAM) e trauma.
- Neoplásicas: Causadas por tumores.
- Actínicas: Relacionadas à radioterapia.
Clínica
A dor torácica associada à pericardite é caracteristicamente contínua e de tipo pleurítica. Possui particularidades que auxiliam no diagnóstico:
- Melhora: Posição genitopeitoral, inclinação para frente e a manobra de Blechman (abraçado).
- Piora: Decúbito dorsal, tosse ou inspiração profunda.
🧠 Conceito: A dor pleurítica na pericardite é um sintoma chave, diferenciando-se de outras dores torácicas pela sua relação com a posição e a respiração. A manobra de Blechman é um sinal clássico de alívio.
Exame Físico
No exame físico, podem ser observados os seguintes achados:
- Febre: Presente em muitos casos, especialmente nas etiologias infecciosas.
- Atrito Pericárdico: Encontrado em aproximadamente 85% dos casos. É um som áspero e em fricção, sistólico e diastólico, que não depende do ciclo cardíaco, descrito como
um "vrum-vrum".
A pericardite pode ser precedida por pródromos gripais, indicando uma etiologia viral comum.
Complicações
As pericardiopatias apresentam potencial de evolução para complicações graves.
1. Tamponamento Cardíaco
O tamponamento cardíaco é uma complicação aguda e potencialmente fatal, caracterizada pelo acúmulo excessivo de líquido no espaço pericárdico, que impede o enchimento diastólico do coração.
Clínica
- Tríade de Beck: Hipotensão, hipofonese de bulhas cardíacas e turgência jugular.
- Pulso Paradoxal: Queda da pressão arterial sistólica (PAS) em mais de 10 mmHg durante a inspiração.
Diagnóstico
- ECG: Baixa voltagem do QRS e alternância elétrica.
- Ecodopplercardiograma (ECO): Evidencia derrame pericárdico e colabamento do átrio direito (AD) e ventrículo direito (VD).
🚨 Emergência: O tamponamento cardíaco é uma emergência médica! O reconhecimento rápido da Tríade de Beck e do pulso paradoxal é crucial.
Tratamento
- Pericardiocentese: Procedimento de urgência guiado por ecocardiograma para drenagem do líquido pericárdico.
2. Pericardite Subaguda
Esta forma de pericardite está frequentemente relacionada ao hipotireoidismo e se manifesta com um derrame pericárdico grande, porém geralmente assintomático, sem dor torácica.
Tratamento
- O tratamento consiste em abordar a causa base, ou seja, tratar o hipotireoidismo.
3. Pericardite Constritiva
A pericardite constritiva é uma evolução crônica, onde o pericárdio se torna fibrótico e "endurecido", restringindo o enchimento cardíaco e levando a uma redução do débito cardíaco. O coração não consegue relaxar adequadamente, resultando em uma síndrome de restrição diastólica.
🧠 Conceito: A pericardite constritiva leva a uma insuficiência cardíaca crônica, predominantemente do lado direito, devido à incapacidade do coração de se encher.
Clínica
Os sintomas são de insuficiência cardíaca crônica, principalmente do ventrículo direito (VD), mas também podem afetar o ventrículo esquerdo (VE):
- VD: Edema, turgência jugular e hepatomegalia (sinal de Kussmaul).
- VE: Dispneia aos esforços.
É importante notar que, assim como na pericardite subaguda, a pericardite constritiva não causa dor no peito.
Causa Principal a Ser Considerada
Deve-se sempre pensar em tuberculose como uma causa subjacente, especialmente em regiões endêmicas.
Diagnóstico
- Radiografia de Tórax (RX): Pode revelar calcificação pericárdica.
- Ecodopplercardiograma (ECO): Mostra espessamento pericárdico e restrição ventricular.
- Alternativas: Tomografia Computadorizada (TC) ou Ressonância Magnética (RNM) cardíaca para avaliação mais detalhada.
Tratamento
- Pericardiectomia: Remoção cirúrgica do pericárdio fibrótico.
- Tratar a causa base: Essencial para evitar recorrências e progressão da doença.
Comparativo - Complicações das Pericardiopatias
| Complicação |
Evolução |
Características Clínicas |
Dor Torácica |
Tratamento |
| Tamponamento Cardíaco |
Aguda |
Tríade de Beck: hipotensão, hipofonese, turgência jugular + pulso paradoxal |
Pode estar presente |
Pericardiocentese de urgência |
| Pericardite Subaguda |
Subaguda |
Derrame grande e assintomático, relacionado ao hipotireoidismo |
Ausente |
Tratar hipotireoidismo |
| Pericardite Constritiva |
Crônica |
IC crônica (VD e VE), síndrome de restrição diastólica |
Ausente |
Pericardiectomia + tratar causa base |
Pericardite Aguda
A pericardite aguda é uma inflamação do pericárdio que se manifesta de forma súbita e pode apresentar achados característicos em exames complementares.
Eletrocardiograma (ECG)
O ECG é uma ferramenta diagnóstica crucial na pericardite aguda, apresentando padrões específicos:
- Supradesnivelamento de ST difuso (côncavo): Diferente do IAM, onde o supradesnivelamento é convexo e localizado.
- Infradesnivelamento de PR: Achado mais específico para pericardite aguda.
- Ausência de Onda Q Patológica: E geralmente poupa as derivações V1 e aVR.
🔎 Diagnóstico: O supradesnivelamento de ST na pericardite aguda não respeita a área irrigada por uma única artéria coronariana, poupando V1/aVR, e é acompanhado por infradesnivelamento do intervalo PR.
Exames Complementares
Além do ECG, outros exames são importantes para o diagnóstico e avaliação da pericardite aguda:
- Radiografia de Tórax (RX): Em casos de derrame pericárdico volumoso, pode-se observar o clássico "coração em moringa".
- Ecodopplercardiograma (ECO): Fundamental para confirmar a presença e avaliar a extensão do derrame pericárdico.
- Troponina: Deve ser solicitada para avaliar a presença de comprometimento miocárdico associado (miopericardite).
- Proteína C Reativa (PCR): Importante para a avaliação diagnóstica e acompanhamento da inflamação, embora um resultado negativo não descarte o quadro.
Tratamento
O tratamento da pericardite aguda visa aliviar os sintomas, reduzir a inflamação e prevenir recorrências.
Critérios de Internação
A internação hospitalar é indicada em casos de:
- Febre.
- Instabilidade hemodinâmica.
- Derrame pericárdico volumoso.
- Pacientes imunossuprimidos.
- Uso de anticoagulantes.
- Troponina elevada (indicando miopericardite).
Medicação
- AINES (Anti-inflamatórios Não Esteroides): Utilizados até a melhora dos sintomas.
- Colchicina: Administrada por 3 meses (0,5 mg, 1-2 vezes ao dia) para reduzir a recorrência.
- Corticoide: Reservado para casos refratários ou com contraindicação aos AINES.
💊 Tratamento: A combinação de AINES e colchicina é a base do tratamento da pericardite aguda. A colchicina é essencial para prevenir recorrências.
Considerações Específicas
- Pós-Infarto Agudo do Miocárdio (IAM): Utilizar AAS (Ácido Acetilsalicílico) em dose anti-inflamatória. Deve-se evitar AINES em geral e corticoides, pois podem atrapalhar o processo cicatricial do miocárdio.