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Doenças do Intestino - Parte 1


Conceitos Fundamentais da Síndrome Disabsortiva

A síndrome disabsortiva é uma condição clínica caracterizada pela dificuldade em absorver ou digerir nutrientes de forma adequada no trato gastrointestinal. Para compreendê-la plenamente, é essencial revisar alguns conceitos básicos sobre diarreia, que frequentemente é a manifestação clínica mais proeminente.

Diarreia: Definição e Classificação

A diarreia é definida como o aumento do conteúdo líquido nas fezes, seja pelo aumento da frequência das evacuações ou do volume fecal. Sua classificação pode ser feita de diversas maneiras, auxiliando na investigação etiológica:

Critério Características Exemplos/Implicações
Localização
  • Alta (Delgado): Grande volume, 3-5 evacuações/dia, restos alimentares.
  • Baixa (Cólon): Pequeno volume, 8-10 evacuações/dia, tenesmo, urgência.
A má absorção tipicamente cursa com diarreia alta.
Presença de Inflamação
  • Não-Invasiva: Sem muco, pus ou sangue.
  • Invasiva/Inflamatória/Infecciosa: Com muco, pus ou sangue.
Indica lesão da mucosa intestinal.
Duração
  • Aguda: Duração inferior a 3-4 semanas.
  • Persistente: Duração entre 2 e 4 semanas.
  • Crônica: Duração superior a 3-4 semanas.
A causa mais comum de diarreia aguda é infecção. Diarreia crônica sugere causas como DII, intolerância à lactose, SII ou infecções persistentes.
⚠️ Atenção: Quando se fala em diarreia invasiva, não significa exclusivamente uma etiologia infecciosa. Condições inflamatórias, como as Doenças Inflamatórias Intestinais (DII), também podem causar diarreia com características invasivas.

Introdução à Síndrome Disabsortiva

A síndrome disabsortiva, como mencionado, é a incapacidade de absorver nutrientes. Isso pode ocorrer por duas vias principais:

É crucial lembrar que o intestino delgado é o principal local de absorção de nutrientes, graças às suas vilosidades. As criptas, por sua vez, são responsáveis pela secreção. Portanto, a síndrome disabsortiva geralmente implica uma lesão ou disfunção do intestino delgado. O intestino grosso, em contraste, é primariamente responsável pela absorção de líquidos.

💡 Dica para Prova: O tempo é o principal marcador da etiologia da diarreia! Se o termo "dias" for usado, pense em diarreia aguda. Se "semanas ou meses", a diarreia é crônica. Essa é a primeira informação a ser observada para direcionar o diagnóstico.

Manifestações Clínicas da Síndrome Disabsortiva

A falha na função do intestino delgado resulta em má absorção, que se manifesta clinicamente de diversas formas:

🧠 Conceito Chave: Má absorção é sinônimo de diarreia alta e crônica. A lesão no intestino delgado causa diarreia de alto volume, e a persistência dos sintomas por mais de 3-4 semanas a caracteriza como crônica.

Fisiopatologia da Absorção e Consequências da Má Absorção

A absorção de nutrientes é um processo complexo. Quando há falha em alguma etapa, surgem as manifestações da má absorção:

Nutriente Absorção Fisiológica Má Absorção (Doença)
Gorduras Depende de lipase pancreática e sais biliares (absorvidos no íleo distal). Esteatorreia (fezes gordurosas).
Carboidratos Amilase pancreática quebra em dissacarídeos; dissacaridases (ex: lactase) os absorvem. Flatulência, distensão abdominal, fezes ácidas.
Proteínas Pepsina (estômago) e tripsina (pâncreas) digerem; absorção no delgado. Edema (em casos graves de hipoproteinemia).
Ferro Principalmente no duodeno e jejuno. Anemia ferropriva.
Ácido Fólico Principalmente no duodeno e jejuno. Anemia megaloblástica.
Vitamina B12 Requer ligante R, fator intrínseco e absorção no íleo distal. Anemia megaloblástica e alterações neurológicas.
Vitaminas A, D, E, K Lipossolúveis, dependem da absorção de gordura. Cegueira noturna (A), osteopenia (D), ataxia (E), coagulopatia (K).
🔎 Diagnóstico: A queixa principal que leva o paciente ao ambulatório é frequentemente a esteatorreia. Contudo, é fundamental lembrar que a má absorção não se restringe apenas à gordura; todos os nutrientes mencionados podem estar sendo perdidos.

Detalhes da Absorção de Nutrientes

Aprofundando nos mecanismos de absorção e suas implicações na má absorção:

Absorção de Gorduras

A digestão das gorduras inicia-se com a lipase pancreática, que é crucial para a emulsificação, facilitando a ação das micelas. Os sais biliares, essenciais para a formação das micelas e absorção de gorduras, são reabsorvidos no íleo distal através da circulação entero-hepática. Assim, condições como pancreatite crônica (deficiência de lipase) ou doença de Crohn (que afeta o íleo distal, prejudicando a reabsorção de sais biliares) podem levar à esteatorreia.

Absorção de Carboidratos

A amilase pancreática quebra os carboidratos complexos em dissacarídeos (como maltose, sacarose e lactose). A absorção final desses dissacarídeos depende das dissacaridases, enzimas presentes na borda em escova do intestino delgado. A deficiência de dissacaridase mais comum é a de lactase, resultando em intolerância à lactose. Quando o açúcar não é absorvido, ele atrai água para o lúmen intestinal (diarreia osmótica) e é fermentado por bactérias, produzindo gases (CO2, metano, hidrogênio) e ácidos. Isso causa flatulência, distensão abdominal e fezes ácidas. O teste de exalação de hidrogênio é utilizado para diagnosticar a deficiência de lactase, pois o hidrogênio é um produto da fermentação bacteriana de açúcares não absorvidos.

Absorção de Proteínas

A digestão proteica começa no estômago com a pepsina e continua no duodeno com a tripsina, secretada pelo pâncreas como tripsinogênio. A má absorção grave de proteínas pode levar à hipoproteinemia, que, em situações extremas, pode manifestar-se como edema.

Absorção de Ferro e Ácido Fólico

Ambos são primariamente absorvidos no duodeno e jejuno. Suas deficiências resultam em anemia, sendo ferropriva para o ferro e megaloblástica para o ácido fólico. A investigação detalhada é frequentemente abordada em hematologia.

Absorção de Vitamina B12

A absorção da vitamina B12 é um processo complexo que ocorre principalmente no íleo distal. Ela requer a ligação inicial com o ligante R no estômago, seguido pela ligação com o fator intrínseco (produzido pelas células parietais gástricas) após a digestão do ligante R. A deficiência de vitamina B12 também causa anemia megaloblástica, mas se diferencia da deficiência de ácido fólico pela presença de alterações neurológicas, uma vez que a B12 é essencial para a formação da bainha de mielina.

Absorção de Vitaminas Lipossolúveis (A, D, E, K)

Como o nome sugere, essas vitaminas dependem da absorção de gorduras. Qualquer condição que comprometa a digestão ou absorção lipídica (como deficiência de lipase pancreática ou sais biliares) também afetará a absorção dessas vitaminas, levando às deficiências clínicas específicas já mencionadas.

Abordagem Diagnóstica da Síndrome Disabsortiva

A investigação da síndrome disabsortiva segue uma sequência lógica para confirmar a má absorção e, posteriormente, identificar sua causa específica.

Etapas Iniciais

O primeiro passo é sempre uma anamnese detalhada e um exame físico completo. A partir daí, a investigação laboratorial e de imagem busca responder a duas perguntas fundamentais:

  1. Existe realmente má absorção?
  2. Se confirmada, qual é a causa subjacente (problema de digestão ou absorção, doença pancreática ou intestinal)?

Confirmação da Má Absorção

Para confirmar a presença de má absorção, especialmente de gordura (esteatorreia), os seguintes testes podem ser utilizados:

Teste Quantitativo de Gordura Fecal
Teste Qualitativo de Gordura Fecal (SUDAN III)

Investigação da Etiologia Específica

Uma vez confirmada a má absorção, o próximo passo é diferenciar se o problema é de digestão (geralmente pancreático) ou de absorção (geralmente intestinal).

Teste da D-Xilose Urinária

Este teste é crucial para o diagnóstico diferencial da síndrome disabsortiva já confirmada. A D-xilose é um monossacarídeo que não necessita de digestão enzimática para ser absorvido; sua absorção depende apenas de uma mucosa intestinal íntegra e funcional.

🧠 Conceito Fundamental: Se um paciente com síndrome disabsortiva confirmada apresenta um teste de D-Xilose urinária normal (>5g), isso significa que a mucosa intestinal está íntegra. Portanto, a causa da má absorção é um problema de digestão, e a principal etiologia a ser investigada é a doença pancreática (geralmente pancreatite crônica).
Métodos Diagnósticos para Causas Específicas

Após a diferenciação inicial, a investigação prossegue com exames direcionados para a etiologia suspeita:


Doença de Whipple

Introdução

A Doença de Whipple é uma condição infecciosa rara, sistêmica e crônica, causada pela bactéria Gram-positiva Tropheryma whipplei. Caracteriza-se pela infiltração de macrófagos no intestino delgado, o que leva a uma síndrome disabsortiva.

Epidemiologia

Manifestações Clínicas

A apresentação clínica da Doença de Whipple é variada, mas classicamente inclui sintomas gastrointestinais e extraintestinais.

🧠 High Yield Note: A presença de síndrome disabsortiva e artrite exige o diagnóstico diferencial com a Doença de Crohn. No entanto, a Doença de Whipple se destaca pela frequente ocorrência de alterações neurológicas, especialmente a miorritmia oculomastigatória.

Diagnóstico

O diagnóstico definitivo da Doença de Whipple é estabelecido por meio de:

Tratamento

O tratamento da Doença de Whipple é prolongado e visa erradicar a infecção e reverter a síndrome disabsortiva.


Doença Celíaca

Introdução

A Doença Celíaca, também conhecida como espru não-tropical ou intolerância ao glúten, é uma doença autoimune crônica que afeta o intestino delgado. Ela ocorre em indivíduos geneticamente predispostos (associada principalmente aos alelos HLA-DQ2/DQ8) após a ingestão de glúten (presente no trigo, centeio e cevada). A gliadina, uma fração proteica do glúten, desencadeia uma resposta inflamatória imune na mucosa do intestino delgado.

💡 Dica sobre Aveia: Embora tradicionalmente incluída na lista de alimentos a serem evitados, a aveia pura é geralmente tolerada por pacientes celíacos. O problema reside na contaminação cruzada com outros grãos que contêm glúten durante o processamento. Ao consumir aveia, é crucial garantir que seja certificada como isenta de glúten.

Autoanticorpos Envolvidos

O diagnóstico da Doença Celíaca é auxiliado pela detecção de autoanticorpos específicos:

Achados Histopatológicos

A inflamação imune no intestino delgado resulta em alterações morfológicas características, embora não patognomônicas:

Manifestações Clínicas

A Doença Celíaca apresenta um espectro clínico amplo, desde formas assintomáticas até quadros graves, com manifestações intestinais e extraintestinais.

Formas de Apresentação

🔎 High Yield Note: Em contextos de prova, a presença de anemia ferropriva refratária (que não responde ao tratamento convencional com ferro) deve levantar a suspeita de Doença Celíaca ou Síndrome Nefrótica.

Distúrbios Imunes Associados

A Doença Celíaca frequentemente coexiste com outras condições autoimunes:

⚠️ Atenção à Deficiência de IgA: Cerca de 10-15% dos pacientes celíacos podem apresentar deficiência de IgA total. Nesses casos, o anti-transglutaminase IgA pode resultar falso-negativo. Para evitar erros diagnósticos, é fundamental dosar a IgA total concomitantemente. Se a IgA total estiver baixa, deve-se solicitar o anti-transglutaminase IgG ou anti-gliadina deaminada IgG.
🔬 Dermatite Herpetiforme: Esta manifestação cutânea, caracterizada por lesões pruriginosas e vesiculares, é tão fortemente associada à Doença Celíaca que, em algumas literaturas, sua presença dispensa a necessidade de biópsia para o diagnóstico de celíaca.

Diagnóstico

O diagnóstico da Doença Celíaca segue uma abordagem em etapas, combinando rastreamento sorológico e confirmação histopatológica.

1. Rastreamento com Anticorpos

É o primeiro passo, realizado enquanto o paciente ainda consome glúten.

2. Confirmação com Biópsia Duodenal via Endoscopia

A biópsia é crucial para a confirmação, devendo ser realizada com o paciente em dieta com glúten.

3. Em Caso de Dúvida Diagnóstica

Tratamento

O pilar do tratamento da Doença Celíaca é a exclusão total e permanente do glúten da dieta.

Manejo Terapêutico

Controle e Prognóstico

Complicações

Pacientes com Doença Celíaca não diagnosticada ou mal controlada apresentam um risco aumentado de complicações graves.

🚨 Risco de Neoplasias: Há um risco aumentado de linfoma intestinal (especialmente linfoma de células T associado à enteropatia) e adenocarcinoma intestinal. Este risco é maior em pacientes com diagnóstico tardio ou que não aderem estritamente à dieta sem glúten, devido à inflamação crônica da mucosa intestinal.
⚠️ Falsos Resultados em Testes Sorológicos:

Doença Inflamatória Intestinal (DII)

A Doença Inflamatória Intestinal (DII) engloba um grupo de condições crônicas que causam inflamação do trato gastrointestinal. De etiologia multifatorial e idiopática, as principais formas são a Doença de Crohn (DC) e a Retocolite Ulcerativa (RCU), além da Colite Indeterminada, que representa casos onde a diferenciação entre as duas não é possível.

Conceitos Iniciais

A DII é uma condição de origem complexa, caracterizada por uma inflamação crônica do trato gastrointestinal. Sua etiologia é considerada multifatorial, envolvendo uma interação intrincada entre fatores genéticos, ambientais e uma resposta autoimune desregulada. Não há um predomínio de sexo no acometimento.

💡 Dica de Prova: A DII de etiologia idiopática/primária se divide em Doença de Crohn (DC) e Retocolite Ulcerativa (RCU). Quando a diferenciação não é possível, chamamos de Colite Indeterminada, que ocorre em 15-30% dos pacientes.
⚠️ Atenção ao Tabagismo:

Observações Importantes para Provas

Anatomopatologia

Compreender as características anatomopatológicas é fundamental para diferenciar a Retocolite Ulcerativa da Doença de Crohn. Vamos estabelecer "leis" para cada uma.

Retocolite Ulcerativa (RCU)

A RCU é uma doença inflamatória que segue um padrão muito específico no trato gastrointestinal. É frequentemente descrita como uma "mucosite idiopática ascendente e uniforme do cólon".

🧠 As 3 Leis da Retocolite Ulcerativa:
  1. Limitada ao Reto e Cólon: A inflamação se restringe ao intestino grosso. O intestino delgado e o ânus não são acometidos primariamente.
  2. Limitada à Mucosa/Submucosa: A inflamação é superficial, não atingindo as camadas mais profundas da parede intestinal.
  3. Sempre Uniforme e Ascendente: A doença inicia-se no reto e se estende de forma contínua e progressiva para as porções proximais do cólon.
Padrão de Acometimento da RCU

A melhora do quadro clínico, quando ocorre, segue o caminho inverso: começa a melhorar pelo cólon ascendente e progride distalmente até o reto. Ou seja, "tudo começa no reto e tudo termina no reto".

⚠️ Complicação: Em casos de pancolite, o enfraquecimento da parede do cólon pode levar ao Megacólon Tóxico, uma complicação grave.

A ileíte de refluxo pode ocorrer quando a porção distal do íleo é atingida por inflamação, mas é uma complicação e não uma característica primária da RCU, afetando menos de 20% dos pacientes. É crucial lembrar que a RCU é primariamente uma doença do cólon e, portanto, não causa síndrome disabsortiva.

Doença de Crohn (DC)

A Doença de Crohn é o oposto da Retocolite Ulcerativa em muitos aspectos, sendo uma doença mais abrangente e com padrão de acometimento distinto. Costuma-se dizer que "Crohn vem com tudo", pois pode afetar qualquer parte do trato gastrointestinal.

🧠 As 3 Leis da Doença de Crohn:
  1. Não Limitada ao Reto e Cólon: Pode acometer qualquer segmento do trato gastrointestinal, "da boca até o ânus".
    • Local mais comum: Intestino delgado (~80% dos casos), principalmente o íleo terminal.
    • Doença Perianal: Presente em cerca de um terço dos pacientes, sendo uma característica marcante.
    • Reto: É poupado em aproximadamente 50% dos casos.
    • TGI Superior: Estômago, esôfago e duodeno podem ser acometidos em até 10% dos casos.
  2. Não é Limitada à Mucosa: A inflamação é tipicamente transmural, ou seja, atinge todas as camadas da parede intestinal.
    • Isso explica as complicações características: fístulas, abscessos e estenoses.
  3. Não é Uniforme e Ascendente: A doença apresenta um padrão salteado ou descontínuo, com áreas inflamadas intercaladas por áreas de mucosa normal. Isso confere o aspecto de "pedras de calçamento" à mucosa.

Quadro Clínico

As manifestações clínicas da DII são variadas e dependem da extensão e localização da inflamação. Os sintomas comuns incluem:

Manifestações Extraintestinais (MEI)

As DIIs são doenças sistêmicas e podem apresentar manifestações em diversos órgãos e sistemas, que podem preceder, acompanhar ou seguir o curso da doença intestinal.

Manifestações Cutâneas
Manifestações Hepatobiliares
Manifestações Articulares
Manifestações Renais
Manifestações Oftalmológicas
Manifestações Extraintestinais Com Relação à Atividade da Doença Sem Relação à Atividade da Doença
Cutâneas Eritema Nodoso Pioderma Gangrenoso
Articulares/Oftalmológicas Artrite Periférica, Uveíte Sacroileíte, Espondilite Anquilosante
Hepatobiliares Colangite Esclerosante Primária (principalmente RCU)

Diagnóstico

O diagnóstico da DII é baseado na combinação de achados clínicos, endoscópicos, histopatológicos e laboratoriais. A endoscopia com biópsia é crucial para a confirmação e diferenciação entre DC e RCU.

Endoscopia e Biópsia

Exames Complementares

Além da endoscopia, outros exames são importantes para avaliar a extensão da doença, complicações e auxiliar no diagnóstico diferencial.

Característica Retocolite Ulcerativa (RCU) Doença de Crohn (DC)
Localização Limitada ao reto e cólon Acomete qualquer parte do TGI ("da boca ao ânus")
Profundidade Limitada à mucosa e submucosa Transmural (todas as camadas)
Padrão de Acometimento Progressão ascendente e contínua (reto sempre acometido) Padrão salteado e descontínuo
Reto Sempre acometido (início da doença) Poupado em ~50% dos casos
Ânus Geralmente poupado Acometimento perianal comum (fístulas, fissuras)
Íleo Terminal Não acometido (exceto ileíte de refluxo, complicação) Local mais comum de acometimento (>50% dos casos)
Achados Endoscópicos Enantema, erosões, sangramento, pseudopólipos, perda de haustrações ("cano de chumbo") Úlceras aftoides e profundas, "pedras de calçamento", estenoses, fístulas
Achados Histopatológicos Criptite, microabscessos de cripta Granulomas não caseosos (em 30-60% dos casos)
Tabagismo Fator protetor Fator de risco importante
Sintomas Predominantes Colite disentérica (diarreia sanguinolenta, tenesmo) Diarreia, dor abdominal (QID), emagrecimento, massa palpável
Sorologia P-ANCA positivo (~49%) ASCA positivo (~57%)
Complicações Típicas Megacólon tóxico, displasia/câncer colorretal Fístulas, abscessos, estenoses/obstrução, má absorção

Tratamento da Doença Inflamatória Intestinal

O manejo da DII visa induzir e manter a remissão, controlar os sintomas e prevenir complicações. A escolha terapêutica depende da gravidade, extensão da doença e resposta individual do paciente.

Opções Terapêuticas

As classes de medicamentos utilizadas no tratamento da DII atuam de diferentes formas para controlar a inflamação:

Critérios de Gravidade

A avaliação da gravidade da DII é crucial para guiar a escolha terapêutica. Considera-se a doença como "grave" na presença de:

🧠 Lembre-se: A correta identificação da gravidade é um pilar fundamental para a definição do plano de tratamento mais adequado e eficaz.

Retocolite Ulcerativa (RCU)

O tratamento da RCU é escalonado conforme a gravidade da doença:

Doença Leve-Moderada
Doença Grave

Alternativas aos Anti-TNF em RCU:

Doença de Crohn (DC)

O tratamento da DC também segue um esquema escalonado:

Doença Leve-Moderada
Doença Grave
💊 Se houver Fístula na Doença de Crohn: É fundamental adicionar antibióticos ao tratamento. A combinação de Ciprofloxacino + Metronidazol é frequentemente utilizada.

Sequência Terapêutica para Provas

Para fins de prova, a sequência de escalonamento terapêutico na DII geralmente segue uma lógica progressiva, começando com as opções menos invasivas e avançando para as mais potentes:

1ª Linha 2ª Linha 3ª Linha 4ª Linha
💊 Aminossalicilatos (5-ASA) 💊 Corticoides 💊 Imunomoduladores 💊 Imunobiológicos
Mesalazina, Sulfassalazina Prednisona, Hidrocortisona Azatioprina, Mercaptopurina, Metotrexato Infliximabe, Vedolizumabe, Ustequinumabe

Tratamento Cirúrgico

A cirurgia na DII é reservada para casos específicos, seja por falha do tratamento clínico ou pelo desenvolvimento de complicações graves.

Retocolite Ulcerativa (RCU)

Na RCU, a cirurgia pode ser curativa, pois a doença afeta apenas o cólon e reto.

Doença de Crohn (DC)

Na DC, a cirurgia é paliativa, pois a doença pode recorrer em qualquer segmento do trato gastrointestinal. O objetivo é remover segmentos doentes e aliviar sintomas.

Complicações da Doença Inflamatória Intestinal

As DIIs podem levar a diversas complicações, tanto locais quanto sistêmicas, que exigem atenção e manejo específicos.

Megacólon Tóxico

É uma complicação grave caracterizada por dilatação colônica aguda e sinais de toxicidade sistêmica.

⚠️ Atenção: Se o paciente não apresentar melhora em 24-48 horas com o tratamento clínico intensivo, a colectomia total com ileostomia é indicada de urgência.

Risco de Câncer

Tanto a RCU quanto a DC aumentam o risco de câncer colorretal, sendo este risco principalmente associado à RCU.

💡 Alerta para Displasia:

Pacientes com RCU e câncer colorretal têm maior probabilidade de apresentar tumores sincrônicos (múltiplos tumores primários detectados simultaneamente).

Fístulas

As fístulas são comunicações anormais entre duas superfícies epitelizadas e são típicas da Doença de Crohn, refletindo a inflamação transmural.

🔎 Pneumatúria: A presença de ar na urina (pneumatúria) é um sinal de fístula entero-vesical. As três principais causas para provas são: Diverticulite, Câncer Colorretal e Doença de Crohn.

Abscessos

São coleções de pus que surgem quando o conteúdo intestinal extravasa por um pertuito e fica contido. São típicos da Doença de Crohn, ocorrendo em 15-20% dos pacientes, sendo mais comuns no íleo terminal.

Sangramentos Gastrointestinais

A pesquisa de sangue oculto nas fezes é frequentemente positiva em pacientes com DC. No entanto, sangramentos macroscópicos e significativos são muito mais frequentes na Retocolite Ulcerativa.

⚠️ Diferença Diagnóstica: A maior incidência de sangramento macroscópico na RCU é uma das razões pelas quais o diagnóstico de Doença de Crohn pode ser mais tardio, já que a hematoquezia é um sintoma mais evidente e alarmante.

Perfuração Intestinal

É uma das complicações mais temidas da DII, caracterizada pela ruptura da parede intestinal.

Estenoses Intestinais

As estenoses resultam do comprometimento repetitivo e grave das camadas profundas da parede intestinal, levando ao espessamento e estreitamento do lúmen. São mais comuns na Doença de Crohn, afetando cerca de 40% dos pacientes.

🚨 Indicação Cirúrgica Principal na DC: As estenoses, sejam elas no delgado ou no cólon, constituem a principal indicação cirúrgica na Doença de Crohn.

Colite Pseudomembranosa

Introdução e Conceitos Essenciais

A colite pseudomembranosa é uma condição inflamatória do cólon, caracterizada por diarreia de etiologia infecciosa, causada principalmente pela bactéria Clostridioides difficile. Esta doença é de grande relevância clínica, especialmente em ambientes hospitalares, devido à sua associação com o uso de antibióticos.

Definição e Etiologia

Trata-se de uma infecção gastrointestinal provocada pelo Clostridioides difficile, uma bactéria gram-positiva, anaeróbia e formadora de esporos. Embora o termo "Clostridioides" seja o mais atual e correto, é comum que em materiais de estudo e provas de residência ainda se encontre a nomenclatura "Clostridium".

🧠 Conceito Chave: O Clostridioides difficile é o principal agente etiológico da colite pseudomembranosa, uma diarreia infecciosa frequentemente associada ao uso de antibióticos.

Transmissão e Fatores Predisponentes

A transmissão ocorre pela via fecal-oral, através da ingestão de esporos presentes no ambiente. É fundamental compreender que a infecção pelo Clostridioides difficile nem sempre resulta no desenvolvimento da doença. Para que a colite pseudomembranosa se manifeste, é necessário um gatilho que perturbe o equilíbrio da microbiota intestinal, permitindo a proliferação bacteriana e a produção de toxinas.

Fisiopatologia

O mecanismo central da colite pseudomembranosa envolve a alteração da flora intestinal normal, geralmente induzida pelo uso de antibióticos. Essa disbiose permite a proliferação do Clostridioides difficile, que então produz toxinas A e B. Essas toxinas são responsáveis por causar danos diretos à mucosa intestinal, levando a um processo inflamatório intenso e à formação das pseudomembranas características da doença.

Antibióticos de Risco

Embora qualquer antibiótico, independentemente da via de administração, possa desencadear a colite pseudomembranosa, alguns são classicamente mais associados ao seu desenvolvimento. É importante que o estudante de medicina memorize os principais:

⚠️ Atenção: Lembre-se do mnemônico "3 C's" para os antibióticos mais associados: Cefalosporinas, Quinolonas (que começa com Q, mas pode ser associado ao som de C), e Clindamicina.

Manifestações Clínicas

O quadro clínico da colite pseudomembranosa é dominado pela diarreia, que pode variar de leve a grave. A suspeita deve ser levantada em pacientes que desenvolvem diarreia após o uso recente de antibióticos.

Sintomas Comuns

Classificação da Gravidade e Complicações

A gravidade da colite pseudomembranosa é crucial para guiar a conduta terapêutica. Costuma-se dividir as complicações em "casos graves" e "colite fulminante", que representam os extremos do espectro da doença.

Casos Graves

São definidos pela presença de marcadores de inflamação sistêmica ou disfunção renal. A identificação desses critérios é fundamental para a escolha do tratamento adequado.

🚨 Alerta: A presença de leucocitose significativa ou elevação da creatinina indica um caso grave e exige uma abordagem terapêutica mais intensiva.
Colite Fulminante

Representa a forma mais severa e potencialmente fatal da doença, exigindo intervenção imediata. Os achados clínicos refletem uma resposta inflamatória sistêmica grave e complicações intestinais agudas.

⚠️ Emergência: A colite fulminante é uma emergência médica que requer tratamento agressivo e, por vezes, cirúrgico.

Diagnóstico

O diagnóstico da colite pseudomembranosa baseia-se na combinação de achados clínicos, laboratoriais e, em alguns casos, endoscópicos ou de imagem.

Métodos Laboratoriais

A detecção das toxinas do Clostridioides difficile é o pilar do diagnóstico.

Exames de Imagem e Endoscopia

Esses exames são úteis para avaliar a extensão da doença e identificar complicações.

🔎 Diagnóstico: A pesquisa de toxinas A e B nas fezes é o método diagnóstico de escolha. A colonoscopia revela as pseudomembranas, mas é menos utilizada na rotina.

Fatores de Risco Adicionais

Além do uso de antibióticos, outros fatores podem aumentar a suscetibilidade à colite pseudomembranosa:

Tratamento

O tratamento da colite pseudomembranosa envolve medidas gerais de suporte, suspensão do agente causador e antibioticoterapia específica, adaptada à gravidade do quadro.

Princípios Gerais

Abordagem Terapêutica por Gravidade

Casos Leves a Moderados e Graves

A escolha do antibiótico e da dose depende da classificação de gravidade.

💊 Tratamento: Vancomicina oral e Fidaxomicina oral são as opções preferenciais para casos graves. Metronidazol oral é uma alternativa para casos leves.
Colite Fulminante

Esta forma grave da doença exige uma abordagem terapêutica combinada e, por vezes, intervenções adicionais.

Manejo de Recidivas

As recidivas são comuns e representam um desafio terapêutico. A abordagem deve ser escalonada.

Tabela Resumo do Tratamento

Quadro Clínico Critérios Antibioticoterapia Inicial Conduta em Caso de Não Melhora ou Complicações
Leve-Moderado Leucócitos < 15.000/mm³
Creatinina < 1,5x basal
Metronidazol 500mg VO 8/8h por 10-14 dias Se não houver melhora: Vancomicina 125mg VO 6/6h
Grave Leucócitos ≥ 15.000/mm³
Creatinina ≥ 1,5x basal
Vancomicina 125mg VO 6/6h por 10 dias Se não houver melhora: Aumentar dose de Vancomicina para 250-500mg VO 6/6h
Fulminante Hipotensão OU choque
Íleo metabólico
Megacólon tóxico
Lactato > 2,2 mmol/L
Disfunção orgânica
Vancomicina 250-500mg VO 6/6h
+ Metronidazol 500mg IV 8/8h
Se íleo paralítico: Adicionar Vancomicina 500mg por enema retal 6/6h

Síndrome do Intestino Irritável (SII)

Conceitos Iniciais

A Síndrome do Intestino Irritável (SII) é um distúrbio funcional do trato gastrointestinal, caracterizado por dor abdominal crônica e alteração do hábito intestinal. O diagnóstico é feito após a exclusão de causas orgânicas que justifiquem os sintomas.

Acomete aproximadamente 15% da população geral, sendo mais comum em mulheres. Frequentemente, está associada a distúrbios psiquiátricos como ansiedade e depressão, além de condições como a fibromialgia.

🧠 Lembre-se: A SII é uma condição funcional, o que significa que não há uma patologia estrutural ou bioquímica detectável que explique os sintomas.

Fisiopatologia

A fisiopatologia da SII envolve principalmente dois mecanismos interligados:

Essas alterações na sensibilidade e motilidade contribuem para o quadro álgico e para as mudanças no hábito intestinal.

Quadro Clínico

Os sintomas cardinais da SII são a dor abdominal crônica e as alterações do hábito intestinal, que podem se manifestar como diarreia, constipação ou um padrão misto.

Dor Abdominal Crônica

Diarreia

⚠️ Atenção: A ausência de sinais de alarme é um ponto crucial para diferenciar a SII de doenças orgânicas e é frequentemente cobrada em provas!

Constipação

Pode ocorrer em pacientes com SII, caracterizando-se por uma peristalse mais lenta.

Diagnóstico

O diagnóstico da SII é essencialmente clínico, baseado nos critérios de Roma IV e na exclusão de outras patologias.

Critérios de Roma IV

Dor abdominal recorrente, pelo menos uma vez por semana nos últimos 3 meses, associada a dois ou mais dos seguintes:

Exclusão de Doenças Orgânicas

É fundamental realizar exames para descartar outras condições com sintomas semelhantes:

🔎 Diagnóstico Diferencial: Em pacientes com diarreia, é imprescindível excluir doenças como doença inflamatória intestinal (DII), doença celíaca e parasitoses.

Outros Achados Possíveis

Além dos sintomas principais, pacientes com SII podem apresentar:

Classificação

A SII é classificada de acordo com o padrão predominante do hábito intestinal:

Sinais de Alarme para Doenças Orgânicas

A presença de qualquer um dos seguintes sinais de alarme exige investigação adicional, geralmente incluindo colonoscopia, para descartar doenças orgânicas graves:

🚨 Sinais de Alarme: Nesses casos, a colonoscopia é o exame de escolha para investigação.

Tratamento

O tratamento da SII é multifacetado, abordando tanto aspectos não farmacológicos quanto farmacológicos, visando o alívio dos sintomas.

Não Farmacológico

Farmacológico

💊 Tratamento Refratário: Os antidepressivos tricíclicos são uma opção importante para pacientes com SII refratária, especialmente aqueles com dor abdominal proeminente.

Tumor Neuroendócrino Intestinal (Carcinóide)

Definições

Os Tumores Neuroendócrinos (TNEs) intestinais são neoplasias do tubo digestivo que possuem a capacidade de secretar neuropeptídeos e outras substâncias bioativas. O pico de incidência ocorre entre 50 e 70 anos de idade.

A Síndrome Carcinoide é o conjunto de sinais e sintomas que surgem em portadores de TNE intestinal devido à secreção excessiva dessas substâncias, como a serotonina.

💡 Conceito Chave: Embora o termo "tumor carcinoide" ainda seja usado, a nomenclatura mais atual é "tumor neuroendócrino intestinal". É importante notar que, apesar do nome, a localização mais comum de um TNE com origem embriológica intestinal é o brônquio.

Classificação dos TNEs Intestinais

Os TNEs intestinais são classificados de acordo com sua origem embriológica no intestino primitivo, o que influencia os produtos secretados:

Conceitos Chave

Localização Mais Comum

As localizações mais comuns para TNEs intestinais são o apêndice vermiforme e o íleo distal.

Tríade Clínica da Síndrome Carcinoide

A síndrome carcinoide clássica é caracterizada por uma tríade de sintomas, embora outros achados também sejam comuns:

Outros sintomas comuns incluem broncoespasmo (aproximadamente 25% dos casos) e hepatoesplenomegalia (cerca de 70% dos casos).

⚠️ Importante: Mais de 90% dos tumores que causam síndrome carcinoide são metastáticos, com envolvimento hepático sendo o mais comum, pois o fígado não consegue metabolizar a serotonina produzida pelo tumor.

Diagnóstico

O diagnóstico dos TNEs intestinais e da síndrome carcinoide envolve uma combinação de exames laboratoriais e de imagem.

A dosagem sérica de serotonina pode ser utilizada em casos de resultados duvidosos do 5-HIAA urinário, mas sua sensibilidade e especificidade não são tão bem estabelecidas.

Crise Carcinoide

A crise carcinoide é uma complicação grave e potencialmente fatal, caracterizada por uma liberação maciça de substâncias vasoativas pelo tumor.

🚨 Emergência: A crise carcinoide é uma condição de alto risco. O Octreotide é o pilar tanto para o tratamento agudo quanto para a profilaxia.

Tratamento

O tratamento dos TNEs intestinais visa a ressecção tumoral e o controle dos sintomas, especialmente na síndrome carcinoide.

Manejo de TNEs no Apêndice Vermiforme

Critério Conduta
Tumor < 1 cm + localização na "ponta" + sem invasão de mesoapêndice (sem acometimento linfonodal) Apendicectomia
Tumor > 1 cm + localização na "base" + com invasão de mesoapêndice Hemicolectomia Direita

TNEs de Jejuno-Íleo

Independentemente do tamanho, a conduta para TNEs de jejuno-íleo é sempre a ressecção intestinal segmentar ampla, incluindo linfonodos e mesentério.

Terapias Adicionais

Prognóstico

Os tumores neuroendócrinos do intestino delgado geralmente apresentam o melhor prognóstico entre os tumores malignos do delgado.