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Leucemias

Definição e Classificação Geral

As leucemias são neoplasias hematológicas que se originam na medula óssea, caracterizadas pelo acúmulo descontrolado de células brancas anormais, os leucócitos. Essas células podem ser de linhagem mieloide ou linfoide, e sua classificação é fundamental para o diagnóstico e tratamento.

Tipos de Leucemia: Aguda vs. Crônica

A distinção entre leucemias agudas e crônicas baseia-se principalmente no grau de maturação das células proliferativas e na evolução clínica da doença:

🧠 Conceito Chave: A linhagem celular afetada (mieloide ou linfoide) e o estágio de maturação das células (jovens/blastos ou maduras) são os pilares da classificação das leucemias.

Patogênese

A gênese das leucemias está intrinsecamente ligada a mutações genéticas que ocorrem nas células-tronco hematopoiéticas da medula óssea. Essas mutações podem ser de diversos tipos, como deleções, translocações cromossômicas ou ganhos de material genético, e resultam na ativação de oncogenes ou na inativação de genes supressores de tumor. A expressão desses oncogenes confere às células uma vantagem proliferativa e/ou um bloqueio na maturação, levando ao crescimento clonal descontrolado e ao desenvolvimento da leucemia.

Epidemiologia e Tipos Principais

Existem quatro tipos principais de leucemias, além de formas mais raras, que variam em frequência e faixa etária de acometimento.

Tipo de Leucemia Prevalência Aproximada Faixa Etária Típica
Leucemia Linfocítica Crônica (LLC) 45% dos casos Idosos
Leucemia Mieloide Aguda (LMA) 30% dos casos Adultos
Leucemia Mieloide Crônica (LMC) 15% dos casos Qualquer idade, mais comum em adultos
Leucemia Linfocítica Aguda (LLA) 10% dos casos Crianças
Tricoleucemia (Leucemia de Células Pilosas) 1% dos casos Adultos mais velhos
💡 Dica de Prova: A LLC é a leucemia mais frequente em adultos e idosos. Na infância, a LLA é a leucemia mais comum e, de fato, o câncer mais frequente nessa faixa etária, respondendo por cerca de 90% dos casos pediátricos. Em adultos, a LMA é a mais prevalente.

Leucemias Agudas

Introdução

As leucemias agudas são caracterizadas por um bloqueio na maturação das células hematopoiéticas. Isso significa que as células precursoras (linfoides ou mieloides) não conseguem se desenvolver em células maduras funcionais, resultando no acúmulo de blastos na medula óssea. Esses blastos são células imaturas e não funcionais que ocupam o espaço da medula, comprometendo a produção normal de outras células sanguíneas. Consequentemente, ocorre uma pancitopenia, manifestada por anemia (deficiência de glóbulos vermelhos), plaquetopenia (deficiência de plaquetas) e leucopenia (deficiência de leucócitos maduros funcionais), independentemente de ser LMA ou LLA.

🚨 Alerta: Leucemia Aguda = Bloqueio de Maturação + Acúmulo de Blastos + Pancitopenia. Os blastos são "inúteis" e "ocupam espaço", impedindo a hematopoiese eficaz.

Gênese Molecular

A origem das leucemias agudas reside em mutações genéticas que levam a alterações citogenéticas no cariótipo das células. Essas alterações podem incluir deleções cromossômicas, translocações (como a t(9;22) no cromossomo Philadelphia, embora mais comum na LMC, outras translocações são vistas em LMA/LLA) ou ganhos cromossômicos. Tais modificações genéticas resultam na expressão de proto-oncogenes alterados, que promovem o bloqueio da maturação celular e a proliferação descontrolada, iniciando o processo leucêmico.

Fatores de Risco

Diversos fatores podem aumentar o risco de desenvolvimento de leucemias agudas:

🧬 Genética e Idade: Na Síndrome de Down, a leucemia mais frequente varia com a idade:

Fisiopatologia e Manifestações Clínicas

A leucemia aguda tem seu início na medula óssea vermelha, onde a mutação genética leva à proliferação de um clone leucêmico de blastos. Com o tempo, esses blastos se acumulam, infiltrando a medula e suprimindo a hematopoiese normal, o que resulta na pancitopenia e suas consequências (anemia, infecções devido à neutropenia, sangramentos por plaquetopenia). Posteriormente, os blastos caem na corrente sanguínea, um fenômeno conhecido como leucemização (que pode se manifestar como leucocitose às custas de blastos), e começam a infiltrar outros órgãos e tecidos pelo corpo, levando a diversas manifestações clínicas:

Representação esquemática da fisiopatologia da leucemia
⚠️ Atenção: A principal causa de óbito em pacientes com leucemia aguda é a infecção, decorrente da neutropenia grave (deficiência de neutrófilos funcionais) causada pela doença e pelo tratamento.
🧪 Interpretação Laboratorial: A leucocitose observada no hemograma de pacientes com leucemia aguda é, na verdade, uma pseudoleucocitose ou leucocitose por blastos. Os contadores automáticos de células sanguíneas interpretam os blastos imaturos como leucócitos maduros, elevando artificialmente a contagem total, enquanto o paciente apresenta uma deficiência de leucócitos funcionais (neutropenia).
🚨 Emergência: A Síndrome de Leucostase (ou síndrome de hiperviscosidade) ocorre quando há uma contagem de blastos muito elevada (geralmente acima de 100.000/mm³), aumentando a viscosidade sanguínea. Isso dificulta o fluxo sanguíneo em pequenos vasos, levando a: É uma emergência médica que requer intervenção imediata.
🧠 Diferencial Importante: É crucial diferenciar leucemia de linfoma. Enquanto a leucemia nasce na medula óssea vermelha e se manifesta primariamente no sangue e medula, o linfoma tem sua origem nos linfonodos ou em outros tecidos linfoides, embora possa haver envolvimento secundário da medula óssea.

Leucemia Mieloide Aguda (LMA)

Introdução

A Leucemia Mieloide Aguda (LMA) é a segunda leucemia mais comum em geral e a mais incidente em adultos, sendo superada em prevalência total apenas pela Leucemia Linfoide Crônica (LLC).

Classificação FAB (French-American-British)

A classificação FAB divide a LMA em subtipos (M0 a M7) com base na morfologia e no grau de diferenciação dos mieloblastos. Essa divisão é fundamental para o prognóstico e a escolha da estratégia terapêutica.

Detalhes dos Subtipos FAB
🧠 High Yield Notes - Subtipos FAB e Características Chave:
Tabela Comparativa dos Subtipos FAB da LMA
Subtipo FAB Característica Principal Prognóstico
M0 Indiferenciada Péssimo
M1 Diferenciação Mínima Péssimo
M2 Mieloblástica Aguda (Cloroma) Melhor
M3 Promielocítica Aguda (CIVD) Melhor
M4 Mielomonocítica Aguda (Hiperplasia Gengival) Melhor
M5 Monocítica Aguda (Hiperplasia Gengival) Melhor
M6 Eritroleucemia Péssimo
M7 Megacariocítica Aguda (Síndrome de Down < 3 anos) Péssimo

Manifestações Clínicas

A apresentação clínica da LMA é frequentemente dominada pela pancitopenia, que resulta da falha da medula óssea em produzir células sanguíneas maduras e funcionais.

Tríade Clássica da Pancitopenia
Outras Manifestações
🚨 Síndrome de Leucostase (Hiperviscosidade):

Esta é uma emergência médica que ocorre devido ao aumento acentuado da contagem de blastos no sangue periférico, elevando a viscosidade sanguínea. O sangue mais espesso dificulta a perfusão e a troca gasosa, levando a hipóxia tecidual.

Diagnóstico

O diagnóstico da LMA é abrangente, combinando achados morfológicos, imunofenotípicos, citogenéticos e citoquímicos.

1. Aspirado e Biópsia de Medula Óssea (MO)
💡 Dica de Prova: Em alguns casos de LMA com certas alterações citogenéticas específicas, o diagnóstico pode ser estabelecido mesmo com menos de 20% de blastos na medula óssea, dispensando o critério morfológico.
2. Imunofenotipagem

É essencial para determinar a linhagem dos blastos (mieloide ou linfoide) através da identificação de marcadores de superfície celular (CDs).

3. Citogenética

A análise das alterações cromossômicas (deleções, inversões, translocações, hiperploidias) é crucial para o prognóstico e, em alguns casos, para o diagnóstico e a escolha terapêutica.

4. Citoquímica

Utiliza corantes específicos para auxiliar na diferenciação das linhagens celulares.

Tratamento

O tratamento da LMA compreende a terapia específica para erradicar as células leucêmicas e a terapia de suporte para manejar as complicações da doença e do tratamento.

Terapia Específica
Terapia de Suporte

Visa controlar as complicações da doença e do tratamento, como anemia, plaquetopenia, neutropenia febril e síndrome de lise tumoral.

1. Anemia
2. Plaquetopenia
3. Neutropenia Febril

Definida como contagem de neutrófilos < 500/mm³ (ou < 1.000/mm³ com previsão de queda em < 48 horas) associada a temperatura oral > 38,3 ºC, ou > 38 ºC por mais de 1 hora, ou axilar > 37,8 ºC.

💊 Manejo Ambulatorial da Neutropenia Febril (MASCC Score):

Pacientes com baixo risco (escore MASCC > 21 pontos) podem ser tratados ambulatorialmente com antibióticos orais, se preencherem os seguintes critérios:

O esquema oral pode incluir Amoxicilina + Clavulanato em combinação com Ciprofloxacino.

Tabela de Pontuação MASCC para Avaliação de Risco em Neutropenia Febril
Característica Pontos
Intensidade dos sintomas (assintomático ou leves) 5
Ausência de hipotensão 5
Ausência de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) 4
Portador de tumor sólido ou ausência de infecção fúngica 4
Ausência de desidratação 3
Não hospitalizado ao aparecimento da febre 3
Idade < 60 anos 2
4. Síndrome de Lise Tumoral

Esta síndrome ocorre devido à rápida destruição de um grande número de células tumorais, liberando seu conteúdo intracelular na corrente sanguínea. É uma complicação grave que pode levar a disfunção orgânica.

💡 Macete: Na Síndrome de Lise Tumoral, "SÓ CAI CÁLCIO" (todos os outros eletrólitos e o ácido úrico aumentam).

Leucemia Linfoide Aguda (LLA)

Introdução

A Leucemia Linfoide Aguda (LLA) é a leucemia mais comum na infância, sendo responsável por aproximadamente 90% dos casos pediátricos. Sua patogenia envolve uma mutação gênica que resulta no bloqueio da maturação de células linfoides, levando à proliferação descontrolada de blastos linfoides.

Manifestações Clínicas

A LLA compartilha algumas manifestações com a LMA, mas possui características clínicas e laboratoriais específicas que a diferenciam.

Tríade da Pancitopenia
Síndrome de Leucostase

Assim como na LMA, pode ocorrer devido à hiperleucocitose, manifestando-se com sintomas neurológicos, pulmonares e genitourinários.

Infiltração de Órgãos e Tecidos
Clínica e Laboratório Específicos da LLA

Os blastos linfoides apresentam um tropismo particular por certos locais, o que gera manifestações clínicas distintas:

🧠 Lembre-se: Ao contrário da LMA, a LLA não costuma apresentar cloroma, CIVD ou hiperplasia gengival. Seu foco de infiltração é o SNC, testículos e linfonodos.

Diagnóstico

O diagnóstico da LLA segue princípios semelhantes aos da LMA, com particularidades na imunofenotipagem e citogenética.

1. Aspirado e Biópsia de Medula Óssea
2. Imunofenotipagem

Fundamental para definir a linhagem linfoide (B ou T) dos blastos, utilizando marcadores de superfície celular.

3. Citogenética

Identifica alterações cromossômicas que possuem implicações prognósticas importantes.

4. Citoquímica

Tratamento

O tratamento da LLA é intensivo e geralmente resulta em altas taxas de cura, especialmente em crianças.

✅ Taxa de Cura: A LLA apresenta uma taxa de cura de aproximadamente 85%, significativamente maior do que a LMA (30-50%), especialmente em pacientes pediátricos.
Subtipos da LLA (Classificação FAB)

Leucemias Crônicas

Introdução

As leucemias crônicas representam um grupo de neoplasias hematológicas caracterizadas por um curso clínico geralmente mais arrastado, indolente e, frequentemente, assintomático em suas fases iniciais. Diferentemente das leucemias agudas, a marca distintiva das leucemias crônicas é a ausência de bloqueio na maturação celular. Isso significa que, embora haja uma proliferação descontrolada de células neoplásicas, estas são predominantemente células maduras ou em estágios avançados de diferenciação.

Exemplos notáveis incluem a Leucemia Mieloide Crônica (LMC), a Leucemia Linfoide Crônica (LLC) e a Tricoleucemia. Nesses quadros, os clones leucêmicos são compostos por células adultas, sejam linfócitos maduros neoplásicos, granulócitos maduros neoplásicos, entre outros tipos celulares.

💡 Conceito Chave: A principal diferença entre leucemias agudas e crônicas reside na maturação celular. Enquanto nas agudas há um bloqueio na maturação de blastos, nas crônicas as células neoplásicas conseguem amadurecer, embora de forma disfuncional.
Consequências Clínicas e Hematológicas

A proliferação e acúmulo de células maduras neoplásicas nas leucemias crônicas levam a diversas manifestações, principalmente:

🧠 Lembre-se: Devido à capacidade das células maduras de circular e não ficarem retidas na medula óssea, a pancitopenia é uma ocorrência rara nas leucemias crônicas, ao contrário das agudas. A medula óssea geralmente mantém sua função de produção de outras linhagens.
Representação esquemática de células sanguíneas maduras e imaturas.

Conceitos Hematológicos Essenciais

Para uma compreensão aprofundada das leucemias, especialmente a LMC, é crucial revisar a classificação e a morfologia dos leucócitos:

Em condições como a Leucemia Mieloide Crônica (LMC), observa-se um acúmulo patológico de todas as células da linhagem granulocítica, incluindo neutrófilos em diferentes estágios de maturação, eosinófilos e basófilos. Não há, contudo, acúmulo primário de linfócitos ou monócitos, pois estes não são granulócitos.

Leucocitose com Desvio à Esquerda e à Direita

O termo "desvio à esquerda" refere-se especificamente à presença de formas jovens de neutrófilos no sangue periférico, como bastões, metamielócitos e mielócitos, em resposta a um estímulo, geralmente infeccioso. Este fenômeno ocorre quando a demanda por neutrófilos maduros (segmentados) é tão alta que a medula óssea libera formas imaturas para a circulação.

⚠️ Atenção: O conceito de desvio à esquerda ou à direita aplica-se exclusivamente aos neutrófilos e suas formas precursoras, não envolvendo eosinófilos ou basófilos.
Aumento de Granulócitos e Implicações Diagnósticas

Em leucemias crônicas mieloides, como a LMC, o acúmulo de granulócitos é uma característica marcante, levando a um quadro de neutrofilia, frequentemente acompanhada de eosinofilia e basofilia.

🔎 Dica de Prova: Ao analisar um hemograma com leucocitose, desvio à esquerda, eosinofilia e, especialmente, basofilia acentuada, a Leucemia Mieloide Crônica (LMC) deve ser uma das primeiras hipóteses diagnósticas.

Na interpretação de hemogramas em provas, onde os percentuais de leucócitos podem ser apresentados de forma abreviada (ex: "0/2/50/10/30/8"), é fundamental conhecer a ordem padrão de apresentação das células para identificar rapidamente alterações:

Um aumento nos percentuais de basófilos, eosinófilos e formas jovens de neutrófilos, em conjunto com uma leucocitose total, reforça a suspeita de uma neoplasia mieloide crônica.

Reação Leucemoide e Diagnóstico Diferencial

A reação leucemoide é definida pela presença de leucocitose acentuada, com contagem de leucócitos superior a 25.000/mm³, acompanhada de desvio à esquerda com formas imaturas de granulócitos no sangue periférico. Esta condição pode mimetizar uma leucemia, mas é uma resposta reacional a diversas causas não neoplásicas.

Para diferenciar uma reação leucemoide de uma leucemia verdadeira, como a LMC, um exame laboratorial crucial é a Fosfatase Alcalina Leucocitária (FAL), também conhecida como pontuação de FAL.

🧪 Exame Chave: A Fosfatase Alcalina Leucocitária (FAL) é um marcador importante para diferenciar a LMC de outras causas de leucocitose acentuada.
Microscopia de células sanguíneas com diferentes níveis de fosfatase alcalina.
Diferenciação entre Reação Leucemoide e Leucemia Mieloide Crônica (LMC)

A tabela a seguir resume os principais pontos para distinguir uma reação leucemoide de uma leucemia mieloide crônica, informações essenciais para o diagnóstico diferencial:

Característica Reação Leucemoide Leucemia Mieloide Crônica (LMC)
Fosfatase Alcalina Leucocitária (FAL) Alta ou normal Baixa
Eosinófilos Normal ou eosinopenia Eosinofilia (frequentemente)
Basófilos Normal ou basopenia Basofilia (frequentemente exuberante)
Causa Subjacente Geralmente uma causa "óbvia" (infecção, inflamação, uso de corticoides, sepse, etc.) Neoplasia primária da medula óssea (presença do cromossomo Philadelphia)
Esplenomegalia Rara ou leve Frequentemente presente e significativa
Mielócitos/Metamielócitos Presentes, mas em menor proporção que segmentados Aumento significativo, com todas as fases de maturação granulocítica

Com estes conceitos fundamentais estabelecidos, podemos agora aprofundar o estudo das leucemias crônicas específicas.

Leucemia Mieloide Crônica (LMC)

A Leucemia Mieloide Crônica (LMC) é uma neoplasia mieloproliferativa clonal que se origina de uma célula-tronco hematopoética pluripotente. Caracteriza-se pela proliferação descontrolada de células da linhagem mieloide, principalmente granulócitos, em diferentes estágios de maturação, e é mais comum em adultos.

Patogênese

A LMC é classicamente associada a uma alteração genética específica: a translocação cromossômica recíproca entre os cromossomos 9 e 22, conhecida como cromossomo Filadélfia (Ph). Esta translocação, denotada como t(9;22), resulta na fusão do proto-oncogene ABL1 (do cromossomo 9) com o gene BCR (do cromossomo 22), formando o gene híbrido BCR-ABL1.

O gene BCR-ABL1 codifica uma proteína de fusão, a tirosina-quinase p210, que possui atividade enzimática constitutiva e desregulada. Esta proteína anômala confere vantagens de crescimento e sobrevivência às células hematopoéticas, levando à proliferação excessiva e à supressão da apoptose, resultando na expansão de um clone neoplásico. A síndrome mieloproliferativa resultante afeta predominantemente a linhagem granulocítica, mas também pode envolver plaquetas em cerca de 50% dos pacientes.

🧬 Conceito Chave: O cromossomo Filadélfia (t(9;22)) e o gene de fusão BCR-ABL1 estão presentes em mais de 95% dos casos de LMC, sendo o principal marcador diagnóstico e alvo terapêutico. Mesmo na ausência do cromossomo Ph, a detecção do gene BCR-ABL1 confirma a doença.

Clínica e Laboratório

A LMC frequentemente se manifesta de forma insidiosa, sendo muitos pacientes assintomáticos no momento do diagnóstico, que é frequentemente incidental após um hemograma de rotina. Quando presentes, os sintomas são geralmente inespecíficos e relacionados à massa tumoral ou à hiperviscosidade.

Evolução

A LMC possui uma evolução trifásica característica se não tratada: fase crônica, fase acelerada e fase blástica. A crise blástica é a complicação mais grave e a principal causa de óbito em pacientes não tratados ou refratários.

Na fase crônica, a doença é relativamente indolente. No entanto, com o tempo, a instabilidade genômica das células leucêmicas aumenta a probabilidade de novas mutações. Essas mutações adicionais podem levar à progressão da doença para uma fase acelerada e, subsequentemente, para a crise blástica, que se assemelha a uma leucemia aguda (mieloide ou linfoide, dependendo da linhagem da nova mutação). A importância do tratamento precoce com inibidores de tirosina quinase reside justamente em prevenir essa transformação.

🚨 Atenção: A crise blástica é definida pela presença de mais de 20% de blastos na medula óssea ou no sangue periférico, ou pela presença de um tumor extramedular de blastos. É uma emergência oncológica e indica a transformação da LMC em uma leucemia aguda, com prognóstico significativamente pior.

Diagnóstico

O diagnóstico da LMC é primariamente baseado na identificação do cromossomo Filadélfia e/ou do gene de fusão BCR-ABL1.

Tratamento

O tratamento da LMC foi revolucionado pela introdução dos Inibidores de Tirosina Quinase (ITQs), que visam especificamente a proteína BCR-ABL1.

💊 Terapia Alvo: O Imatinibe inibe seletivamente a tirosina-quinase p210, bloqueando a proliferação das células leucêmicas e induzindo a apoptose. Sua eficácia é tão alta que a expectativa de vida dos pacientes com LMC tratados é comparável à da população geral.

Leucemia Linfoide Crônica (LLC)

A Leucemia Linfoide Crônica (LLC) é a leucemia mais comum em adultos no Ocidente, caracterizada pelo acúmulo progressivo de linfócitos B monoclonais maduros, mas funcionalmente incompetentes, no sangue periférico, medula óssea, linfonodos e outros órgãos linfoides. É frequentemente associada à apresentação em pacientes idosos com linfocitose.

Patogênese

A LLC é uma neoplasia de linfócitos B maduros, que se originam de um clone linfocítico B neoplásico. Diferentemente dos linfócitos B normais, essas células na LLC não conseguem se diferenciar adequadamente em plasmócitos e, portanto, não produzem imunoglobulinas funcionais. Isso leva à hipogamaglobulinemia, uma das principais causas de infecções recorrentes e óbito nesses pacientes.

O linfócito B neoplásico da LLC apresenta um perfil imunofenotípico característico na sua superfície:

🔎 Diagnóstico: A coexpressão de CD5 e CD23 em linfócitos B monoclonais é um achado imunofenotípico crucial para o diagnóstico da LLC, diferenciando-a de outras doenças linfoproliferativas.

Clínica e Laboratório

A LLC é frequentemente diagnosticada em pacientes idosos (média de 70 anos), muitas vezes de forma incidental devido a uma linfocitose persistente em um hemograma de rotina. A maioria dos pacientes é assintomática no início da doença, mas pode evoluir com sintomas e sinais à medida que a doença progride.

Diagnóstico

O diagnóstico da LLC é estabelecido pela presença de linfocitose persistente e a caracterização imunofenotípica dos linfócitos B monoclonais.

Evolução e Estadiamento

A LLC tem um curso clínico variável, com sobrevida média que pode variar de meses a décadas, dependendo do estágio da doença e de fatores prognósticos. O estadiamento é crucial para guiar a decisão terapêutica, pois a doença em estágios iniciais geralmente não requer tratamento imediato.

Estadiamento de Rai

Classifica a doença com base em achados clínicos e laboratoriais, correlacionando-se com o prognóstico.

💡 Dica: Pacientes nos estágios 0, I e II de Rai geralmente não necessitam de tratamento imediato, adotando-se a conduta de "observar e esperar" (watchful waiting). O tratamento é indicado a partir do estágio II (se sintomático) ou III/IV.
Estadiamento de Binet

Outro sistema de estadiamento amplamente utilizado, focado no número de áreas linfoides acometidas e na presença de citopenias.

Característica Estadiamento de Rai Estadiamento de Binet
Linfocitose Presente em todos os estágios Presente em todos os estágios
Linfadenopatia Estágio I Estágio A (<3 áreas), Estágio B (≥3 áreas)
Organomegalia (Baço/Fígado) Estágio II Estágio A (<3 áreas), Estágio B (≥3 áreas)
Anemia (Hb < 11 g/dL) Estágio III Estágio C (Hb < 10 g/dL)
Trombocitopenia (Plaquetas < 100.000/µL) Estágio IV Estágio C

Tratamento

O tratamento da LLC é geralmente reservado para pacientes sintomáticos ou com doença avançada (estágios III/IV de Rai ou C de Binet), ou com fatores de alto risco. Pacientes assintomáticos com doença de baixo risco são monitorados com a estratégia de "observar e esperar".

⚠️ Complicação: A Síndrome de Richter é uma transformação agressiva da LLC para um linfoma não Hodgkin de alto grau (geralmente difuso de grandes células B). Caracteriza-se por aumento subagudo de linfonodos, esplenomegalia, febre, sudorese noturna e perda ponderal, e possui um prognóstico reservado.

Leucemia de Células Pilosas (Tricoleucemia)

A Leucemia de Células Pilosas (LCP), também conhecida como Tricoleucemia, é uma forma rara de leucemia crônica de linfócitos B, representando cerca de 1% de todas as leucemias. É mais comum em homens (proporção de 5:1) e geralmente afeta adultos de meia-idade, por volta dos 50 anos.

Características Clínicas e Laboratoriais

A LCP é caracterizada pela presença de linfócitos B neoplásicos com projeções citoplasmáticas finas, semelhantes a "cabelos" ou "pilosidades", que podem ser observadas no sangue periférico e na medula óssea. Essas células secretam fatores que induzem a fibrose da medula óssea, o que dificulta a aspiração medular.

🚨 Risco Elevado: A monocitopenia na LCP aumenta drasticamente o risco de infecções oportunistas, especialmente por micobactérias (como Mycobacterium tuberculosis) e fungos, devido ao papel crucial dos monócitos na defesa contra esses patógenos.

Diagnóstico

O diagnóstico é suspeitado pela clínica e hemograma, e confirmado por métodos específicos:

Tratamento

A LCP é uma leucemia altamente tratável, com altas taxas de remissão completa e melhora significativa da qualidade de vida dos pacientes.

💊 Tratamento Eficaz: A Cladribina é altamente eficaz na LCP, levando a remissões completas prolongadas e melhorando significativamente a qualidade de vida dos pacientes, muitas vezes com um único ciclo de tratamento.