Valvopatias
Conceitos Iniciais
Conceitos Básicos das Válvulas Cardíacas
O coração possui quatro válvulas principais, divididas em dois grupos:
- Válvulas Atrioventriculares (AV):
- Mitral: Localizada entre o átrio esquerdo e o ventrículo esquerdo, é a única válvula bicúspide.
- Tricúspide: Localizada entre o átrio direito e o ventrículo direito.
- Válvulas Semilunares (SL):
- Aórtica: Localizada entre o ventrículo esquerdo e a aorta.
- Pulmonar: Localizada entre o ventrículo direito e a artéria pulmonar.
Funcionamento das Válvulas Cardíacas
O ciclo cardíaco é dividido em duas fases principais, diástole e sístole, e o funcionamento das válvulas é crucial para o fluxo sanguíneo adequado:
- Diástole: Momento em que os ventrículos se enchem de sangue. Nesta fase, as válvulas atrioventriculares (mitral e tricúspide) estão abertas e as válvulas semilunares (aórtica e pulmonar) estão fechadas.
- Sístole: Momento em que o sangue é ejetado dos ventrículos. Nesta fase, as válvulas semilunares (aórtica e pulmonar) estão abertas e as válvulas atrioventriculares (mitral e tricúspide) estão fechadas.
💡 Dica: Entender o funcionamento normal das válvulas é fundamental para identificar as patologias. Lembre-se que as válvulas AV abrem na diástole e fecham na sístole, enquanto as válvulas SL abrem na sístole e fecham na diástole.
Ausculta Cardíaca e Bulhas
Focos de Ausculta Cardíaca
A ausculta cardíaca é realizada em pontos específicos da parede torácica, onde os sons das válvulas são melhor audíveis:
- Foco Mitral: Localizado no ictus cordis, geralmente no 5º espaço intercostal (EIC) esquerdo, na linha hemiclavicular.
- Foco Tricúspide: Encontrado na borda esternal esquerda baixa.
- Foco Aórtico: Situado no 2º EIC direito.
- Foco Aórtico Acessório (ou de Erb): Localizado no 3º EIC esquerdo.
- Foco Pulmonar: Posicionado no 2º EIC esquerdo.
🧠 Conceito: A correta identificação dos focos de ausculta é crucial para a localização anatômica da origem dos sopros e bulhas anormais, auxiliando no diagnóstico diferencial das valvopatias.
Bulhas Cardíacas Normais e Anormais
As bulhas cardíacas são sons produzidos pelo fechamento das válvulas, indicando o início e o fim das fases do ciclo cardíaco:
- B1 (primeira bulha): Corresponde ao fechamento das válvulas atrioventriculares (mitral e tricúspide). Marca o início da sístole ventricular. Som característico: "TUM".
- B2 (segunda bulha): Corresponde ao fechamento das válvulas semilunares (aórtica e pulmonar). Marca o início da diástole ventricular. Som característico: "TA".
Sopros e Bulhas Diastólicas Adicionais
- Sopro Sistólico: Ocorre entre B1 e B2 (pequeno silêncio).
- Sopro Diastólico: Ocorre entre B2 e B1 (grande silêncio).
- B3 (terceira bulha): Bulha diastólica que indica sobrecarga de volume ventricular, comum em insuficiências cardíacas.
- B4 (quarta bulha): Bulha diastólica que indica sobrecarga de pressão ventricular, frequentemente associada a estenoses ou hipertrofia ventricular esquerda (HVE).
⚠️ Atenção: A B4 é gerada pela contração atrial forçada para empurrar o sangue para um ventrículo rígido e pouco complacente. Pacientes com fibrilação atrial nunca apresentarão B4, pois não há contração atrial organizada.
Desdobramento da Segunda Bulha (B2)
O desdobramento da B2 refere-se à audição separada dos componentes aórtico (A2) e pulmonar (P2) da segunda bulha. Pode ser fisiológico ou patológico:
- Desdobramento Fisiológico: Ocorre durante a inspiração profunda. O aumento do retorno venoso para o coração direito atrasa o fechamento da válvula pulmonar (P2), tornando-o audível separadamente do A2.
- Desdobramento Paradoxal: Desaparece ou se torna único na inspiração profunda. Indica um atraso no fechamento da válvula aórtica (A2). Exemplos incluem bloqueio de ramo esquerdo (BRE) e estenose aórtica grave.
- Desdobramento Fixo/Constante: O desdobramento persiste ou se acentua na inspiração profunda, sem variação. Indica um atraso fixo no fechamento da válvula pulmonar (P2). Exemplos incluem bloqueio de ramo direito (BRD) e comunicação interatrial (CIA).
🔎 Diagnóstico: A análise do desdobramento da B2 é uma ferramenta semiológica valiosa para identificar condições que afetam o enchimento ou esvaziamento dos ventrículos, como as valvopatias e as cardiopatias congênitas.
| Tipo de Desdobramento |
Característica |
Exemplos |
| Fisiológico |
Aumenta na inspiração |
Normal |
| Paradoxal |
Desaparece na inspiração |
BRE, Estenose Aórtica |
| Fixo/Constante |
Não varia com a respiração |
BRD, CIA |
Tipos de Lesões Valvulares
Existem duas formas principais de lesão valvular, que resultam em comprometimento do fluxo sanguíneo:
- Estenose: A válvula não abre adequadamente, criando uma restrição ao fluxo sanguíneo. Isso gera uma sobrecarga de pressão na câmara cardíaca anterior à válvula.
- Insuficiência: A válvula não fecha adequadamente, permitindo o refluxo de sangue. Isso resulta em uma sobrecarga de volume na câmara cardíaca anterior à válvula.
🧠 Conceito: A estenose leva à sobrecarga de pressão, enquanto a insuficiência leva à sobrecarga de volume. Essas sobrecargas são mecanismos compensatórios que, a longo prazo, podem levar a disfunção cardíaca.
Relação entre Lesões Valvulares e Sopros Cardíacos
A compreensão do ciclo cardíaco e do funcionamento valvular permite determinar o momento do sopro cardíaco:
- Sopro de Estenose Aórtica: A válvula aórtica tem dificuldade para abrir. Ela deveria estar aberta na sístole. Portanto, o sopro é sistólico.
- Sopro de Insuficiência Aórtica: A válvula aórtica tem dificuldade para fechar. Ela deveria estar fechada na diástole. Portanto, o sopro é diastólico.
- Sopro de Estenose Mitral: A válvula mitral tem dificuldade para abrir. Ela deveria estar aberta na diástole. Portanto, o sopro é diastólico.
- Sopro de Insuficiência Mitral: A válvula mitral tem dificuldade para fechar. Ela deveria estar fechada na sístole. Portanto, o sopro é sistólico.
🔎 Diagnóstico: A ausculta cardíaca é uma ferramenta essencial para o diagnóstico de valvopatias. A localização e o momento do sopro no ciclo cardíaco fornecem pistas importantes sobre a válvula afetada e o tipo de lesão.
| Valvopatia |
Problema |
Momento do Sopro |
| Estenose Aórtica |
Não abre direito |
Sistólico |
| Insuficiência Aórtica |
Não fecha direito |
Diastólico |
| Estenose Mitral |
Não abre direito |
Diastólico |
| Insuficiência Mitral |
Não fecha direito |
Sistólico |
Manobras e Sopros Cardíacos
Diversas manobras podem alterar a intensidade dos sopros cardíacos, auxiliando no diagnóstico diferencial:
- Manobra de Valsalva: Aumenta a pressão intratorácica e diminui o retorno venoso ao coração. Consequentemente, a maioria dos sopros cardíacos diminui de intensidade.
- Exceções: Cardiomiopatia hipertrófica (aumenta) e prolapso da válvula mitral (aumenta).
- Agachamento (Acorcamento): Aumenta o retorno venoso e a pós-carga. Geralmente, aumenta a intensidade da maioria dos sopros.
- Exceções: Cardiomiopatia hipertrófica (diminui) e prolapso da válvula mitral (diminui).
- Handgrip (Apertar a mão com força): Aumenta a resistência vascular periférica (RVP).
- Aumenta: Sopro de insuficiência aórtica.
- Diminui: Sopro de estenose aórtica.
- Uso de Vasodilatadores: Diminui a resistência vascular periférica (RVP).
- Diminui: Sopro de insuficiência aórtica.
- Aumenta: Sopro de estenose aórtica.
- Inspiração Profunda (Manobra de Rivero-Carvalho): Aumenta o retorno venoso para o coração direito.
- Aumenta: Intensidade dos sopros das válvulas do lado direito (tricúspide e pulmonar).
💊 Tratamento: A resposta dos sopros às manobras é uma ferramenta clínica valiosa para diferenciar as valvopatias e guiar a investigação diagnóstica.
Estágios de Progressão das Valvopatias
As valvopatias progridem em estágios, que auxiliam na classificação e na tomada de decisão terapêutica:
- Estágio A: Pacientes com fatores de risco para valvopatias, mas sem doença valvular estrutural.
- Estágio B: Valvopatia leve a moderada, assintomática, com doença progressiva.
- Estágio C: Valvopatia grave, assintomática.
- Estágio D: Valvopatia grave, sintomática.
🚨 Emergência: O estágio D representa a doença grave sintomática, que frequentemente requer intervenção imediata.
Indicações Cirúrgicas Classe I
As indicações cirúrgicas para valvopatias são cruciais e baseiam-se na gravidade da doença e na presença de sintomas ou disfunção ventricular:
- Doença grave sintomática (Estágio D): É a indicação mais clara para intervenção.
- Doença grave com fração de ejeção (FE) reduzida: Mesmo que assintomático (alguns casos no Estágio C).
- Doença grave com indicação de cirurgia cardíaca por outro motivo: Aproveita-se a cirurgia para corrigir a valvopatia.
💊 Tratamento: As indicações cirúrgicas de Classe I são consideradas indiscutíveis e devem ser priorizadas para melhorar o prognóstico do paciente.
Estenose Mitral
Epidemiologia e Causas
A estenose mitral é uma condição cardíaca que afeta a válvula mitral, impedindo seu adequado funcionamento. Em 95% dos casos, é uma sequela da febre reumática, sendo a lesão reumática mais comum. Em idosos, pode ser causada por doença degenerativa.
É importante lembrar que, na fase aguda da febre reumática, a insuficiência mitral é mais comum, enquanto na fase crônica, como sequela, a estenose mitral prevalece.
🧠 Conceito: A válvula mitral é a mais frequentemente afetada na cardite reumática. Na fase aguda, a insuficiência mitral é comum; na fase crônica, a estenose mitral é a lesão mais prevalente.
História Natural
A estenose mitral progride através de uma sequência de eventos fisiopatológicos:
- Obstrução da Válvula Mitral: A válvula não se abre adequadamente, dificultando o fluxo sanguíneo do átrio esquerdo para o ventrículo esquerdo.
- Aumento da Pressão no Átrio Esquerdo (AE): A dificuldade de esvaziamento do AE leva a um aumento de pressão e, consequentemente, ao seu aumento de tamanho (dilatação).
- Congestão Pulmonar: A pressão elevada no AE é transmitida retrogradamente para as veias e capilares pulmonares, causando congestão pulmonar.
- Hipertensão Arterial Pulmonar (HAP) Passiva: A congestão pulmonar inicial é uma HAP passiva, resultante do aumento da pressão no circuito pulmonar.
- Insuficiência do Ventrículo Direito (VD) e HAP Reativa: Com a cronicidade do processo, ocorre fibrose das arteríolas e artérias pulmonares, levando a uma HAP reativa. Esta forma de HAP é irreversível e não responde ao tratamento, podendo culminar em insuficiência do ventrículo direito.
É crucial notar que, na estenose mitral, o ventrículo esquerdo (VE) é poupado da sobrecarga inicial, pois a obstrução ocorre antes de sua câmara.
⚠️ Atenção: O ventrículo esquerdo (VE) é geralmente poupado na estenose mitral, pois a sobrecarga de pressão afeta primariamente o átrio esquerdo e o circuito pulmonar.
Manifestações Clínicas
As manifestações clínicas da estenose mitral são diversas e resultam do aumento do átrio esquerdo e da congestão pulmonar:
- Fibrilação Atrial (FA): O aumento e a sobrecarga do AE podem desorganizar seu circuito elétrico, predispondo à FA.
- Rouquidão (Síndrome de Ortner): O AE aumentado, por ser a câmara mais posterior do coração, pode comprimir o nervo laríngeo recorrente esquerdo, causando rouquidão.
- Disfagia: O aumento do AE também pode comprimir o esôfago, que se localiza posteriormente ao coração, resultando em dificuldade para engolir.
- Dispneia: A congestão pulmonar leva à dispneia, que piora com o esforço físico. Pacientes com estenose mitral não toleram taquicardia, pois a frequência cardíaca elevada reduz o tempo de enchimento diastólico do VE, agravando a congestão.
- Sintomas de Insuficiência de VD: Em estágios avançados, podem surgir sinais e sintomas de insuficiência do ventrículo direito, como edema periférico e hepatomegalia.
Ausculta Cardíaca
A ausculta cardíaca na estenose mitral apresenta achados característicos:
- Sopro Diastólico (Ruflar Diastólico): É um sopro de baixa frequência, que ocorre entre B2 e B1, característico do fluxo turbulento através da válvula mitral estenosada durante a diástole.
- Hiperfonese de B1: O fechamento da válvula mitral, que está espessada e calcificada, gera um som mais intenso (hiperfonese de B1).
- Estalido de Abertura: Um som de alta frequência que ocorre logo após B2, indicando a abertura abrupta da válvula mitral estenosada.
- Reforço Pré-Sistólico: Representa a contração atrial que tenta forçar o sangue através da válvula estenosada, sendo audível antes de B1. Pode estar ausente em casos de fibrilação atrial.
🔎 Diagnóstico: A ausculta clássica da estenose mitral inclui ruflar diastólico, hiperfonese de B1 e estalido de abertura.
Exames Complementares
Eletrocardiograma (ECG)
O ECG pode revelar sinais de sobrecarga atrial esquerda:
- Onda P > 100 ms (2,5 quadradinhos): Indica aumento da duração da ativação atrial.
- Índice de Morris: Caracterizado por uma fase negativa da onda P em V1 com área > 1 mm², refletindo a sobrecarga do átrio esquerdo.
- Onda P bífida: Também conhecida como P mitrale, sugere dilatação atrial esquerda.
Radiografia de Tórax (RX)
O RX de tórax pode mostrar alterações decorrentes do aumento do átrio esquerdo e da congestão pulmonar:
- Sinal da Bailarina: O aumento do AE para cima pode deslocar cranialmente o brônquio fonte esquerdo, abrindo o ângulo da traqueia, assemelhando-se às pernas de uma bailarina.
- Duplo Contorno: O crescimento do AE para a direita pode se projetar além do contorno cardíaco normal, criando um "duplo contorno" à direita.
- Compressão Esofágica: O aumento posterior do AE pode comprimir o esôfago, visível em radiografias com contraste.
- Aumento do Arco Médio à Esquerda: O crescimento do AE para a esquerda pode aumentar o arco médio cardíaco.
Ecocardiograma
O ecocardiograma é o exame mais importante para o diagnóstico e avaliação da gravidade da estenose mitral:
- Área Valvar < 1,5 cm²: Considerado um critério de estenose mitral grave.
Tratamento
O tratamento da estenose mitral visa aliviar os sintomas e prevenir complicações:
- Controle da Frequência Cardíaca (FC): Utilização de betabloqueadores para reduzir a FC, uma vez que pacientes com estenose mitral não toleram taquicardia. Isso permite um maior tempo de enchimento diastólico do VE.
- Controle da Congestão: Uso de diuréticos para reduzir a congestão pulmonar e os sintomas associados.
- Prevenção de Recorrência de Febre Reumática: Antibióticos profiláticos são essenciais para prevenir novos episódios de febre reumática, que poderiam agravar a lesão valvar.
💊 Tratamento: O manejo clínico inclui betabloqueadores para controle da FC e diuréticos para congestão. A profilaxia com antibióticos é crucial para prevenir a recorrência da febre reumática.
Intervenção
A intervenção é indicada em casos de estenose mitral grave (área valvar < 1,5 cm²) e presença de sintomas ou disfunção ventricular esquerda (FE reduzida):
- Valvoplastia Mitral por Balão: É o tratamento de escolha para a maioria dos pacientes com estenose mitral, especialmente aqueles com anatomia valvar favorável (avaliada pelo Escore de Wilkins ou Escore de Block < 8).
- Cirurgia (Troca Valvar Mitral): Indicada quando a valvoplastia não é possível ou falha, ou em pacientes com Escore de Block ≥ 8, que indica uma válvula com maior grau de calcificação e deformidade, tornando a valvoplastia menos eficaz e mais arriscada.
💡 Dica: A valvoplastia é a primeira opção de intervenção, mas a cirurgia é considerada para casos com Escore de Block ≥ 8.
Estenose Aórtica
Epidemiologia e Causas
A estenose aórtica é uma condição em que a válvula aórtica se torna estreita, dificultando o fluxo sanguíneo do ventrículo esquerdo para a aorta. As principais causas incluem:
- Doença Degenerativa/Calcífica: A causa mais comum em idosos, devido ao envelhecimento e acúmulo de cálcio nas cúspides da válvula.
- Valva Aórtica Bicúspide: Uma anomalia congênita em que a válvula possui apenas duas cúspides em vez das três normais, predispondo à estenose precoce.
- Febre Reumática: Embora menos comum que na estenose mitral, a febre reumática também pode causar estenose aórtica.
Manifestações Clínicas
A estenose aórtica é caracterizada pela tríade clássica de sintomas, que geralmente surgem em estágios avançados da doença:
- Angina: Dor no peito devido à isquemia miocárdica, pois o coração hipertrofiado demanda mais oxigênio.
- Síncope: Desmaios ou tonturas, especialmente durante o esforço, devido à redução do fluxo sanguíneo cerebral.
- Dispneia: Falta de ar, inicialmente aos esforços e depois em repouso, indicando insuficiência cardíaca.
História Natural e Fisiopatologia
Com a válvula aórtica estenosada, o ventrículo esquerdo (VE) precisa gerar uma pressão muito maior para ejetar o sangue para a aorta. Para vencer essa resistência, o VE desenvolve uma hipertrofia ventricular esquerda (HVE) concêntrica. Esta é uma fase compensada, onde o coração não está dilatado, mas sim mais forte, e o paciente pode permanecer assintomático por muitos anos.
No entanto, quando a doença progride e o coração perde sua capacidade contrátil, ele começa a dilatar. É nesse ponto que surgem os sinais e sintomas de insuficiência cardíaca, manifestados pela tríade clássica (angina, síncope, dispneia), geralmente nessa ordem.
🧠 Conceito: A hipertrofia ventricular esquerda concêntrica é o mecanismo compensatório inicial na estenose aórtica, permitindo que o VE vença a resistência. A dilatação e os sintomas surgem na fase descompensada.
Ausculta Cardíaca e Exame Físico
A ausculta e o exame físico da estenose aórtica revelam achados importantes:
- Sopro Mesossistólico em Diamante: Um sopro ejetivo, crescendo e decrescendo, audível no foco aórtico e que irradia para as carótidas.
- Desdobramento Paradoxal de B2: O fechamento da válvula aórtica (A2) é retardado devido à ejeção prolongada do VE, fazendo com que A2 ocorra após o fechamento da válvula pulmonar (P2), invertendo a ordem normal.
- Pulso Parvus e Tardus: Um pulso de baixa amplitude (parvus) e longa duração (tardus), refletindo a ejeção lenta e reduzida do VE.
- Fenômeno de Gallavardin: Um sopro sistólico audível no foco mitral, mas que na verdade é a irradiação do sopro da estenose aórtica. Ocorre devido à vibração do aparelho aórtico calcificado, que transmite essa vibração para o aparelho valvar mitral.
- Presença de B4: Um quarto som cardíaco, indicando a contração atrial contra um ventrículo esquerdo rígido e hipertrofiado.
🔎 Diagnóstico: O sopro mesossistólico em diamante com irradiação para carótidas e o pulso parvus e tardus são achados clássicos da estenose aórtica.
Exames Complementares
Eletrocardiograma (ECG)
O ECG pode mostrar sinais de hipertrofia ventricular esquerda (HVE):
- Aumento do QRS: Critérios de voltagem para HVE (ex: S em V1/V2 + R em V5/V6 > 35 mm).
- Inversão Assimétrica da Onda T (Strain): Padrão de repolarização anormal em V5 e V6, com onda T negativa e assimétrica, indicando sobrecarga ventricular.
Radiografia de Tórax (RX)
O RX de tórax pode evidenciar:
- Calcificação da Válvula Aórtica: Visível em casos avançados.
- Dilatação Cardíaca: Presente em fases avançadas da doença, quando o VE começa a descompensar.
Ecocardiograma
O ecocardiograma é fundamental para o diagnóstico, avaliação da gravidade e acompanhamento da estenose aórtica:
- Área Valvar < 1,0 cm²: Critério para estenose aórtica grave.
Tratamento
O tratamento da estenose aórtica visa aliviar os sintomas e melhorar o prognóstico:
- Evitar Betabloqueadores: Diferente da estenose mitral, os betabloqueadores são geralmente contraindicados na estenose aórtica grave, pois reduzem a força de contração do VE, o que é prejudicial em um coração que já luta para ejetar sangue. Não há medicação que faça a válvula melhorar, apenas que evite a piora dos sintomas.
⚠️ Atenção: Evitar betabloqueadores na estenose aórtica grave, pois podem comprometer a contratilidade do VE já sobrecarregado.
Intervenção
A intervenção é indicada em casos de estenose aórtica grave (área valvar < 1,0 cm²) e presença de sintomas ou disfunção ventricular esquerda (FE reduzida):
- Cirurgia (Troca Valvar Aórtica): É o tratamento padrão-ouro para a maioria dos pacientes.
- Implante Transcateter de Válvula Aórtica (TAVI): Uma opção menos invasiva, indicada para pacientes com alto risco cirúrgico ou contraindicações para a cirurgia convencional.
💊 Tratamento: A cirurgia é o padrão-ouro, e o TAVI é uma alternativa para pacientes de alto risco.
Insuficiência Mitral
Introdução
A Insuficiência Mitral (IM) é uma valvopatia caracterizada pelo fechamento incompleto da valva mitral durante a sístole ventricular, resultando no refluxo de sangue do ventrículo esquerdo para o átrio esquerdo. Este processo leva a uma sobrecarga de volume no átrio e ventrículo esquerdos, com consequências hemodinâmicas significativas ao longo do tempo.
Principais Causas
- Crônica: Geralmente associada ao prolapso da valva mitral, uma condição em que as cúspides da valva se projetam para o átrio esquerdo durante a sístole.
- Aguda: Pode ser desencadeada por eventos súbitos como endocardite infecciosa, infarto agudo do miocárdio (IAM) com ruptura de músculo papilar, ou febre reumática.
História Natural
A evolução da insuficiência mitral ocorre em duas fases principais: compensada e descompensada. Inicialmente, o coração consegue se adaptar à sobrecarga de volume, mas com o tempo, essa capacidade é superada, levando à disfunção cardíaca.
Durante a sístole, o sangue regurgita do ventrículo esquerdo (VE) para o átrio esquerdo (AE) devido ao fechamento inadequado da valva mitral. Isso causa um aumento do volume sanguíneo no AE, levando à sua dilatação. Na diástole seguinte, o VE recebe o sangue que normalmente viria dos pulmões, somado ao sangue que ele mesmo regurgitou para o AE e que agora retorna. Essa sobrecarga crônica de volume resulta na dilatação do VE.
🧠 Conceito: A sobrecarga de volume no VE leva à hipertrofia excêntrica, onde o ventrículo dilata para acomodar o volume extra de sangue. Em contraste, a sobrecarga de pressão (como na estenose) causa hipertrofia concêntrica, onde o músculo cardíaco se espessa para gerar mais força.
Fase Compensada
Nesta fase, o coração se adapta à sobrecarga de volume através de mecanismos compensatórios:
- Aumento da complacência (elasticidade) do AE e VE.
- Aumento da pré-carga ventricular, conforme o mecanismo de Frank-Starling, que permite um maior volume de ejeção.
- Ocorre hipertrofia ventricular esquerda excêntrica.
- A fração de ejeção (FE) do VE geralmente é elevada (FE > 70%), refletindo a tentativa do coração de ejetar o volume extra.
- O paciente costuma ser assintomático por muitos anos.
Fase Descompensada
A descompensação ocorre quando os mecanismos adaptativos são superados. É importante notar que, na insuficiência mitral, a descompensação pode ocorrer mesmo na ausência de sintomas evidentes:
- A presença de dispneia (falta de ar) e ortopneia (falta de ar ao deitar) são sinais clássicos de congestão pulmonar e indicam descompensação.
- Um critério importante para descompensação, mesmo em pacientes assintomáticos, é a fração de ejeção do VE inferior a 60% (FE < 60%). Isso indica que o ventrículo está começando a falhar em sua função de bomba, apesar de ainda não haver sintomas.
⚠️ Atenção: Na insuficiência mitral, a queda da fração de ejeção abaixo de 60% é um sinal de descompensação, mesmo que o paciente ainda não apresente sintomas. Isso é crucial para a decisão de intervenção cirúrgica.
A evolução para a fase descompensada pode levar a sintomas como rouquidão e disfagia devido ao aumento do átrio esquerdo, que pode comprimir estruturas adjacentes, como o nervo laríngeo recorrente e o esôfago, respectivamente. Fibrilação atrial (FA) também é uma complicação comum devido à dilatação atrial.
Manifestações Clínicas
As manifestações clínicas da insuficiência mitral surgem principalmente na fase descompensada e estão relacionadas à insuficiência cardíaca esquerda e ao aumento do átrio esquerdo:
- Insuficiência Cardíaca Esquerda: Caracterizada por dispneia, ortopneia e fadiga.
- Ictus Desviado: O impulso apical do coração (ictus cordis) pode estar desviado para a esquerda e para baixo devido à dilatação do ventrículo esquerdo.
- Aumento do Átrio Esquerdo: Pode levar a sintomas como rouquidão (compressão do nervo laríngeo recorrente) e disfagia (compressão esofágica), além de predispor à fibrilação atrial.
Ausculta Cardíaca e Exame Físico
- Sopro Holossistólico "em barra": É o achado mais característico. O sopro mantém uma intensidade praticamente constante durante toda a sístole e irradia tipicamente para a axila.
- Presença de B3: A terceira bulha cardíaca (B3) é um sinal de sobrecarga de volume ventricular e disfunção sistólica.
- Ictus VE Desviado: Conforme mencionado, devido à dilatação ventricular.
- Click Mesossistólico: Se a causa da IM for o prolapso da valva mitral, um click mesossistólico pode ser auscultado. Ele ocorre quando o aparato valvar mitral se projeta para dentro do átrio esquerdo durante a sístole.
Exames Complementares
- Eletrocardiograma (ECG): Pode evidenciar hipertrofia ventricular esquerda (HVE) e sobrecarga atrial esquerda.
- Radiografia de Tórax (RX): Revela cardiomegalia (coração aumentado) devido ao crescimento do ventrículo esquerdo e aumento do átrio esquerdo.
- Ecocardiograma: É o exame mais importante para o diagnóstico e avaliação da gravidade. Uma fração regurgitante > 50% é indicativa de insuficiência mitral grave.
Tratamento
- Tratamento da Insuficiência Cardíaca: Medidas farmacológicas para controlar os sintomas de IC, como diuréticos, inibidores da ECA/BRA, betabloqueadores.
- Intervenção (Reparo ou Troca Valvar): Indicada em pacientes com insuficiência mitral grave (fração regurgitante > 50%) que apresentam sintomas ou disfunção ventricular (FE < 60%). O reparo da valva mitral (mitroplastia) é preferível à troca valvar (substituição por prótese), quando possível, devido a melhores resultados a longo prazo. Técnicas como o "MitraClip" são opções para casos selecionados.
Insuficiência Aórtica
Introdução
A Insuficiência Aórtica (IAo), também conhecida como Regurgitação Aórtica, é uma valvopatia caracterizada pelo fechamento inadequado da valva aórtica durante a diástole ventricular. Isso permite o refluxo de sangue da aorta para o ventrículo esquerdo (VE), resultando em sobrecarga de volume no VE e, consequentemente, em disfunção cardíaca progressiva.
Principais Causas
- Febre Reumática: Uma das causas mais comuns em regiões endêmicas, levando a danos crônicos na valva.
- Aterosclerose: Pode afetar a raiz da aorta e as cúspides da valva, comprometendo seu fechamento.
- Síndrome de Marfan: Uma doença genética do tecido conjuntivo que pode causar dilatação da raiz da aorta e insuficiência valvar.
- Dissecção da Aorta: Uma emergência médica que pode levar à insuficiência aórtica aguda devido à separação das camadas da parede da aorta, afetando a sustentação da valva.
- Outras causas incluem endocardite infecciosa, trauma e doenças inflamatórias.
Manifestações Clínicas
As manifestações clínicas da insuficiência aórtica resultam da sobrecarga de volume no ventrículo esquerdo e da redução da perfusão coronariana:
- Insuficiência Ventricular Esquerda: Sintomas como dispneia, ortopneia e fadiga, decorrentes da incapacidade do VE de bombear sangue eficientemente.
- Isquemia Miocárdica: Devido à redução da pressão diastólica, que compromete a perfusão das artérias coronárias. Pode se manifestar como angina, especialmente noturna.
História Natural
A insuficiência aórtica também progride em fases compensada e descompensada, com o ventrículo esquerdo se adaptando inicialmente à sobrecarga de volume.
Com a valva aórtica insuficiente, o sangue reflui da aorta para o ventrículo esquerdo durante a diástole. Isso causa uma sobrecarga de volume no VE, levando à sua dilatação (hipertrofia excêntrica) e, eventualmente, à insuficiência cardíaca. Um ponto crítico é a perfusão das artérias coronárias, que ocorre predominantemente durante a diástole. Se a valva aórtica não se fecha adequadamente, a pressão diastólica na aorta diminui significativamente, o que pode levar à isquemia miocárdica.
Fase Compensada
Nesta fase, o paciente pode ser assintomático ou apresentar sintomas sutis:
- Percepção dos batimentos cardíacos: Devido ao aumento do volume sistólico e da força de contração do VE.
- Percepção de pulsações fortes durante a noite: Relacionado à bradicardia fisiológica noturna, que prolonga a diástole e acentua o refluxo.
Fase Descompensada
A descompensação é marcada pelo surgimento de sintomas mais graves e pela disfunção ventricular:
- Dispneia e Ortopneia: Sinais de insuficiência cardíaca esquerda e congestão pulmonar.
- Fadiga e Tonteira: Devido à redução do débito cardíaco.
- Angina Noturna: A isquemia miocárdica é mais comum durante o sono, quando a bradicardia prolonga a diástole, aumentando o tempo de refluxo e diminuindo ainda mais a pressão diastólica, comprometendo a perfusão coronariana.
🚨 Emergência: A dissecção da aorta pode causar insuficiência aórtica aguda e é uma condição grave que requer intervenção imediata.
Ausculta e Exame Físico
- Sopro Protodiastólico: É o sopro característico da insuficiência aórtica, audível no início da diástole, geralmente no foco aórtico ou aórtico acessório.
- Sopro de Austin-Flint: Um sopro mesodiastólico ou pré-sistólico que pode ser auscultado no ápice. É causado pelo jato regurgitante da valva aórtica que interfere no fluxo de enchimento do VE através da valva mitral, criando uma estenose mitral funcional (sem lesão orgânica da valva mitral e sem hiperfonese de B1).
- Ictus VE Desviado: Devido à dilatação do ventrículo esquerdo.
- B3: Pode estar presente devido à sobrecarga de volume no VE.
- Pressão Arterial Divergente: Caracterizada por hipertensão sistólica e uma redução significativa da pressão arterial diastólica, resultando em uma grande pressão de pulso (diferença entre a PA sistólica e diastólica). Uma diferença maior que 60 mmHg é conhecida como Sinal de Hill.
- Sinais Periféricos de Insuficiência Aórtica ("Tudo pulsa na Insuficiência Aórtica"):
- Pulso de Corrigan (em martelo d'água): Pulso de rápida ascensão e rápida queda, forte e colapsante.
- Sinal de Musset: Pulsação rítmica da cabeça.
- Sinal de Muller: Pulsação da úvula.
- Sinal de Quincke: Pulsação visível nos leitos ungueais (unhas).
- Sinal de Traube (Pistol Shot): Ruído sistodiastólico audível sobre a artéria femoral.
- Pulso Bisferiens: Dois picos sistólicos durante a fase de ascensão rápida do pulso.
- Sinal de Duroziez: Um sopro sistólico e diastólico audível sobre a artéria femoral quando comprimida.
Exames Complementares
- Eletrocardiograma (ECG): Pode mostrar hipertrofia ventricular esquerda (HVE).
- Radiografia de Tórax (RX): Em fases mais avançadas, pode revelar cardiomegalia.
- Ecocardiograma: Essencial para o diagnóstico e avaliação da gravidade. Uma fração regurgitante > 50% indica insuficiência aórtica grave.
Tratamento
- Vasodilatadores: Em pacientes sintomáticos, o uso de vasodilatadores (como bloqueadores do canal de cálcio e inibidores da ECA) pode ser benéfico. Ao dilatar a periferia, eles ajudam a reduzir a resistência ao fluxo sanguíneo para frente, diminuindo o volume regurgitante para o VE.
- Intervenção (Troca Valvar): A troca da valva aórtica é indicada em pacientes com insuficiência aórtica grave (fração regurgitante > 50%) que apresentam sintomas ou disfunção ventricular. Diferente da insuficiência mitral, onde o reparo é frequentemente uma opção, na insuficiência aórtica a troca valvar é a principal abordagem.
| Característica |
Estenose Mitral |
Estenose Aórtica |
| Causas Principais |
Febre Reumática (95%), Doença Degenerativa |
Doença Degenerativa/Calcífica, Valva Bicúspide, Febre Reumática |
| Câmara Afetada Primariamente |
Átrio Esquerdo (AE) |
Ventrículo Esquerdo (VE) |
| Sintomas Clássicos |
Dispneia, FA, Rouquidão, Disfagia |
Angina, Síncope, Dispneia (Tríade Clássica) |
| Ausculta |
Sopro Diastólico (Ruflar), Hiperfonese B1, Estalido de Abertura, Reforço Pré-Sistólico |
Sopro Mesossistólico em Diamante (irradia para carótidas), Desdobramento Paradoxal B2, Pulso Parvus e Tardus, Fenômeno de Gallavardin, B4 |
| ECG |
Onda P > 100ms, Índice de Morris, Onda P bífida |
Sinais de HVE (↑QRS, Inversão Assimétrica Onda T) |
| RX de Tórax |
Sinal da Bailarina, Duplo Contorno, Compressão Esofágica |
Calcificação Valvar, Dilatação Cardíaca (fases avançadas) |
| Ecocardiograma (Grave) |
Área Valvar < 1,5 cm² |
Área Valvar < 1,0 cm² |
| Tratamento Clínico |
Betabloqueadores (controle FC), Diuréticos (congestão), ATB (profilaxia FR) |
Evitar Betabloqueadores |
| Intervenção |
Valvoplastia por Balão (Escore Block < 8), Cirurgia (Escore Block ≥ 8) |
Cirurgia (Troca Valvar Aórtica), TAVI (alto risco) |
| Característica |
Insuficiência Mitral (IM) |
Insuficiência Aórtica (IAo) |
| Valva Afetada |
Mitral |
Aórtica |
| Refluxo Sanguíneo |
VE para AE (sístole) |
Aorta para VE (diástole) |
| Sobrecarga Principal |
Volume (AE e VE) |
Volume (VE) |
| Hipertrofia Ventricular |
Excêntrica (VE) |
Excêntrica (VE) |
| Sopro Característico |
Holossistólico "em barra" (irradia para axila) |
Protodiastólico |
| Outros Sinais Auscultatórios |
B3, Click mesossistólico (se prolapso) |
B3, Sopro de Austin-Flint |
| Sinais Periféricos |
Não específicos |
Pulso de Corrigan, Sinal de Musset, Muller, Quincke, Traube, Pulso Bisferiens, Duroziez |
| Fase Descompensada (FE) |
FE < 60% |
FE < 50% (geralmente) |
| Tratamento Cirúrgico |
Reparo (preferível) ou Troca Valvar |
Troca Valvar |