Doenças Mononucleose-like
As síndromes "mononucleose-like" frequentemente se manifestam com quadros clínicos semelhantes à mononucleose infecciosa, incluindo o desenvolvimento de "megalias" (linfonodomegalia, hepatoesplenomegalia).
🧠 Conceito Chave: As síndromes "mononucleose-like" são um grupo de doenças que mimetizam a mononucleose infecciosa, sendo crucial o diagnóstico diferencial. As principais causas incluem CMV, HIV, Toxoplasmose e outras infecções virais ou bacterianas.
Mononucleose Infecciosa
A mononucleose infecciosa é uma doença linfoproliferativa benigna, aguda e autolimitada, causada pelo vírus Epstein-Barr (EBV), que é um herpesvírus humano tipo 4.
Agente Etiológico e Transmissão
- Agente: Vírus Epstein-Barr (EBV).
- Transmissão: Ocorre principalmente através do contato com saliva infectada, o que lhe confere o popular apelido de “doença do beijo”.
- Faixa Etária Típica: Afeta predominantemente adolescentes e adultos jovens, com maior incidência entre 15 e 24 anos.
💡 Dica de Prova: Lembre-se que a "doença do beijo" é uma característica marcante da mononucleose infecciosa, indicando a via de transmissão salivar.
Quadro Clínico
As manifestações clínicas da mononucleose infecciosa são variadas e podem incluir:
- Linfonodomegalia: Caracteristicamente presente, afetando principalmente as cadeias cervicais, occipitais, submandibulares e submentonianas. Os linfonodos são geralmente dolorosos à palpação.
- Febre: Geralmente de intensidade baixa a moderada, com resolução espontânea em menos de duas semanas.
- Hepatoesplenomegalia: Ocorre em uma parcela significativa dos pacientes. A esplenomegalia é particularmente relevante, pois o baço pode se tornar friável e suscetível à ruptura espontânea ou traumática.
- Alteração Hematológica: O hemograma pode revelar linfocitose com a presença de mais de 10% de linfócitos atípicos (linfócitos de Downey), que são linfócitos T CD8+ ativados.
- Faringite Dolorosa: Frequentemente exsudativa, podendo apresentar membranas e petéquias no palato. É importante notar que esta faringite não melhora com o uso de amoxicilina ou ampicilina, pois sua etiologia é viral. Em casos graves, pode levar à obstrução das vias aéreas superiores.
- Exantema: Pode ser deflagrado pelo uso de amoxicilina ou ampicilina. É crucial entender que este exantema não representa uma reação alérgica verdadeira ao antibiótico, mas sim uma reação imunológica ao EBV potencializada pela droga.
- Sinal de Hoagland: Caracterizado por edema palpebral bilateral, é um achado clínico sugestivo de mononucleose infecciosa.
⚠️ Atenção: Em casos de esplenomegalia, é fundamental orientar o paciente a evitar atividades físicas de impacto para prevenir a ruptura esplênica, uma complicação grave.
🔎 Diagnóstico Clínico: O Sinal de Hoagland (edema palpebral) é um forte indicativo de mononucleose infecciosa em um contexto de síndrome mononucleose-like.
Diagnóstico Laboratorial
O diagnóstico da mononucleose infecciosa baseia-se em:
- Anticorpos Heterófilos: A presença desses anticorpos na sorologia é um marcador diagnóstico. São identificados por métodos como o teste de Paul-Bunnell e o Monoteste. É importante ressaltar que o Monoteste possui baixa especificidade, podendo apresentar resultados falso-positivos.
- Anticorpos Específicos: Em fases iniciais da doença ou em crianças menores de 4 anos, onde os anticorpos heterófilos podem ser negativos, a pesquisa de anticorpos específicos é mais indicada:
- Anti-VCA (Anticorpo contra o Capsídeo Viral): Geralmente o primeiro a surgir e indica infecção aguda.
- Anti-EBNA (Anticorpo contra o Antígeno Nuclear do EBV): Aparece mais tardiamente e indica infecção passada ou crônica.
- Exclusão de Outras Causas: É imprescindível excluir outras etiologias que podem cursar com "síndrome mononucleose-like", como infecção por Citomegalovírus (CMV), Toxoplasmose, HIV, hepatites virais, Doença de Chagas e Sífilis.
Tratamento
O tratamento da mononucleose infecciosa é primariamente de suporte e sintomático:
- Suporte: Repouso, hidratação e analgésicos/antipiréticos para alívio dos sintomas.
- Evitar AAS: O uso de ácido acetilsalicílico (AAS) deve ser evitado em crianças e adolescentes devido ao risco de Síndrome de Reye, uma condição grave que cursa com encefalopatia e hepatopatia.
- Corticosteroides: Em casos mais graves, como meningite por EBV, acometimento cardíaco, obstrução de vias aéreas ou anemia hemolítica autoimune, o uso de corticosteroides pode ser considerado, embora não haja consenso universal na literatura sobre sua indicação rotineira.
🚨 Alerta Terapêutico: A Síndrome de Reye é uma complicação rara, mas grave, associada ao uso de AAS em infecções virais, como a mononucleose.
Toxoplasmose
A toxoplasmose é uma infecção parasitária cosmopolita causada pelo Toxoplasma gondii, um protozoário intracelular obrigatório. Estima-se que até um terço da população mundial já tenha sido infectada.
Conceitos Essenciais
- Agente Etiológico: Toxoplasma gondii.
- Hospedeiro Definitivo: O gato doméstico e outros felídeos são os únicos hospedeiros definitivos, onde o parasita realiza sua reprodução sexuada.
- Hospedeiros Intermediários: Incluem o homem, bovinos, suínos e outros mamíferos e aves, nos quais o parasita se reproduz assexuadamente.
🧠 Lembre-se: O gato é o hospedeiro definitivo do Toxoplasma gondii, sendo crucial na cadeia de transmissão.
Fisiopatogenia
O ciclo de vida do Toxoplasma gondii no hospedeiro intermediário envolve diferentes formas parasitárias:
- Ingestão: A infecção geralmente se inicia pela ingestão de cistos teciduais (em carne crua ou malcozida) ou oocistos (em alimentos ou água contaminados com fezes de gato).
- Invasão Celular: No trato gastrointestinal, os cistos liberam bradizoítos ou os oocistos liberam esporozoítos, que invadem as células nucleadas do hospedeiro.
- Transformação em Taquizoítos: Dentro das células, o parasita se transforma em taquizoíto, a forma de rápida multiplicação. Os taquizoítos rompem as células, se espalham pela corrente sanguínea e atingem órgãos-alvo como cérebro, músculos, placenta e olhos.
- Formação de Pseudocistos: Em indivíduos com imunidade preservada, o sistema imunológico consegue conter a proliferação dos taquizoítos, que se transformam em bradizoítos. Estes se "guardam" nos órgãos-alvo sob a forma de pseudocistos (cistos teciduais), permanecendo em estado latente.
- Reativação: Em períodos de imunossupressão (ex: pacientes com HIV/AIDS, transplantados), os bradizoítos podem reativar, transformando-se novamente em taquizoítos e causando doença sintomática, como a neurotoxoplasmose.
🧬 Ciclo do Parasita: O Toxoplasma gondii pode penetrar em qualquer célula nucleada, transformando-se em taquizoíto (fase aguda) e, posteriormente, em bradizoíto (fase latente em pseudocistos), que pode reativar em imunossuprimidos.
Formas de Transmissão
As principais vias de transmissão do Toxoplasma gondii para humanos incluem:
- Ingestão de Oocistos: Através de vegetais mal lavados ou água contaminada com fezes de gatos infectados.
- Ingestão de Pseudocistos: Pelo consumo de carnes cruas ou malcozidas (especialmente de boi e porco) contendo cistos teciduais.
- Outras Formas:
- Transmissão Vertical: Da mãe para o feto durante a gestação (toxoplasmose congênita).
- Hemotransfusão: Embora rara, pode ocorrer.
- Transplante de Órgãos: Em receptores de órgãos de doadores infectados.
Manifestações Clínicas
A maioria dos pacientes infectados pelo Toxoplasma gondii é assintomática. Quando sintomática, a toxoplasmose pode se apresentar de diversas formas:
- Síndrome Mononucleose-Like: É uma apresentação possível, caracterizada por faringite, febre, adenomegalia (predominantemente cervical) e hepatoesplenomegalia.
- Apresentações Atípicas: Em casos mais graves ou em imunossuprimidos, pode manifestar-se como encefalite, pneumonia ou coriorretinite.
Reativação em Imunossuprimidos
A reativação da toxoplasmose é um risco significativo em pacientes com imunidade comprometida, especialmente em indivíduos com HIV/AIDS.
- Neurotoxoplasmose:
- Principalmente em pacientes com contagem de CD4 < 200 células/mm³.
- É a causa mais comum de déficit neurológico focal em pacientes com AIDS.
- Na tomografia computadorizada (TC) de crânio, as lesões típicas são hipodensas, com captação anelar de contraste e edema perilesional.
- Coriorretinite (Uveíte Posterior):
- Congênita: Geralmente bilateral e se manifesta nos primeiros meses de vida.
- Adquirida: Usualmente unilateral, cursando com diminuição da acuidade visual, moscas volantes e fotopsia.
- Na fundoscopia, observam-se manchas na retina com cicatriz pigmentada, muitas vezes com lesões satélites ativas.
🚨 Neurotoxoplasmose: Em pacientes HIV+ com CD4 < 200, é a principal causa de lesões cerebrais focais, com achados clássicos de lesões anelares na TC.
🔎 Coriorretinite: Uma manifestação ocular importante, que pode ser congênita ou adquirida, com achados característicos na fundoscopia.
Diagnóstico
O diagnóstico da toxoplasmose pode ser realizado por diferentes métodos:
- PCR (Reação em Cadeia da Polimerase): Possui alta sensibilidade e especificidade, sendo útil em casos específicos (ex: líquor na neurotoxoplasmose, líquido amniótico na gestação). No entanto, é um método mais caro e menos disponível.
- Sorologia: É o método mais amplamente utilizado para triagem e diagnóstico, avaliando a presença de anticorpos IgM e IgG.
| IgM |
IgG |
Interpretação |
| Negativo |
Positivo |
Infecção crônica / Imunidade (infecção pregressa) |
| Positivo |
Negativo |
Infecção aguda (fase inicial) |
| Negativo |
Negativo |
Suscetível à infecção |
| Positivo |
Positivo |
Infecção aguda ou crônica recente. Necessário realizar Teste de Avidez de IgG. |
🧪 Teste de Avidez de IgG: Se IgM positivo e IgG positivo, um teste de avidez de IgG é crucial. Baixa avidez sugere infecção aguda (recente, menos de 4 meses), enquanto alta avidez indica infecção crônica (antiga).
⚠️ Atenção: Em pacientes com IgM positivo e IgG positivo que apresentam sintomas compatíveis com toxoplasmose aguda, o teste de avidez pode ser dispensado, e o tratamento pode ser iniciado diretamente.
Tratamento
Quando Tratar?
O tratamento da toxoplasmose é indicado em situações específicas:
- Quadro clínico grave ou persistente.
- Acometimento de órgãos nobres (olhos, cérebro, pulmões, coração).
- Pacientes imunodeprimidos (ex: HIV/AIDS, transplantados).
- Gestantes (para prevenir ou tratar a transmissão congênita).
Como Tratar?
O esquema terapêutico padrão para toxoplasmose ativa é:
- Sulfadiazina + Pirimetamina + Ácido Folínico: Esta combinação é a base do tratamento. O ácido folínico é administrado para prevenir a mielossupressão induzida pela pirimetamina. A duração do tratamento varia de 2 a 4 semanas, podendo ser estendida conforme a gravidade e a resposta clínica.
💊 Tratamento Padrão: A tríade Sulfadiazina + Pirimetamina + Ácido Folínico é o pilar do tratamento da toxoplasmose ativa.
Profilaxia
Medidas preventivas são importantes para evitar a infecção por Toxoplasma gondii:
- Higiene Alimentar: Lavagem adequada de vegetais e frutas antes do consumo.
- Consumo de Carne: Evitar o consumo de carne crua ou malcozida. Cozinhar a carne completamente ou congelá-la a temperaturas abaixo de -20°C por 24 horas pode inativar os cistos.
- Contato com Gatos: Evitar contato direto com fezes de gato e limpar caixas de areia diariamente (oocistos se tornam infectantes após 1-5 dias). Gestantes devem evitar essa tarefa.
- Profilaxia em HIV+:
- Profilaxia Primária: Indicada para pacientes HIV+ com CD4 < 100 células/mm³ e sorologia positiva para toxoplasmose.
- Profilaxia Secundária: Após o tratamento de um episódio de toxoplasmose, para prevenir recorrências, geralmente mantida enquanto o CD4 estiver abaixo de 200 células/mm³.
Citomegalovírus (CMV)
Conceitos Iniciais
O Citomegalovírus (CMV) é um membro da família Herpesviridae, caracterizado por ser um vírus de DNA. Sua prevalência é bastante elevada, variando entre 40% e 100% da população, dependendo da região estudada. Essa alta taxa de infecção se deve às diversas vias de transmissão do vírus.
🧠 Lembre-se: O CMV é um Herpesvírus (DNA), com alta prevalência devido às múltiplas formas de transmissão.
Formas de Transmissão
A transmissão do CMV pode ocorrer de diversas maneiras, o que contribui para sua ampla disseminação:
- Perinatal: Durante a gestação, parto ou amamentação.
- Contato com fluidos corporais: Através do trato respiratório, fezes e urina.
- Sexual: Por contato sexual.
- Hemotransfusão: Transfusão de sangue ou componentes sanguíneos.
- Doação de Órgãos: Transplante de órgãos de doadores infectados.
Quadro Clínico
A apresentação clínica da infecção por CMV é variada e pode ser dividida em três formas principais:
1. Infecção Congênita
Ocorre quando a infecção é transmitida da mãe para o feto. As manifestações mais características incluem:
- Surdez neurossensorial: Um dos achados mais comuns e graves.
- Calcificações intracranianas periventriculares: Sinal patognomônico observado em exames de imagem cerebrais.
2. Síndrome Mononucleose-Like
Esta forma é a mais comum em indivíduos imunocompetentes e mimetiza a mononucleose infecciosa causada pelo vírus Epstein-Barr (EBV). Os sintomas incluem:
- Linfadenopatia: Aumento dos gânglios linfáticos.
- Hepatoesplenomegalia: Aumento do fígado e do baço.
- Febre: Geralmente prolongada.
- Faringite: Inflamação da garganta.
- Rash cutâneo: Pode ocorrer, especialmente após o uso de amoxicilina (assim como na mononucleose por EBV).
- Linfocitose com atipia: Achado laboratorial característico no hemograma.
⚠️ Atenção: A causa mais comum de síndrome mononucleose-like é o Vírus Epstein-Barr (EBV), mas o CMV é uma causa importante a ser considerada.
3. Doença Invasiva no Imunossuprimido
Esta é a forma mais grave e ocorre em pacientes com comprometimento do sistema imunológico, como indivíduos vivendo com HIV (PVHIV) e transplantados. As manifestações variam conforme o grupo:
- Em PVHIV:
- Esofagite: Inflamação do esôfago.
- Colite: Inflamação do cólon.
- Retinite: Inflamação da retina, classicamente descrita como "lesão ketchup com queijo" devido ao seu aspecto hemorrágico e exsudativo.
- Em Transplantados:
- Hepatite: Inflamação do fígado.
- Pneumonite: Inflamação pulmonar.
- Nefrite: Inflamação dos rins.
Diagnóstico
O diagnóstico do CMV pode ser realizado por diferentes métodos:
- PCR viral: É o método preferencial para detecção do vírus, especialmente em casos de doença invasiva ou congênita.
- Sorologia: A detecção de IgM positivo ou um aumento de IgG em mais de 4 vezes entre duas amostras (soroconversão) indica infecção recente.
- Biópsia: Em casos de doença invasiva, como no trato gastrointestinal ou pulmão, a biópsia pode evidenciar as "inclusões virais" características do CMV.
Tratamento
O tratamento do CMV varia conforme a forma clínica da doença:
- Síndrome Mononucleose-Like: Geralmente, o tratamento é sintomático, pois a doença é autolimitada em indivíduos imunocompetentes.
- Infecções congênitas sintomáticas e Doença invasiva do imunossuprimido: Nestes casos, é indicada terapia antiviral específica:
- Ganciclovir IV: Administração intravenosa.
- Valganciclovir VO: Administração oral, uma pró-droga do ganciclovir.
💊 Tratamento: Ganciclovir/Valganciclovir para formas graves; sintomáticos para mononucleose-like.
Doença de Chagas
Agente e Transmissão
A Doença de Chagas é causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, cujo principal vetor é o triatomíneo, popularmente conhecido como barbeiro. Além da transmissão vetorial, outras formas importantes incluem:
- Oral: Uma via de transmissão crescente, especialmente na Amazônia Legal, associada ao consumo de alimentos contaminados como açaí e caldo de cana. Esta forma é epidemiologicamente mais comum em homens adultos na Região Norte.
- Vertical: Da mãe para o filho durante a gestação.
- Sanguínea: Por transfusão de sangue contaminado.
O período de incubação da doença varia de 3 a 22 dias.
Quadro Clínico
A Doença de Chagas apresenta duas fases distintas: aguda e crônica.
Forma Aguda
Caracteriza-se por manifestações iniciais no local da inoculação e sintomas sistêmicos:
- Porta de entrada (se vetorial):
- Sinal de Romaña: Edema bipalpebral unilateral, indolor, com linfadenopatia regional.
- Chagoma de Inoculação: Lesão cutânea inflamatória no local da picada do vetor.
- Síndrome de Mononucleose-Like: Febre, linfadenopatia, hepatoesplenomegalia.
- Complicações mais graves:
- Miopericardite: Inflamação do músculo cardíaco e do pericárdio, podendo levar à insuficiência cardíaca aguda.
- Meningoencefalite: Inflamação das meninges e do encéfalo.
Forma Crônica
Desenvolve-se anos após a infecção aguda e pode ser assintomática ou apresentar manifestações graves:
- Indeterminada (60%): Pacientes assintomáticos, mas com sorologia positiva.
- Cardíaca (30%): A forma mais grave, caracterizada por fibrose miocárdica progressiva.
- Insuficiência Cardíaca Congestiva (ICC): Consequência da disfunção miocárdica.
- Bloqueio de Ramo Direito (BRD) + Bloqueio Divisional Anterossuperior (BDAS ou HBAE): Achados eletrocardiográficos clássicos. O padrão rR’ com desvio do eixo elétrico para a esquerda (D1 predominantemente positivo e aVF predominantemente negativo) é sugestivo.
- Aneurisma de ponta de ventrículo: Uma complicação grave que pode gerar episódios tromboembólicos.
- Digestiva (10%): Resulta da lesão dos plexos nervosos entéricos, levando a alterações da motilidade gastrointestinal.
- "Megas": Megaesôfago e megacólon são as manifestações mais comuns, causando acalasia e constipação crônica, respectivamente.
Diagnóstico
O diagnóstico difere entre as fases aguda e crônica:
- Fase Aguda:
- Exame direto (sangue periférico): Pesquisa de tripomastigotas no sangue.
- IgM anti-T. cruzi: Detecção de anticorpos IgM específicos.
- Fase Crônica:
- Sorologia: Requer dois testes positivos de IgG (por exemplo, ELISA + Imunofluorescência Indireta (IFI) ou Hemaglutinação).
🔎 Diagnóstico: Aguda: parasitemia direta ou IgM. Crônica: dois testes sorológicos IgG positivos.
Tratamento
A indicação e o tipo de tratamento variam conforme a fase da doença:
Quando Indicar?
- Doença na fase aguda/reativação: Sempre indicado.
- Doença na fase crônica indeterminada ou digestiva: Se o paciente tiver < 50 anos.
- Considerar, se doença na fase cardíaca inicial: Especialmente se a fração de ejeção (FE) for > 40%.
Qual Droga?
- Benznidazol: Dose de 5-10 mg/kg/dia por 60 dias, com taxa de cura de aproximadamente 70%.
- Efeitos adversos: Parestesia, dermatite, neutropenia.
- Alternativa: Nifurtimox.
Fase Crônica (ICC, Constipação)?
Nesta fase, o tratamento é sintomático e de suporte, pois a fibrose já estabelecida não pode ser revertida.
- Cardiopatia: Manejo da insuficiência cardíaca com IECA, betabloqueadores, diuréticos, entre outros.
- Gastrointestinal: Tratamento da acalasia (nitrato, dilatação endoscópica) e constipação (cirurgia em casos de megacólon grave).
| Fase da Doença |
Indicação de Tratamento Específico |
Tratamento |
| Aguda/Reativação |
Sempre |
Benznidazol ou Nifurtimox |
| Crônica Indeterminada ou Digestiva |
Se < 50 anos |
Benznidazol ou Nifurtimox |
| Crônica Cardíaca Inicial (FE > 40%) |
Considerar |
Benznidazol ou Nifurtimox |
| Crônica Cardíaca Avançada/Digestiva Grave |
Não indicado (apenas suporte) |
Sintomáticos (IECA, BB, diuréticos; nitrato, dilatação, cirurgia) |
Doença da Arranhadura do Gato
Etiologia e Transmissão
A Doença da Arranhadura do Gato é causada pela bactéria Bartonella henselae. A transmissão ocorre principalmente através de arranhaduras ou mordeduras de gatos, especialmente filhotes, ou pela exposição a pulgas de gato.
Quadro Clínico
As manifestações clínicas típicas incluem:
- Lesão cutânea: No local da inoculação, geralmente lesões papulares ou pústulas.
- Linfadenopatia: O achado mais característico, com aumento de linfonodos regionais, principalmente nas regiões axilar e epitroclear, que podem ser dolorosos e supurativos.
Outras apresentações menos comuns, mas possíveis, são:
- Doença visceral: Acometimento de órgãos como fígado e baço, embora seja raro.
- Febre sem foco: Eventualmente prolongada, sem uma causa aparente inicial.
- Síndrome Oculoglandular de Parinaud: Caracterizada por linfadenopatia pré-auricular associada a conjuntivite granulomatosa unilateral.
Diagnóstico
O diagnóstico baseia-se em uma combinação de fatores:
- História clínica/epidemiológica: Essencial, incluindo histórico de exposição a gatos.
- Sorologia: Pode ser realizada para detectar anticorpos, mas há chance de resultados falso-negativos, especialmente no início da doença.
- Biópsia de linfonodo: Indicada na suspeita de outros diagnósticos diferenciais, para excluir malignidades ou outras infecções.
Tratamento
A linfadenopatia na Doença da Arranhadura do Gato é geralmente autolimitada. A decisão de tratar todos os casos é controversa na literatura. No entanto, se o tratamento antibiótico for indicado (por exemplo, em casos de doença grave, imunocomprometidos ou linfonodos muito dolorosos/supurativos), a medicação de escolha é a Azitromicina por 14 dias.
💊 Tratamento: Linfadenopatia autolimitada. Se indicado, Azitromicina é a droga de escolha.
Esplenomegalia
Causas
A esplenomegalia, ou aumento do baço, pode ter causas diversas, muitas delas compartilhadas com as causas de linfonodomegalia. No entanto, devido à sua função e estrutura, o baço também apresenta causas específicas de aumento.
Causas Específicas do Baço
- Hipertensão Porta: Aumento da pressão na veia porta, levando a congestão esplênica.
- Hiperfunção (Hemólise): O baço aumenta de tamanho devido ao aumento da destruição de células sanguíneas, como na anemia hemolítica.
- Infiltração: Acúmulo de células anormais (como em leucemias e linfomas) ou substâncias de depósito (como em doenças de depósito lisossômico).
Esplenomegalia "de Monta"
O termo "esplenomegalia de monta" refere-se a um aumento significativo do baço, que pode ser conceitualizado de várias formas:
- Baço com mais de 8 cm.
- Baço que atinge a fossa ilíaca esquerda.
- Baço que atinge a linha média abdominal.
Existem diversas condições que podem gerar uma esplenomegalia de monta, e um mnemônico útil para memorizar algumas delas é MEGA-LIA:
- M: Malária (especialmente a forma imunorreativa).
- E: Esquistossomose (forma hepatoesplênica).
- GA: Doença de Gaucher (doença de depósito lisossômico).
- L: Leishmaniose visceral (calazar).
- IA: Doenças hematológicas (como hemólise crônica, Leucemia Mieloide Crônica (LMC), Metaplasia Mieloide Agnogênica, Tricoleucemia).
💡 Dica: Mnemônico MEGA-LIA para causas de esplenomegalia de monta: Malária, Esquistossomose, Gaucher, Leishmaniose, Doenças Hematológicas.
Conduta
Diante de uma esplenomegalia, a abordagem diagnóstica inicial deve ser cautelosa:
- Avaliar outros locais: É fundamental investigar a presença de linfonodomegalia ou alterações na medula óssea antes de considerar procedimentos invasivos no baço.
- Evitar biópsia esplênica inicial: A biópsia do baço é um procedimento muito invasivo e geralmente não é a primeira linha de investigação, sendo reservada para casos específicos após exclusão de outras causas.