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Doenças da Adrenal


Conceitos Iniciais

A glândula adrenal, também conhecida como suprarrenal, é uma estrutura endócrina vital, responsável pela produção de diversos hormônios essenciais para a manutenção da homeostase corporal. Apesar de ser uma estrutura única no adulto, ela possui uma origem embriológica dupla, o que resulta em duas porções funcionalmente distintas: o córtex e a medula. Essas duas partes se unem durante o desenvolvimento, mas mantêm suas particularidades na produção hormonal e nos mecanismos de controle.

🧠 Lembre-se: A dupla origem embriológica da adrenal explica a diversidade de hormônios produzidos e seus distintos mecanismos de controle.

Controle Hormonal da Adrenal

A função da glândula adrenal não é autônoma; ela é finamente regulada por diferentes sistemas, dependendo da porção e do hormônio em questão.

Controle do Córtex Adrenal (Cortisol e Androgênios)

A produção de cortisol e androgênios pelo córtex adrenal é controlada pelo eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal (HHA).

💡 Dica: O cortisol é o principal hormônio regulado pelo eixo HHA, sendo essencial para a adaptação ao estresse.

Controle do Córtex Adrenal (Aldosterona)

A secreção de aldosterona é primariamente regulada pelo sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona (SRAA), com o rim desempenhando um papel central.

⚠️ Atenção: O controle da aldosterona é independente do eixo Hipotálamo-Hipófise, sendo mediado principalmente pelo rim.

Controle da Medula Adrenal (Catecolaminas)

As catecolaminas (noradrenalina e adrenalina) são parte integrante do sistema nervoso autônomo (SNA), especificamente do sistema nervoso simpático.

🚨 Emergência: As catecolaminas são os hormônios da resposta rápida ao estresse, agindo de forma autônoma para preparar o corpo para situações de perigo.

A Adrenal como uma "Glândula 3:1"

Em termos de controle, a glândula suprarrenal pode ser vista como uma "glândula 3:1", pois diferentes partes são reguladas por sistemas distintos:

A compreensão desses mecanismos de controle é crucial para a interpretação dos quadros clínicos. Uma disfunção na própria glândula adrenal (primária) pode levar a um quadro clínico complexo e "florido", afetando múltiplos hormônios. Por outro lado, problemas em órgãos controladores como a hipófise ou o rim (secundários) podem resultar em manifestações mais específicas, afetando apenas os hormônios sob seu controle.

Principais Funções dos Hormônios da Adrenal

Cada hormônio adrenal desempenha papéis vitais no organismo:

Possibilidades de Doenças da Adrenal

As disfunções da glândula adrenal podem ser classificadas em hipofunção (produção insuficiente de hormônios), hiperfunção (produção excessiva) ou alterações estruturais como nódulos e câncer.

Camada Sub-camada Hormônio Principal Gatilho/Controle Ação Principal Hiperfunção Hipofunção
Córtex Glomerulosa Aldosterona (Mineralocorticoide) Volemia (SRAA) Reabsorve Na+, Excreta K+ e H+ Hiperaldosteronismo Primário Insuficiência Adrenal
Fasciculada Cortisol (Glicocorticoide) Estresse, Jejum (ACTH) Catabólico, ↑Glicose, Regula Imune, Ação permissiva às catecolaminas Síndrome de Cushing Insuficiência Adrenal
Reticular Androgênios Adrenais Hormônios sexuais Pilificação feminina, Libido Hiperplasia Adrenal Congênita (HAC) Insuficiência Adrenal
Medula Adrenalina/Noradrenalina (Catecolaminas) Estímulo SNA ↑Tônus vascular e FC, Resposta "luta ou fuga" Feocromocitoma N/A (raramente sintomática)

Doenças do Córtex da Adrenal

Insuficiência Adrenal

A insuficiência adrenal é uma condição caracterizada pela produção insuficiente de hormônios pelo córtex da glândula adrenal. Para compreender suas manifestações e classificações, é fundamental revisar o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA) e os hormônios produzidos:

A insuficiência adrenal pode ser classificada em primária ou secundária, dependendo da localização do problema:

🧠 Conceito Chave: A distinção entre insuficiência adrenal primária e secundária é crucial para o diagnóstico e tratamento, e baseia-se principalmente nos níveis de ACTH e aldosterona.

Padrões Hormonais

Os perfis hormonais diferem significativamente entre os tipos de insuficiência adrenal:

Característica Insuficiência Adrenal Primária (Addison) Insuficiência Adrenal Secundária
ACTH Elevado (↑) Baixo (↓) ou Normal
Cortisol Baixo (↓) Baixo (↓)
Androgênios Baixos (↓) Baixos (↓)
Aldosterona Baixa (↓) Normal

Na insuficiência adrenal primária, a destruição do córtex adrenal impede a produção de cortisol, androgênios e aldosterona. A queda do cortisol remove o feedback negativo sobre o eixo HHA, levando a um aumento compensatório do ACTH pela hipófise.

Na insuficiência adrenal secundária, a deficiência de ACTH (devido a problemas hipofisários ou hipotalâmicos) resulta em baixa produção de cortisol e androgênios. No entanto, a produção de aldosterona, que é controlada principalmente pelo SRAA, permanece normal, pois não depende do ACTH.

Etiologia

As causas da insuficiência adrenal variam conforme o tipo:

⚠️ Atenção: A suspensão abrupta de corticoides exógenos é a principal causa de insuficiência adrenal secundária e pode levar a uma crise adrenal grave. O desmame deve ser sempre gradual.

Quadro Clínico

As manifestações clínicas dependem dos hormônios deficientes:

Sintomas Comuns a Ambos os Tipos (Devido à ↓ Cortisol e ↓ Androgênios):
🔎 Diagnóstico Clínico: A tríade de hipotensão, dor abdominal e hipoglicemia deve levantar forte suspeita de insuficiência adrenal.
Sintomas Específicos da Insuficiência Adrenal Primária (Addison)

Estes sintomas ocorrem devido à deficiência de aldosterona e ao aumento compensatório de ACTH:

💡 Dica de Prova: Hiperpigmentação e alterações eletrolíticas (hiponatremia, hipercalemia, acidose) são marcadores importantes que diferenciam a insuficiência adrenal primária da secundária.

Diagnóstico

O diagnóstico da insuficiência adrenal segue uma abordagem em etapas:

Tratamento

O tratamento da insuficiência adrenal visa repor os hormônios deficientes:

🚨 Emergência: Na crise adrenal, a administração imediata de hidrocortisona IV é vital.

Desmame de Corticoide Exógeno

A retirada de corticoides exógenos deve ser cuidadosa para evitar a insuficiência adrenal secundária iatrogênica:

A tabela a seguir apresenta uma sugestão de esquema de desmame, que pode variar conforme a dose inicial e a duração do tratamento:

Dose de Prednisona em Uso Redução da Dose a Cada 2 Semanas
> 40 mg/dia 10 mg
20-40 mg/dia 5 mg
10-20 mg/dia 2,5 mg
5-10 mg/dia 1 mg
< 5 mg/dia Suspender (após avaliação)

É importante conhecer a potência relativa dos diferentes corticoides para calcular doses equivalentes durante o desmame ou na substituição:

Composto Potência Anti-inflamatória Relativa Potência Relativa de Retenção de Sódio Duração da Ação Dose Equivalente Aproximada (mg)
Betametasona 30 0 Longa 0,75
Cortisona 0,8 0,8 Curta 25
Dexametasona 30 0 Longa 0,75
Fludrocortisona 15 125 Curta 0 (mineralocorticoide puro)
Hidrocortisona 1 1 Curta 20
Metilprednisolona 4 0,8 Intermediária 4
Prednisolona 4 0,8 Intermediária 5
Prednisona 5 0,8 Intermediária 5
Triancinolona 4 0 Intermediária 4

Hiperaldosteronismo

O hiperaldosteronismo é uma condição caracterizada pela produção excessiva de aldosterona, um mineralocorticoide que atua nos túbulos coletores renais, promovendo a reabsorção de sódio (e água) em troca de potássio e hidrogênio. O excesso de aldosterona leva a um quadro clínico específico.

Assim como na insuficiência adrenal, o hiperaldosteronismo pode ser classificado em primário ou secundário, dependendo da origem do estímulo:

Epidemiologia (Hiperaldosteronismo Primário)

Quadro Clínico

O excesso de aldosterona provoca as seguintes alterações:

🔎 Diagnóstico Clínico: A tríade de hipertensão grave, hipocalemia e alcalose metabólica em um paciente sem uso de diuréticos é altamente sugestiva de hiperaldosteronismo.

Diagnóstico

O diagnóstico do hiperaldosteronismo envolve a avaliação hormonal e a localização da causa:

🧪 Exame Chave: A razão aldosterona/atividade de renina é o ponto de partida para o diagnóstico de hiperaldosteronismo.

Diferenciação e Tratamento

A tabela abaixo resume as características e abordagens terapêuticas para os tipos de hiperaldosteronismo:

Característica Hiperaldosteronismo Secundário (Hiperreninêmico) Hiperaldosteronismo Primário (Hiporreninêmico)
Renina Elevada (↑) Baixa (↓)
Angiotensina I Elevada (↑) Baixa (↓)
Angiotensina II Elevada (↑) Baixa (↓)
Aldosterona Elevada (↑) Elevada (↑)
Causa Principal Hipofluxo renal (ex: estenose de artéria renal, desidratação, ICC) Adenoma adrenal (Síndrome de Conn) ou Hiperplasia adrenal bilateral
Tratamento Inibidores da Enzima Conversora de Angiotensina (IECA) ou Bloqueadores do Receptor de Angiotensina (BRA) para estenose unilateral de artéria renal. Tratar a causa subjacente. Adenoma: Adrenalectomia unilateral. Hiperplasia Bilateral: Antagonistas do receptor de mineralocorticoide (ex: espironolactona, eplerenona).

No hiperaldosteronismo secundário, o rim detecta um baixo fluxo sanguíneo (ex: estenose de artéria renal), liberando renina. A renina ativa o SRAA, elevando angiotensina II e, consequentemente, aldosterona. O tratamento visa corrigir a causa subjacente, como a estenose da artéria renal. IECA ou BRA são eficazes para controlar a hipertensão, mas devem ser usados com cautela em estenose bilateral de artéria renal devido ao risco de piora da função renal.

No hiperaldosteronismo primário, a adrenal produz aldosterona de forma autônoma. O excesso de aldosterona suprime a liberação de renina por feedback negativo. As principais causas são o adenoma produtor de aldosterona (Síndrome de Conn) e a hiperplasia adrenal bilateral. Para adenomas, a adrenalectomia unilateral é curativa. Para hiperplasia bilateral, o tratamento é clínico com antagonistas do receptor de mineralocorticoide, como a espironolactona ou eplerenona, que bloqueiam os efeitos da aldosterona e controlam a hipertensão e a hipocalemia.

💊 Tratamento: Lembre-se que adenoma adrenal produtor de aldosterona (Síndrome de Conn) é tratado cirurgicamente, enquanto a hiperplasia bilateral responde a antagonistas da aldosterona. Carcinomas adrenais geralmente se manifestam com Síndrome de Cushing, não hiperaldosteronismo primário isolado.

Síndrome de Cushing

A Síndrome de Cushing é uma condição clínica caracterizada pelo excesso crônico de glicocorticoides, principalmente o cortisol, no organismo. Este excesso pode ser endógeno (produzido pelo próprio corpo) ou exógeno (devido ao uso de medicamentos).

Para entender a Síndrome de Cushing, é fundamental relembrar o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal:

O cortisol exerce um feedback negativo sobre o hipotálamo e a hipófise, inibindo a liberação de CRH e ACTH, respectivamente. Na Síndrome de Cushing, esse equilíbrio é perturbado.

Classificação da Síndrome de Cushing

A Síndrome de Cushing é classicamente dividida com base na dependência do ACTH:

Característica ACTH Dependente (Secundária) ACTH Independente (Primária)
Níveis de ACTH Elevados ou Normais Suprimidos (Baixos)
Níveis de Cortisol Elevados Elevados
Mecanismo Excesso de ACTH estimula o córtex adrenal a produzir mais cortisol. O córtex adrenal produz cortisol autonomamente, independentemente do ACTH.
🧠 Lembre-se: Embora os termos "primária" e "secundária" sejam intuitivos, a nomenclatura mais utilizada e preferida em provas é ACTH dependente e ACTH independente.

Causas da Síndrome de Cushing

As causas podem ser endógenas ou exógenas. A causa mais comum na prática clínica é a iatrogenia.

⚠️ Atenção: A principal causa da Síndrome de Cushing no dia a dia é o uso crônico e prolongado de corticoides exógenos (iatrogenia). O paciente apresentará o quadro clínico clássico com histórico de uso de medicamentos.
Causas Endógenas ACTH Dependente

Nesses casos, há um excesso de ACTH que estimula as adrenais a produzirem mais cortisol.

Causas Endógenas ACTH Independente

Nesses casos, o problema reside diretamente na glândula adrenal, que produz cortisol em excesso de forma autônoma, suprimindo a produção de ACTH pela hipófise.

Manifestações Clínicas e Laboratoriais

O excesso crônico de cortisol afeta múltiplos sistemas do corpo, levando a um quadro clínico característico:

Algoritmo Diagnóstico e Terapêutico

O diagnóstico da Síndrome de Cushing segue uma abordagem sistemática em etapas:

1. Suspeita Clínica e Exclusão de Iatrogenia

O primeiro passo é reconhecer as manifestações clínicas sugestivas e, crucialmente, excluir o uso exógeno de glicocorticoides como causa.

2. Confirmação do Hipercortisolismo (Exames de Triagem/Rastreio)

São necessários pelo menos dois exames alterados para confirmar o hipercortisolismo endógeno.

🔎 Diagnóstico: A confirmação da Síndrome de Cushing endógena requer dois ou mais exames de triagem alterados.
3. Dosagem de ACTH Plasmático

Após a confirmação do hipercortisolismo, o próximo passo é dosar o ACTH plasmático para diferenciar entre as causas dependentes e independentes de ACTH.

4. Estabelecimento da Causa Específica e Tratamento

A etapa final envolve testes adicionais para diferenciar as causas ACTH dependentes e planejar o tratamento.

Para ACTH Alto/Normal (ACTH Dependente):
Para ACTH Suprimido (ACTH Independente):
Resumo Terapêutico
Causa Tratamento Principal Tratamento Alternativo/Adjuvante
Doença de Cushing (Adenoma Hipofisário) Cirurgia Transesfenoidal (ressecção do adenoma) Radioterapia, Cetoconazol (inibe síntese de cortisol), Pasireotida (análogo da somatostatina)
Tumor Ectópico Produtor de ACTH Ressecção cirúrgica do tumor ectópico Cetoconazol, Metirapona, Mitotano (para carcinomas adrenais)
Adenoma/Carcinoma/Hiperplasia Adrenal Adrenalectomia (uni ou bilateral, dependendo da lesão) Cetoconazol, Metirapona, Mitotano (para carcinomas)
⚠️ Pegadinha de Prova: Se um paciente apresenta Síndrome de Cushing + ACTH elevado + nódulo em adrenal, a conduta inicial não é adrenalectomia! O ACTH elevado indica que o problema é ACTH dependente, sendo a Doença de Cushing (adenoma hipofisário) a causa mais provável. O nódulo adrenal pode ser um incidentaloma. A investigação deve focar na hipófise (RM de sela túrcica) e nos testes de diferenciação para ACTH dependente.

Incidentaloma Adrenal

Define-se como nódulos ou massas suprarrenais com diâmetro superior a 1 cm, detectados incidentalmente em exames de imagem realizados por outras razões, sem suspeita prévia de doença adrenal.

Epidemiologia

Abordagem Diagnóstica

A avaliação inicial de um incidentaloma adrenal foca em duas questões cruciais: determinar se a lesão é funcionalmente ativa e se possui características de malignidade.

1. Avaliação da Funcionalidade (Funcionante x Não Funcionante)

Para investigar a funcionalidade, é imperativo rastrear as seguintes condições, mesmo na ausência de sintomas clássicos:

2. Avaliação da Malignidade (Benigno x Maligno)

A diferenciação entre lesões benignas e malignas é primariamente realizada por meio de características radiológicas em exames de imagem, como a tomografia computadorizada (TC) de abdome sem e com contraste.

Característica de Imagem Adenoma Benigno Carcinoma/Feocromocitoma
Tamanho Geralmente < 4 cm Maior risco se > 4 cm
Contorno Regular Irregular
Densidade (pré-contraste) < 10 HU > 25-30 HU
Wash-out (10 min) > 60% < 60%

Tratamento

A indicação para tratamento cirúrgico (adrenalectomia) é baseada na avaliação de funcionalidade e malignidade:

💡 High Yield Note: Os hormônios mais frequentemente secretados por adenomas adrenais funcionantes são, em primeiro lugar, o cortisol, seguido pelas catecolaminas.

Genes Envolvidos (Curiosidade)

A seguir, uma tabela com alguns dos genes associados a diferentes tipos de tumores adrenais, para fins de aprofundamento e curiosidade genética:

Condição Adrenal Genes Associados
Adenomas Secretores de Aldosterona KCNJ5, ATP1A1, ATP2B3, CACNA1D, ARMCS
Adenomas Adrenais Não-Funcionantes Benignos menin (MEN1), CTNNB1, CYP21A2 (CAH), APC (FAP)
Carcinoma Adrenocortical TP53 (Síndrome de Li-Fraumeni), ZNRF3, CTNNB1, IGF-2 (Síndrome de Beckwith-Wiedemann), CDKN2A, RB1, menin (MEN1), DAXX
Adenomas Secretores de Cortisol GNAS (Síndrome de McCune-Albright), PRKAR1A (Complexo de Carney), PDE11A, PDE8B, PRKACA, ARMCS
Feocromocitoma SDHA, SDHB, SDHC, SDHD, SDHAF2, VHL, RET (MEN 2), MAX, TMEM127

Hiperplasia Adrenal Congênita (HAC)

A Hiperplasia Adrenal Congênita (HAC) é um grupo de distúrbios genéticos autossômicos recessivos que afetam a esteroidogênese adrenal. Caracteriza-se pela deficiência de uma enzima essencial na via de síntese do cortisol. A consequente redução dos níveis de cortisol estimula a liberação excessiva de ACTH pela hipófise, resultando em hiperplasia das glândulas adrenais e acúmulo de precursores hormonais, como androgênios e, em alguns casos, mineralocorticoides.

🧠 Conceito Chave: A deficiência da enzima 21-hidroxilase é responsável por 90-95% dos casos de Hiperplasia Adrenal Congênita.

Fisiopatologia e Consequências

Na HAC, especialmente na deficiência de 21-hidroxilase, ocorre um bloqueio na síntese de cortisol e aldosterona, levando a uma série de consequências clínicas:

Quadro Clínico

A manifestação clínica da HAC é variável e depende diretamente da enzima deficiente e do grau de sua atividade residual. A deficiência de 21-hidroxilase, sendo a mais comum, apresenta as seguintes formas:

1. Forma Clássica (Deficiência Grave de 21-Hidroxilase)

Corresponde a aproximadamente 75% dos casos e é caracterizada por deficiência acentuada de cortisol e aldosterona. Pode ser dividida em:

2. Forma Não-Clássica (Deficiência Leve de 21-Hidroxilase)

Apresenta deficiência parcial de cortisol, com produção de aldosterona geralmente preservada. Os sintomas são mais brandos e surgem na infância, adolescência ou vida adulta.

🔎 Dica de Diagnóstico Diferencial: Em recém-nascidos com vômitos e desidratação, a HAC perdedora de sal pode ser confundida com estenose hipertrófica de piloro. A diferenciação é crucial:
Condição Distúrbio Eletrolítico/Ácido-Base
Estenose Hipertrófica de Piloro Alcalose Metabólica + Hipocalemia
HAC Perdedora de Sal Acidose Metabólica + Hipercalemia + Hiponatremia
Outras Causas de Síndrome Virilizante

No diagnóstico diferencial de síndromes virilizantes, além da HAC, devem ser consideradas condições como hirsutismo idiopático, síndrome de resistência à insulina hiperandrogênica e tumores ovarianos ou suprarrenais.

Deficiência de 11-Beta-Hidroxilase

Esta é outra causa de HAC que se apresenta com síndrome virilizante, mas sem perda de sal. Pelo contrário, ocorre hipertensão e hipocalemia, devido ao acúmulo de desoxicortisol (DOC), que possui efeito mineralocorticoide semelhante ao da aldosterona.

Diagnóstico

O diagnóstico da HAC é estabelecido com base em achados laboratoriais característicos:

Tratamento

O tratamento da HAC visa repor os hormônios deficientes e suprimir a produção excessiva de androgênios:


Doenças da Medula Adrenal

Feocromocitoma

O feocromocitoma é uma neoplasia rara, originada das células cromoafins da medula adrenal ou de gânglios simpáticos para-aórticos (neste caso, denominado paraganglioma). Caracteriza-se pela produção e secreção excessiva de catecolaminas (adrenalina, noradrenalina e, em menor grau, dopamina), resultando em uma síndrome clínica variada, frequentemente marcada por hipertensão arterial.

Conceitos Essenciais

Este tumor é uma proliferação de células cromoafins, responsáveis pela síntese de catecolaminas. Embora a maioria seja benigna e unilateral, é crucial reconhecer suas variações para um manejo adequado e para compreender o prognóstico.

🧠 Regra dos 10: Esta regra é um mnemônico importante para lembrar das características atípicas do feocromocitoma, que podem indicar um prognóstico mais reservado ou a necessidade de uma investigação mais aprofundada:

Etiologia e Formas de Apresentação

A maioria dos feocromocitomas é esporádica, mas uma parcela significativa possui uma base genética, associada a síndromes hereditárias específicas que devem ser investigadas, especialmente em casos atípicos ou em pacientes jovens.

Síndrome Hereditária Características Clínicas Associadas
NEM 2A (Neoplasia Endócrina Múltipla Tipo 2A) Carcinoma Medular de Tireoide (CMT) + Hiperparatireoidismo Primário
NEM 2B (Neoplasia Endócrina Múltipla Tipo 2B) Carcinoma Medular de Tireoide (CMT) + Neuromas Mucosos (lábios, língua) + Biotipo Marfanoide
Síndrome de Von Hippel-Lindau Angioma Retiniano + Hemangioblastoma Cerebelar + Hipernefroma (Carcinoma de Células Renais)
Neurofibromatose Hereditária Tipo 1 Neurofibromas (tumores benignos de nervos) + Manchas Café com Leite (máculas hiperpigmentadas na pele)

Manifestações Clínicas

A clínica do feocromocitoma é classicamente caracterizada por paroxismos adrenérgicos, resultantes da liberação intermitente ou contínua de catecolaminas. A intensidade e frequência dos sintomas podem variar amplamente.

🚨 Crise de Feocromocitoma: Uma manifestação aguda e severa, que representa uma emergência médica e exige manejo imediato em unidade de terapia intensiva (UTI). Pode ser classificada em:

Abordagem Diagnóstica

O diagnóstico do feocromocitoma envolve a suspeita clínica, a confirmação bioquímica da superprodução de catecolaminas e seus metabólitos, e a localização do tumor por exames de imagem.

Suspeita Clínica

A suspeita de feocromocitoma deve ser levantada em pacientes com os seguintes achados:

Confirmação Bioquímica

A dosagem de catecolaminas e seus metabólitos é fundamental para confirmar o diagnóstico. As metanefrinas são consideradas os marcadores mais fidedignos devido à sua produção contínua pelo tumor, independentemente da liberação paroxística de catecolaminas.

Exame Bioquímico Características Utilidade Clínica
Metanefrinas Fracionadas Plasmáticas Alta sensibilidade, mas com baixa especificidade. Bom para rastreamento, mas pode apresentar falsos positivos, exigindo confirmação.
Metanefrinas Fracionadas Urinárias (24h) Alta sensibilidade e alta especificidade. Considerado o padrão-ouro para a confirmação bioquímica do diagnóstico.
Ácido Vanilmandélico (AVM) Urinário Baixa sensibilidade. Não é mais recomendado para o diagnóstico de feocromocitoma devido à sua baixa acurácia e alta taxa de falsos negativos.
🧪 Dica de Laboratório: As metanefrinas são metabólitos O-metilados das catecolaminas (noradrenalina e adrenalina) e são produzidas de forma contínua dentro do tumor. Isso as torna mais estáveis e menos sujeitas a flutuações do que as próprias catecolaminas, refletindo melhor a produção tumoral basal e conferindo maior acurácia diagnóstica.
Exames de Imagem

Após a confirmação bioquímica, a localização precisa do tumor é essencial para o planejamento cirúrgico. A escolha do método de imagem depende da suspeita clínica e da disponibilidade.

Manejo da Crise de Feocromocitoma

A crise adrenérgica é uma emergência médica que requer intervenção rápida e agressiva para estabilizar o paciente e prevenir danos a órgãos-alvo.

Tratamento Definitivo

O tratamento definitivo do feocromocitoma é cirúrgico, mas exige um preparo pré-operatório rigoroso para minimizar os riscos de complicações intra e pós-operatórias.

Preparo Pré-Operatório

O preparo é crucial para prevenir crises hipertensivas e arritmias durante a cirurgia, que podem ser fatais. Dura aproximadamente 10 a 14 dias.

⚠️ Ordem do Bloqueio: É absolutamente fundamental iniciar o alfa-bloqueio ANTES do beta-bloqueio. Se o beta-bloqueio for feito primeiro, os receptores beta-2 (que promovem vasodilatação) seriam bloqueados, deixando os receptores alfa-1 (que promovem vasoconstrição) sem oposição. Isso levaria a uma vasoconstrição severa e descontrolada, com risco de crise hipertensiva grave, infarto do miocárdio ou acidente vascular cerebral. O alfa-bloqueio previne essa vasoconstrição, permitindo que o beta-bloqueio seja introduzido com segurança para controlar a taquicardia sem o risco de exacerbar a hipertensão. Lembre-se da ordem "alfabética": primeiro alfa, depois beta.
Cirurgia

A adrenalectomia é o tratamento curativo para o feocromocitoma.

Pós-Operatório

O período pós-operatório exige atenção a possíveis complicações e monitoramento a longo prazo.