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Introdução à Hematologia

Antes de mergulharmos nas patologias hematológicas, é fundamental compreender os processos fisiológicos que regem a formação das células sanguíneas, em especial a eritropoiese, que é a base para o estudo das anemias.


Hematopoiese

A hematopoiese, processo de formação das células do sangue, ocorre em diferentes locais ao longo do desenvolvimento humano, adaptando-se às necessidades do organismo.

Desenvolvimento da Hematopoiese

Vida Embrionária

No início da vida embrionária, a medula óssea ainda não está formada. A produção de células hematológicas é realizada pelo sistema reticuloendotelial, que inclui:

🧠 Conceito: Na vida embrionária, a hematopoiese é predominantemente extramedular, ocorrendo em órgãos como fígado e baço.

Pós-Nascimento

Após o nascimento, a medula óssea assume progressivamente a função hematopoiética. Inicialmente, todos os ossos do corpo contêm medula óssea vermelha ativa, sendo capazes de produzir células sanguíneas.

A Partir dos 5 Anos

A partir dos cinco anos de idade, ocorre uma transformação gradual. Parte da medula óssea vermelha começa a ser substituída por tecido adiposo, formando a medula óssea amarela, que é inativa na hematopoiese. Na vida adulta, a hematopoiese normal se restringe principalmente à medula óssea vermelha encontrada em:

Hematopoiese Extramedular

Em certas condições patológicas, a medula óssea pode se tornar incapaz de suprir a demanda por células sanguíneas. Nesses casos, o corpo pode recrutar sítios antigos de hematopoiese, como o baço e o fígado, para retomar a produção de células sanguíneas. Este fenômeno é conhecido como hematopoiese extramedular.

⚠️ Atenção: A hematopoiese extramedular é um sinal de que a medula óssea não está conseguindo cumprir sua função adequadamente.

Exemplos de doenças que podem cursar com hematopoiese extramedular incluem:


Eritropoiese

Todas as células sanguíneas adultas, incluindo linfócitos, neutrófilos, monócitos, hemácias e plaquetas, derivam de um progenitor comum: a célula tronco hematopoiética (stem cell).

Diferenciação das Células Hematológicas

A célula tronco toma uma decisão inicial de diferenciação em uma das duas linhagens principais:

Nosso foco inicial será a linhagem vermelha, essencial para a compreensão das anemias.

Linhagem Mieloide: Principais Células e Maturação

O sufixo "blasto" indica uma célula jovem ou imatura que ainda passará por maturação.

Combustíveis Essenciais para a Eritropoiese

A medula óssea necessita de substratos específicos para a produção eficaz de hemácias. Estes são os "combustíveis da eritropoiese":

💊 Dica: A deficiência de qualquer um desses "combustíveis" pode levar a diferentes tipos de anemia.

Características Funcionais da Hemácia


Investigação Inicial da Anemia

A abordagem diagnóstica da anemia envolve uma sequência lógica de exames e análises morfológicas, permitindo uma classificação inicial que direciona a investigação etiológica.

Passo 1: Confirmação da Anemia via Hemograma

O primeiro passo é a confirmação da anemia através de um hemograma completo. Este exame fornece dados essenciais sobre a contagem de hemácias, os níveis de hemoglobina e o hematócrito.

A anemia é uma condição clínica comum, definida pela redução da concentração de hemoglobina (Hb) no sangue, abaixo dos valores de referência estabelecidos. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), os critérios diagnósticos são:

Embora o diagnóstico de anemia seja direto, o desafio reside em identificar sua etiologia.

Uma vez confirmada a anemia, a investigação prossegue para avaliar a resposta medular.

Passo 2: Avaliação da Resposta Medular com Reticulócitos

Após a confirmação da anemia, a contagem de reticulócitos é o exame mais importante a ser analisado. Os reticulócitos são hemácias jovens recém-liberadas pela medula óssea (MO) na corrente sanguínea. Sua contagem permite classificar as anemias em dois grandes grupos, indicando a capacidade da medula óssea de responder à demanda por novas hemácias.

Anemias Hiperproliferativas (Com Reticulocitose > 2%)

Neste grupo, a medula óssea está saudável e funcional, com todos os recursos necessários para a eritropoiese. Diante da anemia, a MO responde intensamente, aumentando a produção e liberação de reticulócitos na corrente sanguínea. Isso indica que a perda ou destruição de hemácias ocorre na periferia, e a medula está tentando compensar ativamente.

💡 Dica de Prova: Em questões de residência, se uma anemia se apresenta com reticulocitose, a principal hipótese diagnóstica a ser considerada é a anemia hemolítica, pois o sangramento agudo raramente é o foco principal de diferenciação neste contexto.

Anemias Hipoproliferativas (Sem Reticulocitose < 2%)

Aqui, a medula óssea não consegue responder adequadamente à anemia. Isso pode ocorrer por doença intrínseca da medula (como na aplasia) ou pela falta de "combustíveis" essenciais para a produção de hemácias (como na deficiência de ferro). Consequentemente, a medula não consegue aumentar a proliferação eritrocitária nem liberar reticulócitos em quantidade suficiente.

Tipo de Anemia Resposta Medular Contagem de Reticulócitos Principais Causas
Hiperproliferativa Medula óssea saudável e responsiva Elevados (> 2%) Anemias hemolíticas, sangramento agudo
Hipoproliferativa Medula óssea com resposta inadequada Baixos (< 2%) Carenciais (ferro, B12, folato), IRC, doença crônica, sideroblástica, aplásica, mielodisplasia

Passo 3: Análise da Morfologia da Hemácia (VCM e HCM)

O terceiro passo na investigação etiológica da anemia é a avaliação morfológica das hemácias, focando em seu tamanho (Volume Corpuscular Médio - VCM) e cor (Hemoglobina Corpuscular Média - HCM). Esses parâmetros são cruciais para direcionar o diagnóstico, pois refletem a capacidade da hemácia de ser preenchida com hemoglobina.

A hemácia pode ser metaforicamente entendida como um "saco" cuja principal função é transportar oxigênio, ligando-o à molécula de hemoglobina. Se há dificuldades na produção de hemoglobina, o "saco" não se enche adequadamente, resultando em hemácias menores (microcíticas) e mais claras (hipocrômicas), pois a cor da hemácia é determinada pelo seu conteúdo de hemoglobina.

Composição da Hemoglobina e Implicações Morfológicas

A hemoglobina é uma proteína complexa formada pela união de quatro grupamentos heme com quatro cadeias de globina (tipicamente duas cadeias alfa e duas beta). O grupamento heme, por sua vez, é sintetizado a partir da união de ferro com a protoporfirina.

Componente da Hemoglobina Subcomponentes Essenciais Defeito Comum Anemia Associada Morfologia Típica
Heme Ferro + Protoporfirina Deficiência de Ferro Anemia Ferropriva, Anemia da Doença Crônica Microcítica e Hipocrômica
Deficiência de Protoporfirina Anemia Sideroblástica Microcítica e Hipocrômica
Globina 2 cadeias α + 2 cadeias β Defeito Quantitativo na Produção Talassemia Microcítica e Hipocrômica

Compreender essa estrutura é fundamental para entender as causas das anemias que cursam com hemácias "pequenas" (microcíticas) ou "claras" (hipocrômicas):


Parâmetros Diagnósticos e Valores de Referência

O diagnóstico de anemia pode ser estabelecido pela avaliação dos níveis de hemoglobina, contagem de hemácias ou hematócrito. A ordem de importância para o diagnóstico é hemoglobina > hemácias > hematócrito, sendo a hemoglobina o parâmetro mais direto e confiável.

Parâmetro do Hemograma Valores de Referência (Adultos)
Hemácias 3 - 6 milhões/µL
Hemoglobina (Hb) 12 - 17 g/dL
Hematócrito (Ht) 36 - 50% (aproximadamente 3x o valor da Hb)
Reticulócitos 0,5 - 2%
VCM (Volume Corpuscular Médio) 80 - 100 fL
HCM (Hemoglobina Corpuscular Média) 28 - 32 pg
CHCM (Concentração de Hemoglobina Corpuscular Média) 32 - 35 g/dL
Plaquetas 150.000 - 400.000/µL
RDW (Red Cell Distribution Width) 10 - 14%
Leucócitos 5.000 - 10.000/µL

Classificação Morfológica das Anemias

A análise do VCM e HCM permite uma classificação morfológica das anemias, que é um guia essencial para o diagnóstico diferencial e para direcionar exames complementares.

Anemias Microcíticas e Hipocrômicas (VCM < 80 fL, HCM < 28 pg)

Estas anemias são caracterizadas por hemácias pequenas e pálidas, geralmente devido a um defeito na síntese de hemoglobina. As principais causas são:

🧠 Conceito Chave: As anemias microcíticas e hipocrômicas são quase invariavelmente causadas por problemas na síntese de hemoglobina.

Anemias Normocíticas e Normocrômicas (VCM 80-100 fL, HCM 28-32 pg)

Neste grupo, as hemácias têm tamanho e coloração normais, mas o número total ou a massa de hemoglobina estão reduzidos. As causas são diversas e incluem:

Anemias Macrocíticas (VCM > 100 fL)

Caracterizadas por hemácias maiores que o normal. A principal causa a ser lembrada para provas é a megaloblástica, que geralmente apresenta um VCM muito elevado.

⚠️ Atenção: Em provas, a anemia megaloblástica é a causa mais comum e importante de macrocitose, especialmente com VCM muito elevado (> 110 fL).

Anemias Hipercrômicas (CHCM > 35 g/dL)

Esta é uma situação rara e específica, onde as hemácias parecem ter uma concentração de hemoglobina maior que o normal. A única condição que tipicamente cursa com hipercromia é:

🔎 Diagnóstico Único: A esferocitose hereditária é a principal e quase exclusiva causa de anemia hipercrômica, sendo um achado distintivo.