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Linfomas


Visão Geral

Qual a Origem?

Os linfomas são neoplasias malignas que se originam da proliferação descontrolada de linfócitos da linhagem linfoide, predominantemente em órgãos linfoides. As linhagens mais comuns são as de células B (mais frequentes), seguidas pelas de células T (geralmente mais agressivas) e, mais raramente, as de células NK.

⚠️ Diferença Crucial: É importante notar que a apresentação clínica pode se sobrepor, com leucemias se comportando como linfomas e vice-versa, dependendo da disseminação da doença.

Componentes do Tecido Linfoide

O sistema linfoide é complexo e essencial para a imunidade, sendo dividido em:

Maturação dos Linfócitos e o Linfonodo

Após a origem na medula óssea, os pré-linfócitos seguem caminhos distintos:

Ambos os tipos de linfócitos, uma vez maduros, se alojam nos tecidos linfoides, onde circulam pela linfa. A linfa é o excesso de líquido intersticial que drena para o sistema linfático, funcionando como um sistema de "esgoto" do corpo, filtrando substâncias indesejadas. Ao longo dos vasos linfáticos, encontramos os linfonodos, que atuam como "postos de alfândega" para filtrar a linfa.

Células Presentes no Linfonodo e Resposta Imune

Nos linfonodos, as principais células encontradas são os linfócitos B, linfócitos T e plasmócitos. O plasmócito é um linfócito B diferenciado, especializado na produção de imunoglobulinas (anticorpos).

O processo de resposta imune dentro do linfonodo ocorre da seguinte forma:

O aumento do tamanho do linfonodo (linfonodomegalia) durante uma infecção é uma resposta normal, decorrente da proliferação de centroblastos no centro germinativo.

Por que Linfomas de Células B são Mais Comuns?

Os linfomas de células B são significativamente mais frequentes do que os de células T. Isso se deve ao fato de que os linfócitos B passam por múltiplas etapas de transformação e diferenciação (linfócito virgem, centroblasto, centrócito, plasmócito, célula de memória). Cada uma dessas etapas representa um maior risco de ocorrência de erros genéticos e, consequentemente, de transformação neoplásica. Em contraste, os linfócitos T sofrem um número menor de transformações.

🧠 High Yield Note: O Linfoma de Hodgkin é classicamente associado a mulheres jovens e apresenta uma das mais altas taxas de cura entre as neoplasias hematológicas.

Quadro Clínico

O quadro clínico dos linfomas pode variar, mas algumas manifestações são comuns e importantes para o diagnóstico diferencial, especialmente em provas de residência.

Manifestação Mais Precoce e Comum

💡 Dica: Diferente das leucemias, que se iniciam na medula óssea, o linfoma tem seu ponto de partida nos linfonodos ou outros órgãos linfoides.

Sintomas B

A presença de sintomas B é um fator prognóstico negativo, indicando um pior prognóstico. Embora possam ocorrer em ambos os tipos de linfoma, são frequentemente enfatizados em linfomas não Hodgkin. Os critérios para sintomas B são:

⚠️ Atenção: Em questões de prova, é fundamental observar os critérios exatos (temperatura, intensidade da sudorese e porcentagem/tempo da perda de peso), pois são pegadinhas clássicas.

Outras Manifestações

Além dos sintomas clássicos, outras manifestações podem estar presentes:

Diagnóstico

O diagnóstico definitivo de linfoma é estabelecido por meio da análise histopatológica do tecido afetado.

Exame Padrão-Ouro

Critérios para Biópsia de Linfonodo Suspeito

A indicação para biópsia de um linfonodo deve considerar as seguintes características:

🔎 Investigação Adicional: Em caso de suspeita de malignidade em linfonodo cervical, é fundamental avaliar a presença de carcinoma de cabeça e pescoço por meio de naso/laringoscopia.

Estadiamento

O estadiamento é crucial para determinar a extensão da doença e guiar o tratamento. O sistema mais utilizado é o Ann Arbor modificado pela classificação de Cotswolds.

Sistema de Estadiamento e Exames

Estágios da Doença (Ann Arbor Modificado)

🚨 Crucial para Prova: Sufixo "B" Se o paciente apresentar qualquer um dos sintomas B (febre > 38°C, sudorese noturna intensa, perda ponderal > 10% em 6 meses), a letra "B" deve ser adicionada ao estágio (ex: Estágio IIB). A ausência de sintomas B é indicada pelo sufixo "A".

Tratamento

O tratamento dos linfomas é individualizado e depende do tipo histológico, estágio da doença e fatores prognósticos.

Abordagens Terapêuticas

Estágio da Doença Terapia Principal Regime de Quimioterapia Comum Chance de Cura
Doença Localizada (Estágios I e II) 💊 Quimioterapia (QT) +/- Radioterapia (RT) ABVD (Doxorrubicina, Bleomicina, Vimblastina, Dacarbazina) 80-90%
Doença Avançada (Estágios III e IV) 💊 Quimioterapia exclusiva (RT em casos muito selecionados) Regimes mais intensivos, dependendo do subtipo ~60%

Recidiva da Doença

Fatores de Pior Prognóstico

A identificação desses fatores é importante para a estratificação de risco e planejamento terapêutico:


Linfoma de Hodgkin

Introdução e Epidemiologia

O Linfoma de Hodgkin (LH) é uma neoplasia linfoide que, apesar de ser menos comum que o Linfoma Não Hodgkin, possui grande relevância em provas de residência médica devido às suas particularidades clínicas e bom prognóstico. Caracteriza-se por uma distribuição bimodal em relação à idade e sexo, e, quando diagnosticado, frequentemente se encontra em estágios iniciais, o que contribui para suas elevadas taxas de cura.

🧠 Conceito Chave: O Linfoma de Hodgkin sempre se origina de um clone neoplásico de linfócitos B, diferenciando-se de muitos Linfomas Não Hodgkin que podem ter origem em células T.

A distribuição epidemiológica do LH apresenta dois picos de incidência:

É uma doença que tipicamente se mantém confinada aos linfonodos em suas fases iniciais, o que favorece a detecção precoce e a eficácia do tratamento. As taxas de cura podem variar significativamente, atingindo entre 60% e 95%, dependendo do estágio e subtipo.

Manifestações Clínicas e Sinais Característicos

As manifestações clínicas do Linfoma de Hodgkin são cruciais para o diagnóstico e devem ser bem compreendidas pelos estudantes. A apresentação mais comum envolve o aumento indolor de linfonodos em regiões específicas.

⚠️ Atenção! Ao se deparar com um tumor de mediastino anterior, lembre-se do mnemônico dos "4 T's", que inclui o Linfoma de Hodgkin como uma das principais causas: Um paciente pode apresentar acometimento mediastinal sem linfonodomegalia palpável, sendo detectado apenas em exames de imagem como o raio-X de tórax.

Achados Laboratoriais

Os exames laboratoriais em pacientes com Linfoma de Hodgkin podem revelar uma série de alterações inespecíficas, mas que, em conjunto com o quadro clínico, auxiliam na suspeita diagnóstica e no acompanhamento da doença.

🔎 Dica Diagnóstica: A presença de eosinofilia e prurido em um paciente com adenomegalia deve sempre levantar a hipótese de Linfoma de Hodgkin, mesmo que outras causas como parasitoses sejam mais comuns para eosinofilia isolada. O contexto clínico é fundamental!

A Célula de Reed-Sternberg (RS)

A célula de Reed-Sternberg é a marca histopatológica do Linfoma de Hodgkin, embora sua presença isolada não seja patognomônica da doença. É uma célula grande, multinucleada ou com núcleo bilobulado, que classicamente é descrita como tendo a aparência de "olhos de coruja".

🔬 Imunofenotipagem: A identificação dos marcadores CD15 e CD30 na célula de Reed-Sternberg é crucial para confirmar sua origem B e diferenciá-la de outras células atípicas que podem mimetizá-la.

Diagnóstico

O diagnóstico definitivo do Linfoma de Hodgkin é histopatológico e requer uma análise cuidadosa do tecido linfonodal. A qualidade da amostra é fundamental para a correta identificação da célula de Reed-Sternberg e do seu microambiente.

🚨 Ponto Crítico para Prova: Em caso de suspeita de linfoma, NUNCA realizar biópsia por punção aspirativa com agulha fina (PAAF). A biópsia deve ser excisional para garantir a análise adequada do tecido e do microambiente linfonodal.

Classificação Histopatológica

O Linfoma de Hodgkin é dividido em dois grandes grupos principais, cada um com subtipos distintos, que possuem implicações prognósticas e terapêuticas. A classificação é baseada nas características morfológicas e imunofenotípicas das células neoplásicas e do infiltrado inflamatório reacional.

Linfoma de Hodgkin Clássico (LHc)

Representa a vasta maioria dos casos de LH (aproximadamente 95%) e é caracterizado pela presença das células de Reed-Sternberg e suas variantes em um infiltrado inflamatório misto. As células neoplásicas são tipicamente CD15+ e CD30+.

Existem quatro subtipos histológicos do LH Clássico:

  1. Esclerose Nodular:
  2. Celularidade Mista:
  3. Predomínio Linfocítico (Rico em Linfócitos):
  4. Depleção Linfocitária (Pobre em Linfócitos):
💡 Dica para Prova: As bancas adoram questionar sobre a associação entre os subtipos de LH e características demográficas ou prognósticas. Memorize as relações: mulher jovem = esclerose nodular; homem com HIV/EBV = celularidade mista; melhor prognóstico = predomínio linfocítico; pior prognóstico/idosos = depleção linfocitária.
Subtipo de LH Clássico Prevalência Características Demográficas/Associações Prognóstico
Esclerose Nodular Mais comum (65%) Mulheres jovens 2º Melhor
Celularidade Mista 2º Mais comum (25%) Homens, HIV/EBV Intermediário
Predomínio Linfocítico Raro Qualquer idade Melhor
Depleção Linfocitária Mais raro Idosos Pior

Linfoma de Hodgkin com Predomínio Linfocitário Nodular (LHPLN)

Este é um subtipo raro de Linfoma de Hodgkin, que se distingue do LH Clássico por características histopatológicas e imunofenotípicas. As células neoplásicas, neste caso, são conhecidas como "popcorn cells" (células pipoca) e expressam o marcador CD20, além de serem CD15- e CD30-.

Embora seja um tipo de LH, seu comportamento clínico e resposta ao tratamento podem ser mais semelhantes a alguns Linfomas Não Hodgkin indolentes. Para fins de prova, é importante reconhecer sua existência e a positividade para CD20.


Linfoma Não Hodgkin (LNH)

O Linfoma Não Hodgkin (LNH) representa um grupo heterogêneo de neoplasias linfoides que se originam de linfócitos B, T ou células NK. É o tipo de linfoma mais prevalente, embora, curiosamente, seja menos abordado em exames de residência médica em comparação com o Linfoma de Hodgkin.

Estatísticas e Características Gerais

Em termos de incidência, a maioria dos LNH tem origem em células B, o que se justifica pela maior complexidade e número de transformações que essas células sofrem durante seu desenvolvimento. Os subtipos mais comuns são:

🧠 Conceito Essencial: Diferentemente do Linfoma de Hodgkin, que tem origem exclusivamente em linfócitos B, o LNH pode se desenvolver a partir de linfócitos B, T ou células NK. Essa distinção é crucial para a compreensão da patogênese e apresentação clínica.

Diferenciação entre Linfoma de Hodgkin e Não Hodgkin

A distinção entre Linfoma de Hodgkin (LH) e Linfoma Não Hodgkin (LNH) é fundamental para o diagnóstico e manejo. As principais diferenças clínicas e patológicas são:

Classificação e Subtipos de LNH

Os Linfomas Não Hodgkin são classificados de acordo com a classificação REAL (Revised European-American Lymphoma), adotada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Devido à sua complexidade, a abordagem didática para estudantes de medicina foca na divisão dos LNH conforme sua agressividade:

LNH Indolentes

Os linfomas indolentes são caracterizados por um curso clínico prolongado, muitas vezes medido em anos, e uma taxa de cura relativamente baixa, o que os torna conhecidos pela frase "vive muito e cura pouco".

LNH Agressivos

Em contraste com os indolentes, os linfomas agressivos possuem um curso clínico rápido e são mais propensos à cura, resumidos como "vive pouco, cura muito".

LNH Altamente Agressivos

Estes são os linfomas com o curso mais rápido e, paradoxalmente, as maiores taxas de cura, também descritos como "vive pouco, cura muito".

💡 Paradoxo do Tratamento: É notável que os linfomas indolentes (menos agressivos) são os mais difíceis de curar (muitas vezes nem são tratados), enquanto os linfomas altamente agressivos (mais agressivos) apresentam as maiores taxas de cura. Este é um conceito importante para provas de residência!

Subtipos Especiais de LNH: Pontos-Chave para Provas

LNH e HIV

Pacientes com infecção por HIV apresentam um risco significativamente aumentado para certos subtipos de LNH:

LNH e HTLV-1

A infecção pelo vírus HTLV-1 está associada a:

Linfoma de Infiltração Cutânea (Micose Fungoide)

Este subtipo se manifesta com lesões cutâneas avermelhadas e esfoliativas. A biópsia revela um linfoma cutâneo primário, que é uma neoplasia de células T. Geralmente, possui um curso indolente e crescimento lento.

Linfoma MALT (Tecido Linfoide Associado à Mucosa)

Os linfomas MALT são tipicamente tumores localizados e estão fortemente associados a processos inflamatórios crônicos e doenças autoimunes:


Comparativo - Linfoma de Hodgkin vs Linfoma Não Hodgkin

Característica Linfoma de Hodgkin ("Certinho/Nerd") Linfoma Não Hodgkin ("Bagunçado/Relaxado")
Localização Típica Centralizado (mediastino) Descentralizado/Periférico (epitroclear, anel de Waldeyer)
Origem Celular Sempre linfócito B Linfócito B (!), T ou NK
Padrão de Expansão Contiguidade (extranodal raro) Via hematogênica (extranodal comum)
Sintomas Específicos Dor após ingestão alcoólica no linfonodo, prurido/eosinofilia Sintomas B mais frequentes, prurido discreto
Padrão de Febre Febre de Pel-Ebstein (irregular) Febre contínua
Faixa Etária Comum Paciente jovem Paciente idoso
Prognóstico Geral Melhor Pior