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Doenças do Intestino - Parte 3

Obstrução Intestinal


Introdução e Definições

A obstrução intestinal caracteriza-se pela interrupção do trânsito normal do conteúdo gastrointestinal, podendo ser de origem mecânica (anatômica) ou funcional (dismotilidade). A etiologia varia conforme a topografia da obstrução (intestino delgado versus cólon), além da faixa etária do paciente, já que diferentes condições predominam em adultos, idosos e crianças.


Etiologia por Segmento Intestinal

Obstrução do Intestino Delgado

As principais causas de obstrução no intestino delgado incluem:

💡 Mnemônico para decorar: DElgado = "DErência" (aderência). É a causa número 1!

Obstrução do Intestino Grosso (Cólon)

No cólon, o padrão etiológico difere significativamente:

💡 Mnemônico para decorar: Cólon = Câncer. É a principal causa!

Obstrução Intestinal na Infância

A população pediátrica apresenta etiologias específicas, sendo a intussuscepção intestinal (invaginação) a mais relevante:

💡 Mnemônico para decorar: INfância = INvaginação (intussuscepção).

Manifestações Clínicas

Sintomas Cardinais

A apresentação clínica da obstrução intestinal varia de acordo com a localização e o grau de obstrução (parcial versus total):

⚠️ Sinais de alarme para complicação (isquemia/necrose): febre, taquicardia, oligúria, leucocitose com desvio à esquerda. Esses achados sugerem obstrução estrangulada e necessidade de abordagem cirúrgica urgente!

Obstrução Estrangulada

A obstrução estrangulada representa uma complicação grave em que, além do componente obstrutivo mecânico, há comprometimento do suprimento sanguíneo da alça intestinal. A distensão excessiva da parede intestinal aumenta a pressão intraluminal, comprimindo os vasos da parede e levando à isquemia progressiva. Sem intervenção rápida, evolui para necrose transmural, perfuração e peritonite.

Obstrução em Alça Fechada

Este padrão especial de obstrução ocorre quando há bloqueio simultâneo em dois pontos de uma mesma alça intestinal, impedindo o escoamento do conteúdo tanto proximal quanto distalmente. A alça "aprisionada" continua secretando líquidos, resultando em distensão progressiva e rápida, com alto risco de estrangulamento.

Principais exemplos de obstrução em alça fechada:

🚨 Atenção: Qualquer obstrução do cólon em paciente com válvula ileocecal competente funciona como alça fechada. O ceco, por ter maior diâmetro, recebe a maior tensão de parede e está sob risco de perfuração quando atinge diâmetro >12cm!

Exame Físico

Além da propedêutica abdominal completa (inspeção, ausculta, percussão e palpação), alguns elementos merecem destaque especial:


Propedêutica Complementar

Alterações Laboratoriais

Os vômitos persistentes na obstrução intestinal, especialmente alta, levam a perda de íons H⁺, Cl⁻ e K⁺, gerando:

Radiografia Simples de Abdome

Apesar da superioridade da tomografia computadorizada, a radiografia convencional mantém grande utilidade pela facilidade de acesso e capacidade de fornecer informações diagnósticas importantes.

Protocolo de imagem: solicitam-se três incidências, conhecidas como "rotina de abdome agudo":

Diferenciação Radiológica: Delgado versus Cólon

A radiografia permite identificar o segmento intestinal obstruído através de características específicas:

Característica Obstrução de Delgado Obstrução de Cólon
Localização da distensão Central Periférica
Grau de distensão Moderada (até 5cm) Acentuada (até 20cm)
Padrão da mucosa Pregas coniventes (válvulas de Kerckring) atravessando toda a luz - sinal do "empilhamento de moedas" Haustrações (não atravessam completamente a luz)
Níveis hidroaéreos Múltiplos, em escada Menos numerosos

Achados Radiológicos Específicos

🔎 Indicação de TC: radiografia inconclusiva, suspeita de complicações (isquemia, perfuração), investigação de massas ou planejamento cirúrgico.

Abordagem Terapêutica Geral

Suporte Clínico Inicial

Independentemente da etiologia ou necessidade de cirurgia, medidas de suporte devem ser instituídas precocemente:

Estratificação para Conduta Cirúrgica

Conduta Expectante (Observação)

Pode-se adotar manejo conservador inicial (24-48 horas) nas seguintes situações:

Indicação Cirúrgica Imediata

Cirurgia urgente está indicada nas seguintes circunstâncias:

Obstrução Funcional

Nas obstruções funcionais (íleo paralítico, síndrome de Ogilvie), o tratamento é predominantemente conservador, uma vez que não há fator mecânico a ser corrigido cirurgicamente. A conduta baseia-se em:


Etiologias Específicas

Aderências Pós-Operatórias (Bridas)

As aderências ou bridas representam a principal causa de obstrução do intestino delgado, respondendo por aproximadamente 60-75% dos casos em adultos. Tratam-se de faixas fibrosas que se formam entre alças intestinais ou entre intestino e parede abdominal, como sequela de processos inflamatórios intra-abdominais.

Fatores de Risco

🧠 Raciocínio diagnóstico: Obstrução intestinal + história de cirurgia abdominal prévia = pensar em brida/aderência até prova em contrário!

Diagnóstico

O diagnóstico é essencialmente clínico e radiológico:

Tratamento

Obstrução não complicada (primeira escolha):

Obstrução complicada ou refratária:

Neoplasias

As neoplasias constituem a segunda causa mais comum de obstrução do intestino delgado, mas assumem o primeiro lugar quando se trata de obstrução do cólon.

Carcinomatose Peritoneal

É a apresentação neoplásica mais frequente causando obstrução intestinal. Geralmente resulta de disseminação de adenocarcinomas de ovário, estômago, pâncreas ou colorretal. Múltiplas implantações tumorais no peritônio e mesentério causam angulações, compressões extrínsecas e massas que obstruem o trânsito.

Adenocarcinoma Colorretal

Quando a obstrução é a forma de apresentação do câncer colorretal, alguns aspectos merecem atenção:

⚠️ Ponto de perfuração na obstrução colônica: o ceco é o local mais provável de perfuração (lei de Laplace: maior raio = maior tensão), não o sítio da obstrução! Cirurgia urgente se ceco >12cm.

Volvo

O volvo consiste na torção de uma alça intestinal sobre seu próprio eixo mesentérico, criando obstrução em dois pontos simultaneamente (obstrução em alça fechada) e comprometendo o suprimento vascular do segmento afetado. É uma emergência cirúrgica devido ao alto risco de evolução para isquemia e necrose.

Epidemiologia e Localização

Diagnóstico

Clínica: instalação aguda de dor abdominal intensa, distensão importante, parada de eliminação de gases e fezes. Nos casos complicados (estrangulamento), surgem sinais sistêmicos de sepse.

Radiografia simples:

Enema contrastado: pode demonstrar o sinal do "bico de pássaro" no ponto de torção.

Tomografia computadorizada: confirma o diagnóstico, avalia viabilidade intestinal (realce parietal, pneumatose, gás portal) e pode mostrar o sinal do "redemoinho" do mesentério.

Aspecto Volvo de Sigmoide Volvo de Ceco
Frequência Mais comum (60-80%) Menos comum (15-30%)
Localização da alça distendida Ápice em hipocôndrio direito Ceco em QSE ou epigástrio
Haustrações no RX Perdidas (distensão extrema) Geralmente preservadas
Gás no cólon distal Presente Ausente
Aspecto no RX "U invertido" ou "grão de café" "Vírgula" ou "feijão"

Tratamento do Volvo de Sigmoide

Sem sinais de complicação (estrangulamento):

🧠 Conceito importante: O sucesso da descompressão endoscópica NÃO elimina a necessidade de cirurgia eletiva! A recorrência é muito alta sem a ressecção do segmento.

Com sinais de complicação (estrangulamento, peritonite, choque):

Tratamento do Volvo de Ceco

Diferentemente do volvo de sigmoide, o volvo cecal tem indicação primária de cirurgia:

Fecaloma

O fecaloma consiste no acúmulo e impactação de fezes endurecidas no reto ou cólon sigmoide, levando à obstrução intestinal baixa. É mais prevalente em populações de risco específicas.

Fatores de Risco

Quadro Clínico

Exame Físico Característico

Sinal de Gersuny: massa palpável no abdome inferior com consistência moldável, que recupera lentamente sua forma após compressão. Pode haver sensação de crepitação à palpação.

Tratamento

Íleo Biliar

O íleo biliar é uma forma rara mas importante de obstrução intestinal, causada pela migração de um cálculo biliar volumoso para a luz intestinal através de uma fístula colecistoentérica, levando à obstrução mecânica geralmente no íleo terminal (segmento de menor diâmetro do intestino delgado).

Fisiopatologia

A sequência de eventos que culmina no íleo biliar envolve:

  1. Colelitíase com cálculo de grandes dimensões (geralmente >2,5cm)
  2. Colecistite aguda com inflamação transmural da vesícula
  3. Aderência da vesícula inflamada a alça intestinal adjacente (geralmente duodeno, mais raramente cólon)
  4. Formação de fístula colecistoentérica (mais comum: colecistoduodenal)
  5. Migração do cálculo para a luz intestinal
  6. Impactação do cálculo no íleo terminal (local de menor diâmetro), causando obstrução

Tríade de Rigler

Achados radiológicos clássicos (presentes em apenas 30-50% dos casos):

🔎 Diagnóstico diferencial importante: Síndrome de Bouveret = cálculo biliar obstruindo duodeno ou piloro (e não o íleo). Quadro mais raro, apresentação com vômitos precoces e incoercíveis.

Diagnóstico

Tratamento

Manejo cirúrgico:

Característica Íleo Biliar Síndrome de Bouveret
Local de obstrução Íleo terminal Duodeno ou piloro
Tipo de fístula Colecistoduodenal (mais comum) ou colecistocólica Colecistoduodenal ou colecistogástrica
Quadro clínico predominante Constipação, distensão abdominal, vômitos tardios Vômitos precoces e volumosos
Tríade de Rigler Pneumobilia + distensão de delgado + cálculo ectópico Mesmos componentes radiológicos
Tratamento Remoção do cálculo via enterotomia +/- colecistectomia Remoção endoscópica ou cirúrgica +/- colecistectomia

Intussuscepção Intestinal (Invaginação)

A intussuscepção consiste na invaginação de um segmento intestinal (intussuscepto) dentro da luz do segmento adjacente (intussuscepiente), levando à obstrução intestinal associada a comprometimento vascular progressivo. É a causa mais comum de obstrução intestinal em crianças entre 6 meses e 3 anos, com pico de incidência entre 6-18 meses.

Etiologia

Em crianças (maioria dos casos):

Em adultos (raros, apenas 5% de todas as intussuscepções):

Anatomia

Quadro Clínico Clássico

A apresentação em lactentes é bastante característica:

⚠️ Tríade clássica (nem sempre completa): Dor abdominal em cólica + massa abdominal palpável + fezes "em geleia de framboesa"

Diagnóstico

Ultrassonografia abdominal: exame de escolha, com sensibilidade e especificidade >95%

Enema contrastado (bário ou hidrossolúvel) ou pneumático:

Tomografia: ocasionalmente utilizada em adultos ou casos atípicos

Tratamento

Redução não cirúrgica (primeira linha em crianças sem complicações):

Tratamento cirúrgico (indicações):

Técnica cirúrgica:

💡 Ponto crucial para prova: Criança com intussuscepção sem complicações → tentar redução por enema. Adulto com intussuscepção → indicação cirúrgica direta (procurar lesão estrutural)!

Obstrução Intestinal Funcional

Diferentemente das obstruções mecânicas, nas obstruções funcionais não há fator anatômico obstruindo a luz intestinal. O problema reside na falência da motilidade intestinal (dismotilidade), levando à estase do conteúdo luminal e distensão progressiva. Dois padrões principais são reconhecidos: íleo paralítico e síndrome de Ogilvie.

Íleo Paralítico (Íleo Adinâmico)

Caracteriza-se pela paralisia de todo o trato gastrointestinal (estômago, intestino delgado e cólon), com abolição da atividade peristáltica coordenada. Apesar do nome "íleo", não se limita ao íleo terminal.

Etiologias Principais

💡 Causa metabólica mais comum: Hipocalemia! Sempre dosar e corrigir potássio em pacientes com distensão abdominal e íleo, especialmente idosos.

Quadro Clínico

Diagnóstico

Tratamento

O manejo é predominantemente de suporte e correção da causa de base:

Resolução esperada no pós-operatório:

Síndrome de Ogilvie (Pseudo-obstrução Colônica Aguda)

Também conhecida como pseudo-obstrução colônica aguda, caracteriza-se pela dilatação importante do cólon na ausência de obstrução mecânica. Diferentemente do íleo paralítico, na síndrome de Ogilvie a paralisia restringe-se predominantemente ao cólon, enquanto o intestino delgado pode manter relativa preservação da motilidade.

Fisiopatologia

A fisiopatologia não é completamente compreendida, mas acredita-se envolver desequilíbrio autonômico com hiperatividade simpática (ou hipoatividade parassimpática) no cólon, levando à atonia colônica.

Fatores de Risco e Causas

Ocorre tipicamente em pacientes graves, hospitalizados, com múltiplas comorbidades:

Quadro Clínico

Diagnóstico

Radiografia de abdome:

Tomografia computadorizada:

Critérios diagnósticos:

🚨 Ponto crítico: Ceco >12cm = risco iminente de perfuração! Considerar intervenção urgente.

Tratamento

Medidas iniciais (todos os pacientes):

Se falha das medidas conservadoras em 48-72h ou ceco >12cm:

Se refratário à neostigmina:

Se ainda refratário ou sinais de complicação:

Aspecto Íleo Paralítico Síndrome de Ogilvie
Segmento acometido Todo TGI (estômago, delgado e cólon) Predomínio no cólon
Ruídos hidroaéreos Ausentes ou muito diminuídos Presentes (podem estar aumentados)
Distensão na imagem Difusa (delgado + cólon) Predominantemente colônica (especialmente ceco e cólon direito)
Contexto típico Pós-operatório, hipocalemia, opioides Paciente crítico, sepse, IAM, trauma
Ampola retal ao toque Cheia Pode estar vazia ou com fezes
Tratamento específico Suporte + correção da causa Suporte + neostigmina + descompressão colonoscópica
Tempo esperado de resolução 24-72h (pós-operatório fisiológico) Variável, geralmente dias a semanas
🧠 Diferenciação prática: Íleo paralítico = sem ruídos, distensão difusa. Ogilvie = com ruídos, distensão predominantemente colônica, paciente grave. Ambos: ausência de obstrução mecânica!