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Doenças do Esôfago


Conceitos Iniciais

A Gastroenterologia abrange um vasto campo clínico-cirúrgico, onde diversas patologias podem ser abordadas tanto por tratamento medicamentoso quanto cirúrgico. Iniciamos nosso estudo com o esôfago, um órgão tubular muscular essencial para o transporte de alimentos.

Anatomia e Fisiologia Essencial do Esôfago

O esôfago é um tubo muscular que se estende do esfíncter esofagiano superior (EES) ao esfíncter esofagiano inferior (EEI). Sua principal função é o transporte eficiente do bolo alimentar da faringe ao estômago através de movimentos peristálticos coordenados.

🧠 Lembre-se: O EEI mantém um tônus esfincteriano basal, permanecendo contraído para prevenir o refluxo do conteúdo gástrico para o esôfago.

A coordenação da peristalse esofágica é controlada por dois importantes plexos nervosos intrínsecos:

Disfagia

A disfagia é o sintoma cardinal das doenças esofágicas e deve sempre levantar a suspeita de uma patologia subjacente. Ela pode ser classificada em dois tipos principais, dependendo da localização do acometimento:

Tipos de Disfagia

💡 Dica para Prova: Em questões de residência, se a disfagia for o sintoma principal, pense imediatamente em um diagnóstico diferencial de doenças do esôfago. As causas de disfagia de transferência são geralmente abordadas em módulos de Neurologia ou Reumatologia.
🔎 Sinal de Alerta: Pirose + Regurgitação deve sempre levantar a suspeita de Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE).

Panorama Geral da Disfagia de Condução

A disfagia de condução, que será o foco principal deste resumo, manifesta-se com um conjunto de sintomas que refletem a dificuldade no transporte do bolo alimentar e suas consequências.

Clínica e Abordagem Inicial

Os principais achados clínicos associados à disfagia de condução incluem:

A Esofagografia Baritada é frequentemente o exame inicial na investigação da disfagia. Embora não seja o padrão-ouro para todos os distúrbios motores, é amplamente disponível e fornece informações valiosas sobre a morfologia e a função esofágica.


Distúrbios Motores do Esôfago

Os distúrbios motores do esôfago são condições caracterizadas por alterações na peristalse esofágica e/ou no relaxamento dos esfíncteres, resultando em disfagia e outros sintomas.

Acalásia

A acalásia é um distúrbio motor primário do esôfago caracterizado pela destruição do plexo mioentérico de Auerbach na parede esofágica distal. Essa degeneração leva a uma falha no relaxamento do esfíncter esofagiano inferior (EEI) e à perda da peristalse esofágica normal.

Diferenciação entre Acalásia e Carcinoma de Esôfago

Característica Acalásia Carcinoma de Esôfago
Idade de Início Geralmente mais jovem Geralmente mais idoso
Evolução dos Sintomas Arrastada (anos) Rápida (meses)
Perda de Peso Progressiva, menos expressiva Expressiva e rápida

Clínica da Acalásia

Os sintomas são decorrentes da dificuldade de passagem do alimento e da estase esofágica:

Diagnóstico da Acalásia

A investigação diagnóstica da acalásia envolve uma combinação de exames de imagem e funcionais:

🧪 Exame Essencial: A esofagomanometria é o padrão-ouro para o diagnóstico de distúrbios motores do esôfago, incluindo a acalásia, pois avalia diretamente a função motora.

Tratamento da Acalásia

O objetivo do tratamento é reduzir a pressão do EEI para aliviar a disfagia e prevenir complicações. A escolha terapêutica depende da gravidade da doença e das características do paciente.

Tratamento Farmacológico (Pouco Resolutivo)

Geralmente reservado para pacientes com contraindicações a procedimentos mais invasivos ou como ponte para tratamentos definitivos.

Tratamento Definitivo

Visa uma resolução mais duradoura da obstrução do EEI.

Esofagectomia

Reservada para casos de megaesôfago avançado (Grau IV), onde o esôfago perdeu completamente sua função de transporte e se tornou um reservatório, com alto risco de complicações e malignização.

Classificação de Mascarenhas/Rezende e Abordagem Terapêutica

Esta classificação didática auxilia na orientação do tratamento com base no grau de dilatação esofágica:

Grau Descrição do Esôfago Diâmetro Tratamento Sugerido
Grau I Esôfago normal ou levemente dilatado Até 4 cm Medicamentoso (Nitrato, BCC, Sildenafil, Botox)
Grau II Megaesôfago moderado 4-7 cm Dilatação Endoscópica (Pneumática por balão)
Grau III Megaesôfago avançado 7-10 cm Cardiomiotomia a Heller-Pinotti + Fundoplicatura, ou POEM
Grau IV Dolicomegaesôfago, esôfago em sigmoide > 10 cm Esofagectomia
⚠️ Atenção: Embora a classificação seja útil, a escolha do tratamento pode ser individualizada. Um paciente Grau II refratário à dilatação pode ser encaminhado para miotomia. O megaesôfago Grau IV é um fator de risco significativo para carcinoma escamoso de esôfago devido à estase e irritação crônica.

Espasmo Esofagiano Difuso (EED)

O Espasmo Esofagiano Difuso é um distúrbio motor caracterizado por contrações simultâneas, não peristálticas e vigorosas do corpo esofágico, que impedem a progressão adequada do bolo alimentar.

Conceitos e Clínica

Diagnóstico do EED

O diagnóstico do EED é estabelecido por exames de imagem e, principalmente, por estudos manométricos:

🔬 Ponto Importante: Como os achados manométricos podem ser intermitentes, a esofagomanometria para EED frequentemente requer testes provocativos (ex: deglutições múltiplas, refeição) para desencadear as contrações anormais.
Tratamento do EED

O tratamento visa o alívio sintomático e a redução da frequência e intensidade dos espasmos.

Esôfago Hipercontrátil (Esôfago em Quebra-Nozes)

O Esôfago Hipercontrátil, também conhecido como "Esôfago em Quebra-Nozes", é um distúrbio motor caracterizado por ondas peristálticas de alta amplitude, mas que, ao contrário do EED, são eficazes na propulsão do bolo alimentar.

Conceitos e Clínica

Diagnóstico do Esôfago Hipercontrátil

O diagnóstico é primariamente manométrico:

Tratamento do Esôfago Hipercontrátil

O tratamento é semelhante ao do Espasmo Esofagiano Difuso, focando no alívio sintomático.

Característica Espasmo Esofagiano Difuso (EED) Esôfago Hipercontrátil (Quebra-Nozes)
Clínica Principal Disfagia + Precordialgia Disfagia + Dor Retrosternal
Esofagografia Baritada "Saca-Rolha" ou "Conta de Rosário" Peristalse geralmente normal (achados inespecíficos)
Manometria Convencional Contrações simultâneas não peristálticas Peristalse de elevada amplitude
Manometria de Alta Resolução IRP normal + > 20% contrações simultâneas IRP normal + ≥ 20% contrações hipercontráteis (DCI > 8000)
Tratamento (1) Explicar benignidade, bala de hortelã
(2) Bloqueadores do canal de cálcio, Nitratos
(3) Tricíclicos
(4) Miotomia (se refratário)
(1) Bloqueadores do canal de cálcio, Nitratos
(2) Tricíclicos
(3) Manejo da dor

Distúrbios Obstrutivos do Esôfago

Divertículos Esofágicos

Os divertículos esofágicos são saculações ou bolsas que se formam na parede do esôfago. Eles podem ser classificados em dois tipos principais, dependendo das camadas da parede esofágica que estão envolvidas na sua formação:

🧠 Conceito Chave: A distinção entre divertículo verdadeiro e falso é fundamental para entender a fisiopatologia e a localização mais comum de cada tipo.

Divertículo de Zenker

O divertículo de Zenker, também conhecido como divertículo faringoesofágico, é o tipo mais comum de divertículo esofágico. Ele se origina na hipofaringe, logo acima do esfíncter esofágico superior (EES).

Conceitos Essenciais
Fisiopatologia

O músculo cricofaríngeo é responsável pela função do esfíncter esofágico superior (EES). Em pacientes com divertículo de Zenker, ocorre uma hipertonia do EES. Inicialmente, essa hipertonia pode não causar sintomas, pois a musculatura esquelética do terço inicial do esôfago permite um certo controle e a capacidade de engolir com mais força para superar a resistência.

No entanto, a longo prazo, a pressão repetida exercida durante a deglutição contra um EES hipertenso leva à protusão da mucosa e submucosa através do ponto de menor resistência na parede posterior da faringe, o Triângulo de Killian. Este processo crônico e gradual explica a maior incidência em idosos.

Eventos Chave na Formação
Clínica

Os sintomas do divertículo de Zenker surgem à medida que a bolsa se torna maior e acumula alimentos. Os principais são:

Diagnóstico

O diagnóstico do divertículo de Zenker é primariamente radiológico.

⚠️ Atenção: A endoscopia digestiva alta (EDA) para diagnóstico primário do divertículo de Zenker é contraindicada devido ao alto risco de perfuração da parede posterior do divertículo, que é fina e frágil. A EDA pode ser utilizada em casos selecionados para avaliação terapêutica, como no procedimento de Dohlman, mas não para o diagnóstico inicial.
Tratamento

O tratamento é cirúrgico e varia conforme o tamanho do divertículo e a presença de sintomas.

Divertículo Médio-Esofágico

Os divertículos médio-esofágicos são menos comuns que os de Zenker e geralmente se localizam na porção média do esôfago.

Características
Formação

A etiologia dos divertículos médio-esofágicos pode ser por tração ou pulsão:

Diagnóstico
Tratamento

O tratamento é indicado apenas se o divertículo for sintomático ou de tamanho significativo.

Divertículo Epifrênico

Os divertículos epifrênicos localizam-se na porção distal do esôfago, logo acima do diafragma.

Características
Formação
Diagnóstico
Tratamento

O tratamento é reservado para pacientes sintomáticos ou com divertículos grandes.

Característica Divertículo de Zenker Divertículo Médio-Esofágico Divertículo Epifrênico
Tipo Falso (Pseudodivertículo) Verdadeiro (mais comum) Falso (Pseudodivertículo)
Localização Hipofaringe (acima do EES) Terço médio do esôfago Terço distal do esôfago (acima do diafragma)
Etiologia Principal Hipertonia do cricofaríngeo (pulsão) Linfonodos inflamados (tração) ou distúrbios motores (pulsão) Distúrbios motores esofágicos (pulsão)
Sintomas Comuns Disfagia, halitose, regurgitação, perda de peso Geralmente assintomático Geralmente assintomático
Diagnóstico Esofagografia baritada (padrão-ouro) Esofagografia baritada Esofagografia baritada
Tratamento Miotomia cricofaríngea +/- diverticulopexia/ectomia (cirúrgica ou endoscópica) Ressecção se sintomático ou >2cm + tratar causa base Ressecção se sintomático ou >2cm + tratar causa base

Anel de Schatzki

O Anel de Schatzki é um estreitamento benigno e concêntrico da porção inferior do esôfago, localizado na junção escamocolunar (linha Z), ou seja, na transição entre o epitélio escamoso do esôfago e o epitélio colunar do estômago. Acredita-se que seja uma condição congênita ou adquirida secundária a refluxo gastroesofágico crônico.

Clínica
Diagnóstico
Diferenciais e Observações Importantes
⚠️ Diferencial: Síndrome de Plummer-Vinson

A Síndrome de Plummer-Vinson (ou Paterson-Kelly) também causa disfagia, mas afeta o esôfago mais cervical. Caracteriza-se por membranas esofágicas (estenose incompleta) e está fortemente associada à anemia ferropriva. Diferente do Anel de Schatzki, que é mais distal e anular.

🔬 Histopatologia: Biópsia do Anel de Schatzki

Ao realizar uma biópsia na região do Anel de Schatzki, é comum encontrar mucosa esofágica (epitélio escamoso) acima do anel e mucosa gástrica (epitélio colunar) abaixo dele. Essa metaplasia gástrica é frequentemente uma resposta protetora do esôfago à exposição crônica ao ácido gástrico, sugerindo uma associação com a Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE).

Tratamento

O tratamento visa aliviar a disfagia e é geralmente bem-sucedido.


Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE)

Conceitos Iniciais

A Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) caracteriza-se por um refluxo gastroesofágico mais intenso e frequente do que o fisiológico, resultando na perda dos mecanismos de defesa antirreflexo. Embora o refluxo seja um evento comum e normal, na DRGE, ele se torna patológico devido à falha desses mecanismos protetores.

🧠 Lembre-se: A DRGE é definida pela perda dos mecanismos antirreflexo, tornando o refluxo fisiológico em um evento patológico e sintomático.
Mecanismos Antirreflexo Comprometidos na DRGE:

Quadro Clínico

A apresentação clínica da DRGE pode ser dividida em sintomas esofagianos e extraesofagianos, refletindo a extensão da agressão ácida.

Sintomas Esofagianos

São os sintomas mais característicos e que direcionam o diagnóstico inicial da DRGE.

💡 Dica: Pirose e/ou regurgitação são os sintomas típicos da DRGE e devem sempre levantar a suspeita diagnóstica.
Complicações Esofagianas (presentes em cerca de 50% dos casos):

A exposição contínua da mucosa esofágica ao ácido gástrico pode levar a diversas complicações:

Sintomas Extraesofagianos

Em alguns pacientes, o refluxo pode atingir estruturas adjacentes ao esôfago, como faringe e laringe, ou mesmo as vias aéreas, resultando em manifestações atípicas. Estão presentes em aproximadamente 50% dos casos e podem ser identificados pela endoscopia.

⚠️ Atenção: A DRGE não é um tipo de dispepsia. Pirose e regurgitação são sintomas típicos da DRGE, enquanto a dispepsia engloba uma gama mais ampla de sintomas epigástricos.
⚠️ Atenção: Não há relação comprovada entre Helicobacter pylori e DRGE. A erradicação de H. pylori não é uma indicação para o tratamento da DRGE.

Diagnóstico

O diagnóstico da DRGE é multifacetado, combinando a avaliação clínica com exames complementares específicos.

Diagnóstico Clínico

Baseia-se na presença dos sintomas típicos e na resposta à terapia empírica.

Endoscopia Digestiva Alta (EDA)

A EDA é um exame importante, mas não é imprescindível para o diagnóstico da DRGE, pois pode ser normal em até 50% dos pacientes. Sua principal função é afastar outras patologias e identificar complicações.

🚨 Sinais de Alarme ("IHH... O ALARME"):

pHmetria Esofágica de 24 Horas

Considerada o padrão-ouro para o diagnóstico da DRGE, especialmente em casos complexos. Avalia a exposição do esôfago ao ácido ao longo de um dia.

🧪 Padrão-Ouro: A pHmetria de 24h é o exame mais preciso para confirmar o refluxo ácido.
Indicações para pHmetria de 24h:

O diagnóstico é confirmado por um Índice de DeMeester > 14 e/ou pH < 4 em mais de 7% das medidas.

🔎 Escala de DeMeester: Avalia a gravidade do refluxo com base em dados da pHmetria (número e extensão de episódios em decúbito e ortostase). Uma pontuação superior a 14,7 sugere refluxo significativo.

Impedâncio-pHmetria

Este exame é mais sensível que a pHmetria convencional, pois consegue detectar tanto o refluxo ácido quanto o refluxo não ácido (alcalino ou gasoso). Algumas literaturas já o consideram o atual padrão-ouro, embora ainda seja menos utilizado na prática clínica no Brasil.

Classificações Endoscópicas da Esofagite

As classificações endoscópicas são importantes para padronizar a descrição das lesões e guiar a conduta.

Classificação de Savery-Miller Descrição
Grau 1 Erosão em uma única prega esofágica.
Grau 2 Erosões em duas ou mais pregas esofágicas.
Grau 3 Erosões confluentes, envolvendo toda a circunferência do esôfago.
Grau 4 Presença de estenose péptica ou úlcera esofágica.
Grau 5 Presença de Esôfago de Barret.
Classificação de Los Angeles Descrição
Grau A Uma ou mais erosões menores que 5 mm, não confluentes.
Grau B Uma ou mais erosões maiores que 5 mm, não confluentes, que não se estendem entre os ápices de duas pregas mucosas.
Grau C Erosões confluentes entre os ápices de pelo menos duas pregas mucosas, envolvendo menos de 75% da circunferência do esôfago.
Grau D Erosões confluentes que envolvem pelo menos 75% da circunferência do esôfago.

Tratamento

O tratamento da DRGE visa reduzir a exposição do esôfago ao ácido e aliviar os sintomas, combinando medidas comportamentais, farmacológicas e, em alguns casos, cirúrgicas.

Medidas Comportamentais Antirrefluxo

São a primeira linha de abordagem e devem ser individualizadas para cada paciente.

Tratamento Farmacológico

O objetivo principal é a redução da acidez gástrica. A duração inicial do tratamento é de 8 semanas (podendo variar de 6 a 12 semanas).

Droga de Escolha: Inibidores da Bomba de Prótons (IBP)

Os IBPs são a terapia de primeira linha para a DRGE devido à sua potente supressão ácida.

💊 Tratamento de Escolha: Utilizar Inibidor da Bomba de Prótons (IBP) em dose plena, administrado em jejum.
Manejo da Resposta ao IBP:

Tratamento Cirúrgico: Fundoplicatura VLP

A cirurgia antirrefluxo é uma opção para pacientes selecionados, visando restaurar a barreira antirrefluxo.

Indicações para Cirurgia:
⚠️ Atenção: O Esôfago de Barret não é uma indicação primária para cirurgia antirrefluxo, e não há consenso na literatura sobre essa indicação.
Exames Pré-Operatórios Obrigatórios:
Técnicas Cirúrgicas (Fundoplicatura VLP - Videolaparoscópica):

A fundoplicatura consiste em envolver o esôfago distal com uma porção do fundo gástrico, criando uma nova válvula antirrefluxo.

Fundoplicatura de Nissen (360º):
Fundoplicatura Parcial (Anterior - Dor/Thal ou Posterior - Toupet/Lind):

Esôfago de Barret

O Esôfago de Barret é uma complicação da DRGE caracterizada por uma alteração metaplásica do epitélio esofágico.

🧬 Diagnóstico Histológico: O diagnóstico definitivo do Esôfago de Barret é sempre histológico, exigindo EDA com biópsia. A endoscopia apenas sugere a condição.
Achado Endoscópico Suspeito:
Conduta Diagnóstica:
Tratamento e Vigilância do Esôfago de Barret:
💊 Tratamento Essencial: IBP 1x/dia cronicamente (independentemente da presença de sintomas) + Vigilância Endoscópica regular.

A conduta subsequente depende do resultado da biópsia:

Resultado da Biópsia Conduta
Metaplasia intestinal (sem displasia) Vigilância com EDA a cada 3-5 anos.
Displasia de baixo grau Ablação endoscópica (ou EDA a cada 12 meses, se ablação não for possível ou preferida).
Displasia de alto grau (Carcinoma in situ) Ablação endoscópica (ou esofagectomia, em casos selecionados).
Adenocarcinoma invasivo Manejo conforme estadiamento do câncer de esôfago (abordado em outro resumo).

Estenose Péptica

A estenose péptica é uma complicação da DRGE que resulta do processo de cicatrização de lesões inflamatórias e ulcerativas crônicas no esôfago distal.

🚨 Suspeita Clínica: Desconfiar de estenose péptica em pacientes com DRGE e disfagia insidiosa e progressiva. Nesses casos, o diagnóstico diferencial inclui câncer de esôfago.
Tratamento:

Esofagites

As esofagites representam um grupo heterogêneo de condições inflamatórias que afetam o esôfago, podendo ser causadas por agentes infecciosos, mecanismos imunológicos ou outras etiologias.

Esofagites Infecciosas

As esofagites infecciosas são inflamações do esôfago causadas por microrganismos, sendo mais prevalentes em pacientes com comprometimento do sistema imunológico.

Conceitos Iniciais

Principais Etiologias

Quadro Clínico

Diagnóstico e Tratamento

O diagnóstico definitivo geralmente envolve endoscopia digestiva alta (EDA) com biópsia para identificação do agente etiológico e avaliação das lesões.

💡 Dica de Prova: Em pacientes de alto risco (ex: HIV/AIDS), o diagnóstico pode ser presuntivo/clínico, permitindo o início do tratamento empírico sem necessidade de investigação complementar invasiva.
Agente Etiológico Achados Diagnósticos (EDA + Biópsia) Tratamento
Candida albicans Clínico em pacientes de risco. EDA: placas branco-creme aderidas à mucosa. Biópsia: hifas e leveduras. 💊 Fluconazol VO (7-14 dias). IV se disfagia grave.
Herpes Simplex Vírus EDA: úlceras rasas com bordas elevadas ("em vulcão"). Biópsia: células multinucleadas com inclusões virais (Cowdry Tipo A). Melhor local para biópsia: periferia (halo) da lesão. 💊 Aciclovir VO (14-21 dias).
Citomegalovírus EDA: úlceras profundas e pouco numerosas. Biópsia: inclusões em "olhos de coruja". Melhor local para biópsia: centro da lesão. 💊 Ganciclovir IV (14-21 dias).

Esofagite Eosinofílica

A esofagite eosinofílica (EEo) é uma doença inflamatória crônica do esôfago, imunomediada, caracterizada pela infiltração de eosinófilos na mucosa esofágica.

Definição

É frequentemente descrita como a "asma do esôfago" devido ao seu mecanismo imune-mediado e à infiltração crônica de eosinófilos. É mais comum em jovens.

Fatores de Risco

Quadro Clínico

Diagnóstico

O diagnóstico da esofagite eosinofílica baseia-se em achados endoscópicos e histopatológicos, além da exclusão de outras causas de eosinofilia esofágica.

  1. EDA com Biópsias Esofágicas:
  2. Excluir outras causas de eosinofilia esofágica:
🧠 Conceito Chave: O critério histopatológico fundamental para o diagnóstico de esofagite eosinofílica é a presença de mais de 15 eosinófilos por campo de grande aumento em pelo menos uma biópsia esofágica, após exclusão de outras causas.

Tratamento

O tratamento da EEo é multifacetado e pode envolver uma ou mais das seguintes abordagens:

⚠️ Atenção: Na esofagite eosinofílica, o corticoide tópico (fluticasona ou budesonida) é deglutido, e não inalado como na asma brônquica. Essa é uma diferença importante para lembrar!

Hérnia de Hiato

A hérnia de hiato é uma condição anatômica em que uma porção do estômago se projeta para a cavidade torácica através do hiato esofágico do diafragma.

Conceitos Iniciais

A hérnia de hiato ocorre quando o estômago, que normalmente reside na cavidade abdominal, desloca-se parcial ou totalmente para a cavidade torácica, insinuando-se pelo hiato diafragmático, orifício por onde o esôfago transita. Acomete cerca de 30% da população, e a compreensão de sua classificação e indicações cirúrgicas é fundamental para a prática médica.

As principais formas de hérnia de hiato são:

🚨 Alerta Clínico: A hérnia de hiato por rolamento é considerada a mais grave, pois apresenta risco de isquemia e necrose gástrica (em cerca de 1% dos casos), além de poder ser precursora de volvo gástrico. Outros órgãos como baço, cólon, intestino delgado, omento e pâncreas também podem herniar por esse espaço.

Etiologia

A etiologia exata da hérnia de hiato ainda não é completamente compreendida, mas diversos fatores são sugeridos:

Dessa forma, os principais fatores de risco para o desenvolvimento de hérnia hiatal incluem idade avançada (especialmente acima dos 50 anos), sexo feminino e sobrepeso/obesidade.

Quadro Clínico

🚨 Sinal de Alerta: Dor torácica ou epigástrica forte e intermitente, ou sangramentos digestivos (hematêmese, melena), podem indicar isquemia, necrose ou estrangulamento da hérnia hiatal, que podem ser causados por compressão do hiato sobre o órgão herniado ou por volvo gástrico. Essas são emergências cirúrgicas.

Diagnóstico

O diagnóstico da hérnia de hiato pode ser realizado por diferentes métodos, cada um com sua especificidade:

  1. Radiografia Simples de Tórax: Exame de fácil acesso que pode revelar a presença de uma hérnia, especialmente as volumosas. Deve-se procurar por nível hidroaéreo no mediastino, indicando a presença de estômago na cavidade torácica.
  2. Endoscopia Digestiva Alta (EDA): Confirma a hérnia hiatal quando a junção esofagogástrica se encontra a 2 cm ou mais acima das margens dos pilares diafragmáticos, ou pela visualização de uma bolsa revestida por dobras gástricas rugosas no tórax. A EDA também é crucial para avaliar complicações como úlceras, esofagite, Esôfago de Barrett e gastrites no estômago herniado, além de excluir diagnósticos diferenciais.
  3. Manometria e pHmetria Esofágica: A manometria avalia a motilidade e função esofágica, enquanto a pHmetria mede o pH esofágico. Ambos são exames complementares importantes para a programação cirúrgica, especialmente quando há DRGE associada, para guiar a realização de uma fundoplicatura concomitante.

Classificação e Tratamento

Historicamente, a hérnia de hiato era frequentemente associada à DRGE, e a correção cirúrgica do refluxo era vista como a solução. No entanto, estudos mais recentes demonstraram que a hérnia de hiato não é uma condição obrigatória para o refluxo, e nem todos os pacientes com hérnia apresentam DRGE. Pacientes com hérnia hiatal por deslizamento, contudo, têm a mucosa esofágica mais exposta ao suco gástrico, o que favorece a irritação e o desenvolvimento de refluxo.

De forma geral, as hérnias hiatais tornam-se cirúrgicas nas seguintes situações:

A via cirúrgica preferencial é a laparoscópica, por ser menos invasiva, associada a menor dor pós-operatória, menor risco de infecção e recuperação mais rápida, o que é particularmente benéfico para pacientes idosos ou com múltiplas comorbidades.

Complicações

As complicações da hérnia hiatal são graves e demandam intervenção imediata:

Todas essas complicações são emergências cirúrgicas e requerem tratamento imediato.

Tipo de Hérnia Descrição Tratamento
Tipo I (Deslizamento) Junção esofagogástrica (JEG) herniada para o tórax, fundo gástrico em posição normal. 💊 Conservador (manejo conforme DRGE).
Tipo II (Rolamento/Paraesofágica) JEG em posição normal, mas fundo gástrico herniado para o tórax ao lado do esôfago. 🔪 Cirúrgico, se grande e/ou sintomática.
Tipo III (Mista) Combinação: JEG herniada e fundo gástrico herniado para o tórax. 🔪 Cirúrgico, se grande e/ou sintomática.
Tipo IV ("Outros") Hérnia de outros órgãos abdominais (cólon, baço, intestino delgado, etc.) para o tórax, além do estômago. 🔪 Cirúrgico, se grande e/ou sintomática.
🧠 High Yield Note: Não há uma quantificação exata para definir uma hérnia "grande" com indicação cirúrgica. As bancas de prova costumam usar termos como "volumosa" ou "grande quantidade de conteúdo herniado". Além disso, em pacientes assintomáticos com hérnia de rolamento grande e idade superior a 60 anos, a indicação cirúrgica é questionável. A baixa taxa de complicação anual (~1%) deve ser ponderada contra os riscos cirúrgicos em idosos.

Perfuração Esofágica (Síndrome de Boerhaave)

A perfuração esofágica é uma condição grave que pode ser fatal se não diagnosticada e tratada rapidamente. A Síndrome de Boerhaave, classicamente descrita como uma perfuração espontânea, é apenas uma das etiologias possíveis.

Etiologia

Embora a Síndrome de Boerhaave tenha sido historicamente associada à perfuração espontânea, a realidade atual mostra um cenário etiológico mais diversificado:

⚠️ Atenção: Em provas, lembre-se que a causa iatrogênica é a mais prevalente atualmente, superando a perfuração espontânea.

Quadro Clínico

A apresentação clínica da perfuração esofágica pode variar, mas a tríade clássica é um achado importante:

🔎 Dica de Prova: A presença de enfisema subcutâneo em um paciente com histórico de vômitos deve levantar forte suspeita de ruptura esofágica, diferenciando-se de outras causas como pneumotórax ou ruptura de outras vísceras.

Um achado de mau prognóstico é a presença de derrame pleural, indicando maior extravasamento de conteúdo e inflamação.

Diagnóstico

O diagnóstico precoce é crucial para o sucesso do tratamento. Os principais métodos incluem:

Tratamento

O tratamento da perfuração esofágica é complexo e multifacetado, visando controlar a contaminação, reparar a perfuração e garantir suporte nutricional.

Controle da Contaminação

Controle da Perfuração

A abordagem para o reparo da perfuração depende do tempo decorrido desde o evento:

Situação Abordagem Principal Observações
Perfuração Precoce (< 24h) Rafia em 2 planos + Retalho Melhor prognóstico com reparo primário.
Perfuração Tardia (> 24h) Esofagostomia de Exclusão Rafia inviável devido à inflamação; desvio do fluxo salivar.
Limitação Cirúrgica ou Perfuração Pequena (< 24h) Stent via EDA Opção menos invasiva em casos selecionados.

Drenagem Ampla

A drenagem adequada de coleções e exsudatos é fundamental para controlar a infecção e a inflamação. Isso pode ser feito através de:

Nutrição Enteral

A nutrição é essencial para a recuperação do paciente, especialmente em casos de dieta zero prolongada. A alimentação enteral é preferível e pode ser estabelecida por:


Ingestão de Corpo Estranho

A ingestão de corpo estranho é uma ocorrência comum, com particularidades importantes entre diferentes faixas etárias e tipos de objetos.

Conceitos Iniciais

🚨 Alerta: A ingestão de baterias de disco, objetos pontiagudos, ímãs e objetos longos é uma emergência devido ao alto risco de complicações graves.

Quadro Clínico

A apresentação clínica depende da localização e do tipo de objeto:

Diagnóstico

🧪 Exame Essencial: A radiografia é crucial para diferenciar moedas de baterias de disco, uma distinção vital para o manejo. O "duplo halo" é a chave para identificar a bateria.

Tratamento

A remoção por endoscopia digestiva alta (EDA) é o tratamento padrão em muitas situações, mas nem sempre é necessária, pois a peristalse pode eliminar o objeto. A decisão depende do tipo de objeto, localização e sintomas.

Remoção por Endoscopia Digestiva Alta (EDA)

A EDA é indicada nas seguintes situações:

Indicação de EDA Tempo para Realização Observações
Obstrução GI/Respiratória Até 2-6 horas (Emergência) Risco iminente à vida.
Objetos de "Risco" (Bateria, Pontiagudos, Ímãs, > 5cm) Até 2-6 horas (Emergência) Alto potencial de complicações graves.
Objetos Sem Risco Impactados no Esôfago Até 24 horas (Urgência) Risco de perfuração esofágica se prolongado.

Acompanhamento Radiográfico (Sem EDA)

A observação com radiografias seriadas é apropriada para:

💊 Tratamento Adjuvante: Em adultos com impactação alimentar no esôfago, o glucagon intravenoso pode ser administrado para relaxar a musculatura lisa esofágica e facilitar a passagem do objeto.

Importante: Laxativos e indutores de vômitos NÃO são indicados, pois podem agravar a situação ou causar novas lesões.


Câncer de Esôfago

O câncer de esôfago é uma neoplasia agressiva, caracterizada pela ausência de serosa no órgão, o que facilita a disseminação rápida. Existem dois tipos histológicos principais, cada um com características distintas.

Tipos Histológicos

A prevalência e os fatores de risco variam significativamente entre o carcinoma espinocelular e o adenocarcinoma:

Característica Carcinoma Espinocelular (CEC) Adenocarcinoma
Prevalência Principal no Brasil e em países em desenvolvimento. Principal em países desenvolvidos (ex: EUA).
Fatores de Risco Tabagismo, etilismo (principais), infecção por HPV, tilose palmar e plantar, idade avançada, acalasia, estenose cáustica, consumo de bebidas quentes e alimentos defumados. Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE), Esôfago de Barrett (metaplasia intestinal), tabagismo, obesidade.
Localização Comum Terço médio e médio superior do esôfago. Esôfago distal e junção esofagogástrica.
🧠 Conceito Chave: O tabagismo e a obesidade são fatores de risco para ambos os tipos, mas classicamente o tabagismo é mais associado ao CEC e a obesidade ao adenocarcinoma, via DRGE e Barrett.

Quadro Clínico

Os sintomas do câncer de esôfago geralmente surgem em estágios mais avançados devido à progressão da doença:

Diagnóstico

Estadiamento

O estadiamento preciso é fundamental para definir a estratégia terapêutica. Utiliza-se a classificação TNM (Tumor, Linfonodo, Metástase):

Avaliação do Tumor (T)

As categorias T são:

💡 Dica: Lembre-se que T1a e T4b são pontos de corte importantes para o tratamento: T1a pode ter tratamento endoscópico, enquanto T4b indica irressecabilidade cirúrgica.

Avaliação de Linfonodos (N)

Avaliação de Metástases (M)

Câncer de Esôfago Precoce

Define-se câncer de esôfago precoce como aquele que acomete até a submucosa (estágios T1a e T1b, correspondendo ao estágio I). É crucial entender que:

🧬 Genética/Patologia: A ausência de vasos linfáticos na mucosa esofágica é a base para a baixa taxa de metástase em tumores T1a.

Tratamento

O tratamento do câncer de esôfago é multimodal e individualizado, dependendo do estágio da doença.

💊 Tratamento Essencial: Na ausência de metástase à distância, a esofagectomia com linfadenectomia é a base do tratamento curativo, muitas vezes precedida por quimiorradioterapia neoadjuvante.