Cirrose Hepática e Suas Causas
Conceitos Iniciais
A cirrose hepática representa o estágio final e crônico de diversas doenças hepáticas, caracterizada por um processo irreversível de fibrose difusa e formação de nódulos de regeneração. Essa alteração arquitetural compromete severamente a função hepática e a circulação sanguínea no órgão.
Fisiologia Hepática Essencial
Para compreender a cirrose, é fundamental revisar a estrutura e função hepática. A unidade funcional do fígado é o lóbulo hepático. Nele, o sangue chega através do espaço porta (que contém ramos da veia porta e da artéria hepática) e flui pelos sinusoides, passando entre os hepatócitos, até alcançar a veia centrolobular. A veia porta, responsável por 70% do fluxo sanguíneo hepático, é formada pela união da veia esplênica e da veia mesentérica superior.
Durante esse percurso, os hepatócitos desempenham funções vitais, como a conjugação de bilirrubina (BI em BD), a conversão de amônia em ureia e a síntese de fatores de coagulação. O sangue não entra diretamente nos hepatócitos, mas sim nos sinusoides. Entre o sinusoide e o hepatócito, existe um espaço crucial denominado Espaço de Disse.
🧠 Lembre-se: A veia porta é formada pela união da veia esplênica e da veia mesentérica superior, sendo a principal fonte de suprimento sanguíneo para o fígado (70%).
A Célula Estrelada e a Fibrogênese
No Espaço de Disse, reside a célula estrelada (ou célula de Ito). Em condições normais, essa célula é quiescente e tem como principal função o armazenamento de vitamina A. No entanto, diante de um processo inflamatório hepático crônico (como nas hepatites virais B e C, por exemplo), a célula estrelada é ativada.
Uma vez ativada, a célula estrelada perde sua capacidade de armazenar vitamina A e começa a produzir colágeno em excesso. Essa produção descontrolada de colágeno leva à fibrose no Espaço de Disse, dificultando as trocas metabólicas entre os hepatócitos e os sinusoides. Além disso, a célula estrelada ativada também contribui para a vasoconstrição intra-hepática, aumentando a resistência vascular e, consequentemente, gerando a hipertensão porta. É importante notar que a hipertensão porta na cirrose não se deve a uma trombose da veia porta, mas sim à resistência aumentada nos sinusoides hepáticos.
⚠️ Atenção: A cirrose hepática não é sinônimo de fibrose hepática. A fibrose é um processo, enquanto a cirrose é o estágio avançado e irreversível, caracterizado pela fibrose difusa e pela formação de nódulos de regeneração.
Nódulos de Regeneração e Risco de Carcinoma Hepatocelular (CHC)
O processo de fibrose na cirrose é progressivo, formando traves de tecido fibroso que isolam grupos de hepatócitos. Esses hepatócitos "ilhados" recebem um suprimento sanguíneo inadequado e acabam morrendo. Contudo, o fígado possui uma notável capacidade de regeneração. Esse ciclo contínuo de morte e regeneração celular, em um ambiente de fibrose, leva à formação dos nódulos de regeneração.
Embora representem uma tentativa do fígado de se reparar, esses nódulos são disfuncionais e contribuem para a desorganização arquitetural. Mais criticamente, a proliferação celular desordenada dentro desses nódulos aumenta significativamente o risco de displasia e, consequentemente, de desenvolvimento de Carcinoma Hepatocelular (CHC). Por isso, todo paciente com cirrose tem um risco elevado de desenvolver CHC.
🔎 Diagnóstico: As principais causas de cirrose incluem hepatites virais B e C, doença hepática alcoólica, esteato-hepatite não alcoólica (NASH), doenças autoimunes, doença de Wilson e hemocromatose.
Manifestações Clínicas
As manifestações clínicas da cirrose resultam da combinação de três componentes principais: insuficiência hepática, hipertensão porta e o risco aumentado de carcinoma hepatocelular.
Insuficiência Hepática
A incapacidade do fígado cirrótico de desempenhar suas funções metabólicas e sintéticas resulta em uma série de sinais e sintomas:
- Coagulopatia: Aumento do Tempo de Protrombina (INR alargado) devido à falha na síntese de fatores de coagulação.
- Icterícia: Acúmulo de bilirrubina direta (BD) no sangue, resultando em coloração amarelada da pele e mucosas.
- Encefalopatia Hepática: Disfunção cerebral causada pelo acúmulo de toxinas (principalmente amônia) que o fígado não consegue metabolizar.
- Hipoalbuminemia: Redução dos níveis de albumina sérica, levando a edema e ascite, devido à diminuição da síntese proteica hepática.
- Sintomas Inespecíficos: Fadiga, fraqueza, anorexia, náuseas e perda de peso.
- Síndromes Específicas:
- Síndrome Hepatorrenal: Insuficiência renal funcional em pacientes com cirrose avançada, sem doença renal primária.
- Síndrome Hepatopulmonar: Hipoxemia e dispneia devido à vasodilatação dos capilares pulmonares.
- Hiperestrogenismo: Manifestações relacionadas ao excesso de estrogênio, como ginecomastia, atrofia testicular, redução da libido, rarefação de pelos, telangiectasias (aranhas vasculares) e eritema palmar.
- Sinais de Doença Hepática Alcoólica: Em casos de cirrose alcoólica, podem ser observados aumento das parótidas e contratura palmar de Dupuytren.
💡 Dica: O hiperestrogenismo na cirrose ocorre devido à falha do fígado em metabolizar estrogênios e ao aumento da conversão periférica de androgênios em estrogênios.
Hipertensão Porta
A hipertensão porta é definida como um aumento da pressão na veia porta acima de 10 mmHg (o normal é até 5 mmHg). Ela é causada por dois mecanismos principais:
- Resistência Aumentada: Obstrução ao fluxo sanguíneo dentro do fígado devido à fibrose e aos nódulos de regeneração, além da vasoconstrição sinuosidal mediada pela célula estrelada ativada.
- Vasodilatação Esplâncnica: Aumento do fluxo sanguíneo para o sistema porta devido à liberação de vasodilatadores (como o óxido nítrico) na circulação esplâncnica, exacerbando o hiperfluxo.
As consequências da hipertensão porta são diversas e contribuem significativamente para a morbidade da cirrose:
- Varizes Esofágicas e Gástricas: Dilatação de veias no esôfago e estômago, com alto risco de sangramento.
- Hemorroidas: Dilatação das veias hemorroidárias.
- Circulação Colateral: Desenvolvimento de vasos sanguíneos alternativos para desviar o sangue do fígado, como varizes anorretais e a "cabeça de medusa" (veias periumbilicais dilatadas).
- Esplenomegalia: Aumento do baço, frequentemente associado à hiperesplenismo, que pode levar à plaquetopenia e outras citopenias.
- Ascite: Acúmulo de líquido na cavidade peritoneal, resultante da combinação de hipertensão porta e hipoalbuminemia.
🚨 Emergência: O sangramento por varizes esofágicas é uma complicação grave da hipertensão porta e uma das principais causas de mortalidade em pacientes cirróticos.
Rastreamento para Carcinoma Hepatocelular (CHC)
Devido ao risco elevado de CHC em pacientes cirróticos, o rastreamento regular é mandatório:
- Ultrassonografia de Abdome: Deve ser realizada a cada 6 meses para detecção precoce de nódulos suspeitos.
- Alfafetoproteína (AFP): A dosagem sérica da AFP pode ser utilizada como um marcador complementar, embora sua sensibilidade e especificidade sejam limitadas para o rastreamento isolado.
Achados Laboratoriais
Os exames laboratoriais na cirrose refletem a disfunção hepática e as consequências da hipertensão porta:
- Tempo de Protrombina (TP) / INR Alargado: Indica falha na síntese de fatores de coagulação dependentes de vitamina K pelo fígado.
- Plaquetopenia: É um achado comum e um marcador de cirrose, geralmente devido à esplenomegalia com hiperesplenismo, que sequestra e destrói plaquetas.
- Bilirrubinas Elevadas: Predomínio de bilirrubina direta (conjugada), refletindo a incapacidade do fígado de excretá-la adequadamente. Não é um achado específico de cirrose, mas indica disfunção.
- Hipoalbuminemia: Níveis baixos de albumina sérica, indicando comprometimento da síntese proteica hepática.
Relação TGO/TGP > 1
Um achado laboratorial clássico e de alta relevância para provas é a relação TGO/TGP maior que 1. Embora as aminotransferases (TGO e TGP) possam estar normais ou apenas discretamente elevadas na cirrose (diferente das hepatites agudas), a proporção entre elas é um indicador importante. O fígado cirrótico tem dificuldade em armazenar vitamina B6 (piridoxina), um cofator essencial para a produção de TGP. Consequentemente, a produção de TGP é relativamente menor em comparação com a TGO, mesmo que ambos os valores estejam dentro da faixa de referência ou ligeiramente alterados.
🧪 Exame High Yield: A relação TGO/TGP > 1 é um forte indicativo de cirrose, especialmente em etiologia alcoólica, e é um conceito frequentemente cobrado em exames de residência.
Estadiamento e Escores Funcionais
Dois escores são essenciais para avaliar a gravidade e o prognóstico da cirrose, sendo frequentemente cobrados em provas:
Escore de Child-Pugh
O escore de Child-Pugh é amplamente utilizado na prática clínica para avaliar o prognóstico e a sobrevida de pacientes com cirrose. Ele classifica os pacientes em três classes (A, B ou C) com base em cinco parâmetros clínicos e laboratoriais. A pontuação total determina a classe e, consequentemente, a sobrevida esperada.
| Parâmetro |
1 Ponto |
2 Pontos |
3 Pontos |
| Bilirrubina Total (mg/dL) |
< 2 |
2 - 3 |
> 3 |
| Albumina (g/dL) |
> 3,5 |
2,8 - 3,5 |
< 2,8 |
| INR (TAP) |
< 1,7 |
1,7 - 2,3 |
> 2,3 |
| Ascite |
Ausente |
Leve/Controlada |
Moderada/Refratária |
| Encefalopatia Hepática |
Ausente |
Graus I - II |
Graus III - IV |
A classificação e a sobrevida associada são:
- Classe A (5-6 pontos): Sobrevida em 1 ano de 100%, em 2 anos de 85%.
- Classe B (7-9 pontos): Sobrevida em 1 ano de 80%, em 2 anos de 60%.
- Classe C (> 10 pontos): Sobrevida em 1 ano de 45%, em 2 anos de 35%. Pacientes nesta categoria geralmente necessitam de avaliação para transplante hepático.
Escore MELD (Model for End-Stage Liver Disease)
O escore MELD é utilizado principalmente para determinar a prioridade de pacientes na fila de transplante hepático, mas também reflete a gravidade da doença. Ele é calculado por uma fórmula complexa que considera os níveis de bilirrubina, INR e creatinina. Existem tabelas e aplicativos para facilitar seu cálculo.
💊 Tratamento: Um escore MELD > 20 indica alta gravidade e a necessidade urgente de avaliação para transplante hepático, conferindo maior prioridade na fila.
Os componentes do MELD são:
- Bilirrubina Total
- INR (Tempo de Protrombina)
- Creatinina
Com este panorama geral da cirrose e suas manifestações, aprofundaremos nas causas específicas nos próximos tópicos, incluindo:
- Doença hepática alcoólica
- Doença hepática gordurosa não-alcoólica (NASH)
- Hepatopatias autoimunes
- Hepatopatias hereditárias (Doença de Wilson, Hemocromatose)
Lembrando que as causas virais (Hepatite B e C) já foram abordadas em outros contextos e são importantes etiologias da cirrose.
Doença Hepática Alcoólica (DHA)
A Doença Hepática Alcoólica (DHA) é uma condição progressiva do fígado causada pelo consumo excessivo e prolongado de álcool. Sua gravidade varia desde esteatose simples até hepatite alcoólica e cirrose, sendo uma das principais causas de doença hepática crônica em todo o mundo.
Conceitos Iniciais
- Consumo de Álcool: A DHA está diretamente relacionada ao consumo elevado de álcool, geralmente acima de 20-40 gramas por dia.
- Fatores de Risco Adicionais: O risco de progressão da doença é maior em mulheres, pacientes com infecção pelo vírus da Hepatite C (HCV) e indivíduos obesos.
- Limites Tóxicos Aproximados:
- Destilados: cerca de 90 ml/dia
- Vinho: aproximadamente 330 ml/dia
- Cerveja: cerca de 1 litro/dia
🧠 Limites de Consumo Crônico para Dano Hepático:
- Homens: > 40g/dia por 10 anos
- Mulheres: > 20g/dia por 10 anos
Progressão da Doença Hepática Alcoólica
A evolução da DHA ocorre em estágios, nem todos os pacientes progridem para as formas mais graves:
- Esteatose Hepática: Presente em 90-100% dos pacientes com consumo crônico de álcool. É a forma mais comum e reversível com a abstinência.
- Hepatite Alcoólica: Desenvolve-se em 10-35% dos pacientes com esteatose hepática. É um quadro agudo, com alta mortalidade se não tratada.
- Cirrose Alcoólica: Ocorre em 8-20% dos pacientes com esteatose hepática. Representa o estágio final e irreversível da doença.
Rastreamento do Abuso de Álcool: Escore CAGE
O escore CAGE é uma ferramenta de triagem rápida para identificar abuso de álcool. Duas ou mais respostas positivas indicam suspeita de abuso.
- C (Cut down): Alguma vez o senhor sentiu que deveria diminuir a quantidade de bebida ou parar de beber?
- A (Annoyed): As pessoas o aborrecem porque criticam o seu modo de beber?
- G (Guilty): O senhor se sente culpado pela maneira com que costuma beber?
- E (Eye opener): O senhor costuma beber para diminuir o nervosismo ou ressaca? Bebe para conseguir fazer as atividades?
💡 Dica: O CAGE é uma ferramenta de triagem, não diagnóstica. Em caso de suspeita, aprofunde a investigação.
Marcadores Laboratoriais de Ingesta Alcoólica
Quando há suspeita de subnotificação do consumo de álcool, exames laboratoriais podem auxiliar no rastreamento:
- Elevação de Aminotransferases: AST e ALT podem estar aumentadas.
- GGT Isolada Elevada: A gama-glutamil transferase (GGT) é um marcador sensível para consumo de álcool, frequentemente elevada de forma isolada.
- Macrocitose (VCM > 100 fL): O álcool interfere na medula óssea, resultando na produção de eritrócitos maiores.
- Carência de Vitaminas: Deficiências de vitaminas B1 (tiamina) e B6 (piridoxina) são comuns devido à má absorção e metabolismo alterado.
- Relação TGO/TGP > 1,5: Embora não seja patognomônico, é um achado característico na DHA, diferenciando-a de outras hepatopatias onde a ALT geralmente predomina.
🧪 Marcador Chave: A relação AST/ALT > 1,5 é um forte indicativo de lesão hepática alcoólica.
Hepatite Alcoólica: Quadro Clínico e Diagnóstico
A hepatite alcoólica é uma manifestação aguda e grave da DHA, com alta mortalidade. O quadro clínico e laboratorial inclui:
- Sintomas: Febre, icterícia, ascite, dor abdominal.
- Laboratório:
- Leucocitose importante com desvio à esquerda (diferente de hepatites virais, que geralmente cursam com leucopenia e linfocitose).
- Elevação das transaminases, geralmente até 400 U/L.
- Predomínio de AST sobre ALT (AST/ALT > 1,5).
- Histopatologia: Esteatose e corpúsculos de Mallory (inclusões citoplasmáticas de filamentos intermediários), que são característicos, mas não patognomônicos.
🔎 Critério de Gravidade: O Índice de Função Discriminante (IFD) de Maddrey é utilizado para avaliar a gravidade da hepatite alcoólica e guiar o tratamento.
Fórmula do IFD: 4,6 x (TPpaciente – TPcontrole) + Bilirrubina Total
Tratamento da Hepatite Alcoólica
O tratamento da hepatite alcoólica visa reduzir a inflamação e a mortalidade:
- Abstinência Alcoólica: Medida fundamental e prioritária.
- Suporte Nutricional: Essencial para pacientes desnutridos, o que é comum na DHA.
- Corticosteroides: Indicados em casos graves.
- Indicação: IFD de Maddrey ≥ 32 E/OU presença de encefalopatia hepática.
- Regime: Prednisolona 40 mg/dia por 4 semanas.
💊 Tratamento-Chave: Corticosteroides são a pedra angular no tratamento da hepatite alcoólica grave.
Doença Hepática Esteatótica (DHE)
A Doença Hepática Esteatótica (DHE) é uma condição caracterizada pelo acúmulo de gordura no fígado. O termo "Doença Hepática Gordurosa Não Alcoólica" (DHGNA) entrou em desuso, sendo substituído por uma nomenclatura mais abrangente que reflete as diversas etiologias da esteatose hepática.
Nova Nomenclatura e Classificação
A nova classificação da DHE busca uma abordagem mais precisa, distinguindo as causas e fatores associados:
- Doença Hepática Esteatótica Metabólica (DHEM): Caracterizada pela presença de esteatose hepática associada a pelo menos um dos cinco fatores de risco cardiometabólicos (obesidade, diabetes tipo 2, dislipidemia, hipertensão arterial, resistência à insulina).
- Esteato-Hepatite Metabólica (EHM): Subgrupo da DHEM que apresenta, além da esteatose, inflamação e lesão hepatocelular.
- DHEM-DHA: Pacientes com DHEM que também consomem quantidades significativas de álcool, mas em níveis que não justificariam uma DHA pura.
- Doença Hepática Alcoólica (DHA): Quando o consumo de álcool é a principal e predominante causa da esteatose e lesão hepática.
- DHE com Etiologia Específica: Esteatose causada por outras condições, como lesão hepática induzida por drogas (LHID), doenças monogênicas (ex: doença de Wilson, hemocromatose) ou outras miscelâneas.
- DHE Criptogênica: Define a DHE em indivíduos sem fatores de risco cardiometabólicos conhecidos e sem outras etiologias identificadas para a doença hepática.
| Classificação da DHE |
Ingestão Média Diária de Álcool (g) |
Ingestão Semanal de Álcool (g) |
| DHEM Predominante |
< 20-30 |
< 140-210 |
| DHEM-DHA |
20-30 a 40-50 |
140-210 a 280-350 |
| DHA Predominante |
> 40-50 |
> 280-350 |
Doença Hepática Esteatótica Metabólica (DHEM)
A DHEM é considerada a manifestação hepática da síndrome metabólica, sendo uma das causas mais comuns de doença hepática crônica no mundo ocidental.
Conceitos Iniciais
- Fisiopatologia: Caracterizada por resistência à insulina, levando ao aumento de triglicerídeos no fígado. A obesidade é um fator central.
- Mecanismos Adicionais: Envolve também o aumento de TNF-alfa e estresse oxidativo, que contribuem para a inflamação e progressão da doença.
- Progressão: Pode evoluir para cirrose e suas complicações.
- Fatores de Risco para Cirrose: Pacientes com diabetes mellitus, obesidade e idade superior a 45 anos apresentam maior risco de progressão para cirrose.
🧠 Lembre-se: A DHEM é a "face hepática" da síndrome metabólica, impulsionada principalmente pela resistência à insulina e obesidade.
Progressão da DHEM
A DHEM pode seguir diferentes caminhos de progressão:
- Esteatose Isolada: Presente em cerca de 80% dos casos, é o acúmulo simples de gordura sem inflamação significativa.
- Esteato-Hepatite Metabólica (EHM/NASH): Ocorre em aproximadamente 20% dos pacientes, caracterizada por esteatose, inflamação e lesão hepatocelular.
- Cirrose: Cerca de 10% dos pacientes com EHM podem evoluir para cirrose.
Manifestações Clínicas e Laboratoriais
- Assintomática: A maioria dos pacientes é assintomática, sendo a doença frequentemente descoberta incidentalmente.
- Aumento de Transaminases: Elevação de ALT e AST, com predomínio de ALT sobre AST (ALT > AST), diferente da DHA.
- Ferritina Elevada: A ferritina pode estar aumentada, atuando como um marcador inflamatório de gravidade.
Abordagem Diagnóstica e Estratificação de Risco
A suspeita de DHEM deve surgir em diversas situações, e a estratificação é crucial para o manejo:
- Quando Suspeitar:
- Aumento de ALT/AST em exames de rotina.
- Hepatomegalia.
- Esteatose hepática detectada em exames de imagem (ex: ultrassonografia).
- Aumento da Suspeita se:
- Síndrome metabólica associada.
- Aumento de ALT/AST em 2 a 5 vezes o limite superior da normalidade.
- Aumento da ferritina.
- Exclusão de Outras Causas: É fundamental excluir outras etiologias de esteatose, como consumo significativo de álcool, infecção pelo vírus C, uso de medicamentos hepatotóxicos e doenças monogênicas (ex: doença de Wilson).
🧪 Estratificação de Risco: O escore clínico FIB-4 é uma ferramenta não invasiva para avaliar o risco de fibrose avançada na DHEM.
- Estratificação com FIB-4:
- Risco Baixo: O tratamento foca no manejo da síndrome metabólica.
- Risco Moderado-Alto: Recomenda-se a avaliação da rigidez hepática por elastografia ultrassonográfica (FibroScan) para determinar o grau de fibrose.
- Biópsia Hepática: Indicada nas seguintes situações:
- Rigidez hepática > 8,5 kPa (sugestivo de fibrose avançada).
- Sinais evidentes de cirrose.
- Dúvida diagnóstica para excluir outras hepatopatias.
Tratamento da DHEM
O tratamento da DHEM é multifacetado, com foco na modificação do estilo de vida e, em alguns casos, em terapias farmacológicas específicas:
- Manejo Geral da Síndrome Metabólica:
- Dieta e Atividade Física: Essenciais. A perda de peso de pelo menos > 5% do peso corporal, e idealmente > 10%, pode levar à melhora histológica.
- Drogas Específicas para EHM (NASH) ou Fibrose Avançada:
- Em Pacientes Diabéticos:
- Glitazonas (ex: pioglitazona): Melhoram a sensibilidade à insulina e podem reduzir a esteatose e inflamação.
- Análogos de GLP-1 (ex: liraglutida): Promovem perda de peso e podem ter efeitos benéficos na histologia hepática.
- Nota: A metformina é uma opção no contexto do diabetes e síndrome metabólica, mas não possui efeito direto comprovado sobre a EHM.
- Em Pacientes Não-Diabéticos:
- Vitamina E: É a única com evidências de benefício na melhora histológica em pacientes não diabéticos com EHM.
💊 Tratamento-Chave: Perda de peso é a intervenção mais eficaz. Drogas como pioglitazona, liraglutida e vitamina E têm papéis específicos.
Comparativo - DHA vs DHEM
| Característica |
Doença Hepática Alcoólica (DHA) |
Doença Hepática Esteatótica Metabólica (EHM/NASH) |
| Relação Transaminases |
AST > ALT (geralmente > 1,5) |
ALT > AST |
| Deficiências Vitamínicas |
Sim (Folato, B1, B6) |
Não (geralmente) |
| Achados Histológicos |
Corpúsculos de Mallory +++ |
Corpúsculos de Mallory + (menos proeminente) |
| Associação Principal |
Consumo > 40g etanol/dia |
Síndrome Metabólica |
| Ferritina |
Normal ou levemente elevada |
Alta (marcador de gravidade) |
| Quadro Clínico Agudo |
Febre, dor, icterícia (na hepatite alcoólica) |
Assintomático (na maioria dos casos) |
| Tratamento Primário |
Abstinência, suporte nutricional, Prednisolona (casos graves) |
Dieta, exercício, perda de peso, Glitazonas/GLP-1 (DM), Vitamina E (não-DM) |
Hepatopatias Autoimunes
As hepatopatias autoimunes representam um grupo de doenças hepáticas caracterizadas por uma resposta imune desregulada contra componentes do próprio fígado. Abordaremos duas das principais entidades clínicas neste grupo: a Hepatite Autoimune (HAI) e a Colangite Biliar Primária (CBP).
Hepatite Autoimune (HAI)
A Hepatite Autoimune é uma condição inflamatória crônica do fígado, na qual o sistema imunológico ataca os hepatócitos. Sua etiologia é frequentemente idiopática, mas fatores genéticos e ambientais podem estar envolvidos.
- Exclusão Diagnóstica: É fundamental que outras causas de hepatite, como infecções virais, consumo de álcool e uso de drogas hepatotóxicas, sejam excluídas.
- Marcador Sorólogico: Caracteriza-se por hipergamaglobulinemia, com elevação notável dos níveis de Imunoglobulina G (IgG).
- Associações: Frequentemente, a HAI coexiste com outras doenças autoimunes, como vitiligo, diabetes mellitus tipo 1 e tireoidite autoimune.
Tipos de Hepatite Autoimune
A HAI é classicamente dividida em dois tipos principais, baseados nos perfis de autoanticorpos:
Hepatite Autoimune Tipo 1
- Epidemiologia: Mais comum em mulheres jovens, geralmente entre 15 e 40 anos.
- Apresentação Clínica: Pode ser assintomática ou manifestar-se com sintomas inespecíficos como fadiga, anorexia e icterícia.
- Sinais Sugestivos: A presença de artralgia, vitiligo, atraso menstrual ou amenorreia e acne pode ser uma "dica" importante para o diagnóstico.
- Autoanticorpos:
- FAN (Fator Antinúcleo): O mais frequente, por vezes chamado de "lupoide" devido à sua associação com lúpus.
- AML (Anticorpo Antimúsculo Liso): Mais específico que o FAN.
- Anti-Actina: Considerado o mais específico de todos e associado a um pior prognóstico.
Hepatite Autoimune Tipo 2
- Epidemiologia: Mais rara, predominante em meninas e, menos frequentemente, em homens.
- Autoanticorpos:
- Anti-LKM1 (Anticorpo Anti-Microssomal Fígado-Rim tipo 1): O marcador mais característico.
- Anti-LC1 (Anticorpo Anticitosol Hepático tipo 1): Presente em cerca de metade dos casos.
Tratamento da Hepatite Autoimune
- Formas Leves/Assintomáticas: Em casos leves ou assintomáticos, o tratamento pode ser de suporte, com monitoramento rigoroso.
- Imunossupressão: A base do tratamento é a imunossupressão, geralmente com corticosteroides (como prednisona), que podem ser combinados com azatioprina para reduzir a dose de corticoide e seus efeitos adversos.
- Transplante Hepático: Indicado para pacientes que não respondem à terapia imunossupressora ou que desenvolvem insuficiência hepática grave.
⚠️ Atenção: As complicações potenciais da HAI incluem hepatite fulminante e a progressão para cirrose, ressaltando a importância do diagnóstico e tratamento precoces.
Colangite Biliar Primária (CBP)
A Colangite Biliar Primária é uma doença autoimune crônica e progressiva que se caracteriza pela destruição inflamatória dos ductos biliares intra-hepáticos de pequeno e médio calibre, localizados nos espaços-porta do fígado (zona 1).
- Epidemiologia: Afeta predominantemente mulheres de meia-idade, geralmente entre 30 e 60 anos.
- Associações: Frequentemente associada a outras doenças autoimunes, sendo as mais comuns a Síndrome de Sjögren, Esclerodermia e Tireoidite de Hashimoto. O FAN pode estar positivo em alguns casos.
- Fisiopatologia: A destruição dos ductos biliares leva à colestase e, consequentemente, à disabsorção de nutrientes.
Manifestações Clínicas e Laboratoriais
- Sintomas: Fadiga (sintoma mais comum e incapacitante), prurido (coceira intensa, especialmente noturna), icterícia, hiperpigmentação cutânea, xantelasmas (depósitos de colesterol na pele), dor óssea.
- Deficiências Nutricionais: Devido à disabsorção de gorduras, há deficiência de vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K), podendo levar à esteatorreia.
- Complicações Ósseas: Aumento significativo do risco de osteoporose.
- Exames Laboratoriais:
- Elevação de Fosfatase Alcalina (FA) e Gama-Glutamil Transferase (GGT), indicando colestase.
- Hipergamaglobulinemia, com elevação característica da Imunoglobulina M (IgM).
Diagnóstico da CBP
- Anticorpo Antimitocôndria (AMA): É o marcador sorológico mais importante, presente em cerca de 95% dos casos, sendo altamente específico.
- Exclusão de Obstrução Biliar: Exames de imagem como ultrassonografia (USG) e Colangiopancreatografia Retrógrada Endoscópica (CPRE) são tipicamente negativos, pois a doença afeta a via biliar intra-hepática microscópica, não grandes ductos.
Tratamento da CBP
- Ácido Ursodesoxicólico (UDCA): É a terapia de primeira linha, visando retardar a progressão da doença e melhorar os sintomas.
- Transplante Hepático: Considerado para pacientes que não respondem ao UDCA ou que evoluem para cirrose descompensada.
🔎 Diagnóstico Chave: A presença de Anticorpo Antimitocôndria (AMA) positivo em uma mulher de meia-idade com colestase e prurido é altamente sugestiva de Colangite Biliar Primária.
Hepatopatias Hereditárias
As hepatopatias hereditárias são condições genéticas que resultam em acúmulo de substâncias tóxicas no fígado, levando a danos progressivos. As duas principais doenças abordadas aqui são a Doença de Wilson e a Hemocromatose Hereditária.
Doença de Wilson
🚨 Alerta para Residência: Paciente criança ou jovem com indícios de cirrose deve levantar forte suspeita para Doença de Wilson!
A Doença de Wilson é um distúrbio genético autossômico recessivo caracterizado pelo acúmulo excessivo de cobre em diversos tecidos, principalmente no fígado e no sistema nervoso central.
Fisiopatologia
- Mutação Genética: Causada por uma mutação no gene ATP7B, localizado no cromossomo 13.
- Defeito no Metabolismo do Cobre: Essa mutação resulta em:
- Redução da excreção biliar de cobre.
- Diminuição da incorporação de cobre na ceruloplasmina.
- Ceruloplasmina: Consequentemente, há uma redução dos níveis séricos de ceruloplasmina, a principal proteína plasmática transportadora de cobre.
Manifestações Clínicas
A doença pode se manifestar de diversas formas, sendo as mais comuns as hepáticas e neuropsiquiátricas.
Forma Hepática
Pode variar desde quadros leves até formas graves:
- Aguda: Hepatite aguda.
- Crônica: Evolução lenta para cirrose, sendo a apresentação mais clássica.
- Fulminante: Insuficiência hepática aguda grave, com alta mortalidade.
Forma Neuropsiquiátrica
Geralmente afeta pacientes jovens (5-30 anos) e inclui:
- Distúrbios do Movimento: Como parkinsonismo, tremores e distonia.
- Alterações de Personalidade: Irritabilidade, depressão, psicose.
- Déficit Cognitivo: Redução da cognição e dificuldades de aprendizado.
- Anéis de Kayser-Fleischer: Depósitos de cobre na córnea, visíveis como anéis dourados ou esverdeados na periferia da íris. Presentes em 98% dos pacientes com lesão do SNC, detectáveis por exame com "lâmpada de fenda".
Outras Manifestações
- Anemia Hemolítica: Anemia hemolítica Coombs-negativa, um achado importante.
- Lesão Tubular Renal: Síndrome de Fanconi ou lesão tubular proximal.
- Ocular: Catarata.
Diagnóstico
- Triagem: Níveis reduzidos de ceruloplasmina sérica.
- Confirmação:
- Aumento do cobre livre sérico.
- Aumento da excreção urinária de cobre (cobre urinário de 24h > 100 mcg).
- Aumento do cobre hepático em biópsia.
- Presença dos Anéis de Kayser-Fleischer.
- Teste genético para mutação ATP7B.
Tratamento
- Quelantes de Cobre:
- D-Penicilamina: Agente quelante que aumenta a excreção urinária de cobre.
- Trientina: Outro quelante, usado em pacientes intolerantes à penicilamina.
- Zinco: Reduz a absorção intestinal de cobre e induz a síntese de metalotioneína, que liga o cobre no intestino, impedindo sua absorção.
- Transplante Hepático: É curativo e indicado para casos graves, refratários ao tratamento medicamentoso ou com insuficiência hepática fulminante.
💊 Tratamento e Cura: O transplante hepático na Doença de Wilson é curativo, pois corrige o defeito genético no fígado, que é o principal órgão afetado pelo acúmulo de cobre.
Hemocromatose Hereditária
A Hemocromatose Hereditária é uma doença genética caracterizada pelo acúmulo excessivo de ferro no organismo, levando a danos em diversos órgãos.
- Epidemiologia: É relativamente comum (prevalência de 1:250), sendo mais frequente em homens caucasianos, geralmente entre 40 e 50 anos.
- Diferença de Gênero: Menos comum em mulheres devido à perda mensal de ferro através da menstruação.
Fisiopatologia
A doença é causada por mutações genéticas, sendo as mais comuns C282Y e H63D no gene HFE (herança autossômica recessiva, embora o texto original mencione dominante, a forma mais comum é recessiva). Essas mutações levam a um aumento da absorção intestinal de ferro, resultando em seu depósito excessivo em órgãos como fígado, pâncreas, coração e articulações.
Manifestações Clínicas: Os "6 H's"
A apresentação clínica é clássica e pode ser lembrada pelos "6 H's":
- Hepatomegalia: Aumento do fígado, com risco elevado de desenvolvimento de carcinoma hepatocelular (CHC).
- Hiperpigmentação: Coloração acinzentada ou bronzeada da pele, por vezes referida como "diabetes bronzeado" quando associada ao diabetes.
- Heart (Coração): Cardiomiopatia, insuficiência cardíaca e arritmias.
- Hipogonadismo: Atrofia testicular em homens e redução da libido em ambos os sexos.
- Hiperglicemia: Diabetes mellitus insulinodependente, presente em cerca de 70% dos pacientes.
- Hartrite (Artrite): Artropatia hemocromatótica, que pode mimetizar pseudogota, afetando principalmente as pequenas articulações das mãos.
Diagnóstico
- Triagem:
- Elevação da ferritina sérica (> 150-200 ng/mL).
- Aumento da saturação da transferrina (> 45-60%).
- Confirmação:
- Teste genético para as mutações C282Y e H63D. É crucial rastrear parentes de primeiro grau dos pacientes diagnosticados.
- Em Casos de Dúvida:
- Ressonância Magnética (RM) para quantificação do ferro hepático.
- Biópsia hepática para avaliação histológica e quantificação direta do ferro.
Tratamento
- Flebotomias Terapêuticas: É a base do tratamento. Consiste na remoção seriada de 500 mL de sangue para reduzir os estoques de ferro. O objetivo é manter a ferritina em torno de 50 ng/mL.
- Quelantes de Ferro: A desferroxamina pode ser utilizada em casos específicos, como pacientes com anemia ou insuficiência cardíaca que não toleram flebotomias, mas não é a terapia de primeira linha.
- Transplante Hepático: Não é curativo para a hemocromatose, pois o defeito genético afeta a absorção intestinal de ferro, e o novo fígado também acumulará ferro ao longo do tempo.
🧠 Conceito Importante: Diferente da Doença de Wilson, o transplante hepático na Hemocromatose não é curativo, pois o problema reside na absorção intestinal de ferro, não apenas no fígado.
Comparativo - Hepatopatias
| Característica |
Hemocromatose Hereditária |
Doença de Wilson |
Colangite Biliar Primária |
Hepatite Autoimune |
| Paciente Típico |
Homem (10:1), 40-50 anos |
Criança/Adulto Jovem (1:1), 5-30 anos |
Mulher (10:1), 40-60 anos |
Mulher (4:1), 15-40 anos |
| Patogênese |
Autossômica recessiva (↑ absorção de ferro) |
Autossômica recessiva (acúmulo de cobre livre, ↓ ceruloplasmina) |
Autoimune (destruição de ductos biliares intra-hepáticos, anticorpo anti-mitocondrial) |
Autoimune (agressão aos hepatócitos, anticorpos anti-músculo liso, LKM1, CL-1) |
| Clínica Principal |
Cirrose, Diabetes, Hiperpigmentação, Insuficiência Cardíaca, Artropatia |
Cirrose precoce, Anéis de Kayser-Fleisher (manifestações neurológicas), Anemia hemolítica |
Icterícia, Prurido, Xantelasmas, Hipercolesterolemia, Fadiga, Osteoporose |
Fadiga, Anorexia, Icterícia, Artralgia, amenorreia. Sorologia viral negativa. |
| Diagnóstico Chave |
Mutações C282Y/H63D, ↑ Ferritina, ↑ Saturação Transferrina |
Cobre urinário > 100mcg, Anéis de KF, ↓ Ceruloplasmina, Biópsia hepática |
AMA positivo, ↑ FA/GGT, ↑ IgM |
↑ IgG, FAN, AML, Anti-Actina (Tipo 1); Anti-LKM1, Anti-LC1 (Tipo 2) |
| Tratamento |
Flebotomias (base), Quelantes (exceção) |
Quelantes (Zinco, Trientina, D-Penicilamina), Transplante (curativo) |
Ácido Ursodesoxicólico (UDCA), Transplante |
Corticoide +/- Azatioprina, Transplante |