Doenças do Intestino - Parte 4
Apendicite e Diverticulite
Apendicite Aguda
🚨 Conceito fundamental: A apendicite aguda representa a causa mais frequente de abdome agudo não traumático e é a principal etiologia de abdome agudo inflamatório com indicação cirúrgica!
Anatomia Aplicada
Para compreensão adequada da fisiopatologia e apresentação clínica, é essencial conhecer a anatomia apendicular. O apêndice cecal constitui uma estrutura tubular de fundo cego, com extensão variável entre 9 a 22 cm, implantado na parede do ceco. Esta estrutura produz secreção de forma contínua e apresenta localização anatômica variável conforme sua posição de implantação.
Localização Anatômica do Apêndice
A posição mais comum do apêndice é a fossa ilíaca direita (FID), ocorrendo em aproximadamente 40-60% dos indivíduos. No entanto, variações anatômicas são frequentes e clinicamente relevantes:
- Fossa ilíaca direita: localização mais prevalente (40-60%)
- Região suprapúbica: pode simular patologia urológica
- Região hipogástrica: confunde com afecções ginecológicas
- Fossa ilíaca esquerda: em casos de má-rotação intestinal
- Mesogástrio: especialmente em gestantes pelo deslocamento uterino
Fisiopatologia
A compreensão da sequência fisiopatológica é fundamental para entender a evolução temporal dos sintomas e a migração característica da dor. O processo inicia-se com obstrução da luz apendicular e evolui de forma progressiva:
🔬 Sequência fisiopatológica: Obstrução luminal → Aumento da pressão intraluminal + Estase de secreção → Congestão e acúmulo de muco → Proliferação bacteriana → Distensão apendicular → Irritação do peritônio visceral → Dor vaga periumbilical → Após 12-24h: isquemia/necrose da parede → Perfuração → Irritação do peritônio parietal → Dor localizada em FID
Mecanismo da Obstrução
A obstrução da luz apendicular representa o evento inicial da cascata fisiopatológica. Os fecalitos (fezes endurecidas e calcificadas) constituem a principal causa obstrutiva em adultos. Após a obstrução, ocorre proliferação bacteriana exuberante, caracteristicamente polimicrobiana, com predomínio de Escherichia coli e Bacteroides fragilis.
⚠️ Atenção - População pediátrica: Em crianças, a hiperplasia linfoide representa a principal causa de obstrução luminal, especialmente no contexto de infecções virais ou bacterianas sistêmicas!
Evolução Temporal e Complicações
Com a distensão progressiva, a pressão intraluminal elevada compromete o fluxo sanguíneo para a parede apendicular, resultando em isquemia. Aproximadamente 48 horas após o início do quadro, o apêndice isquêmico pode perfurar, gerando as principais complicações:
- Abscesso periapendicular: complicação mais comum, especialmente em adultos jovens imunocompetentes
- Peritonite difusa: mais frequente em crianças, idosos e imunodeprimidos
Fisiopatologia da Dor
A migração característica da dor na apendicite aguda reflete o acometimento sequencial de diferentes camadas peritoneais:
- Fase inicial (distensão apendicular): irritação do peritônio visceral, cujas fibras nervosas são pouco mielinizadas e não permitem localização precisa → resulta em dor vaga e mal localizada na região periumbilical/mesogástrica
- Fase tardia (necrose transmural): acometimento do peritônio parietal, com fibras nervosas mielinizadas que permitem localização precisa → resulta em dor bem localizada em FID
🧠 Lembre-se: O abscesso periapendicular é mais comum que a peritonite difusa porque ocorre predominantemente em adultos jovens, com sistema imunológico desenvolvido e peritônio capaz de "conter" a perfuração. Crianças, idosos e imunossuprimidos apresentam maior risco de perfuração com peritonite difusa!
Manifestações Clínicas
Quadro Clínico Típico
A apresentação clássica da apendicite aguda segue um padrão temporal relativamente previsível, embora variações possam ocorrer conforme idade, sexo e localização anatômica do apêndice:
Sintomas Cardinais
- Dor abdominal: migração de região periumbilical para fossa ilíaca direita (sinal mais característico!)
- Anorexia: alguns autores consideram o primeiro sintoma; sua ausência pode questionar o diagnóstico (controverso - Sabiston refere que pode estar ausente)
- Náuseas e vômitos: geralmente após o início da dor
- Febre: usualmente baixa, raramente ultrapassa 38°C na apendicite não complicada
- Disúria: pode ocorrer quando há irritação vesical por contiguidade
Exame Físico e Sinais Clássicos
Ponto de McBurney
Localiza-se no terço médio lateral de uma linha imaginária traçada entre a crista ilíaca anterossuperior e a cicatriz umbilical, correspondendo teoricamente à projeção da ponta do apêndice. Importante ressaltar que a ponta apendicular é móvel, e sua localização pode variar (exemplo: em gestantes, pode haver dor em hipocôndrio direito pelo deslocamento cranial do ceco).
Sinais de Irritação Peritoneal
Estes sinais indicam comprometimento peritoneal e auxiliam no diagnóstico de apendicite aguda, especialmente nas formas complicadas:
- Sinal de Blumberg: descompressão brusca dolorosa no ponto de McBurney (sinal de irritação peritoneal)
- Sinal de Rovsing: compressão na fossa ilíaca esquerda provoca dor em FID (movimento retrógrado do conteúdo gasoso desloca o ceco, distendendo o apêndice inflamado)
- Sinal de Lapinsky: dor à compressão da FID associada à elevação do membro inferior direito estendido
- Sinal do obturador: dor à flexão da coxa com rotação interna do quadril (sugere apêndice pélvico)
- Sinal de Dumphy: intensificação da dor em FID durante tosse
- Sinal do iliopsoas: dor à extensão e abdução do membro inferior direito (sugere apêndice retrocecal)
- Sinal de Lenander: temperatura retal excede a axilar em pelo menos 1°C
Diagnóstico
Escore de Alvarado
O Escore de Alvarado constitui ferramenta útil para estratificação de risco e auxílio na tomada de decisão diagnóstica. Baseia-se em critérios clínicos e laboratoriais simples:
| Critério |
Pontuação |
| Dor com migração para FID |
1 ponto |
| Anorexia |
1 ponto |
| Náuseas/vômitos |
1 ponto |
| Dor à palpação em FID |
2 pontos |
| Descompressão brusca dolorosa em FID |
1 ponto |
| Febre (temperatura > 37,5°C) |
1 ponto |
| Leucocitose |
2 pontos |
| Desvio à esquerda (neutrofilia) |
1 ponto* |
*Alguns autores consideram o desvio para esquerda como critério adicional
Interpretação e Conduta Conforme Escore de Alvarado
| Pontuação |
Probabilidade |
Conduta Recomendada |
| 0-3 pontos |
Improvável |
Avaliar diagnósticos diferenciais |
| 4-6 pontos |
Provável |
Observação por 12h; se escore mantido, considerar cirurgia |
| ≥ 7 pontos |
Muito provável |
Considerar apendicectomia |
Estratégia Diagnóstica
Alta Probabilidade - História Clássica
Em pacientes com apresentação típica e escore de Alvarado elevado, o diagnóstico é eminentemente clínico, dispensando exames de imagem de rotina. Procede-se diretamente à apendicectomia.
Probabilidade Intermediária ou Situações Especiais
Nas seguintes situações, recomenda-se observação e exame de imagem:
- Dúvida diagnóstica (apresentação atípica)
- Populações especiais: crianças, idosos, mulheres em idade fértil
- Suspeita de complicações (abscesso)
- Apresentação tardia (> 48 horas de evolução)
Exames de Imagem: Escolha Conforme o Perfil do Paciente
🔎 Ultrassonografia (USG): Método de escolha em gestantes e crianças (ausência de radiação ionizante)
Achados ultrassonográficos sugestivos de apendicite:
- Diâmetro apendicular > 7 mm
- Espessamento da parede apendicular
- Aumento da vascularização ao Doppler (sinal da roda de fogo)
- Dificuldade de compressão do apêndice (perda da compressibilidade)
- Sinal do alvo em corte transversal
- Presença de apendicolito ou líquido livre periapendicular
⚠️ Gestantes com USG inconclusivo: Prosseguir com ressonância magnética (RNM), que não utiliza radiação ionizante e oferece excelente resolução de partes moles!
🔎 Tomografia Computadorizada (TC): Método de escolha em pacientes adultos não gestantes, especialmente homens
Achados tomográficos sugestivos de apendicite:
- Diâmetro apendicular > 7 mm
- Espessamento parietal do apêndice
- Borramento/densificação da gordura periapendicular
- Presença de apendicolito
- Coleção líquida organizada (abscesso periapendicular)
- Líquido livre na cavidade
Conduta em Exame de Imagem Negativo com Dor Persistente
Quando a imagem é negativa mas a dor persiste, recomenda-se observação por 8-12 horas. Persistindo a dor após esse período, está indicada laparoscopia diagnóstica.
💡 Dica importante: A videolaparoscopia pode ser realizada mesmo em casos de apendicite com peritonite! Inclusive, é o método de escolha nesses casos. A contraindicação à videolaparoscopia é a instabilidade hemodinâmica, não a presença de peritonite!
Diagnósticos Diferenciais
O diagnóstico diferencial da apendicite aguda é amplo e varia conforme sexo, idade e apresentação clínica. É fundamental considerar outras causas de dor abdominal, especialmente em mulheres jovens e crianças:
| Condição |
Dica Clínica/Diferencial |
| Ruptura de folículo ovariano (Mittelschmerz) |
Dor no meio do ciclo menstrual; geralmente autolimitada |
| Cisto ovariano roto |
Massa anexial identificada na ultrassonografia pélvica |
| Doença inflamatória pélvica (DIP) |
Corrimento vaginal + dor à mobilização cervical (sinal de Chandelier) |
| Gravidez ectópica rota |
β-HCG positivo + massa anexial + líquido livre |
| Linfadenite mesentérica |
Criança + infecção respiratória prévia + linfonodos mesentéricos aumentados |
| Apendagite epiploica |
Indistinguível clinicamente; diagnóstico na videolaparoscopia; condição benigna e autolimitada (torção de apêndice epiploico com isquemia e necrose) |
| Gastroenterite aguda |
Diarreia intensa e vômitos precedendo a dor abdominal |
| Litíase urinária |
Dor lombar em cólica com irradiação para bolsa escrotal/grandes lábios |
| Infecção do trato urinário |
Disúria + hematúria + piúria (pode haver bacteriúria ausente em apendicite retrocecal com irritação vesical) |
Tratamento
A estratégia terapêutica varia conforme o tempo de evolução, presença de complicações e condições locais. Cinco cenários clínicos principais devem ser reconhecidos:
Cenário 1: Apendicite Precoce e Não Complicada (< 48h)
💊 Tratamento: Apendicectomia (preferencialmente videolaparoscópica) + Antibioticoterapia profilática
Este é o cenário ideal, com diagnóstico precoce antes da perfuração. A cirurgia pode ser realizada por via aberta ou videolaparoscópica, com preferência pela segunda por menor morbidade pós-operatória.
Cenário 2: Apendicite Complicada com Abscesso
💊 Tratamento: Drenagem percutânea guiada por imagem + Antibioticoterapia terapêutica → Após 4-6 semanas: Colonoscopia para avaliar necessidade de apendicectomia tardia
A cirurgia imediata em presença de abscesso localizado aumenta o risco de romper o abscesso e provocar peritonite difusa. Por isso, a conduta inicial é conservadora com drenagem percutânea. Após 4-6 semanas, realiza-se colonoscopia porque a formação de abscesso não é comum na apendicite simples, devendo-se descartar neoplasia colônica como fator predisponente.
Cenário 3: Apendicite Tardia Não Complicada - Fleimão (> 48h)
💊 Tratamento: Antibioticoterapia terapêutica exclusiva → Após 4-6 semanas: Colonoscopia para avaliar necessidade de apendicectomia tardia
O termo "fleimão" (phlegmon em inglês) refere-se a um processo inflamatório apendicular com massa palpável, porém sem coleção líquida drenável - representa um "pré-abscesso". A conduta é conservadora com antibióticos, seguida de colonoscopia tardia pela mesma razão do cenário anterior.
Cenário 4: Peritonite Difusa
🚨 Tratamento: Cirurgia de urgência + Hidratação venosa vigorosa + Antibioticoterapia terapêutica por 4-7 dias (idealmente via videolaparoscópica se houver estabilidade hemodinâmica)
A peritonite difusa constitui emergência cirúrgica. A via videolaparoscópica é preferível quando o paciente está hemodinamicamente estável, pois permite melhor exploração da cavidade, lavagem adequada e menor morbidade.
Cenário 5: Apendicectomia Incidental
A apendicectomia incidental está indicada nas seguintes situações:
- Laparotomia realizada para esclarecimento diagnóstico de abdome agudo (achado intraoperatório de apêndice normal)
- Procedimento cirúrgico ginecológico para investigação de dor pélvica crônica em mulheres
- Paciente com doença de Crohn submetido à laparotomia por outra indicação
⚠️ Complicação pós-operatória mais comum: Infecção do sítio cirúrgico
Antibioticoterapia
A escolha do esquema antibiótico deve considerar a flora polimicrobiana típica (aeróbios e anaeróbios), com cobertura para E. coli e B. fragilis:
- Profilática (apendicite não complicada): dose única pré-operatória
- Terapêutica (apendicite perfurada/peritonite): 4-7 dias de tratamento
Classificação Anatomopatológica
Embora tenha importância prática limitada no manejo agudo, alguns concursos cobram a classificação anatomopatológica da apendicite conforme evolução histológica:
| Fase |
Característica Histológica |
| Fase I - Catarral |
Distensão e edema da parede apendicular |
| Fase II - Flegmonosa |
Infiltrado inflamatório transmural |
| Fase III - Gangrenosa |
Necrose da parede apendicular |
| Fase IV - Perfurativa |
Perfuração com peritonite |
Técnicas Cirúrgicas - Incisões Clássicas
Embora a videolaparoscopia seja atualmente a via preferencial, o conhecimento das incisões clássicas ainda é cobrado em provas:
- Incisão de Davis-Rockey: incisão transversal
- Incisão de McArthur/McBurney: incisão oblíqua (técnica clássica tradicional)
- Incisão de Jalaguier: incisão paramediana vertical (atualmente em desuso)
💡 Para a prova: A incisão de McBurney (oblíqua) é a mais clássica e ainda a mais cobrada em concursos, embora na prática atual a videolaparoscopia seja predominante!
Doença Diverticular dos Cólons (Diverticulose)
Definição e Anatomopatologia
A diverticulose caracteriza-se pela herniação da mucosa e submucosa colônicas através dos pontos onde os vasos retos (artérias mesentéricas) penetram a camada muscular para irrigar a parede intestinal. Conceitualmente, trata-se de um pseudodivertículo ou divertículo falso, pois não contém todas as camadas da parede intestinal — especificamente, não possui camada muscular própria, diferindo dos divertículos verdadeiros.
A compreensão da anatomia colônica é fundamental: o cólon possui parede muscular espessa e resistente, necessária para gerar a força peristáltica que impulsiona o bolo fecal. No entanto, essa parede é naturalmente perfurada pelos vasos mesentéricos que a atravessam de fora para dentro, criando pontos de menor resistência onde podem se formar os divertículos.
🧠 Conceito-chave: Os divertículos colônicos são "falsos" (pseudodivertículos) porque não contêm a camada muscular — apenas mucosa e submucosa herniam através dos pontos de entrada dos vasos retos na parede do cólon.
Fisiopatologia e Fatores de Risco
A formação de divertículos resulta do aumento da pressão intraluminal associado à fragilidade da parede colônica. O principal fator de risco modificável é a dieta pobre em fibras, característica da população ocidental. A baixa ingesta de fibras leva à formação de bolo fecal endurecido e de menor volume, exigindo maior esforço contrátil do cólon para propulsão, com consequente aumento da pressão intraluminal e, por vezes, até colabamento segmentar da parede.
Principais Fatores de Risco
- Dieta pobre em fibras: principal fator modificável na população ocidental
- Idade avançada: prevalência aumenta significativamente após 60 anos devido à cronicidade do processo
- Constipação intestinal crônica: aumenta pressão intraluminal
- Sedentarismo e obesidade: contribuem para dismotilidade intestinal
- Uso crônico de AINEs/AAS: podem comprometer integridade da mucosa
- Síndrome do intestino irritável: associada a aumento da pressão segmentar
💡 Dica clínica: A maioria dos pacientes com diverticulose permanece assintomática por toda a vida — o diagnóstico é frequentemente incidental em exames de imagem ou colonoscopia realizados por outras indicações.
Particularidades Anatômicas: Cólon Direito versus Esquerdo
A localização dos divertículos influencia diretamente o tipo de complicação que pode ocorrer, devido às diferenças anatômicas entre os segmentos colônicos:
- Cólon direito: divertículos de base larga, conteúdo fecal mais líquido, maior calibre luminal → quando complicam, tendem a causar hemorragia digestiva (aproximadamente 15% dos casos) por trauma direto ao vaso na base do divertículo
- Cólon esquerdo (sigmoide): divertículos de base estreita, fezes formadas e endurecidas, menor diâmetro e maior pressão intraluminal → quando complicam, tendem a causar diverticulite aguda (aproximadamente 25% dos casos) por obstrução e processo inflamatório-infeccioso
🔎 Alto rendimento: O sigmoide é o local mais acometido pela diverticulose (85-90% dos casos) justamente por trabalhar com fezes já formadas e apresentar menor calibre, gerando maior pressão intraluminal durante o peristaltismo.
Apresentação Clínica e Diagnóstico
A diverticulose não complicada é assintomática na grande maioria dos casos. O diagnóstico geralmente ocorre incidentalmente durante investigação de outras queixas abdominais ou em rastreamento de câncer colorretal.
Métodos Diagnósticos
- Colonoscopia: padrão-ouro, permite visualização direta e biópsia se necessário
- Enema opaco (clister opaco): método radiológico contrastado, menos utilizado atualmente
- Tomografia computadorizada: excelente para avaliar extensão e identificar complicações
⚠️ Atenção: Evitar colonoscopia e enema opaco durante episódio agudo de diverticulite, pelo risco de perfuração. Aguardar 4-6 semanas após resolução do quadro inflamatório para realizar investigação endoscópica e afastar neoplasia.
Complicações da Doença Diverticular
Aproximadamente 20-25% dos pacientes com diverticulose desenvolverão alguma complicação ao longo da vida:
- Diverticulite aguda (25%): complicação mais comum, geralmente no cólon esquerdo
- Hemorragia digestiva baixa (15%): mais comum no cólon direito, pode ser volumosa
- Obstrução intestinal: menos frequente, por processo inflamatório crônico ou estenose fibrótica
- Fístulas: colovesical (mais comum), colovaginal, coloentérica
- Abscesso e perfuração: no contexto da diverticulite complicada
Diverticulite Aguda
Fisiopatologia
A diverticulite aguda representa a inflamação de um divertículo, seguindo uma sequência fisiopatológica característica: obstrução do colo diverticular (geralmente por fecalito) → estase de conteúdo → proliferação bacteriana → isquemia da mucosa → microperfurações → processo inflamatório/infeccioso pericolônico.
É crucial compreender que, diferentemente da apendicite (onde a inflamação permanece contida pela parede muscular do apêndice), nos divertículos a ausência da camada muscular própria facilita as microperfurações precoces. Assim, a inflamação não permanece intraluminal, mas rapidamente se estende ao tecido pericólico, formando fleimão ou abscesso localizado. Tecnicamente, o processo deveria ser denominado peridiverticulite ou, mais precisamente, peripseudodiverticulite.
🧠 Fisiopatologia essencial: OBSTRUÇÃO do divertículo → PROLIFERAÇÃO bacteriana + SECREÇÃO aumentada → ISQUEMIA → MICROPERFURAÇÕES → INFLAMAÇÃO PERICÓLICA (abscesso/fleimão).
Quadro Clínico
A apresentação clínica da diverticulite aguda é frequentemente comparada a uma "apendicite do lado esquerdo em idosos", porém com algumas particularidades importantes que auxiliam no diagnóstico diferencial:
- Dor abdominal em fossa ilíaca esquerda (FIE): sintoma cardinal, de intensidade progressiva
- Febre: geralmente presente, indica componente infeccioso
- Sinais de irritação peritoneal localizada: defesa, descompressão brusca positiva em FIE
- Alteração do hábito intestinal: pode haver diarreia (por irritação) ou constipação (por íleo)
- Sintomas urinários: em casos de acometimento ou fístula colovesical (disúria, polaciúria, pneumatúria)
🔎 Diferencial com apendicite: Na diverticulite, a dor costuma ter evolução mais arrastada (4-5 dias), frequentemente com padrão recorrente (episódios de melhora e piora), enquanto na apendicite a evolução típica é de 12-24 horas com piora progressiva.
Diagnóstico
O diagnóstico da diverticulite aguda baseia-se na história clínica e exame físico, sendo teoricamente suficiente para o manejo inicial. No entanto, devido ao perfil etário dos pacientes e à necessidade de afastar diagnósticos diferenciais importantes (neoplasia, doença inflamatória intestinal, isquemia), habitualmente solicita-se confirmação por exame de imagem.
Exames Complementares
- Tomografia computadorizada de abdome com contraste: exame de escolha, padrão-ouro
- Achados tomográficos típicos: espessamento da parede colônica (>5mm), densificação da gordura pericólica, presença de divertículos, coleções líquidas/abscessos, gás extraluminal (se perfuração)
- Leucocitose com desvio à esquerda: comum, mas inespecífico
- Proteína C reativa (PCR) elevada: marcador inflamatório útil para seguimento
⚠️ Contraindicação: Evitar colonoscopia e enema opaco na fase aguda pelo risco de perfuração iatrogênica. Realizar colonoscopia 4-6 semanas após resolução do quadro para afastar neoplasia maligna e avaliar extensão da doença.
Classificações Prognósticas
Duas classificações são utilizadas para estratificar gravidade e orientar tratamento:
| Classificação de Hinchey |
Classificação de Kaiser |
Achados |
| 0 |
Leve |
Espessamento de parede colônica isolado |
| Ia |
Leve |
Fleimão ou densificação da gordura pericólica |
| Ib |
Moderada |
Abscesso pericólico ou mesocólico (<5 cm) |
| II |
Moderada |
Abscesso à distância (pélvico, retroperitoneal) |
| III |
Grave |
Peritonite purulenta generalizada |
| IV |
Grave |
Peritonite fecal generalizada |
Indicações de Internação Hospitalar
Nem todo paciente com diverticulite aguda requer internação. Os critérios para manejo hospitalar incluem:
- Complicações na tomografia: abscesso, perfuração livre, obstrução, fleimão extenso
- Sinais de sepse ou resposta inflamatória sistêmica: pelo menos 2 dos seguintes critérios: temperatura >38°C ou <36°C, FC >90 bpm, FR >20 irpm, leucócitos >12.000 ou <4.000/mm³, PCR >15 mg/L
- Peritonite difusa ao exame físico
- Dor abdominal intratável com analgésicos comuns
- Comorbidades significativas: idade >70 anos, imunossupressão (HIV, corticoterapia, quimioterapia), insuficiência renal, diabetes descompensado
- Impossibilidade de seguimento ambulatorial ou falha no tratamento ambulatorial prévio
- Intolerância à dieta oral
Tratamento - Abordagem Geral
O manejo da diverticulite aguda depende fundamentalmente da presença ou ausência de complicações e da gravidade do quadro clínico:
| Cenário Clínico |
Hinchey / Kaiser |
Conduta |
| Não complicada leve |
0 / Leve |
Avaliar antibioticoterapia (pode ser dispensável) |
| Não complicada moderada |
Ia / Leve |
Antibioticoterapia ambulatorial ou hospitalar |
| Abscesso pequeno |
Ib (<4cm) |
Antibioticoterapia + internação |
| Abscesso grande |
Ib-II (>4cm) |
Drenagem percutânea + antibióticos |
| Peritonite purulenta |
III / Grave |
Antibióticos + cirurgia (considerar lavagem laparoscópica) |
| Peritonite fecal |
IV / Grave |
Antibióticos + cirurgia de urgência (Hartmann) |
Tratamento Clínico - Diverticulite Não Complicada
Manejo ambulatorial (sintomas leves, sem complicações tomográficas, paciente confiável):
- Dieta líquida restrita ou dieta pobre em resíduos por 2-3 dias
- Analgesia oral: dipirona, paracetamol (evitar AINEs na fase aguda)
- Antibioticoterapia oral: avaliar necessidade (estudos recentes mostram segurança em dispensar antibióticos em casos selecionados de Hinchey 0)
- Esquema: Ciprofloxacino 500mg 12/12h + Metronidazol 500mg 8/8h
- Alternativa: Amoxicilina-clavulanato 875mg 12/12h
- Duração: 7-10 dias
- Reavaliação clínica em 48-72h
Manejo hospitalar (sintomas exuberantes, comorbidades, intolerância oral):
- Dieta zero (nos primeiros dias) ou dieta líquida conforme tolerância
- Hidratação venosa
- Analgesia endovenosa
- Antibioticoterapia intravenosa:
- Esquema clássico: Cefalosporina de 3ª geração (ceftriaxona 1-2g/dia) + Metronidazol 500mg 8/8h IV
- Alternativas: Ciprofloxacino IV + Metronidazol IV, ou monoterapia com Piperacilina-tazobactam
- Cobertura: anaeróbios (Bacteroides) + gram-negativos entéricos (E. coli, Klebsiella)
- Transição para VO após melhora clínica (apirexia, redução da dor, tolerância oral)
- Alta hospitalar: completar 7-10 dias totais de antibioticoterapia
💡 Atualização importante: Estudos recentes (DIABOLO trial, AVOD trial) demonstram que diverticulite não complicada leve (Hinchey 0) pode ser tratada sem antibióticos em pacientes selecionados, sem aumento de complicações. A decisão deve ser individualizada.
Tratamento de Complicações - Abscesso
Abscessos pericólicos ou à distância requerem abordagem específica:
- Abscesso <4cm (Hinchey Ib): tratamento conservador com antibióticos IV, geralmente resolve espontaneamente
- Abscesso ≥4cm (Hinchey Ib-II): drenagem percutânea guiada por tomografia ou ultrassom + antibioticoterapia IV
- Benefício da drenagem: permite controle do foco infeccioso, converte cenário de urgência em cirurgia eletiva, possibilita cirurgia em tempo único (sem colostomia)
- Colonoscopia 4-6 semanas após para afastar neoplasia
- Considerar cirurgia eletiva após resolução completa do quadro
Tratamento Cirúrgico de Urgência
Indicações de cirurgia de urgência/emergência:
- Peritonite difusa (Hinchey III ou IV)
- Perfuração livre não contida
- Obstrução intestinal completa não responsiva
- Deterioração clínica apesar de tratamento adequado
- Sepse refratária
Técnicas cirúrgicas conforme gravidade:
- Hinchey III (peritonite purulenta):
- Lavagem laparoscópica: opção em pacientes selecionados (hemodinamicamente estáveis, sem peritonite fecal), realiza-se lavagem exaustiva da cavidade com drenagem, sem ressecção intestinal
- Alternativa clássica: cirurgia de Hartmann (ressecção + colostomia)
- Hinchey IV (peritonite fecal):
- Cirurgia de Hartmann: padrão-ouro, consiste em ressecção do segmento acometido + colostomia terminal + fechamento do coto retal (procedimento de Hartmann)
- Reconstrução do trânsito: geralmente após 3-6 meses, quando houver resolução completa da inflamação
🚨 Cirurgia de urgência: Peritonite purulenta (Hinchey III) → considerar lavagem laparoscópica em casos selecionados; Peritonite fecal (Hinchey IV) → cirurgia de Hartmann (ressecção + colostomia terminal).
Cirurgia Eletiva
As indicações de cirurgia eletiva (programada) após resolução do episódio agudo incluem:
- Episódio prévio de diverticulite complicada que necessitou drenagem ou abordagem cirúrgica de urgência
- Fístulas: principalmente colovesical (mais comum em homens, apresenta-se com pneumatúria, fecalúria), colovaginal, coloentérica
- Pacientes imunossuprimidos: HIV/AIDS, uso crônico de corticoides, transplantados, quimioterapia - risco maior de complicações graves
- Impossibilidade de excluir neoplasia maligna: estenose não atravessável à colonoscopia, lesão suspeita na tomografia
- Sintomas persistentes ou episódios recorrentes que impactam qualidade de vida
⚠️ Mudança de paradigma: Antigamente, recomendava-se cirurgia eletiva após o 2º ou 3º episódio de diverticulite não complicada. Atualmente, essa indicação foi abandonada — o manejo clínico de episódios recorrentes é seguro e eficaz na maioria dos pacientes, reservando-se a cirurgia para casos específicos.
Técnica cirúrgica eletiva:
- Sigmoidectomia laparoscópica ou aberta com anastomose colorretal primária
- Ressecção deve incluir todo o segmento sigmoide até o reto superior
- Preparação intestinal e antibioticoprofilaxia adequadas
- Menor morbidade que cirurgia de urgência, permite cirurgia em tempo único
Seguimento e Prevenção
- Colonoscopia 4-6 semanas após resolução: mandatória para afastar neoplasia (10-15% dos casos de "diverticulite" são na verdade câncer de cólon perfurado)
- Modificação de estilo de vida: dieta rica em fibras (25-30g/dia), hidratação adequada, atividade física regular, controle de peso
- Evitar: sementes e alimentos com pequenas partículas (orientação controversa, sem evidência robusta)
- Probióticos e mesalazina: dados conflitantes, não há recomendação formal para prevenção de recorrência
| Situação Clínica |
Conduta Inicial |
Observações |
Ambulatorial (Hinchey 0, sintomas leves) |
• Dieta líquida • Analgesia oral • Avaliar ATB oral (pode dispensar) |
Reavaliação em 48-72h Se ATB: cipro + metro 7-10d |
Hospitalar (Sintomas exuberantes) |
• Dieta zero ou líquida • Hidratação venosa • ATB IV • Analgesia IV |
Ceftriaxona + metronidazol Transição para VO após melhora |
Abscesso >4cm (Hinchey Ib-II) |
• Drenagem percutânea • ATB IV • Colonoscopia 4-6 sem • Avaliar cirurgia eletiva |
Drenagem guiada por TC/USG Converte urgência em eletiva |
Peritonite purulenta (Hinchey III) |
• ATB IV • Cirurgia de urgência • Opção: lavagem laparoscópica |
Lavagem em casos selecionados Alternativa: Hartmann |
Peritonite fecal (Hinchey IV) |
• ATB IV • Cirurgia de Hartmann (ressecção + colostomia) |
Reconstrução após 3-6 meses |
| Cirurgia eletiva |
Indicações: • Complicação prévia • Fístulas • Imunossupressão • Impossível excluir CA |
Não mais indicado rotineiramente após 2º ou 3º episódio não complicado |
💊 Esquemas antibióticos principais:
• Ambulatorial: Ciprofloxacino 500mg 12/12h + Metronidazol 500mg 8/8h VO (ou Amoxicilina-clavulanato 875mg 12/12h)
• Hospitalar: Ceftriaxona 1-2g/dia IV + Metronidazol 500mg 8/8h IV
• Duração: 7-10 dias (pode ser menor em casos leves)
🔎 Pontos de alto rendimento para prova:
• Diverticulite = "apendicite do lado esquerdo em idosos" com dor há 4-5 dias e padrão recorrente
• Local mais comum: sigmoide
• Complicação mais comum: diverticulite aguda (cólon esquerdo)
• Hemorragia: mais comum no cólon direito
• TC abdome = padrão-ouro diagnóstico
• Evitar colonoscopia na fase aguda (fazer 4-6 semanas depois)
• Abscesso >4cm → drenagem percutânea
• Hinchey IV → cirurgia de Hartmann
• Não há mais indicação de cirurgia eletiva rotineira após 2º episódio não complicado