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Anemias Hiperproliferativas

As anemias hiperproliferativas são caracterizadas por uma medula óssea que responde ativamente à perda de hemácias, aumentando a produção de reticulócitos.


Conceitos Iniciais

Hemólise e Hemocaterese

Para compreender as anemias hemolíticas, é fundamental diferenciar a destruição fisiológica da patológica das hemácias:

Ambos os processos, fisiológico e patológico, ocorrem predominantemente no baço. O mecanismo de reconhecimento das hemácias a serem destruídas é frequentemente descrito como: "passou devagar pelo baço, o macrófago atropela". Isso acontece porque hemácias "velhas" ou "esquisitas" (como as da anemia falciforme ou as revestidas por anticorpos autoimunes) perdem flexibilidade, transitam mais lentamente pelos sinusoides esplênicos e são, então, fagocitadas pelos macrófagos.

Hemólise Compensada e Anemia Hemolítica

É importante notar que nem toda hemólise resulta necessariamente em anemia hemolítica. Pode ocorrer uma condição conhecida como hemólise compensada. Quando há destruição de hemácias, a consequente redução da hemoglobina leva à hipoxemia, que estimula a produção de eritropoetina (EPO) pelos rins. A EPO, por sua vez, promove uma hiperplasia da medula óssea, aumentando a diferenciação de pré-eritroblastos em reticulócitos. Estes reticulócitos, em cerca de 24 horas, perdem seu núcleo e se transformam em hemácias maduras, compensando a perda inicial.

🧠 Conceito Chave: As anemias hemolíticas são classificadas como HIPERPROLIFERATIVAS justamente por essa resposta medular intensa, que se manifesta laboratorialmente pela reticulocitose.
Critérios para Hemólise Compensada

A hemólise é considerada compensada quando a medula óssea consegue manter os níveis de hemoglobina dentro da normalidade. Isso geralmente ocorre sob as seguintes condições:

Se um, dois ou todos esses fatores estiverem ausentes ou comprometidos, a compensação falha e o paciente desenvolve uma anemia hemolítica.

Causas de Reticulocitose

A reticulocitose é um marcador crucial de resposta medular. As principais causas que devem ser lembradas para provas são:

Achados Laboratoriais na Hemólise

A hemólise, seja compensada ou não, gera um conjunto de alterações laboratoriais características que auxiliam no diagnóstico:

Investigação Diagnóstica

A investigação de uma anemia hemolítica deve seguir uma abordagem sistemática, buscando responder a três perguntas fundamentais:

1. Avaliação de Autoimunidade: Teste de Coombs

O primeiro passo é determinar se a hemólise tem uma causa autoimune. O Teste de Coombs Direto é o exame chave para essa avaliação. Se positivo, indica a presença de anticorpos ligados à superfície das hemácias do paciente, confirmando uma anemia hemolítica autoimune. Se negativo, outras causas devem ser investigadas.

⚠️ Atenção: Não confunda os testes de Coombs!
Teste de Coombs O que detecta Significado
Direto Anticorpos (ou complemento) ligados diretamente à superfície das hemácias do paciente. Diagnóstico de Anemia Hemolítica Autoimune (AHAI).
Indireto Anticorpos livres no plasma do paciente que podem se ligar a hemácias de doadores. Avalia a presença de anticorpos irregulares no soro, importante para compatibilidade transfusional.

2. Local da Hemólise: Intravascular vs. Extravascular

A hemólise pode ocorrer dentro dos vasos sanguíneos (intravascular) ou fora deles, principalmente no baço (extravascular). Embora a hemólise extravascular seja a mais comum, a intravascular possui marcadores específicos:

A presença desses achados indica predominantemente hemólise intravascular.

3. Identificação da Etiologia Específica

Após determinar se a hemólise é autoimune e seu local, o próximo passo é identificar a doença subjacente. A hematoscopia (análise do esfregaço de sangue periférico) é o exame inicial e mais importante para identificar morfologias eritrocitárias anormais que podem direcionar o diagnóstico. Outros exames específicos, como a eletroforese de hemoglobina, podem ser solicitados conforme a suspeita clínica.

Morfologias Específicas na Hematoscopia

Conhecer as alterações morfológicas das hemácias é crucial para a prova de residência:

Complicações

As anemias hemolíticas podem levar a diversas complicações, tanto crônicas quanto agudas, que exigem atenção clínica.

Complicação Crônica: Cálculos Biliares

A principal complicação crônica das anemias hemolíticas é a formação de cálculos de bilirrubinato de cálcio na vesícula biliar. O aumento constante da destruição de hemácias eleva a produção de bilirrubina indireta. Esse excesso de bilirrubina, quando conjugado e excretado na bile, pode se ligar ao cálcio, formando cálculos pigmentados. Diferentemente da maioria dos cálculos de colesterol (que são radiotransparentes), os cálculos de bilirrubinato de cálcio são frequentemente visíveis em radiografias.

Complicações Agudas: Crises Anêmicas

Pacientes com anemia hemolítica crônica, que geralmente mantêm um estado de hemólise compensada, podem apresentar crises anêmicas agudas, caracterizadas por uma queda abrupta dos níveis de hemoglobina. Existem quatro tipos importantes de crises:

Crises com Reticulocitopenia

Ao contrário da reticulocitose esperada na hemólise, estas crises se apresentam com uma diminuição ou ausência de reticulócitos, indicando falha na resposta medular.

1. Crise Aplásica
2. Crise Megaloblástica
🔎 Dica para Prova:

Crise Anêmica Aguda + Reticulocitopenia: Pense em Crise Aplásica ou Megaloblástica.

Se houver Neutrófilos Hipersegmentados: É uma forte indicação de Crise Megaloblástica.

Crises sem Reticulocitopenia

Nestas crises, a medula óssea continua a produzir reticulócitos, mas a taxa de destruição de hemácias é tão elevada que a compensação é insuficiente.

3. Crise Hiper-hemolítica (Hemólise Aguda Grave)
Diferenciação de IRA por Pigmentos Hemoglobinúria (Hemólise Aguda Grave) Mioglobinúria (Rabdomiólise)
Plasma Escuro (hemoglobina permanece mais tempo no sangue) Límpido (mioglobina é rapidamente filtrada pelos rins)
Urina Escura (pigmentada) Escura (pigmentada)
4. Sequestro Esplênico

Anemias Hemolíticas Hereditárias

As anemias hemolíticas hereditárias são um grupo heterogêneo de condições caracterizadas pela destruição prematura dos eritrócitos, resultando em anemia. Elas podem ser classificadas em três grandes categorias, baseadas no tipo de defeito primário: deficiências enzimáticas, alterações na membrana eritrocitária ou hemoglobinopatias. Para fins de estudo e preparação para provas de residência, destacaremos as mais relevantes: a deficiência de G6PD (enzimopatia), a esferocitose hereditária (membranopatia), e as hemoglobinopatias como a anemia falciforme e as talassemias.

Categoria do Defeito Exemplos de Anemias Hemolíticas Hereditárias
Deficiência Enzimática
  • Deficiência de G6PD
  • Deficiência de Piruvato-Quinase
Defeito de Membrana
  • Esferocitose Hereditária
  • Estomatocitose
  • Eliptocitose
Hemoglobinopatia
  • Anemia Falciforme
  • Talassemias

Deficiência de G6PD

A deficiência de G6PD é uma enzimopatia hereditária que afeta predominantemente indivíduos do sexo masculino, devido ao seu padrão de herança ligado ao cromossomo X.

🧠 Lembre-se: Doença ligada ao cromossomo X, mais comum em homens.

Como Suspeitar?

A suspeita de deficiência de G6PD surge tipicamente em pacientes que desenvolvem um quadro de anemia hemolítica aguda após exposição a um gatilho que induz estresse oxidativo. A G6PD (Glicose-6-Fosfato Desidrogenase) é uma enzima crucial para a proteção dos eritrócitos contra o dano oxidativo, atuando na via das pentoses fosfato para produzir NADPH, que é essencial para a redução do glutationa oxidado. Este, por sua vez, neutraliza os radicais livres de oxigênio. Em condições normais, mesmo com deficiência parcial da enzima, os eritrócitos podem manter sua integridade. No entanto, diante de um estresse oxidativo intenso, a capacidade antioxidante da hemácia é superada, levando à hemólise. É importante notar que, em provas, a apresentação clássica envolve um episódio hemolítico agudo, muitas vezes em um paciente previamente assintomático, desencadeado por fatores específicos.

⚠️ Atenção: A hemólise na deficiência de G6PD é desencadeada por um estresse oxidativo intenso, e não é uma condição de hemólise crônica grave na maioria dos casos.

Causas e Gatilhos

Os gatilhos para a crise hemolítica na deficiência de G6PD são agentes que induzem um estresse oxidativo significativo. Sem a exposição a esses fatores, muitos indivíduos podem permanecer assintomáticos. Os principais desencadeadores incluem:

💊 Tratamento: Lembre-se da mnemônica "Gaveta Seis P D" para as drogas: Naftalina, Nitrofurantoína, Rasburicase, Sulfas, Primaquina, Piridium, Dapsona.

Achados Laboratoriais

Os exames laboratoriais durante uma crise hemolítica revelarão os marcadores usuais de hemólise (aumento de bilirrubina indireta, LDH, reticulocitose e diminuição da haptoglobina). Contudo, o achado mais característico na hematoscopia é a presença dos Corpúsculos de Heinz, que são precipitados de hemoglobina desnaturada, resultantes do dano oxidativo.

🔎 Diagnóstico: A presença de Corpúsculos de Heinz na hematoscopia é um achado patognomônico de dano oxidativo eritrocitário, comum na deficiência de G6PD.

Diagnóstico Definitivo

O diagnóstico definitivo da deficiência de G6PD é realizado pela medida da atividade enzimática da G6PD nos eritrócitos. É fundamental compreender que o defeito principal é uma redução na função (qualitativo) da enzima, e não necessariamente uma diminuição acentuada na sua quantidade (quantitativo). É importante ressaltar que a dosagem da atividade enzimática deve ser feita fora de uma crise hemolítica, pois durante a crise, as hemácias mais velhas e deficientes são destruídas, e as hemácias jovens (reticulócitos), que possuem maior atividade enzimática, podem levar a um resultado falso-negativo.

🧪 Exame: O diagnóstico é feito pela medida da atividade da G6PD. Realizar fora da crise hemolítica para evitar falsos negativos.

Tratamento

O tratamento da deficiência de G6PD é essencialmente preventivo. Não existe uma terapia específica para a deficiência em si. A principal medida é evitar a exposição aos agentes desencadeadores de estresse oxidativo, como os medicamentos e substâncias químicas listados anteriormente. Em casos de crise hemolítica aguda, o manejo é de suporte, podendo incluir transfusões sanguíneas se a anemia for grave.

💊 Tratamento: A chave é a prevenção! Evitar gatilhos e educar o paciente sobre as substâncias de risco.

Esferocitose Hereditária

Conceitos Iniciais

A esferocitose hereditária é a membranopatia eritrocitária mais comum, caracterizada por um defeito genético nas proteínas do citoesqueleto da membrana do eritrócito, como a espectrina e a anquirina. Essa alteração compromete a integridade e a flexibilidade da membrana, resultando na formação de esferócitos.

🧬 Genética: Herança autossômica dominante é a mais comum. O defeito está nas proteínas do citoesqueleto da membrana eritrocitária (espectrina, anquirina).

Epidemiologia

A esferocitose hereditária é mais prevalente em populações de origem europeia, especialmente em indivíduos brancos.

Como Suspeitar?

A suspeita clínica deve ser levantada em pacientes, frequentemente crianças, que apresentam uma tríade clássica: anemia hemolítica crônica, esplenomegalia e icterícia intermitente. O "pulo do gato" para a prova é a característica hipercrômica das hemácias no hemograma (aumento do CHCM - Concentração de Hemoglobina Corpuscular Média), que reflete a perda de superfície da membrana e a consequente concentração da hemoglobina dentro do volume reduzido do esferócito.

🔎 Diagnóstico: Tríade clássica: Anemia hemolítica crônica + Esplenomegalia + Icterícia. O CHCM elevado é um marcador importante.

Diagnóstico

O diagnóstico da esferocitose hereditária envolve uma combinação de achados clínicos, laboratoriais e testes específicos:

🧪 Exame: O Teste de Ligação da EMA é o padrão-ouro atual, com melhor sensibilidade e especificidade que o Teste de Fragilidade Osmótica.

Tratamento

O tratamento da esferocitose hereditária visa controlar a hemólise e suas complicações:

💊 Tratamento: Esplenectomia é curativa, mas deve ser adiada até os 4-5 anos para minimizar o risco de sepse pós-esplenectomia.
Esplenectomia
Esplenectomia Precoce (Antes dos 4-5 Anos)

A realização da esplenectomia antes dos 4-5 anos de idade aumenta significativamente o risco de sepse fulminante pós-esplenectomia (SPS), uma complicação grave e potencialmente fatal, principalmente por bactérias encapsuladas como Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae tipo b e Neisseria meningitidis.

Em algumas situações específicas, os benefícios da esplenectomia precoce superam os riscos, justificando a intervenção antes dos 4-5 anos:

🚨 Emergência: Crise de sequestro esplênico é uma indicação para esplenectomia precoce, mesmo antes dos 4-5 anos.
Esplenectomia em Adultos

Embora a esferocitose hereditária seja frequentemente diagnosticada na infância, casos mais leves podem ser identificados apenas na vida adulta. Nesses adultos, a esplenectomia pode ser indicada, especialmente se houver complicações como eventos trombóticos (ex: trombose venosa profunda, embolia pulmonar) ou acidente vascular encefálico (AVE), que podem estar associados à hemólise crônica e ao estado de hipercoagulabilidade.

Procedimento da Esplenectomia

A esplenectomia pode ser realizada por via videolaparoscópica, sendo preferencialmente total na maioria dos casos. Em algumas situações, a esplenectomia parcial pode ser considerada para preservar alguma função esplênica, embora seja menos comum.

💊 Tratamento: Vacinação pré-esplenectomia contra pneumococo, meningococo e Haemophilus influenzae tipo b é crucial, idealmente 2 semanas antes.
Achados Pós-Esplenectomia

Após uma esplenectomia bem-sucedida, a ausência do baço (que normalmente remove essas inclusões) leva ao aparecimento de Corpúsculos de Howell-Jolly no esfregaço de sangue periférico. Estes são fragmentos nucleares de DNA que permanecem nos eritrócitos e são um indicador da asplenia funcional ou anatômica.

🔬 Achado: Corpúsculos de Howell-Jolly são um marcador de asplenia ou hipoesplenismo, sendo esperados após esplenectomia.
Ausência de Corpúsculos de Howell-Jolly Pós-Esplenectomia

Se os Corpúsculos de Howell-Jolly não forem encontrados após uma esplenectomia, isso pode indicar a presença de um baço acessório (esplenose) que está realizando a função de filtragem. Nesses casos, a cintilografia com tecnécio-99m (marcado com hemácias desnaturadas) é o exame de escolha para localizar o tecido esplênico remanescente.

🔎 Diagnóstico: Ausência de Howell-Jolly pós-esplenectomia sugere baço acessório; investigar com cintilografia.

Anemia Falciforme

A anemia falciforme é uma das hemoglobinopatias genéticas mais prevalentes, caracterizada por uma alteração na estrutura da hemoglobina que leva à formação de hemácias em formato de foice. Essa modificação resulta em hemólise crônica e eventos vaso-oclusivos, que são a base das manifestações clínicas da doença.

Estrutura da Hemoglobina Normal

A hemoglobina é uma proteína complexa composta por quatro subunidades (globinas), cada uma ligada a uma porção heme contendo ferro. As globinas são cadeias polipeptídicas que se combinam de diferentes formas para constituir os tipos de hemoglobina presentes no organismo:

A formação dessas cadeias é geneticamente determinada, com cada indivíduo recebendo uma cadeia alfa e uma beta (ou delta/gama) de cada genitor.

Base Genética da Anemia Falciforme

A anemia falciforme é causada por uma mutação pontual no gene da cadeia beta da globina. Essa mutação específica leva à substituição do ácido glutâmico pela valina na sexta posição da cadeia beta, resultando na formação de uma cadeia beta anômala, designada como βs.

🧬 Conceito Chave: A anemia falciforme (HbSS) ocorre quando o indivíduo herda duas cópias do gene mutante βs (uma do pai e uma da mãe), sendo, portanto, homozigoto para a mutação. Isso significa que não há produção de cadeias beta normais (βA), e a hemoglobina predominante é a Hemoglobina S (HbS), composta por duas cadeias alfa e duas cadeias βs.

Em contraste, o traço falcêmico (HbAS) ocorre quando o indivíduo herda uma cadeia beta normal (βA) de um genitor e uma cadeia beta mutante (βs) do outro, sendo, portanto, heterozigoto. Nesses casos, há produção tanto de hemoglobina A normal quanto de hemoglobina S. A maioria dos indivíduos com traço falcêmico é assintomática, mas o aconselhamento genético é crucial para casais com traço falcêmico devido ao risco de ter filhos com anemia falciforme.

Doença Falciforme Genótipo Características Eletroforese de Hemoglobina (Adulto)
Anemia Falciforme (HbSS) Homozigose para o gene Beta-S (βsβs) Doença mais grave, pior prognóstico. Ausência de HbA. HbS (86-98%), HbA2 (2%), HbF (5-15%)
Traço Falcêmico (HbAS) Heterozigose (βAβs) Geralmente assintomático, bom prognóstico. Presença de HbA e HbS. HbA (~60%), HbS (~40%), HbA2 (~1%), HbF (~1%)

Fisiopatologia: Polimerização e Vaso-Oclusão

O principal problema da Hemoglobina S é sua tendência à polimerização. Em condições de baixa oxigenação (desoxigenação), desidratação ou acidose, as moléculas de HbS se agrupam e formam polímeros rígidos dentro da hemácia. Esse processo de polimerização deforma a hemácia, que adquire o característico formato de foice.

Inicialmente, essa deformação é reversível: ao ser reoxigenada (por exemplo, nos pulmões), a hemácia pode retornar à sua forma bicôncava normal. No entanto, após ciclos repetidos de falcização e reversão, a membrana da hemácia sofre danos irreversíveis, e ela permanece em formato de foice de forma permanente. Essas hemácias falcizadas são:

A combinação da rigidez, adesividade e formato alterado das hemácias falcizadas leva à oclusão dos vasos sanguíneos, especialmente nas vênulas pós-capilares, onde a tensão de oxigênio é menor. Essa oclusão causa isquemia e infarto tecidual, sendo a base das crises vaso-oclusivas e da disfunção orgânica crônica observadas na doença.

💡 Dica de Prova: A doença falciforme, especialmente o traço falcêmico (HbAS), confere um grau de resistência à malária causada pelo Plasmodium falciparum. Outras condições que alteram a estrutura ou função do eritrócito, como deficiência de G6PD, talassemias e deficiência de DARC, também oferecem proteção contra a malária.

Manifestações Clínicas

As manifestações clínicas da anemia falciforme geralmente não aparecem antes dos 6 meses de idade. Isso ocorre porque, nos primeiros meses de vida, a Hemoglobina Fetal (HbF), que não sofre falcização, é predominante e protege o bebê dos efeitos da HbS.

Crises Agudas
Sequestro Esplênico

O baço é um dos órgãos mais suscetíveis à polimerização das hemácias devido ao seu ambiente de baixa oxigenação e alta osmolaridade. Em crianças com menos de 4-5 anos, a polimerização maciça das hemácias no baço pode levar a uma oclusão venosa, impedindo o fluxo de saída do órgão. Isso resulta em:

Após os 4-5 anos de idade, a maioria dos pacientes com anemia falciforme desenvolve uma autoesplenectomia funcional. As crises vaso-oclusivas repetidas no baço levam a infartos, necrose e fibrose progressiva do órgão, que se torna atrófico e não mais palpável. Consequentemente, o sequestro esplênico é raro em crianças mais velhas e adultos.

⚠️ Atenção: Se o baço permanecer palpável após os 5 anos em um paciente com diagnóstico de doença falciforme, deve-se considerar a possibilidade de variantes da doença, como hemoglobinopatia SC ou S-talassemia, que podem ter um curso clínico diferente e menor grau de autoesplenectomia. A persistência de altos níveis de HbF também pode proteger o baço.
Crises Vaso-Oclusivas

As crises vaso-oclusivas (CVO) são a marca registrada da anemia falciforme e a principal causa de dor e dano orgânico. Elas ocorrem em locais com alta osmolaridade e baixa tensão de oxigênio, como o baço, a medula óssea e os rins.

Síndrome Mão-Pé (Dactilite)

É frequentemente a primeira manifestação clínica da anemia falciforme, ocorrendo em cerca de 50% das crianças entre 6 meses e 2-3 anos de idade. É causada pela polimerização das hemácias na medula óssea dos pequenos ossos das mãos e dos pés, levando a isquemia periosteal.

Crise Óssea (Crise Álgica/Osteoarticular)

É a crise dolorosa osteoarticular mais comum em pacientes acima de 3 anos de idade. A polimerização na medula óssea de ossos mais calcificados causa isquemia e dor intensa, sem o edema da dactilite.

Crise Abdominal

Resulta da isquemia mesentérica devido à oclusão dos vasos sanguíneos do intestino. Pode simular um abdome agudo cirúrgico.

Síndrome Torácica Aguda (STA)

Atualmente, é a principal causa de morte em pacientes com anemia falciforme. É uma emergência médica.

Acidente Vascular Encefálico (AVE)

É uma complicação grave da anemia falciforme.

Priapismo

Ereção peniana prolongada, dolorosa e não associada à estimulação sexual.

Infecções

Pacientes com anemia falciforme têm um risco aumentado de infecções devido à disfunção esplênica (autoesplenectomia funcional), que compromete a capacidade de combater bactérias encapsuladas.

Disfunção Orgânica Crônica

A isquemia e os infartos repetidos ao longo da vida levam a danos progressivos em diversos órgãos.

Lesão Renal

Os rins são particularmente vulneráveis devido à sua alta osmolaridade e baixa tensão de oxigênio na medula renal.

🩸 Observação: Pacientes com traço falcêmico (HbAS) podem apresentar hematúria isolada como única alteração renal. A anemia falciforme é uma causa de doença renal crônica com rins de tamanho normal ou aumentado.
Lesão Óssea

A polimerização na medula óssea afeta a remodelação óssea e a vascularização.

Outras Disfunções Crônicas
🔎 Diferencial: Hemoglobinopatia SC

É uma variante da doença falciforme (HbSC) que, embora geralmente menos grave que a HbSS, apresenta algumas particularidades:

Prevenção

A prevenção de complicações é um pilar fundamental no manejo da anemia falciforme, visando reduzir a morbidade e mortalidade.

Tratamento

Tratamento Agudo

O manejo das crises agudas visa reverter as condições que favorecem a falcização e aliviar os sintomas.

Medidas Gerais
Antibioticoterapia

Não é indicada rotineiramente para todas as crises agudas, mas é crucial na suspeita de infecção.

Transfusão Sanguínea
Transfusão Simples

Administração de concentrado de hemácias para aumentar a oferta de oxigênio e diluir as hemácias falcizadas.

Exsanguineotransfusão (Transfusão de Troca)

Procedimento em que o sangue do paciente é removido e substituído por sangue de doador, visando reduzir rapidamente a porcentagem de HbS e a viscosidade sanguínea.

🧠 Macete: Para lembrar as indicações de exsanguineotransfusão: "EXSANGUINEO = AVE, STA, PRI".
Transfusão Crônica

Programa de transfusões regulares para manter a HbS em níveis baixos e prevenir complicações.

Tratamento Crônico
Hidroxiureia

É a principal droga modificadora da doença, utilizada no tratamento crônico da anemia falciforme.

Transplante de Medula Óssea (TMO)

É o único tratamento curativo para a anemia falciforme.

Beta-Talassemia

As talassemias são um grupo de hemoglobinopatias caracterizadas pela redução ou ausência da síntese de uma ou mais cadeias de globina. Nas beta-talassemias, a deficiência afeta as cadeias beta. A gravidade da doença depende do tipo de mutação herdada:

Diferente da anemia falciforme, que geralmente envolve uma única mutação (βS), as beta-talassemias podem apresentar diversas combinações genotípicas, resultando em um espectro de gravidade clínica.

💡 Dica de Prova: As talassemias são mais prevalentes em populações com ancestralidade de regiões banhadas pelo Mar Mediterrâneo (ex: italianos no Brasil). Curiosamente, a presença do traço talassêmico confere proteção contra as formas graves de malária.

Genótipos e Formas Clínicas

A apresentação clínica das beta-talassemias varia amplamente, sendo classificada em três principais formas com base na combinação dos genes beta mutantes:

Classificação Genótipo Características Clínicas
Talassemia Major β00 ou β0+ Forma gravíssima, com ausência ou produção mínima de cadeias beta. Expectativa de vida muito reduzida sem tratamento adequado.
Talassemia Intermedia β++ Anemia moderada e esplenomegalia. Geralmente não causa problemas graves, assemelhando-se ao traço falciforme em termos de benignidade.
Talassemia Minor β/β+ ou β/β0 Assintomática ou com anemia leve. É a forma mais comum e um importante diagnóstico diferencial da anemia ferropriva.

Talassemia Major

Esta é a forma mais grave da doença, caracterizada pela ausência ou produção mínima de cadeias beta. A fisiopatologia e as manifestações clínicas são complexas e multifacetadas:

🧠 Conceito Chave: A Talassemia Major é também conhecida como Anemia de Cooley. A fáscie de esquilo, com proeminência do malar, é uma manifestação clássica da hiperplasia eritroide.
Diagnóstico

O diagnóstico é confirmado pela eletroforese de hemoglobina, que revela um padrão característico:

Tratamento

O tratamento da Talassemia Major é complexo e visa controlar a anemia e a sobrecarga de ferro:

Talassemia Intermedia

Esta forma apresenta um quadro clínico mais brando que a Talassemia Major, com diagnóstico frequentemente tardio (adolescência ou adulto jovem).

Tratamento

Talassemia Minor

A Talassemia Minor é a forma mais benigna e frequentemente assintomática, sendo um desafio diagnóstico diferencial importante.

🔎 Diagnóstico Diferencial: A Talassemia Minor é o principal diagnóstico diferencial da anemia ferropriva. A chave está na cinética do ferro normal e no RDW normal na talassemia minor, apesar da microcitose e hipocromia.
Tratamento

Não há tratamento específico para a Talassemia Minor, pois geralmente não causa sintomas significativos. O principal manejo é o aconselhamento genético, especialmente para casais que planejam ter filhos, a fim de avaliar o risco de formas mais graves da doença.

Alfa-Talassemia

As alfa-talassemias resultam da redução ou ausência da síntese de cadeias alfa de globina. A hemoglobina normal é composta por quatro cadeias de globina (duas alfa e duas beta para HbA, duas alfa e duas delta para HbA2, duas alfa e duas gama para HbF). A deficiência de cadeias alfa afeta a formação de todas as hemoglobinas normais.

🧬 Lembrete de Hemoglobina: A redução da produção de cadeias alfa leva às alfa-talassemias, enquanto a redução das cadeias beta leva às beta-talassemias.

Conceitos Essenciais

Formas Clínicas

A gravidade da alfa-talassemia é diretamente proporcional ao número de genes alfa deletados:

Classificação Deleções Gênicas Características Eletroforese de Hb
Carreador Assintomático 1 gene (αα/α-) Geralmente assintomático. Normal.
Alfa-Talassemia Minor / Traço Alfa-Talassêmico 2 genes (αα/-- ou α-/α-) Microcitose e hipocromia leves, espectro clínico similar à beta-talassemia minor. Normal.
Alfa-Talassemia Intermedia / Doença da Hemoglobina H (HbH) 3 genes (α-/---) Anemia hemolítica moderada a grave, espectro clínico similar à beta-talassemia intermedia. 5 a 40% de HbH (tetrâmero de cadeias beta - β4).
Alfa-Talassemia Major / Hidropsia Fetal 4 genes (----) Incompatível com a vida, resultando em morte fetal durante a gravidez (hidropsia fetal). Não há formação de hemoglobina normal. Até 80% de Hb Barts (tetrâmero de cadeias gama - γ4). A Hb Barts capta oxigênio, mas não o distribui eficientemente aos tecidos.

Anemia Hemolítica Autoimune (AHAI)

A Anemia Hemolítica Autoimune (AHAI) é a anemia hemolítica adquirida mais importante, tanto pela frequência quanto pela potencial gravidade. Caracteriza-se pela produção de autoanticorpos que se ligam às hemácias, levando à sua destruição.

Características Gerais

🔎 Diferencial: A presença de esferócitos no esfregaço, em conjunto com um Coombs direto positivo, é crucial para diferenciar a AHAI de outras causas de esferocitose, como a esferocitose hereditária (onde o Coombs é negativo).

Causas

A AHAI pode ser:

Fisiopatologia: IgG (Quente) vs. IgM (Frio)

A AHAI é classificada em dois subtipos principais com base na classe do autoanticorpo e na temperatura ideal de sua reatividade:

⚠️ Atenção: Embora a AHAI por IgG seja mais comum, a AHAI por IgM pode ser grave devido à sua alta capacidade de ativar o complemento, podendo levar a hemólise intravascular.

AHAI por IgG (Quente)

Representa cerca de 75% dos casos de AHAI. Os autoanticorpos são frequentemente direcionados contra antígenos do sistema Rh.

Tratamento
🚨 Emergência: Em pacientes com AHAI grave e Hb muito baixa (ex: 3 g/dL), a transfusão sanguínea é um desafio, pois a prova cruzada geralmente aglutina devido aos autoanticorpos. Nesses casos, a transfusão deve ser autorizada com sangue ABO e Rh compatível, desconsiderando a prova cruzada, para salvar a vida do paciente.

AHAI por IgM/Complemento (Frio)

Os autoanticorpos IgM, também conhecidos como crioaglutininas, reagem em baixas temperaturas e são direcionados contra antígenos do grupo "I" nas hemácias.

Tratamento

Hemoglobinúria Paroxística Noturna (HPN)

A Hemoglobinúria Paroxística Noturna (HPN) é uma desordem genética adquirida, não hereditária, que se manifesta na vida adulta. É caracterizada por uma mutação somática na célula-tronco hematopoética (gene PIG-A), resultando na deficiência de proteínas de ancoragem glicosilfosfatidilinositol (GPI) na superfície das células sanguíneas, como CD55 e CD59.

Conceitos Essenciais

🧠 Lembre-se: CD55 (DAF - Decay-Accelerating Factor) e CD59 (MIRL - Membrane Inhibitor of Reactive Lysis) são cruciais para proteger as células do ataque do complemento. Sua deficiência é a base da HPN.

Epidemiologia e Início

A HPN geralmente se manifesta entre os 30 e 40 anos de idade, sendo mais frequente no sexo masculino.

Tríade Clássica

A HPN é classicamente associada a uma tríade de manifestações:

  1. Tromboses Abdominais: É uma complicação grave e característica, podendo ocorrer em qualquer leito vascular, mas classicamente nas veias abdominais, como a veia hepática (Síndrome de Budd-Chiari). A ativação plaquetária e a formação de vesículas protetoras pelas plaquetas deficientes em GPI contribuem para um estado protrombótico.
  2. Pancitopenia: Devido à destruição de leucócitos e plaquetas pelo complemento, além da anemia.
  3. Anemia Hemolítica Intravascular: Com hemoglobinúria (urina escura) e hemosiderinúria. A perda crônica de ferro através da urina pode levar ao desenvolvimento de anemia ferropriva concomitante.
⚠️ Alerta Clínico: Em pacientes com trombose da veia hepática (Síndrome de Budd-Chiari), a HPN deve ser sempre considerada como um diagnóstico diferencial importante.

Manifestações Clínicas Adicionais

Diagnóstico

O diagnóstico de HPN é estabelecido pela:

Tratamento

O tratamento da HPN visa inibir a ativação do complemento e controlar as complicações: