Imagem de Capa

Obesidade


Conceitos Iniciais

Definições e Classificação

A obesidade é caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal, que pode levar a prejuízos à saúde. O principal método de classificação é o Índice de Massa Corporal (IMC), calculado pela divisão do peso (em kg) pela altura ao quadrado (em m²).

Fisiopatologia da Obesidade

A obesidade resulta de um desequilíbrio crônico entre a ingestão calórica e o gasto energético, onde as calorias consumidas superam as calorias gastas. Este processo é multifatorial, envolvendo aspectos genéticos, ambientais e a complexa modulação central e periférica do apetite.

Moduladores do Apetite

O controle do apetite é regulado por um intrincado sistema de sinais no hipotálamo (moduladores centrais) e hormônios liberados por órgãos periféricos (moduladores periféricos).

Tipo de Modulador Orexígenos (Estimulam o apetite) Anorexígenos (Inibem o apetite)
Centrais (Hipotálamo) Neuropeptídeo Y (NPY), Peptídeo Agouti-related (AgRP) Transcrito Regulado por Cocaína e Anfetamina (CART), Pró-opiomelanocortina (POMC), que gera ACTH e MSH
Periféricos Grelina (produzida no estômago) Leptina (tecido adiposo), GLP-1 (intestino), Peptídeo YY (PYY - intestino), Colecistocinina (CCK - intestino), Insulina (pâncreas)

Em condições de jejum prolongado, a baixa reserva energética corporal e a diminuição da insulina levam a um aumento da grelina e à supressão de leptina, CCK, GLP-1, GLP-2 e PYY. Isso ativa os neurônios NPY/AgRP no núcleo arqueado (ARC) do hipotálamo, estimulando o apetite e reduzindo o gasto energético.

Após o consumo alimentar, a alta reserva energética e o aumento da insulina e leptina, juntamente com a diminuição da grelina e o aumento de CCK, GLP-1, GLP-2 e PYY, ativam os neurônios POMC/CART no ARC. Isso resulta na liberação de alfa-MSH, que atua no receptor MC4R, aumentando o gasto energético, promovendo lipólise e o "browning" adipocitário, e inibindo o apetite.

⚠️ Na Obesidade: Observa-se um quadro de resistência à leptina e resistência à insulina, além de uma redução nos níveis de GLP-1, GLP-2 e PYY. Essas alterações fisiológicas, em conjunto, contribuem para a ativação da via orexígena, perpetuando o ciclo de ganho de peso.

Comorbidades Associadas à Obesidade

A obesidade é um fator de risco para uma vasta gama de condições médicas, afetando múltiplos sistemas do corpo:


Tratamento da Obesidade

Passo 1: Mudança no Estilo de Vida

A base do tratamento da obesidade é a modificação do estilo de vida, que inclui a combinação de dieta, exercícios físicos e mudanças comportamentais. É fundamental entender que não existe uma "melhor dieta" universal; a escolha deve ser individualizada e sustentável a longo prazo.

Passo 2: Tratamento Farmacológico

A terapia medicamentosa é uma opção para pacientes que não atingem os objetivos de perda de peso apenas com mudanças no estilo de vida. É indicada sob critérios específicos.

Indicações para Tratamento Farmacológico

Arsenal Terapêutico

Diversos medicamentos estão disponíveis para auxiliar na perda de peso, cada um com mecanismos de ação e perfis de efeitos adversos distintos:

Passo 3: Tratamento Cirúrgico (Cirurgia Bariátrica)

A cirurgia bariátrica é uma opção para casos de obesidade grave ou quando há comorbidades significativas e refratariedade ao tratamento clínico.

Indicações para Cirurgia Bariátrica

Critérios Adicionais e Resolução CFM (2172/2017)

Além das indicações de IMC, existem critérios rigorosos para a realização da cirurgia bariátrica:

A Resolução CFM 2172/2017 trouxe importantes atualizações, especificando as comorbidades que antes eram genericamente referidas como "outras". Agora, incluem condições como infarto agudo do miocárdio (IAM), angina, insuficiência cardíaca congestiva (ICC), acidente vascular encefálico (AVE), HAS com fibrilação atrial, cardiomiopatia dilatada, esteatose hepática, refluxo gastroesofágico e hérnia de disco, entre outras.

💡 Dica para a prova: Na prática e para fins de prova, lembre-se que qualquer comorbidade que a obesidade possa agravar ou causar e que melhore com a perda de peso pode ser considerada uma indicação para cirurgia bariátrica, desde que os demais critérios sejam preenchidos.

Em relação à idade, a resolução atual permite a cirurgia em adolescentes com 16 anos completos e menores de 18 anos, desde que haja precauções especiais, análise de risco/benefício, presença de um pediatra na equipe multiprofissional e consolidação das cartilagens epifisárias de crescimento dos punhos. A cirurgia em menores de 18 anos ainda é considerada experimental. Pacientes com mais de 65 anos também podem ser operados, mediante análise criteriosa de risco-benefício.

Critérios Gerais para a Cirurgia Bariátrica

Tipos e Técnicas de Cirurgia Bariátrica

As técnicas cirúrgicas podem ser classificadas em predominantemente disabsortivas, predominantemente restritivas ou puramente restritivas.

Técnicas Predominantemente Disabsortivas
Técnica Descrição Vantagens Desvantagens
Derivação Biliopancreática (Scopinaro) Gastrectomia horizontal distal associada a um Y de Roux com alça comum de aproximadamente 50 cm. Reservatório gástrico ajustável, componente metabólico significativo (melhora comorbidades), alta perda de peso. Elevado risco de complicações nutricionais, desmineralização óssea, aumento da evacuação e flatos fétidos.
Switch Duodenal Variação da técnica de Scopinaro, que inclui uma gastrectomia vertical (Sleeve) e um Y de Roux com alça comum de aproximadamente 100 cm. Similar ao Scopinaro, com excelente perda de peso e controle metabólico, mas com menor risco de deficiências nutricionais graves devido à alça comum mais longa. Ainda apresenta riscos nutricionais e gastrointestinais, embora atenuados em comparação ao Scopinaro puro.
Técnicas Predominantemente Restritivas
Técnica Descrição Vantagens Desvantagens
Bypass Gástrico em Y de Roux (Fobi-Capella) Criação de um pequeno reservatório gástrico que é conectado a uma alça alimentar em Y de Roux de 120 cm, excluindo grande parte do estômago e duodeno. Excelente componente metabólico (escolha para DM2), alta perda de peso, eficaz no tratamento da DRGE. Procedimento irreversível, o estômago excluso torna-se de difícil acesso para exames (cuidado com neoplasias, úlceras), risco de complicações como dumping, deficiência de ferro e B12, e fístulas na anastomose gastrojejunal.
Técnicas Restritivas
Técnica Descrição Vantagens Desvantagens
Balão Intragástrico Método endoscópico onde um balão é inserido no estômago e inflado, ocupando espaço e promovendo saciedade precoce e restrição alimentar. Não cirúrgico, reversível, menor risco de complicações graves. Indicações restritas (risco cirúrgico proibitivo, preparo pré-operatório), perda de peso geralmente menor e temporária, risco de intolerância e migração.
Banda Gástrica Ajustável Colocação de uma banda de silicone ajustável ao redor da porção proximal do estômago, criando uma pequena bolsa gástrica. Reversível, permite ajuste do grau de restrição, menor repercussão nutricional. Menor perda de peso em comparação a outras técnicas, exige cooperação do paciente para ajustes e acompanhamento, risco de migração ou erosão da banda.
Gastrectomia Vertical (Sleeve) Remoção de aproximadamente 75-80% do estômago, transformando-o em um tubo ou "manga" vertical. É a primeira etapa do Switch Duodenal. Procedimento relativamente simples, boa perda de peso, transformável (pode ser convertida em Bypass ou Switch), permite acesso endoscópico ao restante do TGI, menor disabsorção e repercussão nutricional. Risco de fístula na linha de grampeamento (especialmente no ângulo de Hiss – 🚨 atenção à taquicardia como sinal precoce), pode agravar ou causar DRGE.

Alterações Funcionais Pós-Bariátrica

As diferentes técnicas cirúrgicas impactam de forma distinta os hormônios reguladores do apetite e metabolismo:

Cirurgia Grelina GLP-1 PYY
Sleeve ↓↓ (Redução acentuada) ↑ (Aumento) ↑ (Aumento)
Bypass Variável ↑↑ (Aumento acentuado) ↑↑ (Aumento acentuado)

Ambas as cirurgias promovem melhora significativa das comorbidades, mas o Bypass Gástrico se destaca em alguns aspectos:

🧠 Conceito Chave (Bypass Gástrico):