Doenças do Intestino - Parte 5
Polipose e Câncer Colorretal
Pólipos Intestinais
Classificação dos Pólipos
Os pólipos colorretais podem ser categorizados segundo diferentes critérios morfológicos e histopatológicos. A compreensão dessa classificação é essencial para determinar o potencial de malignização e o manejo clínico apropriado.
Classificação Morfológica
- Pedunculados: apresentam haste ou pedículo que os conecta à parede intestinal
- Sésseis: crescem de forma achatada, diretamente aderidos à mucosa (conferem pior prognóstico devido à maior dificuldade de ressecção completa)
Classificação por Apresentação
- Isolados: lesão única ou poucas lesões esparsas
- Síndromes de polipose: múltiplas lesões, geralmente com base genética hereditária
Classificação Histopatológica
A distinção entre pólipos neoplásicos e não neoplásicos é fundamental para determinar o risco de progressão para carcinoma colorretal.
🧠 Conceito fundamental: Nem todo pólipo intestinal possui potencial maligno. A classificação histológica é determinante para definir o risco neoplásico e a conduta terapêutica.
Pólipos neoplásicos:
- Benignos (adenomas): lesões pré-malignas que podem progredir para adenocarcinoma através da sequência adenoma-carcinoma
- Malignos: adenocarcinoma já estabelecido
Pólipos não neoplásicos:
- Hiperplásicos: proliferação benigna sem potencial significativo de malignização
- Inflamatórios: pseudopólipos resultantes de processos inflamatórios crônicos (ex: doença inflamatória intestinal)
- Hamartomas: crescimento desorganizado de tecidos normalmente presentes no local
Subtipos Histológicos dos Adenomas
Os adenomas, principais precursores do câncer colorretal, são subdivididos conforme seu padrão arquitetural em três categorias, cada uma com risco distinto de transformação maligna:
- Adenoma tubular: representa aproximadamente 85% de todos os adenomas. Caracteriza-se por glândulas tubulares organizadas. Apresenta o melhor prognóstico entre os subtipos
- Adenoma viloso: composto por projeções viliformes digitiformes. Conferem o pior prognóstico devido ao maior potencial de malignização (lembre-se: "viloso = vilão")
- Adenoma tubuloviloso: apresenta características mistas, combinando componentes tubulares e vilosos
| Tipo Histológico |
Características |
Frequência |
Risco de Malignização |
| Tubular |
Glândulas tubulares organizadas |
~85% |
Baixo |
| Tubuloviloso |
Componente misto |
~10-15% |
Intermediário |
| Viloso |
Projeções viliformes |
~5% |
Alto ("vilão") |
Fatores de Risco para Transformação Maligna
Três características conferem maior risco de um adenoma progredir para adenocarcinoma invasivo:
🚨 Alto risco de malignização:
- 📏 Tamanho superior a 2 cm
- 🔬 Histologia vilosa ("vilão")
- ⚠️ Presença de displasia de alto grau
Classificação de Haggitt
A classificação de Haggitt é um sistema de estadiamento utilizado especificamente para avaliar o grau de invasão submucosa em pólipos pedunculados que já apresentam focos de adenocarcinoma. Este sistema estratifica o risco de metástases linfonodais e auxilia na decisão sobre a necessidade de ressecção cirúrgica adicional após polipectomia endoscópica.
| Nível |
Localização da Invasão |
Descrição |
Risco de Metástase |
| 0 |
Intramucoso |
Carcinoma in situ, restrito à mucosa sem invasão da submucosa |
Nulo |
| 1 |
Cabeça do pólipo |
Invasão submucosa limitada à cabeça (porção expandida) |
Muito baixo |
| 2 |
Colo/junção |
Invasão atinge o colo (transição entre cabeça e pedículo) |
Baixo |
| 3 |
Pedículo |
Invasão submucosa no pedículo (até SM1, <1000 μm) |
Intermediário |
| 4 |
Base/séssil |
Invasão ultrapassa o pedículo, alcançando a parede intestinal |
Alto |
💡 Pérola clínica: A classificação de Haggitt aplica-se apenas a pólipos pedunculados. Para lesões sésseis, utiliza-se a profundidade de invasão submucosa em micrômetros (SM1, SM2, SM3).
Tratamento dos Pólipos
Polipectomia Endoscópica
A ressecção endoscópica constitui o tratamento padrão para pólipos colorretais. Contudo, para considerar o paciente completamente tratado e curado após polipectomia, é necessário que todos os seguintes critérios histopatológicos sejam satisfeitos:
- Margens livres: ausência de comprometimento neoplásico nas margens de ressecção
- Ressecção em bloco (en bloc): remoção completa da lesão em peça única
- Ausência de ressecção fragmentada (piecemeal): a fragmentação dificulta a avaliação histológica adequada e aumenta o risco de lesão residual, particularmente em pólipos sésseis
- Invasão submucosa superficial: limitada ao terço superficial da submucosa (SM1, profundidade <1000 μm). Invasões mais profundas elevam significativamente o risco de metástases linfonodais
- Grau de diferenciação: adenocarcinoma bem diferenciado
- Ausência de invasão angiolinfática: não deve haver evidência de invasão vascular ou linfática
- Ausência de tumor budding: fenômeno caracterizado pelo desprendimento de células ou pequenos grupos celulares na frente de invasão tumoral, indicando maior agressividade
🔎 Critérios de cura após polipectomia:
- ✅ Margens livres
- ✅ Ressecção completa en bloc (sem piecemeal)
- ✅ Invasão ≤ SM1 (<1000 μm)
- ✅ Bem diferenciado
- ✅ Sem invasão angiolinfática
- ✅ Sem tumor budding
Quando todos esses critérios são preenchidos, a polipectomia endoscópica é considerada curativa, dispensando ressecção cirúrgica adicional. Caso contrário, colectomia segmentar com linfadenectomia está indicada.
Vigilância Colonoscópica Pós-Polipectomia
Mesmo após ressecção adequada, o seguimento colonoscópico é mandatório devido ao risco de lesões metacrônicas. O intervalo entre exames é determinado pelo número, tamanho e características histológicas dos pólipos ressecados, conforme diretrizes da US Task Force:
| Achados Colonoscópicos |
Intervalo para Nova Colonoscopia |
| Exame normal ou 1-2 adenomas tubulares <10 mm |
10 anos |
| 3-4 adenomas tubulares <10 mm |
5 anos |
| ≥5 adenomas, adenoma ≥10 mm, histologia vilosa ou displasia de alto grau |
3 anos |
| ≥10 adenomas ou carcinoma in situ |
1 ano |
| Ressecção fragmentada (piecemeal) ou lesão ≥20 mm |
6 meses |
⚠️ Atenção: Pacientes com ≥10 adenomas devem ser investigados para síndromes de polipose hereditária, particularmente polipose adenomatosa familiar (PAF).
Síndromes Hereditárias de Polipose Intestinal
As síndromes de polipose hereditária são condições genéticas caracterizadas pelo desenvolvimento de múltiplos pólipos no trato gastrointestinal, frequentemente associadas a risco elevado de neoplasias. O reconhecimento precoce dessas síndromes é crucial para implementar estratégias de rastreamento e prevenção em pacientes e familiares.
Polipose Adenomatosa Familiar (PAF)
A polipose adenomatosa familiar representa a síndrome de polipose adenomatosa hereditária mais comum e bem caracterizada. Trata-se de uma condição autossômica dominante causada por mutações germinativas no gene APC (adenomatous polyposis coli), localizado no cromossomo 5q21.
Características Clínicas
- Critério diagnóstico clássico: presença de mais de 100 pólipos adenomatosos colorretais associados a história familiar positiva
- Padrão de herança: autossômico dominante
- Genética: mutação no gene APC
- Idade de início: os pólipos surgem tipicamente na adolescência, com manifestação clínica frequente antes dos 20 anos
- Risco de câncer colorretal: aproximadamente 100% se não tratado, geralmente desenvolvendo-se antes dos 40 anos
👁️ Manifestação oftalmológica: 70-75% dos pacientes apresentam hipertrofia congênita do epitélio pigmentado da retina (HCEPR), anteriormente denominada retinite pigmentosa. Este achado pode ser detectado ao exame de fundo de olho e serve como marcador diagnóstico precoce.
Manifestações Extracolônicas
Além da polipose colorretal, pacientes com PAF podem desenvolver:
- Pólipos adenomatosos gastroduodenais (duodeno é o segundo sítio mais comum de carcinoma associado à PAF)
- Pólipos gástricos de glândulas fúndicas
- Tumores desmoides (fibromatose agressiva)
- Osteomas
- Cistos epidermoides
- Hipertrofia congênita do epitélio pigmentado da retina
Tratamento
Devido ao risco quase universal de desenvolvimento de câncer colorretal, a abordagem cirúrgica profilática é o tratamento de escolha:
💊 Tratamento definitivo: Proctocolectomia total com reconstrução por anastomose de bolsa ileal (pouch ileal) ao ânus, preservando o aparelho esfincteriano.
O momento ideal para a cirurgia é geralmente ao final da adolescência ou início da vida adulta (16-25 anos), balanceando o risco oncológico com a maturidade psicossocial do paciente.
Rastreamento e Vigilância
O protocolo de rastreamento familiar é fundamental para identificação precoce de portadores da mutação:
- Teste genético: deve ser oferecido a todos os familiares de primeiro grau em risco a partir dos 10-12 anos de idade
- Portadores da mutação:
- Colonoscopia ou retossigmoidoscopia anual iniciando aos 10-12 anos até os 35-40 anos
- Endoscopia digestiva alta (EDA) a cada 1-3 anos a partir dos 20-25 anos para rastreamento de pólipos duodenais
- Não portadores: nenhuma medida adicional além do rastreamento populacional padrão
- Quando teste genético indisponível: realizar retossigmoidoscopia anual dos 10-12 anos até 35-40 anos + EDA periódica
Variantes Sindrômicas da PAF
Duas variantes fenotípicas da PAF são reconhecidas, associando manifestações extracolônicas específicas:
Síndrome de Gardner:
- PAF + manifestações extraintestinais características
- Achados: osteomas (especialmente mandibulares e cranianos), dentes supranumerários ou inclusos, lipomas, cistos epidermoides e tumores dermoides
- Os osteomas podem ser detectados radiologicamente antes mesmo do surgimento dos pólipos intestinais
Síndrome de Turcot:
- PAF + tumores primários do sistema nervoso central
- Neoplasias associadas: meduloblastoma (mais comum) e glioblastoma multiforme
- Requer acompanhamento neurológico especializado
| Síndrome |
Base Genética |
Manifestações Colorretais |
Manifestações Extracolônicas |
| PAF clássica |
Mutação APC |
>100 adenomas colorretais |
HCEPR, pólipos duodenais, tumores desmoides |
| Gardner |
Mutação APC |
>100 adenomas colorretais |
Osteomas, dentes extranumerários, cistos, lipomas |
| Turcot |
Mutação APC ou MMR |
>100 adenomas (se APC) ou poucos (se MMR) |
Meduloblastoma, glioblastoma |
Síndrome de Peutz-Jeghers
A síndrome de Peutz-Jeghers é uma condição autossômica dominante rara, caracterizada pela presença de múltiplos pólipos hamartomatosos no trato gastrointestinal associados a hiperpigmentação mucocutânea característica.
Características Clínicas
- Genética: mutação no gene STK11 (também conhecido como LKB1), localizado no cromossomo 19p13.3
- Padrão de herança: autossômico dominante
- Tipo de pólipo: hamartomas (não adenomas), predominantemente no intestino delgado, embora possam ocorrer em todo o trato GI
- Manifestação cutânea patognomônica: máculas melanóticas (hiperpigmentação) em lábios, mucosa oral, região perioral, palmas das mãos e plantas dos pés
Apresentação Clínica
- Intussuscepção intestinal: complicação mais comum, causando dor abdominal recorrente (pode ser a manifestação inicial em crianças)
- Sangramento gastrointestinal: melena ou hematoquezia
- Anemia ferropriva: secundária a perdas sanguíneas crônicas
- Obstrução intestinal: por invaginação ou efeito de massa
🧠 Pérola diagnóstica: A combinação de pólipos GI + manchas melanóticas mucocutâneas é praticamente patognomônica de Peutz-Jeghers.
Risco Neoplásico
Embora os hamartomas em si apresentem baixo risco de transformação maligna colônica, pacientes com Peutz-Jeghers têm risco aumentado para diversos outros cânceres:
- Câncer de intestino delgado
- Câncer gástrico
- Câncer pancreático
- Neoplasias ginecológicas (ovário, colo uterino)
- Câncer de mama
- Tumores testiculares (células de Sertoli)
Tratamento e Vigilância
A abordagem é conservadora, com vigilância endoscópica regular:
- Colonoscopia: a cada 2-3 anos a partir da adolescência
- Endoscopia digestiva alta: vigilância do trato GI superior
- Enteroscopia ou cápsula endoscópica: para avaliação do intestino delgado
- Polipectomia: ressecção de pólipos sintomáticos ou com crescimento significativo
- Rastreamento oncológico multiorgânico: mamografia, ultrassonografia pélvica, marcadores tumorais
💊 Manejo: A cirurgia fica reservada para complicações agudas (intussuscepção irredutível, obstrução, sangramento refratário) e não é realizada profilaticamente como na PAF.
Polipose Juvenil Familiar
A polipose juvenil familiar é uma síndrome de polipose hamartomatosa autossômica dominante que se manifesta caracteristicamente na infância e adolescência.
Características Clínicas
- Genética: mutações nos genes SMAD4 (18q21) e BMPR1A (10q22-23), envolvidos na via de sinalização TGF-β
- Tipo de pólipo: hamartomas juvenis (compostos por glândulas císticas dilatadas repletas de muco, com estroma inflamatório abundante)
- Localização: predominantemente colorretal, mas podem ocorrer em estômago e intestino delgado
Critérios Diagnósticos
O diagnóstico é estabelecido pela presença de pelo menos um dos seguintes critérios:
- Mais de 5 pólipos juvenis colorretais
- Pólipos juvenis em todo o trato gastrointestinal
- Qualquer número de pólipos juvenis com história familiar positiva
🔎 Dica de prova: Pense em polipose juvenil em criança ou adolescente com anemia ferropriva + pólipos colorretais na colonoscopia.
Apresentação Clínica
- Sangramento retal: hematoquezia ou melena (manifestação mais comum)
- Anemia ferropriva: por perda crônica de sangue
- Prolapso retal: pólipos pedunculados podem prolapsar através do ânus
- Dor abdominal: por invaginação intestinal
- Diarreia: pode estar presente
Risco Neoplásico e Vigilância
Embora os pólipos juvenis sejam hamartomas, há risco aumentado de câncer colorretal (15-20% aos 60 anos), justificando vigilância colonoscópica:
- Início do rastreamento: 15 anos ou ao diagnóstico, se antes dessa idade
- Colonoscopia: anual ou bienal
- Endoscopia alta: vigilância do trato GI superior
- Polipectomia: ressecção de pólipos durante exames de vigilância
Tratamento
- Polipectomia endoscópica: abordagem inicial para pólipos isolados
- Colectomia: indicada em casos de:
- Incontáveis pólipos não passíveis de polipectomia endoscópica
- Displasia ou câncer confirmado
- Sintomas refratários (anemia severa, sangramento recorrente)
⚠️ Atenção: Mutações no gene SMAD4 podem estar associadas à telangiectasia hemorrágica hereditária (síndrome de Rendu-Osler-Weber), exigindo avaliação para malformações arteriovenosas pulmonares e cerebrais.
Síndrome de Cowden
A síndrome de Cowden é uma genodermatose rara, autossômica dominante, caracterizada por hamartomas múltiplos envolvendo derivados dos três folhetos embrionários (ectoderma, mesoderma e endoderma) e risco aumentado para múltiplas neoplasias.
Características Clínicas
- Genética: mutação no gene supressor tumoral PTEN (phosphatase and tensin homolog) em aproximadamente 85% dos casos
- Padrão de herança: autossômico dominante
- Idade de início: manifestações surgem tipicamente na adolescência ou início da vida adulta
Manifestações Clínicas Características
Achados mucocutâneos (mais comuns e precoces):
- Tricolemomas faciais: pápulas verruciformes assintomáticas, principalmente na face (achado patognomônico)
- Papilomatose oral: múltiplos papilomas nas mucosas oral, nasal e faríngea
- Queratose acral: lesões hiperqueratóticas verrucosas nas palmas e plantas
- Macrocefalia: presente em mais de 80% dos pacientes adultos
Manifestações gastrointestinais:
- Pólipos hamartomatosos (esôfago, estômago, intestino delgado e cólon)
- Pólipos hiperplásicos
- Ganglioneuromas
- Pólipos inflamatórios
Manifestações neurológicas:
- Doença de Lhermitte-Duclos: gangliocitoma displásico do cerebelo (lesão patognomônica, porém menos frequente em crianças)
- Atraso no desenvolvimento (pode ocorrer)
Risco Neoplásico
Pacientes com síndrome de Cowden apresentam risco significativamente elevado para diversas neoplasias malignas:
- Câncer de mama: risco de 25-50% em mulheres (principal neoplasia associada)
- Câncer de tireoide: risco de 10% (especialmente carcinoma folicular)
- Câncer endometrial: risco de 5-10%
- Carcinoma renal: risco aumentado
- Câncer colorretal: risco moderadamente elevado
🧬 Vigilância oncológica: Devido ao risco neoplásico múltiplo, pacientes requerem protocolo de rastreamento abrangente incluindo mamografia anual, ultrassonografia de tireoide, vigilância endometrial e colonoscopia periódica.
Tratamento
O tratamento é direcionado às manifestações específicas:
- Lesões cutâneas: tratamento cosmético (laser, excisão cirúrgica) quando necessário
- Pólipos GI: polipectomia conforme indicação clínica
- Gangliocitoma cerebelar: ressecção neurocirúrgica se sintomático
- Neoplasias: tratamento oncológico específico
- Mastectomia profilática: pode ser considerada em casos selecionados de alto risco
Síndrome de Cronkhite-Canada
A síndrome de Cronkhite-Canada distingue-se das demais síndromes de polipose por ser adquirida e não hereditária, representando uma condição rara de etiologia ainda não completamente esclarecida, possivelmente autoimune.
Características Clínicas
- Epidemiologia: acomete predominantemente adultos acima de 50-60 anos, com maior prevalência em descendentes japoneses
- Natureza: síndrome esporádica, não hereditária
- Tipo de pólipo: hamartomas inflamatórios difusos
- Distribuição: estômago, intestino delgado e cólon (poupando o esôfago)
Tríade Clássica
A síndrome é caracterizada pela tríade de polipose gastrointestinal associada a alterações ectodérmicas:
🔎 Tríade diagnóstica:
- 🩺 Polipose difusa do trato GI (hamartomas)
- 💇 Alopecia (perda de cabelo, sobrancelhas e cílios)
- 💅 Onicodistrofia (alterações ungueais - atrofia, descolamento, onicólise)
- 🎨 Hiperpigmentação cutânea (máculas acastanhadas)
Manifestações Clínicas
Manifestações gastrointestinais:
- Diarreia aquosa profusa: sintoma proeminente e debilitante
- Dor abdominal: frequente
- Perda ponderal significativa: por má absorção e perda proteica
- Enteropatia perdedora de proteínas: hipoalbuminemia, edema
- Sangramento gastrointestinal: pode ocorrer
- Deficiências nutricionais: vitaminas, minerais e eletrólitos
Manifestações ectodérmicas:
- Alopecia difusa
- Onicodistrofia (unhas quebradiças, atróficas, com onicólise)
- Hiperpigmentação cutânea (máculas marrom-acinzentadas nas extremidades, face e tronco)
- Alterações do paladar (disgeusia)
Prognóstico e Tratamento
A síndrome de Cronkhite-Canada apresenta prognóstico reservado, com mortalidade significativa relacionada à desnutrição severa, infecções secundárias e complicações da enteropatia perdedora de proteínas.
Abordagem terapêutica:
- Suporte nutricional agressivo: nutrição parenteral total quando necessário
- Reposição de proteínas e albumina: para enteropatia perdedora
- Corticosteroides: podem induzir remissão em alguns casos
- Imunossupressores: azatioprina, ciclosporina (casos refratários)
- Inibidores de bomba de prótons: em altas doses
- Antibioticoterapia: para sobrecrescimento bacteriano e erradicação de H. pylori
- Reposição vitamínica e mineral: cálcio, vitamina D, vitaminas lipossolúveis, ferro
⚠️ Cirurgia: Reservada exclusivamente para complicações dos pólipos (obstrução, intussuscepção, sangramento maciço refratário). Não há indicação de ressecção profilática.
A resposta ao tratamento é variável, com alguns pacientes apresentando remissão completa (inclusive das lesões cutâneas), enquanto outros evoluem com deterioração progressiva. O acompanhamento multidisciplinar (gastroenterologia, nutrição, dermatologia) é essencial.
| Síndrome |
Gene |
Herança |
Tipo de Pólipo |
Localização Principal |
Achados Extraintestinais |
Risco CCR |
| PAF |
APC |
AD |
Adenomas |
Cólon (>100) |
HCEPR, pólipos duodenais, desmoides |
~100% |
| Gardner |
APC |
AD |
Adenomas |
Cólon (>100) |
Osteomas, dentes extranumerários, cistos |
~100% |
| Turcot |
APC ou MMR |
AD |
Adenomas |
Cólon |
Tumores SNC (meduloblastoma, glioblastoma) |
Alto |
| Peutz-Jeghers |
STK11 |
AD |
Hamartomas |
Delgado > Cólon |
Máculas melanóticas mucocutâneas |
Baixo |
| Polipose Juvenil |
SMAD4, BMPR1A |
AD |
Hamartomas |
Cólon |
Telangiectasias (se SMAD4) |
15-20% |
| Cowden |
PTEN |
AD |
Hamartomas |
Todo TGI |
Tricolemomas, macrocefalia, Ca mama/tireoide |
Moderado |
| Cronkhite-Canada |
— |
Esporádica |
Hamartomas |
Estômago, delgado, cólon |
Alopecia, onicodistrofia, hiperpigmentação |
Baixo |
💡 Resumo para memorização:
- Adenomas (alto risco CCR): PAF, Gardner, Turcot → necessitam colectomia profilática
- Hamartomas (risco variável): Peutz-Jeghers, Polipose Juvenil, Cowden, Cronkhite-Canada → vigilância endoscópica
- Única não hereditária: Cronkhite-Canada (idosos + tríade ectodérmica)
- Manchas na pele: Peutz-Jeghers (mucocutâneas) e Cronkhite-Canada (hiperpigmentação difusa)
Câncer Colorretal
O câncer colorretal representa uma neoplasia maligna com elevado potencial de cura quando diagnosticada precocemente. Sua patogênese está intimamente relacionada à mutação no gene APC, que pode ocorrer de forma adquirida (gerando o câncer esporádico, responsável por cerca de 80% dos casos) ou hereditária (resultando na polipose adenomatosa familiar - PAF). A compreensão da história natural desta doença, que segue a sequência adenoma-adenocarcinoma, é fundamental para estratégias de rastreamento e prevenção.
Epidemiologia e Fatores de Risco
Classificação Etiológica
O câncer colorretal pode ser classificado em três grandes categorias de acordo com sua origem:
Câncer Esporádico (mais comum - 80% dos casos)
Representa a forma adquirida da doença, associada a múltiplos fatores de risco ambientais e comportamentais. Os principais determinantes incluem:
- Idade avançada: risco progressivamente maior após os 50 anos
- História familiar positiva: presença de casos em parentes de primeiro grau
- Doenças inflamatórias intestinais (DII): retocolite ulcerativa e doença de Crohn
- Fatores dietéticos: consumo excessivo de carne vermelha e gorduras, baixa ingestão de fibras
- Estilo de vida: sedentarismo, síndrome metabólica, obesidade
- Tabagismo e etilismo: exposição crônica aumenta significativamente o risco
🧠 Conceito-chave: A história natural do câncer colorretal esporádico segue a sequência adenoma → adenocarcinoma, processo que geralmente leva cerca de 10 anos para se completar. Este longo período de evolução representa uma janela de oportunidade para rastreamento e prevenção.
Câncer Hereditário Associado a Pólipos
Neste grupo, destaca-se a Polipose Adenomatosa Familiar (PAF) e suas variantes clínicas. A PAF é causada por mutação germinativa no gene APC, transmitida de forma autossômica dominante, caracterizando-se pelo desenvolvimento de centenas a milhares de pólipos adenomatosos no cólon e reto, com risco de malignização próximo a 100% se não tratada adequadamente.
Câncer Hereditário Não-Polipose (Síndrome de Lynch / HNPCC)
A síndrome de Lynch representa a forma mais comum de câncer colorretal hereditário não associado a polipose extensa. Diferentemente da PAF, os pacientes desenvolvem poucos pólipos, porém com alta taxa de transformação maligna.
Síndrome de Lynch (HNPCC - Hereditary Non-Polyposis Colorectal Cancer)
Aspectos Genéticos e Moleculares
A síndrome de Lynch resulta de mutações em genes responsáveis pelo reparo de erros no DNA (genes MMR - mismatch repair), levando ao fenômeno conhecido como instabilidade de microssatélites. Esta alteração molecular permite o acúmulo acelerado de mutações adicionais, favorecendo a carcinogênese.
Manifestações Clínicas
A apresentação clínica característica envolve o desenvolvimento de câncer colorretal em idade jovem (tipicamente antes dos 50 anos), frequentemente associado a outras neoplasias malignas. A síndrome é subdividida em dois tipos:
- Lynch tipo 1: acometimento restrito ao câncer colorretal
- Lynch tipo 2: câncer colorretal associado a outras neoplasias, especialmente tumores ginecológicos (endométrio e ovário), além de câncer gástrico, pancreático e do trato urinário superior
⚠️ Atenção clínica: Todo paciente jovem (abaixo de 50 anos) com diagnóstico de câncer colorretal deve ser investigado para síndromes hereditárias, especialmente Lynch e PAF. A idade de apresentação é um marcador fundamental para suspeição diagnóstica.
Critérios Diagnósticos de Amsterdam
O diagnóstico da síndrome de Lynch pode ser estabelecido através de análise genética molecular ou pela aplicação dos critérios clínicos de Amsterdam, que incluem:
- Pelo menos três familiares com câncer colorretal ou tumor associado à síndrome de Lynch, sendo um deles parente de primeiro grau dos outros dois
- Acometimento de pelo menos duas gerações consecutivas
- Pelo menos um caso diagnosticado antes dos 50 anos
- Exclusão de polipose adenomatosa familiar (ausência de múltiplos pólipos)
Quando o diagnóstico é realizado por análise genética, é importante excluir PAF e pesquisar a mutação BRAF, cuja positividade sugere câncer esporádico ao invés de Lynch.
💡 Dica para prova: Os critérios de Amsterdam exigem que um dos três familiares acometidos seja parente de primeiro grau dos outros dois, demonstrando a penetrância genética e o padrão hereditário da doença. Não basta ter três casos na família se forem parentes distantes.
Abordagem Terapêutica na Síndrome de Lynch
O tratamento cirúrgico de escolha para pacientes com síndrome de Lynch e câncer colorretal estabelecido é a colectomia total, devido ao elevado risco de desenvolvimento de tumores metacrônicos (novos tumores primários ao longo do tempo) no cólon remanescente.
Quadro Clínico do Câncer Colorretal
História Natural e Apresentação Inicial
O câncer colorretal caracteriza-se por crescimento lento e manifestações clínicas tardias, com período de evolução que pode ultrapassar 10 anos desde a formação do adenoma inicial até o desenvolvimento de adenocarcinoma invasivo. Nas fases iniciais, a doença frequentemente permanece assintomática, o que reforça a importância das estratégias de rastreamento populacional.
Manifestações de Acordo com a Localização Tumoral
Tumores de Cólon Direito
Os tumores localizados no cólon direito (ceco, cólon ascendente e parte do cólon transverso) tendem a apresentar sintomas mais sutis e inespecíficos:
- Melena: sangramento oculto crônico resultando em fezes escurecidas
- Anemia ferropriva: frequentemente a primeira manifestação, decorrente de sangramento insidioso
- Massa palpável: tumor volumoso palpável no flanco direito ou fossa ilíaca direita
- Febre: pode ocorrer em casos de necrose tumoral ou complicações infecciosas
Tumores de Cólon Esquerdo
O cólon esquerdo (cólon descendente e sigmoide) possui calibre menor, favorecendo sintomas obstrutivos:
- Alterações do hábito intestinal: alternância entre diarreia e constipação
- Obstrução intestinal: quadros suboclusivos ou oclusivos completos
- Dor abdominal: cólicas e desconforto no flanco esquerdo
Tumores Retais
Os tumores de reto apresentam sintomatologia mais específica e precoce:
- Hematoquezia: sangramento vermelho vivo nas fezes (sintoma mais comum)
- Fezes em fita: formato afilado devido à estenose luminal
- Tenesmo: sensação de evacuação incompleta e urgência evacuatória
- Constipação intestinal: dificuldade progressiva para evacuar
🔎 Diagnóstico diferencial: A localização do tumor determina o padrão de sintomas. Tumores de cólon direito manifestam-se principalmente por anemia e massa palpável; tumores de cólon esquerdo por alterações do hábito intestinal; e tumores retais por sangramento visível e tenesmo.
Rastreamento do Câncer Colorretal
Método de Escolha
A colonoscopia representa o método padrão-ouro para rastreamento do câncer colorretal, permitindo não apenas a visualização direta de toda a mucosa colônica, mas também a realização de biópsias e polipectomias terapêuticas durante o mesmo procedimento.
Estratégias de Rastreamento de Acordo com o Risco
População de Risco Habitual (Câncer Esporádico)
Para indivíduos sem fatores de risco adicionais, o rastreamento deve ser iniciado aos 50 anos (segundo a Sociedade Americana de Cancerologia, pode-se considerar início aos 45 anos). O método preferencial é:
- Colonoscopia a cada 10 anos (método de escolha)
Métodos alternativos incluem:
- Pesquisa de sangue oculto nas fezes (PSOF) com guaiaco: anualmente
- Teste imunoquímico fecal (TIF): anualmente
- Teste de DNA fecal: a cada 3 anos
- Sigmoidoscopia flexível: a cada 5 anos (isolada) ou a cada 10 anos (associada a TIF anual)
- Colonoscopia virtual (colonografia por TC): a cada 5 anos
💡 Rastreamento em história familiar positiva: Se há familiar de primeiro grau acometido por câncer colorretal, o rastreamento deve iniciar aos 40 anos OU 10 anos antes da idade em que o familiar foi diagnosticado (o que ocorrer primeiro).
Síndromes Hereditárias
Pacientes com síndromes hereditárias requerem início mais precoce do rastreamento:
- Síndrome de Lynch (HNPCC): colonoscopia a partir dos 20 anos, repetida a cada 1-2 anos
- Polipose Adenomatosa Familiar (PAF): sigmoidoscopia flexível a partir dos 10-15 anos, anualmente
- Síndrome de Peutz-Jeghers: endoscopia digestiva alta e colonoscopia a partir dos 10-15 anos
| Condição Clínica |
Idade de Início |
Método e Periodicidade |
| Risco habitual (esporádico) |
50 anos (ou 45 anos) |
Colonoscopia a cada 10 anos |
| História familiar positiva |
40 anos ou 10 anos antes do caso familiar |
Colonoscopia a cada 10 anos |
| Síndrome de Lynch |
20 anos |
Colonoscopia a cada 1-2 anos |
| PAF / Peutz-Jeghers |
10-15 anos |
Sigmoidoscopia/colonoscopia anual |
Diagnóstico e Estadiamento
Confirmação Diagnóstica
O diagnóstico definitivo de câncer colorretal é estabelecido através de colonoscopia com biópsia da lesão suspeita, permitindo análise histopatológica e confirmação de adenocarcinoma.
⚠️ Importante: A retossigmoidoscopia NÃO é suficiente para o diagnóstico completo, pois não permite a detecção de tumores sincrônicos (lesões simultâneas em diferentes segmentos do cólon, que não representam metástases ou extensão por contiguidade, mas sim tumores primários independentes).
Marcador Tumoral CEA
O antígeno carcinoembrionário (CEA) não possui valor diagnóstico para câncer colorretal, mas é útil para:
- Avaliação prognóstica: níveis elevados pré-operatórios indicam pior prognóstico
- Monitoramento pós-tratamento: elevação do CEA pode indicar recidiva tumoral
- Acompanhamento da resposta terapêutica: queda dos níveis sugere resposta ao tratamento
Estadiamento Tumoral
Após a confirmação diagnóstica, é fundamental realizar o estadiamento completo para definir a extensão da doença e planejar a terapêutica adequada.
Exames de Imagem para Estadiamento
- Tomografia computadorizada de abdome: avaliação de metástases hepáticas e comprometimento linfonodal regional
- Tomografia computadorizada de tórax: indicada se CEA > 10 ng/mL, para pesquisa de metástases pulmonares
- Ressonância magnética pélvica ou ultrassonografia endoanal transretal: essencial em tumores de reto para avaliação precisa da profundidade de invasão (T), comprometimento linfonodal (N) e invasão do mesorreto
- PET-CT: reservado para casos de doença recorrente ou suspeita de recidiva
🔬 Estadiamento do câncer retal: A ressonância magnética pélvica é FUNDAMENTAL para tumores de reto, pois permite avaliar com precisão a invasão do mesorreto e a relação do tumor com a fáscia mesoretal, informações cruciais para decisão terapêutica (neoadjuvância).
Classificação TNM
O estadiamento segue o sistema TNM, semelhante ao câncer gástrico:
- T (Tumor primário): profundidade de invasão da parede intestinal
- N (Linfonodos regionais):
- N1: 1 a 3 linfonodos comprometidos
- N2: 4 ou mais linfonodos comprometidos
- M (Metástases à distância): presença ou ausência de disseminação metastática
Tratamento do Câncer Colorretal
Princípios Gerais da Abordagem Terapêutica
O tratamento do câncer colorretal varia significativamente de acordo com a localização anatômica do tumor. É fundamental compreender a divisão topográfica do reto para definir a estratégia terapêutica adequada:
Classificação Anatômica do Reto
- Reto alto: localizado a mais de 10-12 cm da margem anal (lesão não palpável ao toque retal)
- Reto médio e baixo: localizado a menos de 10-12 cm da margem anal (lesão palpável ao toque retal)
💡 Conceito fundamental: A distância da margem anal determina não apenas a abordagem cirúrgica, mas também a necessidade de terapia neoadjuvante. Tumores de reto médio e baixo apresentam maior risco de recidiva local e frequentemente requerem tratamento multimodal.
Tratamento de Tumores de Cólon e Reto Alto
Abordagem Cirúrgica
O tratamento cirúrgico padrão consiste em:
- Ressecção segmentar com margens adequadas: margem de segurança de pelo menos 5 cm proximal e distal ao tumor
- Linfadenectomia regional: ressecção de pelo menos 12 linfonodos para adequado estadiamento patológico
Quimioterapia Adjuvante
A quimioterapia adjuvante (após a cirurgia) está indicada nas seguintes situações de alto risco:
- Tumores T3 ou T4 (invasão além da muscular própria)
- Linfonodos positivos (N+) ou número insuficiente de linfonodos ressecados
- Tumor indiferenciado ou pouco diferenciado
- Presença de complicações (perfuração ou obstrução intestinal)
- Margens cirúrgicas comprometidas
Tratamento de Tumores de Reto Médio e Baixo
Princípios Cirúrgicos Específicos
O tratamento cirúrgico de tumores retais requer técnica oncológica rigorosa:
- Margem de segurança: pelo menos 2 cm distal ao tumor (em tumores de reto baixo)
- Excisão total do mesorreto (ETM): remoção completa do tecido mesoretal, incluindo a fáscia mesoretal, reduzindo significativamente o risco de recidiva local
Opções de Técnica Cirúrgica
A escolha da técnica cirúrgica depende da relação do tumor com o aparelho esfincteriano:
- Sem acometimento de esfíncter:
- Ressecção anterior do reto (RAR)
- Ressecção abdominal baixa (RAB)
- Ambas permitem preservação esfincteriana com anastomose colorretal ou coloanal
- Com acometimento de esfíncter:
- Ressecção abdominoperineal (RAP) ou Cirurgia de Miles
- Resulta em colostomia definitiva
Terapia Neoadjuvante (Quimioterapia e Radioterapia Pré-operatórias)
A terapia neoadjuvante está indicada em tumores de reto médio e baixo com características de alto risco:
- Tumores T3 ou T4 (invasão do mesorreto)
- Linfonodos positivos (N+)
- Invasão de esfíncter (potencialmente ressecável)
- Lesão circunferencial
- Invasão linfovascular
🎯 Objetivo da neoadjuvância: A quimiorradioterapia pré-operatória visa promover "downstaging" (redução do estadiamento tumoral), aumentando as chances de preservação esfincteriana e evitando a necessidade de colostomia definitiva (ressecção abdominoperineal).
Estratégia "Watch and Wait" (Observação Vigilante)
Conceito emergente e controverso na literatura atual: quando a terapia neoadjuvante total (TNT) resulta em resposta clínica completa (desaparecimento completo do tumor à avaliação clínica, endoscópica e radiológica), alguns protocolos permitem adotar estratégia de acompanhamento rigoroso sem cirurgia imediata.
Esta abordagem requer:
- Confirmação de resposta completa por múltiplos métodos (ressonância, colonoscopia, toque retal)
- Acompanhamento periódico intensivo com colonoscopia e exames de imagem
- Paciente informado e aderente ao seguimento
- Possibilidade de resgate cirúrgico imediato em caso de recidiva
⚠️ Atenção: Tradicionalmente, mesmo com resposta completa à neoadjuvância, a cirurgia ainda é indicada. A estratégia "watch and wait" é considerada experimental e deve ser realizada apenas em centros especializados, dentro de protocolos de pesquisa, com consentimento informado do paciente.
Doença Avançada e Tratamento Paliativo
Em casos de doença metastática irressecável ou pacientes sem condições clínicas para cirurgia radical, o tratamento visa paliação de sintomas e melhora da qualidade de vida, podendo incluir:
- Quimioterapia paliativa
- Ressecção paliativa do tumor primário (para controle de sangramento ou obstrução)
- Colocação de próteses (stents) para alívio de obstrução
- Radioterapia paliativa
Considerações Anatômicas e Padrões de Disseminação
Drenagem Venosa e Risco Metastático
A compreensão da drenagem venosa é fundamental para entender os padrões de disseminação metastática:
- Tumores altos (terço médio e superior do reto, cólon): drenagem pela veia mesentérica inferior → veia porta → fígado (primeiro sítio de metástases)
- Tumores baixos (reto baixo): drenagem pelas veias ilíacas → veia cava inferior → circulação sistêmica (podem metastatizar para pulmão sem passar pelo fígado)
Particularidades dos Tumores Retais
Os tumores de reto apresentam maior risco de invasão de órgãos adjacentes por contiguidade devido à proximidade anatômica com estruturas pélvicas:
- Sacro e parede pélvica posterior
- Próstata e vesículas seminais (homens)
- Bexiga
- Útero e vagina (mulheres)
Esta característica anatômica explica a maior complexidade cirúrgica e o maior risco de recidiva local dos tumores retais em comparação aos tumores de cólon.
Ressecção de Metástases
Critérios para Metastasectomia
Em situações selecionadas, a ressecção de metástases pode ser realizada com intenção curativa, melhorando significativamente o prognóstico. Os principais critérios incluem:
Metástases Hepáticas
- Até 3 lesões unilobares (confinadas a um lobo hepático)
- Ausência de doença extrahepática não ressecável
- Possibilidade técnica de ressecção com margens livres
- Volume hepático remanescente adequado (geralmente > 30%)
Metástases Pulmonares
- Lesões ressecáveis tecnicamente
- Ausência de outras metástases à distância
- Controle adequado da doença primária
- Função pulmonar preservada
Metástases Peritoneais
- Carcinomatose peritoneal limitada
- Ausência de outras metástases
- Possibilidade de citorredução completa
- Pode ser associada a quimioterapia intraperitoneal hipertérmica (HIPEC)
💊 Conceito terapêutico: A ressecção de metástases em câncer colorretal pode ser curativa em pacientes selecionados. O fígado e o pulmão são os órgãos onde a metastasectomia apresenta melhores resultados, com sobrevida em 5 anos podendo alcançar 40-50% em casos favoráveis.
| Sítio de Metástase |
Critérios para Ressecção |
Considerações Adicionais |
| Fígado |
Até 3 lesões unilobares |
Avaliar volume hepático remanescente; considerar quimioterapia perioperatória |
| Pulmão |
Sem outras metástases |
Avaliar função pulmonar; pode ser bilateral se tecnicamente ressecável |
| Peritônio |
Sem outras metástases; doença limitada |
Considerar HIPEC (quimioterapia intraperitoneal hipertérmica) |
Seguimento Pós-Operatório
Protocolo de Vigilância Após Colectomia
O acompanhamento rigoroso após o tratamento cirúrgico é fundamental para detecção precoce de recidivas e tumores metacrônicos. O protocolo recomendado inclui:
Consultas Médicas
- Primeiros 2 anos: consultas a cada 3-6 meses
- Após 2 anos: consultas anuais
Dosagem de CEA
- Periodicidade: a cada 6 meses por 5 anos
- Se elevação do CEA: realizar colonoscopia e tomografias de tórax, abdome e pelve para investigação de recidiva
Colonoscopia de Vigilância
- Primeira colonoscopia: após 1 ano da cirurgia
- Se normal: repetir após 3 anos
- Se normal novamente: repetir após 5 anos
Exames de Imagem
- Tomografia de tórax, abdome e pelve: anualmente por 5 anos (para detecção de metástases)
- Ressonância magnética de pelve: indicada especificamente para pacientes operados de câncer de reto extraperitoneal (risco de recidiva local)
PET-CT
- Reservado para casos com suspeita de recidiva identificada nas tomografias convencionais
- Útil para diferenciar fibrose pós-operatória de recidiva tumoral
- Auxilia no planejamento de eventual ressecção de recidiva
🔎 Vigilância pós-operatória: O CEA é o marcador mais importante no seguimento. Sua elevação progressiva pode preceder em meses a detecção de recidiva por exames de imagem, permitindo intervenção mais precoce.
| Exame/Avaliação |
Periodicidade |
Duração do Seguimento |
| Consulta médica |
3-6 meses (2 anos); depois anual |
Pelo menos 5 anos |
| CEA |
6 em 6 meses |
5 anos |
| Colonoscopia |
1 ano, 3 anos, 5 anos |
Indefinido (vigilância contínua) |
| TC tórax/abdome/pelve |
Anual |
5 anos |
| RM de pelve |
Conforme indicação |
Câncer de reto extraperitoneal |
| PET-CT |
Sob demanda |
Suspeita de recidiva |