Síndrome de Lise Tumoral (SLT)
A Síndrome de Lise Tumoral (SLT) é uma emergência oncológica caracterizada pela destruição maciça e rápida de células tumorais. Esse processo leva à liberação de grandes quantidades de conteúdos intracelulares na circulação sistêmica, como potássio, fosfato e ácidos nucleicos, resultando em distúrbios metabólicos graves e potencialmente fatais.
Fatores de Risco
A SLT é mais comumente observada após o início da terapia citotóxica em pacientes com linfomas de alto grau (especialmente o subtipo Burkitt) e leucemia linfoblástica aguda. Contudo, pode ocorrer de forma espontânea ou em associação com outros tipos de tumores que apresentam alta taxa proliferativa, grande carga tumoral ou elevada sensibilidade à quimioterapia.
🧠 Lembre-se: A SLT pode ocorrer espontaneamente, mesmo antes do início do tratamento, em tumores com alta proliferação.
| Classificação de Risco |
Características do Paciente/Tumor |
| Alto Risco |
- Linfoma de Burkitt (exceto estágio I totalmente ressecado)
- Leucemia aguda com leucócitos > 25.000/mm³ ou infiltração maciça da medula óssea ou LDH elevada
- Linfoma linfoblástico estágios I e II com LDH elevada
- Linfomas agressivos com LDH elevada e alta carga tumoral
- Linfoma folicular grau 3B com LDH elevada
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| Risco Intermediário |
- Linfoma de Burkitt totalmente ressecado e sem LDH elevada
- Leucemia aguda com leucócitos < 25.000/mm³ e sem LDH elevada
- Linfoma linfoblástico estágios I e II sem LDH elevada
- Tumor germinativo metastático
- Neuroblastoma
- Câncer de pulmão de pequenas células
- Tumor sólido com alta carga tumoral
- Leucemia linfocítica crônica tratada com fludarabina e rituximabe
- Mieloma múltiplo com acometimento renal
- Paciente com hiperuricemia, desidratação, hipotensão ou disfunção renal prévia
- Outros tumores sólidos
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| Baixo Risco |
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| Sem Risco |
- Tumor sólido totalmente ressecado
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Diagnóstico (Critérios de Cairo-Bishop)
O diagnóstico da SLT é frequentemente guiado pelos Critérios de Cairo-Bishop, propostos em 2004. Estes critérios estabelecem definições laboratoriais e clínicas específicas para a síndrome, auxiliando na identificação precoce e manejo adequado.
- SLT Laboratorial: Definida pela presença de dois ou mais valores séricos anormais (um valor acima do limite superior da normalidade ou um aumento de 25% em relação ao valor basal) para ácido úrico, potássio, fosfato ou cálcio, ocorrendo em até três dias antes ou sete dias após o início da terapia citotóxica, em um contexto de hidratação adequada e uso de agente hipouricêmico.
- SLT Clínica: Caracterizada pela presença de SLT laboratorial associada a um ou mais dos seguintes achados, que não sejam diretamente atribuíveis ao agente terapêutico:
- Aumento da concentração sérica de creatinina (≥ 1,5 vezes o limite superior da normalidade).
- Arritmia cardíaca ou morte súbita.
- Convulsão.
Os critérios de Cairo-Bishop também incluem um sistema de classificação de gravidade, em uma escala de zero a cinco, para pacientes com SLT clínica. A graduação é baseada na elevação da creatinina sérica, tipo de arritmia cardíaca e presença/gravidade das convulsões.
| Variável |
Grau 0 |
Grau 1 |
Grau 2 |
Grau 3 |
Grau 4 |
Grau 5 |
| Creatinina |
Nenhum |
1,5x LSN |
> 1,5-3,0x LSN |
> 3,0-6,0x LSN |
> 6,0x LSN |
Morte |
| Arritmia Cardíaca |
Nenhum |
Intervenção não indicada |
Intervenção médica não urgente indicada |
Sintomática e incompletamente controlada clinicamente ou controlada com dispositivo (ex: desfibrilador) |
Com risco de vida (ex: arritmia associada a insuficiência cardíaca, hipotensão, síncope, choque) |
Morte |
| Convulsão |
Nenhum |
- |
Uma convulsão generalizada breve; convulsão(ões) bem controlada(s) por anticonvulsivantes ou convulsões motoras focais infrequentes que não interferem nas AVDs |
Convulsão com alteração da consciência; distúrbio convulsivo mal controlado; com convulsões generalizadas de irrupção apesar da intervenção médica |
Convulsão de qualquer tipo que seja prolongada, repetitiva ou difícil de controlar (ex: estado de mal epiléptico, epilepsia intratável) |
Morte |
💡 Macete: SLT = ↑ÁCIDO ÚRICO, ↑POTÁSSIO, ↑FOSFATO, ↓CÁLCIO + DISFUNÇÃO RENAL. Lembre-se: "SÓ CAI CÁLCIO"!
A fisiopatologia da SLT envolve a morte celular em massa, seja por quimioterapia ou espontaneamente. O organismo tenta reaproveitar o material nucleico dessas células, especificamente as purinas, que são metabolizadas em ácido úrico. A hiperuricemia resultante pode levar à deposição de cristais nos túbulos renais, causando nefropatia e insuficiência renal aguda.
Além disso, a morte celular libera potássio (o principal íon intracelular) para o sangue, resultando em hipercalemia. O fosfato (principal ânion intracelular) também é liberado em excesso, causando hiperfosfatemia. O aumento do fosfato sérico se liga ao cálcio circulante, formando fosfato de cálcio, que precipita e leva à hipocalcemia.
Quadro Clínico
Os sinais e sintomas da SLT são variados e refletem os distúrbios metabólicos subjacentes:
- Náuseas, vômitos e astenia.
- Lesão renal aguda, que pode progredir para insuficiência renal.
- Arritmias cardíacas, secundárias à hipercalemia e hipocalcemia.
- Convulsões e tetania, principalmente devido à hipocalcemia.
- Calcificação ectópica.
- Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica (SIRS).
Tratamento e Prevenção
O manejo da SLT é focado na prevenção e correção dos distúrbios metabólicos.
Hidratação Intravenosa Agressiva
A base do tratamento e prevenção é a hidratação intravenosa agressiva com solução salina isotônica. O objetivo é manter um débito urinário de pelo menos 100 mL/hora, o que facilita a eliminação renal do ácido úrico, fósforo e potássio. Se houver redução do débito urinário mesmo com hidratação adequada, diuréticos de alça podem ser considerados.
💊 Tratamento: Hidratação IV agressiva é a pedra angular para manter o débito urinário e promover a excreção de eletrólitos e ácido úrico.
Agentes Hipouricemiantes
Para reduzir os níveis de ácido úrico, são utilizados agentes hipouricemiantes:
- Rasburicase (urato-oxidase recombinante): Converte o ácido úrico em alantoína, um metabólito mais solúvel e facilmente excretado pelos rins. É particularmente eficaz em casos de hiperuricemia grave ou quando se espera uma lise tumoral muito rápida.
- Alopurinol: Inibe a xantina oxidase, enzima responsável pela produção de ácido úrico. É mais eficaz na prevenção da hiperuricemia do que no tratamento de níveis já elevados.
Outras Medidas Terapêuticas
- Hipocalcemia Sintomática: Deve ser tratada com cálcio nas doses mais baixas necessárias para aliviar os sintomas. Em geral, a reposição de cálcio é evitada em pacientes com hipocalcemia aguda associada à hiperfosfatemia até que a hiperfosfatemia seja corrigida, para evitar a precipitação de fosfato de cálcio. No entanto, em casos de sintomas graves (tetania, arritmia cardíaca), a reposição de cálcio pode ser necessária independentemente do nível de fosfato.
- Hiperfosfatemia: É tratada principalmente com quelantes de fosfato, como o hidróxido de alumínio, administrado 1 a 2 vezes ao dia. A correção da hiperfosfatemia geralmente leva à correção da hipocalcemia, pois o excesso de fósforo deixa de se ligar ao cálcio circulante.
- Hipercalemia: É o distúrbio mais perigoso da SLT, com risco de morte súbita por arritmias cardíacas. O tratamento inclui:
- Agentes redutores de potássio orais (ex: patirômero ou poliestirenossulfonato de cálcio – Sorcal).
- Gluconato de cálcio para estabilizar o miocárdio e reduzir o risco de arritmias.
- Em casos graves ou refratários, hemodiálise e hemofiltração são eficazes na remoção de potássio.
- Terapia de Substituição Renal (TSR): As indicações para TSR são semelhantes às de outras causas de lesão renal aguda. No entanto, limiares mais baixos podem ser utilizados em pacientes com SLT devido à rápida liberação e acúmulo de eletrólitos, especialmente se o débito urinário estiver baixo.