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Doenças da Paratireoide


Conceitos Iniciais

Metabolismo do Cálcio

O cálcio é um eletrólito essencial com funções cruciais na fisiologia humana, incluindo contração muscular, transmissão nervosa, coagulação sanguínea e mineralização óssea. Sua homeostase é rigorosamente regulada por hormônios como o Paratormônio (PTH) e a Vitamina D.

A ingestão diária recomendada de cálcio é de aproximadamente 1000 mg. Desse total, cerca de 35% (350 mg) é absorvido no intestino delgado, um processo significativamente facilitado pela forma ativa da Vitamina D. Concomitantemente, aproximadamente 250 mg de cálcio são secretados diariamente no trato gastrointestinal e eliminados nas fezes, resultando em uma excreção fecal de cerca de 90% do cálcio ingerido.

Nos rins, cerca de 10% do cálcio circulante é filtrado. No entanto, a vasta maioria (aproximadamente 99%) desse cálcio filtrado é reabsorvida nos túbulos renais, um processo que é ativamente modulado pelo PTH, garantindo a manutenção dos níveis séricos adequados.

🧠 Lembre-se: A homeostase do cálcio é um equilíbrio delicado entre absorção intestinal, reabsorção renal e troca com o tecido ósseo, todos finamente regulados por PTH e Vitamina D.

Síntese e Ativação da Vitamina D

A Vitamina D, fundamental para a absorção de cálcio, pode ser obtida de duas principais fontes: síntese cutânea e ingestão dietética/suplementar.

Independentemente da origem, a Vitamina D passa por duas hidroxilações para se tornar biologicamente ativa:

  1. No fígado, a 25-hidroxilase converte o colecalciferol em 25-hidroxivitamina D (calcidiol), que é a principal forma circulante e o melhor indicador do status de Vitamina D no organismo.
  2. Nos rins, a 1-α-hidroxilase converte o calcidiol em 1,25-di-hidroxivitamina D (calcitriol), a forma mais ativa da Vitamina D. A atividade dessa enzima é estimulada pelo PTH e pela hipofosfatemia, e inibida pelo próprio calcitriol e pelo FGF-23.

O calcitriol atua principalmente no epitélio intestinal, aumentando a absorção de cálcio e fósforo, e também no osso, promovendo a reabsorção óssea em conjunto com o PTH.

Ação do Paratormônio (PTH)

O PTH é um hormônio peptídico secretado pelas glândulas paratireoides em resposta à hipocalcemia. Suas principais ações visam elevar os níveis séricos de cálcio:

💡 Dica: O PTH é o principal regulador da calcemia. Sua ação direta é aumentar o cálcio e diminuir o fósforo sérico, enquanto a Vitamina D ativa aumenta ambos.

Hiperparatireoidismo Primário (HPP)

O hiperparatireoidismo primário é uma condição endócrina caracterizada pela secreção excessiva e autônoma de Paratormônio (PTH) por uma ou mais glândulas paratireoides, resultando em hipercalcemia. É a terceira endocrinopatia mais comum, superada apenas pelo diabetes mellitus e pelas doenças da tireoide.

Causas

A etiologia do HPP é predominantemente benigna, com as seguintes causas:

Achados Laboratoriais

O perfil laboratorial clássico do HPP reflete a ação do PTH em excesso:

🧪 Diagnóstico: A tríade laboratorial de PTH elevado, cálcio elevado e fósforo baixo é altamente sugestiva de hiperparatireoidismo primário.

Manifestações Clínicas

O HPP pode ser assintomático em muitos pacientes, sendo frequentemente descoberto em exames de rotina. Quando presentes, os sintomas são variados e resultam principalmente da hipercalcemia crônica e do efeito do PTH nos ossos e rins. As manifestações podem ser lembradas pela mnemônica "stones, bones, abdominal groans, and psychic moans":

Consequências do Aumento do PTH

O excesso de PTH leva a uma série de alterações fisiológicas que culminam nos achados clínicos e laboratoriais observados no HPP:

Tratamento

A paratireoidectomia é o único tratamento curativo para o HPP. A decisão de realizar a cirurgia depende da presença de sintomas ou de critérios específicos em pacientes assintomáticos.

Paratireoidectomia: Indicações

Avaliação Pré-operatória

Quando há indicação cirúrgica, é fundamental localizar a glândula paratireoide hiperfuncionante. Os exames de imagem mais utilizados são:

Manejo Conservador

Para pacientes assintomáticos que não preenchem os critérios para paratireoidectomia, o manejo é conservador, com acompanhamento regular. Isso inclui:

Complicações Pós-Cirúrgicas

Após a paratireoidectomia para um adenoma solitário, algumas complicações podem ocorrer:

Manejo da Hipercalcemia

Abordagem

Passo 1: Correção do Cálcio Total

É crucial corrigir o valor do cálcio sérico total em relação à albumina, pois apenas a fração ionizada do cálcio é biologicamente ativa. Em casos de hipoalbuminemia, o cálcio total pode estar falsamente baixo.

Passo 2: Identificação da Etiologia (Dosagem de PTH)

Após a correção do cálcio, o próximo passo é dosar o PTH para diferenciar as principais causas de hipercalcemia. A relação entre PTH e cálcio é fundamental para o diagnóstico diferencial.

Principais Causas de Hipercalcemia
Causa Nível de PTH Perfil do Paciente Características Adicionais
Hiperparatireoidismo Primário Alto ou inapropriadamente normal Mais jovem, ambulatorial, bom estado geral Hipercalcemia crônica, frequentemente assintomática ou com sintomas leves.
Neoplasia (Malignidade) Baixo (suprimido) Idoso, internado, pior estado geral Hipercalcemia aguda e grave. Mecanismos:
  • Hipercalcemia Humoral da Malignidade (HHM) por PTHrP (peptídeo relacionado ao PTH) – mais comum.
  • Metástases osteolíticas locais.
  • Síntese de Vitamina D ativa (calcitriol) por células cancerígenas (ex: linfomas).
⚠️ Atenção: O PTHrP mimetiza a ação do PTH, elevando o cálcio, mas suprime a secreção de PTH endógeno, resultando em PTH baixo. Este é o mecanismo mais cobrado em provas!
Hipervitaminose D Baixo (suprimido) Doenças granulomatosas (sarcoidose, tuberculose), uso exógeno/suplementação excessiva Aumento da absorção intestinal de cálcio. Ausência de lesão óssea significativa, diferenciando-a da hipercalcemia por neoplasia.

Tratamento Agudo da Hipercalcemia

O tratamento da hipercalcemia aguda visa reduzir rapidamente os níveis de cálcio para prevenir complicações graves, enquanto se investiga e trata a causa subjacente.

1. Hidratação Venosa

A hidratação é a primeira linha de tratamento para a hipercalcemia sintomática. A hipercalcemia causa poliúria e desidratação, o que agrava a concentração de cálcio sérico.

2. Inibidores da Reabsorção Óssea

Esses agentes atuam inibindo a liberação de cálcio do osso, sendo cruciais no tratamento da hipercalcemia, especialmente a de origem maligna.

Agentes de Efeito Sustentado (24-48h)
Agentes de Efeito Imediato e Transitório
3. Glicocorticoides (Casos Específicos)

Os glicocorticoides são eficazes em situações específicas de hipercalcemia:

Atuam aumentando a excreção renal de cálcio e reduzindo sua absorção intestinal. A prednisona (40-100 mg/dia, em doses divididas) é a droga padrão.

4. Avaliação da Refratariedade

Em casos de hipercalcemia grave e refratária às terapias convencionais, ou quando a hidratação vigorosa é contraindicada, outras opções podem ser consideradas:


Hiperparatireoidismo Secundário

O hiperparatireoidismo secundário (HPS) é uma condição caracterizada pela produção excessiva de Paratormônio (PTH) pelas glândulas paratireoides, que ocorre em resposta a um estímulo crônico de hipocalcemia. Diferente do hiperparatireoidismo primário, onde a disfunção é intrínseca à glândula, no HPS a elevação do PTH é uma tentativa compensatória do organismo para manter os níveis séricos de cálcio dentro da normalidade.

Etiologia

As principais causas que levam ao desenvolvimento do hiperparatireoidismo secundário são condições que resultam em hipocalcemia crônica, estimulando a secreção de PTH:

🧠 Lembre-se: Na prática clínica, a diferenciação entre as causas de HPS pode ser complexa, mas em provas de residência, o nível de fosfato sérico é a chave para distinguir entre hipovitaminose D e Doença Renal Crônica!

Laboratório: Como Diferenciar em Prova?

A análise dos níveis séricos de cálcio, fosfato e PTH é crucial para o diagnóstico e diferenciação etiológica do hiperparatireoidismo secundário. O fosfato é o principal marcador para distinguir as duas causas mais comuns:

Parâmetro Hipovitaminose D Doença Renal Crônica
PTH Elevado (↑) Elevado (↑)
Cálcio Baixo (↓) Baixo (↓)
Fosfato Baixo (↓) ou Normal Elevado (↑)
Calcitriol (1,25(OH)2D) Baixo (↓) Baixo (↓)

Osteíte Fibrosa Cística

A osteíte fibrosa cística é a principal manifestação óssea do hiperparatireoidismo crônico e severo, especialmente na Doença Renal Crônica. O excesso persistente de PTH leva a uma intensa atividade osteoclástica, resultando em reabsorção óssea acentuada. Em um esforço para reparar o dano, os osteoblastos tentam formar novo osso, mas a deficiência de cálcio e vitamina D impede uma mineralização adequada, levando à formação de tecido fibroso e cistos ósseos.

Diagnóstico Laboratorial

Os achados laboratoriais típicos do hiperparatireoidismo secundário incluem:

Achados Radiológicos Característicos

A osteíte fibrosa cística pode ser identificada por achados radiológicos específicos:

Tratamento

O tratamento do hiperparatireoidismo secundário visa controlar os fatores que estimulam a secreção de PTH e prevenir as complicações ósseas e cardiovasculares. As abordagens variam conforme a causa e o estágio da doença renal.

Manejo na Doença Renal Crônica (DRC)

Hiperparatireoidismo Refratário

Quando o tratamento clínico não consegue controlar os níveis de PTH ou surgem complicações graves, a paratireoidectomia (remoção cirúrgica das glândulas paratireoides) pode ser necessária. As indicações incluem:


Hipoparatireoidismo

O hipoparatireoidismo é uma condição endócrina rara caracterizada pela deficiência na produção ou ação do Paratormônio (PTH), resultando em distúrbios do metabolismo do cálcio e fosfato. A principal consequência da redução do PTH é a hipocalcemia e a hiperfosfatemia.

🧠 Lembre-se: As principais funções do PTH são: Portanto, a deficiência de PTH levará a: Hipocalcemia e Hiperfosfatemia.

Etiologia e Classificação

Hipoparatireoidismo Primário

É a forma mais comum e resulta da deficiência direta de PTH. As causas incluem:

Clínica: Sinais e Sintomas de Hipocalcemia

Os sintomas são predominantemente neuromusculares e surgem da hipocalcemia. A gravidade depende da magnitude e da velocidade da queda do cálcio:

Diagnóstico

O diagnóstico do hipoparatireoidismo primário é confirmado pela tríade laboratorial:

Tratamento

O objetivo é normalizar os níveis de cálcio e aliviar os sintomas.

⚠️ Atenção: O tratamento crônico do hipoparatireoidismo requer doses substanciais de cálcio e vitamina D, o que pode levar ao risco de hipercalciúria. É fundamental monitorar a excreção urinária de cálcio para prevenir nefrocalcinose e nefrolitíase. Diuréticos tiazídicos podem ser utilizados para reduzir a excreção urinária de cálcio, se necessário.

Hipoparatireoidismo Funcional (Hipomagnesemia)

A hipomagnesemia grave pode levar a um hipoparatireoidismo funcional, pois o magnésio é essencial para a secreção de PTH e para a ação do PTH nos tecidos-alvo.

Pseudohipoparatireoidismo

É uma condição hereditária rara caracterizada pela resistência dos órgãos-alvo ao PTH, ou seja, as glândulas paratireoides produzem PTH normalmente (ou em excesso), mas os tecidos (ossos e rins) não respondem adequadamente.

Comparativo - Relação Cálcio e Fosfato

Condição Cálcio Sérico Fosfato Sérico
Hiperparatireoidismo Primário Alto (↑) Baixo (↓)
Hipoparatireoidismo Baixo (↓) Alto (↑)
Intoxicação por Vitamina D Alto (↑) Alto (↑)
Deficiência de Vitamina D Baixo (↓) Baixo (↓)

Distúrbios do Fosfato e Magnésio

Distúrbios do Fosfato

Distúrbio Nível Sérico Mecanismo/Causa Principal Tratamento
Hipofosfatemia < 2,5 mg/dL Hiperparatireoidismo primário, deficiência de Vitamina D, cetoacidose diabética (após insulina), síndrome de realimentação. Reposição de fosfato (KH2PO4 IV em casos graves).
Hiperfosfatemia > 4,5 mg/dL Hipoparatireoidismo primário, intoxicação por Vitamina D, trauma/rabdomiólise, Doença Renal Crônica (DRC), lise tumoral. Quelantes de fosfato, restrição dietética, diálise em casos graves.

Distúrbios do Magnésio

Distúrbio Nível Sérico Mecanismo/Causa Principal Tratamento
Hipomagnesemia < 1,5 mg/dL Diarreia, alcoolismo, "fome óssea" (após paratireoidectomia), uso de diuréticos, inibidores de bomba de prótons. Reposição de magnésio (oral ou IV).
Hipermagnesemia > 2,5 mg/dL Doença Renal Crônica (DRC), ingestão excessiva (antiácidos, laxantes), tratamento de eclâmpsia (sulfato de magnésio), iatrogenia. Hidratação IV, diuréticos de alça, gluconato de cálcio (para estabilizar membrana cardíaca), diálise em casos graves.