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Diabetes Mellitus


Conceitos Iniciais e Metabolismo

Definição de Diabetes Mellitus

O Diabetes Mellitus (DM) é um distúrbio metabólico complexo, caracterizado principalmente por um hipoinsulinismo, que pode ser absoluto (ausência de insulina) ou relativo (resistência periférica à sua ação). Essa condição leva a um estado de catabolismo, resultando em hiperglicemia e, em alguns casos, na produção de corpos cetônicos.

🧠 Lembre-se: O DM é essencialmente um desequilíbrio na regulação da glicose, onde a insulina, o principal hormônio anabólico, não consegue exercer sua função adequadamente.

Regulação Hormonal do Metabolismo Intermediário

O metabolismo intermediário refere-se ao processamento de carboidratos, proteínas e gorduras no organismo. A regulação da glicemia é um processo dinâmico, influenciado por hormônios com ações opostas:

Metabolismo Pós-Prandial vs. Jejum

Para otimizar a compreensão, podemos comparar as duas principais fases do metabolismo:

Característica Período Pós-Prandial Período de Jejum
Glicemia ↑ Elevada ↓ Reduzida
Insulina ↑ Elevada ↓ Reduzida
Hormônios Contrainsulínicos ↓ Reduzidos ↑ Elevados (Glucagon, GH, Cortisol, Adrenalina)
Processo Metabólico Principal Anabolismo (armazenamento) Catabolismo (quebra para energia)
Resultados ↑ Glicogênio, ↑ Gordura, ↑ Proteína ↓ Glicogênio (→ Glicose), ↓ Gordura (→ Ácidos Graxos), ↓ Proteína (→ Aminoácidos)
Processos Chave Glicogênese, Lipogênese, Síntese Proteica Glicogenólise, Lipólise, Proteólise, Gliconeogênese
⚠️ Atenção: A lipólise excessiva, especialmente em estados de deficiência severa de insulina, pode levar à produção de corpos cetônicos, que são ácidos e podem causar cetoacidose metabólica.

Tipos de Diabetes Mellitus

Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1)

O DM1 é uma doença autoimune caracterizada pela destruição das células beta pancreáticas, resultando em hipoinsulinismo absoluto. É uma condição que se manifesta de forma mais abrupta e geralmente em idades mais jovens.

Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2)

O DM2 é o tipo mais comum de diabetes, caracterizado por resistência periférica à insulina e uma eventual fadiga secretória das células beta pancreáticas. Inicialmente, o pâncreas compensa a resistência produzindo mais insulina, mas com o tempo, essa capacidade diminui.

💡 Dica para prova: A principal diferença na apresentação inicial entre DM1 e DM2 é a velocidade de instalação dos sintomas e a presença de cetoacidose. DM1 é rápido e com risco de cetoacidose; DM2 é lento e assintomático por anos.

Outros Tipos de Diabetes Mellitus

Além dos tipos 1 e 2, existem outras formas de diabetes, menos comuns, mas importantes para o diagnóstico diferencial:

LADA (Diabetes Autoimune Latente do Adulto)

Conhecido como "Diabetes Autoimune de Aparecimento Tardio no Adulto", o LADA é uma forma de diabetes autoimune que se assemelha ao DM1, mas com uma evolução mais lenta e tardia, manifestando-se em adultos. É considerado um "DM1 em adultos".

MODY (Maturity-Onset Diabetes of the Young)

O MODY, ou "Diabetes de Início da Maturidade que se Apresenta no Jovem", é um tipo raro de diabetes monogênico, causado por uma mutação genética específica que afeta a função das células beta, resultando em diminuição da secreção de insulina.

🔬 Diferencial: Enquanto LADA é um DM1 de progressão lenta em adultos, MODY é um DM2 de causa genética em jovens, muitas vezes responsivo a sulfonilureias.

Diagnóstico do Diabetes Mellitus

Critérios Diagnósticos para Diabetes

O diagnóstico de Diabetes Mellitus pode ser confirmado pela presença de apenas um dos seguintes critérios, em duas ocasiões distintas (exceto para glicemia aleatória com sintomas):

🧠 Lembre-se: Para o diagnóstico de Diabetes Mellitus, a presença de apenas um desses critérios alterados (confirmado em duas ocasiões, exceto para glicemia aleatória com sintomas) é suficiente. Não é necessário repetir o exame se a glicemia aleatória estiver ≥ 200 mg/dL com sintomas.
💡 Dica High Yield: Atualmente, a glicemia 1 hora pós-TOTG é considerada o exame mais sensível para o diagnóstico de Diabetes Mellitus, sendo particularmente útil em casos de alta suspeita ou quando outros exames são inconclusivos.

Critérios Diagnósticos para Pré-Diabetes

O pré-diabetes é uma condição intermediária, onde os níveis de glicose estão mais altos que o normal, mas ainda não atingem os critérios para diabetes. É um sinal de alerta importante para intervenção e prevenção:

⚠️ Atenção: Em pacientes com glicemia de jejum entre 100-125 mg/dL, é fundamental realizar o Teste Oral de Tolerância à Glicose (TOTG) para investigar a possibilidade de diabetes, pois a glicemia pós-TOTG pode já estar em níveis diabéticos.

Abordagem Diagnóstica Inicial

A sequência recomendada para a investigação diagnóstica é a seguinte:

  1. Primeiro passo: Realizar glicemia de jejum e/ou HbA1c.
  2. Se dois exames alterados: O diagnóstico de diabetes está confirmado.
  3. Se apenas um exame alterado: Repetir o exame alterado ou realizar o TOTG de 1 hora para maior sensibilidade.
  4. Se alto risco para DM (mesmo com GJ/HbA1c sem fechar diagnóstico para diabetes): Realizar o TOTG de 1 hora, por ser o teste mais sensível para detectar alterações precoces.

(*) Considera-se alto risco para DM: pré-diabetes diagnosticado, pontuação alta no FINDRISC, ou a presença de três ou mais fatores de risco para DM.


Rastreamento do Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2) - Recomendações da ADA

O rastreamento do DM2 é crucial para a detecção precoce e intervenção, visando prevenir complicações. As diretrizes da American Diabetes Association (ADA) fornecem um guia claro sobre quando e como realizar esse rastreamento.

Como Realizar o Rastreamento?

Quando Iniciar o Rastreamento?

O rastreamento deve ser iniciado em indivíduos que se enquadram em um ou mais dos seguintes critérios:

💊 Metformina na Prevenção do DM2: A Metformina pode ser considerada para prevenção do DM2 em pacientes com pré-diabetes que preencham os seguintes critérios:

Tratamento do Diabetes Mellitus

O tratamento do Diabetes Mellitus visa o controle glicêmico e a prevenção de complicações micro e macrovasculares, através do estabelecimento de metas terapêuticas individualizadas.

Alvos Terapêuticos no Manejo do Diabetes

Os alvos glicêmicos variam conforme as características do paciente, como idade, comorbidades e risco de hipoglicemia.

Hemoglobina Glicada (HbA1c)

Grupo de Pacientes Alvo de HbA1c
Geral < 7% (principal meta)
Jovens, com DM de curta duração e sem comorbidades < 6% - 6,5%
Idosos saudáveis < 7,5%
Idosos frágeis, com múltiplas comorbidades < 8%
Idosos muito comprometidos ou em fase terminal Evitar sintomas de hiperglicemia e hipoglicemia (metas menos rigorosas)

Glicemia Capilar (Automonitorização)

Momento da Medida Alvo Glicêmico
Pós-prandial (2 horas após refeição) < 180 mg/dL
Pré-prandial 80 - 130 mg/dL
Pacientes internados (não críticos) 100 - 180 mg/dL
Pacientes internados (críticos) < 180 mg/dL

Metas Detalhadas para Pacientes em Uso de Insulina

Demais Metas (Independentemente do Uso de Insulina)


Tratamento do Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1)

O tratamento do DM1 é fundamentalmente baseado na insulinoterapia, uma vez que há uma deficiência absoluta de insulina. O objetivo é mimetizar a secreção fisiológica de insulina para otimizar o controle glicêmico.

Insulinoterapia no DM1

A dose total diária de insulina geralmente varia de 0,5 a 1,0 U/kg/dia, com uma dose inicial recomendada de 0,3 a 0,5 UI/kg/dia.

Bomba de Infusão Contínua de Insulina

Considerada o padrão-ouro, a bomba de infusão contínua administra insulina de forma constante através de um cateter subcutâneo, que o próprio paciente substitui a cada três dias. Este dispositivo utiliza insulina ultrarrápida e pode ser programado para liberar uma dose basal contínua, além de um bolus pré-refeições para cobrir a glicemia pós-prandial, utilizando cálculos de dose semelhantes aos do esquema de múltiplas doses.

Esquema Intensivo de Múltiplas Doses

Este esquema busca replicar a secreção fisiológica de insulina, combinando insulinas de ação prolongada (basal) com insulinas de ação rápida ou ultrarrápida (bolus prandial).

Entendendo a Secreção Fisiológica de Insulina

A secreção de insulina pelo pâncreas ocorre em duas fases:

Tipos de Insulina

As insulinas são classificadas de acordo com seu perfil de ação (início, pico e duração), o que determina a frequência e o momento de sua aplicação.

Insulinas Rápidas e Ultrarrápidas (Bolus Prandial)

Devem ser aplicadas antes das refeições para cobrir o aumento da glicemia pós-prandial.

Tipo de Insulina Início de Ação Duração Momento da Aplicação
Regular (R) 30 minutos 4-6 horas 30 minutos antes das refeições
Aspart, Lispro, Glulisina (Ultrarrápidas) 5-15 minutos 2-4 horas Na hora de comer ou imediatamente antes
Insulinas Lentas e Intermediárias (Basal)

Fornecem uma cobertura basal de insulina, mantendo os níveis glicêmicos estáveis entre as refeições e durante a noite.

Tipo de Insulina Início de Ação Duração Frequência da Aplicação
NPH (Intermediária) 1-4 horas +/- 12 horas 2 vezes ao dia
Detemir (Lenta) 2 horas 18-24 horas 1 vez ao dia
Glargina (Lenta) 2 horas 20-24 horas 1 vez ao dia
Degludeca (Ultralenta) < 2 horas > 40 horas 1 vez ao dia
Novidades em Insulinas
Estratégias de Insulinoterapia

Dois esquemas comuns para DM1:

🧠 Lembre-se: Ao misturar insulinas Regular e NPH na mesma seringa, é crucial aspirar primeiro a insulina Regular e depois a NPH para evitar a contaminação do frasco de insulina Regular com NPH.
Situações Clínicas e de Prova: Ajuste de Insulina

Em provas de residência, é comum encontrar cenários onde se deve identificar qual dose de insulina ajustar com base nos níveis glicêmicos em diferentes momentos do dia:

Hiperglicemia Matinal: Fenômeno do Alvorecer vs. Efeito Somogyi

A hiperglicemia matinal é uma armadilha frequente em provas e na prática clínica. Ela pode ser causada por dois fenômenos distintos, que exigem abordagens terapêuticas diferentes:

A glicemia elevada ao acordar é um problema comum, fisiologicamente influenciada pelo pico de hormônios contrarreguladores (como o cortisol) pela manhã. É crucial diferenciar a causa para um manejo adequado.

🔎 Diferenciando as Causas da Hiperglicemia Matinal:

Para distinguir entre o Fenômeno do Alvorecer e o Efeito Somogyi, a medida da glicemia às 3h da manhã é essencial:

Fenômeno Glicemia às 22h Glicemia às 3h Glicemia às 8h Mecanismo Conduta
Fenômeno do Alvorecer Normal (ex: 110) Normal ou Elevada (ex: 110) Elevada (ex: 150) Aumento dos hormônios contrarreguladores (cortisol, GH) pela manhã, sem cobertura insulínica adequada. Aumentar a dose de NPH da noite (18h) ou aplicar a NPH mais tarde (antes de dormir).
Efeito Somogyi Normal (ex: 110) Baixa (ex: 40) Elevada (ex: 200) Hipoglicemia na madrugada (pico da NPH noturna sem ingestão alimentar) que desencadeia liberação de hormônios contrarreguladores, causando hiperglicemia de rebote pela manhã. Reduzir a dose de NPH da noite, aplicar a NPH mais tarde (antes de dormir) ou incluir um lanche noturno.
💡 Dica de Prova: Se a questão não fornecer a glicemia das 3h da manhã e pedir uma solução para a hiperglicemia matinal que funcione para ambos os casos, uma estratégia é mudar a aplicação da NPH das 18h para antes de dormir. Isso faz com que o pico da NPH ocorra por volta das 6h da manhã, coincidindo com o pico dos hormônios contrarreguladores, o que pode ajudar a mitigar tanto o alvorecer quanto o Somogyi.

Alternativas em Casos de Refratariedade no DM1

Em situações onde o controle glicêmico é difícil de alcançar com a insulinoterapia convencional, outras opções podem ser consideradas:


Tratamento do Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2)

Arsenal Terapêutico: Mecanismos de Ação e Classes de Fármacos

1. Fármacos que Reduzem a Resistência à Insulina

Esta classe de medicamentos atua melhorando a sensibilidade dos tecidos à insulina endógena ou exógena, diminuindo a resistência à insulina, um dos pilares da fisiopatologia do DM2.

Biguanidas: Metformina
⚠️ Atenção: A metformina é contraindicada em pacientes com TFG < 30 mL/min devido ao risco de acidose lática. Em casos de TFG entre 30-44 mL/min, é crucial o ajuste da dose e monitoramento rigoroso.
Glitazonas (Tiazolidinedionas): Pioglitazona
🚨 Alerta: Glitazonas são contraindicadas em pacientes com IC classe funcional III ou IV devido ao risco de piora da retenção hídrica e congestão.

2. Fármacos que Aumentam a Secreção de Insulina

Esses medicamentos estimulam diretamente as células beta pancreáticas a liberar mais insulina, independentemente dos níveis de glicose no sangue, o que pode levar a um risco maior de hipoglicemia.

Sulfonilureias: Glibenclamida, Gliclazida, Glimepirida
💊 Dica de Tratamento: As sulfonilureias são eficazes na redução da glicemia, mas o risco de hipoglicemia é uma preocupação importante, especialmente em idosos ou pacientes com disfunção renal.

3. Incretinomiméticos: Ação Glicemia-Dependente

Esta classe de fármacos mimetiza ou potencializa a ação das incretinas, hormônios intestinais que são liberados em resposta à ingestão de alimentos e que estimulam a secreção de insulina de forma glicemia-dependente, além de outras ações benéficas.

Inibidores da DPP-IV (Gliptinas): Linagliptina, Sitagliptina
🧠 Conceito Chave: A ação glicemia-dependente dos inibidores da DPP-IV confere um perfil de segurança favorável em relação à hipoglicemia, tornando-os uma boa opção para pacientes com maior risco.
Análogos de GLP-1 (Agonistas do Receptor de GLP-1): Liraglutida, Semaglutida
❤️‍🩹 Benefício Duplo: Análogos de GLP-1 não só controlam a glicemia e reduzem o peso, mas também oferecem proteção cardiovascular e renal, sendo cruciais para pacientes de alto risco.
Agonistas Duais (GIP/GLP-1): Tirzepatida
🚀 Inovação: A Tirzepatida representa uma nova fronteira no tratamento do DM2, com resultados impressionantes na redução de glicemia e peso, combinando os efeitos de duas incretinas.

4. Fármacos que Reduzem a Reabsorção Tubular de Glicose

Esta classe de medicamentos atua nos rins, promovendo a excreção de glicose na urina, independentemente da secreção de insulina.

Inibidores da SGLT2 (Gliflozinas): Dapagliflozina, Empagliflozina
🔎 Diagnóstico e Tratamento: Inibidores da SGLT2 são pilares no tratamento do DM2, especialmente pela proteção cardiovascular e renal. Contudo, é vital monitorar infecções genitais e estar atento ao risco de CAD euglicêmica.

Organizando a Terapêutica no DM2

A escolha da terapia inicial e a intensificação do tratamento são guiadas pelos níveis de HbA1c e pela presença de comorbidades, especialmente o risco cardiovascular.

Abordagem Terapêutica Inicial Baseada na HbA1c

Nível de HbA1c Estratégia Terapêutica Inicial
HbA1c < 7,5% Monoterapia (geralmente Metformina, se não houver contraindicação)
HbA1c > 7,5% Terapia Dupla (Metformina + outro agente)
HbA1c > 9% + Sintomas Insulinoterapia (regime basal ou basal-bolus)

Escolha da Droga: Foco no Risco Cardiovascular

A presença de alto risco cardiovascular ou doença cardiovascular estabelecida, insuficiência cardíaca ou doença renal crônica deve guiar a escolha da segunda linha terapêutica, priorizando fármacos com benefícios comprovados nesses cenários.

Perfil do Paciente Fármaco Preferencial (após Metformina)
Baixo a Intermediário Risco Cardiovascular Metformina (primeira linha)
Alto ou Muito Alto Risco Cardiovascular Análogo de GLP-1 (AGLP-1) ou Inibidor de SGLT2 (ISGLT2)
IMC > 27 kg/m² (sobrepeso/obesidade) Análogo de GLP-1 (AGLP-1) ou Agonista Dual (Tirzepatida)
Critérios para Pacientes de Alto Risco Cardiovascular

Considera-se um paciente de alto risco cardiovascular para DM2 se apresentar um ou mais dos seguintes critérios:

Reavaliação e Ajuste Terapêutico
💡 Dica de Estudo: A escolha da medicação no DM2 é cada vez mais orientada pelos benefícios cardiovasculares e renais, além do controle glicêmico. Priorize essas classes em pacientes de alto risco!

Indicações Específicas para Insulinoterapia

A insulina é uma ferramenta terapêutica essencial no manejo do DM2 em diversas situações, não apenas quando há falha de outras terapias orais ou injetáveis.

Considerações na Transição para Insulina

Ao iniciar a insulinoterapia em pacientes com DM2, algumas adaptações na medicação oral ou injetável concomitante são importantes:

🧠 Lembre-se: A insulina é uma terapia flexível e poderosa, mas sua introdução exige atenção às interações medicamentosas e ao risco de hipoglicemia.

Complicações Agudas do Diabetes Mellitus

Cetoacidose Diabética (CAD)

🧠 Lembre-se: A Cetoacidose Diabética é a complicação aguda mais característica do Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1)!

Fisiopatologia

A Cetoacidose Diabética é desencadeada por um estado de hipoinsulinismo absoluto, que leva a um catabolismo extremo no organismo. A ausência de insulina, combinada com o predomínio de hormônios contrainsulínicos (como glucagon, cortisol, catecolaminas e hormônio do crescimento), resulta em:

Em resumo, a balança metabólica pende drasticamente para o lado catabólico, com glicemia muito elevada e produção massiva de ácidos que acidificam o sangue.

Manifestações Clínicas

O quadro clínico da CAD é agudo e reflete a desidratação severa, a acidose e a hiperglicemia. Os pacientes podem apresentar:

🔎 Diagnóstico Diferencial: A dor abdominal intensa na CAD pode simular um abdome agudo cirúrgico, exigindo atenção para evitar intervenções desnecessárias.

Critérios Diagnósticos

O diagnóstico da Cetoacidose Diabética é estabelecido pela presença dos seguintes critérios laboratoriais:

💡 Lembre-se: O próprio nome da doença já aponta para os critérios: Diabetes (glicose elevada) + Cetoacidose (cetonemia/cetonúria e acidose metabólica).

Fatores Desencadeantes

Diversos fatores podem precipitar um episódio de CAD, sendo os mais comuns:

Conduta (Tratamento)

O tratamento da Cetoacidose Diabética é uma emergência e baseia-se em um tripé fundamental para a sobrevivência do paciente, conhecido como VIP: Volume, Insulina e Potássio. A mortalidade da CAD não tratada é de 100%, mas com o manejo correto, pode ser reduzida para cerca de 5%.

💊 Tratamento: O tripé essencial para o manejo da CAD é Volume, Insulina e Potássio (VIP). A mortalidade é de 100% se não tratada corretamente.
1. Volume

A reposição volêmica é a primeira e mais importante etapa do tratamento, visando corrigir a desidratação severa e melhorar a perfusão tecidual.

A hiperglicemia causa uma hiponatremia dilucional, pois a glicose "rouba" água do intracelular para o extracelular, diluindo o sódio. Por isso, a correção do sódio é crucial após a hidratação inicial.

🚨 Dica: O volume é a prioridade inicial! Reponha vigorosamente para combater a desidratação severa e restaurar a perfusão.
2. Insulina

A insulina é essencial para interromper a cetogênese e permitir a utilização da glicose pelas células. Deve ser administrada por via intravenosa.

A redução muito rápida da glicemia pode causar edema cerebral (pela entrada súbita de água nas células neuronais) e hipocalemia grave (pelo rápido deslocamento do potássio para o intracelular mediado pela insulina).

⚠️ Atenção: A redução rápida da glicemia (>75 mg/dL/h) pode levar a edema cerebral e hipocalemia grave. Mantenha a taxa de queda controlada!
3. Potássio

A reposição de potássio é crítica, pois a insulina desloca o potássio para o intracelular, e a acidose, embora inicialmente possa causar hipercalemia, leva a uma depleção global de potássio.

Mesmo que o potássio sérico esteja normal ou discretamente elevado no início, a reserva corporal total de potássio está frequentemente depletada devido ao deslocamento para o plasma (pela hiperosmolaridade e acidose) e à perda urinária aumentada pela aldosterona. A insulina irá rapidamente mover o potássio de volta para o intracelular, expondo a hipocalemia real.

⚠️ Atenção: NUNCA inicie insulina antes de checar o potássio! A insulina move o potássio para o intracelular, podendo causar hipocalemia fatal.
Sódio Corrigido

É importante lembrar de calcular o sódio corrigido em pacientes com hiperglicemia, pois a glicose elevada dilui o sódio sérico. A fórmula de correção é:

Exemplos:

Bicarbonato

A reposição de bicarbonato não é rotineiramente indicada na CAD, pois a correção da desidratação e a administração de insulina geralmente resolvem a acidose metabólica. No entanto, pode ser considerada em situações específicas:

Critérios de Compensação e Desligamento da Bomba de Insulina

O paciente é considerado compensado e a infusão de insulina intravenosa pode ser descontinuada quando os seguintes critérios são atingidos:

Se a glicemia atingir 200-250 mg/dL, mas os outros critérios de compensação ainda não foram alcançados, deve-se adicionar SG 5% à infusão (metade SF, metade SG) e/ou reduzir a velocidade de infusão da insulina para evitar hipoglicemia, enquanto se continua a tratar a cetoacidose.

Após a compensação, o próximo passo é iniciar a dieta e a insulina subcutânea (SC) 1-2 horas antes de desligar a bomba de insulina intravenosa, garantindo uma transição suave e evitando a recorrência da cetoacidose.

Complicações

Apesar do tratamento adequado, a CAD pode levar a diversas complicações:

🚨 Emergência: A Mucormicose é uma infecção fúngica agressiva e destrutiva, comum em pacientes com CAD. Suspeite em caso de dor facial e secreção nasal enegrecida.

Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar (EHH)

🧠 Lembre-se: O Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar é mais característico do Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2), especialmente em idosos com comorbidades.

Fisiopatologia

O Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar (EHH), anteriormente conhecido como Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar Não Cetótico (EHHNC), é caracterizado por hiperglicemia extrema e hiperosmolaridade plasmática severa, sem a presença de cetoacidose significativa. Diferente da CAD, no EHH há um hipoinsulinismo relativo:

O EHH é tipicamente observado em pacientes idosos, acamados ou com limitações que desenvolvem uma comorbidade aguda (como infarto agudo do miocárdio, acidente vascular encefálico, pneumonia ou infecção urinária), o que agrava a hiperglicemia e a desidratação. Proporcionalmente, o EHH apresenta uma mortalidade mais elevada que a CAD, devido ao perfil de pacientes mais fragilizados.

Critérios Diagnósticos

O diagnóstico do Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar é baseado nos seguintes achados laboratoriais:

Tratamento

O tratamento do EHH é muito semelhante ao da Cetoacidose Diabética, focando no tripé VIP (Volume, Insulina e Potássio). No entanto, algumas particularidades devem ser observadas:

✅ Critério de Cura: O principal indicador de resolução do EHH é a osmolaridade sérica inferior a 310 mOsm/kg.

Comparativo - CAD vs EHH

Característica Cetoacidose Diabética (CAD) Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar (EHH)
Tipo de DM Predominante DM1 DM2
Insulina Hipoinsulinismo absoluto Hipoinsulinismo relativo (suficiente para inibir cetogênese)
Glicemia > 200-250 mg/dL > 600 mg/dL (geralmente muito mais alta)
Cetonemia/Cetonúria Presente e significativa (3+/4+) Ausente ou mínima
pH Arterial < 7,3 > 7,3
Bicarbonato (HCO3) < 15-18 mEq/L > 18 mEq/L
Ânion Gap Elevado (> 12) Normal ou discretamente elevado
Osmolaridade Plasmática Variável, geralmente < 320 mOsm/kg > 320 mOsm/kg (geralmente muito mais alta)
Perfil do Paciente Jovens, DM1 recém-diagnosticado ou má adesão Idosos, DM2, comorbidades agudas, limitações
Principal Risco Acidose metabólica, edema cerebral (crianças) Desidratação severa, hiperosmolaridade, alterações neurológicas

Hipoglicemia

A hipoglicemia é uma das complicações agudas mais frequentes e potencialmente graves do Diabetes Mellitus, especialmente em pacientes que utilizam insulina ou certos secretagogos de insulina. É definida por níveis de glicose plasmática abaixo do normal, acompanhados de sintomas.

Conceitos Iniciais

💡 Dica: A hipoglicemia é uma emergência médica que exige reconhecimento e tratamento rápidos para evitar danos neurológicos.

Fisiopatologia

O organismo possui mecanismos complexos para manter a glicemia em níveis adequados. Em situações de queda da glicose, esses mecanismos são ativados:

Para que a hipoglicemia se instale e persista, algumas condições são essenciais:

🧠 Resumo da Resposta Fisiológica à Queda da Glicemia:

Diagnóstico

O diagnóstico de hipoglicemia é classicamente estabelecido pela Tríade de Whipple:

Níveis de Hipoglicemia

A classificação da hipoglicemia é importante para guiar a conduta e o entendimento da gravidade:

Situações de Risco para Hipoglicemia

Algumas condições aumentam significativamente a suscetibilidade à hipoglicemia:

Tratamento da Hipoglicemia

💊 Prevenção é Fundamental: A melhor abordagem para a hipoglicemia é a prevenção. Isso inclui:

Conduta na Hipoglicemia Estabelecida:

🚨 Detalhe Importante: Em pacientes etilistas crônicos ou desnutridos, é crucial repor tiamina (vitamina B1) antes da administração de glicose intravenosa para prevenir a encefalopatia de Wernicke.

Complicações Crônicas

As complicações crônicas do Diabetes Mellitus são classificadas em macrovasculares e microvasculares, cada uma com características distintas e impacto significativo na morbimortalidade dos pacientes.

Complicações Macrovasculares vs. Microvasculares

Característica Complicações Macrovasculares Complicações Microvasculares
Exemplos Doença Coronariana (DAC), Acidente Vascular Encefálico (AVE), Doença Arterial Periférica (DAP) – todas relacionadas à aterosclerose. Retinopatia Diabética, Nefropatia Diabética, Neuropatia Diabética.
Impacto Principal Principal causa de morte em pacientes diabéticos (Infarto Agudo do Miocárdio, AVC). Principalmente debilitam o paciente, levando a cegueira, insuficiência renal e amputações.
Fatores de Risco Multifatorial: Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS), Dislipidemia, tabagismo, obesidade. A hiperglicemia tem menor relação direta. Forte e direta relação com a hiperglicemia crônica e o mau controle glicêmico.
Rastreamento Investigar e rastrear principalmente em pacientes sintomáticos ou com múltiplos fatores de risco. Rastreamento anual sistemático para todos os pacientes diabéticos.

Rastreamento Anual das Complicações Crônicas

O rastreamento precoce é crucial para a detecção e manejo das complicações crônicas:

Retinopatia Diabética

A retinopatia diabética (RD) é uma microangiopatia que afeta os vasos sanguíneos da retina, sendo uma das principais causas de perda visual em pacientes com diabetes.

Epidemiologia

Fatores de Risco

Diversos fatores contribuem para o desenvolvimento e progressão da retinopatia diabética:

Classificação da Retinopatia Diabética

A classificação da RD é crucial para determinar a gravidade e guiar o tratamento:

Tipo Estágio Características Principais
Não Proliferativa (RDNP) Leve Presença de microaneurismas.
Moderada Microaneurismas mais outras alterações (hemorragias, exsudatos duros, edema macular), mas sem critérios de RDNP grave.
Grave Presença de qualquer uma das seguintes características:
  • Hemorragias em 4 quadrantes.
  • Dilatações venosas (veias em rosário) em pelo menos 2 quadrantes.
  • Anormalidades microvasculares intrarretinianas (AMIR) em pelo menos 1 quadrante.
Muito Grave Presença de 2 ou mais das características da RDNP grave.
Proliferativa (RDP) Único Estágio Caracterizada pela presença de neovascularização (formação de novos vasos sanguíneos anormais na retina ou disco óptico), que são frágeis e podem sangrar, levando a hemorragia vítrea e descolamento de retina.
🧠 Conceito Chave: A principal diferença entre a retinopatia não proliferativa e a proliferativa é a presença de neovascularização na forma proliferativa, que indica um estágio mais avançado e de maior risco para perda visual grave.

Rastreamento da Retinopatia Diabética

O rastreamento regular é essencial para a detecção precoce e manejo da RD:

Tratamento da Retinopatia Diabética

O tratamento da RD visa preservar a visão e prevenir a progressão da doença:

🧠 High Yield Notes: Achados da Retinopatia Diabética

Nefropatia Diabética

A nefropatia diabética é uma das complicações microvasculares mais graves do Diabetes Mellitus (DM), caracterizada por alterações estruturais e funcionais nos rins que podem levar à doença renal crônica (DRC) e à insuficiência renal terminal.

Epidemiologia

A nefropatia diabética representa um desafio significativo na saúde pública global, com implicações importantes para a morbidade e mortalidade dos pacientes diabéticos.

🧠 Lembre-se: Embora o risco de desenvolver nefropatia diabética seja semelhante entre o DM1 e o DM2, a condição é mais frequentemente observada em pacientes com DM2 devido à sua maior prevalência na população geral.

Fisiopatologia: As Fases da Nefropatia Diabética

A progressão da nefropatia diabética é um processo complexo que envolve a interação de fatores hemodinâmicos, metabólicos e genéticos. A doença evolui por fases distintas, cada uma com características patológicas e clínicas específicas.

Fase I: Hiperfiltração (Pré-Nefropatia)

Esta fase inicial é caracterizada por alterações estruturais e funcionais que precedem o dano renal evidente:

Fase II: Nefropatia Diabética Incipiente

Nesta fase, a desorganização da estrutura glomerular torna-se mais pronunciada, culminando no surgimento da albuminúria.

Nível de Albuminúria Urina de 24h (mg/dia) Spot Urinário (mg/g) Classificação
Normal Até 30 Até 30 Ausência de albuminúria
Moderadamente Aumentada 30 - 300 30 - 300 Microalbuminúria (Fase II - Nefropatia Incipiente)
Severamente Aumentada > 300 > 300 Macroalbuminúria (Fase III - Doença Renal Diabética Declarada)
Fase III: Doença Renal Diabética Declarada

Esta fase é marcada pela macroalbuminúria e indica um dano renal mais avançado e, geralmente, irreversível.

Fase IV: Insuficiência Renal e Azotemia

A fase final da nefropatia diabética culmina na insuficiência renal, com acúmulo de produtos nitrogenados no sangue.

💡 Diferença Crucial: Doença Renal do Diabetes vs. Nefropatia Diabética

É fundamental distinguir esses termos para o diagnóstico e manejo corretos:

Portanto, se um paciente diabético apresenta redução da Taxa de Filtração Glomerular (TFG) mas não tem albuminúria, não podemos classificá-lo como tendo nefropatia diabética, mas sim como Doença Renal do Diabetes.

Fatores de Risco para Nefropatia Diabética

Diversos fatores contribuem para o desenvolvimento e progressão da nefropatia diabética, sendo essencial identificá-los para uma intervenção precoce.

Diagnóstico e Rastreamento da Nefropatia Diabética

O diagnóstico precoce e o rastreamento regular são fundamentais para identificar a nefropatia diabética em seus estágios iniciais e implementar medidas que possam retardar sua progressão.

Quando Rastrear?
⚠️ Atenção: Um resultado positivo no rastreamento deve ser confirmado em 3 a 6 meses para evitar diagnósticos errôneos devido a fatores transitórios (exercício intenso, infecção, febre, etc.).
Como Rastrear?

A avaliação da albuminúria é o pilar do rastreamento da nefropatia diabética.

Classificação da Albuminúria Urina de 24h (mg/dia) Spot Urinário (mg/g)
Normal Até 30 mg/dia Até 30 mg/g
Moderadamente Aumentada (Microalbuminúria) 30 - 300 mg/dia 30 - 300 mg/g
Severamente Aumentada (Macroalbuminúria) > 300 mg/dia > 300 mg/g
⚠️ Importante: O sedimento urinário não é adequado para rastreamento da nefropatia diabética!

Ele só se torna positivo em casos avançados, quando a excreção de albumina é > 300 mg/dia ou a proteína total > 500 mg/dia. Portanto, não serve para detecção precoce.

Quando Biopsiar?

A biópsia renal não é rotineiramente indicada para o diagnóstico de nefropatia diabética, sendo reservada para situações de dúvida diagnóstica ou quando há suspeita de outra doença renal coexistente.

🔎 Indicação de Biópsia Renal: Considerar biópsia se houver:
Patologia da Nefropatia Diabética

As alterações patológicas nos rins de pacientes com diabetes são características e refletem o dano microvascular.

Tratamento da Nefropatia Diabética

O tratamento da nefropatia diabética é multifacetado, visando o controle glicêmico, da pressão arterial, da dislipidemia e a proteção renal específica, a fim de retardar a progressão da doença e prevenir complicações cardiovasculares.

1. Controle Glicêmico Intensivo

Manter um controle rigoroso da glicemia é crucial para prevenir e retardar a progressão da nefropatia.

⚠️ Cuidado na DRC Avançada: Em pacientes com Doença Renal Crônica avançada (TFG < 60 mL/min), o controle glicêmico muito intensivo pode ter menos benefício e aumentar o risco de hipoglicemia. Nesses casos, um alvo mais permissivo (entre 7% e 7,9%) pode ser mais apropriado, considerando os riscos e comorbidades associadas.
2. Medidas Gerais de Estilo de Vida

Adoção de hábitos saudáveis é fundamental para o manejo global do paciente diabético com nefropatia.

3. Inibidores da Enzima Conversora de Angiotensina (IECA) / Bloqueadores do Receptor de Angiotensina (BRA)

Essas classes de medicamentos são a pedra angular da proteção renal em pacientes diabéticos.

💊 Indicação Universal: IECA ou BRA são indicados para TODOS os pacientes com albuminúria, independentemente dos níveis pressóricos, devido ao seu efeito nefroprotetor.
⚠️ Atenção: Utilizar com cautela em pacientes com TFG baixa e monitorar eletrólitos (especialmente potássio) e função renal.
4. Controle da Pressão Arterial

O controle rigoroso da hipertensão arterial é essencial para retardar a progressão da nefropatia.

5. Controle da Dislipidemia

A dislipidemia é um fator de risco cardiovascular e renal que deve ser gerenciado ativamente.

6. Restrição de Nutrientes

Ajustes dietéticos podem ser benéficos em estágios específicos da doença.

7. Antagonistas da Aldosterona

Novas opções terapêuticas têm surgido para proteção renal.

8. Inibidores do SGLT2 (iSGLT2)

Os iSGLT2 demonstraram um papel crucial na proteção renal e cardiovascular em pacientes diabéticos.

9. Agonistas do Receptor de GLP-1 (aGLP-1)

Embora primariamente estudados para desfechos cardiovasculares, os aGLP-1 também mostram benefícios renais.

Neuropatia Diabética

A neuropatia diabética representa uma das complicações crônicas mais prevalentes e debilitantes do Diabetes Mellitus (DM), caracterizada por danos aos nervos periféricos e/ou autonômicos.

Classificação das Neuropatias Diabéticas

As neuropatias diabéticas podem ser categorizadas em dois grandes grupos, com base na sua distribuição e padrão de acometimento:

Neuropatias Difusas

Caracterizam-se por um envolvimento mais generalizado e simétrico dos nervos.

⚠️ Atenção: A neuropatia autonômica cardiovascular é uma das formas mais graves, associada a maior risco de mortalidade.
Neuropatias Focais

Envolvem nervos específicos ou grupos de nervos de forma localizada.

Manifestações Clínicas da Polineuropatia Simétrica e Distal

A polineuropatia simétrica e distal, classicamente descrita como padrão de "luvas e botas", é a forma mais prevalente de neuropatia diabética. Caracteriza-se pelo acometimento de nervos longos, com início dos sintomas nas extremidades distais e progressão simétrica.

Acometimento de Fibras Nervosas

A neuropatia diabética afeta diferentes tipos de fibras nervosas, com implicações clínicas distintas:

Sintomas e Complicações

A perda da sensibilidade, especialmente a "sensibilidade protetora", é uma característica marcante. Os pacientes podem apresentar:

É comum que os sintomas predominem durante o repouso e se intensifiquem à noite, impactando significativamente a qualidade de vida. Uma das complicações mais temidas é o pé diabético, que pode levar a úlceras, infecções e, em casos graves, à amputação, sendo a principal causa de amputação não traumática.

🚨 Alerta: A perda da sensibilidade protetora é um fator crítico para o desenvolvimento do pé diabético, exigindo vigilância constante e cuidados preventivos.

Rastreamento da Neuropatia Diabética

O rastreamento precoce é crucial para identificar a neuropatia diabética e implementar intervenções que possam retardar sua progressão e prevenir complicações.

Como Realizar o Rastreamento

A avaliação deve incluir a investigação de ambos os tipos de fibras nervosas:

O Teste Neuropad

O Neuropad é um adesivo que auxilia na detecção precoce de disfunção sudomotora, um indicador de neuropatia de fibras finas.

🧪 Dica de Exame: O monofilamento de 10g é uma ferramenta simples e eficaz para rastrear a perda da sensibilidade protetora, essencial na prevenção do pé diabético.
Quando Rastrear

A frequência do rastreamento varia conforme o tipo de diabetes:

🧠 Conceito Chave: O rastreamento anual é vital para todos os pacientes diabéticos, mas o momento de início difere entre DM1 e DM2.

Diagnóstico da Neuropatia Diabética

O diagnóstico da neuropatia diabética é clínico, baseado na história do paciente e no exame físico. Ferramentas como o Escore de Comprometimento Neuropático (ECN/NDS) auxiliam na quantificação da gravidade.

Escore de Comprometimento Neuropático (ECN/NDS)

Este escore avalia a presença e a intensidade do comprometimento neurológico, somando pontos para cada alteração encontrada bilateralmente.

Teste Direita Esquerda
Sensibilidade Vibratória (128Hz) Preservada: 0 / Alterada: 1 Preservada: 0 / Alterada: 1
Sensibilidade Térmica Preservada: 0 / Alterada: 1 Preservada: 0 / Alterada: 1
Dor Superficial Preservada: 0 / Alterada: 1 Preservada: 0 / Alterada: 1
Reflexo Aquileu Preservada: 0 / Alterada: 1 Preservada: 0 / Alterada: 1
🔎 Interpretação do ECN/NDS:
Diagnósticos Diferenciais

É fundamental excluir outras causas de neuropatia, pois muitas condições podem mimetizar a neuropatia diabética. A investigação deve incluir:

Tratamento da Neuropatia Diabética

O tratamento da neuropatia diabética envolve uma abordagem multifacetada, focada no controle da doença de base e no alívio sintomático.

Controle Glicêmico e Fatores de Risco

A pedra angular do tratamento é a otimização do controle glicêmico, que pode retardar a progressão da neuropatia. Além disso, é essencial o manejo rigoroso de outros fatores de risco cardiovascular:

Controle da Dor Neuropática

O manejo da dor é crucial para melhorar a qualidade de vida do paciente. As opções terapêuticas são escalonadas:

💊 Tratamento da Dor: Os fármacos de primeira linha para dor neuropática incluem tricíclicos, duais (duloxetina) e gabapentina.
Tratamento Restaurador (Fisiopatológico)

Embora o controle glicêmico seja o principal "tratamento restaurador", algumas abordagens visam a recuperação funcional ou a redução do estresse oxidativo:

💪 Reabilitação: A fisioterapia é a intervenção com maior eficácia comprovada para a recuperação funcional na neuropatia diabética.

Outras Manifestações e Tratamentos Específicos

Além da polineuropatia periférica, a neuropatia diabética pode se manifestar de outras formas que requerem abordagens terapêuticas específicas.

Gastroparesia Diabética

A gastroparesia é uma complicação da neuropatia autonômica que afeta a motilidade gástrica, causando esvaziamento gástrico retardado. Seus sintomas incluem náuseas, vômitos, saciedade precoce e distensão abdominal.

O tratamento pode incluir modificações dietéticas e o uso de procinéticos, como a eritromicina (em baixas doses, devido ao seu efeito agonista nos receptores de motilina) ou metoclopramida.

Disautonomia Diabética

A disautonomia diabética é o comprometimento do sistema nervoso autônomo, com diversas apresentações clínicas:

💊 Tratamento Específico: A abordagem da disautonomia é sintomática e direcionada ao sistema afetado (ex: fludrocortisona para hipotensão postural, sildenafil para disfunção erétil).

Pé Diabético

O pé diabético é uma das complicações crônicas mais sérias e debilitantes do Diabetes Mellitus, caracterizada por infecção, ulceração e/ou destruição de tecidos moles, frequentemente associadas a alterações neurológicas e diferentes graus de doença arterial periférica (DAP) nos membros inferiores.

Definição e Fisiopatologia

A patogênese do pé diabético é multifatorial, envolvendo principalmente a neuropatia diabética e a doença arterial periférica, que interagem para criar um ambiente propício a lesões e infecções.

Neuropatia Diabética

A neuropatia diabética é a complicação mais comum do diabetes, afetando as fibras nervosas e levando a diversas disfunções. A forma mais prevalente é a polineuropatia simétrica distal.

🧠 Lembre-se: O acometimento das fibras nervosas pela neuropatia diabética resulta em insensibilidade protetora e deformidades estruturais, criando áreas de pressão anormais no pé.
Disfunção Autonômica

A neuropatia autonômica contribui para o ressecamento da pele do pé devido à anidrose (redução ou ausência de suor). A pele ressecada é mais propensa a fissuras, que servem como porta de entrada para infecções.

Doença Arterial Periférica (DAP)

A DAP é outra complicação crônica do diabetes que afeta os vasos sanguíneos dos membros inferiores, comprometendo o fluxo sanguíneo. A isquemia resultante pode deflagrar ou complicar úlceras, dificultando a cicatrização e aumentando o risco de necrose e amputação.

⚠️ Atenção: A combinação de neuropatia (insensibilidade) e DAP (isquemia) é um fator de risco extremamente elevado para o desenvolvimento de úlceras e complicações graves no pé diabético.
Pé de Charcot

O pé de Charcot, ou artropatia de Charcot, é uma complicação grave e progressiva do pé diabético, caracterizada por osteólise, fraturas e deformidades ósseas. Ele surge da tríade: insensibilidade (neuropatia), áreas de pressão anormais e um processo inflamatório desregulado, levando à destruição articular e óssea.

🔎 Diagnóstico: O pé de Charcot é uma emergência ortopédica no paciente diabético, exigindo reconhecimento precoce para evitar deformidades permanentes e amputações.

Avaliação do Pé Diabético

A avaliação regular e sistemática do pé diabético é fundamental para a identificação precoce de fatores de risco e lesões, permitindo intervenções preventivas e terapêuticas oportunas.

Em Quem e Quando Avaliar?
Primeiro Passo: Anamnese Detalhada

A anamnese deve focar na pesquisa de fatores de risco que aumentam a probabilidade de ulceração e amputação:

Segundo Passo: Exame Físico Completo
Inspeção

Observar atentamente os pés para identificar:

Avaliação Neurológica: Perda de Sensibilidade Protetora (PSP)

A pesquisa da PSP é o pilar da avaliação neurológica e um forte preditor de risco de ulceração. A incapacidade de sentir uma pressão de 10 gramas indica PSP.

🧪 Exame: O monofilamento de 10 gramas (estesiômetro) é o método padrão-ouro para rastrear a perda de sensibilidade protetora.

Além do monofilamento, outros testes devem ser realizados para uma avaliação completa:

Situações Especiais na Avaliação
Presença de Úlcera

Quando uma úlcera está presente, a avaliação deve ser direcionada para identificar sinais de infecção e aprofundar a investigação:

🚨 Emergência: A osteomielite é uma complicação grave que exige tratamento agressivo, muitas vezes cirúrgico e com antibioticoterapia prolongada.
Presença ou Suspeita de Doença Arterial Periférica (DAP)

A avaliação vascular é crucial para determinar a perfusão do membro e guiar o tratamento.

Índice Tornozelo-Braquial (ITB)

O ITB é um método não invasivo para rastrear e diagnosticar a DAP.

🩸 Atenção: Em pacientes diabéticos, a esclerose da camada média das artérias pode levar a vasos não compressíveis, resultando em ITB falsamente elevados (>1,3). Nesses casos, outros exames como o índice dedo-braquial ou ultrassom Doppler são mais confiáveis.
Terceiro Passo: Estratificação do Risco e Plano de Seguimento

Com base nos achados da anamnese e exame físico, o paciente é estratificado e um plano de seguimento é definido.

Risco Achados Rastreio Conduta
0 (Muito Baixo) Sem PSP e sem DAP 1x/ano Exame anual, cuidados básicos
1 (Baixo) PSP ou DAP 6-6m ou 1-1a Exame regular, órteses (se necessário)
2 (Moderado) PSP e DAP, ou PSP e deformidade 3-3m ou 6-6m Exame frequente, órteses/calçados terapêuticos
3 (Alto) História de úlcera ou amputação 3-3m ou 1-1m Exame intensivo, calçados terapêuticos, acompanhamento multidisciplinar
💡 Dica: A classificação de risco determina a intensidade do acompanhamento e as medidas preventivas necessárias. Pacientes nos grupos 2 e 3 requerem atenção e intervenções mais frequentes.

Tratamento e Prevenção do Pé Diabético

O tratamento do pé diabético é complexo e multidisciplinar, mas a ênfase principal deve ser na prevenção de lesões e complicações.

💊 Tratamento: "O melhor tratamento é a prevenção!" A educação do paciente é a chave para o sucesso.
Medidas Preventivas Gerais
Manejo da Úlcera Diabética
Úlcera Não Infectada

Para úlceras sem sinais de infecção, o foco é na cicatrização e alívio da pressão:

Úlcera Diabética Infectada

A presença de infecção exige tratamento agressivo com antibioticoterapia e, frequentemente, desbridamento cirúrgico.

Infecção Leve

Caracterizada por eritema menor que 2 cm ao redor da úlcera, sem sinais sistêmicos de infecção.

Infecção Moderada a Grave

Caracterizada por eritema maior que 2 cm, linfangite, celulite profunda, abscesso, ou sinais sistêmicos de infecção (febre, calafrios, leucocitose).

💊 Tratamento: A escolha do antibiótico deve ser guiada por culturas de tecido profundo, se possível, para otimizar a terapia e evitar resistência.