Doenças do Intestino - Parte 2
As doenças vasculares intestinais representam um espectro de condições que afetam o suprimento sanguíneo do trato gastrointestinal, podendo levar a quadros agudos ou crônicos de isquemia.
Doença Vascular Intestinal - Conceitos Fundamentais
Classificação e Localização
A doença vascular intestinal pode ser categorizada em dois grandes grupos, dependendo do calibre dos vasos afetados e da porção do intestino envolvida:
- Macrovascular: Envolve grandes vasos e afeta predominantemente o intestino delgado. Inclui a Isquemia Mesentérica Aguda e a Isquemia Mesentérica Crônica, geralmente relacionadas a problemas na artéria mesentérica superior.
- Microvascular: Afeta a microcirculação e acomete primariamente o intestino grosso. É conhecida como Colite Isquêmica, com a artéria mesentérica inferior sendo a mais frequentemente prejudicada.
🧠 Lembre-se: Isquemia mesentérica (aguda ou crônica) = intestino delgado. Colite isquêmica = intestino grosso.
Anatomia Vascular do Intestino
A irrigação sanguínea do trato gastrointestinal é complexa e vital. Compreender a distribuição das artérias é crucial para entender as patologias isquêmicas.
Principais Artérias e Suas Áreas de Irrigação
- Tronco Celíaco: Irrigação do estômago, fígado e via biliar, baço, pâncreas e duodeno.
- Artéria Mesentérica Superior (AMS): Responsável pela irrigação do jejuno, íleo, apêndice, cólon ascendente e os primeiros ¾ do cólon transverso.
- Artéria Mesentérica Inferior (AMI): Irrigação do último ¼ do cólon transverso, cólon descendente, sigmoide e reto superior.
- Artéria Ilíaca Interna: Suprimento para o reto médio e reto inferior.
Anastomoses Cruciais
As anastomoses são conexões entre vasos sanguíneos que podem servir como vias colaterais em caso de obstrução, mas também definem áreas de maior risco.
- Entre AMS e AMI: Formam as artérias marginais (ou de Drummond) e o arco de Riolan.
- Entre Tronco Celíaco e AMS: Estabelecem as arcadas pancreatoduodenais.
Áreas de "Penumbras Vasculares"
Estas são regiões de maior vulnerabilidade isquêmica devido à menor irrigação colateral, localizadas nas transições vasculares.
- Flexura Esplênica: Ponto de comunicação entre a área de suprimento da artéria mesentérica superior e inferior.
- Junção Retossigmoide: Transição entre a irrigação da artéria mesentérica inferior e da artéria ilíaca interna.
Isquemia Mesentérica Aguda
A isquemia mesentérica aguda é uma emergência abdominal grave, caracterizada por uma interrupção súbita do fluxo sanguíneo para o intestino, resultando em dor intensa e alto risco de necrose intestinal.
Etiologia
As causas são variadas e determinam a abordagem terapêutica:
- Embolia Arterial (50%): Geralmente originada de fontes cardíacas, como fibrilação atrial ou infarto agudo do miocárdio (IAM) recente.
- Isquemia Não-Oclusiva/Vasoconstrição (20%): Ocorre em estados de baixo fluxo sanguíneo ou vasoconstrição intensa, como insuficiência cardíaca congestiva (ICC) grave, sepse, uso de vasoconstritores ou cocaína.
- Trombose Arterial (15%): Comum em pacientes com doença aterosclerótica preexistente, como insuficiência vascular periférica.
- Trombose Venosa (5%): Associada a estados de hipercoagulabilidade (trombofilias), policitemia vera, neoplasias ou hipertensão portal.
⚠️ Atenção: A fibrilação atrial é uma causa clássica de embolia mesentérica, levando à "dor desproporcional ao exame físico".
Manifestações Clínicas
O quadro clínico é dramático e deve levantar a suspeita diagnóstica:
- Dor Abdominal Intensa Desproporcional ao Exame Físico: Característica marcante. Inicialmente, a obstrução não causa necrose imediata, evitando irritação peritoneal, mas a dor é excruciante.
- Temperatura Retal < Temperatura Axilar: Devido à isquemia, o fluxo sanguíneo reduzido na região retal diminui a temperatura local.
- Distensão Abdominal Progressiva: A alça intestinal isquêmica diminui a peristalse para se poupar, levando à distensão.
- Metabolismo Anaeróbico: Resulta em aumento do ácido lático e acidose metabólica, manifestando-se como taquipneia ou respiração ofegante.
- Irritação Peritoneal: Sinal tardio, indicando progressão para necrose intestinal.
🚨 Emergência: A dor abdominal intensa e desproporcional ao exame físico é o sinal cardinal da isquemia mesentérica aguda.
Diagnóstico
O diagnóstico precoce é fundamental para um bom prognóstico.
Exames Laboratoriais
São inespecíficos, mas podem indicar sofrimento orgânico:
- Leucocitose.
- Acidose metabólica.
- Aumento de lactato, amilase e LDH.
Exames de Imagem
- Radiografia de Abdome: Pode evidenciar pneumatose intestinal em casos mais tardios, indicando gás na parede da alça necrosada.
- AngioTC (Angiotomografia Computadorizada): É o exame mais comumente solicitado e de grande valor diagnóstico. Pode revelar falha no enchimento de contraste nos vasos, pneumatose intestinal e gás na veia porta. É o método de escolha para identificar trombose venosa mesentérica e visualizar alterações teciduais.
- Angiografia Mesentérica: Considerado o padrão ouro para visualização direta dos vasos mesentéricos, mas não oferece informações sobre o tecido intestinal como a AngioTC.
🔎 Diagnóstico: A AngioTC é o melhor método para identificar pneumatose intestinal e trombose de veia mesentérica, além de ser o exame de escolha para trombose venosa.
Tratamento
O objetivo principal é restaurar o fluxo vascular e avaliar a viabilidade da alça intestinal.
Embolia ou Trombose Arterial da Artéria Mesentérica Superior
- Heparinização: Para prevenir a progressão do trombo.
- Laparotomia Exploradora: Para acesso direto.
- Embolectomia ou Trombectomia: Remoção do êmbolo ou trombo.
- Ressecção da Alça: Se houver necrose intestinal confirmada. A viabilidade da alça é avaliada pela coloração (rosada vs. arroxeada), peristalse e fluxo sanguíneo durante a cirurgia.
- Papaverina Pós-operatória: Para evitar vasoespasmo.
Trombose da Veia Mesentérica Superior
- Heparinização: Tratamento inicial.
- Cirurgia: Indicada apenas se houver complicações, como sinais de irritação peritoneal ou acidose persistente.
Vasoconstrição (Isquemia Não Oclusiva)
- Papaverina Intra-arterial: Para promover vasodilatação.
- Laparotomia: Se houver complicações (irritação peritoneal, acidose) ou falha na resposta à papaverina.
💊 Tratamento: Em casos de grande segmento necrótico ou dúvida sobre a viabilidade da alça, pode-se considerar a peritoniostomia e reavaliação em 12-24 horas para evitar a síndrome do intestino curto.
Isquemia Mesentérica Crônica
A isquemia mesentérica crônica é uma condição progressiva causada pela aterosclerose das artérias mesentéricas, levando a uma dor abdominal pós-prandial característica.
Etiologia
- Aterosclerose: É a principal causa, com acúmulo de placas de ateroma nas artérias mesentéricas, similar à doença aterosclerótica coronariana.
Manifestações Clínicas
Os sintomas são insidiosos e relacionados à alimentação:
- Angina Mesentérica: Dor abdominal que piora significativamente após as refeições ("comeu, doeu").
- Emagrecimento: Resulta do "medo de comer" (sitiofobia) devido à dor pós-prandial.
- Sinais Sistêmicos de Aterosclerose: Frequentemente, o paciente apresenta outras manifestações de aterosclerose, como angina pectoris, IAM prévio ou doença arterial periférica (DAP).
🧠 Conceito: A angina mesentérica é a dor pós-prandial que leva à sitiofobia e emagrecimento, diferenciando-se de outras causas de dor abdominal.
Diagnóstico
A combinação da clínica com exames de imagem é essencial.
- Clínica: História de angina mesentérica e emagrecimento.
- Angiografia Mesentérica: Padrão ouro para visualizar as estenoses ou oclusões nos grandes vasos.
- Alternativas: Doppler de artérias mesentéricas, AngioTC e Ressonância Magnética (RM) de abdome também são úteis.
Tratamento
O tratamento visa restaurar o fluxo sanguíneo e aliviar os sintomas.
- Pacientes Jovens e com Baixo Risco Cirúrgico: Revascularização cirúrgica (bypass).
- Pacientes Idosos ou com Comorbidades Significativas: Angioplastia com stent, uma opção menos invasiva.
Colite Isquêmica
A colite isquêmica é a forma mais comum de isquemia intestinal, afetando o intestino grosso devido a problemas na microcirculação, geralmente em pacientes idosos com hipoperfusão.
Conceitos Chave
- É a forma mais comum de isquemia intestinal.
- Caracteriza-se por ser uma doença microvascular.
- As porções mais acometidas são as áreas de "penumbra isquêmica": a flexura esplênica e a junção retossigmoide.
⚠️ Atenção: A colite isquêmica afeta as áreas de transição vascular, como a flexura esplênica e a junção retossigmoide.
Quadro Clínico
O paciente típico é um idoso com histórico de hipoperfusão:
- Paciente Típico: Idoso que passou por um episódio de hipoperfusão (ex: correção de aneurisma de aorta abdominal, choque, arritmias).
- Sintomas de Colite: Dor abdominal (geralmente menos intensa que na isquemia mesentérica aguda), distensão abdominal, diarreia com sangue (hematoquezia), febre e, em casos graves, megacólon.
Diagnóstico
O diagnóstico é baseado na clínica e em exames de imagem e endoscopia.
- Radiografia de Abdome ou Clister Opaco: Pode evidenciar o "sinal das impressões digitais" (thumbprinting), que são espessamentos da parede intestinal causados por edema submucoso.
- Retossigmoidoscopia ou Colonoscopia: Revela mucosa inflamada, hemorrágica e isquêmica, com áreas de necrose ou úlceras. É um exame crucial para confirmar o diagnóstico e avaliar a extensão.
🔎 Diagnóstico: O "sinal das impressões digitais" (thumbprinting) no RX abdominal é um achado característico da colite isquêmica.
Tratamento
O tratamento inicial é de suporte, com intervenção cirúrgica reservada para complicações.
- Suporte Clínico: Dieta zero, hidratação venosa e antibioticoterapia (ATB) para cobrir a flora intestinal.
- Colectomia (Parcial ou Total): Indicada em casos de complicações graves, como hemorragia maciça, peritonite, colite fulminante ou casos refratários ao tratamento conservador.
| Característica |
Isquemia Mesentérica Aguda |
Isquemia Mesentérica Crônica |
Colite Isquêmica |
| Tipo Vascular |
Macrovascular |
Macrovascular |
Microvascular |
| Intestino Afetado |
Delgado |
Delgado |
Grosso |
| Etiologia Principal |
Embolia (FA), Trombose, Não-Oclusiva |
Aterosclerose |
Hipoperfusão (Idoso, Pós-cirurgia) |
| Clínica Chave |
Dor desproporcional ao exame físico |
Angina mesentérica ("comeu, doeu"), emagrecimento |
Dor abdominal, diarreia sanguinolenta, febre |
| Diagnóstico Imagem |
AngioTC (pneumatose, trombose venosa) |
Angiografia mesentérica, AngioTC |
RX (thumbprinting), Colonoscopia |
| Tratamento |
Heparinização, Laparotomia, Embolectomia/Ressecção |
Revascularização cirúrgica ou Angioplastia |
Suporte, Colectomia se complicações |