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Mieloma Múltiplo


Introdução

O Mieloma Múltiplo é uma discrasia plasmocitária maligna, caracterizada pela proliferação clonal de plasmócitos anormais na medula óssea. Essas células neoplásicas produzem e secretam um excesso de imunoglobulinas monoclonais (também conhecidas como paraproteínas ou componente M) ou fragmentos dessas imunoglobulinas.

Os plasmócitos são linfócitos B diferenciados, responsáveis pela produção de anticorpos. No Mieloma Múltiplo, um clone de plasmócitos se torna maligno e se estabelece na medula óssea, liberando uma grande quantidade de células clonais e um único tipo de imunoglobulina ou cadeia leve.

Como detectar o excesso de imunoglobulinas?

A presença de imunoglobulinas em excesso pode ser identificada por:

🧠 Conceito Chave: O Mieloma Múltiplo é um câncer de plasmócitos, células da medula óssea que produzem anticorpos. A doença se manifesta pela produção excessiva de um único tipo de imunoglobulina (monoclonal), diferentemente das infecções, onde a produção de anticorpos é policlonal.

Epidemiologia

O Mieloma Múltiplo é mais prevalente em:

💡 Dica para Provas: Pacientes idosos com dor óssea e anemia devem levantar a suspeita de Mieloma Múltiplo.

Quadro Clínico e Laboratorial

O Mieloma Múltiplo é classicamente associado a um conjunto de manifestações clínicas e laboratoriais que podem ser memorizadas pelo acrônimo CRAB:

C - Hipercalcemia

Definida por níveis séricos de cálcio > 10,5-11 mg/dL. É uma consequência direta da atividade osteoclástica estimulada pelos plasmócitos neoplásicos, que liberam citocinas como a IL-6, ativando os osteoclastos e inibindo os osteoblastos. Isso leva à reabsorção óssea e liberação de cálcio para a corrente sanguínea.

R - Insuficiência Renal

Caracterizada por creatinina sérica > 2 mg/dL ou clearance de creatinina < 40 mL/min. A disfunção renal no Mieloma Múltiplo é multifatorial:

A - Anemia

Definida por hemoglobina (Hb) < 10 g/dL. É um achado comum e multifatorial:

B - Lesões Ósseas (Bone Lesions)

As lesões ósseas são predominantemente líticas e causam dor. O plasmócito neoplásico reside na medula óssea, e sua proliferação em múltiplos locais (daí "múltiplo") leva à destruição óssea. As citocinas liberadas estimulam os osteoclastos (células que reabsorvem osso) e inibem os osteoblastos (células que formam osso), resultando em lesões osteolíticas sem formação óssea compensatória.

Detalhes do Quadro Clínico

Lesões Ósseas

A dor óssea é um sintoma cardinal no Mieloma Múltiplo, frequentemente levando o paciente à procura médica. As lesões são tipicamente líticas e afetam o esqueleto axial, sendo a dor lombar uma queixa comum em pacientes idosos.

Características e Diferenciais

Característica Lesão Lítica por Mieloma Metástase Óssea (Lítica) Metástase Óssea (Blástica)
Padrão de Dor Piora com movimentação, dura o dia todo. Predomina à noite. Variável.
Pedículo Vertebral Geralmente poupado. Frequentemente atingido. Frequentemente atingido.
Cintilografia Óssea Normal ou "fria" (não capta). Aumentada (capta). Aumentada (capta).
Exemplo de CA Blástico Não aplicável. Não aplicável. Câncer de próstata.
🔎 Diagnóstico Diferencial: A dor óssea em pacientes idosos pode ser confundida com osteoartrose ou metástases. A preservação do pedículo vertebral e a dor diurna são pistas importantes para o mieloma.

Imunossupressão

Apesar da superprodução de imunoglobulinas, os pacientes com Mieloma Múltiplo são imunocomprometidos. O paradoxo reside no fato de que a imunoglobulina produzida é monoclonal, ou seja, um único tipo de anticorpo, incapaz de conferir proteção contra a vasta gama de patógenos.

🚨 Atenção: A infecção é a principal causa de óbito em pacientes com Mieloma Múltiplo.

Lesão Renal

A disfunção renal é uma complicação grave e comum no Mieloma Múltiplo, com múltiplos mecanismos envolvidos, sendo a hipercalcemia o mais prevalente.

Lesão por Cadeia Leve (Proteinúria de Bence Jones)

Os plasmócitos neoplásicos podem produzir cadeias leves de imunoglobulinas em excesso, que circulam livremente no sangue. Essas cadeias leves são filtradas pelos glomérulos e podem se depositar nos túbulos renais, especialmente nos túbulos proximais, causando dano direto e obstrução. Quando essas cadeias leves são detectadas na urina, são denominadas proteinúria de Bence Jones.

🧪 Exame: A proteinúria de Bence Jones é um marcador importante de lesão renal no mieloma. É crucial lembrar que testes de proteinúria de rotina (como fita reagente) podem não detectar cadeias leves, sendo necessária a eletroforese de proteínas urinárias.
Síndrome de Fanconi

É uma disfunção generalizada do túbulo proximal renal, levando à perda excessiva de substâncias importantes pela urina, como aminoácidos, fosfato, glicose e bicarbonato. Pode resultar em acidose tubular renal tipo II. O Mieloma Múltiplo é uma das causas dessa síndrome, devido à toxicidade das cadeias leves nos túbulos.

Hipercalcemia

Como mencionado, o excesso de cálcio no sangue pode levar à nefrocalcinose (deposição de cálcio nos rins) e vasoconstrição renal, comprometendo a função renal. É a causa mais comum de insuficiência renal no mieloma, embora nem sempre seja o foco das questões de prova.

Nefropatia por Hiperuricemia (Síndrome da Lise Tumoral)

A destruição massiva de células neoplásicas, seja espontaneamente devido à alta carga tumoral ou induzida pelo tratamento, libera grandes quantidades de ácido úrico (componente do DNA celular). O excesso de ácido úrico pode precipitar nos túbulos renais, causando obstrução e lesão renal aguda. A síndrome da lise tumoral pode ocorrer mesmo antes do início do tratamento, em casos de doença agressiva.

⚠️ Alerta Clínico: Se um paciente com Mieloma Múltiplo apresentar síndrome nefrótica (proteinúria maciça, hipoalbuminemia, edema e hiperlipidemia), a principal hipótese diagnóstica associada é a amiloidose AL.

Exames Complementares

Achados Laboratoriais Iniciais

Pacientes com mieloma múltiplo frequentemente apresentam alterações no hemograma e em outros marcadores inflamatórios:

🔎 Dica de Prova: O fenômeno de Rouleaux, embora presente em outras condições, é um forte indicativo de mieloma múltiplo em cenários clínicos de prova.

Fosfatase Alcalina e Cintilografia Óssea

Um ponto de atenção crucial no mieloma múltiplo é a avaliação óssea, que difere de outras patologias ósseas metastáticas:

Ao contrário do que se poderia esperar em uma doença com lesões ósseas líticas, a fosfatase alcalina (FA) e a cintilografia óssea são tipicamente normais no mieloma múltiplo. Isso ocorre porque as lesões ósseas no mieloma são predominantemente líticas, resultantes da hiperatividade dos osteoclastos e da inibição dos osteoblastos.

⚠️ Conceito High Yield: A fosfatase alcalina aumenta em lesões ósseas que envolvem atividade osteoblástica (formação óssea). No mieloma, os osteoblastos são inibidos pelas citocinas liberadas pelos plasmócitos neoplásicos, enquanto os osteoclastos são ativados, levando à reabsorção óssea sem formação compensatória. Da mesma forma, o radiotraçador da cintilografia óssea se liga a áreas de nova formação óssea (atividade osteoblástica), que está diminuída no mieloma, resultando em um exame normal ou com poucas captações.

Eletroforese de Proteínas Séricas

A eletroforese de proteínas é um exame essencial para identificar a presença e quantificar o componente M, que é a marca registrada do mieloma múltiplo.

O plasmócito neoplásico produz clones que secretam apenas um tipo de imunoglobulina. Por isso, na eletroforese de proteínas, observa-se um pico monoclonal, também conhecido como componente M ou paraproteína. No mieloma múltiplo, esse pico geralmente é superior ou igual a 3 g/dL no soro. Na urina, a presença de cadeias leves monoclonais (proteína de Bence-Jones) é considerada significativa se > 1 g/24h.

Entendendo a Eletroforese

A eletroforese separa as proteínas séricas com base em sua carga elétrica e tamanho. A albumina, sendo a proteína mais abundante, forma o maior pico. As outras proteínas são agrupadas em frações globulínicas (alfa-1, alfa-2, beta e gama-globulinas).

🧠 Lembre-se:

Adicionalmente, no mieloma múltiplo, pode ocorrer a inversão do padrão albumina/globulina, onde o pico das globulinas se torna maior que o da albumina. Isso é um achado anormal, pois a albumina é normalmente a proteína sérica mais abundante.

Imunoeletroforese

Após a identificação de um pico monoclonal na eletroforese de proteínas, a imunoeletroforese é utilizada para determinar o tipo específico de imunoglobulina (IgG, IgA, IgM, IgD, IgE) ou cadeia leve (kappa ou lambda) que está sendo produzida em excesso pelos clones neoplásicos.

Tipos de Imunoglobulinas e Prognóstico

A prevalência e o prognóstico variam conforme o tipo de imunoglobulina monoclonal:

⚠️ Atenção: O mieloma por IgM é extremamente raro (cerca de 0,3% dos casos). Quando um pico monoclonal de IgM é detectado, a principal suspeita diagnóstica deve ser a Macroglobulinemia de Waldenström, uma doença linfoproliferativa diferente do mieloma múltiplo clássico.

Diagnóstico

O diagnóstico do mieloma múltiplo é estabelecido pela combinação de critérios clínicos, laboratoriais e histopatológicos, que incluem a presença de plasmócitos clonais e evidências de dano orgânico relacionado à doença.

Critérios Diagnósticos

A suspeita de mieloma múltiplo surge na presença de manifestações clínicas como as lesões "CARO" (C = Hipercalcemia, A = Anemia, R = Insuficiência Renal, O = Lesões Ósseas) e um componente M sérico ≥ 3 g/dL.

O diagnóstico definitivo requer a presença de:

🔎 Resumo Diagnóstico:

Estadiamento e Prognóstico

O estadiamento do mieloma múltiplo é crucial para determinar o prognóstico e guiar as decisões terapêuticas. O Sistema Internacional de Estadiamento (ISS) é amplamente utilizado e se baseia em fatores laboratoriais.

Fatores Prognósticos Chave

Dois marcadores séricos são de grande importância prognóstica no mieloma múltiplo:

Sistema Internacional de Estadiamento (ISS)

O ISS classifica o mieloma múltiplo em três estágios, combinando os níveis de albumina e beta-2-microglobulina para estimar a sobrevida média:

Estágio ISS Albumina Sérica (g/dL) Beta-2-Microglobulina (mg/L) Sobrevida Média Estimada
Estágio I ≥ 3,5 < 3,5 62 meses
Estágio II < 3,5 OU ≥ 3,5 e < 5,5 44 meses
Estágio III Qualquer valor ≥ 5,5 29 meses

Tratamento

A abordagem terapêutica para o Mieloma Múltiplo visa controlar a proliferação dos plasmócitos e gerenciar as complicações da doença. O tratamento padrão geralmente envolve uma combinação de quimioterapia e outras modalidades.

⚠️ Atenção: Mieloma indolente (smoldering) e Gamopatia Monoclonal de Significado Indeterminado (GMSI) geralmente não requerem tratamento ativo imediato, sendo indicada apenas a observação rigorosa.
💊 Tratamento Personalizado: Para pacientes com mieloma oligossecretor ou não secretor, a decisão de iniciar o tratamento é guiada pela presença e gravidade da sintomatologia associada, uma vez que o pico monoclonal pode ser ausente ou muito baixo.

Diagnósticos Diferenciais do Mieloma Múltiplo

É crucial diferenciar o Mieloma Múltiplo de outras gamopatias monoclonais e condições que podem apresentar achados laboratoriais ou clínicos semelhantes.

Macroglobulinemia de Waldenström

A Macroglobulinemia de Waldenström é uma neoplasia linfoplasmocitária de células B que se distingue do Mieloma Múltiplo pela produção excessiva de imunoglobulina M (IgM), uma macroglobulina. A presença de um pico monoclonal de IgM deve sempre levantar a suspeita de Waldenström, em vez de Mieloma Múltiplo, onde o pico de IgM é extremamente raro.

Características Diagnósticas

Manifestações Clínicas

Devido à grande quantidade de IgM no sangue, a principal manifestação clínica é a Síndrome de Hiperviscosidade, que pode incluir:

Além disso, como se trata de uma proliferação de linfócitos (e não primariamente de plasmócitos), pode haver linfadenopatia e hepatoesplenomegalia, achados que são incomuns no Mieloma Múltiplo clássico, exceto em variantes como a Síndrome POEMS ou o próprio Waldenström.

🧠 Conceito Chave: A organomegalia (linfadenopatia, hepatoesplenomegalia) é uma característica distintiva da Macroglobulinemia de Waldenström, contrastando com o Mieloma Múltiplo, que raramente cursa com aumento de órgãos, exceto na Síndrome POEMS.

Abordagem Terapêutica

O tratamento da Macroglobulinemia de Waldenström é bifásico, abordando tanto as complicações agudas quanto a doença subjacente.

⚠️ Atenção na Prova: Distinga o tratamento da complicação (plasmaférese para hiperviscosidade) do tratamento da doença de base (rituximabe para Waldenström).
Característica Macroglobulinemia de Waldenström Mieloma Múltiplo (com IgM)
Pico Monoclonal IgM IgM (raro)
Clínica Principal Síndrome de Hiperviscosidade CARO (Cálcio, Anemia, Lesões Ósseas, Insuficiência Renal)
Organomegalia Comum (linfadenopatia, hepatoesplenomegalia) Rara (exceto em POEMS)

Mieloma Osteoesclerótico (Síndrome POEMS)

O Mieloma Osteoesclerótico é uma variante rara do Mieloma Múltiplo, representando cerca de 0,5% a 3% dos casos. Embora o paciente apresente mais de 10% de plasmócitos na medula óssea, a apresentação clínica não é a clássica "CARO", mas sim a complexa Síndrome POEMS.

Critérios da Síndrome POEMS

A Síndrome POEMS é um acrônimo que descreve as principais manifestações clínicas:

🔎 Diagnóstico: Se o laboratório sugere mieloma, mas a clínica não é "CARO" e sim a Síndrome POEMS, deve-se considerar o diagnóstico de Mieloma Osteoesclerótico.

Mieloma Indolente (Smoldering)

O Mieloma Indolente, também conhecido como "smoldering", é uma condição pré-maligna que se situa entre a Gamopatia Monoclonal de Significado Indeterminado (GMSI) e o Mieloma Múltiplo ativo. Caracteriza-se pela presença de plasmócitos monoclonais e componente M, mas sem as manifestações clínicas de dano a órgãos-alvo.

Critérios Diagnósticos

💡 Dica: A principal diferença entre o mieloma indolente e o mieloma múltiplo ativo é a ausência de sintomas ou disfunção orgânica no indolente. O tratamento é de observação.

Mieloma Não Secretor ou Oligossecretor

Esta variante do Mieloma Múltiplo é definida pela ausência ou pela produção muito baixa de imunoglobulinas monoclonais, o que dificulta o monitoramento da doença através dos níveis séricos do componente M.

Critérios Diagnósticos

🧪 Exame: Nesses casos, a dosagem de cadeias leves livres no soro (kappa e lambda) e a relação kappa/lambda são essenciais para o diagnóstico e monitoramento, pois as células neoplásicas podem produzir apenas cadeias leves.

Gamopatia Monoclonal de Significado Indeterminado (GMSI)

A GMSI é a condição mais comum de gamopatia monoclonal e é considerada uma condição pré-maligna, com um baixo risco de progressão para Mieloma Múltiplo ou outras discrasias de plasmócitos.

Critérios Diagnósticos

🧠 Conceito: A GMSI é caracterizada por um componente M e plasmócitos monoclonais, mas em níveis que não preenchem os critérios para mieloma e, crucialmente, sem qualquer sintomatologia ou dano orgânico. É uma condição que requer apenas acompanhamento.

Comparativo - Diagnósticos Diferenciais do Mieloma Múltiplo

Condição Plasmócitos Medulares Componente M Soro/Urina Clínica Associada
Mieloma Múltiplo Ativo ≥ 10% ≥ 3 g/dL (ou cadeias leves) CARO (Cálcio, Anemia, Lesões Ósseas, Insuficiência Renal)
Macroglobulinemia de Waldenström Linfócitos plasmocitoides IgM (qualquer nível) Hiperviscosidade, Linfadenopatia, Hepatoesplenomegalia
Mieloma Osteoesclerótico ≥ 10% Presente Síndrome POEMS
Mieloma Indolente (Smoldering) 10% a 60% > 3 g/dL Ausente
Mieloma Não Secretor/Oligossecretor ≥ 10% Ausente ou < 1 g/dL CARO (depende da sintomatologia)
Gamopatia Monoclonal de Significado Indeterminado (GMSI) < 10% < 3 g/dL Ausente