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Cirrose Hepática e Suas Causas


Conceitos Iniciais

A cirrose hepática representa o estágio final e crônico de diversas doenças hepáticas, caracterizada por um processo irreversível de fibrose difusa e formação de nódulos de regeneração. Essa alteração arquitetural compromete severamente a função hepática e a circulação sanguínea no órgão.

Fisiologia Hepática Essencial

Para compreender a cirrose, é fundamental revisar a estrutura e função hepática. A unidade funcional do fígado é o lóbulo hepático. Nele, o sangue chega através do espaço porta (que contém ramos da veia porta e da artéria hepática) e flui pelos sinusoides, passando entre os hepatócitos, até alcançar a veia centrolobular. A veia porta, responsável por 70% do fluxo sanguíneo hepático, é formada pela união da veia esplênica e da veia mesentérica superior.

Durante esse percurso, os hepatócitos desempenham funções vitais, como a conjugação de bilirrubina (BI em BD), a conversão de amônia em ureia e a síntese de fatores de coagulação. O sangue não entra diretamente nos hepatócitos, mas sim nos sinusoides. Entre o sinusoide e o hepatócito, existe um espaço crucial denominado Espaço de Disse.

🧠 Lembre-se: A veia porta é formada pela união da veia esplênica e da veia mesentérica superior, sendo a principal fonte de suprimento sanguíneo para o fígado (70%).

A Célula Estrelada e a Fibrogênese

No Espaço de Disse, reside a célula estrelada (ou célula de Ito). Em condições normais, essa célula é quiescente e tem como principal função o armazenamento de vitamina A. No entanto, diante de um processo inflamatório hepático crônico (como nas hepatites virais B e C, por exemplo), a célula estrelada é ativada.

Uma vez ativada, a célula estrelada perde sua capacidade de armazenar vitamina A e começa a produzir colágeno em excesso. Essa produção descontrolada de colágeno leva à fibrose no Espaço de Disse, dificultando as trocas metabólicas entre os hepatócitos e os sinusoides. Além disso, a célula estrelada ativada também contribui para a vasoconstrição intra-hepática, aumentando a resistência vascular e, consequentemente, gerando a hipertensão porta. É importante notar que a hipertensão porta na cirrose não se deve a uma trombose da veia porta, mas sim à resistência aumentada nos sinusoides hepáticos.

⚠️ Atenção: A cirrose hepática não é sinônimo de fibrose hepática. A fibrose é um processo, enquanto a cirrose é o estágio avançado e irreversível, caracterizado pela fibrose difusa e pela formação de nódulos de regeneração.

Nódulos de Regeneração e Risco de Carcinoma Hepatocelular (CHC)

O processo de fibrose na cirrose é progressivo, formando traves de tecido fibroso que isolam grupos de hepatócitos. Esses hepatócitos "ilhados" recebem um suprimento sanguíneo inadequado e acabam morrendo. Contudo, o fígado possui uma notável capacidade de regeneração. Esse ciclo contínuo de morte e regeneração celular, em um ambiente de fibrose, leva à formação dos nódulos de regeneração.

Embora representem uma tentativa do fígado de se reparar, esses nódulos são disfuncionais e contribuem para a desorganização arquitetural. Mais criticamente, a proliferação celular desordenada dentro desses nódulos aumenta significativamente o risco de displasia e, consequentemente, de desenvolvimento de Carcinoma Hepatocelular (CHC). Por isso, todo paciente com cirrose tem um risco elevado de desenvolver CHC.

🔎 Diagnóstico: As principais causas de cirrose incluem hepatites virais B e C, doença hepática alcoólica, esteato-hepatite não alcoólica (NASH), doenças autoimunes, doença de Wilson e hemocromatose.

Manifestações Clínicas

As manifestações clínicas da cirrose resultam da combinação de três componentes principais: insuficiência hepática, hipertensão porta e o risco aumentado de carcinoma hepatocelular.

Insuficiência Hepática

A incapacidade do fígado cirrótico de desempenhar suas funções metabólicas e sintéticas resulta em uma série de sinais e sintomas:

💡 Dica: O hiperestrogenismo na cirrose ocorre devido à falha do fígado em metabolizar estrogênios e ao aumento da conversão periférica de androgênios em estrogênios.

Hipertensão Porta

A hipertensão porta é definida como um aumento da pressão na veia porta acima de 10 mmHg (o normal é até 5 mmHg). Ela é causada por dois mecanismos principais:

As consequências da hipertensão porta são diversas e contribuem significativamente para a morbidade da cirrose:

🚨 Emergência: O sangramento por varizes esofágicas é uma complicação grave da hipertensão porta e uma das principais causas de mortalidade em pacientes cirróticos.

Rastreamento para Carcinoma Hepatocelular (CHC)

Devido ao risco elevado de CHC em pacientes cirróticos, o rastreamento regular é mandatório:

Achados Laboratoriais

Os exames laboratoriais na cirrose refletem a disfunção hepática e as consequências da hipertensão porta:

Relação TGO/TGP > 1

Um achado laboratorial clássico e de alta relevância para provas é a relação TGO/TGP maior que 1. Embora as aminotransferases (TGO e TGP) possam estar normais ou apenas discretamente elevadas na cirrose (diferente das hepatites agudas), a proporção entre elas é um indicador importante. O fígado cirrótico tem dificuldade em armazenar vitamina B6 (piridoxina), um cofator essencial para a produção de TGP. Consequentemente, a produção de TGP é relativamente menor em comparação com a TGO, mesmo que ambos os valores estejam dentro da faixa de referência ou ligeiramente alterados.

🧪 Exame High Yield: A relação TGO/TGP > 1 é um forte indicativo de cirrose, especialmente em etiologia alcoólica, e é um conceito frequentemente cobrado em exames de residência.

Estadiamento e Escores Funcionais

Dois escores são essenciais para avaliar a gravidade e o prognóstico da cirrose, sendo frequentemente cobrados em provas:

Escore de Child-Pugh

O escore de Child-Pugh é amplamente utilizado na prática clínica para avaliar o prognóstico e a sobrevida de pacientes com cirrose. Ele classifica os pacientes em três classes (A, B ou C) com base em cinco parâmetros clínicos e laboratoriais. A pontuação total determina a classe e, consequentemente, a sobrevida esperada.

Parâmetro 1 Ponto 2 Pontos 3 Pontos
Bilirrubina Total (mg/dL) < 2 2 - 3 > 3
Albumina (g/dL) > 3,5 2,8 - 3,5 < 2,8
INR (TAP) < 1,7 1,7 - 2,3 > 2,3
Ascite Ausente Leve/Controlada Moderada/Refratária
Encefalopatia Hepática Ausente Graus I - II Graus III - IV

A classificação e a sobrevida associada são:

Escore MELD (Model for End-Stage Liver Disease)

O escore MELD é utilizado principalmente para determinar a prioridade de pacientes na fila de transplante hepático, mas também reflete a gravidade da doença. Ele é calculado por uma fórmula complexa que considera os níveis de bilirrubina, INR e creatinina. Existem tabelas e aplicativos para facilitar seu cálculo.

💊 Tratamento: Um escore MELD > 20 indica alta gravidade e a necessidade urgente de avaliação para transplante hepático, conferindo maior prioridade na fila.

Os componentes do MELD são:

Com este panorama geral da cirrose e suas manifestações, aprofundaremos nas causas específicas nos próximos tópicos, incluindo:

Lembrando que as causas virais (Hepatite B e C) já foram abordadas em outros contextos e são importantes etiologias da cirrose.


Doença Hepática Alcoólica (DHA)

A Doença Hepática Alcoólica (DHA) é uma condição progressiva do fígado causada pelo consumo excessivo e prolongado de álcool. Sua gravidade varia desde esteatose simples até hepatite alcoólica e cirrose, sendo uma das principais causas de doença hepática crônica em todo o mundo.

Conceitos Iniciais

🧠 Limites de Consumo Crônico para Dano Hepático:

Progressão da Doença Hepática Alcoólica

A evolução da DHA ocorre em estágios, nem todos os pacientes progridem para as formas mais graves:

Rastreamento do Abuso de Álcool: Escore CAGE

O escore CAGE é uma ferramenta de triagem rápida para identificar abuso de álcool. Duas ou mais respostas positivas indicam suspeita de abuso.

💡 Dica: O CAGE é uma ferramenta de triagem, não diagnóstica. Em caso de suspeita, aprofunde a investigação.

Marcadores Laboratoriais de Ingesta Alcoólica

Quando há suspeita de subnotificação do consumo de álcool, exames laboratoriais podem auxiliar no rastreamento:

🧪 Marcador Chave: A relação AST/ALT > 1,5 é um forte indicativo de lesão hepática alcoólica.

Hepatite Alcoólica: Quadro Clínico e Diagnóstico

A hepatite alcoólica é uma manifestação aguda e grave da DHA, com alta mortalidade. O quadro clínico e laboratorial inclui:

🔎 Critério de Gravidade: O Índice de Função Discriminante (IFD) de Maddrey é utilizado para avaliar a gravidade da hepatite alcoólica e guiar o tratamento.
Fórmula do IFD: 4,6 x (TPpaciente – TPcontrole) + Bilirrubina Total

Tratamento da Hepatite Alcoólica

O tratamento da hepatite alcoólica visa reduzir a inflamação e a mortalidade:

💊 Tratamento-Chave: Corticosteroides são a pedra angular no tratamento da hepatite alcoólica grave.

Doença Hepática Esteatótica (DHE)

A Doença Hepática Esteatótica (DHE) é uma condição caracterizada pelo acúmulo de gordura no fígado. O termo "Doença Hepática Gordurosa Não Alcoólica" (DHGNA) entrou em desuso, sendo substituído por uma nomenclatura mais abrangente que reflete as diversas etiologias da esteatose hepática.

Nova Nomenclatura e Classificação

A nova classificação da DHE busca uma abordagem mais precisa, distinguindo as causas e fatores associados:

Classificação da DHE Ingestão Média Diária de Álcool (g) Ingestão Semanal de Álcool (g)
DHEM Predominante < 20-30 < 140-210
DHEM-DHA 20-30 a 40-50 140-210 a 280-350
DHA Predominante > 40-50 > 280-350

Doença Hepática Esteatótica Metabólica (DHEM)

A DHEM é considerada a manifestação hepática da síndrome metabólica, sendo uma das causas mais comuns de doença hepática crônica no mundo ocidental.

Conceitos Iniciais

🧠 Lembre-se: A DHEM é a "face hepática" da síndrome metabólica, impulsionada principalmente pela resistência à insulina e obesidade.

Progressão da DHEM

A DHEM pode seguir diferentes caminhos de progressão:

Manifestações Clínicas e Laboratoriais

Abordagem Diagnóstica e Estratificação de Risco

A suspeita de DHEM deve surgir em diversas situações, e a estratificação é crucial para o manejo:

🧪 Estratificação de Risco: O escore clínico FIB-4 é uma ferramenta não invasiva para avaliar o risco de fibrose avançada na DHEM.

Tratamento da DHEM

O tratamento da DHEM é multifacetado, com foco na modificação do estilo de vida e, em alguns casos, em terapias farmacológicas específicas:

💊 Tratamento-Chave: Perda de peso é a intervenção mais eficaz. Drogas como pioglitazona, liraglutida e vitamina E têm papéis específicos.

Comparativo - DHA vs DHEM

Característica Doença Hepática Alcoólica (DHA) Doença Hepática Esteatótica Metabólica (EHM/NASH)
Relação Transaminases AST > ALT (geralmente > 1,5) ALT > AST
Deficiências Vitamínicas Sim (Folato, B1, B6) Não (geralmente)
Achados Histológicos Corpúsculos de Mallory +++ Corpúsculos de Mallory + (menos proeminente)
Associação Principal Consumo > 40g etanol/dia Síndrome Metabólica
Ferritina Normal ou levemente elevada Alta (marcador de gravidade)
Quadro Clínico Agudo Febre, dor, icterícia (na hepatite alcoólica) Assintomático (na maioria dos casos)
Tratamento Primário Abstinência, suporte nutricional, Prednisolona (casos graves) Dieta, exercício, perda de peso, Glitazonas/GLP-1 (DM), Vitamina E (não-DM)

Hepatopatias Autoimunes

As hepatopatias autoimunes representam um grupo de doenças hepáticas caracterizadas por uma resposta imune desregulada contra componentes do próprio fígado. Abordaremos duas das principais entidades clínicas neste grupo: a Hepatite Autoimune (HAI) e a Colangite Biliar Primária (CBP).

Hepatite Autoimune (HAI)

A Hepatite Autoimune é uma condição inflamatória crônica do fígado, na qual o sistema imunológico ataca os hepatócitos. Sua etiologia é frequentemente idiopática, mas fatores genéticos e ambientais podem estar envolvidos.

Tipos de Hepatite Autoimune

A HAI é classicamente dividida em dois tipos principais, baseados nos perfis de autoanticorpos:

Hepatite Autoimune Tipo 1
Hepatite Autoimune Tipo 2

Tratamento da Hepatite Autoimune

⚠️ Atenção: As complicações potenciais da HAI incluem hepatite fulminante e a progressão para cirrose, ressaltando a importância do diagnóstico e tratamento precoces.

Colangite Biliar Primária (CBP)

A Colangite Biliar Primária é uma doença autoimune crônica e progressiva que se caracteriza pela destruição inflamatória dos ductos biliares intra-hepáticos de pequeno e médio calibre, localizados nos espaços-porta do fígado (zona 1).

Manifestações Clínicas e Laboratoriais

Diagnóstico da CBP

Tratamento da CBP

🔎 Diagnóstico Chave: A presença de Anticorpo Antimitocôndria (AMA) positivo em uma mulher de meia-idade com colestase e prurido é altamente sugestiva de Colangite Biliar Primária.

Hepatopatias Hereditárias

As hepatopatias hereditárias são condições genéticas que resultam em acúmulo de substâncias tóxicas no fígado, levando a danos progressivos. As duas principais doenças abordadas aqui são a Doença de Wilson e a Hemocromatose Hereditária.

Doença de Wilson

🚨 Alerta para Residência: Paciente criança ou jovem com indícios de cirrose deve levantar forte suspeita para Doença de Wilson!

A Doença de Wilson é um distúrbio genético autossômico recessivo caracterizado pelo acúmulo excessivo de cobre em diversos tecidos, principalmente no fígado e no sistema nervoso central.

Fisiopatologia

Manifestações Clínicas

A doença pode se manifestar de diversas formas, sendo as mais comuns as hepáticas e neuropsiquiátricas.

Forma Hepática

Pode variar desde quadros leves até formas graves:

Forma Neuropsiquiátrica

Geralmente afeta pacientes jovens (5-30 anos) e inclui:

Outras Manifestações

Diagnóstico

Tratamento

💊 Tratamento e Cura: O transplante hepático na Doença de Wilson é curativo, pois corrige o defeito genético no fígado, que é o principal órgão afetado pelo acúmulo de cobre.

Hemocromatose Hereditária

A Hemocromatose Hereditária é uma doença genética caracterizada pelo acúmulo excessivo de ferro no organismo, levando a danos em diversos órgãos.

Fisiopatologia

A doença é causada por mutações genéticas, sendo as mais comuns C282Y e H63D no gene HFE (herança autossômica recessiva, embora o texto original mencione dominante, a forma mais comum é recessiva). Essas mutações levam a um aumento da absorção intestinal de ferro, resultando em seu depósito excessivo em órgãos como fígado, pâncreas, coração e articulações.

Manifestações Clínicas: Os "6 H's"

A apresentação clínica é clássica e pode ser lembrada pelos "6 H's":

Diagnóstico

Tratamento

🧠 Conceito Importante: Diferente da Doença de Wilson, o transplante hepático na Hemocromatose não é curativo, pois o problema reside na absorção intestinal de ferro, não apenas no fígado.

Comparativo - Hepatopatias

Característica Hemocromatose Hereditária Doença de Wilson Colangite Biliar Primária Hepatite Autoimune
Paciente Típico Homem (10:1), 40-50 anos Criança/Adulto Jovem (1:1), 5-30 anos Mulher (10:1), 40-60 anos Mulher (4:1), 15-40 anos
Patogênese Autossômica recessiva (↑ absorção de ferro) Autossômica recessiva (acúmulo de cobre livre, ↓ ceruloplasmina) Autoimune (destruição de ductos biliares intra-hepáticos, anticorpo anti-mitocondrial) Autoimune (agressão aos hepatócitos, anticorpos anti-músculo liso, LKM1, CL-1)
Clínica Principal Cirrose, Diabetes, Hiperpigmentação, Insuficiência Cardíaca, Artropatia Cirrose precoce, Anéis de Kayser-Fleisher (manifestações neurológicas), Anemia hemolítica Icterícia, Prurido, Xantelasmas, Hipercolesterolemia, Fadiga, Osteoporose Fadiga, Anorexia, Icterícia, Artralgia, amenorreia. Sorologia viral negativa.
Diagnóstico Chave Mutações C282Y/H63D, ↑ Ferritina, ↑ Saturação Transferrina Cobre urinário > 100mcg, Anéis de KF, ↓ Ceruloplasmina, Biópsia hepática AMA positivo, ↑ FA/GGT, ↑ IgM ↑ IgG, FAN, AML, Anti-Actina (Tipo 1); Anti-LKM1, Anti-LC1 (Tipo 2)
Tratamento Flebotomias (base), Quelantes (exceção) Quelantes (Zinco, Trientina, D-Penicilamina), Transplante (curativo) Ácido Ursodesoxicólico (UDCA), Transplante Corticoide +/- Azatioprina, Transplante