Imagem de Capa

Valvopatias


Conceitos Iniciais

Conceitos Básicos das Válvulas Cardíacas

O coração possui quatro válvulas principais, divididas em dois grupos:

Funcionamento das Válvulas Cardíacas

O ciclo cardíaco é dividido em duas fases principais, diástole e sístole, e o funcionamento das válvulas é crucial para o fluxo sanguíneo adequado:

💡 Dica: Entender o funcionamento normal das válvulas é fundamental para identificar as patologias. Lembre-se que as válvulas AV abrem na diástole e fecham na sístole, enquanto as válvulas SL abrem na sístole e fecham na diástole.

Ausculta Cardíaca e Bulhas

Focos de Ausculta Cardíaca

A ausculta cardíaca é realizada em pontos específicos da parede torácica, onde os sons das válvulas são melhor audíveis:

🧠 Conceito: A correta identificação dos focos de ausculta é crucial para a localização anatômica da origem dos sopros e bulhas anormais, auxiliando no diagnóstico diferencial das valvopatias.

Bulhas Cardíacas Normais e Anormais

As bulhas cardíacas são sons produzidos pelo fechamento das válvulas, indicando o início e o fim das fases do ciclo cardíaco:

Sopros e Bulhas Diastólicas Adicionais
⚠️ Atenção: A B4 é gerada pela contração atrial forçada para empurrar o sangue para um ventrículo rígido e pouco complacente. Pacientes com fibrilação atrial nunca apresentarão B4, pois não há contração atrial organizada.

Desdobramento da Segunda Bulha (B2)

O desdobramento da B2 refere-se à audição separada dos componentes aórtico (A2) e pulmonar (P2) da segunda bulha. Pode ser fisiológico ou patológico:

🔎 Diagnóstico: A análise do desdobramento da B2 é uma ferramenta semiológica valiosa para identificar condições que afetam o enchimento ou esvaziamento dos ventrículos, como as valvopatias e as cardiopatias congênitas.
Tipo de Desdobramento Característica Exemplos
Fisiológico Aumenta na inspiração Normal
Paradoxal Desaparece na inspiração BRE, Estenose Aórtica
Fixo/Constante Não varia com a respiração BRD, CIA

Tipos de Lesões Valvulares

Existem duas formas principais de lesão valvular, que resultam em comprometimento do fluxo sanguíneo:

🧠 Conceito: A estenose leva à sobrecarga de pressão, enquanto a insuficiência leva à sobrecarga de volume. Essas sobrecargas são mecanismos compensatórios que, a longo prazo, podem levar a disfunção cardíaca.

Relação entre Lesões Valvulares e Sopros Cardíacos

A compreensão do ciclo cardíaco e do funcionamento valvular permite determinar o momento do sopro cardíaco:

🔎 Diagnóstico: A ausculta cardíaca é uma ferramenta essencial para o diagnóstico de valvopatias. A localização e o momento do sopro no ciclo cardíaco fornecem pistas importantes sobre a válvula afetada e o tipo de lesão.
Valvopatia Problema Momento do Sopro
Estenose Aórtica Não abre direito Sistólico
Insuficiência Aórtica Não fecha direito Diastólico
Estenose Mitral Não abre direito Diastólico
Insuficiência Mitral Não fecha direito Sistólico

Manobras e Sopros Cardíacos

Diversas manobras podem alterar a intensidade dos sopros cardíacos, auxiliando no diagnóstico diferencial:

💊 Tratamento: A resposta dos sopros às manobras é uma ferramenta clínica valiosa para diferenciar as valvopatias e guiar a investigação diagnóstica.

Estágios de Progressão das Valvopatias

As valvopatias progridem em estágios, que auxiliam na classificação e na tomada de decisão terapêutica:

🚨 Emergência: O estágio D representa a doença grave sintomática, que frequentemente requer intervenção imediata.

Indicações Cirúrgicas Classe I

As indicações cirúrgicas para valvopatias são cruciais e baseiam-se na gravidade da doença e na presença de sintomas ou disfunção ventricular:

💊 Tratamento: As indicações cirúrgicas de Classe I são consideradas indiscutíveis e devem ser priorizadas para melhorar o prognóstico do paciente.

Estenose Mitral

Epidemiologia e Causas

A estenose mitral é uma condição cardíaca que afeta a válvula mitral, impedindo seu adequado funcionamento. Em 95% dos casos, é uma sequela da febre reumática, sendo a lesão reumática mais comum. Em idosos, pode ser causada por doença degenerativa.

É importante lembrar que, na fase aguda da febre reumática, a insuficiência mitral é mais comum, enquanto na fase crônica, como sequela, a estenose mitral prevalece.

🧠 Conceito: A válvula mitral é a mais frequentemente afetada na cardite reumática. Na fase aguda, a insuficiência mitral é comum; na fase crônica, a estenose mitral é a lesão mais prevalente.

História Natural

A estenose mitral progride através de uma sequência de eventos fisiopatológicos:

É crucial notar que, na estenose mitral, o ventrículo esquerdo (VE) é poupado da sobrecarga inicial, pois a obstrução ocorre antes de sua câmara.

⚠️ Atenção: O ventrículo esquerdo (VE) é geralmente poupado na estenose mitral, pois a sobrecarga de pressão afeta primariamente o átrio esquerdo e o circuito pulmonar.

Manifestações Clínicas

As manifestações clínicas da estenose mitral são diversas e resultam do aumento do átrio esquerdo e da congestão pulmonar:

Ausculta Cardíaca

A ausculta cardíaca na estenose mitral apresenta achados característicos:

🔎 Diagnóstico: A ausculta clássica da estenose mitral inclui ruflar diastólico, hiperfonese de B1 e estalido de abertura.

Exames Complementares

Eletrocardiograma (ECG)

O ECG pode revelar sinais de sobrecarga atrial esquerda:

Radiografia de Tórax (RX)

O RX de tórax pode mostrar alterações decorrentes do aumento do átrio esquerdo e da congestão pulmonar:

Ecocardiograma

O ecocardiograma é o exame mais importante para o diagnóstico e avaliação da gravidade da estenose mitral:

Tratamento

O tratamento da estenose mitral visa aliviar os sintomas e prevenir complicações:

💊 Tratamento: O manejo clínico inclui betabloqueadores para controle da FC e diuréticos para congestão. A profilaxia com antibióticos é crucial para prevenir a recorrência da febre reumática.

Intervenção

A intervenção é indicada em casos de estenose mitral grave (área valvar < 1,5 cm²) e presença de sintomas ou disfunção ventricular esquerda (FE reduzida):

💡 Dica: A valvoplastia é a primeira opção de intervenção, mas a cirurgia é considerada para casos com Escore de Block ≥ 8.

Estenose Aórtica

Epidemiologia e Causas

A estenose aórtica é uma condição em que a válvula aórtica se torna estreita, dificultando o fluxo sanguíneo do ventrículo esquerdo para a aorta. As principais causas incluem:

Manifestações Clínicas

A estenose aórtica é caracterizada pela tríade clássica de sintomas, que geralmente surgem em estágios avançados da doença:

História Natural e Fisiopatologia

Com a válvula aórtica estenosada, o ventrículo esquerdo (VE) precisa gerar uma pressão muito maior para ejetar o sangue para a aorta. Para vencer essa resistência, o VE desenvolve uma hipertrofia ventricular esquerda (HVE) concêntrica. Esta é uma fase compensada, onde o coração não está dilatado, mas sim mais forte, e o paciente pode permanecer assintomático por muitos anos.

No entanto, quando a doença progride e o coração perde sua capacidade contrátil, ele começa a dilatar. É nesse ponto que surgem os sinais e sintomas de insuficiência cardíaca, manifestados pela tríade clássica (angina, síncope, dispneia), geralmente nessa ordem.

🧠 Conceito: A hipertrofia ventricular esquerda concêntrica é o mecanismo compensatório inicial na estenose aórtica, permitindo que o VE vença a resistência. A dilatação e os sintomas surgem na fase descompensada.

Ausculta Cardíaca e Exame Físico

A ausculta e o exame físico da estenose aórtica revelam achados importantes:

🔎 Diagnóstico: O sopro mesossistólico em diamante com irradiação para carótidas e o pulso parvus e tardus são achados clássicos da estenose aórtica.

Exames Complementares

Eletrocardiograma (ECG)

O ECG pode mostrar sinais de hipertrofia ventricular esquerda (HVE):

Radiografia de Tórax (RX)

O RX de tórax pode evidenciar:

Ecocardiograma

O ecocardiograma é fundamental para o diagnóstico, avaliação da gravidade e acompanhamento da estenose aórtica:

Tratamento

O tratamento da estenose aórtica visa aliviar os sintomas e melhorar o prognóstico:

⚠️ Atenção: Evitar betabloqueadores na estenose aórtica grave, pois podem comprometer a contratilidade do VE já sobrecarregado.

Intervenção

A intervenção é indicada em casos de estenose aórtica grave (área valvar < 1,0 cm²) e presença de sintomas ou disfunção ventricular esquerda (FE reduzida):

💊 Tratamento: A cirurgia é o padrão-ouro, e o TAVI é uma alternativa para pacientes de alto risco.

Insuficiência Mitral

Introdução

A Insuficiência Mitral (IM) é uma valvopatia caracterizada pelo fechamento incompleto da valva mitral durante a sístole ventricular, resultando no refluxo de sangue do ventrículo esquerdo para o átrio esquerdo. Este processo leva a uma sobrecarga de volume no átrio e ventrículo esquerdos, com consequências hemodinâmicas significativas ao longo do tempo.

Principais Causas

História Natural

A evolução da insuficiência mitral ocorre em duas fases principais: compensada e descompensada. Inicialmente, o coração consegue se adaptar à sobrecarga de volume, mas com o tempo, essa capacidade é superada, levando à disfunção cardíaca.

Durante a sístole, o sangue regurgita do ventrículo esquerdo (VE) para o átrio esquerdo (AE) devido ao fechamento inadequado da valva mitral. Isso causa um aumento do volume sanguíneo no AE, levando à sua dilatação. Na diástole seguinte, o VE recebe o sangue que normalmente viria dos pulmões, somado ao sangue que ele mesmo regurgitou para o AE e que agora retorna. Essa sobrecarga crônica de volume resulta na dilatação do VE.

🧠 Conceito: A sobrecarga de volume no VE leva à hipertrofia excêntrica, onde o ventrículo dilata para acomodar o volume extra de sangue. Em contraste, a sobrecarga de pressão (como na estenose) causa hipertrofia concêntrica, onde o músculo cardíaco se espessa para gerar mais força.

Fase Compensada

Nesta fase, o coração se adapta à sobrecarga de volume através de mecanismos compensatórios:

Fase Descompensada

A descompensação ocorre quando os mecanismos adaptativos são superados. É importante notar que, na insuficiência mitral, a descompensação pode ocorrer mesmo na ausência de sintomas evidentes:

⚠️ Atenção: Na insuficiência mitral, a queda da fração de ejeção abaixo de 60% é um sinal de descompensação, mesmo que o paciente ainda não apresente sintomas. Isso é crucial para a decisão de intervenção cirúrgica.

A evolução para a fase descompensada pode levar a sintomas como rouquidão e disfagia devido ao aumento do átrio esquerdo, que pode comprimir estruturas adjacentes, como o nervo laríngeo recorrente e o esôfago, respectivamente. Fibrilação atrial (FA) também é uma complicação comum devido à dilatação atrial.

Manifestações Clínicas

As manifestações clínicas da insuficiência mitral surgem principalmente na fase descompensada e estão relacionadas à insuficiência cardíaca esquerda e ao aumento do átrio esquerdo:

Ausculta Cardíaca e Exame Físico

Exames Complementares

Tratamento


Insuficiência Aórtica

Introdução

A Insuficiência Aórtica (IAo), também conhecida como Regurgitação Aórtica, é uma valvopatia caracterizada pelo fechamento inadequado da valva aórtica durante a diástole ventricular. Isso permite o refluxo de sangue da aorta para o ventrículo esquerdo (VE), resultando em sobrecarga de volume no VE e, consequentemente, em disfunção cardíaca progressiva.

Principais Causas

Manifestações Clínicas

As manifestações clínicas da insuficiência aórtica resultam da sobrecarga de volume no ventrículo esquerdo e da redução da perfusão coronariana:

História Natural

A insuficiência aórtica também progride em fases compensada e descompensada, com o ventrículo esquerdo se adaptando inicialmente à sobrecarga de volume.

Com a valva aórtica insuficiente, o sangue reflui da aorta para o ventrículo esquerdo durante a diástole. Isso causa uma sobrecarga de volume no VE, levando à sua dilatação (hipertrofia excêntrica) e, eventualmente, à insuficiência cardíaca. Um ponto crítico é a perfusão das artérias coronárias, que ocorre predominantemente durante a diástole. Se a valva aórtica não se fecha adequadamente, a pressão diastólica na aorta diminui significativamente, o que pode levar à isquemia miocárdica.

Fase Compensada

Nesta fase, o paciente pode ser assintomático ou apresentar sintomas sutis:

Fase Descompensada

A descompensação é marcada pelo surgimento de sintomas mais graves e pela disfunção ventricular:

🚨 Emergência: A dissecção da aorta pode causar insuficiência aórtica aguda e é uma condição grave que requer intervenção imediata.

Ausculta e Exame Físico

Exames Complementares

Tratamento


Característica Estenose Mitral Estenose Aórtica
Causas Principais Febre Reumática (95%), Doença Degenerativa Doença Degenerativa/Calcífica, Valva Bicúspide, Febre Reumática
Câmara Afetada Primariamente Átrio Esquerdo (AE) Ventrículo Esquerdo (VE)
Sintomas Clássicos Dispneia, FA, Rouquidão, Disfagia Angina, Síncope, Dispneia (Tríade Clássica)
Ausculta Sopro Diastólico (Ruflar), Hiperfonese B1, Estalido de Abertura, Reforço Pré-Sistólico Sopro Mesossistólico em Diamante (irradia para carótidas), Desdobramento Paradoxal B2, Pulso Parvus e Tardus, Fenômeno de Gallavardin, B4
ECG Onda P > 100ms, Índice de Morris, Onda P bífida Sinais de HVE (↑QRS, Inversão Assimétrica Onda T)
RX de Tórax Sinal da Bailarina, Duplo Contorno, Compressão Esofágica Calcificação Valvar, Dilatação Cardíaca (fases avançadas)
Ecocardiograma (Grave) Área Valvar < 1,5 cm² Área Valvar < 1,0 cm²
Tratamento Clínico Betabloqueadores (controle FC), Diuréticos (congestão), ATB (profilaxia FR) Evitar Betabloqueadores
Intervenção Valvoplastia por Balão (Escore Block < 8), Cirurgia (Escore Block ≥ 8) Cirurgia (Troca Valvar Aórtica), TAVI (alto risco)
Característica Insuficiência Mitral (IM) Insuficiência Aórtica (IAo)
Valva Afetada Mitral Aórtica
Refluxo Sanguíneo VE para AE (sístole) Aorta para VE (diástole)
Sobrecarga Principal Volume (AE e VE) Volume (VE)
Hipertrofia Ventricular Excêntrica (VE) Excêntrica (VE)
Sopro Característico Holossistólico "em barra" (irradia para axila) Protodiastólico
Outros Sinais Auscultatórios B3, Click mesossistólico (se prolapso) B3, Sopro de Austin-Flint
Sinais Periféricos Não específicos Pulso de Corrigan, Sinal de Musset, Muller, Quincke, Traube, Pulso Bisferiens, Duroziez
Fase Descompensada (FE) FE < 60% FE < 50% (geralmente)
Tratamento Cirúrgico Reparo (preferível) ou Troca Valvar Troca Valvar