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Doenças das Vias Biliares


Fundamentos Anatômicos e Fisiológicos

Anatomia do Trato Biliar

O trato biliar compreende um conjunto de estruturas responsáveis pelo transporte e armazenamento da bile. Esse sistema inclui a vesícula biliar, o ducto cístico, os ductos hepáticos direito e esquerdo, o ducto hepático comum e o ducto colédoco (também denominado ducto biliar comum). É importante destacar que alguns autores definem a via biliar extra-hepática de forma mais restrita, incluindo apenas os ductos hepáticos direito e esquerdo, o ducto hepático comum e o colédoco, excluindo a vesícula biliar e o ducto cístico dessa classificação.

🧠 Conceito Fundamental: O trato biliar extra-hepático refere-se ao sistema de ductos que transporta bile desde o fígado até o duodeno, sendo composto pelos ductos hepáticos, hepático comum e colédoco.

Triângulo de Calot

O triângulo de Calot (também conhecido como triângulo hepatocístico) representa uma região anatômica de extrema relevância cirúrgica, delimitada por três estruturas: o ducto cístico, o ducto hepático comum e a borda inferior do lobo hepático direito. Esta área possui importância clínica significativa, pois abriga estruturas vasculares e linfáticas essenciais.

Dentro deste triângulo encontram-se linfonodos regionais, incluindo o linfonodo de Mascagni, e principalmente a artéria cística, vaso que irriga a vesícula biliar. Durante a colecistectomia, a identificação e ligadura adequada da artéria cística são etapas fundamentais para garantir a segurança do procedimento e prevenir complicações hemorrágicas.

⚠️ Relevância Cirúrgica: A correta identificação das estruturas do triângulo de Calot é essencial para evitar lesões iatrogênicas da via biliar durante colecistectomias.

Fisiologia da Bile

Produção e Composição

A bile é sintetizada pelos hepatócitos, as células parenquimatosas do fígado. Sua composição inclui diversos elementos, sendo os principais:

Os sais biliares desempenham função crucial na manutenção do colesterol em solução. Na ausência de concentrações adequadas desses sais, o colesterol tende a precipitar, formando cristais que podem evoluir para cálculos biliares.

💡 Conceito Litogênico: A formação de cálculos biliares está relacionada ao desequilíbrio entre componentes da bile: aumento de colesterol associado à redução de lecitina e sais biliares cria um ambiente propício à litíase.

Fluxo Biliar e Armazenamento

Após sua produção nos hepatócitos, a bile percorre um trajeto através de ductos progressivamente maiores até deixar o fígado pelos ductos hepáticos direito e esquerdo, que se unem formando o ducto hepático comum.

Durante o período de jejum, o esfíncter de Oddi mantém-se contraído, aumentando a resistência ao fluxo na porção distal do colédoco. Esse mecanismo impede que a bile flua diretamente para o duodeno. Consequentemente, ocorre um fluxo retrógrado através do ducto cístico, direcionando a bile para a vesícula biliar, onde será armazenada e concentrada.

A vesícula biliar possui capacidade de concentrar a bile através da reabsorção ativa de água pelo seu epitélio, aumentando significativamente a concentração dos solutos biliares.

Esvaziamento Vesicular

O esvaziamento da vesícula biliar é desencadeado pela presença de alimento no duodeno. Este estímulo promove a liberação de colecistocinina (CCK), hormônio que exerce dupla ação:

Além da CCK, outros hormônios como gastrina e secretina também participam da estimulação vesicular, embora em menor intensidade.

🧠 Fisiologia Aplicada: A vesícula biliar só contrai efetivamente quando há alimento no duodeno, liberando CCK. Situações que impedem esse estímulo (nutrição parenteral prolongada) favorecem estase biliar e formação de cálculos.

Anatomia da Junção Biliopancreática

Na maioria dos indivíduos, o ducto colédoco e o ducto pancreático (ducto de Wirsung) convergem antes de desembocarem no duodeno, formando o canal comum. Este canal atravessa a parede duodenal através da papila maior do duodeno (papila de Vater), liberando tanto bile quanto secreção pancreática no lúmen intestinal.

O esfíncter de Oddi é constituído por fibras musculares lisas que envolvem o canal comum e a porção distal do colédoco, regulando o fluxo de bile e suco pancreático para o duodeno. A dilatação do canal comum é denominada ampola de Vater.


Icterícia Obstrutiva

Definição e Fisiopatologia

O termo colestase refere-se a qualquer condição que impeça ou dificulte o fluxo normal da bile. Quando essa obstrução ocorre na via biliar extra-hepática, utilizamos o termo icterícia obstrutiva como sinônimo de colestase extra-hepática.

⚠️ Importante: A obstrução isolada do ducto cístico NÃO causa icterícia obstrutiva, pois não impede o fluxo biliar hepático para o duodeno. Apenas obstruções na via biliar extra-hepática (ductos hepáticos, hepático comum ou colédoco) resultam nesse quadro.

A fisiopatologia da icterícia obstrutiva pode ser compreendida através da seguinte sequência de eventos:

Manifestações Clínicas

A icterícia obstrutiva apresenta-se com uma síndrome clínico-laboratorial característica:

🔎 Diagnóstico Clínico: A tríade icterícia + colúria + acolia fecal é altamente sugestiva de obstrução biliar. A presença de prurido intenso e elevação de FA/GGT reforça o diagnóstico.

Principais Causas

As etiologias mais frequentes de icterícia obstrutiva incluem:

🧠 Alto Rendimento: O tumor de Klatskin é um colangiocarcinoma hilar que causa dilatação das vias intra-hepáticas com vesícula murcha, diferentemente da obstrução distal (câncer de pâncreas) que causa dilatação de toda via biliar incluindo vesícula (sinal de Courvoisier).

Litíase Biliar

Classificação dos Cálculos Biliares

Os cálculos biliares são classificados em três categorias principais, baseadas em sua composição química, características radiológicas e fatores predisponentes:

Cálculos de Colesterol (Amarelos/Não Pigmentados)

Representam aproximadamente 80% de todos os cálculos biliares, sendo o tipo mais prevalente. São compostos predominantemente por colesterol, apresentando coloração amarelada característica. Sua formação está relacionada ao desequilíbrio entre os componentes solubilizantes da bile (sais biliares e lecitina) e o colesterol.

Estes cálculos são radiotransparentes, ou seja, não são visíveis em radiografias simples de abdome, necessitando de métodos de imagem como ultrassonografia para sua detecção. Localizam-se tipicamente na vesícula biliar.

Fatores de risco para cálculos de colesterol:

💡 Mnemônico Clássico - 5 F's: Female (feminino), Fertile (fértil/multípara), Forty (40 anos), Fat (obesa), Family history (história familiar) - perfil clássico de risco para colelitíase.

Cálculos Pigmentados Pretos

Correspondem a aproximadamente 15% dos cálculos biliares. São compostos principalmente por bilirrubinato de cálcio, apresentando coloração preta característica. Sua formação está associada a condições que aumentam a produção ou excreção de bilirrubina não conjugada.

São radiopacos, sendo visíveis em radiografias simples de abdome. Localizam-se tipicamente na vesícula biliar.

Principais fatores de risco:

🩸 Correlação Clínica: Sempre investigar hemólise crônica em pacientes jovens com cálculos pigmentados pretos. A associação com anemia hemolítica é frequente.

Cálculos Pigmentados Marrons/Castanhos (Mistos)

Representam cerca de 5% dos cálculos biliares, sendo o tipo menos comum. Também são compostos por bilirrubinato de cálcio, mas apresentam coloração marrom ou castanha. Sua formação está relacionada a processos infecciosos e obstrutivos da via biliar.

São radiopacos e localizam-se caracteristicamente no ducto colédoco, diferentemente dos outros tipos que se formam na vesícula.

Principais fatores de risco:

⚠️ Atenção Epidemiológica: Cálculos marrons são mais prevalentes em regiões endêmicas para parasitoses hepatobiliares, especialmente no Sudeste Asiático.
Característica Cálculos Amarelos (Colesterol) Cálculos Pretos Cálculos Marrons/Castanhos
Tipo Não pigmentado Pigmentado Pigmentado (misto)
Frequência 80% 15% 5%
Composição Principal Colesterol Bilirrubinato de cálcio Bilirrubinato de cálcio
Localização Típica Vesícula biliar Vesícula biliar Ducto colédoco
Radiologia Radiotransparentes (não visíveis no RX) Radiopacos (visíveis no RX) Radiopacos (visíveis no RX)
Principais Fatores de Risco Sexo feminino, obesidade, gestação, idade, diabetes, estase biliar Hemólise crônica, cirrose hepática Obstrução biliar, parasitoses, pós-colecistectomia
🔬 Correlação Diagnóstica: A visibilidade radiológica dos cálculos é determinante na escolha do método diagnóstico. Cálculos de colesterol (maioria) exigem ultrassonografia, enquanto cálculos pigmentados podem ser identificados em radiografias simples.

Colelitíase

Definição e Conceito

A colelitíase caracteriza-se pela formação de cálculos biliares no interior da vesícula biliar. Trata-se de uma condição extremamente prevalente na população geral, com amplo espectro de apresentação clínica que varia desde formas completamente assintomáticas até complicações graves que exigem intervenção cirúrgica de urgência.

🧠 Conceito-chave: A colelitíase refere-se especificamente à presença de cálculos na vesícula biliar, enquanto a coledocolitíase indica cálculos no ducto biliar comum (colédoco).

Apresentação Clínica

A maioria dos pacientes portadores de colelitíase permanece assintomática ao longo da vida. Estudos epidemiológicos demonstram que aproximadamente 80 a 85% dos casos nunca desenvolvem sintomas relacionados aos cálculos biliares. Esses pacientes são frequentemente diagnosticados incidentalmente durante exames de imagem realizados por outras indicações.

Cólica Biliar

Nos casos sintomáticos, que correspondem a cerca de 15% dos pacientes, a manifestação clínica típica é a chamada cólica biliar. Esta apresenta características específicas que auxiliam no diagnóstico diferencial:

⚠️ Atenção: Na colelitíase não complicada, a icterícia está AUSENTE. Sua presença sugere migração do cálculo para o colédoco (coledocolitíase) ou outras complicações.

Diagnóstico por Imagem

Ultrassonografia Abdominal

A ultrassonografia (USG) de abdome é o exame de escolha para o diagnóstico de colelitíase, sendo considerado o padrão-ouro para detecção de cálculos na vesícula biliar. Apresenta excelente acurácia diagnóstica, com sensibilidade de 95% e especificidade de 98%.

Os achados ultrassonográficos característicos incluem:

🔎 Diagnóstico diferencial: Pólipos vesiculares também aparecem como imagens hiperecogênicas ao USG, porém NÃO produzem sombra acústica posterior e são fixos à parede (não se deslocam com mudança de posição).

Lama Biliar (Barro Biliar)

A lama biliar representa um estágio intermediário entre bile normal e formação de cálculos. Consiste em material espesso composto por cristais de colesterol e partículas de bilirrubinato de cálcio suspensos em uma matriz de gel mucoglicoproteico.

Características ultrassonográficas da lama biliar:

Conduta na Lama Biliar

Outras Modalidades Diagnósticas

Atualmente, o ultrassom endoscópico (USE) e a microscopia biliar constituem alternativas diagnósticas e terapêuticas, especialmente úteis na detecção de:

💡 Dica clínica: Em casos de pancreatite aguda sem etiologia evidente ao USG convencional, o ultrassom endoscópico é fundamental para investigar a presença de microcálculos.

Tratamento

Tratamento Cirúrgico

A colecistectomia videolaparoscópica representa o tratamento de escolha para colelitíase sintomática, sendo considerada o padrão-ouro atualmente. Esta técnica oferece vantagens significativas em relação à cirurgia aberta, incluindo menor trauma cirúrgico, recuperação mais rápida, menor tempo de internação hospitalar e melhor resultado estético.

Indicações de Cirurgia Aberta (Exceções)

Embora a via laparoscópica seja preferencial, existem situações específicas nas quais a colecistectomia aberta convencional pode ser necessária:

Indicações Cirúrgicas

Pacientes Assintomáticos

A regra geral é NÃO operar pacientes assintomáticos, uma vez que a maioria permanecerá sem sintomas. Entretanto, existem exceções específicas que justificam a colecistectomia profilática devido ao maior risco de complicações ou malignização:

🚨 Atenção especial: A vesícula em porcelana (calcificação da parede) está associada a risco significativamente elevado de adenocarcinoma, justificando colecistectomia profilática mesmo em pacientes assintomáticos.
Pacientes Sintomáticos

A indicação cirúrgica é SEMPRE recomendada para pacientes sintomáticos, exceto em situações específicas:

Tratamento Clínico (Dissolução Química)

O tratamento medicamentoso com ácido ursodesoxicólico (UDCA) pode ser tentado em casos selecionados, com as seguintes características:

Para cálculos maiores, a litotripsia extracorpórea por ondas de choque (LECO) prévia pode ser uma alternativa para fragmentação, seguida de terapia de dissolução. Este tratamento não é útil para cálculos radiopacos (pigmentares ou calcificados).

💊 Limitações do tratamento clínico: A dissolução química apresenta taxa de recorrência elevada (50% em 5 anos) e tempo prolongado de tratamento (6-24 meses), sendo reservada para casos muito selecionados.

Complicações da Colelitíase

Os cálculos biliares podem evoluir com complicações que representam indicações de tratamento cirúrgico, frequentemente em caráter de urgência:


Pólipos de Vesícula Biliar

Diagnóstico Diferencial e Conduta

Os pólipos vesiculares são lesões que se projetam para o interior da luz da vesícula biliar. A maioria é benigna (pólipos de colesterol, adenomiomatose), mas alguns podem representar adenomas com potencial de malignização ou adenocarcinomas precoces.

Características Ultrassonográficas

Ao contrário dos cálculos, os pólipos apresentam:

Indicações Cirúrgicas para Pólipos

A colecistectomia está indicada nas seguintes situações:

Característica Cálculo Biliar Pólipo Vesicular
Ecogenicidade Hiperecogênico Hiperecogênico
Sombra acústica Presente Ausente
Mobilidade Móvel (muda com decúbito) Fixo à parede
Localização Livre na luz vesicular Aderido à parede

Técnica Cirúrgica

A colecistectomia para pólipos pode ser realizada por via:

🔬 Investigação complementar: Em casos de pancreatite aguda sem causa aparente ao USG convencional, deve-se investigar a presença de microcálculos (não visíveis ao exame padrão) através do ultrassom endoscópico.

Resumo das Indicações Cirúrgicas

Situação Clínica Conduta Justificativa
Colelitíase assintomática Observação clínica Maioria permanece assintomática
Colelitíase sintomática Colecistectomia Prevenir complicações e recorrência
Cálculo > 2,5-3 cm Colecistectomia profilática Risco aumentado de câncer
Vesícula em porcelana Colecistectomia profilática Alto risco de malignização
Pólipo > 1 cm Colecistectomia Risco de adenoma/carcinoma
Pólipo + cálculo Colecistectomia Indicação absoluta
Anemia hemolítica crônica Colecistectomia profilática Formação precoce e recorrente

Colecistite Aguda

Definição e Fisiopatologia

A colecistite aguda representa um processo inflamatório e/ou infeccioso da vesícula biliar, desencadeado pela obstrução persistente do ducto cístico por um cálculo impactado. A obstrução prolongada leva ao acúmulo de bile na vesícula, com subsequente transformação do excesso de lecitina em lisolecitina, substância que promove irritação química da mucosa vesicular e deflagra a cascata inflamatória característica da doença.

🧠 Fisiopatologia-chave: Cálculo impactado no ducto cístico → estase biliar → conversão de lecitina em lisolecitina → inflamação química da parede vesicular → possível infecção secundária.

Manifestações Clínicas

O quadro clínico da colecistite aguda apresenta características que a diferenciam da cólica biliar simples, principalmente pela duração prolongada dos sintomas e presença de sinais inflamatórios sistêmicos:

⚠️ Atenção: A presença de icterícia na colecistite aguda NÃO é esperada! Quando ocorre, investigue complicações ou diagnósticos associados.

Avaliação Laboratorial

Os exames laboratoriais na colecistite aguda refletem o processo inflamatório sistêmico, mas não cursam com alterações significativas das enzimas hepáticas ou bilirrubinas (exceto em situações específicas):

🧪 Laboratório típico: Leucocitose + PCR elevado + bilirrubinas normais/discretamente elevadas = padrão da colecistite aguda não complicada.

Diagnóstico por Imagem

Ultrassonografia de Abdome

Representa o exame de escolha e o melhor método inicial para investigação diagnóstica da colecistite aguda, devido à sua alta acurácia, disponibilidade, ausência de radiação ionizante e baixo custo. Os achados ultrassonográficos característicos incluem:

🔎 Diagnóstico: USG de abdome é o exame de primeira linha! Sensibilidade e especificidade superiores a 90% quando múltiplos critérios estão presentes.

Cintilografia Hepatobiliar (HIDA ou DISIDA)

Considerada o exame padrão-ouro para diagnóstico de colecistite aguda, especialmente em casos duvidosos ou quando a ultrassonografia não é conclusiva. O exame utiliza radiofármaco (derivado do ácido iminodiacético marcado com tecnécio-99m) que é captado pelos hepatócitos e excretado na bile.

Na colecistite aguda, devido à obstrução do ducto cístico, observa-se ausência de enchimento da vesícula biliar após administração do contraste, enquanto a via biliar principal e o duodeno são normalmente contrastados. Este achado confirma a obstrução do cístico com sensibilidade superior a 95%.

Outros Métodos de Imagem

Critérios Diagnósticos e Classificação de Gravidade (Tokyo Guidelines 2018)

As Diretrizes de Tóquio (TG-18) estabelecem critérios diagnósticos padronizados e um sistema de classificação de gravidade que orienta a conduta terapêutica. A avaliação baseia-se em três pilares: achados clínicos, laboratoriais e de imagem.

Critérios Diagnósticos

Categoria Critérios
A. Sinais Locais de Inflamação 1. Sinal de Murphy positivo
2. Massa palpável, dor ou sensibilidade em hipocôndrio direito/quadrante superior direito
B. Sinais Sistêmicos de Inflamação 1. Febre
2. Proteína C reativa elevada
3. Leucocitose
C. Achados de Imagem Achados característicos de colecistite aguda nos exames de imagem (USG, TC, CPRM ou cintilografia)
📋 Interpretação diagnóstica:
Diagnóstico SUSPEITO: 1 item do grupo A + 1 item do grupo B
Diagnóstico DEFINITIVO: 1 item do grupo A + 1 item do grupo B + achados do grupo C

Classificação de Gravidade

A estratificação de gravidade segundo Tokyo Guidelines orienta a urgência cirúrgica, o nível de complexidade do centro cirúrgico necessário e a abordagem terapêutica mais adequada:

Grau I - Colecistite Leve (Tokyo I)

Paciente sem critérios para classificação como moderada ou grave. Apresenta apenas o quadro de colecistite aguda, sem sinais de alarme ou disfunção orgânica.

Grau II - Colecistite Moderada (Tokyo II)

Presença de "sinais de alarme" que indicam maior complexidade, porém sem disfunção orgânica. Os sinais de alarme incluem:

Grau III - Colecistite Grave (Tokyo III)

Caracterizada pela presença de disfunção orgânica ou sepse. Representa a forma mais grave da doença, com risco significativo de morbimortalidade. As disfunções orgânicas incluem:

⚠️ Conceito importante: A evolução superior a 72 horas é um dos "sinais de alarme" que classifica o caso como moderado (Tokyo II). Por isso, a colecistectomia precoce (idealmente em até 3 dias) está associada a menor taxa de complicações, menor tempo de internação e retorno mais rápido às atividades habituais.

Tratamento

Tratamento Cirúrgico

A colecistectomia videolaparoscópica representa o tratamento definitivo da colecistite aguda e deve ser realizada precocemente sempre que possível. O momento ideal para a cirurgia é nas primeiras 72 horas do início dos sintomas, período em que o processo inflamatório ainda não está completamente estabelecido, facilitando a dissecção cirúrgica e reduzindo complicações.

Timing Cirúrgico
Indicações de Colecistostomia Percutânea

Procedimento de drenagem guiado por imagem (ultrassonografia ou tomografia), indicado em situações específicas:

A colecistostomia funciona como ponte para estabilização clínica, permitindo cirurgia eletiva posterior em melhores condições ou, em casos selecionados, pode ser mantida definitivamente em pacientes com alto risco cirúrgico.

Antibioticoterapia

A escolha do esquema antibiótico deve considerar os patógenos mais prevalentes nas infecções biliares, com cobertura adequada para bacilos gram-negativos e, em casos selecionados, anaeróbios. Os micro-organismos mais frequentemente isolados são:

Esquemas Antibióticos Recomendados
Gravidade Esquema Sugerido Duração
Leve a Moderada • Ceftriaxona 1-2g IV 1x/dia + Metronidazol 500mg IV 8/8h
• Ampicilina-Sulbactam 3g IV 6/6h
• Ciprofloxacino 400mg IV 12/12h + Metronidazol 500mg IV 8/8h
Pode ser suspenso 24h após colecistectomia em casos não complicados, ou manter por 7-10 dias se houver complicações
Grave (Tokyo III) • Piperacilina-Tazobactam 4,5g IV 6/6h
• Meropenem 1g IV 8/8h
• Imipenem-Cilastatina 500mg IV 6/6h
7-14 dias, ajustado conforme evolução clínica e controle do foco infeccioso
💊 Antibioticoterapia: Em casos não complicados submetidos à colecistectomia precoce, alguns autores recomendam suspensão do antibiótico 24 horas após o procedimento cirúrgico, desde que haja boa evolução clínica e controle adequado do foco.

Complicações da Colecistite Aguda

Gangrena e Perfuração da Vesícula Biliar

A progressão do processo inflamatório pode levar à necrose transmural da parede vesicular, resultando em gangrena e eventual perfuração. Esta complicação ocorre em aproximadamente 2-10% dos casos de colecistite aguda, principalmente em pacientes idosos, diabéticos ou com demora no diagnóstico/tratamento.

Perfuração Livre

Representa a forma mais grave, com extravasamento de bile e conteúdo infectado para a cavidade peritoneal, gerando peritonite biliar ou coleperitônio. O quadro clínico caracteriza-se por:

Perfuração Contida ou Bloqueada

Ocorre quando a perfuração é bloqueada pelo omento, alças intestinais ou estruturas adjacentes, resultando em formação de abscesso pericolecístico localizado. O quadro é menos dramático que a perfuração livre, mas ainda representa complicação grave.

Perfuração para Vísceras Adjacentes - Fístulas Biliares

A perfuração pode ocorrer em direção a órgãos adjacentes, criando comunicações anormais (fístulas). As mais relevantes clinicamente são:

Fístula Colecistoduodenal

Representa a fístula bilioentérica mais comum (60-70% dos casos). O cálculo pode migrar através da fístula para o trato gastrointestinal, causando o íleo biliar quando impacta em segmentos de menor calibre (principalmente válvula ileocecal ou íleo terminal).

A Tríade de Rigler é patognomônica de íleo biliar e inclui:

🔎 Íleo biliar: Causa rara de obstrução intestinal (1-4% dos casos), mas importante em idosos. Mortalidade elevada (15-30%) devido ao perfil dos pacientes e demora diagnóstica. Tratamento: enterotomia com remoção do cálculo + correção da fístula em segundo tempo (se necessário).
Fístula Colecistobiliar - Síndrome de Mirizzi

Condição rara (ocorre em aproximadamente 1% das colecistites) caracterizada por cálculo impactado no infundíbulo vesicular ou ducto cístico, causando compressão extrínseca do ducto hepático comum. A compressão prolongada pode evoluir para erosão da parede e formação de fístula colecistobiliar.

Apresentação clínica:

Diagnóstico: Frequentemente estabelecido no intraoperatório. Métodos de imagem pré-operatórios que podem sugerir o diagnóstico incluem:

Classificação de Csendes

Sistema de classificação que estratifica a síndrome de Mirizzi de acordo com o grau de acometimento da parede do ducto hepático comum, orientando a abordagem cirúrgica:

Tipo Descrição Conduta Cirúrgica
Tipo I Compressão extrínseca sem fístula Colecistectomia + Colangiografia intraoperatória
Tipo II Fístula envolvendo até 1/3 da circunferência do ducto hepático comum Colecistectomia + Rafia primária da fístula + Dreno de Kehr (tubo em T)
Tipo III Fístula envolvendo até 2/3 da circunferência do ducto Colecistectomia + Coledocoplastia (reconstrução da parede ductal)
Tipo IV Fístula envolvendo toda a circunferência do ducto (destruição completa) Colecistectomia + Derivação biliodigestiva (hepaticojejunostomia em Y de Roux)
Tipo V Fístula colecistoentérica associada Colecistectomia + Correção da fístula entérica (rafia ou ressecção segmentar)
⚠️ Síndrome de Mirizzi: Sempre associar antibioticoterapia ao tratamento cirúrgico devido ao componente inflamatório/infeccioso. A abordagem videolaparoscópica é tecnicamente desafiadora mas pode ser tentada por cirurgiões experientes; muitos casos requerem conversão para cirurgia aberta devido à distorção anatômica.

Colecistite Enfisematosa

Variante grave e rara da colecistite aguda (0,5-1% dos casos), caracterizada pela presença de gás na parede e/ou luz da vesícula biliar, produzido por bactérias formadoras de gás, principalmente Clostridium perfringens (welchii) e outras espécies anaeróbias.

Fatores de risco:

Quadro clínico: Geralmente mais grave e de evolução mais rápida que a colecistite aguda convencional, com maior risco de perfuração (até 15% dos casos) e sepse.

Diagnóstico por imagem:

🚨 Atenção: A presença de ar/gás na PAREDE da vesícula é achado EXCLUSIVO da colecistite enfisematosa (pneumobilia isolada pode ocorrer em outras situações, como pós-esfincterotomia endoscópica ou fístulas bilioentéricas).

Tratamento:

Empiema de Vesícula

Complicação caracterizada pelo acúmulo de pus no interior da vesícula biliar, resultante da progressão da infecção bacteriana na colecistite aguda. Representa uma evolução desfavorável do quadro inicial.

Apresentação clínica:

Diagnóstico:

Conduta terapêutica:

🚨 Empiema vesicular: Paciente com colecistite que evolui com febre alta persistente + sinais de sepse = pensar em empiema! Conduta: estabilizar + coletar hemoculturas + ATB de amplo espectro + colecistectomia de urgência.

Colecistite Alitiásica

Forma especial de colecistite aguda que ocorre na ausência de cálculos biliares, representando 5-10% de todos os casos de colecistite aguda. Acomete predominantemente pacientes críticos e está associada a alta morbimortalidade (30-50%).

Fatores de Risco e Fisiopatologia

A colecistite alitiásica resulta de isquemia da parede vesicular associada a estase biliar, em contexto de doença crítica. Os principais fatores predisponentes incluem:

Apresentação Clínica

O diagnóstico é particularmente desafiador porque os pacientes frequentemente não conseguem se queixar de dor (sedados, intubados, com rebaixamento do nível de consciência). Deve-se suspeitar em:

⚠️ Alerta diagnóstico: Paciente em UTI com febre + leucocitose inexplicada = sempre considerar colecistite alitiásica! O alto índice de suspeição é fundamental para diagnóstico precoce.

Diagnóstico

Tratamento

A abordagem terapêutica deve ser agressiva e precoce devido à alta mortalidade:

💡 Estratégia terapêutica: Paciente estável = colecistectomia de urgência | Paciente instável = colecistostomia percutânea + ATB de amplo espectro + suporte intensivo.
🎯 High Yield Points - Colecistite Aguda:

Diagnóstico:
• Dor em HCD > 6h + febre + Murphy positivo = tríade clássica
• SEM icterícia (se presente, investigar complicações)
• USG = exame de escolha (sensibilidade/especificidade > 90%)
• Cintilografia = padrão-ouro (ausência de enchimento vesicular)

Tokyo Guidelines:
• Grau I (leve) = colecistectomia videolaparoscópica precoce
• Grau II (moderada) = cirurgia em centro especializado
• Grau III (grave) = estabilizar + colecistectomia ou colecistostomia
• Cirurgia precoce (≤ 72h) = menor morbidade

Antibióticos:
• Cobertura para gram-negativos (E. coli, Klebsiella)
• Casos não complicados: suspender 24h após cirurgia
• Casos graves: Piperacilina-Tazobactam ou Carbapenêmicos

Complicações:
• Perfuração livre = peritonite → cirurgia de URGÊNCIA
• Síndrome de Mirizzi = colecistite + icterícia progressiva
• Colecistite enfisematosa = gás na PAREDE (exclusivo) → mais grave
• Empiema = febre alta + sepse → colecistectomia imediata
• Íleo biliar = Tríade de Rigler (pneumobilia + obstrução + cálculo ectópico)

Colecistite Alitiásica:
• Paciente crítico em UTI com febre + leucocitose inexplicada
• Alta mortalidade (30-50%)
• Tratamento: colecistectomia ou colecistostomia + ATB amplo espectro

Coledocolitíase

A coledocolitíase caracteriza-se pela presença de cálculos no ducto colédoco, representando uma complicação frequente da litíase biliar.

Classificação Etiológica dos Cálculos

Os cálculos no colédoco podem ser classificados conforme sua origem e momento de aparecimento:

Coledocolitíase Primária (10%)

Nesta situação, o cálculo se forma diretamente no próprio ducto colédoco. Esses cálculos geralmente apresentam coloração marrom, castanha ou composição mista. As principais condições associadas incluem:

Coledocolitíase Secundária (90%)

Representa a forma mais comum, na qual o cálculo migra da vesícula biliar para o colédoco através do ducto cístico. Esses cálculos tipicamente apresentam coloração amarelada e composição de colesterol.

Classificação Temporal Pós-Colecistectomia

🧠 Conceito-chave: A maioria dos cálculos no colédoco (90%) tem origem vesicular, migrando através do ducto cístico. Apenas 10% se formam primariamente no próprio colédoco.

Manifestações Clínicas

O aspecto mais importante do quadro clínico é que aproximadamente 50% dos pacientes permanecem assintomáticos. Quando sintomática, a coledocolitíase manifesta-se principalmente por:

Icterícia Colestática com Padrão Intermitente

A característica marcante é a flutuação da icterícia, que aparece e desaparece conforme o cálculo obstrui intermitentemente o fluxo biliar. Esta obstrução variável é acompanhada de:

Sinal de Murphy Negativo e Vesícula Não Palpável

Diferentemente da colecistite aguda, na coledocolitíase a vesícula biliar não se torna palpável. Isso ocorre porque a obstrução é intermitente e localiza-se no colédoco (abaixo da inserção do ducto cístico), não permitindo distensão vesicular significativa.

⚠️ Atenção clínica: Se houver vesícula palpável + icterícia progressiva (Sinal de Courvoisier), suspeitar de neoplasia periampular (cabeça de pâncreas, ampola de Vater), não de coledocolitíase!

Abordagem Diagnóstica

Ultrassonografia Abdominal

Constitui o exame inicial de escolha pela disponibilidade, baixo custo e ausência de radiação. Entretanto, apresenta sensibilidade limitada para detecção de cálculos no colédoco (40-70%). Os achados sugestivos incluem:

💡 Dica diagnóstica: USG com cálculos na vesícula + dilatação do colédoco > 6 mm = altamente sugestivo de coledocolitíase, mesmo sem visualização direta do cálculo no ducto.

Métodos Diagnósticos Confirmatórios

Quando a suspeita clínica é alta ou o USG é inconclusivo, métodos mais sensíveis e específicos devem ser empregados:

Colangiopancreatografia Retrógrada Endoscópica (CPRE)
Colangiorressonância Magnética (Colangio-RM)
Ultrassonografia Endoscópica (USE)

Estratificação de Risco e Algoritmo Investigativo

Todo paciente com colelitíase sintomática candidato à colecistectomia eletiva deve ser estratificado quanto ao risco de coledocolitíase concomitante, exceto aqueles de baixo risco. A estratificação baseia-se em preditores clínicos, laboratoriais e de imagem:

Preditores Muito Fortes

Preditores Fortes

Preditores Moderados

Categoria de Risco Critérios Conduta Recomendada
Alto Risco ≥ 1 preditor muito forte
OU
≥ 2 preditores fortes
CPRE pré-operatória
(diagnóstica e terapêutica)
Risco Intermediário 1 preditor forte
OU
≥ 1 preditor moderado
Se candidato à cirurgia: colecistectomia laparoscópica com colangiografia ou USG intraoperatória

Se não candidato ou já colecistectomizado: Colangio-RM ou USE → se positivo, CPRE
Baixo Risco Nenhum preditor presente Colecistectomia laparoscópica sem investigação adicional
🔎 Estratégia diagnóstica: A estratificação de risco evita exames desnecessários em pacientes de baixo risco e direciona investigação apropriada nos demais, otimizando recursos e reduzindo morbidade.

Tratamento

O princípio fundamental é que toda coledocolitíase deve ser tratada, independentemente da presença de sintomas, devido ao risco de complicações graves (colangite, pancreatite aguda biliar, cirrose biliar secundária).

Objetivos Terapêuticos

Técnicas de Extração dos Cálculos

Papilotomia Endoscópica (CPRE)

Constitui a terapia de escolha nas seguintes situações:

A técnica envolve:

Exploração Laparoscópica do Colédoco

Indicada quando a coledocolitíase é descoberta DURANTE a colecistectomia laparoscópica (por colangiografia ou USG intraoperatória). Pode ser realizada por duas vias:

💡 Vantagem da exploração laparoscópica: Resolve colelitíase e coledocolitíase em um único tempo cirúrgico, evitando procedimento endoscópico adicional.
Papilotomia Transduodenal Cirúrgica

Técnica cirúrgica reservada para casos refratários às abordagens anteriores. Indicações específicas:

Realiza-se duodenotomia longitudinal, identificação da papila por palpação ou colangiografia, e papilotomia sob visão direta.

Derivação Biliodigestiva

Procedimento de exceção, indicado em situações especiais onde há alto risco de recorrência ou impossibilidade técnica das outras abordagens:

As técnicas incluem coledocoduodenostomia (anastomose látero-lateral entre colédoco e duodeno) ou coledocojejunostomia em Y de Roux (anastomose do colédoco a alça jejunal desfuncionalizada).

Sequência Terapêutica Habitual

Para coledocolitíase secundária sintomática diagnosticada no pré-operatório:

⚠️ Importante: A colecistectomia é essencial após tratamento da coledocolitíase secundária para prevenir recorrência (nova migração de cálculos da vesícula). Exceção: pacientes idosos (> 70 anos) com alto risco cirúrgico.

Manejo de Cálculos Residuais e Estenoses Pós-Operatórias

Cálculos Residuais

Quando cálculos são identificados no colédoco até 2 anos após colecistectomia, a abordagem preferencial é:

Estenose Cicatricial de Via Biliar

Pacientes que desenvolvem icterícia progressiva meses após manipulação cirúrgica das vias biliares podem apresentar estenose cicatricial (complicação de lesão iatrogênica):


Colangite Aguda

A colangite aguda representa uma infecção bacteriana do sistema biliar, constituindo emergência médica com potencial evolução para sepse grave e choque séptico se não tratada adequadamente.

Fisiopatologia

A colangite resulta da combinação de dois fatores essenciais:

Principais Causas de Obstrução

Microbiologia

Os agentes mais comuns são bactérias entéricas gram-negativas e anaeróbios:

Em 30-40% dos casos, a infecção é polimicrobiana.

🧬 Fisiopatologia: Obstrução biliar → estase → proliferação bacteriana → aumento da pressão intraductal → translocação bacteriana para corrente sanguínea → bacteremia/sepse.

Quadro Clínico

Tríade de Charcot (Colangite Não-Grave)

Presente em aproximadamente 50-70% dos casos, caracteriza-se por:

Pêntade de Reynolds (Colangite Grave/Supurativa)

Indica evolução para colangite tóxica, com alto risco de mortalidade (20-50% se não tratada). Caracteriza-se pela Tríade de Charcot acrescida de:

⚠️ Atenção: Segundo Tokyo Guidelines 2018, a Tríade de Charcot tem alta especificidade (80-90%) mas sensibilidade limitada (50-70%). Sua ausência NÃO exclui colangite!

Diagnóstico - Critérios de Tokyo 2018 (TG-18)

O diagnóstico de colangite aguda requer a presença de critérios em três domínios: inflamação sistêmica, colestase e achados de imagem.

Critérios Diagnósticos

Domínio Critérios
A. Inflamação Sistêmica 1. Febre e/ou calafrios
2. Evidência laboratorial de resposta inflamatória (leucocitose, desvio à esquerda, PCR elevada)
B. Colestase 1. Icterícia clínica
2. Alteração de provas hepáticas (↑ bilirrubina direta, ↑ FA, ↑ GGT)
C. Imagem 1. Dilatação das vias biliares
2. Evidência da etiologia (cálculo, estenose, stent obstruído)

Interpretação Diagnóstica

Classificação de Gravidade e Conduta - Tokyo Guidelines 2018

Após confirmação diagnóstica, a classificação de gravidade determina a urgência da drenagem biliar:

Grau Critérios Conduta
Grau I
(Leve)
Ausência de critérios para grau II ou III Antibioticoterapia isolada
Resposta clínica em 24-48h
Drenagem biliar eletiva se não houver melhora
Grau II
(Moderada)
Presença de ≥ 1 dos seguintes:
• Leucocitose > 12.000/mm³ ou leucopenia < 4.000/mm³
• Febre ≥ 39°C
• Idade ≥ 75 anos
• Bilirrubina total ≥ 5 mg/dL
• Hipoalbuminemia

SEM disfunção orgânica
Antibioticoterapia + Drenagem biliar de URGÊNCIA
(preferencialmente em 24-48h)
Grau III
(Grave)
Presença de ≥ 1 disfunção orgânica:
• Cardiovascular: hipotensão (PAS < 90 mmHg)
• Neurológica: alteração do sensório
• Respiratória: PaO₂/FiO₂ < 300
• Renal: oligúria, creatinina > 2 mg/dL
• Hepática: INR > 1,5
• Hematológica: plaquetas < 100.000/mm³
Antibioticoterapia + Drenagem biliar de EMERGÊNCIA
(idealmente em < 12-24h)
+ Suporte intensivo
🚨 Pêntade de Reynolds = Colangite Grau III: Necessita drenagem IMEDIATA, pois antibiótico isolado é insuficiente para controlar infecção na presença de obstrução biliar completa!

Exames Complementares

Exames Laboratoriais

Exames de Imagem

Tratamento

O manejo da colangite baseia-se em três pilares fundamentais:

1. Antibioticoterapia Empírica Precoce

Deve ser iniciada imediatamente após suspeita diagnóstica, antes mesmo da confirmação por exames de imagem. O esquema deve cobrir:

Esquemas Antibióticos Recomendados

Colangite Leve a Moderada (Grau I-II) - Adquirida na Comunidade:

Colangite Grave (Grau III) ou Infecção Hospitalar:

Duração: 7-10 dias (pode ser reduzida para 4-5 dias se drenagem biliar efetiva e boa resposta clínica)

💊 Cobertura antibiótica: A cobertura de gram-positivos (Enterococcus) não é obrigatória de rotina, mas deve ser considerada em pacientes com próteses biliares, idosos, imunossuprimidos ou infecção hospitalar.

2. Drenagem Biliar

Constitui o tratamento definitivo da colangite, pois antibiótico isolado não resolve a obstrução. A urgência da drenagem depende da gravidade:

Métodos de Drenagem

Obstrução Distal (colédoco distal, papila):

Obstrução Proximal (hilo hepático, ductos intra-hepáticos):

Drenagem cirúrgica: reservada para casos refratários ou com indicação cirúrgica concomitante (ex: perfuração intestinal)

Timing da Drenagem
⚠️ Princípio fundamental: Na colangite grave (Pêntade de Reynolds), o antibiótico sozinho é INSUFICIENTE. A drenagem biliar imediata é MANDATÓRIA para controle da infecção!

3. Tratamento Definitivo da Causa Base

Após resolução do quadro agudo (7-10 dias), deve-se tratar a causa da obstrução:

Resumo Comparativo: Doenças Biliares

Condição Quadro Clínico Principal Duração dos Sintomas Febre Icterícia
Colelitíase Crônica Cólica biliar pós-prandial < 6 horas Ausente Ausente
Colecistite Aguda Dor contínua em HCD + Murphy + > 6 horas Presente Ausente ou leve
Coledocolitíase Icterícia colestática intermitente Variável Ausente Intermitente/flutuante
Colangite Aguda Tríade de Charcot ou Pêntade de Reynolds Variável Presente (alta) Presente
🧠 Memorize:
• Cólica biliar < 6h = colelitíase simples
• Dor > 6h + febre + Murphy = colecistite
• Icterícia intermitente = coledocolitíase
• Charcot/Reynolds = colangite (emergência!)

Cistos de Vias Biliares

Os cistos das vias biliares representam dilatações congênitas ou adquiridas que acometem o sistema biliar intra e/ou extra-hepático. Trata-se de uma condição rara, com manifestações clínicas que variam conforme a idade de apresentação e o tipo de cisto envolvido.

Fisiopatologia

A origem dos cistos biliares está frequentemente relacionada a uma anomalia anatômica da junção pancreatobiliar. Em condições normais, a união entre o ducto biliar comum e o ducto pancreático ocorre próximo à papila duodenal. Alguns indivíduos, entretanto, apresentam uma junção pancreatobiliar anormalmente longa (superior a 2 centímetros), situada fora da parede duodenal.

Esta configuração anatômica anômala permite o refluxo de secreções pancreáticas ricas em enzimas para o interior da árvore biliar. A exposição crônica do epitélio biliar a essas enzimas digestivas provoca inflamação, enfraquecimento da parede ductal e dilatação progressiva, culminando na formação dos cistos.

🧬 Fisiopatologia: Junção pancreatobiliar longa (>2 cm) → refluxo de enzimas pancreáticas → inflamação e enfraquecimento da parede biliar → formação de cistos.

Manifestações Clínicas

A apresentação clínica dos cistos biliares é variável e depende principalmente da idade do paciente e do tipo de cisto presente. Os sintomas habitualmente surgem durante a primeira década de vida, embora possam manifestar-se em qualquer faixa etária.

Tríade Clássica (mais comum em crianças)

🔎 Tríade Diagnóstica: A presença de icterícia + dor em QSD + massa palpável em uma criança é altamente sugestiva de cisto de via biliar.

Apresentação em Adultos

Em pacientes mais velhos, a apresentação clínica tende a ser dominada por complicações decorrentes da estase biliar crônica:

Classificação de Todani

A Classificação de Todani é o sistema mais utilizado para categorizar os cistos biliares, baseando-se na localização anatômica e nas características morfológicas das dilatações. Esta classificação possui implicações diretas no planejamento terapêutico.

Tipo I - Cisto Extra-hepático Fusiforme

Dilatação difusa e fusiforme do ducto biliar comum extra-hepático. Representa o tipo mais frequente, correspondendo a aproximadamente 50-80% dos casos.

Tipo II - Cisto Extra-hepático Diverticular

Dilatação sacular localizada do ducto biliar extra-hepático, assemelhando-se a um divertículo verdadeiro da parede ductal.

Tipo III - Cisto Intraduodenal (Coledococele)

Dilatação cística da porção intraduodenal do colédoco, projetando-se para a luz do duodeno. Também conhecida como coledococele, esta variante apresenta menor risco de malignização.

Tipo IV - Cistos Múltiplos

Presença de múltiplas dilatações císticas, subdivididas em:

Tipo V - Cistos Múltiplos Intra-hepáticos (Doença de Caroli)

Dilatações segmentares e multifocais exclusivas da árvore biliar intra-hepática, caracterizando a Doença de Caroli.

💡 Memorize: Tipo I (fusiforme) e IV são os mais comuns. Tipo III tem menor risco de complicações. Tipo V é a Doença de Caroli.

Diagnóstico

A ultrassonografia abdominal constitui o exame de imagem inicial e apresenta elevada acurácia diagnóstica para identificação dos cistos biliares. Este método não invasivo permite visualizar as dilatações císticas, avaliar a espessura das paredes e identificar complicações como litíase ou infecção.

Exames complementares incluem:

🧪 Exame de escolha: USG abdominal apresenta a maior acurácia para diagnóstico inicial dos cistos de via biliar.

Tratamento

A abordagem terapêutica dos cistos biliares é determinada pelo tipo de cisto segundo a Classificação de Todani, pela extensão do acometimento e pela presença de complicações. O objetivo principal é prevenir complicações graves, incluindo colangite, cirrose e transformação maligna.

Tipos I, II e IV

O tratamento de escolha consiste em ressecção completa da via biliar acometida, associada a colecistectomia. A continuidade do fluxo biliar é restabelecida mediante reconstrução biliodigestiva, geralmente através de hepaticojejunostomia em Y de Roux.

Tipo III (Coledococele)

Devido ao baixo risco de malignização, a coledococele pode ser tratada de forma menos invasiva através de esfincterotomia endoscópica realizada por CPRE, reservando-se a cirurgia para casos selecionados.

Tipo V (Doença de Caroli)

O manejo depende da extensão do acometimento hepático:

Tipo de Cisto (Todani) Localização Tratamento
Tipo I Extra-hepático fusiforme Ressecção + colecistectomia + biliodigestiva
Tipo II Extra-hepático diverticular Ressecção + colecistectomia + biliodigestiva
Tipo III Intraduodenal (coledococele) Esfincterotomia endoscópica (CPRE)
Tipo IVa Múltiplos intra e extra-hepáticos Ressecção + colecistectomia + biliodigestiva
Tipo IVb Múltiplos extra-hepáticos Ressecção + colecistectomia + biliodigestiva
Tipo V (Caroli) - restrito Intra-hepático segmentar Hepatectomia parcial
Tipo V (Caroli) - difuso Intra-hepático bilateral Transplante hepático

Doença de Caroli e Síndrome de Caroli

A Doença de Caroli representa uma malformação congênita caracterizada por dilatações segmentares e multifocais dos ductos biliares intra-hepáticos, sem outras alterações estruturais do parênquima hepático. Esta condição apresenta forte associação com doença renal policística.

A Síndrome de Caroli constitui uma variante mais complexa, na qual as dilatações biliares intra-hepáticas coexistem com fibrose hepática congênita e colangite destrutiva crônica. Esta forma apresenta evolução mais grave e maior risco de complicações.

Complicações

Ambas as formas predispõem a episódios recorrentes de colangite bacteriana aguda, decorrentes da estase biliar nos ductos dilatados. O diagnóstico é estabelecido através de:

O exame histopatológico, quando realizado, demonstra ductos biliares dilatados ou substituídos por dilatações saculares cilíndricas, intercaladas por segmentos de ductos estenosados.

⚠️ Atenção: Doença de Caroli = apenas dilatações intra-hepáticas. Síndrome de Caroli = dilatações + fibrose hepática congênita + colangite destrutiva.

Colangite Esclerosante Primária (CEP)

A Colangite Esclerosante Primária (CEP) é uma doença inflamatória crônica e progressiva que acomete as vias biliares intra e extra-hepáticas, levando à fibrose, estenose e obliteração ductal. Trata-se de uma condição de etiologia desconhecida, provavelmente autoimune, com evolução insidiosa e prognóstico reservado.

Epidemiologia e Associações

A CEP apresenta predileção por homens, com pico de incidência entre 35 e 50 anos de idade. A doença possui uma associação marcante com doenças inflamatórias intestinais, particularmente a Retocolite Ulcerativa (RCU):

🧠 Associação clássica: CEP está fortemente associada à Retocolite Ulcerativa. Sempre investigar doença inflamatória intestinal em pacientes com CEP.

Fisiopatologia

O processo inflamatório crônico da CEP resulta em inflamação periductal, proliferação fibrosa concêntrica ao redor dos ductos biliares e estenoses progressivas multifocais. A obstrução crônica ao fluxo biliar culmina em colestase, proliferação bacteriana e, eventualmente, cirrose biliar secundária.

Quadro Clínico

A apresentação clínica da CEP é heterogênea. Muitos pacientes permanecem assintomáticos por longos períodos, com o diagnóstico sendo estabelecido incidentalmente através de alterações laboratoriais.

Pacientes Assintomáticos

A forma mais comum de apresentação inicial. O diagnóstico é frequentemente suspeitado pela detecção de elevação persistente de enzimas canaliculares (fosfatase alcalina e gama-GT) em exames de rotina.

Pacientes Sintomáticos

Quando presentes, os sintomas refletem a colestase crônica e incluem:

Em fases avançadas, podem surgir manifestações de cirrose hepática e hipertensão portal, incluindo ascite, encefalopatia hepática, varizes esofágicas e esplenomegalia.

🔎 Apresentação típica: Paciente assintomático com elevação persistente de FA/GGT ou paciente com prurido + fadiga + icterícia obstrutiva.

Diagnóstico Laboratorial

O perfil laboratorial da CEP caracteriza-se por um padrão colestático:

Marcadores Imunológicos

O anticorpo anticitoplasma de neutrófilos com padrão perinuclear (p-ANCA) está presente em 30-80% dos pacientes com CEP. Embora não seja específico, sua positividade em contexto clínico compatível reforça o diagnóstico.

🧪 Laboratório: Padrão colestático (↑FA, ↑GGT, ↑BD) + discreta elevação de transaminases + p-ANCA positivo (30-80%).

Diagnóstico por Imagem

Ultrassonografia Abdominal

Exame inicial para avaliação do sistema hepatobiliar. Permite identificar dilatação de vias biliares intra-hepáticas, excluir obstrução mecânica por cálculos e avaliar o parênquima hepático. Possui baixa sensibilidade para o diagnóstico definitivo de CEP.

Colangioressonância Magnética (Colangio-RM)

Constitui o exame de imagem preferencial para diagnóstico de CEP. Método não invasivo que permite visualização detalhada da árvore biliar, demonstrando o padrão característico de estenoses multifocais alternadas com segmentos de calibre normal ou dilatado, configurando a imagem clássica em "contas de rosário" ou "árvore podada".

Colangiopancreatografia Retrógrada Endoscópica (CPRE)

Embora seja o padrão-ouro histórico para visualização da árvore biliar, atualmente a CPRE é reservada para casos em que há necessidade de intervenção terapêutica (dilatação de estenoses dominantes, colocação de próteses) ou quando a Colangio-RM é inconclusiva. Apresenta o mesmo achado característico em "contas de rosário".

💡 Imagem patognomônica: Padrão em "contas de rosário" na Colangio-RM ou CPRE = estenoses multifocais alternadas com dilatações.

Biópsia Hepática

A biópsia hepática não é necessária para o diagnóstico quando os achados colangiográficos são característicos. Está indicada apenas em casos de dúvida diagnóstica ou quando há suspeita de CEP de pequenos ductos (forma que acomete apenas ductos intra-hepáticos pequenos, não visualizáveis à colangiografia).

O achado histopatológico característico consiste em fibrose periductal concêntrica, configurando o padrão em "casca de cebola" ao redor dos ductos biliares.

Tratamento

Não existe tratamento medicamentoso comprovadamente eficaz para modificar a história natural da CEP. A abordagem terapêutica é direcionada ao manejo de sintomas, tratamento de complicações e, em casos avançados, ao transplante hepático.

Doença Extra-hepática com Estenose Dominante

Pacientes que desenvolvem estenose dominante (estenose significativa em ducto hepático comum ou colédoco) podem beneficiar-se de dilatação endoscópica por CPRE, com ou sem colocação de prótese biliar temporária. Este procedimento visa aliviar a obstrução e reduzir episódios de colangite.

Manejo do Prurido

O prurido colestático pode ser intenso e refratário. O tratamento de primeira linha consiste na administração de colestiramina, uma resina quelante de sais biliares que reduz sua absorção intestinal e, consequentemente, seus níveis séricos.

Doença Avançada

O transplante hepático é a única opção terapêutica definitiva para pacientes com doença avançada, caracterizada por cirrose descompensada, icterícia progressiva ou episódios recorrentes de colangite bacteriana refratária ao tratamento. A sobrevida pós-transplante em 5 anos supera 80%.

💊 Tratamento: Não há terapia modificadora da doença. Manejo sintomático (colestiramina para prurido), dilatação de estenoses dominantes e transplante hepático em casos avançados.

Complicações

Colangiocarcinoma

Pacientes com CEP apresentam risco significativamente aumentado de desenvolver colangiocarcinoma (adenocarcinoma dos ductos biliares), com incidência cumulativa de 10-15% ao longo da vida. Este tumor possui prognóstico sombrio e frequentemente é diagnosticado em estágios avançados.

Recomenda-se rastreamento anual através de:

Elevações súbitas de CA 19-9, piora clínica inexplicada ou surgimento de estenose dominante de novo devem levantar suspeita de transformação maligna.

Cirrose Biliar Secundária

A obstrução crônica ao fluxo biliar resulta em cirrose biliar secundária, com todas as suas complicações: hipertensão portal, ascite, encefalopatia hepática, síndrome hepatorrenal e risco de carcinoma hepatocelular.

🚨 Complicação grave: CEP aumenta significativamente o risco de colangiocarcinoma. Rastreamento anual com CA 19-9 e Colangio-RM é mandatório.
Aspecto Colangite Esclerosante Primária (CEP) Colangite Biliar Primária (CBP)
Alvo da lesão Ductos biliares de médio e grande calibre Ductos biliares pequenos do espaço porta
Epidemiologia Homens, 35-50 anos Mulheres de meia-idade (40-60 anos)
Associação clínica Retocolite Ulcerativa (60-75%) Artrite reumatoide, Sjögren, Hashimoto
Anticorpo característico p-ANCA (30-80%) Anti-mitocôndria (AMA) (>95%)
Imagem típica "Contas de rosário" (Colangio-RM/CPRE) Colangiografia normal
Histologia Fibrose periductal em "casca de cebola" Colangite destrutiva não supurativa
Complicação maligna Colangiocarcinoma (10-15%) Carcinoma hepatocelular (raro)

Lesão Iatrogênica de Via Biliar

A lesão iatrogênica das vias biliares representa uma das complicações mais temidas da colecistectomia, particularmente na abordagem videolaparoscópica. Embora a colecistectomia laparoscópica seja um procedimento seguro e amplamente realizado, a lesão biliar inadvertida pode resultar em morbidade significativa, necessidade de reoperações complexas e sequelas permanentes.

Visão Crítica de Segurança (Visão Crítica de Strasberg)

A Visão Crítica de Segurança, descrita por Strasberg, constitui a estratégia mais eficaz para prevenir lesões biliares durante a colecistectomia laparoscópica. Este método baseia-se na identificação inequívoca das estruturas anatômicas antes de realizar qualquer clipagem ou secção.

Critérios da Visão Crítica de Segurança

Antes de clipar e seccionar o ducto cístico e a artéria cística, o cirurgião deve obrigatoriamente confirmar todos os seguintes critérios:

⚠️ Visão Crítica de Segurança: Identificar fissura de Rouvière + dissecar completamente o triângulo de Calot + liberar infundíbulo da placa hilar + visualizar apenas 2 estruturas entrando na vesícula.

A adesão rigorosa a estes critérios reduz drasticamente o risco de lesão inadvertida do ducto hepático comum ou ducto hepático direito aberrante.

Classificação de Strasberg

Quando ocorre lesão biliar, a Classificação de Strasberg é o sistema mais utilizado para categorizar o tipo de lesão, orientando a conduta terapêutica. Esta classificação incorpora e expande a classificação de Bismuth.

Tipo A - Fístula de Ducto Menor

Fístula biliar originada de ductos biliares de pequeno calibre:

Tipo B - Oclusão de Ducto Aberrante

Oclusão (clipagem ou ligadura) de um ducto hepático direito aberrante, sem secção completa. Resulta em atrofia segmentar progressiva.

Tipo C - Fístula de Ducto Aberrante

Secção ou lesão de um ducto hepático direito aberrante, resultando em fístula biliar externa.

Tipo D - Lesão Lateral do Ducto Principal

Lesão da parede lateral do ducto biliar principal (ducto hepático comum ou colédoco), acometendo menos de 50% da circunferência ductal, sem secção completa.

Tipo E - Lesão Circunferencial do Ducto Principal

Secção completa ou estenose do ducto biliar principal. Subdivide-se conforme a localização da lesão (correspondente à classificação de Bismuth):

🧠 Memorize - Classificação de Strasberg:
A = Fístula de ducto menor (cístico/Luschka)
B = Oclusão de ducto aberrante
C = Fístula de ducto aberrante
D = Lesão lateral do ducto principal
E = Lesão circunferencial do ducto principal (E1-E5 = Bismuth I-V)
Classificação Strasberg Classificação Bismuth Descrição da Lesão
Tipo A - Fístula de ducto cístico ou ductos de Luschka
Tipo B - Oclusão de ducto hepático direito aberrante
Tipo C - Fístula de ducto hepático direito aberrante
Tipo D - Lesão lateral do colédoco (<50% circunferência)
Tipo E1 Tipo I Estenose de hepático comum, coto >2 cm
Tipo E2 Tipo II Estenose de hepático comum, coto <2 cm
Tipo E3 Tipo III Estenose hilar, confluência preservada
Tipo E4 Tipo IV Estenose hilar, destruição da confluência
Tipo E5 Tipo V Lesão de ducto aberrante + hepático comum

Tratamento das Lesões Biliares

A abordagem terapêutica das lesões biliares iatrogênicas depende de três fatores principais:

Diagnóstico Intraoperatório

Quando a lesão é reconhecida durante o procedimento cirúrgico, a conduta imediata pode prevenir complicações graves:

Lesão de Ducto Principal
Lesão de Ducto Secundário/Aberrante
💡 Regra prática - Diagnóstico intraoperatório:
Lesão pequena (ducto <3mm ou lesão <30%) = ligadura ou dreno de Kehr
Lesão grande (ducto >3mm ou lesão >30%) = reconstrução biliodigestiva

Diagnóstico Pós-operatório

Quando a lesão não é reconhecida durante a cirurgia, manifesta-se no pós-operatório através de:

Fístula de Ducto Cístico (Tipo A)

Conduta:

Fístula de Ducto Principal (Tipos C, D, E)

Conduta:

Estenose Cicatricial Tardia

Pode desenvolver-se semanas a meses após a cirurgia, manifestando-se com icterícia progressiva e colangite recorrente. A conduta depende da localização:

💊 Tratamento pós-operatório:
Fístula cístico: drenagem percutânea + CPRE
Fístula ducto principal: drenagem trans-hepática + biliodigestiva
Estenose baixa: CPRE com prótese
Estenose alta: biliodigestiva cirúrgica
Momento/Tipo de Lesão Características Tratamento
DIAGNÓSTICO INTRAOPERATÓRIO
Ducto principal - lesão <30% Lesão lateral parcial Sutura + dreno de Kehr
Ducto principal - lesão >30% Lesão extensa ou secção completa Reconstrução biliodigestiva
Ducto secundário <3mm Ducto aberrante pequeno Ligadura simples
Ducto secundário >3mm Ducto aberrante grande Reconstrução biliodigestiva
DIAGNÓSTICO PÓS-OPERATÓRIO
Fístula de ducto cístico Drenagem de bile, coleção Drenagem percutânea + CPRE
Fístula de ducto principal Peritonite biliar, biloma Drenagem trans-hepática + biliodigestiva
Estenose cicatricial baixa Icterícia tardia, lesão distal CPRE com prótese
Estenose cicatricial alta Icterícia tardia, lesão hilar Reconstrução biliodigestiva

Neoplasias das Vias Biliares

As neoplasias das vias biliares representam um grupo heterogêneo de tumores malignos que acometem diferentes segmentos do sistema biliar, desde a vesícula biliar até os ductos hepáticos.

Tumores Peri-Ampulares

Definição e Conceito

Os tumores peri-ampulares constituem um conjunto de neoplasias malignas localizadas na região da ampola de Vater, estrutura anatômica onde ocorre a confluência do ducto biliar comum e do ducto pancreático principal no duodeno. A característica clínica marcante deste grupo de tumores é a presença de icterícia obstrutiva associada à vesícula biliar palpável, configurando um padrão clínico bastante sugestivo.

🧠 Conceito-chave: Tumores peri-ampulares = lesões malignas próximas à ampola de Vater que cursam com colestase e vesícula palpável (sinal de Courvoisier-Terrier).

Principais Tipos de Tumores Peri-Ampulares

Quatro tipos principais de neoplasias compõem este grupo, sendo importante diferenciá-las:

Manifestações Clínicas

O quadro clínico dos tumores peri-ampulares é caracterizado predominantemente por sinais e sintomas decorrentes da obstrução biliar:

⚠️ Sinal de Courvoisier-Terrier: Icterícia + vesícula palpável e indolor = pensar em obstrução neoplásica da via biliar distal (tumor peri-ampular). Na coledocolitíase, a vesícula geralmente não é palpável devido à fibrose crônica por litíase prévia.

Abordagem Diagnóstica

A investigação dos tumores peri-ampulares segue uma sequência lógica de exames de imagem:

Investigação Inicial

A ultrassonografia de abdome constitui o exame inicial de escolha, sendo não invasivo, amplamente disponível e capaz de demonstrar dilatação das vias biliares, identificar a vesícula distendida e eventualmente visualizar massas na região pancreática ou peri-ampular.

Exame Padrão-Ouro

A tomografia computadorizada helicoidal (multifásica) de abdome representa o método diagnóstico de referência, permitindo:

Particularidades Diagnósticas Específicas

Adenocarcinoma de Cabeça do Pâncreas

Este tumor, o mais comum entre os peri-ampulares, apresenta características específicas:

Carcinoma da Ampola de Vater

O tumor ampular possui uma apresentação clínica peculiar e patognomônica:

💡 Dica diagnóstica: Icterícia com períodos de melhora + episódios de melena = pensar fortemente em carcinoma de ampola de Vater! A necrose tumoral permite drenagem biliar temporária e sangramento digestivo.

Tratamento Curativo

A abordagem cirúrgica com intenção curativa nos tumores peri-ampulares é raramente possível, pois a maioria dos pacientes apresenta-se em estágios avançados ao diagnóstico. Quando factível, o procedimento de escolha é a cirurgia de Whipple (duodenopancreatectomia), que consiste em:

Critérios de Ressecabilidade

Tratamento Paliativo

Na maioria dos casos, em que a ressecção curativa não é possível, o objetivo terapêutico é o controle sintomático, especialmente da icterícia obstrutiva e suas complicações:

Drenagem Biliar
Complicações Esperadas

A principal complicação nos tumores peri-ampulares é a colangite, infecção bacteriana ascendente da via biliar obstruída, que se manifesta com febre, icterícia e dor abdominal (tríade de Charcot), podendo evoluir para sepse biliar. O tratamento envolve antibioticoterapia e drenagem biliar urgente.

🚨 Complicação importante: Colangite é a complicação mais temida nos tumores peri-ampulares. Requer drenagem biliar urgente (endoscópica ou percutânea) associada a antibioticoterapia de amplo espectro.

Tumor de Klatskin (Colangiocarcinoma Peri-Hilar)

Conceito e Epidemiologia

O tumor de Klatskin representa o colangiocarcinoma peri-hilar, neoplasia maligna que acomete a confluência dos ductos hepáticos direito e esquerdo ou suas proximidades. Este tipo de colangiocarcinoma é o mais frequente entre os tumores primários da via biliar, correspondendo a aproximadamente 50-60% de todos os colangiocarcinomas.

🔎 Definição: Tumor de Klatskin = colangiocarcinoma localizado na região hilar hepática (confluência dos ductos hepáticos), sendo o tipo mais comum de colangiocarcinoma.

Quadro Clínico

A apresentação clínica do tumor de Klatskin difere dos tumores peri-ampulares em aspectos importantes:

Fisiopatologia da Vesícula Impalpável

A explicação para a vesícula impalpável no tumor de Klatskin é anatômica: a obstrução ocorre proximal à inserção do ducto cístico (obstrução "alta"). Desta forma, a bile não consegue atingir o ducto colédoco nem refluir para a vesícula biliar, que permanece vazia e colabada. Em contrapartida, ocorre dilatação das vias biliares intra-hepáticas a montante da obstrução.

💡 Fisiopatologia: No tumor de Klatskin, a obstrução é ALTA (hilar) → bile não chega ao colédoco → não há refluxo para vesícula → vesícula murcha/impalpável + dilatação de vias intra-hepáticas.

Diagnóstico por Imagem

Investigação Inicial

A ultrassonografia de abdome é o exame inicial, demonstrando achados característicos:

Exames Confirmatórios

Para confirmação diagnóstica, estadiamento e planejamento cirúrgico, são necessários exames mais detalhados:

Classificação de Bismuth-Corlette

A classificação de Bismuth-Corlette é fundamental para o planejamento terapêutico, estratificando os tumores de Klatskin conforme a extensão anatômica do acometimento biliar:

Tipo Localização da Lesão Implicação Cirúrgica
Bismuth I Ducto hepático comum, abaixo da confluência Melhor prognóstico, ressecção mais simples
Bismuth II Confluência dos ductos hepáticos (bifurcação) Ressecção da via biliar extra-hepática
Bismuth IIIA Confluência + extensão para ducto hepático direito Requer hepatectomia direita associada
Bismuth IIIB Confluência + extensão para ducto hepático esquerdo Requer hepatectomia esquerda associada
Bismuth IV Acomete confluência e ambos ductos hepáticos (direito e esquerdo) Geralmente irressecável, tratamento paliativo

Tratamento Cirúrgico

A abordagem terapêutica do tumor de Klatskin varia conforme a classificação de Bismuth-Corlette e a extensão da doença:

Bismuth I e II

Para tumores localizados no ducto hepático comum ou na confluência, sem extensão significativa aos ductos intra-hepáticos, o tratamento consiste em:

Bismuth IIIA e IIIB

Quando há extensão tumoral para um dos ductos hepáticos, o tratamento requer ressecção hepática associada:

Bismuth IV

Tumores Bismuth IV, com acometimento bilateral dos ductos hepáticos, são geralmente considerados irressecáveis ou de ressecabilidade extremamente limitada. Nestes casos, a abordagem é paliativa.

⚠️ Ressecabilidade: Bismuth I e II → ressecção da via biliar. Bismuth III → ressecção + hepatectomia. Bismuth IV → geralmente irressecável, conduta paliativa.

Tratamento Paliativo

Para tumores irressecáveis ou em pacientes sem condições clínicas para cirurgia de grande porte, o objetivo é o controle sintomático da icterícia:

Drenagem Biliar Transhepática Percutânea

Constitui a principal opção paliativa no tumor de Klatskin, pois a obstrução é proximal (hilar):

Limitações da CPRE

A colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE) geralmente não é efetiva no tumor de Klatskin para drenagem paliativa, pois o acesso endoscópico retrógrado não consegue ultrapassar a obstrução hilar alta para drenar adequadamente os ductos intra-hepáticos bilateralmente.

💊 Tratamento paliativo: No tumor de Klatskin, a CPRE não é efetiva (obstrução alta). Preferir drenagem transhepática percutânea para alívio da icterícia.

Câncer de Vesícula Biliar

Epidemiologia e Características Gerais

O carcinoma de vesícula biliar é uma neoplasia maligna relativamente incomum, porém com prognóstico geralmente reservado. Apresenta características epidemiológicas e histológicas específicas:

Fatores de Risco

Diversos fatores predispõem ao desenvolvimento do câncer de vesícula biliar, sendo fundamental seu reconhecimento para estratégias de rastreamento em populações de risco:

🧬 Fatores de risco principais: Litíase biliar (mais importante), vesícula em porcelana (indicação de colecistectomia profilática), colangite esclerosante, cistos de via biliar.

Manifestações Clínicas

Uma característica marcante do câncer de vesícula biliar é sua apresentação clínica tardia e inespecífica:

Doença Inicial

Nos estágios iniciais, o câncer de vesícula é assintomático ou apresenta sintomas indistinguíveis de colecistite crônica calculosa:

Achado Incidental

Frequentemente, o diagnóstico é um achado incidental no exame anatomopatológico pós-colecistectomia realizada por indicação de colecistite crônica calculosa. Este achado incidental ocorre em aproximadamente 1-2% das colecistectomias.

Doença Avançada

Quando sintomático e diagnosticado clinicamente, geralmente indica doença avançada:

🔎 Apresentação clínica: Câncer de vesícula é geralmente ASSINTOMÁTICO em fases iniciais, sendo achado incidental pós-colecistectomia. Sintomas evidentes indicam doença avançada.

Estadiamento TNM e Tratamento

O estadiamento do câncer de vesícula biliar segue a classificação TNM, sendo fundamental para definição da estratégia terapêutica. A profundidade de invasão da parede vesicular determina o tratamento:

Anatomia da Parede Vesicular

Compreender as camadas da parede vesicular é essencial para o estadiamento:

Estadiamento T (Tumor Primário)
Estágio T Profundidade de Invasão Tratamento Indicado
Tis Carcinoma in situ Colecistectomia simples
T1a Invade lâmina própria Colecistectomia simples
T1b Invade camada muscular Colecistectomia simples (convencional)
T2 Invade tecido conjuntivo perimuscular (subserosa) Colecistectomia estendida (ressecção de segmentos IVb e V hepáticos + linfadenectomia)
T3 Perfura serosa e/ou invade diretamente fígado ou outro órgão adjacente Colecistectomia radical (hepatectomia de IVb e V ou maior + linfadenectomia + ressecção de estruturas invadidas)
T4 Invade veia porta, artéria hepática ou múltiplos órgãos extra-hepáticos Geralmente irressecável - tratamento paliativo (quimioterapia)
Detalhamento dos Tratamentos
T1 (Tis, T1a, T1b) - Colecistectomia Simples

Para tumores limitados à mucosa ou camada muscular, a colecistectomia convencional (simples) é suficiente:

T2 - Colecistectomia Estendida

Quando há invasão da subserosa (T2), é necessária ressecção oncológica mais ampla:

T3 - Colecistectomia Radical

Para tumores que perfuram a serosa ou invadem diretamente estruturas adjacentes:

T4 - Tratamento Paliativo

Tumores com invasão vascular de grandes vasos (veia porta, artéria hepática) ou múltiplos órgãos são geralmente irressecáveis:

💊 Tratamento por estágio: T1 (até muscular) = colecistectomia simples. T2 (subserosa) = colecistectomia estendida (IVb+V). T3 (perfura serosa) = colecistectomia radical (hepatectomia). T4 (invasão vascular/múltiplos órgãos) = paliativo.

Prognóstico

O prognóstico do câncer de vesícula biliar está diretamente relacionado ao estágio ao diagnóstico:

A presença de metástases linfonodais e invasão vascular são fatores prognósticos negativos independentes.

⚠️ Prognóstico: Quanto mais precoce o diagnóstico (achado incidental em T1), melhor o prognóstico. Doença sintomática geralmente indica estágio avançado com prognóstico reservado.

Seguimento Pós-Operatório

Após tratamento cirúrgico com intenção curativa, o seguimento oncológico deve incluir: