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Distúrbios da Hemostasia


Conceitos Iniciais

A hemostasia é um processo fisiológico complexo e vital, responsável por manter a integridade vascular e prevenir a perda excessiva de sangue após uma lesão, ao mesmo tempo em que evita a formação de trombos indesejados. Este mecanismo intrincado pode ser didaticamente dividido em três fases principais, que atuam de forma coordenada para cessar o sangramento e, posteriormente, remover o coágulo formado.

🧠 Conceito-chave: A hemostasia é uma "guerra" contínua entre mecanismos pró-coagulantes e anticoagulantes, onde a vitória significa cessar o sangramento sem gerar trombose patológica.

Diferenciando Hemostasia Primária vs. Secundária

A distinção clínica entre sangramentos decorrentes de problemas na hemostasia primária (plaquetários) e secundária (coagulopatias) é fundamental para o diagnóstico e manejo adequados. Embora ambos resultem em sangramento, suas características e padrões de apresentação são distintos.

Sangramento Plaquetário (Problemas na Hemostasia Primária)

O sangramento de origem plaquetária tende a ser mais superficial e de início precoce após a lesão. Suas manifestações típicas incluem:

Sangramento por Coagulopatias (Problemas na Hemostasia Secundária)

Em contraste, o sangramento por deficiência dos fatores de coagulação é geralmente mais profundo e de início tardio. As manifestações incluem:

Característica Hemostasia Primária (Plaquetas) Hemostasia Secundária (Fatores de Coagulação)
Quem comanda? Plaquetas Fatores de coagulação
Objetivo Formação do tampão plaquetário Formação da rede de fibrina
Onde sangra? Pele e mucosas (petéquias, púrpuras, equimoses, gengival, nasal) Subcutâneo, SNC, hematoma intramuscular, hemartrose
Como sangra? Precoce, "não para de sangrar" Tardio, "para, mas depois volta a sangrar"

Hemostasia Primária

A formação do tampão plaquetário, essencial para a hemostasia primária, é um processo dinâmico que ocorre em três fases interdependentes após uma lesão endotelial e exposição do colágeno subendotelial. O colágeno atua como o principal gatilho para o início desse processo.

1. Adesão Plaquetária

Esta é a fase inicial onde as plaquetas se ligam ao local da lesão vascular. A adesão ocorre em duas etapas principais:

💡 Dica de Prova: O FvW é inicialmente grande e precisa ser clivado para se ajustar ao local da lesão. A enzima responsável por esse "corte" é a ADAMTS-13. Deficiências ou inibições da ADAMTS-13 podem levar a patologias como a Púrpura Trombocitopênica Trombótica (PTT).

2. Ativação Plaquetária

Após a adesão, as plaquetas sofrem uma mudança conformacional e liberam mediadores que recrutam mais plaquetas para o local da lesão, amplificando a resposta hemostática. Os principais ativadores liberados pelas plaquetas são:

💊 Farmacologia Essencial: O uso de AAS e Clopidogrel em síndromes coronarianas agudas (como o IAM) visa inibir a ativação e agregação plaquetária, prevenindo a formação de trombos.

3. Agregação Plaquetária

Nesta fase, as plaquetas ativadas se ligam umas às outras para formar um tampão hemostático coeso. Como o colágeno já está coberto, as novas plaquetas que chegam não têm onde se fixar diretamente. Elas expõem uma nova estrutura em sua superfície:

🩸 Relevância Clínica: O fibrinogênio é um fator de coagulação e é o fator mais consumido em condições como a Coagulação Intravascular Disseminada (CIVD). Inibidores da GPIIb/IIIa, como o Abciximab e o Tirofiban, são utilizados em intervenções coronarianas percutâneas para prevenir a agregação plaquetária.

Exames e Avaliação da Hemostasia Primária

Para investigar distúrbios da hemostasia primária, utilizamos exames laboratoriais que avaliam tanto a quantidade quanto a função das plaquetas.

Provas de Hemostasia Primária

⚠️ Atenção: O Tempo de Sangramento (TS) só é um indicador confiável da função plaquetária se a plaquetometria estiver dentro dos limites da normalidade. Se a contagem de plaquetas estiver baixa (trombocitopenia), o TS estará alargado independentemente da função plaquetária, pois há poucas plaquetas para formar o tampão.

Doenças da Hemostasia Primária

Os distúrbios da hemostasia primária podem ser classificados em problemas relacionados à quantidade de plaquetas (trombocitopenias) ou à qualidade/função das plaquetas (disfunções plaquetárias).

Problemas na Quantidade (Plaquetopenia/Trombocitopenia)

Caracterizam-se por uma contagem de plaquetas abaixo do normal. As causas podem ser divididas em:

🔎 Diagnóstico Diferencial: Para diferenciar entre destruição periférica e diminuição da produção, o exame da medula óssea pode ser útil, avaliando o setor megacariocítico. Na destruição periférica, os megacariócitos estão normais ou aumentados; na diminuição da produção, estão reduzidos. Contudo, na prática clínica, a história e o quadro clínico frequentemente permitem a diferenciação sem biópsia de medula.

Problemas na Qualidade (Disfunção Plaquetária)

Nesses casos, a contagem de plaquetas é normal, mas sua função está comprometida, resultando em um TS alargado.

💡 Resumo Rápido:

A seguir, aprofundaremos nos problemas relacionados à quantidade de plaquetas, começando pela Trombocitopenia Imune (PTI).

Trombocitopenia Imune (PTI)

A Trombocitopenia Imune (PTI) é uma condição caracterizada pela destruição acelerada de plaquetas mediada por anticorpos, resultando em plaquetopenia isolada. É uma das causas mais frequentes de plaquetopenia e um tema recorrente em provas de residência.

🧠 Conceito Chave: A PTI é a principal causa de plaquetopenia isolada! É um tema de alta relevância para provas.

Fisiopatologia

O mecanismo central da PTI envolve a opsonização por IgG e lise esplênica. Anticorpos da classe IgG, que podem ter sido inicialmente produzidos em resposta a agentes externos (como vacinas, infecções virais ou bacterianas, ou certas drogas), ligam-se às plaquetas do próprio indivíduo. Essas plaquetas "marcadas" com imunoglobulinas tornam-se alvos para macrófagos esplênicos, que as fagocitam e destroem de forma acelerada. A medula óssea, em resposta, geralmente apresenta hiperplasia de megacariócitos, tentando compensar a destruição periférica.

Etiologia

⚠️ Atenção: A associação entre HIV e PTI é frequentemente cobrada em provas!

Manifestações Clínicas

A apresentação clínica da PTI é classicamente descrita como "plaquetopenia e mais nada", o que significa que os sintomas são predominantemente relacionados à baixa contagem de plaquetas, sem outras alterações hematológicas significativas.

Diagnóstico

O diagnóstico da PTI é feito por exclusão de outras causas de plaquetopenia. É fundamental investigar condições secundárias, como:

Em casos duvidosos, pode-se realizar aspirado ou biópsia de medula óssea, que tipicamente revela hiperplasia de megacariócitos, confirmando que a produção medular está intacta e o problema é a destruição periférica das plaquetas.

Tratamento

A abordagem terapêutica da PTI varia conforme a gravidade e a contagem plaquetária, sendo muitas vezes controversa em relação aos valores de corte.

PTI em Adultos: Considerações Específicas

É importante reforçar as particularidades da PTI em adultos, especialmente em mulheres jovens (20-40 anos), onde a etiologia secundária é mais prevalente do que a idiopática.

Quando uma mulher adulta apresenta PTI, a investigação deve ser direcionada para causas secundárias, que incluem:

A sequência de investigação geralmente prioriza doenças imunes, seguidas por causas infecciosas, gestação e, por fim, fármacos.

Trombocitopenia Induzida por Heparinas (HIT)

A Trombocitopenia Induzida por Heparinas (HIT) é uma complicação grave e paradoxal do uso de heparina, caracterizada pela formação de anticorpos que levam tanto à plaquetopenia quanto a eventos trombóticos.

🧠 Conceito Chave: Pense em HIT quando houver "Heparina + Trombose"!

Fisiopatologia

A HIT tipo 2 (a forma clinicamente relevante) é mediada por anticorpos (geralmente IgG) que se formam contra o complexo de heparina e o Fator 4 Plaquetário (PF4). A ligação desses anticorpos ao complexo Heparina/PF4 não só resulta na destruição das plaquetas (causando trombocitopenia), mas também na ativação de outras plaquetas. Essa ativação plaquetária leva à agregação e à formação de trombos, explicando a natureza trombótica da condição. Os locais mais comuns de trombose são a trombose venosa profunda (TVP) e a embolia pulmonar (TEP).

É crucial suspeitar de HIT se um paciente em uso de heparina para tratar um evento trombótico apresentar piora clínica ou queda da contagem plaquetária, tipicamente entre o 5º e o 10º dia de tratamento. Nesses casos, a conduta correta é investigar HIT, e não aumentar a dose de heparina.

Diagnóstico

O diagnóstico de HIT é baseado na suspeita clínica e pode ser confirmado por exames laboratoriais.

O Escore 4T é uma ferramenta clínica útil para avaliar a probabilidade de HIT:

Tratamento

O manejo da HIT é emergencial e visa interromper a formação de trombos e a destruição plaquetária.

Púrpura Trombocitopênica Trombótica (PTT)

A Púrpura Trombocitopênica Trombótica (PTT) é uma microangiopatia trombótica rara e grave, caracterizada por uma pêntade clínica e alta mortalidade se não tratada adequadamente.

Introdução

A PTT é mais comum em mulheres, especialmente na faixa etária de 20 a 40 anos. Sua mortalidade é extremamente elevada, atingindo 90-95% quando não tratada, e ainda permanece em 20-25% mesmo com tratamento. Pode estar associada a condições como HIV, gestação e uso de certos fármacos.

Fisiopatologia

A PTT é causada por uma deficiência grave da enzima ADAMTS13 (A Disintegrin And Metalloproteinase with Thrombospondin Motifs, 13), também conhecida como a "tesoura do fator de von Willebrand". Essa enzima é responsável por clivar os multímeros ultragrandes do fator de von Willebrand (FvW) em formas menores e menos trombogênicas.

🧠 Lembre-se: A PTT NÃO É AUTOIMUNE no sentido de hemólise autoimune. O Coombs Direto é NEGATIVO!

Clínica: A Pêntade Clássica

A PTT é classicamente reconhecida pela sua pêntade de sinais e sintomas, embora nem todos estejam presentes em 100% dos casos.

Outro sintoma que pode estar presente é a dor abdominal.

⚠️ Cuidado: Diferencie PTT da Síndrome Hemolítico-Urêmica (SHU)!
Característica Púrpura Trombocitopênica Trombótica (PTT) Síndrome Hemolítico-Urêmica (SHU)
Paciente Típico Adulto (mulheres 20-40 anos) Criança
Etiologia Principal Deficiência de ADAMTS13 Toxina Shiga (E. coli O157:H7)
Tríade Clássica Plaquetopenia + Hemólise + Alteração Neurológica Proeminente Plaquetopenia + Hemólise + Insuficiência Renal Aguda Grave
Pródromos Dor abdominal Diarreia (geralmente sanguinolenta)
Tratamento Plasmaférese Suporte (evitar antibióticos que liberam mais toxina)

Diagnóstico

O diagnóstico da PTT é primariamente clínico e laboratorial, baseado na presença da pêntade e achados de hemólise microangiopática.

Tratamento

O tratamento da PTT é uma emergência médica e deve ser iniciado o mais rápido possível para reduzir a alta mortalidade.

Púrpura de Henoch-Schönlein (PHS)

Para fins de diferenciação em provas, é importante conhecer a Púrpura de Henoch-Schönlein, uma vasculite sistêmica que, embora também cause púrpura, tem uma fisiopatologia e apresentação clínica distintas das trombocitopenias.

Com isso, encerramos a discussão sobre os principais distúrbios quantitativos da hemostasia primária. A seguir, abordaremos os problemas relacionados à qualidade ou disfunção plaquetária.

Causas Hereditárias e Adquiridas de Disfunção Plaquetária

A função plaquetária é crucial para a hemostasia primária, dependendo da presença e funcionalidade de glicoproteínas específicas na superfície das plaquetas, que agem como "ganchos" para adesão e agregação. Deficiências ou disfunções nessas glicoproteínas resultam em sangramentos.

🧠 Conceito-chave: As síndromes de Glanzmann e Bernard-Soulier são caracterizadas pela ausência congênita de "ganchos" plaquetários (glicoproteínas), impedindo a função adequada das plaquetas.

Em casos de deficiências hereditárias graves, como nas síndromes de Glanzmann e Bernard-Soulier, a conduta principal é a transfusão de plaquetas para fornecer plaquetas funcionais ao paciente.

As causas de disfunção plaquetária também podem ser adquiridas:

💊 Conduta: Em disfunções plaquetárias adquiridas, o tratamento visa abordar a causa base. Em sangramentos ativos induzidos por antiplaquetários, a transfusão de plaquetas pode ser necessária.

Doença de Von Willebrand

A Doença de von Willebrand (DVW) é o distúrbio hemorrágico hereditário mais comum, afetando tanto a hemostasia primária quanto a secundária. Caracteriza-se por uma deficiência quantitativa ou qualitativa do fator de von Willebrand (FvWB).

A apresentação clínica mais comum são sangramentos mucocutâneos leves, como equimoses fáceis, epistaxe e sangramento gengival.

Tipos de Doença de Von Willebrand

🧠 Conceito: O FvWB é o "cimento" das plaquetas (adesão) e o "segurança" do fator VIII (proteção). Sua ausência afeta ambas as vias da hemostasia.

Diagnóstico

O diagnóstico da DVW envolve a avaliação da atividade e quantidade do FvWB:

Tratamento

🚨 Atenção High Yield: A Doença de von Willebrand é a causa mais comum de coagulograma normal com sangramento durante procedimentos cirúrgicos ou traumas leves.
Característica Doença de Von Willebrand (DVW) Hemofilia A
Deficiência Primária Fator de von Willebrand (FvWB) Fator VIII
Cofator da Ristocetina Diminuído (especialmente Tipo 3) Normal
PTT Pode estar alargado (devido à deficiência secundária de FVIII) Alargado
TS Alargado (disfunção plaquetária) Normal
Padrão de Sangramento Mucocutâneo (epistaxe, menorragia, equimoses) Articular (hemartroses), muscular, pós-trauma

Hemostasia Secundária

Após a formação do tampão plaquetário na hemostasia primária, a hemostasia secundária entra em ação para estabilizar e fortalecer esse tampão. Isso é feito através da formação de uma rede de fibrina robusta, que impede que o coágulo seja desfeito pela corrente sanguínea. Essa rede é gerada pela complexa cascata de coagulação.

Cascata de Coagulação

A cascata de coagulação é um processo enzimático sequencial que culmina na formação de fibrina. Tradicionalmente, é dividida em três vias principais:

Para avaliar qual parte da cascata está comprometida, utilizamos exames laboratoriais específicos que medem o tempo necessário para a formação do coágulo após a adição de ativadores específicos.

Via Intrínseca: Avaliação pelo PTT

A via intrínseca é avaliada pelo Tempo de Tromboplastina Parcial Ativada (PTT ou PTTa). Quando o PTT está alargado, indica um problema nos fatores da via intrínseca ou da via comum.

🧠 Mnemônico: PITI (PTT = Intrínseca). Se o PTT está alargado, o problema está na via intrínseca.

Os fatores importantes in vivo da via intrínseca são os fatores VIII, IX e XI. A deficiência de qualquer um desses fatores causa as hemofilias (A, B e C, respectivamente), caracterizadas por sangramentos profundos como hemartroses e hematomas musculares.

💡 Dica: A ativação da via intrínseca in vitro é desencadeada por cargas negativas (como o cininogênio de alto peso molecular - CAPM), mas fatores como XII e pré-calicreína não são clinicamente relevantes para sangramento, pois suas deficiências não causam diátese hemorrágica.

Via Extrínseca: Avaliação pelo TAP/INR

A via extrínseca é avaliada pelo Tempo de Atividade da Protrombina (TAP ou TP) e pelo INR (International Normalized Ratio). Um TAP/INR alargado sugere um problema nos fatores da via extrínseca ou da via comum.

🧠 Mnemônico: TAPORFORA (TAP = Extrínseca). Se o TAP/INR está alargado, o problema está na via extrínseca.

O gatilho in vivo para a via extrínseca é o fator tecidual (colágeno), exposto após lesão vascular. O único fator de coagulação exclusivo da via extrínseca é o fator VII. A deficiência de fator VII, ou sua inibição (como por varfarina), prolonga o TAP/INR.

Via Comum: Avaliação por PTT e TAP

A via comum é o ponto de convergência das vias intrínseca e extrínseca, onde o fator X é ativado. Se tanto o PTT quanto o TAP estiverem alargados, o problema reside nos fatores da via comum.

🧠 Mnemônico: Se é COMUM, os dois (PTT e TAP) alargam!

Os fatores da via comum incluem X, V, II (protrombina) e I (fibrinogênio). A ativação do fator X em Xa, em conjunto com o fator Va e cálcio, forma o complexo protrombinase, que converte protrombina em trombina. A trombina, por sua vez, cliva o fibrinogênio em monômeros de fibrina, que se polimerizam para formar a rede de fibrina.

⚠️ Atenção: Sem cálcio, não há coagulação! O cálcio (fator IV) é um cofator essencial em diversas etapas da cascata.
🧠 Mnemônico: Fatores da Via Comum: V-II-X-I Maria (5, 2, 10, 1).

Fator XIII: O "Prego" da Rede de Fibrina

O fator XIII (fator estabilizador da fibrina) é ativado pela trombina e é crucial para a estabilização da rede de fibrina, formando ligações cruzadas que a tornam mais resistente e insolúvel. Ele age como um "prego" que fixa a rede de fibrina ao vaso.

É importante notar que o fator XIII não é avaliado pelo PTT ou TAP, pois esses testes medem o tempo de formação do coágulo, não sua estabilidade. A deficiência de fator XIII é uma causa rara de sangramento tardio e recorrente, mesmo com PTT e TAP normais.

🔎 Diagnóstico: Se um paciente apresenta sangramento inexplicável com PTT e TAP normais, deve-se considerar a deficiência de fator XIII. O diagnóstico é feito por testes específicos de estabilidade do coágulo.

Exames e Avaliação da Hemostasia Secundária

A hemostasia secundária, também conhecida como coagulação, envolve a formação de um coágulo de fibrina estável para reforçar o tampão plaquetário inicial. Sua avaliação é crucial para identificar distúrbios hemorrágicos ou trombóticos. Os principais exames utilizados para investigar essa via são o Tempo de Tromboplastina Parcial Ativada (PTT) e o Tempo de Protrombina (TAP), que, juntamente com o INR, fornecem informações valiosas sobre a integridade da cascata de coagulação.

🧠 Conceito Essencial: Em um paciente sem distúrbios, o PTT é geralmente mais longo que o TAP. Isso ocorre porque a via intrínseca, avaliada pelo PTT, envolve mais fatores e etapas (calicreína, fatores XII, XI, IX, VIII) para ativar a cascata, enquanto a via extrínseca, avaliada pelo TAP, é ativada mais rapidamente pelo fator VII em contato com o fator tecidual.

A cascata de coagulação é um processo complexo e interligado. A via extrínseca é a principal via de ativação inicial, onde o fator VII entra em contato com o fator tecidual. Contudo, a via intrínseca é igualmente necessária para a amplificação e sustentação da coagulação. Ambas as vias convergem para a via comum, culminando na conversão de protrombina em trombina. A trombina, por sua vez, desempenha um papel duplo: primeiramente, ativa as plaquetas, preparando-as para a adesão; em segundo lugar, cliva o fibrinogênio em monômeros de fibrina, que se polimerizam para formar uma rede de fibrina. Para estabilizar essa rede e ancorá-la firmemente ao vaso, o fator XIII é ativado, formando ligações cruzadas na fibrina. Somente após essa estabilização, o coágulo é considerado robusto.

Doenças da Hemostasia Secundária

Situação 1: PTT Alargado + TAP (INR) Normal

Quando o PTT está alargado e o TAP (INR) permanece normal, o problema reside na via intrínseca da coagulação. Os fatores de coagulação primariamente afetados nesta via são os fatores VIII, IX e XI.

As principais causas para esta alteração laboratorial incluem:

Entendendo as Hemofilias

As hemofilias são um grupo de doenças hemorrágicas hereditárias caracterizadas pela deficiência de fatores de coagulação específicos, resultando em sangramentos prolongados e espontâneos.

Conceitos Iniciais
Monitoramento da Anticoagulação

É fundamental diferenciar o monitoramento da heparina não fracionada (HNF) da heparina de baixo peso molecular (HBPM):

Anticoagulante Exame de Monitoramento Observações
Heparina Não Fracionada (HNF) PTT (Tempo de Tromboplastina Parcial Ativada) Utilizado para ajustar a dose e garantir o nível terapêutico da droga.
Heparina de Baixo Peso Molecular (HBPM) Não requer monitoramento de rotina A dose plena geralmente é suficiente. Em casos específicos (insuficiência renal, obesidade extrema, gravidez), pode-se dosar o Fator Xa.
Achados Laboratoriais nas Hemofilias
Manifestações Clínicas das Hemofilias A e B

As manifestações clínicas são semelhantes para as hemofilias A e B, embora a hemofilia A tenda a apresentar formas mais graves com maior frequência (70% dos casos graves de hemofilia são tipo A, enquanto 30-45% são tipo B).

💡 Dica para Prova: O paciente típico de prova com hemofilia é uma criança de 2 a 4 anos que apresenta hemartrose ou hematoma pós-vacina e um PTT alargado. Lembre-se dos "3 H's": Hemorragia, Hematoma, Hemartrose.
Tratamento da Hemofilia A
Tratamento da Hemofilia B
Hemofilia C (Deficiência de Fator XI)
Hemofilia Adquirida

A hemofilia adquirida é uma condição rara em que o paciente desenvolve autoanticorpos (inibidores) contra um fator de coagulação, mais comumente o fator VIII. Pode estar associada a condições subjacentes como câncer, doenças autoimunes ou gravidez.

Teste de Mistura (Mixing Test)

O teste de mistura é fundamental para diferenciar uma deficiência congênita de fator de coagulação de uma hemofilia adquirida (presença de inibidores).

🔎 Diagnóstico Diferencial: Alguns inibidores, como os do fator VIII, podem não agir imediatamente. Nesses casos, o teste de mistura pode parecer corrigir o PTT inicialmente, mas após uma incubação de 2 horas a 37°C, o PTT volta a se alargar, confirmando a presença do inibidor de ação lenta.

Situação 2: PTT Normal + TAP (INR) Alargado

Quando o PTT está normal e o TAP (INR) está alargado, o problema está localizado na via extrínseca da coagulação, que é primariamente dependente do fator VII.

As principais causas para esta alteração laboratorial incluem:

Uso de Cumarínicos

Os cumarínicos, como a varfarina, são anticoagulantes orais que agem como antagonistas da vitamina K, inibindo a carboxilação e, consequentemente, a ativação dos fatores de coagulação dependentes de vitamina K (fatores II, VII, IX e X). O TAP e o INR são os exames de escolha para monitorar o efeito terapêutico desses medicamentos.

Hepatopatia e Colestase

A disfunção hepática é uma causa comum de TAP alargado. O fígado é responsável pela síntese de quase todos os fatores de coagulação. Em pacientes com hepatopatia, a produção desses fatores é comprometida. O fator VII possui a menor meia-vida entre todos os fatores de coagulação, sendo o primeiro a ter seus níveis reduzidos em caso de insuficiência hepática, o que explica o alargamento precoce do TAP. Em casos de hepatopatia muito grave e prolongada, o PTT também pode se alargar devido à deficiência de outros fatores com meia-vida mais longa.

A colestase, por sua vez, é a redução ou interrupção do fluxo biliar. A bile é essencial para a absorção intestinal de vitaminas lipossolúveis, incluindo a vitamina K. A deficiência de vitamina K impede a ativação dos fatores de coagulação II, VII, IX e X, levando ao alargamento do TAP.

🧠 Fatores Vitamina K Dependentes: Lembre-se dos fatores II, VII, IX e X. Uma mnemônica útil é "2 + 7 = 9 e quem tira 9 tira 10".
Doença Hemorrágica do Recém-Nascido

Esta condição ocorre tipicamente entre o 2º e o 7º dia de vida em recém-nascidos que não receberam profilaxia com vitamina K ao nascer. A deficiência de vitamina K leva à inatividade dos fatores II, VII, IX e X, resultando em sangramentos e alargamento do TAP.

Diferenciação entre Hepatopatia e Colestase

É crucial diferenciar se o TAP alargado em um paciente hepatopata é devido à insuficiência hepática (fígado não produz) ou à colestase (fígado não tem "combustível" para produzir/ativar). A abordagem diagnóstica é terapêutica:

💊 Tratamento e Diagnóstico: A resposta à vitamina K parenteral é um teste diagnóstico e terapêutico fundamental para distinguir a causa do TAP alargado em pacientes com doença hepática.

Situação 3: PTT Alargado + TAP (INR) Alargado

Quando ambos, o Tempo de Protrombina Parcial Ativada (PTT) e o Tempo de Ativação da Protrombina (TAP/INR), estão alargados, o problema reside na via comum da coagulação. Esta via envolve os fatores V, II (protrombina), X e I (fibrinogênio). A principal causa para este cenário é a Coagulação Intravascular Disseminada (CIVD).

🧠 Conceito Chave: O tempo de trombina reflete a quantidade e função do fibrinogênio, assim como o tempo de sangramento reflete a contagem e função das plaquetas.

Dentre os fatores da via comum, o fibrinogênio (fator I) é de suma importância e frequentemente o mais consumido em distúrbios como a CIVD. Portanto, diante de um PTT e TAP alargados, é mandatório medir o fibrinogênio. Adicionalmente, a dosagem do tempo de trombina é essencial para avaliar tanto a quantidade quanto a qualidade do fibrinogênio. Se o fibrinogênio estiver baixo, o tempo de trombina estará alargado. Se o fibrinogênio estiver normal, mas o tempo de trombina alargado, isso sugere uma disfunção qualitativa do fibrinogênio.

Entendendo a CIVD

A Coagulação Intravascular Disseminada (CIVD) é uma síndrome complexa caracterizada por ativação sistêmica e descontrolada da coagulação, levando à formação generalizada de microtrombos e, paradoxalmente, a sangramentos devido ao consumo excessivo de fatores de coagulação e plaquetas.

Consequências Clínicas e Laboratoriais da CIVD
🔎 Diagnóstico Laboratorial na CIVD:
Fibrinólise na CIVD

O organismo não permanece passivo diante da formação de trombos. Em resposta, o sistema fibrinolítico é ativado para tentar "quebrar" essas traves de fibrina. Essa ativação leva à produção de Produtos de Degradação da Fibrina (PDF), sendo o D-dímero o principal e mais relevante marcador que se eleva na CIVD.

💊 Tratamento da CIVD: O tratamento primordial da CIVD é a abordagem da causa base (ex: tratamento da sepse com antibióticos, quimioterapia para leucemia M3 com ácido transretinoico). A reposição de hemocomponentes é de suporte e guiada pelos achados laboratoriais e clínicos.
💡 Dica de Prova: O termo "Tempo de Trombina-Ratio normal" em questões de prova geralmente indica que o fibrinogênio está normal, direcionando a investigação para disfunções qualitativas ou outros fatores.
Entendendo Melhor o Sistema Fibrinolítico

O sistema fibrinolítico é responsável pela dissolução dos coágulos de fibrina, um processo essencial para manter a permeabilidade vascular. Seu principal componente é o plasminogênio, uma proenzima que pode estar circulando no sangue ou ligada à rede de fibrina.

Drogas que Interferem no Sistema Fibrinolítico Mecanismo de Ação Exemplos
Trombolíticos (Fibrinolíticos) Ativam o plasminogênio para formar plasmina, promovendo a lise do coágulo. Alteplase (rTPA), Estreptoquinase, Uroquinase
Inibidores da Fibrinólise Inibem a ativação do plasminogênio ou a ação da plasmina, prevenindo a quebra do coágulo. Ácido Épsilon-Aminocaproico (EACA), Ácido Tranexâmico

Situação 4: PTT Normal + TAP (INR) Normal

Quando um paciente apresenta sangramento, mas com PTT e TAP (INR) normais, e também com contagem plaquetária e tempo de sangramento normais, a investigação deve se voltar para deficiências de fatores de coagulação que não são detectados por esses testes de triagem. A principal causa nesse cenário é a deficiência do Fator XIII.

O fator XIII (fator estabilizador da fibrina) é crucial para a formação de um coágulo de fibrina estável, pois ele promove a ligação cruzada das moléculas de fibrina. Sua deficiência resulta em sangramentos tardios e má cicatrização, mesmo com a formação inicial do coágulo.

🧪 Diagnóstico da Deficiência de Fator XIII: O diagnóstico é feito pelo Teste da Solubilidade da Ureia 5M positivo ou pela dosagem direta do Fator XIII.

Coagulopatias

Transfundir O Quê? Quando?

A escolha do hemocomponente para transfusão depende do fator de coagulação deficiente ou consumido.

Hemofilia Adquirida

Se um paciente com sangramento de hemostasia secundária não melhora após a reposição de plasma fresco, e o PTT permanece alargado, deve-se suspeitar de hemofilia adquirida. Esta condição ocorre quando o paciente desenvolve autoanticorpos contra um fator de coagulação, sendo o Fator VIII o mais comum. É mais frequente em mulheres puérperas, mas também pode ser associada a doenças autoimunes (ex: Lúpus Eritematoso Sistêmico - LES) e neoplasias.

Os anticorpos inativam o fator VIII, impedindo a ativação da via intrínseca e, consequentemente, a formação adequada do coágulo. O diagnóstico é feito pela detecção do inibidor do fator (ex: teste de Bethesda).

💊 Conduta na Hemofilia Adquirida: O tratamento visa contornar a deficiência do fator VIII. A administração de Complexo Protrombínico (ativado ou não) é a principal conduta, pois ativa diretamente a via comum da coagulação "abaixo" do ponto de bloqueio, permitindo a formação de fibrina. Corticosteroides podem ser usados para imunossupressão, mas não são eficazes na fase aguda do sangramento.

Coagulopatias Por Cumarínicos

Os cumarínicos (ex: varfarina) são anticoagulantes orais que atuam como antagonistas da vitamina K. A vitamina K é essencial para a gama-carboxilação dos fatores de coagulação II, VII, IX, X e dos anticoagulantes naturais Proteínas C e S.

💊 Conduta em Coagulopatias por Cumarínicos:
Situação Clínica INR Conduta
Sem sangramento < 10 Suspender o cumarínico temporariamente ou reduzir a dose. Reavaliar.
Sem sangramento > 10 Suspender o cumarínico + repor vitamina K (oral ou IV, dependendo da urgência).
Sangramento leve a moderado Qualquer valor Suspender o cumarínico + repor vitamina K (IV).
Sangramento grave/com risco de vida Qualquer valor Suspender o cumarínico + Complexo Protrombínico (CP) (fatores II, VII, IX, X). Opções alternativas: Fator VIIa recombinante, Plasma Fresco Congelado (PFC).

É importante orientar os pacientes sobre a dieta, evitando o consumo excessivo de folhas verdes escuras e outros alimentos ricos em vitamina K, que podem antagonizar o efeito do cumarínico.

Coagulopatias Por Heparinas

As heparinas (não fracionada - HNF e de baixo peso molecular - HBPM) são anticoagulantes que atuam potencializando a ação da antitrombina III, inativando fatores de coagulação, principalmente a trombina (FIIa) e o Fator Xa.

💊 Antídoto para Heparina: Sulfato de Protamina

É crucial lembrar que a vitamina K é o antídoto para cumarínicos, e o plasma fresco é uma fonte de fatores de coagulação, mas o antídoto específico para heparina é o sulfato de protamina.