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Síndrome Metabólica e Dislipidemias


Síndrome Metabólica

A Síndrome Metabólica (SM) é um conjunto de condições médicas que ocorrem juntas, aumentando o risco de doenças cardíacas, derrame e diabetes tipo 2. A base fisiopatológica da SM é a resistência insulínica, onde o corpo não responde adequadamente à insulina, levando a uma série de desequilíbrios metabólicos.

Não há um critério único universalmente aceito para definir a síndrome, mas os mais utilizados são os da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do National Cholesterol Education Program (NCEP) americano. No Brasil, o Consenso Brasileiro sobre Síndrome Metabólica, referendado por diversas entidades médicas, estabelece os seguintes critérios diagnósticos:

🔎 Diagnóstico: Para o diagnóstico da Síndrome Metabólica, é necessário que o paciente apresente pelo menos 3 dos critérios listados acima. A tendência atual é considerar valores de corte específicos para cada etnia.

Dislipidemias

Conceitos Iniciais

As dislipidemias são distúrbios caracterizados por alterações nas concentrações plasmáticas de colesterol e/ou triglicerídeos. Essas alterações podem levar ao acúmulo de lipídios nas artérias, contribuindo para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares.

As lipoproteínas são complexos macromoleculares que transportam lipídios (colesterol e triglicerídeos) na corrente sanguínea. A densidade de cada lipoproteína varia de acordo com a quantidade de lipídios e proteínas que ela contém. Existem cinco tipos principais:

É importante notar que IDL e LDL são as principais moléculas aterogênicas, ou seja, que contribuem para a formação de placas nas artérias. Embora o VLDL seja grande demais para atravessar o espaço subendotelial, algumas partículas de VLDL remanescentes, formadas após a perda de triglicerídeos, podem participar do processo de aterogênese.

Apolipoproteínas

Cada lipoproteína contém diversas apolipoproteínas, que são proteínas que auxiliam no transporte e metabolismo dos lipídios. Elas são nomeadas por letras (A, B, C, E, etc.). Por exemplo, o quilomícron possui em sua estrutura a ApoB48 e a ApoE.

A Lipoproteína (a) – Lp(a) é um reconhecido fator de risco cardiovascular. Sua estrutura é semelhante à do LDL, mas a grande diferença é que a Lp(a) possui duas apolipoproteínas: ApoA e ApoB100. A ApoB100 é uma molécula padrão de referência, e a ApoB48, por exemplo, tem 48% do tamanho da ApoB100.

🧬 Genética: A Lipoproteína (a) - Lp(a) é um marcador genético importante e um fator de risco cardiovascular independente, cuja dosagem pode ser útil em casos específicos de estratificação de risco.

Classificação das Lipoproteínas

Tipo de Lipoproteína Classificação Tamanho (aproximado)
Quilomícron e Quilomícron remanescente Aterogênica 1000 nm
VLDL (Lipoproteína de muito baixa densidade) Aterogênica (remanescentes) 70 nm
IDL (Lipoproteína de densidade intermediária) Aterogênica 40 nm
LDL (Lipoproteína de baixa densidade) Aterogênica ("colesterol ruim") 20 nm
HDL (Lipoproteína de alta densidade) Antiaterogênica ("colesterol bom") 10 nm

Classificação das Dislipidemias

As dislipidemias podem ser classificadas em dois grandes grupos, dependendo de sua origem:

Dislipidemias Primárias

São condições genéticas raras, resultantes de mutações em genes que codificam proteínas envolvidas no metabolismo lipídico. Tradicionalmente, são classificadas em 5 fenótipos. A forma mais comum é a Hiperlipidemia Familiar Combinada.

Os sinais clássicos que podem indicar a presença de hipercolesterolemias primárias incluem:

🔎 Diagnóstico: A presença de xantelasmas, xantomas e arco córneo em pacientes jovens pode ser um forte indicativo de dislipidemia primária, exigindo investigação genética e familiar.

Dislipidemias Secundárias

São as formas mais importantes e frequentes na prática clínica, sendo causadas por outras doenças ou condições, ou pelo uso de certos medicamentos. As principais causas incluem:

A seguir, uma tabela detalhando distúrbios lipídicos e suas condições associadas:

Distúrbio dos Lipídios Condições Associadas
Hipertrigliceridemia Álcool, Insuficiência Renal Avançada, Anticoncepcionais Orais, Retinoides
Redução do HDL Tabagismo
Hipertrigliceridemia + Redução do HDL Diabetes, Síndrome Metabólica, Glicocorticoides, Betabloqueadores, Antipsicóticos, HIV e Inibidores da Protease
LDL Elevado Hipotireoidismo, Síndrome Nefrótica, Anorexia, Colestase, Tiazídicos, Ciclosporina

Diagnóstico

O diagnóstico das dislipidemias é fundamental para a prevenção de doenças cardiovasculares. As recomendações para a dosagem do perfil lipídico variam, mas geralmente incluem:

Avaliação do Perfil Lipídico

Na rotina, devem ser solicitados o colesterol total (CT), triglicerídeos (TG) e HDL-colesterol. O LDL-colesterol pode ser medido diretamente ou, mais comumente, calculado pela equação de Friedewald:

LDL = CT – HDL – (TG/5)

⚠️ Atenção: A fórmula de Friedewald só é confiável quando os triglicerídeos são inferiores a 400 mg/dL. Acima desse valor, a dosagem direta do LDL é mais indicada.

Outros Marcadores

A dosagem de Lp(a) não é recomendada de rotina na avaliação do risco cardiovascular. No entanto, pode ser solicitada na estratificação de risco em casos de hipercolesterolemia familiar e em indivíduos com alto risco de doença coronária prematura. A determinação rotineira de ApoA1 e ApoB também é recomendada em contextos específicos.

Colesterol Não-HDL

O colesterol não-HDL representa todo o colesterol não associado ao HDL, incluindo VLDL, IDL e LDL. Ele serve para quantificar todas as partículas aterogênicas (e não apenas o LDL) em circulação. Sua importância é ainda maior em casos de hipertrigliceridemia, onde a fórmula de Friedewald para o LDL pode não ser precisa.

🧠 Conceito: O colesterol não-HDL é um excelente marcador para avaliar o risco aterogênico total, especialmente quando os triglicerídeos estão elevados e a estimativa do LDL pela fórmula de Friedewald é comprometida.

Tratamento

O tratamento das dislipidemias visa principalmente a redução dos níveis de lipídios no sangue para prevenir doenças cardiovasculares. Os principais alvos terapêuticos são:

Terapia Não Medicamentosa

A modificação do estilo de vida é a primeira linha de tratamento e fundamental para o controle das dislipidemias. As principais recomendações incluem:

🧠 Conceito: O estudo PURE (Prospective Urban Rural Epidemiology) sugeriu que o consumo elevado de carboidratos pode ter um papel mais relevante no aumento da mortalidade, e que o consumo de gorduras, em certos contextos, pode estar associado a menor mortalidade. Isso levou a discussões sobre a revisão das diretrizes nutricionais. 💡

Outras abordagens não medicamentosas incluem:

Abordagem Terapêutica

A abordagem terapêutica para a dislipidemia é individualizada e baseia-se nos níveis de lipídios e no risco cardiovascular do paciente. A tabela a seguir resume os principais alvos e terapias:

Lipídio Alvo Terapêutica Principal
Triglicerídeos (TG) < 150 mg/dL Dieta, modificações no estilo de vida (MEV). Se > 500 mg/dL, considerar Fibratos.
HDL > 40 mg/dL Ácido Nicotínico (sem recomendação prática isolada).
LDL Ver risco cardiovascular* Estatinas (grupos selecionados). Outros: Ezetimiba, Inibidor de PCSK9.

Abordagem em Relação ao LDL

O tratamento do LDL é estratificado de acordo com o risco cardiovascular do paciente, visando diferentes percentuais de redução ou valores-alvo:

Grupos de Risco e Metas de LDL
Intensidade das Estatinas

As estatinas são classificadas de acordo com sua capacidade de reduzir o LDL:

⚠️ Cuidado: Intolerância à Estatina!

A intolerância à estatina pode se manifestar com miopatia (dores musculares, fraqueza, cãibras) ou elevação das transaminases (enzimas hepáticas). Em casos de miopatia significativa ou elevação da CPK > 10x, ou transaminases > 3x, pode ser necessário reduzir a dose, substituir a estatina (por fluvastatina ou pravastatina) ou suspender o tratamento.

Alternativas: Alirocumab (inibidor da PCSK9, com efeito sinérgico com estatina, mas de pouca disponibilidade) ou Ezetimiba.

Tempo de Tratamento: Indefinido! A reavaliação deve ser feita a cada 4-12 semanas para ajuste da terapia.

Detalhes Importantes sobre Classificação e Tratamento

Estatinas

As estatinas são a classe de medicamentos mais utilizada para reduzir o colesterol. Seu mecanismo de ação é fundamental para entender sua eficácia:

Efeitos Adversos das Estatinas

Embora eficazes, as estatinas podem apresentar efeitos adversos, sendo os mais comuns e importantes:

  1. Sintomas Musculares Associados às Estatinas (SAMS):
  2. Hepatotoxicidade:
💊 Dica: A inibição da HMG-CoA redutase pelas estatinas é o ponto chave para a redução do LDL. Lembre-se que a elevação da CPK e das transaminases são sinais de alerta importantes! 🚨

Ezetimiba

A Ezetimiba atua de forma diferente das estatinas, sendo uma opção valiosa em diversas situações:

🔎 Diagnóstico: A Ezetimiba é uma excelente opção para pacientes que precisam de uma redução adicional do LDL ou que não toleram estatinas. 💡

Inibidores de PCSK9

Os inibidores de PCSK9 representam uma classe mais recente e potente de medicamentos para a redução do LDL:

🧬 Genética: A PCSK9 é um alvo terapêutico inovador que atua na regulação dos receptores de LDL, oferecendo uma poderosa ferramenta para a redução do colesterol em casos refratários. 🧠

Ômega-3

O Ômega-3, um ácido graxo essencial, também possui um papel no tratamento das dislipidemias, principalmente na hipertrigliceridemia:

🩸 Sangue: O Ômega-3 é uma opção para reduzir triglicerídeos em pacientes de alto risco, complementando a terapia com estatinas. 💊

Classificação Etiológica das Dislipidemias

As dislipidemias, caracterizadas por alterações nos níveis de lipídios no sangue, podem ser classificadas etiologicamente em primárias (de origem genética) ou secundárias (decorrentes de outros fatores).

Dislipidemias Primárias – Origem Genética

As dislipidemias primárias são condições hereditárias resultantes de mutações genéticas que afetam o metabolismo dos lipídios. As principais categorias incluem:

🧠 Conceito: Dislipidemias primárias são genéticas, enquanto as secundárias são adquiridas. Compreender a etiologia é crucial para o manejo adequado.
Hiperquilomicronemia Familiar

Esta é uma condição rara de caráter monogênico e autossômico recessivo. Ela é causada por deficiências em genes envolvidos no metabolismo e na depuração dos quilomícrons, resultando em níveis extremamente elevados de triglicerídeos.

Hipercolesterolemia Familiar (HF) – Forma Heterozigótica

A forma heterozigótica da Hipercolesterolemia Familiar é a mais comum e possui herança monogênica autossômica dominante. Embora seja considerada menos grave que a forma homozigótica, ainda apresenta riscos significativos.

Clínica e Diagnóstico:

Rastreamento:

⚠️ Atenção: A HF heterozigótica é frequentemente assintomática, mas está associada à doença aterosclerótica subclínica. É fundamental investigar histórico familiar de Doença Arterial Coronariana (DAC) precoce.
Hipercolesterolemia Familiar (HF) – Forma Homozigótica

Esta é a forma mais grave da Hipercolesterolemia Familiar, também com herança monogênica autossômica dominante. Os pacientes apresentam um risco muito elevado de eventos cardiovasculares precoces.

Manifestações Clínicas:

Classificação Laboratorial das Dislipidemias

A classificação laboratorial das dislipidemias baseia-se nos perfis lipídicos encontrados nos exames de sangue, sendo fundamental para o diagnóstico e direcionamento terapêutico. As principais categorias são:

🔎 Diagnóstico: A análise laboratorial é crucial para diferenciar os tipos de dislipidemia e guiar a abordagem clínica. Cada perfil lipídico exige uma estratégia de manejo específica.