Trombofilias
As trombofilias são condições que predispõem à formação de trombos, resultando em eventos tromboembólicos. Elas podem ser classificadas em adquiridas ou hereditárias, e sua fisiopatologia está intrinsecamente ligada à Tríade de Virchow: estase sanguínea, lesão endotelial e hipercoagulabilidade.
Trombofilias Adquiridas
São condições que aumentam o risco de trombose e se desenvolvem ao longo da vida do indivíduo:
- Causas Comuns:
- Câncer e doenças mieloproliferativas (LMC, LMA, MGWD, PV, TE)
- Puerpério e gestação
- Síndrome nefrótica
- Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide (SAF)
- Outras condições inflamatórias ou sistêmicas
⚠️ Atenção: Estudos recentes não demonstram benefício da anticoagulação profilática para pacientes com cateter de longa permanência ou durante quimio/hormonioterapia.
Conduta em Trombofilias Adquiridas
- Em caso de Trombose Venosa Profunda (TVP):
- Recomenda-se anticoagulação por pelo menos 6 meses se o fator de risco responsável pelo evento for identificado e removido (ex: cateter venoso, quimioterapia).
- Caso contrário, a maioria dos autores recomenda anticoagulação enquanto a neoplasia persistir.
Trombofilias Hereditárias
São condições genéticas que aumentam o risco de trombose, geralmente manifestando-se precocemente. Deve-se suspeitar de trombofilia hereditária em pacientes com trombose venosa e as seguintes características:
- História familiar (1º grau) de trombose antes dos 45 anos.
- Quadro pessoal prévio de trombose antes dos 45 anos.
- Trombose recorrente ou em múltiplos sítios.
- Trombose em sítios incomuns (portal, hepática, mesentérica, SNC).
- Necrose cutânea induzida por varfarina.
Pacientes com trombofilias hereditárias frequentemente apresentam trombose venosa recorrente e sem causa aparente, muitas vezes desde a segunda década de vida.
Tipos Comuns de Trombofilias Hereditárias
- Fator V de Leiden (Resistência à Proteína C Ativada):
- É a trombofilia hereditária mais comum, presente em 1-15% da população e em 10-60% dos pacientes com trombose venosa.
- A proteína C ativada normalmente inibe os fatores V e VIII. Na mutação do Fator V de Leiden, o fator V mutante é resistente à inativação pela proteína C, resultando em um estado pró-trombótico.
- Mutação no Gene da Protrombina (G20210A):
- Caracterizada por um aumento da protrombina circulante (hiperprotrombinemia), o que a torna uma condição bastante trombogênica.
- Encontrada em até 18% dos indivíduos com trombose venosa.
- Deficiência de Anticoagulantes Naturais:
- Inclui a deficiência congênita de antitrombina III, proteína C e proteína S.
- Essas deficiências, em conjunto, são responsáveis por até 15% das tromboses venosas.
- Hiper-homocisteinemia:
- Elevação anormal das concentrações plasmáticas do aminoácido homocisteína.
- Peculiar por predispor tanto à trombose venosa quanto arterial.
- É um fator de risco para doença cardiovascular (ex: IAM em pacientes jovens sem outros fatores de risco clássicos).
Conduta em Trombofilias Hereditárias
- Primeira trombose: Anticoagulação por 3-6 meses.
- A partir da segunda trombose: Anticoagulação ad eternum (por tempo indeterminado).
- Recomendações adicionais: Evitar outros fatores de risco trombogênicos, como o uso de anticoncepcionais orais (ACO) e terapia de reposição hormonal (TRH).