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Anemias Hipoproliferativas


Anemia Ferropriva

Introdução

A anemia ferropriva é a deficiência nutricional mais comum globalmente e a anemia mais prevalente, caracterizada pela redução dos estoques de ferro no organismo, o que impede a produção adequada de hemoglobina e, consequentemente, de eritrócitos funcionais.

🧠 Lembre-se: A anemia ferropriva é a mais comum das anemias em todo o mundo!

Manifestações Clínicas

Os sintomas da anemia ferropriva podem ser agrupados em três categorias principais, refletindo a síndrome anêmica geral, a carência nutricional inespecífica e as manifestações específicas da deficiência de ferro.

🔎 Síndrome de Plummer-Vinson: Anemia ferropriva + disfagia. Importante notar que não é patognomônico da AF, podendo ser observada também em casos de hipotireoidismo grave.

Ciclo do Ferro

Para compreender os achados laboratoriais da anemia ferropriva, é fundamental entender o ciclo do ferro no organismo. O ferro é um elemento essencial que, uma vez absorvido, é amplamente reciclado, com perdas mínimas.

💡 Absorção e Transporte: O ferro é absorvido no duodeno/jejuno proximal e transportado pela transferrina, uma proteína hepática.
🧠 Ferritina: Representa o estoque corporal de ferro. A maior parte do ferro no corpo (cerca de 70%) está nas hemácias.

Etiologia

A anemia ferropriva não é uma doença em si, mas sim um sinal de uma condição subjacente. A principal causa de anemia ferropriva é a perda crônica de sangue, uma vez que o ferro é eficientemente reciclado e as perdas fisiológicas são mínimas.

⚠️ Principal Causa: Sangramento crônico! Sempre investigar a origem da perda sanguínea.

As causas variam conforme a faixa etária:

🚨 Paciente > 50 anos com AF: A investigação de hemorragia gastrointestinal é imperativa e deve incluir Endoscopia Digestiva Alta (EDA) e Colonoscopia para excluir malignidades. O exame de Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes (PSOF) não é o método mais adequado devido à alta taxa de falsos positivos e negativos.

Achados Laboratoriais

A progressão da deficiência de ferro até a anemia manifesta-se em etapas distintas nos exames laboratoriais, começando pela depleção dos estoques e culminando na alteração da morfologia eritrocitária.

🩸 Progressão Laboratorial: Ferritina ↓ → Transferrina/TIBC ↑ → Ferro Sérico/Saturação ↓. A anemia só se manifesta após essas alterações.

Hemograma

As alterações no hemograma refletem a capacidade da medula óssea de produzir hemácias com o ferro disponível.

Manejo Terapêutico

O tratamento da anemia ferropriva envolve duas etapas cruciais: a identificação e tratamento da causa subjacente e a reposição do ferro.

1ª Etapa: Investigar e Tratar a Causa

É fundamental lembrar que a anemia ferropriva é um sinal, não uma doença primária. O tratamento da anemia sem abordar sua causa pode mascarar condições graves.

💊 Tratamento da Causa: A reposição de ferro é importante, mas a prioridade é identificar e tratar a condição que levou à deficiência.

2ª Etapa: Reposição de Ferro

A reposição é feita com sulfato ferroso, preferencialmente por via oral.

💊 Monitoramento e Duração: Pico de reticulócitos em 5-10 dias. Tratar por 6 meses após normalização da Hb ou até Ferritina > 50 ng/mL.

Anemia de Doença Crônica

Introdução e Fisiopatologia

A anemia de doença crônica (ADC) é a segunda anemia mais comum, superada apenas pela anemia ferropriva. Ela se desenvolve em pacientes com doenças crônicas que apresentam um componente inflamatório significativo, como infecções crônicas (ex: tuberculose), doenças inflamatórias autoimunes (ex: artrite reumatoide, LES) ou neoplasias.

A fisiopatologia central da ADC envolve a ação de citocinas inflamatórias, que levam à produção hepática de hepcidina. A hepcidina é o principal regulador do metabolismo do ferro e atua de duas formas principais:

🧠 Fisiopatologia da ADC: Doença crônica inflamatória → Citocinas ↑ → Hepcidina ↑ → Ferro "preso" na ferritina e Transferrina ↓.

Achados Laboratoriais

Os exames laboratoriais na ADC refletem a disfunção no metabolismo do ferro induzida pela inflamação, com um perfil distinto da anemia ferropriva.

Hemograma

As características morfológicas das hemácias na ADC também são importantes para o diagnóstico diferencial.

🔎 Diferencial AF vs. ADC:

Manejo Terapêutico

O tratamento da anemia de doença crônica difere fundamentalmente da anemia ferropriva, pois o problema não é a falta de ferro, mas sim sua indisponibilidade.

💊 Tratamento da ADC: Focar no controle da doença de base. A reposição de ferro não é necessária e pode ser contraindicada.

Comparativo - Anemia Ferropriva vs Anemia de Doença Crônica

Parâmetro Anemia Ferropriva (AF) Anemia de Doença Crônica (ADC)
Ferro Sérico Diminuído (↓) Diminuído (↓)
Ferritina Diminuída (↓) Aumentada ou Normal-Alta (↑/N)
Transferrina / TIBC Aumentados (↑) Diminuídos (↓)
Saturação de Transferrina Diminuída (↓) Diminuída ou Normal (↓/N)
Morfologia Eritrocitária Microcítica/Hipocrômica (clássico) Normocítica/Normocrômica (clássico)
RDW Aumentado (↑) Normal ou Ligeiramente Aumentado (N/↑)
Tratamento Reposição de ferro + Tratar causa Tratar doença de base (não repor ferro)

Anemia Megaloblástica

A anemia megaloblástica é uma condição hematológica caracterizada pela produção de eritrócitos grandes e imaturos (megaloblastos) devido a um defeito na síntese de DNA. As principais causas são as deficiências de vitamina B12 (cobalamina) ou ácido fólico (folato), nutrientes essenciais para a replicação celular.

Causas e Fisiopatologia Essencial

Deficiência de Vitamina B12 ou Ácido Fólico

A anemia megaloblástica é primariamente uma anemia carencial, resultante da insuficiência de vitamina B12 ou ácido fólico. Ambos são cofatores cruciais na síntese de DNA, um processo fundamental para a divisão e maturação celular. Sem esses nutrientes, as células precursoras na medula óssea não conseguem completar sua divisão, resultando em células maiores e disfuncionais.

🧠 Conceito Chave: A deficiência de B12 ou folato compromete a síntese de DNA, levando à produção de células grandes e imaturas, especialmente na medula óssea.
Interconexão Metabólica: Folato e Vitamina B12

O ácido fólico que ingerimos na dieta está em uma forma inativa. Para se tornar biologicamente ativo e participar da síntese de material genético, ele precisa ser convertido. A vitamina B12 atua como um cofator essencial nessa reação de ativação do folato. Assim, a ausência de B12 impede a ativação do folato, mesmo que este esteja presente em quantidades adequadas. Portanto, tanto a deficiência direta de folato quanto a deficiência de B12 (que impede a ativação do folato) culminam em uma síntese deficiente de DNA.

Outra reação metabólica importante que depende tanto da vitamina B12 quanto do folato é a conversão da homocisteína em metionina. A deficiência de qualquer um desses nutrientes leva ao acúmulo de homocisteína no plasma, um marcador bioquímico relevante que será discutido adiante.

💡 Dica de Prova: A vitamina B12 é indispensável para a ativação do folato e para a conversão de homocisteína em metionina. Sua deficiência afeta indiretamente a função do folato e causa acúmulo de homocisteína.

Manifestações Laboratoriais

A redução na síntese de material genético afeta a proliferação de todas as linhagens celulares, mas é mais evidente em tecidos com alta taxa de renovação, como o sistema hematopoético e o trato gastrointestinal. A medula óssea, responsável pela produção diária de milhões de células sanguíneas, é particularmente sensível a essa deficiência.

Achados Hematológicos Característicos

Morfologia Celular

A incapacidade dos precursores celulares de se dividirem adequadamente resulta em células maiores. No esfregaço de sangue periférico, os achados mais marcantes são:

🔎 Patognomônico para Prova: A presença de neutrófilos hiper/plurissegmentados no esfregaço de sangue periférico é considerada um achado patognomônico de anemia megaloblástica em contextos de prova de residência.
Eritropoiese Ineficaz

A medula óssea tenta produzir hemácias, mas os precursores eritroides, devido ao defeito na síntese de DNA, tornam-se grandes e anormais (megaloblastos). Esses precursores são reconhecidos como defeituosos pelos macrófagos medulares e são destruídos antes de atingirem a circulação periférica. Este processo é denominado eritropoiese ineficaz.

⚠️ Atenção: Embora haja elevação de BI e LDH, o processo é de eritropoiese ineficaz (destruição de precursores na medula), e não hemólise (destruição de hemácias maduras na periferia).
Pancitopenia

Como a deficiência de DNA afeta todas as linhagens hematopoéticas, os pacientes podem apresentar, além da anemia, leucopenia (redução de leucócitos) e plaquetopenia (redução de plaquetas), caracterizando uma pancitopenia. Geralmente, esta pancitopenia é de grau leve.

Metabolismo do Ácido Fólico

O ácido fólico, ou folato, é uma vitamina hidrossolúvel essencial para a síntese de nucleotídeos e, consequentemente, para a replicação do DNA e reparo celular.

Origem e Absorção

Dependência da Vitamina B12 para Ativação

Conforme mencionado, o folato dietético é absorvido em sua forma inativa e requer a presença de vitamina B12 para ser convertido em sua forma ativa, que é metabolicamente funcional na síntese de DNA.

Causas de Deficiência de Ácido Fólico

A deficiência de folato pode surgir de diversas situações:

Metabolismo da Vitamina B12 (Cobalamina)

A vitamina B12, ou cobalamina, é uma vitamina hidrossolúvel complexa, essencial para a síntese de DNA, maturação de eritrócitos e manutenção da integridade do sistema nervoso.

Origem e Processo de Absorção

O processo de absorção da vitamina B12 é complexo e envolve várias etapas:

Causas de Deficiência de Vitamina B12

A deficiência de B12 pode resultar de problemas em qualquer etapa do seu complexo processo de absorção:

🚨 Alerta: A Anemia Perniciosa é a principal causa de deficiência de B12 e deve ser sempre considerada, especialmente em pacientes com outras doenças autoimunes.

Manifestações Clínicas

As manifestações clínicas da anemia megaloblástica são variadas e podem ser divididas em sintomas gerais da síndrome anêmica, sinais de carência nutricional e, crucialmente, sintomas neurológicos específicos da deficiência de vitamina B12.

Sinais e Sintomas Gerais

Diferenciação Clínica entre Deficiência de B12 e Folato

Sintomas Neurológicos (Exclusivo da Deficiência de B12)

A presença de manifestações neurológicas é o principal diferencial clínico entre a deficiência de vitamina B12 e a de ácido fólico. A B12 é essencial para a conversão do ácido metilmalônico em succinil-CoA. Na sua ausência, o ácido metilmalônico (AMM) se acumula, sendo tóxico para os neurônios e prejudicando a síntese e manutenção da bainha de mielina.

A síndrome neurológica associada à deficiência de B12 é conhecida como degeneração combinada da medula espinhal e pode se manifestar de diversas formas, afetando diferentes partes do sistema nervoso:

🧠 Lembre-se: Sintomas neurológicos, como parestesias, perda de propriocepção e disfunção cognitiva, são exclusivos da deficiência de vitamina B12 devido ao acúmulo de ácido metilmalônico, que lesa a bainha de mielina.

Diferenciação Laboratorial e Marcadores Bioquímicos

Além dos achados hematológicos gerais da anemia megaloblástica, a dosagem de marcadores bioquímicos específicos é crucial para diferenciar a deficiência de vitamina B12 da deficiência de ácido fólico, especialmente em contextos de prova.

Marcadores Bioquímicos Chave

Marcador Deficiência de Vitamina B12 Deficiência de Ácido Fólico
VCM Elevado (> 110 fL) Elevado (> 110 fL)
Neutrófilos Plurissegmentados Presentes Presentes
Homocisteína Elevada Elevada
Ácido Metilmalônico (AMM) Elevado Normal
Sintomas Neurológicos Presentes Ausentes
💡 Dica High Yield: Para diferenciar as deficiências, lembre-se que o Ácido Metilmalônico (AMM) elevado e a presença de sintomas neurológicos são marcadores exclusivos da deficiência de B12.

Tratamento

O tratamento da anemia megaloblástica consiste na reposição do nutriente deficiente, seja vitamina B12 ou ácido fólico.

Deficiência de Vitamina B12

Considerando que a principal causa global é a anemia perniciosa (onde há falha na absorção intestinal), a via parenteral é frequentemente preferida para garantir a reposição adequada.

Deficiência de Ácido Fólico

A reposição de ácido fólico é mais simples, geralmente realizada por via oral.

Cuidados e Considerações Importantes

Risco de Hipocalemia na Reposição

Após o início da reposição de vitamina B12 ou folato, ocorre um rápido aumento da proliferação celular, especialmente na medula óssea. As novas células em formação demandam uma grande quantidade de potássio para seu metabolismo e para manter o equilíbrio eletrolítico intracelular. Isso pode levar a um desvio de potássio do espaço extracelular para o intracelular, resultando em hipocalemia (redução dos níveis séricos de potássio).

🩸 Monitoramento Essencial: É crucial monitorar os níveis séricos de potássio, especialmente na primeira semana de tratamento, devido ao risco de hipocalemia.

Mascaramento da Deficiência de B12 pelo Folato

Um dos cuidados mais críticos no manejo da anemia megaloblástica é a diferenciação precisa entre a deficiência de B12 e a de folato antes de iniciar o tratamento. Se um paciente com deficiência de vitamina B12 for tratado apenas com ácido fólico, a anemia pode melhorar, pois o folato em altas doses pode, em certa medida, contornar a necessidade de B12 para a síntese de DNA e a produção de hemácias.

No entanto, a reposição de folato não corrige o acúmulo de ácido metilmalônico, que é a causa subjacente dos danos neurológicos na deficiência de B12. Consequentemente, enquanto a anemia melhora, os sintomas neurológicos podem progredir e se tornar irreversíveis.

⚠️ Alerta Crítico: Nunca trate uma anemia megaloblástica com folato sem antes excluir a deficiência de B12. A reposição isolada de folato pode mascarar a deficiência de B12, melhorando a anemia, mas permitindo a progressão e irreversibilidade do dano neurológico.

Anemia Sideroblástica

A anemia sideroblástica é um grupo de distúrbios caracterizado pela incapacidade da medula óssea de incorporar o ferro de forma eficaz na síntese do heme, resultando em acúmulo de ferro nas mitocôndrias dos eritroblastos e, consequentemente, na formação de sideroblastos em anel.

Patogênese

O cerne da anemia sideroblástica reside na incapacidade de fabricar protoporfirina, um precursor essencial do grupamento heme. Sem protoporfirina, o ferro não pode ser utilizado adequadamente para formar a hemoglobina, levando à anemia e, paradoxalmente, ao acúmulo de ferro no organismo, com risco de hemocromatose secundária.

🧠 Conceito-chave: Ferro abundante, mas inutilizável! A deficiência na síntese de protoporfirina impede a formação do heme, resultando em eritropoiese ineficaz e sobrecarga de ferro.

Causas

Achados Laboratoriais

Os exames laboratoriais refletem a eritropoiese ineficaz e o acúmulo de ferro:

Diagnóstico Específico

Tratamento


Porfirias

As porfirias são um grupo heterogêneo de doenças metabólicas, geralmente hereditárias, resultantes de deficiências enzimáticas específicas na via de biossíntese do heme. Essas deficiências levam ao acúmulo de precursores do heme (como ALA e PBG) ou de porfirinas, que são tóxicos e causam manifestações clínicas variadas, afetando principalmente a medula óssea e o fígado.

Conceito

Tipos de Porfiria

Porfiria Cutânea Tarda (PCT)

É a porfiria mais comum, caracterizada por uma deficiência da enzima uroporfirinogênio descarboxilase. Os achados clínicos são predominantemente cutâneos, devido à fotossensibilidade das porfirinas acumuladas.

Porfiria Intermitente Aguda (PIA)

A PIA é uma porfiria hepática aguda, caracterizada por ataques neuroviscerais graves. É causada pela deficiência da enzima HMB-sintase (hidroximetilbilano sintase), também conhecida como porfobilinogênio desaminase. Isso leva ao acúmulo de ácido delta-aminolevulínico (ALA) e porfobilinogênio (PBG), que são neurotóxicos.

💡 Dica para prova: Pense em PIA quando houver "Encefalopatia + piora com fatores precipitantes + paciente jovem + 'surtos' + TC normal".
Clínica da Porfiria Intermitente Aguda

A PIA se manifesta em "surtos" ou crises agudas, principalmente em adultos jovens (20-30 anos), e é frequentemente desencadeada por fatores precipitantes.

Diagnóstico da Porfiria Intermitente Aguda

O diagnóstico é feito pela dosagem dos precursores da via do heme:

Tratamento da Porfiria Intermitente Aguda

O tratamento visa interromper a crise aguda e prevenir novas exacerbações:

Característica Porfiria Cutânea Tarda (PCT) Porfiria Intermitente Aguda (PIA)
Enzima Deficiente Uroporfirinogênio Descarboxilase HMB-Sintase (PBG Deaminase)
Manifestações Principais Cutâneas (bolhas, úlceras, hipertricose) Neuroviscerais (dor abdominal, neuropatia, psiquiátricas)
Precursores Acumulados Porfirinas ALA e PBG
Diagnóstico Porfirinas plasmáticas/urinárias PBG urinário elevado
Tratamento Agudo Flebectomias, cloroquina em baixa dose Glicose IV, Hemina/Arginato de Heme

Anemia Aplásica (Aplasia de Medula)

A anemia aplásica é uma condição grave caracterizada pela falência da medula óssea em produzir células sanguíneas. Embora o nome sugira apenas anemia, a doença se manifesta como uma pancitopenia, ou seja, a redução de todas as linhagens celulares (glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas).

Definições

O termo mais preciso seria "aplasia de medula", pois reflete a destruição ou supressão dos progenitores hematopoiéticos na medula óssea, levando à diminuição de todas as células sanguíneas periféricas.

🚨 Atenção: Anemia aplásica é sinônimo de pancitopenia devido à falência medular, não apenas anemia!

Patogênese

Características Clínicas

As manifestações clínicas da anemia aplásica são diretamente decorrentes da pancitopenia:

Condições Relacionadas e Diagnósticos Diferenciais

Anemia de Fanconi

É uma doença hereditária rara, autossômica recessiva, caracterizada por intensa instabilidade cromossômica e falência progressiva da medula óssea. É uma causa de aplasia de medula congênita.

🧬 Características da Anemia de Fanconi: Aplasia de medula + malformações congênitas, como manchas café-com-leite, baixa estatura, polegar anômalo ou ausente, microcefalia, anomalias renais e cardíacas. ⚠️ Não confundir com a Síndrome de Fanconi renal!

Aplasia Eritroide Pura (AEP)

Diferente da anemia aplásica, na AEP, apenas a linhagem eritroide é acometida, resultando em anemia isolada, enquanto as linhagens leucocitária e plaquetária permanecem normais.

Diagnóstico

O diagnóstico definitivo da anemia aplásica é feito pela biópsia de medula óssea.

🔎 Biópsia de Medula Óssea: Revela uma medula óssea hipocelular (menos de 30% do espaço medular ocupado por células hematopoiéticas) com infiltração gordurosa proeminente. É frequentemente descrita como um "deserto" celular.

Tratamento

O tratamento da anemia aplásica é complexo e depende da idade do paciente, da gravidade da doença e da disponibilidade de um doador compatível.


Mielodisplasia

Definições

As Síndromes Mielodisplásicas (SMD) representam um grupo heterogêneo de distúrbios clonais das células-tronco hematopoéticas. Caracterizam-se por uma hematopoiese ineficaz e displásica, o que significa que a medula óssea tem dificuldade em formar células sanguíneas maduras e funcionais. Isso resulta em citopenias no sangue periférico e na presença de células anômalas (displásicas) em uma ou mais linhagens celulares.

Em essência, a medula óssea, que deveria produzir células normais, torna-se "maluca", produzindo uma quantidade menor de células e, ainda por cima, com defeitos morfológicos e funcionais. Este processo não afeta apenas as hemácias, mas também pode envolver leucócitos e plaquetas.

🧠 Conceito Chave: Mielodisplasia é a combinação de citopenias (redução na contagem de células sanguíneas) com a presença de células anômalas (displásicas) na medula óssea e/ou sangue periférico.

Principais Causas

As SMD são primariamente causadas por mutações genéticas adquiridas nas células-tronco hematopoéticas. A etiologia pode ser classificada em:

💡 Dica para Prova: Em um paciente idoso com anemia refratária cuja causa não é facilmente identificada, a mielodisplasia deve ser considerada um diagnóstico diferencial importante.

Clínica e Sangue Periférico

A apresentação clínica das SMD é predominantemente marcada pelas consequências das citopenias, que podem afetar uma, duas ou todas as três linhagens celulares. Em casos avançados, pode haver perda ponderal.

É fundamental notar que a pancitopenia (redução de todas as três linhagens) não é uma condição obrigatória. A anemia é a única citopenia presente em 100% dos casos, podendo ou não ser acompanhada de leucopenia e/ou plaquetopenia.

Achados no Sangue Periférico e Medula Óssea

A displasia é a característica morfológica distintiva das SMD, observada em uma ou mais linhagens celulares:

As SMD são consideradas condições pré-leucêmicas, com um risco inerente de progressão para Leucemia Mieloide Aguda (LMA). Essa transformação leucêmica ocorre quando a medula óssea se torna cada vez mais displásica, levando a um bloqueio completo da maturação celular e ao acúmulo de blastos (células imaturas) na medula óssea e no sangue periférico. A LMA é definida pela presença de mais de 20% de blastos na medula óssea.

⚠️ Atenção: A presença de células displásicas no sangue periférico e na medula óssea é um pilar diagnóstico. A Anomalia de Pelger-Huët e os sideroblastos em anel são achados importantes.

Diagnóstico

O diagnóstico das SMD é complexo e requer uma avaliação integrada de achados clínicos, laboratoriais e morfológicos:

🔎 Diagnóstico: O ponto de corte para diferenciar SMD de LMA é a porcentagem de blastos na medula óssea: SMD < 20% blastos, enquanto LMA ≥ 20% blastos.

Tratamento

O tratamento das SMD é individualizado, levando em consideração o risco de progressão para LMA (determinado por sistemas de escore de risco como o IPSS-R), a idade do paciente e suas comorbidades.

💊 Tratamento: Lembre-se que o TCTH é a única opção curativa. Para pacientes não elegíveis, a terapia de suporte e os agentes hipometilantes são as principais estratégias.

Fibrose de Medula Óssea (Mielofibrose)

Definições

A mielofibrose é uma neoplasia mieloproliferativa crônica caracterizada pela proliferação clonal de células-tronco hematopoéticas. Essa proliferação anormal leva à secreção excessiva de citocinas (como TGF-β e PDGF) por megacariócitos e monócitos displásicos. Essas citocinas, por sua vez, estimulam os fibroblastos da medula óssea, resultando em uma deposição progressiva de colágeno e, consequentemente, em fibrose medular.

A mielofibrose pode ser classificada em:

🧠 Conceito Chave: A mielofibrose é uma doença clonal que culmina na fibrose da medula óssea, impedindo a hematopoiese normal. Fique atento aos termos "Metaplasia Mieloide Agnogênica" (primária) e "Mieloftise" (secundária) nas provas.

Características Clínicas e Laboratoriais

A mielofibrose se manifesta clinicamente por uma combinação de:

Achados no Sangue Periférico

O esfregaço de sangue periférico na mielofibrose apresenta achados característicos:

⚠️ Atenção: A tríade de pancitopenia, megalias e leucoeritroblastose com dacriócitos no sangue periférico é altamente sugestiva de mielofibrose.

Diagnóstico

O diagnóstico da mielofibrose é estabelecido com base em critérios clínicos, laboratoriais e, principalmente, morfológicos:

🔎 Diagnóstico: A biópsia de medula óssea com fibrose e a pesquisa das mutações JAK2, CALR e MPL são os pilares diagnósticos da mielofibrose.

Tratamento

O tratamento da mielofibrose visa aliviar os sintomas, reduzir o tamanho do baço e, em casos selecionados, curar a doença. A fibrose em si não pode ser revertida com as terapias atuais, exceto pelo transplante.

💊 Tratamento: Os inibidores de JAK são cruciais para o controle sintomático e da esplenomegalia. O TCTH é a única terapia com potencial curativo.

Comparativo - Anemias Hipoproliferativas

Característica Principal Aplasia de Medula Síndrome Mielodisplásica (SMD) Mielofibrose (MF)
Definição Essencial Falência medular com hipocelularidade acentuada. Hematopoiese ineficaz e displásica, com risco de LMA. Fibrose medular com hematopoiese extramedular.
Citopenias Pancitopenia (todas as linhagens). Anemia (100%), +/- leucopenia/plaquetopenia. Pancitopenia progressiva.
Morfologia Celular Células normais, mas em pouca quantidade. Células displásicas (Pelger-Huët, sideroblastos em anel, etc.). Dacriócitos (hemácias em lágrima), leucoeritroblastose.
Medula Óssea Hipocelularidade acentuada, sem displasia. Displasia > 10% em ≥ 1 linhagem, blastos < 20%. Fibrose reticulínica/colagênica, hipercelularidade megacariocítica atípica.
Megalias Ausentes. Ausentes. Esplenomegalia e/ou hepatomegalia (hematopoiese extramedular).
Risco de LMA Baixo. Alto (progressão comum). Variável, pode ocorrer.
Mutações Comuns N/A (exceto em formas genéticas raras). Variadas (ex: del(5q), -7, +8). JAK2, CALR, MPL.