Doenças do Intestino - Parte 1
Conceitos Fundamentais da Síndrome Disabsortiva
A síndrome disabsortiva é uma condição clínica caracterizada pela dificuldade em absorver ou digerir nutrientes de forma adequada no trato gastrointestinal. Para compreendê-la plenamente, é essencial revisar alguns conceitos básicos sobre diarreia, que frequentemente é a manifestação clínica mais proeminente.
Diarreia: Definição e Classificação
A diarreia é definida como o aumento do conteúdo líquido nas fezes, seja pelo aumento da frequência das evacuações ou do volume fecal. Sua classificação pode ser feita de diversas maneiras, auxiliando na investigação etiológica:
| Critério |
Características |
Exemplos/Implicações |
| Localização |
- Alta (Delgado): Grande volume, 3-5 evacuações/dia, restos alimentares.
- Baixa (Cólon): Pequeno volume, 8-10 evacuações/dia, tenesmo, urgência.
|
A má absorção tipicamente cursa com diarreia alta. |
| Presença de Inflamação |
- Não-Invasiva: Sem muco, pus ou sangue.
- Invasiva/Inflamatória/Infecciosa: Com muco, pus ou sangue.
|
Indica lesão da mucosa intestinal. |
| Duração |
- Aguda: Duração inferior a 3-4 semanas.
- Persistente: Duração entre 2 e 4 semanas.
- Crônica: Duração superior a 3-4 semanas.
|
A causa mais comum de diarreia aguda é infecção. Diarreia crônica sugere causas como DII, intolerância à lactose, SII ou infecções persistentes. |
⚠️ Atenção: Quando se fala em diarreia invasiva, não significa exclusivamente uma etiologia infecciosa. Condições inflamatórias, como as Doenças Inflamatórias Intestinais (DII), também podem causar diarreia com características invasivas.
Introdução à Síndrome Disabsortiva
A síndrome disabsortiva, como mencionado, é a incapacidade de absorver nutrientes. Isso pode ocorrer por duas vias principais:
- O paciente "não consegue digerir para absorver" (problema na fase luminal ou digestiva).
- O paciente "não absorve o que foi digerido" (problema na fase absortiva ou da mucosa).
É crucial lembrar que o intestino delgado é o principal local de absorção de nutrientes, graças às suas vilosidades. As criptas, por sua vez, são responsáveis pela secreção. Portanto, a síndrome disabsortiva geralmente implica uma lesão ou disfunção do intestino delgado. O intestino grosso, em contraste, é primariamente responsável pela absorção de líquidos.
💡 Dica para Prova: O tempo é o principal marcador da etiologia da diarreia! Se o termo "dias" for usado, pense em diarreia aguda. Se "semanas ou meses", a diarreia é crônica. Essa é a primeira informação a ser observada para direcionar o diagnóstico.
Manifestações Clínicas da Síndrome Disabsortiva
A falha na função do intestino delgado resulta em má absorção, que se manifesta clinicamente de diversas formas:
- Diarreia: Tipicamente de alto volume e com características de esteatorreia (fezes gordurosas, volumosas, pálidas e fétidas), indicando uma diarreia de origem no intestino delgado.
- Deficiência de Micronutrientes:
- Ferro: Leva à anemia ferropriva.
- Vitamina B12 e Ácido Fólico: Causam anemia megaloblástica.
- Deficiência de Vitaminas Lipossolúveis (A, D, E, K):
- Vitamina A: Pode causar cegueira noturna.
- Vitamina D: Associada a osteopenia e osteomalácia.
- Vitamina E: Pode levar a ataxia e neuropatia.
- Vitamina K: Resulta em coagulopatias (aumento do tempo de protrombina).
🧠 Conceito Chave: Má absorção é sinônimo de diarreia alta e crônica. A lesão no intestino delgado causa diarreia de alto volume, e a persistência dos sintomas por mais de 3-4 semanas a caracteriza como crônica.
Fisiopatologia da Absorção e Consequências da Má Absorção
A absorção de nutrientes é um processo complexo. Quando há falha em alguma etapa, surgem as manifestações da má absorção:
| Nutriente |
Absorção Fisiológica |
Má Absorção (Doença) |
| Gorduras |
Depende de lipase pancreática e sais biliares (absorvidos no íleo distal). |
Esteatorreia (fezes gordurosas). |
| Carboidratos |
Amilase pancreática quebra em dissacarídeos; dissacaridases (ex: lactase) os absorvem. |
Flatulência, distensão abdominal, fezes ácidas. |
| Proteínas |
Pepsina (estômago) e tripsina (pâncreas) digerem; absorção no delgado. |
Edema (em casos graves de hipoproteinemia). |
| Ferro |
Principalmente no duodeno e jejuno. |
Anemia ferropriva. |
| Ácido Fólico |
Principalmente no duodeno e jejuno. |
Anemia megaloblástica. |
| Vitamina B12 |
Requer ligante R, fator intrínseco e absorção no íleo distal. |
Anemia megaloblástica e alterações neurológicas. |
| Vitaminas A, D, E, K |
Lipossolúveis, dependem da absorção de gordura. |
Cegueira noturna (A), osteopenia (D), ataxia (E), coagulopatia (K). |
🔎 Diagnóstico: A queixa principal que leva o paciente ao ambulatório é frequentemente a esteatorreia. Contudo, é fundamental lembrar que a má absorção não se restringe apenas à gordura; todos os nutrientes mencionados podem estar sendo perdidos.
Detalhes da Absorção de Nutrientes
Aprofundando nos mecanismos de absorção e suas implicações na má absorção:
Absorção de Gorduras
A digestão das gorduras inicia-se com a lipase pancreática, que é crucial para a emulsificação, facilitando a ação das micelas. Os sais biliares, essenciais para a formação das micelas e absorção de gorduras, são reabsorvidos no íleo distal através da circulação entero-hepática. Assim, condições como pancreatite crônica (deficiência de lipase) ou doença de Crohn (que afeta o íleo distal, prejudicando a reabsorção de sais biliares) podem levar à esteatorreia.
Absorção de Carboidratos
A amilase pancreática quebra os carboidratos complexos em dissacarídeos (como maltose, sacarose e lactose). A absorção final desses dissacarídeos depende das dissacaridases, enzimas presentes na borda em escova do intestino delgado. A deficiência de dissacaridase mais comum é a de lactase, resultando em intolerância à lactose. Quando o açúcar não é absorvido, ele atrai água para o lúmen intestinal (diarreia osmótica) e é fermentado por bactérias, produzindo gases (CO2, metano, hidrogênio) e ácidos. Isso causa flatulência, distensão abdominal e fezes ácidas. O teste de exalação de hidrogênio é utilizado para diagnosticar a deficiência de lactase, pois o hidrogênio é um produto da fermentação bacteriana de açúcares não absorvidos.
Absorção de Proteínas
A digestão proteica começa no estômago com a pepsina e continua no duodeno com a tripsina, secretada pelo pâncreas como tripsinogênio. A má absorção grave de proteínas pode levar à hipoproteinemia, que, em situações extremas, pode manifestar-se como edema.
Absorção de Ferro e Ácido Fólico
Ambos são primariamente absorvidos no duodeno e jejuno. Suas deficiências resultam em anemia, sendo ferropriva para o ferro e megaloblástica para o ácido fólico. A investigação detalhada é frequentemente abordada em hematologia.
Absorção de Vitamina B12
A absorção da vitamina B12 é um processo complexo que ocorre principalmente no íleo distal. Ela requer a ligação inicial com o ligante R no estômago, seguido pela ligação com o fator intrínseco (produzido pelas células parietais gástricas) após a digestão do ligante R. A deficiência de vitamina B12 também causa anemia megaloblástica, mas se diferencia da deficiência de ácido fólico pela presença de alterações neurológicas, uma vez que a B12 é essencial para a formação da bainha de mielina.
Absorção de Vitaminas Lipossolúveis (A, D, E, K)
Como o nome sugere, essas vitaminas dependem da absorção de gorduras. Qualquer condição que comprometa a digestão ou absorção lipídica (como deficiência de lipase pancreática ou sais biliares) também afetará a absorção dessas vitaminas, levando às deficiências clínicas específicas já mencionadas.
Abordagem Diagnóstica da Síndrome Disabsortiva
A investigação da síndrome disabsortiva segue uma sequência lógica para confirmar a má absorção e, posteriormente, identificar sua causa específica.
Etapas Iniciais
O primeiro passo é sempre uma anamnese detalhada e um exame físico completo. A partir daí, a investigação laboratorial e de imagem busca responder a duas perguntas fundamentais:
- Existe realmente má absorção?
- Se confirmada, qual é a causa subjacente (problema de digestão ou absorção, doença pancreática ou intestinal)?
Confirmação da Má Absorção
Para confirmar a presença de má absorção, especialmente de gordura (esteatorreia), os seguintes testes podem ser utilizados:
Teste Quantitativo de Gordura Fecal
- Consiste na coleta de fezes por 3 dias, com dieta controlada de gordura.
- Um resultado médio superior a 7g/dia de gordura nas fezes confirma esteatorreia.
- Observação: Embora seja o "padrão-ouro", raramente é realizado na prática clínica devido à sua complexidade.
Teste Qualitativo de Gordura Fecal (SUDAN III)
- Método mais simples e rápido.
- Uma amostra de fezes é corada com SUDAN III, que se liga à gordura.
- A presença de glóbulos de gordura visíveis ao microscópio indica esteatorreia.
- É um teste de triagem útil para confirmar a presença de gordura nas fezes.
Investigação da Etiologia Específica
Uma vez confirmada a má absorção, o próximo passo é diferenciar se o problema é de digestão (geralmente pancreático) ou de absorção (geralmente intestinal).
Teste da D-Xilose Urinária
Este teste é crucial para o diagnóstico diferencial da síndrome disabsortiva já confirmada. A D-xilose é um monossacarídeo que não necessita de digestão enzimática para ser absorvido; sua absorção depende apenas de uma mucosa intestinal íntegra e funcional.
- Procedimento: O paciente ingere 25g de D-xilose pura. Após 5 horas, a urina é coletada para medir a quantidade de D-xilose excretada.
- Interpretação:
- Excreção > 5g: Sugere doença pancreática. Indica que a mucosa intestinal está normal, pois a D-xilose foi absorvida. Se há má absorção, o problema não é na absorção intestinal, mas sim na digestão, sendo o pâncreas o principal responsável.
- Excreção < 5g: Sugere doença intestinal. Indica que a D-xilose não foi adequadamente absorvida, apontando para uma lesão da mucosa intestinal ou, em alguns casos, supercrescimento bacteriano no intestino delgado (as bactérias podem consumir a xilose antes da absorção).
🧠 Conceito Fundamental: Se um paciente com síndrome disabsortiva confirmada apresenta um teste de D-Xilose urinária normal (>5g), isso significa que a mucosa intestinal está íntegra. Portanto, a causa da má absorção é um problema de digestão, e a principal etiologia a ser investigada é a doença pancreática (geralmente pancreatite crônica).
Métodos Diagnósticos para Causas Específicas
Após a diferenciação inicial, a investigação prossegue com exames direcionados para a etiologia suspeita:
- Doença Pancreática: O teste da secretina pode ser utilizado para avaliar a função exócrina do pâncreas.
- Supercrescimento Bacteriano do Intestino Delgado (SIBO): O diagnóstico padrão-ouro é a Endoscopia Digestiva Alta (EDA) com aspirado e cultura do conteúdo jejunal. Testes respiratórios de hidrogênio e metano também são usados.
- Doença Celíaca ou Doença de Whipple: A biópsia do intestino delgado (duodeno ou jejuno) é essencial para o diagnóstico, revelando atrofia vilositária e outras alterações histopatológicas características.
- Doença de Crohn: A biópsia do íleo distal (realizada por colonoscopia) é fundamental, pois esta é uma das localizações mais comuns da doença.
- Deficiência de Lactase (Intolerância à Lactose): O teste de exalação de hidrogênio é o método diagnóstico mais comum e não invasivo.
Doença de Whipple
Introdução
A Doença de Whipple é uma condição infecciosa rara, sistêmica e crônica, causada pela bactéria Gram-positiva Tropheryma whipplei. Caracteriza-se pela infiltração de macrófagos no intestino delgado, o que leva a uma síndrome disabsortiva.
Epidemiologia
- Acomete predominantemente homens por volta dos 50 anos.
- Cerca de um terço dos casos ocorre em áreas rurais.
- Dois terços dos pacientes relatam histórico de exposição a solo ou animais.
- Existe uma predisposição genética envolvida no desenvolvimento da doença.
Manifestações Clínicas
A apresentação clínica da Doença de Whipple é variada, mas classicamente inclui sintomas gastrointestinais e extraintestinais.
- Sintomas Gastrointestinais:
- Esteatorreia (diarreia gordurosa).
- Emagrecimento significativo.
- Dor abdominal.
- Sintomas Articulares:
- Artralgia e artrite (migratória e não deformante).
- Sintomas Neurológicos: São cruciais para o diagnóstico diferencial.
- Miorritmia oculomastigatória: Considerada patognomônica da doença, caracterizada por movimentos rítmicos dos músculos oculares e mastigatórios.
- Outras manifestações incluem déficit cognitivo, insônia, oftalmoplegia e nistagmo.
🧠 High Yield Note: A presença de síndrome disabsortiva e artrite exige o diagnóstico diferencial com a Doença de Crohn. No entanto, a Doença de Whipple se destaca pela frequente ocorrência de alterações neurológicas, especialmente a miorritmia oculomastigatória.
Diagnóstico
O diagnóstico definitivo da Doença de Whipple é estabelecido por meio de:
- Biópsia do intestino delgado: É o método padrão-ouro. Os achados histopatológicos característicos incluem a presença de macrófagos PAS-positivos (ácido periódico de Schiff) no córion da mucosa intestinal.
- Cultura: A bactéria Tropheryma whipplei é de difícil cultivo, tornando a cultura um método diagnóstico pouco prático e com baixa sensibilidade.
Tratamento
O tratamento da Doença de Whipple é prolongado e visa erradicar a infecção e reverter a síndrome disabsortiva.
- Fase Inicial:
- Penicilina ou Ceftriaxone intravenosos por duas semanas.
- Fase de Manutenção:
- Sulfametoxazol/Trimetoprima (SMZ/TMP) por um período de um ano.
Doença Celíaca
Introdução
A Doença Celíaca, também conhecida como espru não-tropical ou intolerância ao glúten, é uma doença autoimune crônica que afeta o intestino delgado. Ela ocorre em indivíduos geneticamente predispostos (associada principalmente aos alelos HLA-DQ2/DQ8) após a ingestão de glúten (presente no trigo, centeio e cevada). A gliadina, uma fração proteica do glúten, desencadeia uma resposta inflamatória imune na mucosa do intestino delgado.
💡 Dica sobre Aveia: Embora tradicionalmente incluída na lista de alimentos a serem evitados, a aveia pura é geralmente tolerada por pacientes celíacos. O problema reside na contaminação cruzada com outros grãos que contêm glúten durante o processamento. Ao consumir aveia, é crucial garantir que seja certificada como isenta de glúten.
Autoanticorpos Envolvidos
O diagnóstico da Doença Celíaca é auxiliado pela detecção de autoanticorpos específicos:
- Anti-gliadina IgA/IgG: Menos específico, mas ainda utilizado.
- Anti-transglutaminase IgA/IgG: Considerado o mais importante e sensível para rastreamento.
- Anti-endomísio IgA: Altamente específico, mas mais caro e operador-dependente.
Achados Histopatológicos
A inflamação imune no intestino delgado resulta em alterações morfológicas características, embora não patognomônicas:
- Atrofia das vilosidades intestinais.
- Hiperplasia das criptas de Lieberkühn.
- Aumento do número de linfócitos intraepiteliais (> 25 linfócitos para cada 100 enterócitos).
- Em casos graves, pode haver mucosa plana.
Manifestações Clínicas
A Doença Celíaca apresenta um espectro clínico amplo, desde formas assintomáticas até quadros graves, com manifestações intestinais e extraintestinais.
Formas de Apresentação
- Forma Clássica (Intestinal): Mais comum em crianças.
- Diarreia crônica (geralmente alta), esteatorreia.
- Distensão e dor abdominal.
- Constipação (em alguns casos).
- Atrofia glútea, déficit ponderoestatural e atraso motor em crianças.
- Forma Atípica (Extraintestinal): Mais frequente em adultos.
- Anemia ferropriva refratária.
- Osteopenia/osteoporose.
- Artrite.
- Dermatite Herpetiforme.
- Atraso no crescimento, dificuldade escolar.
- Manifestações neuropsiquiátricas: cefaleia, epilepsia, depressão, esquizofrenia, autismo, ansiedade, miopatia, paranoia.
- Elevação de aminotransferases.
- Amenorreia.
- Forma Assintomática: Pacientes sem sintomas evidentes, mas com alterações sorológicas e/ou histológicas.
🔎 High Yield Note: Em contextos de prova, a presença de anemia ferropriva refratária (que não responde ao tratamento convencional com ferro) deve levantar a suspeita de Doença Celíaca ou Síndrome Nefrótica.
Distúrbios Imunes Associados
A Doença Celíaca frequentemente coexiste com outras condições autoimunes:
- Diabetes Mellitus tipo 1 (principal associação).
- Doença de Hashimoto.
- Síndrome de Down.
- Hepatite autoimune.
- Síndrome de Turner.
- Deficiência de IgA.
- Dermatite Herpetiforme.
⚠️ Atenção à Deficiência de IgA: Cerca de 10-15% dos pacientes celíacos podem apresentar deficiência de IgA total. Nesses casos, o anti-transglutaminase IgA pode resultar falso-negativo. Para evitar erros diagnósticos, é fundamental dosar a IgA total concomitantemente. Se a IgA total estiver baixa, deve-se solicitar o anti-transglutaminase IgG ou anti-gliadina deaminada IgG.
🔬 Dermatite Herpetiforme: Esta manifestação cutânea, caracterizada por lesões pruriginosas e vesiculares, é tão fortemente associada à Doença Celíaca que, em algumas literaturas, sua presença dispensa a necessidade de biópsia para o diagnóstico de celíaca.
Diagnóstico
O diagnóstico da Doença Celíaca segue uma abordagem em etapas, combinando rastreamento sorológico e confirmação histopatológica.
1. Rastreamento com Anticorpos
É o primeiro passo, realizado enquanto o paciente ainda consome glúten.
- Antitransglutaminase tecidual IgA (anti-tTG IgA) + Dosagem de IgA total.
- Cenários de Rastreamento:
- Se IgA total normal e anti-tTG IgA > 10x o limite superior da normalidade: Prosseguir para endoscopia com biópsia.
- Se IgA total reduzida/deficiência de IgA: Dosar anti-transglutaminase IgG ou anti-gliadina deaminada IgG.
- Se IgA total normal e anti-tTG IgA negativo: Realizar EDA apenas se houver alta suspeição clínica.
2. Confirmação com Biópsia Duodenal via Endoscopia
A biópsia é crucial para a confirmação, devendo ser realizada com o paciente em dieta com glúten.
- Coleta: Pelo menos 4 amostras do duodeno distal e 1 amostra do bulbo duodenal.
- Achados Histológicos: Classificados pela escala de Marsh (Marsh 2 e 3 são diagnósticos), incluindo aumento de linfócitos intraepiteliais, hiperplasia de criptas e atrofia de vilosidades.
- Casos em que a Biópsia Pode Ser Dispensada (especialmente em Pediatria):
- Anti-transglutaminase IgA > 10x o limite superior da normalidade E Anti-endomísio IgA positivo em uma segunda amostra de sangue.
- Presença de Dermatite Herpetiforme (conforme algumas literaturas).
3. Em Caso de Dúvida Diagnóstica
- Pesquisa de HLA DQ2 e DQ8:
- Se negativos: Excluem a Doença Celíaca com alta probabilidade (alto valor preditivo negativo).
- Se positivos: Indicam apenas predisposição genética, não confirmam a doença.
Tratamento
O pilar do tratamento da Doença Celíaca é a exclusão total e permanente do glúten da dieta.
Manejo Terapêutico
- Dieta Sem Glúten (DSG): Deve ser rigorosa e mantida por toda a vida.
- Alimentos Permitidos: Milho (amido de milho, fubá), arroz, batata, mandioca (polvilho, tapioca), quinoa, inhame, ovos, carnes, grãos (leguminosas), leite e aveia (certificada sem glúten).
- Alimentos a Evitar: Trigo, centeio, cevada e seus derivados.
Controle e Prognóstico
- Monitoramento de Anticorpos: A dosagem dos autoanticorpos deve ser repetida para avaliar a adesão à dieta e a resposta ao tratamento. Espera-se uma queda nos níveis de anticorpos em 3 a 12 meses após o início da DSG.
Complicações
Pacientes com Doença Celíaca não diagnosticada ou mal controlada apresentam um risco aumentado de complicações graves.
🚨 Risco de Neoplasias: Há um risco aumentado de linfoma intestinal (especialmente linfoma de células T associado à enteropatia) e adenocarcinoma intestinal. Este risco é maior em pacientes com diagnóstico tardio ou que não aderem estritamente à dieta sem glúten, devido à inflamação crônica da mucosa intestinal.
⚠️ Falsos Resultados em Testes Sorológicos:
- Falso Positivo para Anti-tTG IgA: Pode ocorrer em condições como cirrose, insuficiência cardíaca congestiva (ICC) e outras doenças autoimunes.
- Falso Negativo para Anti-tTG IgA: Observado na "celíaca soronegativa" (onde os anticorpos estão ausentes apesar da doença) ou em pacientes que já restringiram o glúten da dieta antes do teste.
Doença Inflamatória Intestinal (DII)
A Doença Inflamatória Intestinal (DII) engloba um grupo de condições crônicas que causam inflamação do trato gastrointestinal. De etiologia multifatorial e idiopática, as principais formas são a Doença de Crohn (DC) e a Retocolite Ulcerativa (RCU), além da Colite Indeterminada, que representa casos onde a diferenciação entre as duas não é possível.
Conceitos Iniciais
A DII é uma condição de origem complexa, caracterizada por uma inflamação crônica do trato gastrointestinal. Sua etiologia é considerada multifatorial, envolvendo uma interação intrincada entre fatores genéticos, ambientais e uma resposta autoimune desregulada. Não há um predomínio de sexo no acometimento.
- Etiologia: Multifatorial, com componentes autoimunes, genéticos e ambientais.
- Pico Bimodal de Incidência: Observa-se dois picos de maior incidência:
- Primeiro pico: entre 15 e 30 anos (adultos jovens).
- Segundo pico: entre 50 e 80 anos (idosos).
- Fatores de Risco:
- História Familiar: É o principal fator de risco comprovado para ambas as DIIs. ⚠️
- Anticoncepcionais Orais (ACO): Podem influenciar o risco.
- Anti-inflamatórios Não Esteroides (AINEs): Frequentemente associados a reagudizações e ao desenvolvimento de doença refratária.
- Alimentos Processados: Sugerem um papel ambiental.
- Tabagismo: Fator de risco significativo para a Doença de Crohn (DC).
- Fatores Protetores:
- Aleitamento Materno: Associado a menor risco.
- Tabagismo: Curiosamente, exerce um efeito protetor na Retocolite Ulcerativa (RCU). 🧠
- Apendicectomia: Também pode ter um papel protetor em alguns contextos.
💡 Dica de Prova: A DII de etiologia idiopática/primária se divide em Doença de Crohn (DC) e Retocolite Ulcerativa (RCU). Quando a diferenciação não é possível, chamamos de Colite Indeterminada, que ocorre em 15-30% dos pacientes.
⚠️ Atenção ao Tabagismo:
- DC (Doença de Crohn): O tabagismo é um fator de risco importante (80% dos pacientes com DC são tabagistas).
- RCU (Retocolite Ulcerativa): O tabagismo tem um efeito protetor.
Observações Importantes para Provas
- Intolerância à lactose e Síndrome do Intestino Irritável (SII): Não são mais prevalentes em pacientes com DII do que na população geral. Não confunda!
- Menstruação: Algumas pacientes relatam piora dos sintomas da DII durante o período menstrual.
- Uso de AINEs: Frequentemente associado a exacerbações e pode contribuir para o desenvolvimento de doença refratária.
Anatomopatologia
Compreender as características anatomopatológicas é fundamental para diferenciar a Retocolite Ulcerativa da Doença de Crohn. Vamos estabelecer "leis" para cada uma.
Retocolite Ulcerativa (RCU)
A RCU é uma doença inflamatória que segue um padrão muito específico no trato gastrointestinal. É frequentemente descrita como uma "mucosite idiopática ascendente e uniforme do cólon".
🧠 As 3 Leis da Retocolite Ulcerativa:
- Limitada ao Reto e Cólon: A inflamação se restringe ao intestino grosso. O intestino delgado e o ânus não são acometidos primariamente.
- Limitada à Mucosa/Submucosa: A inflamação é superficial, não atingindo as camadas mais profundas da parede intestinal.
- Sempre Uniforme e Ascendente: A doença inicia-se no reto e se estende de forma contínua e progressiva para as porções proximais do cólon.
Padrão de Acometimento da RCU
- Proctite: Inflamação restrita ao reto.
- Proctossigmoidite: Atinge o reto e o sigmoide (ocorre em ~50% dos casos).
- Colite Esquerda: Estende-se do reto até a flexura esplênica (cerca de 30% dos casos).
- Colite Extensa: Atinge o cólon transverso, chegando até a flexura hepática (aproximadamente 20% dos casos).
- Pancolite: Acometimento de todo o intestino grosso.
A melhora do quadro clínico, quando ocorre, segue o caminho inverso: começa a melhorar pelo cólon ascendente e progride distalmente até o reto. Ou seja, "tudo começa no reto e tudo termina no reto".
⚠️ Complicação: Em casos de pancolite, o enfraquecimento da parede do cólon pode levar ao Megacólon Tóxico, uma complicação grave.
A ileíte de refluxo pode ocorrer quando a porção distal do íleo é atingida por inflamação, mas é uma complicação e não uma característica primária da RCU, afetando menos de 20% dos pacientes. É crucial lembrar que a RCU é primariamente uma doença do cólon e, portanto, não causa síndrome disabsortiva.
Doença de Crohn (DC)
A Doença de Crohn é o oposto da Retocolite Ulcerativa em muitos aspectos, sendo uma doença mais abrangente e com padrão de acometimento distinto. Costuma-se dizer que "Crohn vem com tudo", pois pode afetar qualquer parte do trato gastrointestinal.
🧠 As 3 Leis da Doença de Crohn:
- Não Limitada ao Reto e Cólon: Pode acometer qualquer segmento do trato gastrointestinal, "da boca até o ânus".
- Local mais comum: Intestino delgado (~80% dos casos), principalmente o íleo terminal.
- Doença Perianal: Presente em cerca de um terço dos pacientes, sendo uma característica marcante.
- Reto: É poupado em aproximadamente 50% dos casos.
- TGI Superior: Estômago, esôfago e duodeno podem ser acometidos em até 10% dos casos.
- Não é Limitada à Mucosa: A inflamação é tipicamente transmural, ou seja, atinge todas as camadas da parede intestinal.
- Isso explica as complicações características: fístulas, abscessos e estenoses.
- Não é Uniforme e Ascendente: A doença apresenta um padrão salteado ou descontínuo, com áreas inflamadas intercaladas por áreas de mucosa normal. Isso confere o aspecto de "pedras de calçamento" à mucosa.
Quadro Clínico
As manifestações clínicas da DII são variadas e dependem da extensão e localização da inflamação. Os sintomas comuns incluem:
- Sintomas Sistêmicos: Febre, anorexia e perda ponderal.
- Sintomas Gastrointestinais:
- Diarreia crônica inflamatória (frequentemente com sangue na RCU).
- Dor abdominal (mais comum e intensa na DC, frequentemente em quadrante inferior direito).
- Tenesmo (sensação de evacuação incompleta, mais comum na RCU devido ao acometimento retal).
Manifestações Extraintestinais (MEI)
As DIIs são doenças sistêmicas e podem apresentar manifestações em diversos órgãos e sistemas, que podem preceder, acompanhar ou seguir o curso da doença intestinal.
Manifestações Cutâneas
- Eritema Nodoso: Nódulos subcutâneos dolorosos, avermelhados, mais comuns nas pernas. Geralmente correlacionado com a atividade da doença.
- Pioderma Gangrenoso: Úlceras cutâneas dolorosas, progressivas, com bordas violáceas e necróticas. Menos comum, mas grave, e geralmente não correlacionado com a atividade da doença.
Manifestações Hepatobiliares
- Cálculos Biliares: Mais característicos da Doença de Crohn. A inflamação do íleo terminal na DC pode prejudicar a reabsorção de sais biliares, predispondo à formação de cálculos. 🔎
- Colangite Esclerosante Primária (CEP): Mais característico da Retocolite Ulcerativa. É uma doença progressiva que afeta os ductos biliares, podendo levar à cirrose e insuficiência hepática. 🔎
Manifestações Articulares
- Artrite Periférica: Acomete grandes articulações (joelhos, tornozelos), geralmente assimétrica e migratória. Correlacionada com a atividade da doença.
- Sacroileíte/Espondilite Anquilosante: Acometimento da coluna vertebral e articulações sacroilíacas. Pode ser um marcador de atividade da doença de Crohn, mas geralmente não se correlaciona com a atividade da doença intestinal na RCU.
Manifestações Renais
- Nefrolitíase (Cálculos Renais): Mais característico da Doença de Crohn, devido à má absorção de gorduras que leva à hiperoxalúria. 🔎
Manifestações Oftalmológicas
- Uveíte: Inflamação da úvea (íris, corpo ciliar e coroide). Pode ser anterior ou posterior e geralmente se correlaciona com a atividade da doença.
| Manifestações Extraintestinais |
Com Relação à Atividade da Doença |
Sem Relação à Atividade da Doença |
| Cutâneas |
Eritema Nodoso |
Pioderma Gangrenoso |
| Articulares/Oftalmológicas |
Artrite Periférica, Uveíte |
Sacroileíte, Espondilite Anquilosante |
| Hepatobiliares |
|
Colangite Esclerosante Primária (principalmente RCU) |
Diagnóstico
O diagnóstico da DII é baseado na combinação de achados clínicos, endoscópicos, histopatológicos e laboratoriais. A endoscopia com biópsia é crucial para a confirmação e diferenciação entre DC e RCU.
Endoscopia e Biópsia
- Retocolite Ulcerativa (RCU): A retossigmoidoscopia ou ileocolonoscopia é o exame de escolha.
- Achados Endoscópicos: Enantema (vermelhidão), erosões, sangramento fácil ao toque, pseudopólipos. A mucosa tem aspecto uniforme e contínuo.
- Achados Histopatológicos (Biópsia): Criptite (inflamação das criptas glandulares) e microabscessos de cripta.
- Doença de Crohn (DC): A ileocolonoscopia é essencial, especialmente para avaliar o íleo terminal, o local mais comum de acometimento.
- Achados Endoscópicos: Úlceras aftoides e profundas, aspecto de "pedras de calçamento" (mucosa com áreas elevadas e fissuras), estenoses, fístulas e fissuras perianais. O acometimento é salteado.
- Achados Histopatológicos (Biópsia): Granulomas não caseosos (presentes em cerca de 30-60% dos casos, mas sua ausência não exclui o diagnóstico).
Exames Complementares
Além da endoscopia, outros exames são importantes para avaliar a extensão da doença, complicações e auxiliar no diagnóstico diferencial.
| Característica |
Retocolite Ulcerativa (RCU) |
Doença de Crohn (DC) |
| Localização |
Limitada ao reto e cólon |
Acomete qualquer parte do TGI ("da boca ao ânus") |
| Profundidade |
Limitada à mucosa e submucosa |
Transmural (todas as camadas) |
| Padrão de Acometimento |
Progressão ascendente e contínua (reto sempre acometido) |
Padrão salteado e descontínuo |
| Reto |
Sempre acometido (início da doença) |
Poupado em ~50% dos casos |
| Ânus |
Geralmente poupado |
Acometimento perianal comum (fístulas, fissuras) |
| Íleo Terminal |
Não acometido (exceto ileíte de refluxo, complicação) |
Local mais comum de acometimento (>50% dos casos) |
| Achados Endoscópicos |
Enantema, erosões, sangramento, pseudopólipos, perda de haustrações ("cano de chumbo") |
Úlceras aftoides e profundas, "pedras de calçamento", estenoses, fístulas |
| Achados Histopatológicos |
Criptite, microabscessos de cripta |
Granulomas não caseosos (em 30-60% dos casos) |
| Tabagismo |
Fator protetor |
Fator de risco importante |
| Sintomas Predominantes |
Colite disentérica (diarreia sanguinolenta, tenesmo) |
Diarreia, dor abdominal (QID), emagrecimento, massa palpável |
| Sorologia |
P-ANCA positivo (~49%) |
ASCA positivo (~57%) |
| Complicações Típicas |
Megacólon tóxico, displasia/câncer colorretal |
Fístulas, abscessos, estenoses/obstrução, má absorção |
Tratamento da Doença Inflamatória Intestinal
O manejo da DII visa induzir e manter a remissão, controlar os sintomas e prevenir complicações. A escolha terapêutica depende da gravidade, extensão da doença e resposta individual do paciente.
Opções Terapêuticas
As classes de medicamentos utilizadas no tratamento da DII atuam de diferentes formas para controlar a inflamação:
- 💊 Derivados 5-ASA (Aminossalicilatos): Agem como anti-inflamatórios tópicos na mucosa intestinal. Podem ser administrados por via oral ou retal, dependendo da localização da doença.
- Sulfassalazina: Possui ação predominantemente no cólon.
- Mesalazina (Pentasa): Atua em todo o intestino, sendo liberada em diferentes segmentos do trato gastrointestinal.
- 💊 Corticosteroides: Potentes anti-inflamatórios utilizados principalmente para induzir a remissão em fases de atividade da doença. Não são indicados para manutenção devido aos seus efeitos adversos.
- Podem ser administrados por via retal (para proctite ou retossigmoidite), via oral ou intravenosa (em casos mais graves).
- 💊 Imunossupressores: Modulam a resposta imune para reduzir a inflamação e manter a remissão, permitindo a redução ou retirada dos corticoides.
- Azatioprina, Mercaptopurina, Metotrexato: São exemplos comuns desta classe.
- 💊 Biológicos: Terapias alvo que atuam em componentes específicos do sistema imune envolvidos na inflamação. São utilizados em casos moderados a graves ou refratários a outras terapias.
- Anti-TNF (ex: Infliximabe, Adalimumabe): Bloqueiam o Fator de Necrose Tumoral alfa.
- Anti-Integrina (ex: Vedolizumabe): Inibem a migração de leucócitos para o intestino.
- Anti-Interleucina (ex: Ustequinumabe): Bloqueiam citocinas pró-inflamatórias como IL-12 e IL-23.
Critérios de Gravidade
A avaliação da gravidade da DII é crucial para guiar a escolha terapêutica. Considera-se a doença como "grave" na presença de:
- 🚨 Frequência evacuatória: Mais de 6 evacuações por dia.
- 🩸 Hematoquezia: Presença de sangue vivo nas fezes.
- ⚠️ Sinais sistêmicos: Frequência cardíaca superior a 90 batimentos por minuto (bpm), temperatura corporal acima de 37,8°C.
- 🩸 Anemia: Hemoglobina inferior a 10,5 g/dL.
- 🧪 Marcadores inflamatórios: Aumento da velocidade de hemossedimentação (VHS) e/ou proteína C reativa (PCR).
🧠 Lembre-se: A correta identificação da gravidade é um pilar fundamental para a definição do plano de tratamento mais adequado e eficaz.
Retocolite Ulcerativa (RCU)
O tratamento da RCU é escalonado conforme a gravidade da doença:
Doença Leve-Moderada
- 💊 Remissão e Manutenção: A Mesalazina (5-ASA) é a primeira linha.
- ⚠️ Se não houver resposta:
- 💊 Remissão: Corticoide oral.
- 💊 Manutenção: Azatioprina.
Doença Grave
- 💊 Remissão: Corticoide intravenoso, podendo ser associado a um Anti-TNF (ex: Infliximabe).
- 💊 Manutenção: Combinação de Azatioprina e Anti-TNF.
Alternativas aos Anti-TNF em RCU:
- 💊 Vedolizumabe: Um anti-integrina, que atua especificamente no intestino.
- 💊 Ustequinumabe: Um anti-interleucina, que bloqueia IL-12 e IL-23.
Doença de Crohn (DC)
O tratamento da DC também segue um esquema escalonado:
Doença Leve-Moderada
- 💊 Remissão: Prednisona oral ou Budesonida (um corticoide com menor absorção sistêmica).
- 💊 Manutenção: Azatioprina ou Metotrexato.
Doença Grave
- 🚨 Tratamento: Segue as mesmas diretrizes da RCU grave (Corticoide intravenoso +/- Anti-TNF para remissão; Azatioprina + Anti-TNF para manutenção).
- 💡 Outras indicações para Biológicos na DC: Fístulas, doença extensa de delgado, e atraso do crescimento na infância.
💊 Se houver Fístula na Doença de Crohn: É fundamental adicionar antibióticos ao tratamento. A combinação de Ciprofloxacino + Metronidazol é frequentemente utilizada.
Sequência Terapêutica para Provas
Para fins de prova, a sequência de escalonamento terapêutico na DII geralmente segue uma lógica progressiva, começando com as opções menos invasivas e avançando para as mais potentes:
| 1ª Linha |
2ª Linha |
3ª Linha |
4ª Linha |
| 💊 Aminossalicilatos (5-ASA) |
💊 Corticoides |
💊 Imunomoduladores |
💊 Imunobiológicos |
| Mesalazina, Sulfassalazina |
Prednisona, Hidrocortisona |
Azatioprina, Mercaptopurina, Metotrexato |
Infliximabe, Vedolizumabe, Ustequinumabe |
Tratamento Cirúrgico
A cirurgia na DII é reservada para casos específicos, seja por falha do tratamento clínico ou pelo desenvolvimento de complicações graves.
Retocolite Ulcerativa (RCU)
Na RCU, a cirurgia pode ser curativa, pois a doença afeta apenas o cólon e reto.
- Indicações:
- Casos refratários ao tratamento clínico otimizado.
- Presença de displasia de alto grau ou câncer colorretal.
- Complicações agudas graves, como megacólon tóxico refratário ou sangramento maciço incontrolável.
- 🚨 Cirurgia de Urgência: Proctocolectomia total com ileostomia terminal (colectomia à Hartmann).
- Cirurgia Eletiva: Proctocolectomia total com anastomose entre bolsa ileal e ânus (IPAA - Ileal Pouch-Anal Anastomosis), que permite a manutenção da continência fecal.
Doença de Crohn (DC)
Na DC, a cirurgia é paliativa, pois a doença pode recorrer em qualquer segmento do trato gastrointestinal. O objetivo é remover segmentos doentes e aliviar sintomas.
- Indicações:
- Obstrução ou perfuração intestinal.
- Fístulas ou fissuras intratáveis clinicamente.
- Hemorragia maciça ou megacólon tóxico refratários.
- Abscessos que não respondem à drenagem percutânea.
- 🚨 Cirurgia de Urgência: Ressecção segmentar do intestino afetado.
- Cirurgia Eletiva: Estricturoplastia/Estenoplastia, que visa alargar segmentos estenosados sem a necessidade de ressecção intestinal, preservando o comprimento do intestino.
Complicações da Doença Inflamatória Intestinal
As DIIs podem levar a diversas complicações, tanto locais quanto sistêmicas, que exigem atenção e manejo específicos.
Megacólon Tóxico
É uma complicação grave caracterizada por dilatação colônica aguda e sinais de toxicidade sistêmica.
- Patogênese: Ocorre quando uma inflamação transmural grave compromete a camada muscular do cólon, levando ao adelgaçamento da parede intestinal e perda do tônus.
- 🔎 Diagnóstico: Baseia-se na tríade clínica e radiológica:
- Distensão abdominal, febre, dor abdominal, leucocitose, hipotensão.
- Dilatação do cólon transverso superior a 6 cm no raio-X simples de abdome.
- Perda das haustrações colônicas.
- 🚨 Conduta Inicial:
- Dieta zero e descompressão com sonda nasogástrica (SNG) em sucção.
- Antibioticoterapia de amplo espectro (para prevenir translocação bacteriana e sepse).
- Corticosteroide intravenoso, podendo-se considerar imunossupressor, por 24-48 horas (tratamento similar à doença grave).
⚠️ Atenção: Se o paciente não apresentar melhora em 24-48 horas com o tratamento clínico intensivo, a colectomia total com ileostomia é indicada de urgência.
Risco de Câncer
Tanto a RCU quanto a DC aumentam o risco de câncer colorretal, sendo este risco principalmente associado à RCU.
- Fatores de Risco:
- Extensão da inflamação da mucosa: Quanto maior a área inflamada, maior o risco.
- Tempo de doença: Risco aumenta significativamente após 8-10 anos do diagnóstico.
- Colangite Esclerosante Primária (CEP): Associação com RCU aumenta ainda mais o risco.
- Estenoses inflamatórias crônicas.
- 🧪 Vigilância: Colonoscopia anual com biópsias múltiplas, iniciando 8 anos após o aparecimento dos sintomas da doença (ou no momento do diagnóstico se houver CEP).
💡 Alerta para Displasia:
- Se for evidenciada displasia de baixo grau na biópsia, o acompanhamento colonoscópico deve ser mais frequente (a cada 3 ou 6 meses, dependendo da literatura).
- A presença de displasia de alto grau visualizada na colonoscopia e confirmada por biópsia é uma indicação cirúrgica (proctocolectomia).
Pacientes com RCU e câncer colorretal têm maior probabilidade de apresentar tumores sincrônicos (múltiplos tumores primários detectados simultaneamente).
Fístulas
As fístulas são comunicações anormais entre duas superfícies epitelizadas e são típicas da Doença de Crohn, refletindo a inflamação transmural.
- Podem resultar em massas inflamatórias e abscessos quando se estendem para estruturas adjacentes.
- Tipos Comuns: Entero-entérica, entero-vesical (comunicação com a bexiga), entero-mesentérica, entero-cutânea (para a pele), reto-vaginal, perianal.
- Exemplo Clássico em Prova: Paciente com diagnóstico equivocado de apendicite que evolui com fístula enterocutânea na região da incisão pós-operatória, sugerindo DC subjacente.
- 💊 Tratamento: Inclui nutrição parenteral total (NPT) para repouso intestinal e imunomoduladores. A recorrência é frequente.
🔎 Pneumatúria: A presença de ar na urina (pneumatúria) é um sinal de fístula entero-vesical. As três principais causas para provas são: Diverticulite, Câncer Colorretal e Doença de Crohn.
Abscessos
São coleções de pus que surgem quando o conteúdo intestinal extravasa por um pertuito e fica contido. São típicos da Doença de Crohn, ocorrendo em 15-20% dos pacientes, sendo mais comuns no íleo terminal.
- 🔎 Diagnóstico: Realizado por tomografia computadorizada (TC).
- 💊 Tratamento: A abordagem principal é cirúrgica, com ressecção da porção intestinal que contém o abscesso. A drenagem percutânea pode ser uma opção inicial, mas frequentemente não é curativa.
Sangramentos Gastrointestinais
A pesquisa de sangue oculto nas fezes é frequentemente positiva em pacientes com DC. No entanto, sangramentos macroscópicos e significativos são muito mais frequentes na Retocolite Ulcerativa.
⚠️ Diferença Diagnóstica: A maior incidência de sangramento macroscópico na RCU é uma das razões pelas quais o diagnóstico de Doença de Crohn pode ser mais tardio, já que a hematoquezia é um sintoma mais evidente e alarmante.
Perfuração Intestinal
É uma das complicações mais temidas da DII, caracterizada pela ruptura da parede intestinal.
- 🚨 Clínica: Apresenta-se com peritonite, mas os sintomas clássicos podem ser atenuados, especialmente em pacientes em uso de corticosteroides, o que dificulta o diagnóstico precoce.
- Mortalidade: Possui alta taxa de mortalidade.
Estenoses Intestinais
As estenoses resultam do comprometimento repetitivo e grave das camadas profundas da parede intestinal, levando ao espessamento e estreitamento do lúmen. São mais comuns na Doença de Crohn, afetando cerca de 40% dos pacientes.
- Sintomas: Predominam os sinais de obstrução parcial, como cólica e distensão abdominal pós-prandiais, constipação ou diarreia paradoxal, e massa palpável (refletindo uma alça intestinal dilatada ou um abscesso intra-abdominal).
- 💊 Tratamento: Pode ser endoscópico em alguns casos (dilatação com balão).
🚨 Indicação Cirúrgica Principal na DC: As estenoses, sejam elas no delgado ou no cólon, constituem a principal indicação cirúrgica na Doença de Crohn.
Colite Pseudomembranosa
Introdução e Conceitos Essenciais
A colite pseudomembranosa é uma condição inflamatória do cólon, caracterizada por diarreia de etiologia infecciosa, causada principalmente pela bactéria Clostridioides difficile. Esta doença é de grande relevância clínica, especialmente em ambientes hospitalares, devido à sua associação com o uso de antibióticos.
Definição e Etiologia
Trata-se de uma infecção gastrointestinal provocada pelo Clostridioides difficile, uma bactéria gram-positiva, anaeróbia e formadora de esporos. Embora o termo "Clostridioides" seja o mais atual e correto, é comum que em materiais de estudo e provas de residência ainda se encontre a nomenclatura "Clostridium".
🧠 Conceito Chave: O Clostridioides difficile é o principal agente etiológico da colite pseudomembranosa, uma diarreia infecciosa frequentemente associada ao uso de antibióticos.
Transmissão e Fatores Predisponentes
A transmissão ocorre pela via fecal-oral, através da ingestão de esporos presentes no ambiente. É fundamental compreender que a infecção pelo Clostridioides difficile nem sempre resulta no desenvolvimento da doença. Para que a colite pseudomembranosa se manifeste, é necessário um gatilho que perturbe o equilíbrio da microbiota intestinal, permitindo a proliferação bacteriana e a produção de toxinas.
Fisiopatologia
O mecanismo central da colite pseudomembranosa envolve a alteração da flora intestinal normal, geralmente induzida pelo uso de antibióticos. Essa disbiose permite a proliferação do Clostridioides difficile, que então produz toxinas A e B. Essas toxinas são responsáveis por causar danos diretos à mucosa intestinal, levando a um processo inflamatório intenso e à formação das pseudomembranas características da doença.
Antibióticos de Risco
Embora qualquer antibiótico, independentemente da via de administração, possa desencadear a colite pseudomembranosa, alguns são classicamente mais associados ao seu desenvolvimento. É importante que o estudante de medicina memorize os principais:
- Cefalosporinas: Amplamente utilizadas, são um fator de risco significativo.
- Quinolonas: Classe de antibióticos de amplo espectro, também frequentemente implicadas.
- Clindamicina: Conhecida por sua forte associação com a disbiose intestinal e o desenvolvimento da colite por C. difficile.
⚠️ Atenção: Lembre-se do mnemônico "3 C's" para os antibióticos mais associados: Cefalosporinas, Quinolonas (que começa com Q, mas pode ser associado ao som de C), e Clindamicina.
Manifestações Clínicas
O quadro clínico da colite pseudomembranosa é dominado pela diarreia, que pode variar de leve a grave. A suspeita deve ser levantada em pacientes que desenvolvem diarreia após o uso recente de antibióticos.
Sintomas Comuns
- Diarreia: É o sintoma mais proeminente, geralmente ocorrendo em até 10 semanas após o uso de antibióticos. Pode ser aquosa e, em casos mais graves, sanguinolenta.
- Dor abdominal difusa: Frequentemente presente, pode variar de cólicas leves a dor intensa.
- Febre: Um achado comum, indicando a resposta inflamatória sistêmica.
- Outros sintomas incluem náuseas, vômitos e desidratação.
Classificação da Gravidade e Complicações
A gravidade da colite pseudomembranosa é crucial para guiar a conduta terapêutica. Costuma-se dividir as complicações em "casos graves" e "colite fulminante", que representam os extremos do espectro da doença.
Casos Graves
São definidos pela presença de marcadores de inflamação sistêmica ou disfunção renal. A identificação desses critérios é fundamental para a escolha do tratamento adequado.
- Leucocitose: Contagem de leucócitos superior a 15.000 células/mm³.
- Creatinina: Nível sérico de creatinina ≥ 1,5 vezes o valor basal do paciente.
🚨 Alerta: A presença de leucocitose significativa ou elevação da creatinina indica um caso grave e exige uma abordagem terapêutica mais intensiva.
Colite Fulminante
Representa a forma mais severa e potencialmente fatal da doença, exigindo intervenção imediata. Os achados clínicos refletem uma resposta inflamatória sistêmica grave e complicações intestinais agudas.
- Hipotensão arterial: Sinal de choque e instabilidade hemodinâmica.
- Megacólon tóxico: Dilatação aguda e grave do cólon, com risco de perfuração.
- Obstrução intestinal: Pode ocorrer devido ao íleo paralítico ou à inflamação intensa.
- Outros indicadores de gravidade incluem íleo metabólico, lactato sérico > 2,2 mmol/L e disfunção orgânica.
⚠️ Emergência: A colite fulminante é uma emergência médica que requer tratamento agressivo e, por vezes, cirúrgico.
Diagnóstico
O diagnóstico da colite pseudomembranosa baseia-se na combinação de achados clínicos, laboratoriais e, em alguns casos, endoscópicos ou de imagem.
Métodos Laboratoriais
A detecção das toxinas do Clostridioides difficile é o pilar do diagnóstico.
- Escolha principal: Pesquisa de toxinas A e B nas fezes. Possui sensibilidade em torno de 70% e uma alta especificidade, próxima de 100%.
- Alternativas e métodos complementares:
- PCR molecular da toxina B: Altamente sensível e específico, pode ser utilizado para confirmar a presença do gene da toxina.
- Pesquisa do antígeno GDH (glutamato desidrogenase): Um teste de triagem rápido, mas que necessita de confirmação devido à sua menor especificidade.
- Coprocultura: Pode identificar a presença da bactéria, mas não diferencia cepas produtoras de toxinas das não produtoras, sendo menos útil para o diagnóstico da doença ativa.
Exames de Imagem e Endoscopia
Esses exames são úteis para avaliar a extensão da doença e identificar complicações.
- Tomografia computadorizada (TC) de abdome: Não é diagnóstica para a colite pseudomembranosa em si, mas é extremamente útil para descartar e avaliar complicações como megacólon tóxico, íleo paralítico, perfuração intestinal ou obstrução.
- Colonoscopia ou retossigmoidoscopia: Geralmente reservada para casos de dúvida diagnóstica ou quando há suspeita de outras condições. O achado característico são focos purulentos e pseudomembranas amareladas e elevadas na mucosa do cólon.
🔎 Diagnóstico: A pesquisa de toxinas A e B nas fezes é o método diagnóstico de escolha. A colonoscopia revela as pseudomembranas, mas é menos utilizada na rotina.
Fatores de Risco Adicionais
Além do uso de antibióticos, outros fatores podem aumentar a suscetibilidade à colite pseudomembranosa:
- Idade avançada: Pacientes com mais de 65 anos têm maior risco.
- Internação hospitalar prolongada: Aumenta a exposição ao patógeno e a chance de uso de antibióticos.
- Uso de inibidores de bomba de prótons (IBP): Podem alterar o pH gástrico, favorecendo a sobrevivência dos esporos.
- Doença inflamatória intestinal (DII): Pacientes com DII têm maior risco de infecção e de desenvolver formas mais graves.
Tratamento
O tratamento da colite pseudomembranosa envolve medidas gerais de suporte, suspensão do agente causador e antibioticoterapia específica, adaptada à gravidade do quadro.
Princípios Gerais
- Suspender o antibiótico causador: Se possível, o primeiro passo é descontinuar o antibiótico que precipitou a infecção.
- Precaução de contato: Medidas de isolamento são essenciais para prevenir a disseminação hospitalar do Clostridioides difficile.
- Hidratação e suporte: Manter o paciente hidratado e corrigir distúrbios eletrolíticos.
Abordagem Terapêutica por Gravidade
Casos Leves a Moderados e Graves
A escolha do antibiótico e da dose depende da classificação de gravidade.
- Vancomicina oral: É a primeira linha para casos graves e também pode ser usada em casos leves a moderados. A dose usual é de 125 mg por via oral a cada 6 horas por 10 dias. Em casos graves, a dose pode ser aumentada para 250-500 mg a cada 6 horas.
- Fidaxomicina oral: Uma alternativa eficaz, especialmente em casos graves. A dose é de 200 mg por via oral a cada 12 horas por 10 dias.
- Metronidazol oral: Pode ser considerado como alternativa para casos leves, na dose de 500 mg por via oral a cada 8 horas por 10 dias. Sua eficácia é inferior à da vancomicina oral em casos moderados a graves.
💊 Tratamento: Vancomicina oral e Fidaxomicina oral são as opções preferenciais para casos graves. Metronidazol oral é uma alternativa para casos leves.
Colite Fulminante
Esta forma grave da doença exige uma abordagem terapêutica combinada e, por vezes, intervenções adicionais.
- Sem obstrução intestinal:
- Vancomicina oral: Em dose mais alta (250-500 mg a cada 6 horas).
- Metronidazol intravenoso: 500 mg a cada 8 horas, para garantir cobertura sistêmica.
- Com obstrução intestinal (íleo paralítico): A administração oral de vancomicina pode ser ineficaz devido à má absorção.
- Vancomicina retal: 500 mg por enema retal a cada 6 horas.
- Transplante de microbiota fecal (TMF): Pode ser considerado em situações específicas, embora seja mais comum em recidivas.
Manejo de Recidivas
As recidivas são comuns e representam um desafio terapêutico. A abordagem deve ser escalonada.
- Primeira ou segunda recidiva:
- Fidaxomicina oral: É uma opção eficaz.
- Vancomicina oral: Pode ser utilizada com um esquema de desmame lento e progressivo (pulsos ou doses decrescentes).
- Bezlotoxumabe: Um anticorpo monoclonal que se liga à toxina B, pode ser usado em conjunto com a antibioticoterapia para prevenir recidivas.
- Transplante de microbiota fecal (TMF): Considerado uma opção altamente eficaz, especialmente a partir da terceira recidiva, para restaurar a flora intestinal saudável.
Tabela Resumo do Tratamento
| Quadro Clínico |
Critérios |
Antibioticoterapia Inicial |
Conduta em Caso de Não Melhora ou Complicações |
| Leve-Moderado |
Leucócitos < 15.000/mm³ Creatinina < 1,5x basal |
Metronidazol 500mg VO 8/8h por 10-14 dias |
Se não houver melhora: Vancomicina 125mg VO 6/6h |
| Grave |
Leucócitos ≥ 15.000/mm³ Creatinina ≥ 1,5x basal |
Vancomicina 125mg VO 6/6h por 10 dias |
Se não houver melhora: Aumentar dose de Vancomicina para 250-500mg VO 6/6h |
| Fulminante |
Hipotensão OU choque Íleo metabólico Megacólon tóxico Lactato > 2,2 mmol/L Disfunção orgânica |
Vancomicina 250-500mg VO 6/6h + Metronidazol 500mg IV 8/8h |
Se íleo paralítico: Adicionar Vancomicina 500mg por enema retal 6/6h |
Síndrome do Intestino Irritável (SII)
Conceitos Iniciais
A Síndrome do Intestino Irritável (SII) é um distúrbio funcional do trato gastrointestinal, caracterizado por dor abdominal crônica e alteração do hábito intestinal. O diagnóstico é feito após a exclusão de causas orgânicas que justifiquem os sintomas.
Acomete aproximadamente 15% da população geral, sendo mais comum em mulheres. Frequentemente, está associada a distúrbios psiquiátricos como ansiedade e depressão, além de condições como a fibromialgia.
🧠 Lembre-se: A SII é uma condição funcional, o que significa que não há uma patologia estrutural ou bioquímica detectável que explique os sintomas.
Fisiopatologia
A fisiopatologia da SII envolve principalmente dois mecanismos interligados:
- Hipersensibilidade Visceral: Pacientes com SII apresentam uma sensibilidade aumentada a estímulos dolorosos no trato gastrointestinal.
- Alterações de Motilidade: Podem ocorrer tanto peristalse acelerada (levando à diarreia) quanto retardada (causando constipação).
Essas alterações na sensibilidade e motilidade contribuem para o quadro álgico e para as mudanças no hábito intestinal.
Quadro Clínico
Os sintomas cardinais da SII são a dor abdominal crônica e as alterações do hábito intestinal, que podem se manifestar como diarreia, constipação ou um padrão misto.
Dor Abdominal Crônica
- Pode melhorar ou piorar com a evacuação.
- Geralmente piora com estresse e refeições.
Diarreia
- Também piora com estresse e refeições.
- Pode haver presença de muco nas fezes e tenesmo (sensação de evacuação incompleta).
- NÃO apresenta sinais de alarme como: despertar noturno para evacuar, sangramento gastrointestinal ou esteatorreia.
⚠️ Atenção: A ausência de sinais de alarme é um ponto crucial para diferenciar a SII de doenças orgânicas e é frequentemente cobrada em provas!
Constipação
Pode ocorrer em pacientes com SII, caracterizando-se por uma peristalse mais lenta.
Diagnóstico
O diagnóstico da SII é essencialmente clínico, baseado nos critérios de Roma IV e na exclusão de outras patologias.
Critérios de Roma IV
Dor abdominal recorrente, pelo menos uma vez por semana nos últimos 3 meses, associada a dois ou mais dos seguintes:
- Relação com a evacuação.
- Mudança na frequência das evacuações.
- Mudança na forma (consistência) das fezes.
Exclusão de Doenças Orgânicas
É fundamental realizar exames para descartar outras condições com sintomas semelhantes:
- Hemograma completo.
- Para SII com predomínio de diarreia: calprotectina fecal ou proteína C-reativa (para excluir doença inflamatória intestinal), exame parasitológico de fezes (EPF) e sorologia para doença celíaca.
🔎 Diagnóstico Diferencial: Em pacientes com diarreia, é imprescindível excluir doenças como doença inflamatória intestinal (DII), doença celíaca e parasitoses.
Outros Achados Possíveis
Além dos sintomas principais, pacientes com SII podem apresentar:
- Distensão abdominal
- Flatulência
- Pirose/eructações
- Cefaleia
Classificação
A SII é classificada de acordo com o padrão predominante do hábito intestinal:
- SII com predomínio de Diarreia (SII-D)
- SII com predomínio de Constipação (SII-C)
- SII Mista (SII-M): Alternância entre diarreia e constipação, sendo a forma mais comum.
Sinais de Alarme para Doenças Orgânicas
A presença de qualquer um dos seguintes sinais de alarme exige investigação adicional, geralmente incluindo colonoscopia, para descartar doenças orgânicas graves:
🚨 Sinais de Alarme:
- Idade > 50 anos
- Sangramento gastrointestinal (hematêmese, melena, hematoquezia)
- Perda ponderal inexplicada
- Anemia (ferropriva ou de doença crônica)
- Elevação de marcadores inflamatórios (PCR, calprotectina fecal)
- História familiar de câncer colorretal ou doença inflamatória intestinal (DII)
Nesses casos, a
colonoscopia é o exame de escolha para investigação.
Tratamento
O tratamento da SII é multifacetado, abordando tanto aspectos não farmacológicos quanto farmacológicos, visando o alívio dos sintomas.
Não Farmacológico
- Redução de gatilhos alimentares: Identificar e limitar alimentos que desencadeiam sintomas (ex: feijão, lactose, álcool, cafeína, frutose, alimentos ricos em FODMAPs).
- Prática regular de atividade física: Ajuda a melhorar a motilidade intestinal e reduzir o estresse.
Farmacológico
- Para Dor: Antiespasmódicos (ex: hioscina, escopolamina) para relaxar a musculatura lisa intestinal.
- Para Diarreia: Antidiarreicos (ex: loperamida, colestiramina).
- Para Constipação: Laxativos (ex: psyllium, polietilenoglicol, lubiprostona).
- Para Casos Refratários: Antidepressivos tricíclicos (ATCs) podem ser utilizados, principalmente para o controle da dor e modulação da sensibilidade visceral.
💊 Tratamento Refratário: Os antidepressivos tricíclicos são uma opção importante para pacientes com SII refratária, especialmente aqueles com dor abdominal proeminente.
Tumor Neuroendócrino Intestinal (Carcinóide)
Definições
Os Tumores Neuroendócrinos (TNEs) intestinais são neoplasias do tubo digestivo que possuem a capacidade de secretar neuropeptídeos e outras substâncias bioativas. O pico de incidência ocorre entre 50 e 70 anos de idade.
A Síndrome Carcinoide é o conjunto de sinais e sintomas que surgem em portadores de TNE intestinal devido à secreção excessiva dessas substâncias, como a serotonina.
💡 Conceito Chave: Embora o termo "tumor carcinoide" ainda seja usado, a nomenclatura mais atual é "tumor neuroendócrino intestinal". É importante notar que, apesar do nome, a localização mais comum de um TNE com origem embriológica intestinal é o brônquio.
Classificação dos TNEs Intestinais
Os TNEs intestinais são classificados de acordo com sua origem embriológica no intestino primitivo, o que influencia os produtos secretados:
- Intestino Anterior: Inclui trato respiratório, timo e TGI até o duodeno.
- Produtos: 5-hidroxitriptofano (precursor do 5-HIAA), ACTH e pouca serotonina.
- Intestino Médio: Abrange jejuno-íleo, apêndice, cólon proximal, fígado e gônadas.
- Produtos: Muita serotonina.
- Intestino Posterior: Corresponde ao reto.
- Produtos: Somatostatina, peptídeo YY e pouca serotonina.
Conceitos Chave
- Os TNEs mais frequentes são os de apêndice vermiforme, brônquio, jejuno-íleo e reto.
- A maioria dos tumores é pequena (< 1 cm) e não causa a síndrome carcinoide (menos de 10% dos casos).
- A grande maioria dos tumores que causam síndrome carcinoide são do intestino médio e metastáticos (principalmente com metástases hepáticas), devido à maior produção de serotonina.
- Cerca de 10% dos casos estão associados à Neoplasia Endócrina Múltipla tipo 1 (NEM-1).
- Em 20-30% dos casos, são multicêntricos, uma característica que os diferencia de outras neoplasias malignas gastrointestinais.
- Em 10-20% dos casos, há coexistência com outro tumor primário, sobretudo o adenocarcinoma colônico.
Localização Mais Comum
As localizações mais comuns para TNEs intestinais são o apêndice vermiforme e o íleo distal.
Tríade Clínica da Síndrome Carcinoide
A síndrome carcinoide clássica é caracterizada por uma tríade de sintomas, embora outros achados também sejam comuns:
- Flush Cutâneo: Episódios de rubor facial e cervical que duram de 30 segundos a 30 minutos.
- Diarreia: Crônica, secretora e geralmente aquosa.
- Lesão Oro-Valvar Cardíaca: Principalmente do lado direito do coração, levando a insuficiência tricúspide e/ou estenose tricúspide.
Outros sintomas comuns incluem broncoespasmo (aproximadamente 25% dos casos) e hepatoesplenomegalia (cerca de 70% dos casos).
⚠️ Importante: Mais de 90% dos tumores que causam síndrome carcinoide são metastáticos, com envolvimento hepático sendo o mais comum, pois o fígado não consegue metabolizar a serotonina produzida pelo tumor.
Diagnóstico
O diagnóstico dos TNEs intestinais e da síndrome carcinoide envolve uma combinação de exames laboratoriais e de imagem.
- Excreção Urinária de Ácido-5-Hidroxiindolacético (5-HIAA): Medida em urina de 24 horas, é o produto final do metabolismo da serotonina e o principal marcador bioquímico.
- Dosagem Sanguínea de Cromogranina A: Possui baixa sensibilidade, mas alta especificidade, sendo um excelente marcador prognóstico e de acompanhamento.
- Exames de Imagem: Tomografia Computadorizada (TC) e Octreoscan (cintilografia com análogos da somatostatina) são utilizados para localizar o tumor primário e identificar possíveis metástases.
A dosagem sérica de serotonina pode ser utilizada em casos de resultados duvidosos do 5-HIAA urinário, mas sua sensibilidade e especificidade não são tão bem estabelecidas.
Crise Carcinoide
A crise carcinoide é uma complicação grave e potencialmente fatal, caracterizada por uma liberação maciça de substâncias vasoativas pelo tumor.
- Manifestações: Flush intenso, arritmias cardíacas, broncoconstrição severa e confusão mental, podendo durar de horas a dias.
- Gatilhos: Pode ocorrer espontaneamente ou ser precipitada por manipulação cirúrgica do tumor, palpação abdominal, anestesia, quimioterapia ou embolização hepática.
- Tratamento da Crise: É uma emergência médica. O tratamento consiste em infusão de plasma e Octreotide IV (um análogo da somatostatina) em bolus de 50-100 mcg.
- Contraindicações: O uso de aminas e cálcio é contraindicado durante a crise.
- Profilaxia: A administração de octreotide antes de procedimentos que possam deflagrar a crise é fundamental.
🚨 Emergência: A crise carcinoide é uma condição de alto risco. O Octreotide é o pilar tanto para o tratamento agudo quanto para a profilaxia.
Tratamento
O tratamento dos TNEs intestinais visa a ressecção tumoral e o controle dos sintomas, especialmente na síndrome carcinoide.
- Ressecção Tumoral: A abordagem cirúrgica depende da localização, tamanho do tumor e presença de metástases.
- Controle Sintomático: O Octreotide é amplamente utilizado para controlar os sintomas da síndrome carcinoide, inibindo a secreção hormonal.
Manejo de TNEs no Apêndice Vermiforme
| Critério |
Conduta |
| Tumor < 1 cm + localização na "ponta" + sem invasão de mesoapêndice (sem acometimento linfonodal) |
Apendicectomia |
| Tumor > 1 cm + localização na "base" + com invasão de mesoapêndice |
Hemicolectomia Direita |
TNEs de Jejuno-Íleo
Independentemente do tamanho, a conduta para TNEs de jejuno-íleo é sempre a ressecção intestinal segmentar ampla, incluindo linfonodos e mesentério.
Terapias Adicionais
- Quimioterapia: Pode ser considerada para portadores de doença metastática sintomática e refratária a outras terapias, mas os resultados são limitados.
- Tratamento com Radioisótopos: Em particular o lutécio-octreotato 177, é benéfico em pacientes que apresentam captação tumoral ao Octreoscan.
Prognóstico
Os tumores neuroendócrinos do intestino delgado geralmente apresentam o melhor prognóstico entre os tumores malignos do delgado.