Doenças do Metabolismo Ósseo
Raquitismo e Osteomalácia
Raquitismo e osteomalácia são distúrbios da mineralização óssea que afetam a qualidade e a resistência do esqueleto. Embora compartilhem a mesma fisiopatologia básica, suas manifestações clínicas e radiológicas diferem dependendo da idade do paciente e do estado das placas epifisárias.
Revisão de Conceitos Essenciais
Para entender o raquitismo e a osteomalácia, é fundamental relembrar o papel de alguns componentes chave no metabolismo ósseo:
- Paratormônio (PTH):
- Estimula a reabsorção óssea, liberando cálcio e fósforo para a corrente sanguínea.
- Ativa a vitamina D nos rins.
- Aumenta a reabsorção renal de cálcio e diminui a de fósforo.
- Vitamina D:
- Essencial para a absorção intestinal de cálcio e fósforo, que são a matéria-prima para a formação óssea.
- Cálcio e Fósforo:
- São os principais minerais que compõem a matriz óssea, conferindo-lhe rigidez e força.
O processo de turnover ósseo, ou remodelação óssea, é contínuo e passa por quatro etapas principais:
- Reabsorção: Realizada pelos osteoclastos, que removem o tecido ósseo antigo.
- Formação da Matriz: Os osteoblastos sintetizam a matriz orgânica (osteóide).
- Mineralização: Deposição de cálcio e fósforo na matriz osteoide.
- Diferenciação: Osteoblastos se diferenciam em osteócitos, que são células ósseas maduras.
🧠 Conceito: A mineralização óssea é um processo crítico. No raquitismo e osteomalácia, há um defeito na deposição de cálcio e fósforo na matriz óssea.
Definição e Etiologia
Ambas as condições são distúrbios da mineralização óssea, resultando em ossos moles e frágeis. A etiologia principal é a deficiência de:
- Cálcio: Geralmente por baixa ingestão ou deficiência de vitamina D.
- Vitamina D: Causas incluem baixa exposição solar, dieta inadequada, síndromes disabsortivas, doenças hepáticas ou renais que afetam seu metabolismo.
- Fósforo: Por baixa ingestão ou perda renal excessiva.
- Fosfatase Alcalina: Em casos de hipofosfatasia, uma doença genética rara.
Essa deficiência pode ser adquirida (ex: baixa ingesta, síndrome disabsortiva, uso de certos medicamentos) ou congênita (ex: raquitismo hipofosfatêmico ligado ao X).
Manifestações Clínicas
As consequências clínicas são amplas e incluem:
- Fraturas por fragilidade: Ocorre com traumas mínimos.
- Dores difusas: Principalmente nos ossos e articulações.
- Fraqueza muscular: Contribuindo para dificuldades de locomoção.
- Síndrome de imobilidade: E suas consequências secundárias, como atrofia muscular e risco de trombose.
Achados Radiológicos Característicos
- Raquitismo: Caracterizado pelo sinal de "osso em taça", que se refere ao alargamento e irregularidade da placa epifisária (cartilagem de crescimento) devido à mineralização inadequada.
- Osteomalácia: Apresenta as "zonas de Looser" (ou pseudofracturas), que são regiões perpendiculares de radiotransparência no córtex ósseo, indicando áreas de osso não mineralizado que se assemelham a fraturas.
Tratamento
O tratamento é etiológico, ou seja, depende da causa subjacente. O objetivo é repor o que está faltando:
- Deficiência de Cálcio: Suplementação de cálcio.
- Deficiência de Vitamina D: Suplementação de vitamina D (colecalciferol ou ergocalciferol).
- Deficiência de Fósforo: Suplementação de fósforo.
- Hipofosfatasia: Terapia de reposição enzimática com alfa-alfosfatase.
| Característica |
Raquitismo |
Osteomalácia |
| População Afetada |
Crianças (placas epifisárias abertas) |
Adultos (placas epifisárias fechadas) |
| Local da Desmineralização |
Placa epifisária (cartilagem de crescimento) |
Osso cortical e trabecular |
| Consequências Específicas |
- Atraso do crescimento (baixa estatura)
- Atraso no fechamento das fontanelas
- Deformidades nos ossos longos (ex: pernas arqueadas)
- Deformidades da coluna (rosário raquítico)
- Comprometimento da dentição
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- Dores ósseas difusas
- Fraqueza muscular proximal
- Fraturas por fragilidade
- Zonas de Looser (pseudofracturas)
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| Achado Radiológico Típico |
"Osso em taça" |
"Zonas de Looser" |
Doença de Paget Óssea
A Doença de Paget Óssea é um distúrbio focal e crônico do metabolismo ósseo, caracterizado por um aumento desorganizado do remodelamento ósseo. Isso leva à formação de osso estruturalmente anormal, mais frágil e propenso a deformidades.
Epidemiologia e Fisiopatologia
- Epidemiologia: Afeta predominantemente homens com mais de 55 anos de idade.
- Fisiopatologia: Inicia-se com um aumento da atividade dos osteoclastos (células que reabsorvem o osso), seguido por uma atividade compensatória, mas desorganizada, dos osteoblastos (células que formam o osso). Esse ciclo acelerado e caótico de reabsorção e formação resulta em um crescimento ósseo excessivo, mas com uma arquitetura desorganizada e enfraquecida.
- A doença pode ser monostótica (localizada em um único osso) ou poliostótica (difusa, afetando múltiplos ossos).
A causa exata da Doença de Paget ainda é pouco compreendida, mas suspeita-se de uma interação entre fatores genéticos e ambientais, com a infecção viral (especialmente por paramixovírus) sendo um dos principais fatores investigados.
⚠️ Atenção: O osso na Doença de Paget é excessivo, mas de má qualidade, o que o torna mais suscetível a fraturas e deformidades.
Quadro Clínico
A maioria dos pacientes com Doença de Paget é assintomática e o diagnóstico é feito incidentalmente. No entanto, quando presentes, os sintomas podem incluir:
- Dor óssea: Localizada e persistente, é o sintoma mais comum.
- Deformidades ósseas: Como arqueamento dos ossos longos (tíbia, fêmur) ou aumento do tamanho do crânio.
- Fraturas: Por fragilidade óssea.
- Artrose: Secundária às alterações na arquitetura óssea e no alinhamento articular.
- Compressão nervosa: Especialmente no crânio e coluna, podendo levar à perda auditiva (compressão do nervo auditivo) ou radiculopatias.
- Insuficiência Cardíaca de Alto Débito: Uma complicação rara, mas grave, devido ao aumento da vascularização óssea e da demanda metabólica, que sobrecarrega o coração.
🚨 Emergência: A Doença de Paget é uma causa de insuficiência cardíaca de alto débito, um conceito importante para provas de residência.
Achados Laboratoriais e Diagnóstico
- Laboratório: Os níveis séricos de cálcio e fósforo geralmente são normais. O achado laboratorial mais característico é o aumento significativo da fosfatase alcalina (FA), que reflete a intensa atividade osteoblástica.
- Diagnóstico: É estabelecido pela combinação de dados clínico-laboratoriais e exames de imagem.
- Radiografia (RX): Pode mostrar espessamento cortical, aumento do tamanho ósseo e áreas de esclerose ou lise. No RX de coluna lombar, pode-se observar o aspecto de "moldura", devido ao espessamento das corticais superior e inferior das vértebras.
- Cintilografia Óssea: É o exame mais sensível para identificar a extensão da doença, mostrando áreas de aumento da captação do radiofármaco nas regiões de maior atividade metabólica óssea.
Tratamento
O tratamento é indicado para pacientes sintomáticos ou aqueles com doença ativa e risco de complicações, mesmo que assintomáticos (ex: lesões em ossos de carga, compressão nervosa, aumento significativo da FA). O objetivo é reduzir a dor, prevenir complicações e normalizar o remodelamento ósseo.
- Primeira Opção (Medicamentosa): Ácido Zoledrônico 5mg IV (infusão única). É o bifosfonato de escolha devido à sua potência e longa duração de ação.
- Segunda Opção (Medicamentosa): Calcitonina, embora menos utilizada atualmente.
- Outros Bifosfonatos: Alendronato, risedronato, pamidronato, tiludronato e etidronato podem ser usados como alternativas, administrados por via oral ou intravenosa (pamidronato).
- Manejo da Dor: Analgésicos comuns, como paracetamol e anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), podem ser utilizados para aliviar a dor óssea.
- Medidas de Suporte: Elevadores de calcanhar podem auxiliar na marcha em casos de encurtamento de membros.
- Cirurgia: Pode ser necessária para aliviar a compressão nervosa ou para substituir articulações gravemente afetadas por osteoartrite secundária à doença.
💊 Tratamento High Yield: O ácido zoledrônico intravenoso é a terapia de primeira linha para a Doença de Paget Óssea ativa ou sintomática.