Diabetes Mellitus
Conceitos Iniciais e Metabolismo
Definição de Diabetes Mellitus
O Diabetes Mellitus (DM) é um distúrbio metabólico complexo, caracterizado principalmente por um hipoinsulinismo, que pode ser absoluto (ausência de insulina) ou relativo (resistência periférica à sua ação). Essa condição leva a um estado de catabolismo, resultando em hiperglicemia e, em alguns casos, na produção de corpos cetônicos.
🧠 Lembre-se: O DM é essencialmente um desequilíbrio na regulação da glicose, onde a insulina, o principal hormônio anabólico, não consegue exercer sua função adequadamente.
Regulação Hormonal do Metabolismo Intermediário
O metabolismo intermediário refere-se ao processamento de carboidratos, proteínas e gorduras no organismo. A regulação da glicemia é um processo dinâmico, influenciado por hormônios com ações opostas:
- Insulina: Hormônio anabólico, secretado em resposta ao aumento da glicemia (pós-prandial). Sua função é captar a glicose circulante para dentro das células (fornecendo energia) e armazenar o excesso de nutrientes na forma de macromoléculas (glicogênio, gordura, proteínas).
- Hormônios Contrainsulínicos (Catabólicos): Incluem glucagon, hormônio do crescimento (GH), cortisol e adrenalina. Atuam em situações de baixa glicemia (jejum), promovendo a quebra das macromoléculas armazenadas para liberar glicose e outros substratos energéticos.
- Incretinas: Hormônios intestinais (como GLP-1 e GIP) que potencializam a secreção de insulina e suprimem a de glucagon após a ingestão de alimentos, auxiliando no controle glicêmico.
Metabolismo Pós-Prandial vs. Jejum
Para otimizar a compreensão, podemos comparar as duas principais fases do metabolismo:
| Característica |
Período Pós-Prandial |
Período de Jejum |
| Glicemia |
↑ Elevada |
↓ Reduzida |
| Insulina |
↑ Elevada |
↓ Reduzida |
| Hormônios Contrainsulínicos |
↓ Reduzidos |
↑ Elevados (Glucagon, GH, Cortisol, Adrenalina) |
| Processo Metabólico Principal |
Anabolismo (armazenamento) |
Catabolismo (quebra para energia) |
| Resultados |
↑ Glicogênio, ↑ Gordura, ↑ Proteína |
↓ Glicogênio (→ Glicose), ↓ Gordura (→ Ácidos Graxos), ↓ Proteína (→ Aminoácidos) |
| Processos Chave |
Glicogênese, Lipogênese, Síntese Proteica |
Glicogenólise, Lipólise, Proteólise, Gliconeogênese |
⚠️ Atenção: A lipólise excessiva, especialmente em estados de deficiência severa de insulina, pode levar à produção de corpos cetônicos, que são ácidos e podem causar cetoacidose metabólica.
Tipos de Diabetes Mellitus
Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1)
O DM1 é uma doença autoimune caracterizada pela destruição das células beta pancreáticas, resultando em hipoinsulinismo absoluto. É uma condição que se manifesta de forma mais abrupta e geralmente em idades mais jovens.
- 🧬 Etiologia: Predisposição genética (associada a HLA DR3-DR4) e fatores autoimunes, com a presença de anticorpos específicos (anti-ICA, anti-GAD, anti-IA2) que atacam as células produtoras de insulina.
- 👤 Perfil Epidemiológico: Geralmente acomete pacientes com menos de 30 anos, com biotipo magro, e o quadro clínico se desenvolve de forma rápida. Embora seja mais comum em jovens, pode ocorrer em qualquer idade (DM1 tardio).
- 🔎 Clínica: Os sintomas são classicamente conhecidos como os "4 Ps":
- Polifagia: A célula não capta glicose e "interpreta" falta de energia, estimulando o apetite.
- Poliúria: A hiperglicemia excede o limiar renal, causando glicosúria e diurese osmótica.
- Polidipsia: A perda de líquidos pela poliúria leva à desidratação e sede intensa.
- Perda Ponderal: Devido ao catabolismo intenso (quebra de gorduras e proteínas) para obtenção de energia, mesmo com a polifagia.
Pode haver também cetoacidose diabética, uma complicação grave decorrente da lipólise exagerada e produção de corpos cetônicos.
- 🧪 Laboratório: O peptídeo C é indetectável ou muito baixo (< 0,1 ng/mL), indicando ausência ou produção mínima de insulina endógena. A dosagem de insulina não é ideal devido à sua meia-vida curta e variações diárias.
Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2)
O DM2 é o tipo mais comum de diabetes, caracterizado por resistência periférica à insulina e uma eventual fadiga secretória das células beta pancreáticas. Inicialmente, o pâncreas compensa a resistência produzindo mais insulina, mas com o tempo, essa capacidade diminui.
- 🧬 Etiologia: Forte componente genético, mas também significativamente influenciado por fatores ambientais, como sedentarismo e obesidade (especialmente a visceral), que aumentam a resistência à insulina.
- 👤 Perfil Epidemiológico: Tende a ocorrer em pacientes com mais de 45 anos, frequentemente obesos, e o desenvolvimento do quadro é lento e progressivo. É comum que esses pacientes apresentem outras comorbidades da síndrome metabólica (dislipidemia, hipertensão).
- 🔎 Clínica: Geralmente assintomático por muitos anos. Os sintomas clássicos de poliúria, polidipsia e polifagia só surgem quando a hiperglicemia atinge níveis muito elevados. Frequentemente, o diagnóstico ocorre após o aparecimento de complicações crônicas (micro ou macrovasculares), que se desenvolvem silenciosamente devido à glicemia cronicamente elevada, mesmo que moderada.
- 🧪 Laboratório: Pode-se utilizar o HOMA-IR (Homeostasis Model Assessment - Insulin Resistance) para avaliar a resistência insulínica e o HOMA-BETA para avaliar a capacidade secretória das células beta, ambos calculados a partir da glicose e insulina de jejum. O peptídeo C pode estar normal ou até elevado nas fases iniciais, refletindo a hiperprodução compensatória de insulina.
💡 Dica para prova: A principal diferença na apresentação inicial entre DM1 e DM2 é a velocidade de instalação dos sintomas e a presença de cetoacidose. DM1 é rápido e com risco de cetoacidose; DM2 é lento e assintomático por anos.
Outros Tipos de Diabetes Mellitus
Além dos tipos 1 e 2, existem outras formas de diabetes, menos comuns, mas importantes para o diagnóstico diferencial:
- Diabetes Mellitus Gestacional (DMG): Diagnosticado durante a gravidez, geralmente no segundo ou terceiro trimestre, em mulheres que não tinham diabetes previamente.
- Tipos Específicos: Causados por alterações genéticas, endocrinopatias (ex: Cushing, acromegalia), uso de certas medicações (ex: corticoides), doenças do pâncreas exócrino (ex: pancreatite crônica, fibrose cística) ou infecções.
LADA (Diabetes Autoimune Latente do Adulto)
Conhecido como "Diabetes Autoimune de Aparecimento Tardio no Adulto", o LADA é uma forma de diabetes autoimune que se assemelha ao DM1, mas com uma evolução mais lenta e tardia, manifestando-se em adultos. É considerado um "DM1 em adultos".
- Diagnóstico: Baseia-se nos critérios de Fourlanos (2006):
- Idade inferior a 50 anos ao diagnóstico.
- Presença de sintomas agudos (poliúria, polidipsia, perda de peso).
- Índice de Massa Corporal (IMC) < 25 kg/m².
- História pessoal ou familiar de outras doenças autoimunes.
A presença de pelo menos duas dessas características justifica a pesquisa de anticorpos anti-glutamato descarboxilase (GADA), que são característicos (positividade em cerca de 90% dos casos).
- Progressão: Embora a princípio possa ser tratado com hipoglicemiantes orais, a destruição progressiva das células beta leva à necessidade de insulinoterapia ao longo do tempo.
MODY (Maturity-Onset Diabetes of the Young)
O MODY, ou "Diabetes de Início da Maturidade que se Apresenta no Jovem", é um tipo raro de diabetes monogênico, causado por uma mutação genética específica que afeta a função das células beta, resultando em diminuição da secreção de insulina.
- 🧬 Etiologia: É uma doença hereditária, com padrão de transmissão autossômico dominante (50% de chance de um filho herdar a mutação). Existem vários subtipos de MODY, cada um associado a uma mutação genética diferente.
- 👤 Perfil Epidemiológico: Pode se manifestar em jovens (geralmente antes dos 25 anos), com peso normal ou obesidade. É frequentemente confundido com DM1 ou DM2.
- 🔎 Suspeita Clínica: Deve-se suspeitar de MODY em casos de:
- Diagnóstico de diabetes em pessoas com idade inferior a 25 anos.
- Diabetes em duas ou mais gerações na mesma família.
- Secreção de insulina mantida por vários anos, apesar de um diagnóstico inicial de DM1.
- 💊 Tratamento: Dependendo do subtipo genético, alguns pacientes com MODY (especialmente MODY 3) respondem muito bem ao tratamento com sulfonilureias, que estimulam a secreção de insulina residual.
🔬 Diferencial: Enquanto LADA é um DM1 de progressão lenta em adultos, MODY é um DM2 de causa genética em jovens, muitas vezes responsivo a sulfonilureias.
Diagnóstico do Diabetes Mellitus
Critérios Diagnósticos para Diabetes
O diagnóstico de Diabetes Mellitus pode ser confirmado pela presença de apenas um dos seguintes critérios, em duas ocasiões distintas (exceto para glicemia aleatória com sintomas):
- Glicemia de Jejum: Valor igual ou superior a 126 mg/dL.
- Glicemia 2 Horas Pós-TOTG (Teste Oral de Tolerância à Glicose com 75g de glicose): Valor igual ou superior a 200 mg/dL.
- Glicemia 1 Hora Pós-TOTG (Teste Oral de Tolerância à Glicose com 75g de glicose): Valor igual ou superior a 209 mg/dL.
- Hemoglobina Glicada (HbA1c): Valor igual ou superior a 6,5%.
- Glicemia Aleatória: Valor igual ou superior a 200 mg/dL, acompanhada de sintomas clássicos de diabetes (poliúria, polidipsia, polifagia e perda de peso inexplicada). Neste caso, um único resultado é suficiente para o diagnóstico.
🧠 Lembre-se: Para o diagnóstico de Diabetes Mellitus, a presença de apenas um desses critérios alterados (confirmado em duas ocasiões, exceto para glicemia aleatória com sintomas) é suficiente. Não é necessário repetir o exame se a glicemia aleatória estiver ≥ 200 mg/dL com sintomas.
💡 Dica High Yield: Atualmente, a glicemia 1 hora pós-TOTG é considerada o exame mais sensível para o diagnóstico de Diabetes Mellitus, sendo particularmente útil em casos de alta suspeita ou quando outros exames são inconclusivos.
Critérios Diagnósticos para Pré-Diabetes
O pré-diabetes é uma condição intermediária, onde os níveis de glicose estão mais altos que o normal, mas ainda não atingem os critérios para diabetes. É um sinal de alerta importante para intervenção e prevenção:
- Glicemia de Jejum: Valores entre 100 e 125 mg/dL.
- Glicemia 2 Horas Pós-TOTG: Valores entre 140 e 199 mg/dL.
- Glicemia 1 Hora Pós-TOTG: Valores entre 155 e 208 mg/dL.
- Hemoglobina Glicada (HbA1c): Valores entre 5,7% e 6,4%.
⚠️ Atenção: Em pacientes com glicemia de jejum entre 100-125 mg/dL, é fundamental realizar o Teste Oral de Tolerância à Glicose (TOTG) para investigar a possibilidade de diabetes, pois a glicemia pós-TOTG pode já estar em níveis diabéticos.
Abordagem Diagnóstica Inicial
A sequência recomendada para a investigação diagnóstica é a seguinte:
- Primeiro passo: Realizar glicemia de jejum e/ou HbA1c.
- Se dois exames alterados: O diagnóstico de diabetes está confirmado.
- Se apenas um exame alterado: Repetir o exame alterado ou realizar o TOTG de 1 hora para maior sensibilidade.
- Se alto risco para DM (mesmo com GJ/HbA1c sem fechar diagnóstico para diabetes): Realizar o TOTG de 1 hora, por ser o teste mais sensível para detectar alterações precoces.
(*) Considera-se alto risco para DM: pré-diabetes diagnosticado, pontuação alta no FINDRISC, ou a presença de três ou mais fatores de risco para DM.
Rastreamento do Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2) - Recomendações da ADA
O rastreamento do DM2 é crucial para a detecção precoce e intervenção, visando prevenir complicações. As diretrizes da American Diabetes Association (ADA) fornecem um guia claro sobre quando e como realizar esse rastreamento.
Como Realizar o Rastreamento?
- O método preferencial é a Glicemia de Jejum, realizada a cada 3 anos.
Quando Iniciar o Rastreamento?
O rastreamento deve ser iniciado em indivíduos que se enquadram em um ou mais dos seguintes critérios:
- Idade: A partir dos 35 anos (recomendação válida tanto para a Sociedade Brasileira de Diabetes - SBD quanto para a ADA).
- Índice de Massa Corporal (IMC) Elevado: Indivíduos com sobrepeso (IMC ≥ 25 kg/m² ou ≥ 23 kg/m² para asiáticos) que apresentem pelo menos um fator de risco adicional:
- História familiar de DM em parentes de primeiro grau.
- Doença cardiovascular pré-existente, hipertensão arterial sistêmica (HAS) ou dislipidemia.
- Síndrome dos ovários policísticos.
- Acantose nigricans.
- Sedentarismo.
- Disglicemia Prévia: História de pré-diabetes ou diabetes gestacional.
- Comorbidades Relacionadas: Pacientes com HIV ou esteatose hepática.
- FINDRISC Alto ou Muito Alto: Pontuação elevada no questionário FINDRISC, que avalia critérios como idade, IMC, circunferência abdominal, atividade física, dieta, histórico de HAS, disglicemia prévia e história familiar de DM.
💊 Metformina na Prevenção do DM2: A Metformina pode ser considerada para prevenção do DM2 em pacientes com pré-diabetes que preencham os seguintes critérios:
- Idade entre 25 e 59 anos.
- IMC superior a 35 kg/m².
- Glicemia de jejum superior a 110 mg/dL ou HbA1c superior a 6%.
- História prévia de diabetes gestacional.
- Presença de síndrome metabólica associada à hipertensão arterial.
Tratamento do Diabetes Mellitus
O tratamento do Diabetes Mellitus visa o controle glicêmico e a prevenção de complicações micro e macrovasculares, através do estabelecimento de metas terapêuticas individualizadas.
Alvos Terapêuticos no Manejo do Diabetes
Os alvos glicêmicos variam conforme as características do paciente, como idade, comorbidades e risco de hipoglicemia.
Hemoglobina Glicada (HbA1c)
| Grupo de Pacientes |
Alvo de HbA1c |
| Geral |
< 7% (principal meta) |
| Jovens, com DM de curta duração e sem comorbidades |
< 6% - 6,5% |
| Idosos saudáveis |
< 7,5% |
| Idosos frágeis, com múltiplas comorbidades |
< 8% |
| Idosos muito comprometidos ou em fase terminal |
Evitar sintomas de hiperglicemia e hipoglicemia (metas menos rigorosas) |
Glicemia Capilar (Automonitorização)
| Momento da Medida |
Alvo Glicêmico |
| Pós-prandial (2 horas após refeição) |
< 180 mg/dL |
| Pré-prandial |
80 - 130 mg/dL |
| Pacientes internados (não críticos) |
100 - 180 mg/dL |
| Pacientes internados (críticos) |
< 180 mg/dL |
Metas Detalhadas para Pacientes em Uso de Insulina
- HbA1c: < 7% (em idosos debilitados, < 8%).
- Glicemia capilar pré-prandial: Entre 80-130 mg/dL.
- Glicemia capilar pós-prandial (2 horas depois): < 180 mg/dL.
- Glicemia capilar antes de deitar: Entre 90 e 150 mg/dL.
Demais Metas (Independentemente do Uso de Insulina)
- Pressão Arterial (PA): < 130 x 80 mmHg. Em caso de proteinúria, inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) ou bloqueadores do receptor de angiotensina (BRA) são as classes preferenciais.
- LDL-colesterol: < 70 mg/dL.
- LDL-colesterol: < 50 mg/dL, se houver doença aterosclerótica clínica estabelecida.
Tratamento do Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1)
O tratamento do DM1 é fundamentalmente baseado na insulinoterapia, uma vez que há uma deficiência absoluta de insulina. O objetivo é mimetizar a secreção fisiológica de insulina para otimizar o controle glicêmico.
Insulinoterapia no DM1
A dose total diária de insulina geralmente varia de 0,5 a 1,0 U/kg/dia, com uma dose inicial recomendada de 0,3 a 0,5 UI/kg/dia.
Bomba de Infusão Contínua de Insulina
Considerada o padrão-ouro, a bomba de infusão contínua administra insulina de forma constante através de um cateter subcutâneo, que o próprio paciente substitui a cada três dias. Este dispositivo utiliza insulina ultrarrápida e pode ser programado para liberar uma dose basal contínua, além de um bolus pré-refeições para cobrir a glicemia pós-prandial, utilizando cálculos de dose semelhantes aos do esquema de múltiplas doses.
Esquema Intensivo de Múltiplas Doses
Este esquema busca replicar a secreção fisiológica de insulina, combinando insulinas de ação prolongada (basal) com insulinas de ação rápida ou ultrarrápida (bolus prandial).
Entendendo a Secreção Fisiológica de Insulina
A secreção de insulina pelo pâncreas ocorre em duas fases:
- Primeira fase (pico precoce): A insulina aumenta seus níveis séricos rapidamente, em cerca de 2 a 10 minutos após o estímulo (refeição).
- Segunda fase (tardia): A insulina é secretada de forma sustentada, como resultado de um aumento na sua síntese e liberação contínua.
Tipos de Insulina
As insulinas são classificadas de acordo com seu perfil de ação (início, pico e duração), o que determina a frequência e o momento de sua aplicação.
Insulinas Rápidas e Ultrarrápidas (Bolus Prandial)
Devem ser aplicadas antes das refeições para cobrir o aumento da glicemia pós-prandial.
| Tipo de Insulina |
Início de Ação |
Duração |
Momento da Aplicação |
| Regular (R) |
30 minutos |
4-6 horas |
30 minutos antes das refeições |
| Aspart, Lispro, Glulisina (Ultrarrápidas) |
5-15 minutos |
2-4 horas |
Na hora de comer ou imediatamente antes |
Insulinas Lentas e Intermediárias (Basal)
Fornecem uma cobertura basal de insulina, mantendo os níveis glicêmicos estáveis entre as refeições e durante a noite.
| Tipo de Insulina |
Início de Ação |
Duração |
Frequência da Aplicação |
| NPH (Intermediária) |
1-4 horas |
+/- 12 horas |
2 vezes ao dia |
| Detemir (Lenta) |
2 horas |
18-24 horas |
1 vez ao dia |
| Glargina (Lenta) |
2 horas |
20-24 horas |
1 vez ao dia |
| Degludeca (Ultralenta) |
< 2 horas |
> 40 horas |
1 vez ao dia |
Novidades em Insulinas
- FIASP (Faster Aspart): Uma insulina ultrarrápida com início de ação ainda mais rápido, em cerca de 2 minutos, otimizando o controle pós-prandial.
- Insulina Inalatória: Embora disponível, ainda é pouco utilizada devido ao custo elevado, menor disponibilidade e posologia que pode ser menos agradável para alguns pacientes. Seu papel ainda está em estudo.
Estratégias de Insulinoterapia
Dois esquemas comuns para DM1:
- Esquema 1: 50% da dose diária total de NPH (dividida em 2-3 aplicações/dia) + 50% de insulina Regular (dividida em 3 aplicações/dia, antes das refeições).
- Esquema 2: 50% da dose diária total de Glargina (1 aplicação/dia) + 50% de insulina Lispro (3 aplicações/dia, antes das refeições). A vantagem deste esquema é a menor incidência de hipoglicemia devido ao perfil de ação mais estável da Glargina.
🧠 Lembre-se: Ao misturar insulinas Regular e NPH na mesma seringa, é crucial aspirar primeiro a insulina Regular e depois a NPH para evitar a contaminação do frasco de insulina Regular com NPH.
Situações Clínicas e de Prova: Ajuste de Insulina
Em provas de residência, é comum encontrar cenários onde se deve identificar qual dose de insulina ajustar com base nos níveis glicêmicos em diferentes momentos do dia:
- Glicemia Pré-Café elevada: Ajustar a dose de NPH aplicada na noite anterior.
- Glicemia Pré-Almoço elevada: Ajustar a dose de insulina Regular aplicada pela manhã.
- Glicemia Pré-Jantar elevada: Ajustar a dose de NPH aplicada pela manhã.
- Glicemia Antes de Dormir elevada: Ajustar a dose de insulina Regular aplicada na noite anterior.
Hiperglicemia Matinal: Fenômeno do Alvorecer vs. Efeito Somogyi
A hiperglicemia matinal é uma armadilha frequente em provas e na prática clínica. Ela pode ser causada por dois fenômenos distintos, que exigem abordagens terapêuticas diferentes:
A glicemia elevada ao acordar é um problema comum, fisiologicamente influenciada pelo pico de hormônios contrarreguladores (como o cortisol) pela manhã. É crucial diferenciar a causa para um manejo adequado.
🔎 Diferenciando as Causas da Hiperglicemia Matinal:
Para distinguir entre o Fenômeno do Alvorecer e o Efeito Somogyi, a medida da glicemia às 3h da manhã é essencial:
- Efeito Somogyi: Glicemia baixa (< 70 mg/dL) às 3h da manhã.
- Fenômeno do Alvorecer: Glicemia normal ou elevada às 3h da manhã.
| Fenômeno |
Glicemia às 22h |
Glicemia às 3h |
Glicemia às 8h |
Mecanismo |
Conduta |
| Fenômeno do Alvorecer |
Normal (ex: 110) |
Normal ou Elevada (ex: 110) |
Elevada (ex: 150) |
Aumento dos hormônios contrarreguladores (cortisol, GH) pela manhã, sem cobertura insulínica adequada. |
Aumentar a dose de NPH da noite (18h) ou aplicar a NPH mais tarde (antes de dormir). |
| Efeito Somogyi |
Normal (ex: 110) |
Baixa (ex: 40) |
Elevada (ex: 200) |
Hipoglicemia na madrugada (pico da NPH noturna sem ingestão alimentar) que desencadeia liberação de hormônios contrarreguladores, causando hiperglicemia de rebote pela manhã. |
Reduzir a dose de NPH da noite, aplicar a NPH mais tarde (antes de dormir) ou incluir um lanche noturno. |
💡 Dica de Prova: Se a questão não fornecer a glicemia das 3h da manhã e pedir uma solução para a hiperglicemia matinal que funcione para ambos os casos, uma estratégia é mudar a aplicação da NPH das 18h para antes de dormir. Isso faz com que o pico da NPH ocorra por volta das 6h da manhã, coincidindo com o pico dos hormônios contrarreguladores, o que pode ajudar a mitigar tanto o alvorecer quanto o Somogyi.
Alternativas em Casos de Refratariedade no DM1
Em situações onde o controle glicêmico é difícil de alcançar com a insulinoterapia convencional, outras opções podem ser consideradas:
- Pramlintida: Um análogo da amilina, um peptídeo secretado pelo pâncreas que atua em conjunto com a insulina, retardando o esvaziamento gástrico, suprimindo a secreção de glucagon pós-prandial e promovendo saciedade.
- Transplante de Pâncreas: Considerado em casos selecionados de DM1 refratário, geralmente em pacientes que também necessitam de transplante renal.
Tratamento do Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2)
Arsenal Terapêutico: Mecanismos de Ação e Classes de Fármacos
1. Fármacos que Reduzem a Resistência à Insulina
Esta classe de medicamentos atua melhorando a sensibilidade dos tecidos à insulina endógena ou exógena, diminuindo a resistência à insulina, um dos pilares da fisiopatologia do DM2.
Biguanidas: Metformina
- Mecanismo de Ação: Atua primariamente no fígado, reduzindo a produção hepática de glicose e, em menor grau, melhorando a sensibilidade à insulina nos tecidos periféricos.
- Efeito no Peso: Estudos mais recentes indicam um efeito neutro sobre o peso corporal, diferentemente de percepções anteriores de leve redução.
- Benefícios Cardiovasculares: Apresenta um benefício cardiovascular discreto, sendo frequentemente a primeira escolha para muitos pacientes.
- Efeitos Colaterais:
- Distúrbios gastrointestinais (náuseas, diarreia, dor abdominal), especialmente no início do tratamento.
- Deficiência de vitamina B12 com uso prolongado, necessitando de monitoramento.
- Risco de acidose lática, embora raro, é uma complicação grave, principalmente em pacientes com disfunção renal ou hepática.
- Contraindicações:
- Insuficiência cardíaca descompensada.
- Insuficiência hepática grave.
- Doença renal crônica com TFG < 30 mL/min/1.73m².
- Ajuste de Dose na DRC: Se a TFG estiver entre 30-44 mL/min/1.73m², a dose deve ser reduzida pela metade, mantendo um mínimo de 1g/dia na dose total.
⚠️ Atenção: A metformina é contraindicada em pacientes com TFG < 30 mL/min devido ao risco de acidose lática. Em casos de TFG entre 30-44 mL/min, é crucial o ajuste da dose e monitoramento rigoroso.
Glitazonas (Tiazolidinedionas): Pioglitazona
- Mecanismo de Ação: Atuam principalmente no músculo e tecido adiposo, aumentando a sensibilidade à insulina através da ativação dos receptores PPAR-gama.
- Efeito no Peso: Geralmente associadas a ganho de peso e retenção hídrica.
- Custo: Apresentam um custo relativamente baixo.
- Efeitos Colaterais:
- Congestão sistêmica e piora da insuficiência cardíaca (IC).
- Aumento do risco de fraturas atípicas, especialmente em mulheres.
- Contraindicações:
- Insuficiência cardíaca (IC) classe funcional III ou IV.
- Osteoporose preexistente.
- Indicação Específica: Podem ser uma opção para pacientes com Doença Renal Crônica (DRC) e TFG < 30 mL/min/1.73m², onde outras classes podem ser limitadas.
🚨 Alerta: Glitazonas são contraindicadas em pacientes com IC classe funcional III ou IV devido ao risco de piora da retenção hídrica e congestão.
2. Fármacos que Aumentam a Secreção de Insulina
Esses medicamentos estimulam diretamente as células beta pancreáticas a liberar mais insulina, independentemente dos níveis de glicose no sangue, o que pode levar a um risco maior de hipoglicemia.
Sulfonilureias: Glibenclamida, Gliclazida, Glimepirida
- Mecanismo de Ação: Estimulam a secreção de insulina pelas células beta pancreáticas, independentemente dos níveis de glicose.
- Efeito no Peso: Frequentemente associadas a ganho de peso.
- Efeitos Colaterais: O principal efeito adverso é a hipoglicemia, devido à sua ação glicemia-independente.
- Contraindicações:
- Doença renal crônica com TFG < 30 mL/min/1.73m².
- Insuficiência hepática grave.
💊 Dica de Tratamento: As sulfonilureias são eficazes na redução da glicemia, mas o risco de hipoglicemia é uma preocupação importante, especialmente em idosos ou pacientes com disfunção renal.
3. Incretinomiméticos: Ação Glicemia-Dependente
Esta classe de fármacos mimetiza ou potencializa a ação das incretinas, hormônios intestinais que são liberados em resposta à ingestão de alimentos e que estimulam a secreção de insulina de forma glicemia-dependente, além de outras ações benéficas.
Inibidores da DPP-IV (Gliptinas): Linagliptina, Sitagliptina
- Mecanismo de Ação: Inibem a enzima Dipeptil Peptidase-IV (DPP-IV), que é responsável pela degradação das incretinas (GLP-1 e GIP). Ao inibir a DPP-IV, aumentam os níveis circulantes de incretinas ativas, potencializando a secreção de insulina de forma glicemia-dependente.
- Risco de Hipoglicemia: Baixo, pois sua ação é dependente dos níveis de glicose.
- Uso na DRC: Podem ser utilizadas em pacientes com Doença Renal Crônica, com a Linagliptina não necessitando de ajuste de dose.
- Efeito no Peso: Neutro em relação ao peso corporal.
- Risco Cardiovascular: Efeito neutro no risco cardiovascular.
- Efeitos Colaterais: Urticária e angioedema são reações raras, mas possíveis.
- Custo: Geralmente apresentam um custo mais elevado.
🧠 Conceito Chave: A ação glicemia-dependente dos inibidores da DPP-IV confere um perfil de segurança favorável em relação à hipoglicemia, tornando-os uma boa opção para pacientes com maior risco.
Análogos de GLP-1 (Agonistas do Receptor de GLP-1): Liraglutida, Semaglutida
- Mecanismo de Ação: São análogos do peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP-1), atuando diretamente nos receptores de incretina. Isso resulta em aumento da secreção de insulina glicemia-dependente, supressão da secreção de glucagon, retardo do esvaziamento gástrico e aumento da saciedade.
- Efeito no Peso: Promovem redução de peso significativa.
- Benefícios Cardiovasculares e Renais: Demonstram claros benefícios cardiovasculares e renais, sendo preferenciais em pacientes com doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida ou doença renal crônica.
- Contraindicações: Doença renal crônica com TFG < 15 mL/min/1.73m².
- Efeitos Colaterais: Principalmente efeitos gastrointestinais (náuseas, vômitos, diarreia), que tendem a diminuir com o tempo.
❤️🩹 Benefício Duplo: Análogos de GLP-1 não só controlam a glicemia e reduzem o peso, mas também oferecem proteção cardiovascular e renal, sendo cruciais para pacientes de alto risco.
Agonistas Duais (GIP/GLP-1): Tirzepatida
- Mecanismo de Ação: Atuam como agonistas tanto dos receptores de GLP-1 quanto dos receptores de GIP (polipeptídeo inibitório gástrico), combinando os efeitos de ambas as incretinas.
- Potência: São considerados os mais potentes na redução da glicemia e na redução de peso entre as terapias injetáveis não insulínicas.
- Benefício Cardiovascular: Embora promissores, ainda carecem de estudos de desfechos cardiovasculares que comprovem benefício robusto, mas dados iniciais são favoráveis.
- Disponibilidade: No momento, ainda não está disponível no Brasil (informação sujeita a atualização).
🚀 Inovação: A Tirzepatida representa uma nova fronteira no tratamento do DM2, com resultados impressionantes na redução de glicemia e peso, combinando os efeitos de duas incretinas.
4. Fármacos que Reduzem a Reabsorção Tubular de Glicose
Esta classe de medicamentos atua nos rins, promovendo a excreção de glicose na urina, independentemente da secreção de insulina.
Inibidores da SGLT2 (Gliflozinas): Dapagliflozina, Empagliflozina
- Mecanismo de Ação: Inibem o cotransportador de sódio-glicose 2 (SGLT2) no túbulo proximal renal, resultando em glicosúria (excreção de glicose na urina) e, consequentemente, redução da glicemia.
- Efeitos Adicionais:
- Redução discreta do peso corporal.
- Redução da pressão arterial (PA).
- Efeitos Colaterais:
- Infecções genitais micóticas (candidíase) e infecções do trato urinário (ITU) devido à glicosúria.
- Poliúria (aumento do volume urinário).
- Risco de cetoacidose diabética euglicêmica (CAD euglicêmica), uma complicação rara, mas grave, onde a glicemia pode não estar elevada.
- Benefícios Cardiovasculares e Renais: Demonstram robustos benefícios cardiovasculares e renais, sendo indicados para pacientes com doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida, insuficiência cardíaca ou doença renal crônica.
- Risco Específico: Alguns estudos indicaram um aumento do risco de amputações de membros inferiores, embora a relevância clínica ainda seja debatida.
- Contraindicações: Doença renal crônica com TFG < 20 mL/min/1.73m².
🔎 Diagnóstico e Tratamento: Inibidores da SGLT2 são pilares no tratamento do DM2, especialmente pela proteção cardiovascular e renal. Contudo, é vital monitorar infecções genitais e estar atento ao risco de CAD euglicêmica.
Organizando a Terapêutica no DM2
A escolha da terapia inicial e a intensificação do tratamento são guiadas pelos níveis de HbA1c e pela presença de comorbidades, especialmente o risco cardiovascular.
Abordagem Terapêutica Inicial Baseada na HbA1c
| Nível de HbA1c |
Estratégia Terapêutica Inicial |
| HbA1c < 7,5% |
Monoterapia (geralmente Metformina, se não houver contraindicação) |
| HbA1c > 7,5% |
Terapia Dupla (Metformina + outro agente) |
| HbA1c > 9% + Sintomas |
Insulinoterapia (regime basal ou basal-bolus) |
Escolha da Droga: Foco no Risco Cardiovascular
A presença de alto risco cardiovascular ou doença cardiovascular estabelecida, insuficiência cardíaca ou doença renal crônica deve guiar a escolha da segunda linha terapêutica, priorizando fármacos com benefícios comprovados nesses cenários.
| Perfil do Paciente |
Fármaco Preferencial (após Metformina) |
| Baixo a Intermediário Risco Cardiovascular |
Metformina (primeira linha) |
| Alto ou Muito Alto Risco Cardiovascular |
Análogo de GLP-1 (AGLP-1) ou Inibidor de SGLT2 (ISGLT2) |
| IMC > 27 kg/m² (sobrepeso/obesidade) |
Análogo de GLP-1 (AGLP-1) ou Agonista Dual (Tirzepatida) |
Critérios para Pacientes de Alto Risco Cardiovascular
Considera-se um paciente de alto risco cardiovascular para DM2 se apresentar um ou mais dos seguintes critérios:
- Idade: Homens com idade superior a 50 anos ou mulheres com idade superior a 56 anos.
- Duração do DM2: Diabetes Mellitus Tipo 2 com duração superior a 10 anos.
- Fatores de Risco: Presença de qualquer fator de risco cardiovascular adicional (ex: hipertensão, dislipidemia, tabagismo).
- Lesão de Órgão-Alvo: Evidência de qualquer lesão de órgão-alvo relacionada ao diabetes (ex: microalbuminúria, retinopatia).
- Biomarcadores: Níveis elevados de BNP (Peptídeo Natriurético Cerebral) ou troponina, indicando disfunção cardíaca.
Reavaliação e Ajuste Terapêutico
- A reavaliação da meta glicêmica e da eficácia do tratamento deve ser realizada a cada 3 meses.
- Se o paciente estiver fora da meta glicêmica após a terapia dupla, deve-se considerar a terapia tripla, por exemplo, com Metformina + AGLP-1 + ISGLT2, ou a introdução de insulina.
💡 Dica de Estudo: A escolha da medicação no DM2 é cada vez mais orientada pelos benefícios cardiovasculares e renais, além do controle glicêmico. Priorize essas classes em pacientes de alto risco!
Indicações Específicas para Insulinoterapia
A insulina é uma ferramenta terapêutica essencial no manejo do DM2 em diversas situações, não apenas quando há falha de outras terapias orais ou injetáveis.
- Gravidez: A insulina é o tratamento de escolha para o diabetes gestacional ou DM2 em gestantes, devido à sua segurança para o feto.
- Situações de Estresse Agudo: Em casos de cirurgia, infecção grave ou internação hospitalar, a insulinoterapia é frequentemente necessária para um controle glicêmico rigoroso.
- Doença Renal ou Hepática Avançada: Quando a função renal ou hepática está gravemente comprometida, muitas medicações orais são contraindicadas ou exigem ajustes complexos, tornando a insulina uma opção mais segura e eficaz.
- Uso de Contraste Iodado: Em pacientes em uso de metformina, a suspensão temporária da medicação e a possível introdução de insulina podem ser necessárias antes e após a administração de contraste iodado para exames de imagem, devido ao risco de acidose lática.
- HbA1c > 9% com Sintomas: Conforme mencionado, pacientes com hiperglicemia muito elevada e sintomas (poliúria, polidipsia, perda de peso) devem iniciar insulina.
Considerações na Transição para Insulina
Ao iniciar a insulinoterapia em pacientes com DM2, algumas adaptações na medicação oral ou injetável concomitante são importantes:
- É geralmente recomendado manter a Metformina, devido aos seus benefícios e perfil de segurança.
- As Sulfonilureias devem ser suspensas para evitar o risco de hipoglicemia grave, uma vez que a insulina já estará atuando na redução da glicemia.
🧠 Lembre-se: A insulina é uma terapia flexível e poderosa, mas sua introdução exige atenção às interações medicamentosas e ao risco de hipoglicemia.
Complicações Agudas do Diabetes Mellitus
Cetoacidose Diabética (CAD)
🧠 Lembre-se: A Cetoacidose Diabética é a complicação aguda mais característica do Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1)!
Fisiopatologia
A Cetoacidose Diabética é desencadeada por um estado de hipoinsulinismo absoluto, que leva a um catabolismo extremo no organismo. A ausência de insulina, combinada com o predomínio de hormônios contrainsulínicos (como glucagon, cortisol, catecolaminas e hormônio do crescimento), resulta em:
- Hiperglicemia Severa: A glicose não consegue entrar nas células, acumulando-se no sangue.
- Lipólise Exagerada: Na falta de glicose como fonte de energia, o corpo passa a quebrar intensamente as gorduras. Esse processo gera uma grande quantidade de ácidos graxos livres, que são convertidos no fígado em corpos cetônicos.
- Formação de Corpos Cetônicos: Os principais corpos cetônicos são o ácido beta-hidroxibutírico, o ácido acetoacético e a acetona.
- Acidose Metabólica com Ânion Gap Elevado: O acúmulo desses corpos cetônicos, que são ácidos, sobrecarrega os sistemas-tampão do organismo, resultando em uma acidose metabólica significativa, caracterizada por um ânion gap aumentado.
Em resumo, a balança metabólica pende drasticamente para o lado catabólico, com glicemia muito elevada e produção massiva de ácidos que acidificam o sangue.
Manifestações Clínicas
O quadro clínico da CAD é agudo e reflete a desidratação severa, a acidose e a hiperglicemia. Os pacientes podem apresentar:
- Poliúria e Polidipsia: Consequência da diurese osmótica pela hiperglicemia.
- Desidratação Intensa: A perda excessiva de líquidos pela urina leva a uma desidratação grave, que pode afetar até mesmo o peritônio.
- Dor Abdominal: Pode ser muito intensa devido à desidratação peritoneal, simulando um abdome agudo cirúrgico.
- Hálito Cetônico: Característico odor adocicado ou de "frutas podres" devido à presença de acetona.
- Ritmo de Kussmaul: Respiração profunda e rápida, um mecanismo compensatório do organismo para tentar eliminar o excesso de CO2 e reduzir a acidose.
- Alteração do Nível de Consciência: Pode variar de letargia a coma, dependendo da gravidade da acidose e da desidratação.
- Leucocitose: Aumento da contagem de leucócitos, que ocorre devido ao recrutamento de neutrófilos para o interior dos vasos em resposta ao estresse metabólico.
- Aumento de Creatinina: Indicativo de insuficiência renal pré-renal devido à desidratação.
- Elevação de Amilase e Triglicerídeos: O pâncreas "sofrido" pode liberar amilase, e a lipólise intensa eleva os triglicerídeos, o que pode confundir com pancreatite.
🔎 Diagnóstico Diferencial: A dor abdominal intensa na CAD pode simular um abdome agudo cirúrgico, exigindo atenção para evitar intervenções desnecessárias.
Critérios Diagnósticos
O diagnóstico da Cetoacidose Diabética é estabelecido pela presença dos seguintes critérios laboratoriais:
- Glicemia: Superior a 200-250 mg/dL.
- Cetonemia/Cetonúria: Presença de corpos cetônicos no sangue ou urina (geralmente 3+/4+).
- pH Arterial: Inferior a 7,3.
- Bicarbonato (HCO3): Inferior a 15-18 mEq/L.
💡 Lembre-se: O próprio nome da doença já aponta para os critérios: Diabetes (glicose elevada) + Cetoacidose (cetonemia/cetonúria e acidose metabólica).
Fatores Desencadeantes
Diversos fatores podem precipitar um episódio de CAD, sendo os mais comuns:
- Infecções: São a causa mais frequente, pois o estresse infeccioso aumenta a liberação de hormônios contrainsulínicos.
- Má Adesão ao Tratamento: Interrupção ou doses insuficientes de insulinoterapia.
- Outros Fatores:
- Estresse agudo (infarto agudo do miocárdio, acidente vascular encefálico, trauma).
- Doses baixas de insulina.
- Uso de certos medicamentos (corticoides, inibidores de protease, tiazídicos, betabloqueadores, simpaticomiméticos, antipsicóticos atípicos).
- Abuso de bebidas alcoólicas.
- Gestação.
Conduta (Tratamento)
O tratamento da Cetoacidose Diabética é uma emergência e baseia-se em um tripé fundamental para a sobrevivência do paciente, conhecido como VIP: Volume, Insulina e Potássio. A mortalidade da CAD não tratada é de 100%, mas com o manejo correto, pode ser reduzida para cerca de 5%.
💊 Tratamento: O tripé essencial para o manejo da CAD é Volume, Insulina e Potássio (VIP). A mortalidade é de 100% se não tratada corretamente.
1. Volume
A reposição volêmica é a primeira e mais importante etapa do tratamento, visando corrigir a desidratação severa e melhorar a perfusão tecidual.
- Início: Administrar 1 a 1,5 litros de Solução Fisiológica 0,9% (NaCl 0,9%) na primeira hora (equivalente a 15-20 ml/kg).
- Avaliação do Sódio: Após a primeira hora e a cada 2-4 horas, o sódio sérico deve ser reavaliado:
- Se o sódio estiver normal ou aumentado (> 135 mEq/L): Mudar para Solução Salina a 0,45% (hipotônica) em infusão de 250-500 ml/hora.
- Se o sódio estiver diminuído (< 135 mEq/L): Manter Solução Fisiológica 0,9% em infusão de 250-500 ml/hora.
A hiperglicemia causa uma hiponatremia dilucional, pois a glicose "rouba" água do intracelular para o extracelular, diluindo o sódio. Por isso, a correção do sódio é crucial após a hidratação inicial.
🚨 Dica: O volume é a prioridade inicial! Reponha vigorosamente para combater a desidratação severa e restaurar a perfusão.
2. Insulina
A insulina é essencial para interromper a cetogênese e permitir a utilização da glicose pelas células. Deve ser administrada por via intravenosa.
- Dose Inicial (Bolus): Insulina regular 0,1 U/kg em bolus intravenoso.
- Infusão Contínua: Seguir com 0,1 U/kg/hora de insulina regular em infusão contínua.
- Alternativa: Se optar por não fazer o bolus inicial, pode-se iniciar com 0,14 U/kg/hora em infusão contínua.
- Objetivo de Redução da Glicemia: A glicemia deve ser reduzida de forma gradual, entre 50-75 mg/dL por hora. Reduções mais rápidas podem levar a complicações graves.
- Quando a Glicemia Atingir 200-250 mg/dL: Iniciar a infusão de Solução Glicosada 5% (SG 5%) juntamente com a solução salina. A insulina não deve ser interrompida neste momento, mas sua taxa de infusão pode ser ajustada para manter a glicemia no alvo e evitar hipoglicemia, enquanto se continua a suprimir a cetogênese. A solução infundida pode ser dividida (metade SF, metade SG).
A redução muito rápida da glicemia pode causar edema cerebral (pela entrada súbita de água nas células neuronais) e hipocalemia grave (pelo rápido deslocamento do potássio para o intracelular mediado pela insulina).
⚠️ Atenção: A redução rápida da glicemia (>75 mg/dL/h) pode levar a edema cerebral e hipocalemia grave. Mantenha a taxa de queda controlada!
3. Potássio
A reposição de potássio é crítica, pois a insulina desloca o potássio para o intracelular, e a acidose, embora inicialmente possa causar hipercalemia, leva a uma depleção global de potássio.
- Potássio entre 3,3 e 5,2 mEq/L: Repor 20-30 mEq de potássio (geralmente KCl) por litro de soro infundido. É fundamental que o paciente esteja urinando para iniciar a reposição.
- Potássio > 5,2 mEq/L: Adiar a reposição de potássio, mas monitorar de perto, pois ele tenderá a cair com a insulinoterapia.
- Potássio < 3,3 mEq/L: Adiar o início da insulina e iniciar a reposição de potássio imediatamente. A administração de insulina com hipocalemia grave pode ser fatal devido a arritmias cardíacas.
Mesmo que o potássio sérico esteja normal ou discretamente elevado no início, a reserva corporal total de potássio está frequentemente depletada devido ao deslocamento para o plasma (pela hiperosmolaridade e acidose) e à perda urinária aumentada pela aldosterona. A insulina irá rapidamente mover o potássio de volta para o intracelular, expondo a hipocalemia real.
⚠️ Atenção: NUNCA inicie insulina antes de checar o potássio! A insulina move o potássio para o intracelular, podendo causar hipocalemia fatal.
Sódio Corrigido
É importante lembrar de calcular o sódio corrigido em pacientes com hiperglicemia, pois a glicose elevada dilui o sódio sérico. A fórmula de correção é:
- Para cada aumento de 100 mg/dL na glicemia acima de 100 mg/dL, o sódio sérico corrigido aumenta em 1,6 mEq/L.
Exemplos:
- Glicemia de 200 mg/dL: Sódio corrigido = Sódio medido + 1,6 mEq/L.
- Glicemia de 300 mg/dL: Sódio corrigido = Sódio medido + 3,2 mEq/L.
Bicarbonato
A reposição de bicarbonato não é rotineiramente indicada na CAD, pois a correção da desidratação e a administração de insulina geralmente resolvem a acidose metabólica. No entanto, pode ser considerada em situações específicas:
- Repor 100 mEq de bicarbonato se o pH arterial for inferior a 6,9. Em outras acidoses metabólicas, o limite para reposição pode ser pH < 7,1-7,2, mas na CAD, a prioridade é o tratamento do VIP.
Critérios de Compensação e Desligamento da Bomba de Insulina
O paciente é considerado compensado e a infusão de insulina intravenosa pode ser descontinuada quando os seguintes critérios são atingidos:
- Glicemia de jejum (GJ) < 200 mg/dL.
- pH arterial > 7,3.
- Bicarbonato (HCO3) > 15-18 mEq/L.
- Ânion gap (AG) < 12.
- Ausência de corpos cetônicos significativos.
Se a glicemia atingir 200-250 mg/dL, mas os outros critérios de compensação ainda não foram alcançados, deve-se adicionar SG 5% à infusão (metade SF, metade SG) e/ou reduzir a velocidade de infusão da insulina para evitar hipoglicemia, enquanto se continua a tratar a cetoacidose.
Após a compensação, o próximo passo é iniciar a dieta e a insulina subcutânea (SC) 1-2 horas antes de desligar a bomba de insulina intravenosa, garantindo uma transição suave e evitando a recorrência da cetoacidose.
Complicações
Apesar do tratamento adequado, a CAD pode levar a diversas complicações:
- Hipoglicemia: Pode ocorrer se a dose de insulina for excessiva ou a glicemia for reduzida muito rapidamente.
- Edema Cerebral: Mais comum em crianças, pode ser causado por uma reposição volêmica muito rápida ou uma queda abrupta da glicemia, levando à entrada excessiva de água nos neurônios.
- Hipocalemia Grave: Resulta da administração de insulina sem reposição adequada de potássio, podendo causar arritmias cardíacas fatais.
- Trombose Venosa Profunda (TVP): O estado de desidratação e hiperosmolaridade aumenta a viscosidade sanguínea, elevando o risco de eventos trombóticos.
- Mucormicose ou Zigomicose:
- É uma micose destrutiva rinocerebral rara, mas extremamente grave, causada por fungos dos gêneros Rhizopus sp ou Mucor sp.
- Acomete principalmente pacientes imunocomprometidos ou com cetoacidose diabética.
- Manifesta-se com dor facial, secreção nasal enegrecida e fétida, podendo progredir rapidamente para a destruição de seios da face, órbita e cérebro.
- O tratamento envolve Anfotericina B e desbridamento cirúrgico agressivo.
🚨 Emergência: A Mucormicose é uma infecção fúngica agressiva e destrutiva, comum em pacientes com CAD. Suspeite em caso de dor facial e secreção nasal enegrecida.
Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar (EHH)
🧠 Lembre-se: O Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar é mais característico do Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2), especialmente em idosos com comorbidades.
Fisiopatologia
O Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar (EHH), anteriormente conhecido como Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar Não Cetótico (EHHNC), é caracterizado por hiperglicemia extrema e hiperosmolaridade plasmática severa, sem a presença de cetoacidose significativa. Diferente da CAD, no EHH há um hipoinsulinismo relativo:
- Existe insulina suficiente para inibir a lipólise e a cetogênese, mas não para controlar a glicemia.
- A hiperglicemia leva a uma diurese osmótica intensa, resultando em grande perda de água livre e eletrólitos.
- A desidratação progressiva e a incapacidade de repor líquidos (muitas vezes em pacientes idosos com alteração do centro da sede ou limitações físicas) culminam em hiperosmolaridade plasmática severa.
- A hiperosmolaridade causa desidratação celular, especialmente neuronal, levando a alterações neurológicas.
O EHH é tipicamente observado em pacientes idosos, acamados ou com limitações que desenvolvem uma comorbidade aguda (como infarto agudo do miocárdio, acidente vascular encefálico, pneumonia ou infecção urinária), o que agrava a hiperglicemia e a desidratação. Proporcionalmente, o EHH apresenta uma mortalidade mais elevada que a CAD, devido ao perfil de pacientes mais fragilizados.
Critérios Diagnósticos
O diagnóstico do Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar é baseado nos seguintes achados laboratoriais:
- Glicemia: Geralmente superior a 600 mg/dL.
- Osmolaridade Plasmática Efetiva: Superior a 320 mOsm/kg.
- pH Arterial: Geralmente superior a 7,3.
- Bicarbonato (HCO3): Geralmente superior a 18 mEq/L (ausência de acidose metabólica significativa).
- Cetonemia/Cetonúria: Ausente ou em níveis mínimos.
Tratamento
O tratamento do EHH é muito semelhante ao da Cetoacidose Diabética, focando no tripé VIP (Volume, Insulina e Potássio). No entanto, algumas particularidades devem ser observadas:
- Volume: A reposição volêmica é a prioridade absoluta. Devido à desidratação mais severa e à tendência à hipernatremia, muitas vezes se inicia com Solução Salina a 0,45% (hipotônica) após a hidratação inicial com SF 0,9%, especialmente se o sódio corrigido estiver elevado.
- Insulina: As doses e a forma de administração são as mesmas da CAD (bolus de 0,1 U/kg seguido de infusão contínua de 0,1 U/kg/hora de insulina regular IV). O objetivo de redução da glicemia também é de 50-75 mg/dL/hora.
- Potássio: A reposição segue as mesmas diretrizes da CAD, com monitoramento rigoroso e início da reposição se K estiver entre 3,3 e 5,2 mEq/L, e adiamento da insulina se K < 3,3 mEq/L.
- Sódio: No EHH, a tendência é para a hipernatremia devido à perda de água livre pela diurese osmótica, o que torna a escolha da solução de reposição volêmica ainda mais crítica.
- Melhor Parâmetro de Cura: O principal indicador de resolução do EHH é a osmolaridade sérica inferior a 310 mOsm/kg.
✅ Critério de Cura: O principal indicador de resolução do EHH é a osmolaridade sérica inferior a 310 mOsm/kg.
Comparativo - CAD vs EHH
| Característica |
Cetoacidose Diabética (CAD) |
Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar (EHH) |
| Tipo de DM Predominante |
DM1 |
DM2 |
| Insulina |
Hipoinsulinismo absoluto |
Hipoinsulinismo relativo (suficiente para inibir cetogênese) |
| Glicemia |
> 200-250 mg/dL |
> 600 mg/dL (geralmente muito mais alta) |
| Cetonemia/Cetonúria |
Presente e significativa (3+/4+) |
Ausente ou mínima |
| pH Arterial |
< 7,3 |
> 7,3 |
| Bicarbonato (HCO3) |
< 15-18 mEq/L |
> 18 mEq/L |
| Ânion Gap |
Elevado (> 12) |
Normal ou discretamente elevado |
| Osmolaridade Plasmática |
Variável, geralmente < 320 mOsm/kg |
> 320 mOsm/kg (geralmente muito mais alta) |
| Perfil do Paciente |
Jovens, DM1 recém-diagnosticado ou má adesão |
Idosos, DM2, comorbidades agudas, limitações |
| Principal Risco |
Acidose metabólica, edema cerebral (crianças) |
Desidratação severa, hiperosmolaridade, alterações neurológicas |
Hipoglicemia
A hipoglicemia é uma das complicações agudas mais frequentes e potencialmente graves do Diabetes Mellitus, especialmente em pacientes que utilizam insulina ou certos secretagogos de insulina. É definida por níveis de glicose plasmática abaixo do normal, acompanhados de sintomas.
Conceitos Iniciais
- ⚠️ Relação Direta: O uso de insulina é um fator de risco primário para o desenvolvimento de hipoglicemia.
- 🧠 Paradoxo do Controle: Curiosamente, quanto mais rigoroso o controle glicêmico (com metas de HbA1c mais baixas), maior o risco de episódios hipoglicêmicos.
💡 Dica: A hipoglicemia é uma emergência médica que exige reconhecimento e tratamento rápidos para evitar danos neurológicos.
Fisiopatologia
O organismo possui mecanismos complexos para manter a glicemia em níveis adequados. Em situações de queda da glicose, esses mecanismos são ativados:
- Glicogenólise: Inicialmente, o fígado libera glicose a partir da quebra do glicogênio armazenado.
- Gliconeogênese: Quando as reservas de glicogênio hepático se esgotam, o corpo inicia a produção de glicose a partir de precursores não glicídicos, como:
- Aminoácidos (via proteólise)
- Glicerol (derivado da lipólise)
Para que a hipoglicemia se instale e persista, algumas condições são essenciais:
- Supressão da Insulina Endógena: A incapacidade de reduzir a secreção de insulina endógena (como em pacientes com DM2 em fases iniciais ou uso de secretagogos) ou a presença de insulina exógena (em DM1 ou DM2 insulinizados) impede a elevação da glicemia.
- Aumento de Hormônios Contrainsulínicos: A resposta hormonal compensatória envolve o aumento de glucagon, epinefrina, cortisol e hormônio do crescimento, que promovem glicogenólise, gliconeogênese e resistência periférica à insulina.
🧠 Resumo da Resposta Fisiológica à Queda da Glicemia:
- Glicemia < 70 mg/dL (Grau 1): Há um aumento do glucagon e uma redução da insulina endógena, iniciando a glicogenólise e gliconeogênese.
- Glicemia < 54 mg/dL (Grau 2): Ocorre a liberação de epinefrina, levando ao surgimento de sintomas autonômicos.
- Glicemia < 50 mg/dL (Grau 3): Instalam-se os sintomas neuroglicopênicos, indicando comprometimento cerebral.
Diagnóstico
O diagnóstico de hipoglicemia é classicamente estabelecido pela Tríade de Whipple:
- 🔎 Glicemia Reduzida: Confirmação laboratorial de níveis baixos de glicose.
- Sintomas Compatíveis: Presença de manifestações clínicas típicas de hipoglicemia.
- Reversão do Quadro: Melhora dos sintomas após a administração de glicose.
Níveis de Hipoglicemia
A classificação da hipoglicemia é importante para guiar a conduta e o entendimento da gravidade:
- Grau 1 (Alerta de Hipoglicemia): Glicemia plasmática entre 54 e 70 mg/dL.
- Grau 2 (Hipoglicemia Clinicamente Significativa): Glicemia plasmática < 54 mg/dL. Geralmente associada ao surgimento de sintomas autonômicos (tremores, sudorese, taquicardia, fome).
- Grau 3 (Hipoglicemia Grave): Caracterizada por alteração do estado mental e/ou físico que requer assistência de outra pessoa para o tratamento, independentemente do valor da glicemia.
Situações de Risco para Hipoglicemia
Algumas condições aumentam significativamente a suscetibilidade à hipoglicemia:
- Neuropatia Diabética Autonômica: A disfunção do sistema nervoso autônomo pode comprometer a resposta contrarregulatória à hipoglicemia. A redução da liberação de epinefrina diminui a glicogenólise e gliconeogênese, além de mascarar os sinais de alerta autonômicos (como taquicardia e sudorese), tornando a hipoglicemia mais perigosa.
- Insuficiência Adrenal (Doença de Addison): A principal causa é a adrenalite autoimune. A deficiência de cortisol prejudica a glicogenólise e a gliconeogênese, levando à instabilidade glicêmica e maior risco de hipoglicemia.
🧬 Atenção DM1: Pacientes com Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1) têm maior propensão à insuficiência adrenal autoimune e à deficiência de glucagon, pois a doença autoimune pode atingir tanto as células beta quanto as alfa-pancreáticas, comprometendo a produção de glucagon.
- Outros Fatores de Risco:
- Ingestão Alcoólica: O álcool inibe a gliconeogênese hepática, aumentando o risco de hipoglicemia, especialmente em jejum.
- Doença Renal Crônica (DRC): A DRC pode prolongar a meia-vida da insulina e reduzir a depuração de medicamentos hipoglicemiantes, além de diminuir a gliconeogênese renal.
Tratamento da Hipoglicemia
💊 Prevenção é Fundamental: A melhor abordagem para a hipoglicemia é a prevenção. Isso inclui:
- Análogos de Insulina: Utilização de análogos de insulina (lenta/ultralenta como glargina, degludeca, detemir; e ultrarrápidas como aspart, lispro) que mimetizam de forma mais fisiológica a secreção de insulina, reduzindo a variabilidade glicêmica.
- Educação do Paciente: Orientar o paciente a reconhecer os sintomas precoces de hipoglicemia e a agir prontamente.
Conduta na Hipoglicemia Estabelecida:
- Paciente Acordado e Consciente:
- Ingerir 15-20 gramas de carboidratos de ação rápida (ex: 1 copo de suco de laranja, 3-4 balas, 1 colher de sopa de açúcar).
- Reavaliar a glicemia após 15 minutos. Se ainda estiver baixa, repetir a ingestão de carboidratos.
- Paciente Grave ou Desacordado (Hipoglicemia Grau 3):
- Sem Acesso Venoso: Administrar 0,5-1,0 mg de glucagon por via subcutânea (SC) ou intramuscular (IM).
- Com Acesso Venoso: Administrar 20-25 gramas de glicose hipertônica (ex: 4 ampolas de Glicose a 50%) por via intravenosa (IV).
🚨 Detalhe Importante: Em pacientes etilistas crônicos ou desnutridos, é crucial repor tiamina (vitamina B1) antes da administração de glicose intravenosa para prevenir a encefalopatia de Wernicke.
Complicações Crônicas
As complicações crônicas do Diabetes Mellitus são classificadas em macrovasculares e microvasculares, cada uma com características distintas e impacto significativo na morbimortalidade dos pacientes.
Complicações Macrovasculares vs. Microvasculares
| Característica |
Complicações Macrovasculares |
Complicações Microvasculares |
| Exemplos |
Doença Coronariana (DAC), Acidente Vascular Encefálico (AVE), Doença Arterial Periférica (DAP) – todas relacionadas à aterosclerose. |
Retinopatia Diabética, Nefropatia Diabética, Neuropatia Diabética. |
| Impacto Principal |
Principal causa de morte em pacientes diabéticos (Infarto Agudo do Miocárdio, AVC). |
Principalmente debilitam o paciente, levando a cegueira, insuficiência renal e amputações. |
| Fatores de Risco |
Multifatorial: Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS), Dislipidemia, tabagismo, obesidade. A hiperglicemia tem menor relação direta. |
Forte e direta relação com a hiperglicemia crônica e o mau controle glicêmico. |
| Rastreamento |
Investigar e rastrear principalmente em pacientes sintomáticos ou com múltiplos fatores de risco. |
Rastreamento anual sistemático para todos os pacientes diabéticos. |
Rastreamento Anual das Complicações Crônicas
O rastreamento precoce é crucial para a detecção e manejo das complicações crônicas:
- DM1: Iniciar o rastreamento 5 anos após o diagnóstico da doença.
- DM2: Iniciar o rastreamento no momento do diagnóstico, devido à natureza insidiosa da doença e à frequência de diagnóstico tardio.
Retinopatia Diabética
A retinopatia diabética (RD) é uma microangiopatia que afeta os vasos sanguíneos da retina, sendo uma das principais causas de perda visual em pacientes com diabetes.
Epidemiologia
- 👁️ Impacto Social: É a principal causa de cegueira em adultos em idade produtiva (economicamente ativos) em muitos países desenvolvidos.
Fatores de Risco
Diversos fatores contribuem para o desenvolvimento e progressão da retinopatia diabética:
- Duração do Diabetes: Quanto maior o tempo de doença, maior o risco.
- Controle Glicêmico: Mau controle glicêmico, alta variabilidade glicêmica e episódios frequentes de hipoglicemia.
- Melhora Rápida da Glicemia: Em pacientes cronicamente mal controlados, uma redução muito abrupta da glicemia pode, paradoxalmente, levar a uma piora transitória da retinopatia.
- Doença Renal do Diabetes: A presença de nefropatia diabética está associada a um maior risco de RD.
- Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) e Dislipidemia: Fatores de risco cardiovasculares que aceleram a progressão da RD.
- Condições Fisiológicas Específicas: Gestação e puberdade.
- Outros: Anemia e transtornos alimentares.
Classificação da Retinopatia Diabética
A classificação da RD é crucial para determinar a gravidade e guiar o tratamento:
| Tipo |
Estágio |
Características Principais |
| Não Proliferativa (RDNP) |
Leve |
Presença de microaneurismas. |
| Moderada |
Microaneurismas mais outras alterações (hemorragias, exsudatos duros, edema macular), mas sem critérios de RDNP grave. |
| Grave |
Presença de qualquer uma das seguintes características:
- Hemorragias em 4 quadrantes.
- Dilatações venosas (veias em rosário) em pelo menos 2 quadrantes.
- Anormalidades microvasculares intrarretinianas (AMIR) em pelo menos 1 quadrante.
|
| Muito Grave |
Presença de 2 ou mais das características da RDNP grave. |
| Proliferativa (RDP) |
Único Estágio |
Caracterizada pela presença de neovascularização (formação de novos vasos sanguíneos anormais na retina ou disco óptico), que são frágeis e podem sangrar, levando a hemorragia vítrea e descolamento de retina. |
🧠 Conceito Chave: A principal diferença entre a retinopatia não proliferativa e a proliferativa é a presença de neovascularização na forma proliferativa, que indica um estágio mais avançado e de maior risco para perda visual grave.
Rastreamento da Retinopatia Diabética
O rastreamento regular é essencial para a detecção precoce e manejo da RD:
- Quando Rastrear:
- DM1: Anualmente, a partir de 5 anos após o diagnóstico, ou a partir dos 11 anos de idade (o que ocorrer primeiro).
- DM2: Anualmente, a partir do momento do diagnóstico.
- Gestantes com DM Prévio: Devido ao risco aumentado de progressão da doença durante a gestação, o rastreamento deve ser realizado pré-concepção, a cada trimestre da gravidez e no primeiro ano pós-parto.
- Como Rastrear:
- Exame Oftalmológico Completo: Inclui fundoscopia com pupilas dilatadas.
- Exames de Imagem da Retina: Retinografia ou mapeamento de retina e biomicroscopia de fundo são recomendados pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) para uma avaliação detalhada.
Tratamento da Retinopatia Diabética
O tratamento da RD visa preservar a visão e prevenir a progressão da doença:
- Controle Sistêmico: Para todos os pacientes, o controle rigoroso da glicemia, da pressão arterial e da dislipidemia é a base do tratamento e prevenção da progressão.
- 💊 Anti-VEGF (ex: Ranibizumabe, Aflibercepte): Indicado para retinopatia diabética proliferativa com atividade ou edema macular diabético que causa redução da acuidade visual. Atua inibindo o fator de crescimento endotelial vascular, reduzindo a neovascularização e o extravasamento.
- 💊 Injeção Intravítrea de Esteroides: Opção para edema macular diabético com redução da acuidade visual, especialmente em casos refratários ou quando anti-VEGF é contraindicado.
- 💡 Panfotocoagulação a Laser (PFC): Tratamento ablativo que destrói áreas isquêmicas da retina. Indicado para retinopatia diabética não proliferativa grave ou muito grave, e para retinopatia diabética proliferativa.
- 💡 Fotocoagulação Focal a Laser: Utilizada para tratar o edema macular diabético focal, especialmente quando as terapias farmacológicas (anti-VEGF, esteroides) não estão disponíveis ou são contraindicadas.
- 🚨 Vitrectomia: Procedimento cirúrgico para casos selecionados de complicações graves, como hemorragia vítrea não resolvida, descolamento de retina tracional ou membrana epirretiniana.
🧠 High Yield Notes: Achados da Retinopatia Diabética
- Retinopatia Diabética Não Proliferativa (RDNP):
- Microaneurismas: Pequenas dilatações saculares dos capilares retinianos, o sinal mais precoce.
- Exsudatos Duros: Depósitos lipídicos amarelados, bem delimitados.
- Hemorragias em Chama de Vela: Hemorragias superficiais na camada de fibras nervosas.
- Exsudatos Algodonosos: Lesões esbranquiçadas, que representam infartos na camada de fibras nervosas.
- Veias em Rosário: Dilatações e constrições alternadas das veias retinianas.
- Anormalidades Microvasculares Intrarretinianas (AMIR): Shunts arteriovenosos dentro da retina.
- Retinopatia Diabética Proliferativa (RDP):
- Neovascularização: Crescimento de novos vasos sanguíneos anormais na superfície da retina ou no disco óptico, que são frágeis e podem causar sangramentos e descolamento de retina.
- Edema Macular Diabético (EMD): Acúmulo de fluido na mácula, a área central da retina responsável pela visão de detalhes, podendo ocorrer em qualquer estágio da RD.
Nefropatia Diabética
A nefropatia diabética é uma das complicações microvasculares mais graves do Diabetes Mellitus (DM), caracterizada por alterações estruturais e funcionais nos rins que podem levar à doença renal crônica (DRC) e à insuficiência renal terminal.
Epidemiologia
A nefropatia diabética representa um desafio significativo na saúde pública global, com implicações importantes para a morbidade e mortalidade dos pacientes diabéticos.
- É a principal causa de Doença Renal Crônica (DRC) dialítica em todo o mundo.
- Sua presença é um forte indicador de risco cardiovascular elevado, o que sublinha a importância de uma abordagem terapêutica abrangente.
🧠 Lembre-se: Embora o risco de desenvolver nefropatia diabética seja semelhante entre o DM1 e o DM2, a condição é mais frequentemente observada em pacientes com DM2 devido à sua maior prevalência na população geral.
Fisiopatologia: As Fases da Nefropatia Diabética
A progressão da nefropatia diabética é um processo complexo que envolve a interação de fatores hemodinâmicos, metabólicos e genéticos. A doença evolui por fases distintas, cada uma com características patológicas e clínicas específicas.
Fase I: Hiperfiltração (Pré-Nefropatia)
Esta fase inicial é caracterizada por alterações estruturais e funcionais que precedem o dano renal evidente:
- Hipertrofia glomerular e espessamento da membrana basal glomerular, resultando em expansão mesangial.
- A hiperfiltração glomerular leva à ativação do Sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona (SRAA), contribuindo para a progressão do dano renal.
Fase II: Nefropatia Diabética Incipiente
Nesta fase, a desorganização da estrutura glomerular torna-se mais pronunciada, culminando no surgimento da albuminúria.
- A albuminúria (excreção de albumina na urina) é o marcador característico do início da nefropatia diabética.
- A quantificação da albuminúria é crucial para o diagnóstico e estadiamento, podendo ser realizada por coleta de urina de 24 horas ou pela relação albumina/creatinina em amostra de urina isolada (spot urinário).
| Nível de Albuminúria |
Urina de 24h (mg/dia) |
Spot Urinário (mg/g) |
Classificação |
| Normal |
Até 30 |
Até 30 |
Ausência de albuminúria |
| Moderadamente Aumentada |
30 - 300 |
30 - 300 |
Microalbuminúria (Fase II - Nefropatia Incipiente) |
| Severamente Aumentada |
> 300 |
> 300 |
Macroalbuminúria (Fase III - Doença Renal Diabética Declarada) |
Fase III: Doença Renal Diabética Declarada
Esta fase é marcada pela macroalbuminúria e indica um dano renal mais avançado e, geralmente, irreversível.
- Caracteriza-se pela macroalbuminúria (> 300 mg/dia ou mg/g).
- Neste estágio, a doença renal é considerada irreversível, e o objetivo do tratamento é retardar sua progressão.
- Manifestações clínicas decorrentes da nefropatia começam a surgir, como:
- Hipertensão Arterial
- Edema periférico
- Retinopatia diabética (frequentemente coexistente)
- Síndrome Nefrótica (embora a albumina sérica possa estar mais próxima da normalidade em alguns casos).
Fase IV: Insuficiência Renal e Azotemia
A fase final da nefropatia diabética culmina na insuficiência renal, com acúmulo de produtos nitrogenados no sangue.
- Ocorre isquemia intersticial, levando à arteriosclerose hialina.
- É importante notar que a arteriosclerose hialina pode, em casos raros, preceder danos glomerulares significativos e albuminúria.
💡 Diferença Crucial: Doença Renal do Diabetes vs. Nefropatia Diabética
É fundamental distinguir esses termos para o diagnóstico e manejo corretos:
- Doença Renal do Diabetes (DRD) é um termo mais abrangente que engloba qualquer tipo de lesão renal em pacientes com diabetes.
- Nefropatia Diabética obrigatoriamente envolve a presença de albuminúria.
Portanto, se um paciente diabético apresenta redução da Taxa de Filtração Glomerular (TFG) mas não tem albuminúria, não podemos classificá-lo como tendo nefropatia diabética, mas sim como Doença Renal do Diabetes.
Fatores de Risco para Nefropatia Diabética
Diversos fatores contribuem para o desenvolvimento e progressão da nefropatia diabética, sendo essencial identificá-los para uma intervenção precoce.
- História familiar positiva para nefropatia diabética.
- Etnia (maior risco em negros, hispânicos e índios Pima).
- Níveis elevados de hemoglobina glicada (HbA1c) e controle glicêmico inadequado.
- Duração do diabetes (quanto maior o tempo de doença, maior o risco).
- Hipertensão arterial sistêmica.
- Dislipidemia.
- Tabagismo.
- Retinopatia diabética (frequentemente coexiste e indica maior risco de outras complicações microvasculares).
Diagnóstico e Rastreamento da Nefropatia Diabética
O diagnóstico precoce e o rastreamento regular são fundamentais para identificar a nefropatia diabética em seus estágios iniciais e implementar medidas que possam retardar sua progressão.
Quando Rastrear?
- Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1): Anualmente, após 5 anos do diagnóstico, a partir dos 11 anos de idade.
- Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2): Anualmente, desde o momento do diagnóstico.
⚠️ Atenção: Um resultado positivo no rastreamento deve ser confirmado em 3 a 6 meses para evitar diagnósticos errôneos devido a fatores transitórios (exercício intenso, infecção, febre, etc.).
Como Rastrear?
A avaliação da albuminúria é o pilar do rastreamento da nefropatia diabética.
- Padrão-Ouro: Quantificação da albuminúria na urina de 24 horas.
- Método de Escolha para Rastreamento: Relação albumina/creatinina (RAC) em amostra de urina isolada (spot urinário). Este método é mais prático e conveniente.
| Classificação da Albuminúria |
Urina de 24h (mg/dia) |
Spot Urinário (mg/g) |
| Normal |
Até 30 mg/dia |
Até 30 mg/g |
| Moderadamente Aumentada (Microalbuminúria) |
30 - 300 mg/dia |
30 - 300 mg/g |
| Severamente Aumentada (Macroalbuminúria) |
> 300 mg/dia |
> 300 mg/g |
⚠️ Importante: O
sedimento urinário não é adequado para rastreamento da nefropatia diabética!
Ele só se torna positivo em casos avançados, quando a excreção de albumina é > 300 mg/dia ou a proteína total > 500 mg/dia. Portanto, não serve para detecção precoce.
Quando Biopsiar?
A biópsia renal não é rotineiramente indicada para o diagnóstico de nefropatia diabética, sendo reservada para situações de dúvida diagnóstica ou quando há suspeita de outra doença renal coexistente.
🔎 Indicação de Biópsia Renal: Considerar biópsia se houver:
- Proteinúria com < 5 anos do diagnóstico de DM1.
- Sedimento urinário ativo (cilindros hemáticos e/ou leucocitários, acantócitos, hemácias dismórficas).
- Ausência de retinopatia diabética (sugere outra causa para a doença renal).
- Redução da TFG > 30% após o início de IECA/BRA.
- Proteinúria ou redução da TFG abrupta e de rápida evolução.
Patologia da Nefropatia Diabética
As alterações patológicas nos rins de pacientes com diabetes são características e refletem o dano microvascular.
- Expansão Mesangial e Glomeruloesclerose:
- Glomeruloesclerose Difusa: É a forma mais comum de lesão.
- Glomeruloesclerose Nodular: Mais específica da nefropatia diabética, caracterizada pelos nódulos de Kimmelstiel-Wilson.
- Isquemia Intersticial e Arteriosclerose Hialina:
- Ocorre endurecimento e espessamento das arteríolas renais devido ao depósito de material hialino, contribuindo para a isquemia e fibrose intersticial.
Tratamento da Nefropatia Diabética
O tratamento da nefropatia diabética é multifacetado, visando o controle glicêmico, da pressão arterial, da dislipidemia e a proteção renal específica, a fim de retardar a progressão da doença e prevenir complicações cardiovasculares.
1. Controle Glicêmico Intensivo
Manter um controle rigoroso da glicemia é crucial para prevenir e retardar a progressão da nefropatia.
- Alvo de Hemoglobina Glicada (HbA1c): Geralmente < 7% (idealmente entre 6,5% e 7%).
⚠️ Cuidado na DRC Avançada: Em pacientes com Doença Renal Crônica avançada (TFG < 60 mL/min), o controle glicêmico muito intensivo pode ter menos benefício e aumentar o risco de hipoglicemia. Nesses casos, um alvo mais permissivo (entre 7% e 7,9%) pode ser mais apropriado, considerando os riscos e comorbidades associadas.
2. Medidas Gerais de Estilo de Vida
Adoção de hábitos saudáveis é fundamental para o manejo global do paciente diabético com nefropatia.
- Perda ponderal: Em pacientes com sobrepeso ou obesidade.
- Cessação do tabagismo: O tabaco é um fator de risco independente para a progressão da doença renal.
- Atividade física regular: Conforme tolerância e condições clínicas do paciente.
3. Inibidores da Enzima Conversora de Angiotensina (IECA) / Bloqueadores do Receptor de Angiotensina (BRA)
Essas classes de medicamentos são a pedra angular da proteção renal em pacientes diabéticos.
💊 Indicação Universal: IECA ou BRA são indicados para TODOS os pacientes com albuminúria, independentemente dos níveis pressóricos, devido ao seu efeito nefroprotetor.
- Associação IECA + BRA: Não é recomendada devido ao aumento do risco de hipercalemia e piora da função renal sem benefício adicional.
⚠️ Atenção: Utilizar com cautela em pacientes com TFG baixa e monitorar eletrólitos (especialmente potássio) e função renal.
4. Controle da Pressão Arterial
O controle rigoroso da hipertensão arterial é essencial para retardar a progressão da nefropatia.
- Alvo de Pressão Arterial (PA): < 130 x 80 mmHg.
- Primeira Escolha: IECA ou BRA, que oferecem proteção renal adicional (prevenção primária da albuminúria).
5. Controle da Dislipidemia
A dislipidemia é um fator de risco cardiovascular e renal que deve ser gerenciado ativamente.
- Estatina: Recomendada para TODOS os pacientes diabéticos entre 40 e 75 anos (estatina de média intensidade).
- Alto Risco Cardiovascular: Considerar estatina de alta intensidade.
- Em caso de TFG reduzida: Optar preferencialmente por atorvastatina ou fluvastatina, que possuem menor excreção renal.
6. Restrição de Nutrientes
Ajustes dietéticos podem ser benéficos em estágios específicos da doença.
- Restrição proteica: (até 0,8 g/kg/dia) é indicada somente para pacientes não-dialíticos que apresentam albuminúria e TFG reduzida.
- Restrição de sódio: Essencial para pacientes com hipertensão arterial.
7. Antagonistas da Aldosterona
Novas opções terapêuticas têm surgido para proteção renal.
- Finerenona: É um antagonista seletivo e não esteroide do receptor mineralocorticoide.
- Indicação: Para pacientes com DM2 e albuminúria, se a TFG for > 25 mL/min e houver normocalemia.
- Uso: Em associação com IECA/BRA para proteção renal adicional.
- Outros antagonistas da aldosterona: Podem ser considerados, mas não há evidências robustas de benefícios adicionais em desfechos renais primários.
8. Inibidores do SGLT2 (iSGLT2)
Os iSGLT2 demonstraram um papel crucial na proteção renal e cardiovascular em pacientes diabéticos.
- Indicação: Utilizar em casos de TFG entre 30-60 mL/min ou albuminúria > 200 mg/g para reduzir a progressão para doença renal terminal, independentemente do controle da hemoglobina glicada.
- Limites de TFG:
- Não iniciar se TFG < 20 mL/min.
- Em TFG entre 20-30 mL/min, ainda são recomendados, exceto empaglifozina e dapaglifozina, que têm limites inferiores de 20 e 25 mL/min/1,73m², respectivamente.
- Se a TFG estiver abaixo de 20 mL/min, os iSGLT2 não devem ser iniciados, mas podem ser mantidos se já em uso e bem tolerados.
9. Agonistas do Receptor de GLP-1 (aGLP-1)
Embora primariamente estudados para desfechos cardiovasculares, os aGLP-1 também mostram benefícios renais.
- Evidências: A maioria dos estudos foi desenhada para avaliar segurança cardiovascular, não tendo desfecho renal primário. Portanto, não há evidências suficientes para recomendar seu uso obrigatório exclusivamente para proteção renal.
- Recomendação SBD: A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) sugere que seu uso seja considerado em pacientes com DM2 e Doença Renal Crônica com TFG > 30 mL/min, visando a redução da albuminúria.
Neuropatia Diabética
A neuropatia diabética representa uma das complicações crônicas mais prevalentes e debilitantes do Diabetes Mellitus (DM), caracterizada por danos aos nervos periféricos e/ou autonômicos.
Classificação das Neuropatias Diabéticas
As neuropatias diabéticas podem ser categorizadas em dois grandes grupos, com base na sua distribuição e padrão de acometimento:
Neuropatias Difusas
Caracterizam-se por um envolvimento mais generalizado e simétrico dos nervos.
- Polineuropatia Sensitivo-Motora: É a forma mais comum, afetando fibras nervosas finas, grossas ou, mais frequentemente, uma combinação de ambas (fibras mistas).
- Polineuropatia Autonômica: Compromete o sistema nervoso autônomo, com manifestações em diversos sistemas orgânicos, como cardiovascular, geniturinário, metabólico, sudomotor e gastrointestinal.
- Polineuropatia Atípica: Inclui condições menos comuns, como a caquexia diabética (perda de peso acentuada associada à neuropatia) e neuropatias induzidas pelo tratamento (geralmente por controle glicêmico muito rápido).
⚠️ Atenção: A neuropatia autonômica cardiovascular é uma das formas mais graves, associada a maior risco de mortalidade.
Neuropatias Focais
Envolvem nervos específicos ou grupos de nervos de forma localizada.
- Radiculoneuropatias: Afetam as raízes nervosas, podendo ser torácicas, lombares ou manifestar-se como amiotrofia diabética (dor e fraqueza muscular, geralmente assimétrica e proximal).
- Mononeuropatias: Acometem um único nervo ou múltiplos nervos de forma isolada (mononeuropatia multiplex). Exemplos comuns incluem:
- Túnel do Carpo: Mais frequente nos membros superiores.
- Túnel do Tarso: Afeta o nervo tibial no tornozelo.
- Neuropatia Fibular: Conhecida como "pé caído", mais comum nos membros inferiores.
- Meralgia Parestésica: Compressão do nervo cutâneo femoral lateral.
- Neuropatias Oculares: Atingem nervos cranianos, causando paralisias oculares.
Manifestações Clínicas da Polineuropatia Simétrica e Distal
A polineuropatia simétrica e distal, classicamente descrita como padrão de "luvas e botas", é a forma mais prevalente de neuropatia diabética. Caracteriza-se pelo acometimento de nervos longos, com início dos sintomas nas extremidades distais e progressão simétrica.
Acometimento de Fibras Nervosas
A neuropatia diabética afeta diferentes tipos de fibras nervosas, com implicações clínicas distintas:
- Fibras Finas:
- Responsáveis pela sensibilidade dolorosa e térmica, além da função sudomotora.
- Geralmente são as primeiras a serem acometidas.
- Incluem as fibras A-delta (pouco mielinizadas, dor mecânica) e C (amielínicas, dor térmica, sudorese).
- Fibras Grossas:
- Envolvidas na percepção de vibração, pressão e na motricidade.
- Seu acometimento tende a ser mais tardio.
- Compreendem as fibras A-alfa e A-beta, que são mielinizadas.
Sintomas e Complicações
A perda da sensibilidade, especialmente a "sensibilidade protetora", é uma característica marcante. Os pacientes podem apresentar:
- Parestesias: Sensações anormais como formigamento ou dormência.
- Disestesias: Sensações desagradáveis ou dolorosas em resposta a estímulos normais.
- Alodínia: Dor provocada por estímulos que normalmente não seriam dolorosos.
- Hiperalgesia: Resposta exagerada a estímulos dolorosos.
É comum que os sintomas predominem durante o repouso e se intensifiquem à noite, impactando significativamente a qualidade de vida. Uma das complicações mais temidas é o pé diabético, que pode levar a úlceras, infecções e, em casos graves, à amputação, sendo a principal causa de amputação não traumática.
🚨 Alerta: A perda da sensibilidade protetora é um fator crítico para o desenvolvimento do pé diabético, exigindo vigilância constante e cuidados preventivos.
Rastreamento da Neuropatia Diabética
O rastreamento precoce é crucial para identificar a neuropatia diabética e implementar intervenções que possam retardar sua progressão e prevenir complicações.
Como Realizar o Rastreamento
A avaliação deve incluir a investigação de ambos os tipos de fibras nervosas:
- Avaliação de Fibras Finas:
- Teste de sensibilidade térmica (com objetos quentes/frios).
- Teste de sensibilidade dolorosa (com monofilamento de 10g ou ponta de agulha).
- Avaliação da função sudomotora (ex: Neuropad).
- Avaliação de Fibras Grossas:
- Teste de sensibilidade vibratória (com diapasão de 128Hz ou biotesiômetro).
- Teste de sensibilidade à pressão (com monofilamento de 10g).
- Avaliação dos reflexos tendinosos (ex: reflexo aquileu).
O Teste Neuropad
O Neuropad é um adesivo que auxilia na detecção precoce de disfunção sudomotora, um indicador de neuropatia de fibras finas.
- Funcionamento: O adesivo mede a produção natural de suor. A alteração na sudorese é um dos primeiros sinais de lesão nervosa diabética.
- Aplicação: Deve ser colado na sola de ambos os pés, próximo aos três dedos do meio.
- Resultado Negativo (Normal): A fita muda da cor azul para rosa em até dez minutos, indicando função sudomotora preservada. O exame deve ser repetido anualmente.
- Resultado Positivo (Anormal): A superfície do adesivo não altera a cor, sugerindo comprometimento da função sudomotora e, consequentemente, neuropatia em curso. Nesses casos, é fundamental buscar avaliação especializada.
🧪 Dica de Exame: O monofilamento de 10g é uma ferramenta simples e eficaz para rastrear a perda da sensibilidade protetora, essencial na prevenção do pé diabético.
Quando Rastrear
A frequência do rastreamento varia conforme o tipo de diabetes:
- Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1): Anualmente, a partir do quinto ano após o diagnóstico.
- Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2): Anualmente, desde o momento do diagnóstico, devido à frequência de apresentação assintomática e diagnóstico tardio.
🧠 Conceito Chave: O rastreamento anual é vital para todos os pacientes diabéticos, mas o momento de início difere entre DM1 e DM2.
Diagnóstico da Neuropatia Diabética
O diagnóstico da neuropatia diabética é clínico, baseado na história do paciente e no exame físico. Ferramentas como o Escore de Comprometimento Neuropático (ECN/NDS) auxiliam na quantificação da gravidade.
Escore de Comprometimento Neuropático (ECN/NDS)
Este escore avalia a presença e a intensidade do comprometimento neurológico, somando pontos para cada alteração encontrada bilateralmente.
| Teste |
Direita |
Esquerda |
| Sensibilidade Vibratória (128Hz) |
Preservada: 0 / Alterada: 1 |
Preservada: 0 / Alterada: 1 |
| Sensibilidade Térmica |
Preservada: 0 / Alterada: 1 |
Preservada: 0 / Alterada: 1 |
| Dor Superficial |
Preservada: 0 / Alterada: 1 |
Preservada: 0 / Alterada: 1 |
| Reflexo Aquileu |
Preservada: 0 / Alterada: 1 |
Preservada: 0 / Alterada: 1 |
🔎 Interpretação do ECN/NDS:
- 0-2 pontos: Neuropatia Ausente
- 3-5 pontos: Neuropatia Leve
- 6-8 pontos: Neuropatia Moderada
- 9-10 pontos: Neuropatia Severa
Diagnósticos Diferenciais
É fundamental excluir outras causas de neuropatia, pois muitas condições podem mimetizar a neuropatia diabética. A investigação deve incluir:
- Doenças Metabólicas: Doença renal crônica (DRC), hepatopatias, distúrbios da tireoide.
- Doenças Sistêmicas: Amiloidose, vasculites, Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES), Artrite Reumatoide (AR).
- Distúrbios Nutricionais: Deficiência de vitamina B12, tiamina (B1), piridoxina (B6).
- Doenças Infecciosas: HIV, hepatites B e C.
- Doenças Neoplásicas: Mieloma múltiplo e suas variantes.
- Medicamentos/Drogas: Uso crônico de álcool, amiodarona, quimioterápicos (ex: vincristina, cisplatina).
Tratamento da Neuropatia Diabética
O tratamento da neuropatia diabética envolve uma abordagem multifacetada, focada no controle da doença de base e no alívio sintomático.
Controle Glicêmico e Fatores de Risco
A pedra angular do tratamento é a otimização do controle glicêmico, que pode retardar a progressão da neuropatia. Além disso, é essencial o manejo rigoroso de outros fatores de risco cardiovascular:
- Controle de peso.
- Controle dos níveis lipídicos.
- Controle da pressão arterial.
Controle da Dor Neuropática
O manejo da dor é crucial para melhorar a qualidade de vida do paciente. As opções terapêuticas são escalonadas:
- 1ª Linha: Antidepressivos tricíclicos (ex: amitriptilina), inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (duais, ex: duloxetina, venlafaxina) e gabapentina.
- 2ª Linha: Pregabalina e a associação de um dual com um anticonvulsivante.
- 3ª Linha: Terapias adjuvantes para casos refratários, como estimulação da medula espinhal (eletrodos no espaço peridural), acupuntura e terapia tópica (ex: adesivos de lidocaína).
💊 Tratamento da Dor: Os fármacos de primeira linha para dor neuropática incluem tricíclicos, duais (duloxetina) e gabapentina.
Tratamento Restaurador (Fisiopatológico)
Embora o controle glicêmico seja o principal "tratamento restaurador", algumas abordagens visam a recuperação funcional ou a redução do estresse oxidativo:
- Fisioterapia: Possui eficácia comprovada na melhoria da função e redução da dor, sendo uma intervenção fundamental.
- Ácido Alfa-Lipoico: Um antioxidante que pode reduzir o estresse oxidativo e, teoricamente, restaurar a funcionalidade neural. No entanto, seu nível de evidência ainda é baixo.
- Suplementação de Vitaminas: Vitaminas B12 e D podem ser indicadas se houver deficiência comprovada, mas não são tratamentos universais para a neuropatia.
💪 Reabilitação: A fisioterapia é a intervenção com maior eficácia comprovada para a recuperação funcional na neuropatia diabética.
Outras Manifestações e Tratamentos Específicos
Além da polineuropatia periférica, a neuropatia diabética pode se manifestar de outras formas que requerem abordagens terapêuticas específicas.
Gastroparesia Diabética
A gastroparesia é uma complicação da neuropatia autonômica que afeta a motilidade gástrica, causando esvaziamento gástrico retardado. Seus sintomas incluem náuseas, vômitos, saciedade precoce e distensão abdominal.
O tratamento pode incluir modificações dietéticas e o uso de procinéticos, como a eritromicina (em baixas doses, devido ao seu efeito agonista nos receptores de motilina) ou metoclopramida.
Disautonomia Diabética
A disautonomia diabética é o comprometimento do sistema nervoso autônomo, com diversas apresentações clínicas:
- Cardiovascular: Manifesta-se como hipotensão postural, taquicardia de repouso e intolerância ao exercício. O tratamento para hipotensão postural pode envolver medidas não farmacológicas e, em alguns casos, fludrocortisona.
- Gastrointestinal: Além da gastroparesia, pode causar dispepsia, diarreia (especialmente noturna) ou constipação. A bromoprida pode ser utilizada para sintomas gastrointestinais.
- Geniturinária: Inclui disfunção erétil em homens e incontinência urinária ou bexiga neurogênica em ambos os sexos. Para disfunção erétil, inibidores da fosfodiesterase-5, como o sildenafil, são opções.
- Sudomotora Periférica: Pode levar à anidrose (ausência de suor) em algumas áreas e hiperidrose compensatória em outras, contribuindo para a pele seca e rachaduras, aumentando o risco de infecções.
💊 Tratamento Específico: A abordagem da disautonomia é sintomática e direcionada ao sistema afetado (ex: fludrocortisona para hipotensão postural, sildenafil para disfunção erétil).
Pé Diabético
O pé diabético é uma das complicações crônicas mais sérias e debilitantes do Diabetes Mellitus, caracterizada por infecção, ulceração e/ou destruição de tecidos moles, frequentemente associadas a alterações neurológicas e diferentes graus de doença arterial periférica (DAP) nos membros inferiores.
Definição e Fisiopatologia
A patogênese do pé diabético é multifatorial, envolvendo principalmente a neuropatia diabética e a doença arterial periférica, que interagem para criar um ambiente propício a lesões e infecções.
Neuropatia Diabética
A neuropatia diabética é a complicação mais comum do diabetes, afetando as fibras nervosas e levando a diversas disfunções. A forma mais prevalente é a polineuropatia simétrica distal.
- Fibras finas: Responsáveis pela sensibilidade térmica e dolorosa. Seu comprometimento leva à perda da percepção de calor, frio e dor, tornando o pé vulnerável a traumas.
- Fibras grossas: Envolvidas na propriocepção, sensibilidade vibratória e reflexos profundos. A disfunção dessas fibras resulta em alterações da marcha e deformidades.
🧠 Lembre-se: O acometimento das fibras nervosas pela neuropatia diabética resulta em insensibilidade protetora e deformidades estruturais, criando áreas de pressão anormais no pé.
Disfunção Autonômica
A neuropatia autonômica contribui para o ressecamento da pele do pé devido à anidrose (redução ou ausência de suor). A pele ressecada é mais propensa a fissuras, que servem como porta de entrada para infecções.
Doença Arterial Periférica (DAP)
A DAP é outra complicação crônica do diabetes que afeta os vasos sanguíneos dos membros inferiores, comprometendo o fluxo sanguíneo. A isquemia resultante pode deflagrar ou complicar úlceras, dificultando a cicatrização e aumentando o risco de necrose e amputação.
⚠️ Atenção: A combinação de neuropatia (insensibilidade) e DAP (isquemia) é um fator de risco extremamente elevado para o desenvolvimento de úlceras e complicações graves no pé diabético.
Pé de Charcot
O pé de Charcot, ou artropatia de Charcot, é uma complicação grave e progressiva do pé diabético, caracterizada por osteólise, fraturas e deformidades ósseas. Ele surge da tríade: insensibilidade (neuropatia), áreas de pressão anormais e um processo inflamatório desregulado, levando à destruição articular e óssea.
🔎 Diagnóstico: O pé de Charcot é uma emergência ortopédica no paciente diabético, exigindo reconhecimento precoce para evitar deformidades permanentes e amputações.
Avaliação do Pé Diabético
A avaliação regular e sistemática do pé diabético é fundamental para a identificação precoce de fatores de risco e lesões, permitindo intervenções preventivas e terapêuticas oportunas.
Em Quem e Quando Avaliar?
- Anualmente: Todos os pacientes com Diabetes Mellitus devem ter seus pés avaliados anualmente.
- Toda consulta: Pacientes com alterações sensitivas ou outros fatores de risco devem ser avaliados em todas as consultas.
Primeiro Passo: Anamnese Detalhada
A anamnese deve focar na pesquisa de fatores de risco que aumentam a probabilidade de ulceração e amputação:
- História prévia: Amputação prévia, úlcera anterior em membro inferior.
- Complicações diabéticas: Neuropatia periférica, deformidades nos pés, doença vascular periférica, distúrbios visuais, doença renal crônica (DRC).
- Controle glicêmico: Controle glicêmico inadequado.
- Hábitos: Tabagismo.
Segundo Passo: Exame Físico Completo
Inspeção
Observar atentamente os pés para identificar:
- Alterações dermatológicas: Ressecamento, fissuras, calosidades, bolhas, micoses, sinais de infecção (eritema, calor, edema).
- Deformidades: Dedos em garra ou martelo, hálux valgo, proeminências ósseas, pé de Charcot.
Avaliação Neurológica: Perda de Sensibilidade Protetora (PSP)
A pesquisa da PSP é o pilar da avaliação neurológica e um forte preditor de risco de ulceração. A incapacidade de sentir uma pressão de 10 gramas indica PSP.
🧪 Exame: O monofilamento de 10 gramas (estesiômetro) é o método padrão-ouro para rastrear a perda de sensibilidade protetora.
Além do monofilamento, outros testes devem ser realizados para uma avaliação completa:
- Teste com diapasão 128Hz: Avalia a sensibilidade vibratória.
- Martelo para pesquisa do reflexo Aquileu: Avalia os reflexos profundos.
- Pino (neurotip) ou palito (pinprick sensation): Avalia a sensibilidade dolorosa.
Situações Especiais na Avaliação
Presença de Úlcera
Quando uma úlcera está presente, a avaliação deve ser direcionada para identificar sinais de infecção e aprofundar a investigação:
- Pesquisar ativamente sinais de infecção local (eritema, calor, edema, dor, secreção purulenta) e sistêmicos (febre, calafrios, leucocitose).
- Considerar solicitar marcadores inflamatórios como Proteína C Reativa (PCR) e Velocidade de Hemossedimentação (VHS).
- Se houver suspeita de osteomielite (infecção óssea), a manobra "probe to bone" (sonda até o osso) é altamente sugestiva. Nesses casos, PCR/VHS e exames de imagem (radiografia, ressonância magnética) são obrigatórios.
🚨 Emergência: A osteomielite é uma complicação grave que exige tratamento agressivo, muitas vezes cirúrgico e com antibioticoterapia prolongada.
Presença ou Suspeita de Doença Arterial Periférica (DAP)
A avaliação vascular é crucial para determinar a perfusão do membro e guiar o tratamento.
Índice Tornozelo-Braquial (ITB)
O ITB é um método não invasivo para rastrear e diagnosticar a DAP.
- Em quem? Pacientes com sinais/sintomas de vasculopatia (claudicação, dor em repouso, pulsos diminuídos) e, segundo alguns autores, todos os pacientes diabéticos com mais de 50 anos.
- Como? Utiliza-se um Doppler para medir a pressão arterial sistólica (PAs) no tornozelo (artérias tibial posterior e dorsal do pé) e no braço (artéria braquial). O ITB é a razão entre a maior PAs do tornozelo e a maior PAs das artérias braquiais.
- Interpretação:
- ITB > 0,9: Normal.
- ITB < 0,9: Sugere claudicação intermitente.
- ITB < 0,4: Indica isquemia crítica de repouso e risco elevado de necrose.
🩸 Atenção: Em pacientes diabéticos, a esclerose da camada média das artérias pode levar a vasos não compressíveis, resultando em ITB falsamente elevados (>1,3). Nesses casos, outros exames como o índice dedo-braquial ou ultrassom Doppler são mais confiáveis.
Terceiro Passo: Estratificação do Risco e Plano de Seguimento
Com base nos achados da anamnese e exame físico, o paciente é estratificado e um plano de seguimento é definido.
| Risco |
Achados |
Rastreio |
Conduta |
| 0 (Muito Baixo) |
Sem PSP e sem DAP |
1x/ano |
Exame anual, cuidados básicos |
| 1 (Baixo) |
PSP ou DAP |
6-6m ou 1-1a |
Exame regular, órteses (se necessário) |
| 2 (Moderado) |
PSP e DAP, ou PSP e deformidade |
3-3m ou 6-6m |
Exame frequente, órteses/calçados terapêuticos |
| 3 (Alto) |
História de úlcera ou amputação |
3-3m ou 1-1m |
Exame intensivo, calçados terapêuticos, acompanhamento multidisciplinar |
💡 Dica: A classificação de risco determina a intensidade do acompanhamento e as medidas preventivas necessárias. Pacientes nos grupos 2 e 3 requerem atenção e intervenções mais frequentes.
Tratamento e Prevenção do Pé Diabético
O tratamento do pé diabético é complexo e multidisciplinar, mas a ênfase principal deve ser na prevenção de lesões e complicações.
💊 Tratamento: "O melhor tratamento é a prevenção!" A educação do paciente é a chave para o sucesso.
Medidas Preventivas Gerais
- Controle rigoroso: Manter o controle glicêmico e pressórico dentro das metas.
- Cessar tabagismo: O tabagismo é um fator de risco modificável que agrava a DAP e dificulta a cicatrização.
- Orientações gerais ao paciente:
- Nunca andar descalço: Nem mesmo dentro de casa.
- Examinar o pé diariamente: Procurar por bolhas, cortes, vermelhidão, inchaço ou qualquer alteração. Usar um espelho para a planta do pé.
- Higiene adequada: Lavar os pés diariamente com água morna e sabão neutro, secar bem entre os dedos.
- Hidratação: Usar cremes hidratantes na pele ressecada, evitando a aplicação entre os dedos.
- Corte de unhas: Cortar as unhas retas e lixar as bordas, preferencialmente por um podólogo.
- Calçados adequados: Utilizar sapatos confortáveis, fechados, sem costuras internas, com bico largo e solado firme. Palmilhas e órteses específicas podem ser necessárias para redistribuir a pressão.
Manejo da Úlcera Diabética
Úlcera Não Infectada
Para úlceras sem sinais de infecção, o foco é na cicatrização e alívio da pressão:
- Curativo em compressa úmida: Mantém o leito da ferida úmido, favorecendo a cicatrização.
- Evitar antissépticos: Muitos antissépticos são citotóxicos e podem atrasar a cicatrização.
- Desbridamento: Remover tecido necrótico e calosidades para promover a granulação.
- Alívio de pressão: Essencial para a cicatrização, utilizando órteses, calçados especiais ou repouso.
Úlcera Diabética Infectada
A presença de infecção exige tratamento agressivo com antibioticoterapia e, frequentemente, desbridamento cirúrgico.
Infecção Leve
Caracterizada por eritema menor que 2 cm ao redor da úlcera, sem sinais sistêmicos de infecção.
- Antibioticoterapia oral (ATB VO): Deve cobrir cocos gram-positivos.
- Exemplos: Cefalosporina de 1ª geração (ex: Cefalexina) ou Amoxicilina-Clavulanato.
- Ampliar espectro: Considerar cobertura para Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA) se houver uso recente de antibióticos ou fatores de risco para MRSA.
Infecção Moderada a Grave
Caracterizada por eritema maior que 2 cm, linfangite, celulite profunda, abscesso, ou sinais sistêmicos de infecção (febre, calafrios, leucocitose).
- Antibioticoterapia intravenosa (ATB IV): Deve cobrir um espectro amplo, incluindo gram-positivos, gram-negativos e anaeróbios.
- Exemplos: Amoxicilina-Clavulanato IV, Ampicilina-Sulbactam, Cefalosporinas de 2ª ou 3ª geração.
- Perna isquêmica/necrose: Se houver isquemia significativa ou necrose, ampliar o espectro para anaeróbios com Carbapenêmicos (ex: Ertapenem) ou Cefalosporina de 2ª/3ª geração associada a Clindamicina ou Metronidazol.
- Desbridamento cirúrgico: Indicado em casos de abscesso, envolvimento ósseo/articular, necrose extensa, crepitação ou sepse.
- Pesquisar osteomielite: Sempre considerar e investigar a presença de osteomielite em infecções moderadas a graves, especialmente se houver exposição óssea ou úlceras de longa data.
💊 Tratamento: A escolha do antibiótico deve ser guiada por culturas de tecido profundo, se possível, para otimizar a terapia e evitar resistência.