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Neutropenia Febril

A neutropenia febril é uma complicação grave e potencialmente fatal do tratamento oncológico.

Diagnóstico

Critérios Diagnósticos

O diagnóstico de neutropenia febril baseia-se em dois critérios principais:

⚠️ Atenção: O nadir de neutrófilos em esquemas quimioterápicos geralmente ocorre entre 10-14 dias. Sempre considere neutropenia febril em pacientes que receberam quimioterapia nas últimas 6 semanas, especialmente em neoplasias hematológicas.

Manejo Inicial

Diante da simples suspeita de neutropenia febril, as seguintes ações devem ser realizadas quase simultaneamente:

Escolha do Antibiótico

No Brasil, a maioria das infecções em neutropenia febril é causada por gram-negativos entéricos. A cobertura antimicrobiana deve sempre incluir Pseudomonas aeruginosa, devido à sua capacidade de translocação através de mucosas debilitadas por quimioterápicos.

É crucial considerar o histórico de uso recente de antibióticos. Se o paciente utilizou um determinado antibiótico (ex: cefepime) nos últimos 30 a 90 dias, pode ser necessário avançar na cobertura antimicrobiana para evitar resistência.

Classificação de Risco para Escolha do Antibiótico

A escolha entre tratamento ambulatorial ou hospitalar e o regime antibiótico dependem da estratificação de risco do paciente.

Neutropenia Febril de Alto Risco

Pacientes com qualquer um dos seguintes critérios são considerados de alto risco e demandam tratamento hospitalar com antibióticos intravenosos. As terapias mais utilizadas incluem Cefepime, Piperacilina-Tazobactam ou Meropenem.

Variável do Escore MASCC Pontos
Ausência de sintomas ou sintomas leves 5
Ausência de hipotensão (PAS > 90 mmHg) 5
Ausência de doença pulmonar obstrutiva crônica 4
Tumor sólido ou neoplasia hematológica sem infecção fúngica prévia 4
Ausência de desidratação com indicação de reposição parenteral de fluidos 3
Presença de sintomas moderados 3
Paciente ambulatorial ao início dos sintomas 3
Idade < 60 anos 2

O escore máximo do MASCC é 26. Um escore igual ou superior a 21 indica baixo risco de complicações clínicas.

Neutropenia Febril de Baixo Risco

Pacientes que preenchem todos os critérios abaixo podem ser considerados para tratamento ambulatorial, geralmente com Ciprofloxacino + Amoxicilina-Clavulanato. É essencial um período de observação hospitalar de 6-24 horas para avaliar a tolerância ao esquema e, se necessário, administrar uma dose inicial intravenosa. Reavaliações precoces (2-3 dias) são mandatórias, e qualquer piora clínica exige a transição para esquemas intra-hospitalares de alto risco.

Cobertura para Gram-Positivos (Vancomicina)

A associação de Vancomicina deve ser considerada nas seguintes situações. Sua suspensão é segura após 48 horas de uso, com boa evolução clínica e culturas negativas para gram-positivos, na ausência de infecção de pele/partes moles ou mucosite grave.

Cobertura para Anaeróbios (Metronidazol)

A adição de Metronidazol deve ser considerada quando há suspeita de infecção por anaeróbios:

Tempo de Tratamento

Em geral, o tratamento antibiótico é mantido pelo tempo usual para o foco de infecção identificado, ou até 48 horas de ausência de febre e contagem de neutrófilos > 500/mm³ com tendência à ascensão. É importante ter cautela ao desescalonar antibióticos com base em culturas enquanto houver neutropenia, pois múltiplos focos de infecção podem coexistir.

💡 Dica: O uso de fatores estimuladores de colônias (G-CSF) não demonstrou reduzir a mortalidade na neutropenia febril, mas pode diminuir o tempo de internação em até 48 horas, justificando seu uso em alguns serviços.

Manejo da Febre Persistente

A persistência da febre não implica necessariamente em falha terapêutica imediata. O tempo de defervescência esperado é de 48 horas para tumores sólidos e 3 a 5 dias para tumores hematológicos. A decisão de escalonar antibióticos deve ser guiada por: (1) sítio da infecção, (2) resultados de culturas e (3) recuperação clínica e laboratorial.

Abordagem em Pacientes com Febre Persistente (3-4 dias)

Baixo Risco
Alto Risco

Investigação e Tratamento de Infecções Fúngicas

Em alguns centros, a investigação de infecções fúngicas invasivas é iniciada precocemente em pacientes de alto risco (ex: leucemia mieloide aguda, transplante alogênico de medula), com dosagem de Galactomanana (componente de fungos filamentosos como Aspergillus) 2-3 vezes por semana.

Outros reservam a pesquisa de fungos para casos de neutropenia febril persistente: se a febre durar ≥ 4-7 dias com neutropenia, aumenta-se a preocupação com infecções fúngicas. Se ≥ 7 dias, o risco de candidemia é maior; se ≥ 14 dias, considera-se o risco de infecção por fungos filamentosos, sendo o Aspergillus o principal.

Nesses casos de febre persistente (≥ 4-7 dias), há duas abordagens:

A escolha do antifúngico depende do contexto: