Imagem de Capa

Síncope


Conceitos Iniciais

Definição

A síncope é caracterizada por uma perda súbita e transitória da consciência e do tônus postural, com recuperação espontânea e completa. Geralmente, é causada por uma hipoperfusão cerebral global e transitória.

🧠 Conceito: A síncope é um evento autolimitado, o que a diferencia de outras condições que causam perda de consciência prolongada.

Avaliação Inicial

A abordagem inicial de um paciente com síncope é fundamental para identificar a causa e direcionar o tratamento. Os pilares da avaliação incluem:

⚠️ Atenção: A tomografia computadorizada (TC) de crânio não faz parte da avaliação inicial rotineira da síncope, a menos que haja indícios de causas neurológicas específicas.

Diagnóstico Diferencial Inicial

É crucial diferenciar a síncope de outras condições que podem mimetizar a perda de consciência:

Principais Causas de Síncope

As causas da síncope podem ser classificadas em:

💡 Dica: As causas mais comuns são a síncope neuromediada e a síncope ortostática, seguidas pelas causas arritmogênicas. A prevalência de cada tipo pode variar significativamente com a idade do paciente.

Síncope Reflexa (Neuromediada ou Neurogênica ou Neurocardiogênica)

A síncope reflexa, também conhecida como neuromediada, neurogênica ou neurocardiogênica, é caracterizada pela presença de sintomas pré-síncope, ou seja, o paciente geralmente percebe que o evento está prestes a ocorrer.

Síncope Vasovagal

É o tipo mais comum de síncope reflexa, frequentemente associada a situações como ansiedade, dor intensa, medo ou permanência prolongada em posição ortostática. O mecanismo envolve uma resposta neural exagerada que leva a:

O principal gatilho é a posição ortostática, onde o acúmulo de sangue nos membros inferiores reduz o retorno venoso e o volume central. Para compensar, há um aumento inicial do tônus simpático e da contratilidade cardíaca. No entanto, receptores cardíacos detectam o enchimento reduzido dos ventrículos e, via nervo vago, desencadeiam uma resposta parassimpática súbita, resultando em bradicardia e/ou vasodilatação, culminando na síncope.

💊 Conduta na Síncope Vasovagal

O tratamento inicia-se com medidas não farmacológicas:

Em casos de insucesso com as medidas não farmacológicas, algumas alternativas medicamentosas podem ser consideradas:

⚠️ Atenção: A fludrocortisona pode causar hipertensão de decúbito e hipocalemia, exigindo monitoramento cuidadoso.

Hipersensibilidade do Seio Carotídeo

Caracteriza-se pela síncope que ocorre após um estímulo cervical, como o uso de gravatas apertadas, colarinhos justos ou ao barbear. É mais comum em homens e idosos.

É importante diferenciar a hipersensibilidade do seio carotídeo (um achado de exame físico sem relevância clínica, detectado pela manobra do seio carotídeo) da síncope do seio carotídeo, que possui repercussões hemodinâmicas e pode ser mais grave.

💊 Conduta na Hipersensibilidade do Seio Carotídeo


Síncope Ortostática (Postural)

A síncope ortostática ocorre quando há uma queda na pressão arterial sistólica (PAS) de 20 mmHg ou mais, ou na pressão arterial diastólica (PAD) de 10 mmHg ou mais, após três minutos em posição ortostática. É a síncope que o paciente experimenta ao se levantar.

🔎 Diagnóstico: A medida da pressão arterial deve ser realizada 2-5 minutos após o paciente assumir a posição sentada ou em pé para confirmar a hipotensão ortostática.

O mecanismo envolve a dificuldade em manter a pressão arterial adequada ao mudar de posição, resultando em perfusão cerebral inadequada. Isso ocorre devido ao deslocamento de sangue para o sistema venoso abaixo do diafragma, o que diminui o retorno venoso ao coração, a pressão de enchimento cardíaco e o volume sistólico do ventrículo esquerdo. Esse mecanismo pode ser exacerbado pelo uso de certas medicações, especialmente em pacientes idosos.

Causas Comuns

💊 Conduta na Síncope Ortostática

O tratamento visa corrigir a causa subjacente e melhorar a tolerância ortostática:

💡 Dica: Até este ponto da avaliação (síncope reflexa e ortostática), a história clínica, o exame físico e o ECG são geralmente suficientes para o diagnóstico na maioria dos casos.

Tilt Test (Teste da Inclinação Súbita)

Em casos duvidosos ou em situações ocupacionais de alto risco (ex: pilotos, trabalhadores em altura), o Tilt Test pode ser realizado. Este exame provoca a síncope em um ambiente controlado para identificar a resposta hemodinâmica do paciente à posição ortostática prolongada.


Síncope Neurológica

Embora menos comum, a síncope pode ter uma origem neurológica. Nesses casos, a avaliação inicial pode revelar:

A síncope de origem neurológica é menos frequente, mas deve ser considerada em pacientes com achados neurológicos específicos. As causas podem incluir:

🧠 Conceito: Nesses casos, a neuroimagem (como tomografia ou ressonância magnética cerebral) torna-se um exame complementar importante para identificar a etiologia neurológica.

💊 Conduta na Síncope Neurológica

O tratamento da síncope neurológica consiste em tratar a condição de base que está causando a hipoperfusão cerebral ou a disfunção neurológica.


Síncope Cardíaca

A síncope cardíaca é uma causa grave e potencialmente fatal de perda de consciência, sendo responsável por 10-20% dos quadros sincopais. Geralmente é súbita, sem pródromos significativos (o que é conhecido como "liga-desliga"), e pode ser precedida por palpitações, ocorrer após exercício físico ou em pacientes com cardiopatia conhecida e ECG alterado.

Mecanismos e Causas

As causas mais prevalentes são as bradiarritmias, mas as taquiarritmias (principalmente as ventriculares) também podem ocasionar síncope.

Condições Cardíacas Associadas

Diversas condições cardíacas podem levar à síncope:

🚨 Emergência: Síncope em pacientes com mais de 45-50 anos, ou em jovens/atletas, deve sempre levantar a suspeita de causa cardíaca e requer investigação aprofundada.

Síndromes Arritmogênicas Causadoras de Síncope

Algumas síndromes genéticas ou adquiridas predispõem a arritmias que podem causar síncope:

1. Síndrome de Wolff-Parkinson-White (WPW)

Caracteriza-se pela presença de uma via acessória que predispõe a taquicardias supraventriculares. No ECG, observa-se PR curto com onda delta.

2. Síndrome de Brugada

Distúrbio genético dos canais de sódio que predispõe à fibrilação ventricular. O ECG típico mostra um pseudo bloqueio de ramo direito com supradesnivelamento do segmento ST em V1-V3.

3. Síndrome do QT Longo

Pode ser congênita ou secundária a diversas causas, predispondo a uma arritmia ventricular polimórfica chamada Torsades de Pointes.

💊 Tratamento: Para Torsades de Pointes, a conduta inicial é sulfato de magnésio 1-2g IV. Em casos de instabilidade hemodinâmica, é necessária a desfibrilação.

4. Displasia Arritmogênica do Ventrículo Direito (DAVD)

Caracteriza-se pela degeneração do ventrículo direito, com substituição do miocárdio por tecido fibrogorduroso, predispondo a arritmias ventriculares. No ECG, pode-se observar a onda épsilon.

🧬 Genética: Muitas dessas síndromes arritmogênicas têm base genética, sendo importante a investigação familiar.

Fluxograma de Avaliação e Tratamento da Síncope

A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC 2016) propõe um fluxograma para a avaliação e o tratamento da síncope, que integra a avaliação inicial com exames complementares e condutas específicas para cada etiologia.

Etapa Ação/Diagnóstico Tratamento/Conduta
Avaliação Inicial História, exame físico, PA supina e ortostática, ECG Descartar não-síncope (convulsão, hipoglicemia)
Síncope Neurocardiogênica (Vasovagal) Confirmada por história clínica e/ou Tilt Test
  • Orientação e aconselhamento
  • Evitar situações desencadeadoras
  • Aumento da ingesta hidrossalina
  • Tilt training
  • Exercício físico
  • Manobras de contrapressão
  • Farmacológico (Fludrocortisona, Midodrina, ISRS - uso controverso)
Síncope Cardíaca
  • Ecocardiograma
  • Teste ergométrico
  • Holter de 24 horas / monitor de eventos
  • Estudo eletrofisiológico
  • Cinecoronariografia / angiotomografia computadorizada
  • RMC coração
Tratamento conforme a causa cardiológica específica (ex: marca-passo para BAVT, desfibrilação para Torsades de Pointes)
Síncope Ortostática Confirmada por queda da PA na ortostase
  • Medidas não farmacológicas
  • Fludrocortisona
  • Midodrina
Outras Causas / Não Síncope Confirmar com testes específicos ou avaliação com outras especialidades médicas Tratamento da condição de base