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Doenças da Tireoide


Conceitos

Anatomia e Fisiologia da Glândula Tireoide

Anatomia da Tireoide

A glândula tireoide, com formato que lembra um escudo, localiza-se na região anterior do pescoço, abraçando a traqueia. Em um adulto saudável, seu peso médio é de aproximadamente 20 gramas. Um aumento significativo nesse peso, detectável por exames como a ultrassonografia (por exemplo, 40g ou 60g), indica a presença de bócio, ou seja, um aumento glandular.

🧠 Conceito Chave: O peso normal da tireoide é de 20g. Valores acima indicam bócio.

Eixo Hipotálamo-Hipófise-Tireoide (HHT)

A secreção dos hormônios tireoidianos é finamente regulada pelo eixo HHT. O Hormônio Liberador de Tireotropina (TRH), produzido pelo hipotálamo, atua nos tireotrofos da hipófise anterior, estimulando a liberação do Hormônio Tireoestimulante (TSH). O TSH, por sua vez, é o principal controlador da tireoide, uma das maiores glândulas endócrinas, que secreta a Tiroxina (T4) e a Tri-iodotironina (T3).

Cerca de 93% dos hormônios liberados pela tireoide são T4, enquanto apenas 7% são T3. Contudo, nos tecidos periféricos, a maior parte do T4 é convertida em T3, que é a forma biologicamente mais ativa e aproximadamente quatro vezes mais potente que o T4. Apesar de sua potência, o T3 possui uma meia-vida mais curta e está presente em menor concentração no sangue.

Após a liberação na corrente sanguínea, os hormônios tireoidianos ligam-se a proteínas plasmáticas, como a Globulina Ligadora de Tiroxina (TBG). Devido a essa alta afinidade, especialmente do T4, a liberação para as células-alvo ocorre de forma lenta. Uma vez nas células, esses hormônios se ligam a proteínas intracelulares, são armazenados e utilizados gradualmente ao longo de dias ou semanas.

O controle da secreção tireoidiana é mantido por mecanismos de feedback. Em altas concentrações, os hormônios tireoidianos (T3 e T4) exercem um feedback negativo, inibindo a liberação de TSH pela hipófise e de TRH pelo hipotálamo. Inversamente, quando os níveis hormonais estão reduzidos, ocorre um feedback positivo, estimulando a hipófise e o hipotálamo a aumentar a liberação de TSH e TRH, respectivamente.

💡 Dica de Prova: Lembre-se do feedback negativo para T3/T4 e positivo para TRH/TSH na regulação do eixo.

Fisiologia da Produção Hormonal

Folículo Tireoidiano e Célula Folicular

A unidade morfofuncional da tireoide é o folículo tireoidiano. Milhões desses folículos compõem a glândula, e é a célula folicular, que reveste o folículo, a responsável pela produção dos hormônios tireoidianos.

A célula folicular possui uma capacidade única de concentrar iodeto da dieta, atingindo concentrações até 20 vezes maiores do que em outras células do corpo. Esse iodeto é o substrato essencial para a síntese hormonal.

Síntese dos Hormônios Tireoidianos

A produção dos hormônios tireoidianos (T3 e T4) depende da combinação de tireoglobulina (uma glicoproteína produzida pela própria célula folicular) e iodo (proveniente da dieta). A enzima crucial nesse processo é a Tireoperoxidase (TPO), que catalisa a iodação da tireoglobulina e o acoplamento das iodotirosinas.

O processo de síntese envolve as seguintes etapas:

⚠️ Atenção: A TPO é a enzima mais importante na produção hormonal. Anticorpos anti-TPO são a principal causa de hipotireoidismo no Brasil (Tireoidite de Hashimoto). Inibidores da TPO (como propiltiouracil e metimazol) são usados no tratamento do hipertireoidismo (ex: Doença de Graves).
Conversão Periférica de T4 em T3

A tireoide produz aproximadamente 20 vezes mais T4 do que T3. No entanto, o T3 é o hormônio biologicamente ativo. Por isso, existe uma importante conversão periférica de T4 em T3, catalisada pelas enzimas desiodases.

💊 Tratamento: O propiltiouracil (PTU) é uma droga antitireoidiana que, além de inibir a TPO, também inibe a desiodase tipo 1, reduzindo a conversão periférica de T4 em T3.
Peculiaridades da Glândula Tireoide
Diagrama do eixo hipotálamo-hipófise-tireoide e síntese hormonal

Células Parafoliculares (Células C)

Além das células foliculares, a tireoide abriga as células parafoliculares, também conhecidas como células C. Essas células são responsáveis pela produção de calcitonina. Embora a calcitonina tenha um papel na regulação do cálcio em algumas espécies, sua importância fisiológica no ser humano é mínima, sendo a paratireoide a principal responsável por esse controle.

🚨 Alerta: As células C são clinicamente relevantes por serem a origem do Carcinoma Medular de Tireoide, um tipo específico de câncer de tireoide.

Funções dos Hormônios Tireoidianos

Os hormônios tireoidianos exercem múltiplas funções essenciais para o metabolismo e desenvolvimento do organismo:

🧠 Conceito: As funções dos hormônios tireoidianos explicam muitos dos sintomas observados no hipo e hipertireoidismo (ex: taquicardia, intolerância ao calor/frio, alterações neurológicas).

Autorregulação dos Hormônios Tireoidianos pelo Iodo

A célula folicular possui um mecanismo de "ajuste fino" para controlar a produção hormonal em resposta à variação na disponibilidade de iodo. Em indivíduos com função tireoidiana normal:

Esse mecanismo de autorregulação é crucial para evitar distúrbios tireoidianos em resposta a flutuações dietéticas de iodo.

⚠️ Atenção: Esse controle fino é perdido quando há uma doença subjacente na glândula tireoide, o que pode levar a efeitos paradoxais com a exposição ao iodo.

Efeitos do Iodo em Glândulas Doentes

Em pacientes com doença tireoidiana preexistente, a exposição a grandes quantidades de iodo pode desencadear ou agravar distúrbios da função tireoidiana.

Efeito de Wolff-Chaikoff

O Efeito de Wolff-Chaikoff descreve o hipotireoidismo induzido por excesso de iodo. Ocorre em indivíduos com uma tireoide já comprometida (por exemplo, com tireoidite de Hashimoto subclínica) que perdem a capacidade de "escapar" do efeito inibitório do iodo sobre a organificação e síntese hormonal. A exposição ao iodo, nesse contexto, suprime ainda mais a produção hormonal, levando ao hipotireoidismo clínico.

🔎 Diagnóstico: Pense em Wolff-Chaikoff em pacientes com hipotireoidismo de base (ex: anti-TPO positivo) que desenvolvem hipotireoidismo após exposição a iodo.
Fenômeno de Jod-Basedow

O Fenômeno de Jod-Basedow é o oposto, caracterizando o hipertireoidismo induzido por excesso de iodo. Ele ocorre em pacientes com uma tireoide que já "quer" produzir muito hormônio, como na Doença de Graves ou em nódulos tireoidianos tóxicos (autônomos). Nesses casos, o fornecimento de substrato (iodo) em grande quantidade estimula ainda mais a produção hormonal, levando ao hipertireoidismo clínico.

🔎 Diagnóstico: Considere Jod-Basedow em pacientes com hipertireoidismo de base (ex: Doença de Graves, nódulo tóxico) que pioram após exposição a iodo.
Fontes de Iodo Exógeno

Além do sal de cozinha iodado (medida de saúde pública desde 1956), outras fontes importantes de iodo que podem desencadear esses fenômenos incluem:

💊 Farmacologia: A amiodarona é um exemplo clássico de medicamento que pode causar disfunção tireoidiana devido ao seu alto teor de iodo.

Avaliação Laboratorial dos Distúrbios Tireoidianos

Entendendo o Eixo Endócrino e a Topografia dos Distúrbios

A compreensão do eixo TRH (Hipotálamo) → TSH (Hipófise) → T3/T4 (Tireoide) é fundamental para a interpretação dos exames laboratoriais e a topografia do distúrbio:

🧠 Conceito: O TSH é o principal marcador para diferenciar distúrbios primários (tireoide) de secundários/terciários (hipófise/hipotálamo).

Medidas Hormonais Importantes

TSH (Hormônio Tireoestimulante)

O TSH é o exame mais sensível para o rastreio e diagnóstico de distúrbios tireoidianos. Seu valor de referência geralmente varia entre 0,5 e 5,0 mUI/L.

🧪 Exame Essencial: O TSH é o grande exame de rastreio para disfunções tireoidianas devido à sua alta sensibilidade.
T4 Livre (Tiroxina Livre)

O T4 Livre é a fração não ligada a proteínas plasmáticas e, portanto, biologicamente ativa. Seu valor de referência geralmente varia entre 0,7 e 1,8 ng/dL.

🧠 Conceito: O T4 Livre é a forma ativa e não é afetado por variações na TBG, sendo crucial para a avaliação da função tireoidiana.
T3 (Tri-iodotironina)

O T3 é o hormônio biologicamente mais ativo, mas é produzido em menor quantidade pela tireoide e possui uma meia-vida mais curta. Seu valor de referência para T3 Total geralmente varia entre 80 e 200 ng/dL.

Por que dosar principalmente o T4 e não o T3?

O T4 é geralmente o hormônio preferencial para dosagem inicial porque ele se altera primeiro que o T3, sendo mais sensível para detectar disfunções. A dosagem de T3 é mais indicada em situações específicas, como na suspeita de tireotoxicose por T3.

Por que dosar o T4 Livre?

A dosagem do T4 Livre é preferível porque a fração de T4 ligada à TBG (T4 Total) pode ser influenciada por diversos fatores que alteram os níveis de TBG, como gravidez, uso de estrogênios, cirrose (aumentam TBG) ou síndrome nefrótica, hiperandrogenismo (diminuem TBG). O eixo endócrino corrige a fração livre, mantendo-a estável, mesmo com variações na TBG.

Alterações da TBG e Exames Laboratoriais

É importante reconhecer como as alterações na TBG podem afetar o T4 Total, enquanto o T4 Livre e o TSH permanecem normais, indicando uma função tireoidiana eutireoidiana.

Padrão Laboratorial Causa Exemplos Clínicos
T4 Total Diminuído, T4 Livre e TSH Normais Diminuição da TBG Síndrome Nefrótica, Hiperandrogenismo
T4 Total Aumentado, T4 Livre e TSH Normais Aumento da TBG Gravidez, Cirrose (situações de Hiperestrogenismo)
💡 Dica de Prova: Em casos de T4 Total alterado com T4 Livre e TSH normais, a causa provável é uma alteração na TBG, e não uma disfunção tireoidiana.

Padrões Laboratoriais dos Distúrbios Tireoidianos

A interpretação conjunta de TSH e T4 Livre permite classificar os principais distúrbios da tireoide:

Distúrbio T4 Livre TSH
Hipertireoidismo Primário
Hipertireoidismo Secundário
Hipotireoidismo Primário
Hipotireoidismo Secundário
🧠 Conceito: Memorize esses padrões! São fundamentais para o diagnóstico diferencial em provas de residência.

Bócios

Bócio é o termo utilizado para descrever o aumento da glândula tireoide. O principal fator responsável pelo seu surgimento é o aumento crônico do TSH, que estimula o crescimento glandular. Bócios podem ser causados tanto por condições de hipotireoidismo (onde o TSH está elevado na tentativa de estimular uma tireoide hipofuncionante) quanto por hipertireoidismo (como na Doença de Graves, onde autoanticorpos estimulam o receptor de TSH, levando ao crescimento glandular e à hiperfunção).

🔎 Diagnóstico: Bócio é um sinal de alteração tireoidiana, mas não indica por si só hipo ou hipertireoidismo; a função hormonal deve ser avaliada.

Tireotoxicose e Hipertireoidismo

Hipertireoidismo vs Tireotoxicose

É crucial distinguir entre esses dois termos, que, embora relacionados, não são sinônimos:

🧠 Conceito Chave: Toda condição de hipertireoidismo causa tireotoxicose, mas nem toda tireotoxicose é causada por hipertireoidismo. A tireotoxicose é a manifestação clínica do excesso hormonal, enquanto o hipertireoidismo é uma das causas desse excesso, especificamente quando a própria glândula está hiperativa.

Tireotoxicose

Etiologia da Tireotoxicose

A tireotoxicose pode ter diversas origens, sendo a principal o hipertireoidismo primário. A seguir, as principais causas:

Com Hipertireoidismo (Hiperfunção da Glândula)
💡 Dica de Prova: O termo "tóxico" no nome (Bócio Multinodular Tóxico, Adenoma Tóxico) geralmente indica hipertireoidismo primário, ou seja, a própria tireoide está hiperfuncionante.
Sem Hipertireoidismo (Sem Hiperfunção da Glândula)

Quadro Clínico da Tireotoxicose

Os sintomas da tireotoxicose são predominantemente resultado do aumento dos receptores beta-adrenérgicos e da elevação do metabolismo basal. O excesso de hormônios tireoidianos (T3 e T4) não aumenta diretamente a quantidade de adrenalina, mas sim a sensibilidade do organismo a ela, amplificando seus efeitos.

Manifestações Clínicas Comuns
💊 Tratamento Sintomático: O tratamento inicial da tireotoxicose, independentemente da causa, frequentemente inclui betabloqueadores não seletivos (como o propranolol) para controlar os sintomas adrenérgicos, como taquicardia e tremor.
🚨 High Yield Note: As 3 principais causas de descarga adrenérgica que costumam ser cobradas em provas são: Tireotoxicose, Feocromocitoma e Hipoglicemia.

Diagnóstico Diferencial da Tireotoxicose: Cintilografia e RAIU

A cintilografia da tireoide com iodo radioativo (RAIU - Captação de Iodo Radioativo) é fundamental para diferenciar as causas de tireotoxicose, especialmente entre aquelas com e sem hipertireoidismo. O valor normal de captação de iodo em 24 horas varia entre 5-30%.

Característica Tireotoxicose COM Hipertireoidismo (Ex: Doença de Graves) Tireotoxicose SEM Hipertireoidismo (Ex: Tireoidite, Factícia)
Captação de Iodo Radioativo (RAIU 24h) Elevada (geralmente > 35%) Baixa ou Suprimida (geralmente < 5%)
Cintilografia (Imagem) Hipercaptação difusa (em Graves) ou captação em nódulos (em Bócio Multinodular Tóxico/Adenoma Tóxico) Ausência de captação na tireoide (glândula "fria")
Mecanismo Aumento da síntese e liberação hormonal pela glândula hiperativa Liberação de hormônios pré-formados (tireoidite) ou ingestão exógena (factícia); glândula inibida

Doença de Graves

A Doença de Graves, também conhecida como bócio difuso tóxico, é a causa mais comum de hipertireoidismo primário, sendo uma doença autoimune caracterizada pela produção excessiva de hormônios tireoidianos.

Epidemiologia

Fisiopatologia

A Doença de Graves é uma condição autoimune mediada por autoanticorpos que estimulam a tireoide:

Quadro Clínico

Além dos sintomas gerais de tireotoxicose já mencionados, a Doença de Graves apresenta achados específicos que a distinguem:

Manifestações Gerais de Tireotoxicose
Achados Específicos da Doença de Graves
Hipertireoidismo Apático

Em idosos, o quadro clínico da tireotoxicose pode ser atípico, com predominância de sintomas cardiovasculares e miopáticos, como fibrilação atrial, insuficiência cardíaca, astenia, fraqueza muscular e depressão grave. Esse padrão é conhecido como "hipertireoidismo apático", onde os sintomas neurológicos e subjetivos são menos proeminentes do que em pacientes mais jovens.

Diagnóstico

O diagnóstico da Doença de Graves baseia-se na combinação de achados clínicos, laboratoriais e de imagem:

⚠️ Pegadinha de Prova: Se o paciente apresenta clínica de tireotoxicose, mas com TSH normal e T4 Livre alto, a principal hipótese é hipertireoidismo secundário (adenoma hipofisário secretor de TSH). Na Doença de Graves, o TSH estaria suprimido.
Exames Complementares para Confirmação e Diferenciação

Tratamento da Doença de Graves

O tratamento da Doença de Graves geralmente segue uma abordagem escalonada, começando com medicamentos e progredindo para terapias ablativas se necessário.

1. Tratamento Medicamentoso

É a primeira linha de tratamento para a maioria dos pacientes.

⚠️ Efeitos Colaterais das DAT: Os efeitos adversos mais graves, embora raros, são hepatite (mais comum com PTU) e agranulocitose (comum a ambos). Pacientes devem ser orientados a procurar atendimento médico imediato em caso de febre ou faringite, que podem ser sinais iniciais de agranulocitose.
🎯 Alvo Terapêutico: O objetivo do tratamento medicamentoso é normalizar os níveis de T4 Livre (entre 0,9 e 2,0 ng/dL). O TSH pode permanecer suprimido por um tempo prolongado, não sendo o alvo inicial da terapia.
2. Iodo Radioativo (I-131)

É uma terapia ablativa que destrói as células foliculares tireoidianas.

3. Tireoidectomia (Total ou Subtotal)

A remoção cirúrgica da tireoide é uma opção definitiva.

Preparo Pré-operatório para Tireoidectomia

Para minimizar riscos cirúrgicos, como sangramento excessivo e crise tireotóxica, um preparo rigoroso é essencial:

Complicações Pós-operatórias da Tireoidectomia

A tireoidectomia, embora eficaz, não é isenta de riscos:

Complicação Descrição Consequências
Hematoma Cervical Acúmulo de sangue na região cervical. É a complicação mais temida. Insuficiência respiratória aguda por compressão de vias aéreas e edema de glote. Conduta: reabordagem cirúrgica da ferida; se falha, traqueostomia.
Lesão do Nervo Laríngeo Recorrente Pode ser unilateral ou bilateral. É a complicação mais grave em termos de função vocal/respiratória. Unilateral: Rouquidão. Bilateral: Insuficiência respiratória grave (paralisia das cordas vocais).
Lesão do Nervo Laríngeo Superior Lesão de um ramo do nervo vago. Alteração no timbre da voz, dificuldade em atingir notas agudas.
Hipoparatireoidismo Lesão ou remoção acidental das glândulas paratireoides. É a complicação mais comum, geralmente transitória. Hipocalcemia, que pode levar a tetania, sinal de Chvostek e sinal de Trousseau.

Bócio Multinodular Tóxico (BMT)

O Bócio Multinodular Tóxico é uma condição caracterizada pela presença de múltiplos nódulos tireoidianos que se tornam autônomos e hiperfuncionantes, resultando em tireotoxicose. É mais prevalente em mulheres acima de 50 anos e frequentemente se desenvolve a partir de um bócio multinodular atóxico preexistente, devido a mutações no receptor de TSH que levam à produção hormonal autônoma.

🧠 Conceito Chave: Múltiplos nódulos autônomos e hiperfuncionantes, com histórico comum de bócio atóxico prévio.

Quadro Clínico

A apresentação clínica do BMT geralmente envolve uma tireotoxicose de intensidade mais leve em comparação com outras causas, mas com manifestações cardiovasculares importantes. Além disso, sintomas compressivos são comuns devido ao aumento do volume da glândula.

Diagnóstico

O diagnóstico do BMT é estabelecido pela avaliação laboratorial da função tireoidiana e por exames de imagem específicos.

Tratamento

As opções terapêuticas visam controlar a hiperfunção da tireoide e reduzir o volume do bócio.

Adenoma Tóxico (Doença de Plummer)

O Adenoma Tóxico, também conhecido como Doença de Plummer, é caracterizado por um nódulo tireoidiano solitário, geralmente com mais de 3 cm, que se torna autônomo e hiperfuncionante. Embora possa haver mais de um nódulo, a apresentação clássica é de um único nódulo dominante. A condição resulta de uma mutação pontual somática no receptor de TSH, levando à ativação constitutiva e produção hormonal constante.

💡 Dica: Diferente do BMT, o Adenoma Tóxico é tipicamente um nódulo solitário e grande (> 3 cm).

Quadro Clínico

Os pacientes com Adenoma Tóxico geralmente apresentam um nódulo palpável na tireoide, acompanhado de sinais e sintomas de tireotoxicose, que podem ser oligossintomáticos (poucos sintomas) ou mais evidentes.

Diagnóstico

O diagnóstico é confirmado por exames laboratoriais e de imagem.

Tratamento

As opções de tratamento visam eliminar o nódulo hiperfuncionante.

A diferenciação entre as diversas causas de hipertireoidismo é crucial para o manejo adequado. A cintilografia de tireoide é uma ferramenta diagnóstica fundamental para distinguir entre as etiologias mais comuns.

Característica Doença de Graves Adenoma Tóxico (Plummer) Bócio Multinodular Tóxico (BMT)
Bócio Difuso Nódulo único Multinodular
Cintilografia Captação difusa e homogênea Nódulo único hipercaptante Vários nódulos hipercaptantes

Crise Tireotóxica ("Tempestade Tireoidiana")

A crise tireotóxica, ou tempestade tireoidiana, representa uma exacerbação grave e com risco de vida de um quadro de hipertireoidismo.

Conceito e Etiologia

Fatores Precipitantes

Diversos fatores podem desencadear uma crise tireotóxica em pacientes com hipertireoidismo preexistente:

Fisiopatologia

A crise tireotóxica é caracterizada por um aumento exacerbado da sensibilidade aos efeitos das catecolaminas, somado a um aumento súbito e significativo dos níveis de T4 Livre, levando a uma sobrecarga metabólica e disfunção multissistêmica.

Quadro Clínico

As manifestações clínicas são variadas e graves, afetando múltiplos sistemas orgânicos.

🚨 Alerta: As manifestações neurológicas são um sinal de gravidade e devem ser prontamente reconhecidas.

Diagnóstico

O diagnóstico é clínico, baseado na presença de tireotoxicose e disfunção orgânica, e é auxiliado pelos Critérios de Burch e Wartofsky.

Critério Pontos
Temperatura (°C)
37,2-37,7 5
37,8-38,3 10
38,4-38,8 15
38,9-39,4 20
39,5-39,9 25
≥ 40 30
Frequência Cardíaca
99-109 5
110-119 10
120-129 15
130-139 20
≥ 140 25
Sistema Nervoso Central
Normal 0
Agitação 10
Delírio/Psicose 20
Convulsão/Coma 30
Fibrilação Atrial
Ausente 0
Presente 10
Trato Gastrointestinal
Normal 0
Diarreia e Vômito 10
Icterícia 20
Insuficiência Cardíaca Congestiva
Ausente 0
Edema de MMII 5
Crepitações em bases 10
Edema pulmonar 15
Fator Desencadeante
Ausente 0
Presente 10

Interpretação do Escore de Burch e Wartofsky:

Tratamento

O tratamento da crise tireotóxica é uma emergência e envolve medidas de suporte, identificação e tratamento dos fatores precipitantes, e uso de drogas específicas para bloquear a síntese e liberação de hormônios tireoidianos, além de controlar os sintomas periféricos.


Síndrome do Eutireoideo Doente (SETD)

A Síndrome do Eutireoideo Doente é uma condição em que pacientes com doenças sistêmicas graves apresentam alterações nos testes de função tireoidiana, mas sem disfunção primária da glândula tireoide. A tireoide é anatomicamente e funcionalmente normal; as alterações laboratoriais são uma resposta adaptativa a um estado inflamatório sistêmico, com elevação de citocinas e cortisol, e consequente catabolismo.

Relembrando as Desiodases

As desiodases são enzimas essenciais para o metabolismo dos hormônios tireoidianos, convertendo T4 em T3 (forma ativa) ou T3 Reverso (T3R, forma inativa).

Laboratório

As alterações laboratoriais na SETD variam com a gravidade da doença sistêmica.

⚠️ Atenção: O T4 Total tem relação direta com o prognóstico do paciente. Quanto mais baixo, pior o prognóstico. Níveis de T4 Total < 4 µg/dL aumentam a mortalidade, e < 2 µg/dL podem indicar mortalidade de até 80%.
🧪 Exame: Na Síndrome do Eutireoideo Doente, a dosagem do T4 Livre pode não ser confiável devido a alterações nas proteínas ligadoras.

Após a Recuperação Clínica

Com a melhora da doença de base, o eixo hipotálamo-hipófise-tireoide e a atividade das desiodases tendem a normalizar. No entanto, pode haver um aumento transitório do TSH (geralmente um pouco acima do limite superior da normalidade, mas < 10-20 mUI/L) antes da completa normalização dos níveis de T3 e T4.

🧠 Lembre-se: Não há sentido em dosar a função tireoidiana em pacientes "inflamados" ou gravemente enfermos, pois os resultados podem ser enganosos devido à SETD.

Tratamento

O tratamento da Síndrome do Eutireoideo Doente consiste exclusivamente em abordar e tratar a causa base da doença sistêmica. A reposição de hormônios tireoidianos não é indicada e pode ser prejudicial.


Tireoidites

As tireoidites são um grupo heterogêneo de doenças inflamatórias da glândula tireoide. Elas podem ser agudas, subagudas ou crônicas, e frequentemente evoluem por fases distintas, que podem incluir tireotoxicose, hipotireoidismo e, eventualmente, eutireoidismo.

Classificação

Tireoidite Granulomatosa Subaguda (De Quervain)

É uma inflamação dolorosa da tireoide, frequentemente precedida por uma infecção viral. É mais comum em mulheres entre 20 e 40 anos.

🔎 Diagnóstico: O dado mais marcante da Tireoidite de Quervain é a dor intensa na tireoide, geralmente pós-viral.

Tireoidite Aguda

💊 Amiodarona e Tireoide: A amiodarona, devido ao seu alto teor de iodo e depósito tecidual, pode causar diversas disfunções tireoidianas: A amiodarona pode permanecer no corpo por semanas após a suspensão, explicando seus efeitos colaterais prolongados.

Tireoidite Crônica (Doença de Hashimoto)

A Tireoidite de Hashimoto, ou tireoidite linfocítica crônica, é a principal causa de hipotireoidismo no Brasil e uma doença autoimune comum, com pico de incidência em mulheres entre 40 e 60 anos.

Laboratório

Tratamento

Sintomas do Hipotireoidismo

O hipotireoidismo pode se manifestar com uma ampla gama de sintomas, afetando múltiplos sistemas do corpo:


Hipotireoidismo

O hipotireoidismo é uma condição endócrina caracterizada pela produção insuficiente de hormônios tireoidianos (T3 e T4) pela glândula tireoide, resultando em uma desaceleração generalizada do metabolismo corporal. É uma das disfunções tireoidianas mais comuns e pode se manifestar de diversas formas, desde quadros subclínicos até emergências como o coma mixedematoso.

Quadro Clínico

As manifestações clínicas do hipotireoidismo são variadas e refletem a redução da atividade metabólica em diversos sistemas do corpo. Os sintomas se desenvolvem insidiosamente e podem ser inespecíficos, dificultando o diagnóstico inicial.

🧠 Conceito Chave: O hipotireoidismo é um estado de hipometabolismo generalizado, e seus sintomas são uma expressão direta da deficiência de hormônios tireoidianos em diversos tecidos.

Diagnóstico

O diagnóstico do hipotireoidismo baseia-se na avaliação laboratorial dos níveis de TSH (Hormônio Estimulante da Tireoide) e T4 Livre (Tiroxina Livre), frequentemente complementado pela dosagem de anticorpos anti-TPO (anti-tireoperoxidase) para identificar a etiologia autoimune.

Causas

As causas do hipotireoidismo variam conforme o tipo (primário, central ou subclínico), sendo a tireoidite de Hashimoto a etiologia mais comum do hipotireoidismo primário em regiões com iodo suficiente.

Conduta Diagnóstica

A abordagem diagnóstica visa identificar a causa subjacente do hipotireoidismo para guiar o tratamento adequado.

Tratamento

O tratamento do hipotireoidismo consiste na reposição hormonal com levotiroxina (T4 sintético), que é convertida em T3 no organismo, mimetizando a função da tireoide.

Hipotireoidismo Subclínico

Como mencionado, o hipotireoidismo subclínico é caracterizado por TSH elevado e T4 Livre normal. A conduta inicial é a confirmação e, em seguida, a avaliação da necessidade de tratamento.

💡 Dica de Prova: O valor de TSH considerado normal geralmente varia entre 0,5 e 5,0 mUI/L. Um TSH persistentemente acima desse limite, com T4L normal, configura hipotireoidismo subclínico.

Quando Tratar o Hipotireoidismo Subclínico?

A decisão de tratar o hipotireoidismo subclínico não é universal e depende de fatores de risco e sintomas do paciente. O tratamento é indicado nas seguintes situações:

Coma Mixedematoso

O coma mixedematoso é uma emergência médica rara, mas grave, que representa a forma mais extrema e descompensada do hipotireoidismo, com alta mortalidade se não tratada prontamente.


Hipotireoidismo Congênito

O hipotireoidismo congênito é uma condição que se manifesta ao nascimento, caracterizada pela deficiência de hormônios tireoidianos. É de extrema importância devido ao seu impacto no desenvolvimento neurológico.

Conceitos

Esta é a principal causa de deficiência mental reversível no mundo, se diagnosticada e tratada precocemente. A detecção e intervenção nos primeiros dias de vida são cruciais para prevenir sequelas neurológicas permanentes.

Etiologia

As causas do hipotireoidismo congênito são classificadas em primárias (problema na própria tireoide) ou secundárias/centrais (problema no eixo hipotálamo-hipófise).

Quadro Clínico

A maioria dos recém-nascidos com hipotireoidismo congênito é assintomática ao nascimento (mais de 95%). Isso se deve à passagem de hormônios tireoidianos maternos pela placenta e, em alguns casos, à produção residual de hormônios pela tireoide do bebê. Os sintomas tendem a se desenvolver mais tardiamente.

⚠️ Atenção: A icterícia neonatal prolongada é a manifestação inicial mais comum e um ponto chave para provas de residência!

Rastreamento

O rastreamento universal é essencial para o diagnóstico precoce e a prevenção da deficiência mental.

Programa Nacional de Triagem Neonatal (PNTN) do Brasil - TSH

Valor de TSH (mU/L) Interpretação Conduta
< 10 Resultado normal Nenhuma conduta adicional.
10 - 20 Resultado limítrofe Convocar para novo teste do pezinho (repetir TSH).
> 20 Sugestivo de hipotireoidismo Convocar com urgência para consulta médica e dosagem venosa de T4 Livre e TSH.

Tratamento

O tratamento deve ser iniciado o mais rápido possível para garantir o desenvolvimento neurológico adequado.


Nódulo Tireoidiano

Nódulos tireoidianos são achados extremamente comuns na população geral, sendo a grande maioria benigna. A principal preocupação na avaliação de um nódulo é diferenciar lesões benignas de malignas e determinar sua funcionalidade.

Conceitos Iniciais

Fatores de Risco para Malignidade em Nódulos Tireoidianos

💡 Dica: Não se deve realizar PAAF (Punção Aspirativa por Agulha Fina) em todo nódulo tireoidiano. A abordagem inicial deve ser estratificada com base na função tireoidiana e características ultrassonográficas.

Abordagem Diagnóstica

A avaliação de um nódulo tireoidiano segue um fluxograma bem definido para otimizar a detecção de malignidade e evitar procedimentos desnecessários.

  1. Anamnese e Exame Físico: Coleta de histórico de irradiação, história familiar, avaliação de características do nódulo (consistência, mobilidade, presença de linfadenopatia).
  2. Primeiro Passo Laboratorial: Dosagem de TSH.

    A avaliação da função tireoidiana é o ponto de partida. Nódulos malignos geralmente não alteram a função tireoidiana (são "frios" ou "não funcionantes").

🔎 Lembre-se: A PAAF fornece um diagnóstico citológico, não histopatológico. A confirmação histopatológica geralmente requer biópsia cirúrgica.

Características Suspeitas na Ultrassonografia (USG)

A USG é fundamental para avaliar as características morfológicas do nódulo e estratificar o risco de malignidade. Nódulos com as seguintes características são considerados suspeitos:

Classificação de Chammas para Vascularização

A avaliação do padrão de vascularização ao Doppler na USG pode auxiliar na estratificação de risco:

⚠️ Alerta: Padrões Chammas IV e V são mais sugestivos de malignidade e indicam maior necessidade de PAAF.

Nódulo Iso/Hiperecoico sem Características Suspeitas

Mesmo nódulos com características ultrassonográficas benignas (iso ou hiperecoicos, sem os achados suspeitos acima) podem necessitar de PAAF se forem de tamanho considerável. Considerar PAAF se o nódulo for maior que 1,5-2,0 cm.

Classificação de Bethesda para PAAF

O resultado da PAAF é interpretado e classificado de acordo com o Sistema Bethesda para Relato de Citopatologia da Tireoide (TBSRTC), que padroniza a comunicação e orienta a conduta.

Classe Bethesda Risco de Malignidade Descrição Citológica Conduta Recomendada
I 1-5% Insatisfatório/Não Diagnóstico Repetir PAAF (com USG)
II 0-3% Benigno Acompanhamento clínico e ultrassonográfico (USG a cada 1-2 anos)
III 5-15% Atipia de Significado Indeterminado (AUS) ou Lesão Folicular de Significado Indeterminado (FLUS) Repetir PAAF ou considerar teste molecular/cirurgia
IV 15-30% Neoplasia Folicular ou Suspeita de Neoplasia Folicular Cirurgia (lobectomia) ou teste molecular
V 65-75% Suspeito de Malignidade Cirurgia (tireoidectomia total ou lobectomia)
VI 97-100% Maligno Cirurgia (tireoidectomia total ou lobectomia)

(*) Nota sobre Classes III/IV: Para essas categorias indeterminadas, o teste molecular pode ser útil. Se não houver mutações genéticas associadas a malignidade, o nódulo pode ser manejado como benigno (Classe II). Se mutações forem detectadas, a conduta se assemelha à de um nódulo suspeito de malignidade (Classe V).

Classificação TIRADS

O Thyroid Imaging Reporting and Data System (TIRADS) é um sistema de classificação ultrassonográfica que padroniza a descrição dos nódulos e estratifica o risco de malignidade, orientando a necessidade de PAAF.

Pontuação das Características do Nódulo

A classificação ACR TIRADS atribui pontos a diferentes características ultrassonográficas dos nódulos tireoidianos para estratificar o risco de malignidade.

Característica Descrição Pontos
Composição Cístico ou quase completamente cístico 0
Espongiforme 0
Misto cístico e sólido 1
Sólido ou quase completamente sólido 2
Ecogenicidade Anecoico 0
Hiperecoico ou isoecoico 1
Hipoecoico 2
Muito hipoecoico 3
Formato Mais largo que alto (Wider-than-tall) 0
Mais alto que largo (Taller-than-wide) 3
Margem Lisa (Smooth) 0
Mal definida (Ill-defined) 0
Lobulada ou irregular 2
Extensão extratireoidiana 3
Focos Ecogênicos Nenhum ou artefatos em cauda de cometa grandes 0
Macrocalcificações 1
Calcificações periféricas (em anel) 2
Focos ecogênicos puntiformes 3

Classificação e Conduta de PAAF

A soma dos pontos das características do nódulo determina a categoria TIRADS, que orienta o risco de malignidade e o limiar de tamanho para a realização de PAAF.

TIRADS Pontos Totais Risco de Malignidade (%) Limiar para Biópsia por PAAF (mm)
TR1 0 0.3 Sem biópsia
TR2 2 1.5 Sem biópsia
TR3 3 4.8 25
TR4 4 a 6 9.1 15
TR5 7+ 35.0 10

Características Altamente Suspeitas para TIRADS


Câncer de Tireoide

Conceitos Iniciais

Tipos Histológicos de Câncer de Tireoide

O câncer de tireoide é classificado em diferentes tipos histológicos, que variam em prevalência, agressividade e prognóstico. A distinção principal é entre carcinomas bem diferenciados e pouco diferenciados.

Carcinomas Bem Diferenciados

Os carcinomas bem diferenciados representam a maioria dos casos de câncer de tireoide, correspondendo a aproximadamente 90% das neoplasias malignas da glândula. Caracterizam-se por um bom prognóstico e, geralmente, afetam mulheres jovens, na faixa etária de 20 a 40 anos. Os principais representantes são o carcinoma papilífero e o carcinoma folicular.

🧠 Lembre-se: Um câncer bem diferenciado significa que as células neoplásicas mantêm características morfológicas e funcionais muito próximas às das células tireoidianas normais, o que geralmente implica em um comportamento menos agressivo e um prognóstico mais favorável, com a função tireoidiana frequentemente preservada.
Carcinomas Pouco Diferenciados

Em contraste, os carcinomas pouco diferenciados são menos comuns, representando cerca de 9% dos casos, e possuem um prognóstico menos favorável devido à sua maior agressividade e menor semelhança com as células tireoidianas normais. Incluem o carcinoma medular e o carcinoma anaplásico.

Estadiamento: Escores de Risco (AMES/AGES)

O estadiamento do câncer de tireoide é crucial para determinar a conduta terapêutica e o prognóstico. Escores como AMES e AGES são utilizados para classificar o risco da lesão, embora o bom senso clínico seja sempre fundamental. Pacientes jovens, do sexo feminino, com tumores pequenos e confinados à tireoide, sem metástases a distância e bem diferenciados, geralmente apresentam baixo risco. O oposto indica alto risco.

Fator Baixo Risco Alto Risco
Idade < 40 anos > 40 anos
Sexo Feminino Masculino
Extensão Tumoral Tumor confinado à tireoide, sem invasão capsular ou extratireoidiana Extensão extratireoidiana, com invasão capsular
Metástase Ausente Presente
Tamanho < 2 cm > 4 cm
Grau de Diferenciação Bem diferenciado Pouco diferenciado

Carcinoma Papilífero de Tireoide

O carcinoma papilífero é o tipo mais comum de câncer de tireoide, representando a maioria dos casos bem diferenciados. É mais prevalente em mulheres jovens, entre 20 e 40 anos, e possui um prognóstico excelente.

Características Principais

Diagnóstico e Tratamento

💡 Dica: A irradiação na infância é um fator de risco bem estabelecido para o desenvolvimento de carcinoma papilífero, devido à indução de rearranjos no gene RET/PTC.

Carcinoma Folicular de Tireoide

O carcinoma folicular é o segundo tipo mais comum de câncer de tireoide, também classificado como bem diferenciado. Acomete predominantemente mulheres, geralmente em uma faixa etária mais avançada, entre 40 e 60 anos.

Características Principais

Desafio Diagnóstico e Tratamento

O diagnóstico do carcinoma folicular apresenta uma particularidade importante. A PAAF, embora útil, não é capaz de diferenciar com certeza um carcinoma folicular de um adenoma folicular (uma lesão benigna), pois ambos podem apresentar aumento de células foliculares na citologia.

⚠️ Atenção: A PAAF não diferencia carcinoma folicular de adenoma folicular! O diagnóstico definitivo exige histopatológico da peça cirúrgica para evidenciar invasão capsular ou vascular.

Subtipo: Carcinoma de Células de Hürthle

Uma variante mais agressiva e menos diferenciada do carcinoma folicular é o carcinoma de células de Hürthle. Este subtipo tem disseminação linfática, pior prognóstico e menor resposta ao radioiodo.

Característica Carcinoma Papilífero Carcinoma Folicular
Tipo Bem diferenciado Bem diferenciado
Prevalência Mais comum (90% dos bem diferenciados) 2º mais comum (10-15% dos bem diferenciados)
Idade/Sexo Mulher, 20-40 anos Mulher, 40-60 anos
Prognóstico Excelente Bom
Crescimento Lento Variável
Disseminação Linfática Hematogênica
Associações Irradiação, mutações BRAF/RAS/RET/PTC, corpos psamomatosos Deficiência de iodo, mutações RAS/PAX8-PPARγ
Diagnóstico PAAF (citologia) Histopatológico (invasão capsular/vascular) – PAAF não diferencia de adenoma
Tratamento Cirúrgico < 1cm e sem risco: Parcial
> 1cm ou com risco: Total
< 15a ou irradiação: Total
< 2cm e sem risco: Parcial (se CA, totalizar)
> 2cm ou com risco: Total

Carcinoma de Células de Hürthle

O carcinoma de células de Hürthle é uma variante do carcinoma folicular, caracterizada por ser mais agressiva e menos diferenciada. Apresenta um citoplasma eosinofílico e granular, com células grandes conhecidas como oncócitos.

Características e Tratamento

Seguimento Pós-Tireoidectomia para Câncer de Tireoide

Após a tireoidectomia, o seguimento é fundamental para detectar recorrências e otimizar o tratamento, visando a supressão do TSH e a monitorização de marcadores tumorais.

Estratégias de Seguimento
💊 Tratamento e Seguimento: A supressão do TSH com levotiroxina é crucial. A ablação com iodo radioativo é considerada se a tireoglobulina estiver elevada (> 1-2 ng/mL) ou se houver evidência de doença residual/recorrente na USG ou cintilografia.

Carcinoma Medular de Tireoide (CMT)

O carcinoma medular de tireoide (CMT) é uma neoplasia neuroendócrina que se origina das células C parafoliculares da tireoide, responsáveis pela produção de calcitonina.

Características e Associações

Diagnóstico e Tratamento

🧬 Genética: A pesquisa da mutação no proto-oncogene RET é vital no CMT, tanto para o diagnóstico quanto para o rastreamento familiar e aconselhamento genético, permitindo intervenções profiláticas.

Carcinoma Anaplásico ou Indiferenciado

O carcinoma anaplásico é o tipo mais agressivo e menos diferenciado de câncer de tireoide, felizmente o mais raro, representando cerca de 2% das neoplasias tireoidianas.

Características e Prognóstico

Diagnóstico e Tratamento

🚨 Emergência: O carcinoma anaplásico é uma emergência oncológica devido à sua rápida invasão local e metástases, frequentemente causando obstrução de vias aéreas e compressão de estruturas vitais.
🧠 Conceito Chave para Prova: Lembre-se que o carcinoma folicular é o único subtipo de câncer de tireoide bem diferenciado que não pode ter seu diagnóstico definitivo estabelecido apenas pela PAAF, necessitando de exame histopatológico da peça cirúrgica para avaliar invasão capsular ou vascular.