Cirrose e Suas Consequências
Conceitos Iniciais
O fígado é um órgão notável por sua capacidade regenerativa, podendo se recuperar completamente em poucas semanas ou meses. Contudo, na cirrose, essa capacidade é superada por uma agressão contínua e crônica, que leva à formação de traves de fibrose e processos cicatriciais irreversíveis. Essa condição resulta na alteração completa da citoarquitetura hepática, caracterizada pela presença dessas traves fibróticas associadas a nódulos regenerativos.
🧠 Conceito-chave: A cirrose é definida pela presença de traves fibróticas e nódulos regenerativos que distorcem a arquitetura hepática normal, resultando em disfunção.
Complicações da Cirrose
As consequências da cirrose podem ser categorizadas em dois grandes grupos, que frequentemente se interligam e contribuem para o quadro clínico complexo da doença:
1. Insuficiência Hepática
Devido à alteração estrutural do fígado, os hepatócitos tornam-se progressivamente disfuncionais. Isso compromete as múltiplas funções metabólicas e sintéticas do órgão, levando ao surgimento de diversas manifestações clínicas de insuficiência hepatocelular.
2. Hipertensão Porta
A hipertensão porta é definida por um gradiente pressórico entre o sistema porta e o sistema cava superior a 5 mmHg. Para compreender suas manifestações, é fundamental relembrar a anatomia e o funcionamento da circulação porta.
A veia porta é formada pela união da veia mesentérica superior e da veia esplênica, e é responsável por drenar aproximadamente um quarto do débito cardíaco para o fígado. Na cirrose, a resistência ao fluxo sanguíneo dentro do fígado aumenta drasticamente, elevando a pressão no sistema porta. Em resposta a essa elevação, desenvolvem-se vasos colaterais, conhecidos como anastomoses portossistêmicas, que tentam desviar o sangue do sistema porta diretamente para a circulação sistêmica, contornando o fígado.
Principais Anastomoses Portossistêmicas e Suas Consequências
- Veia Gástrica Esquerda (Coronária): Drena a parte inferior do esôfago diretamente para a veia porta. Quando hipertensa, o sangue busca escoamento pelas veias ázigos, formando as varizes esofágicas.
- Veias Gástricas Curtas: Drenam para a veia esplênica, que por sua vez drena para a veia porta. A hipertensão nessa via pode levar à formação de varizes de fundo gástrico e esplenomegalia.
- Veias Retais (Plexo Hemorroidário): O plexo hemorroidário superior drena para a veia mesentérica inferior (que se une à esplênica para formar a porta), enquanto os plexos médio e inferior drenam diretamente para a veia ilíaca comum (circulação sistêmica). A hipertensão porta pode causar dilatação dessas veias, resultando em varizes anorretais ou hemorroidas.
- Plexo Venoso de Retzius: Um plexo venoso retroperitoneal que estabelece comunicações entre a circulação portal (através de vasos do cólon) e a circulação sistêmica (veia cava inferior).
- Veia Umbilical: Normalmente obliterada após o nascimento, pode ser "reativada" na hipertensão porta. Ela drena o sangue diretamente para a veia porta. Sua recanalização e dilatação podem levar ao surgimento da "cabeça de medusa" (circulação colateral visível ao redor do umbigo).
- Sinusoides Hepáticos: Na cirrose, a distorção da arquitetura hepática aumenta a pressão dentro dos sinusoides. Esse aumento de pressão, combinado com a hipoalbuminemia (redução da pressão oncótica), favorece o extravasamento de líquido para a cavidade abdominal, resultando em ascite.
⚠️ Atenção: A hipertensão porta é um estado de "entra muito sangue, sai pouco sangue" no sistema portal, levando ao desenvolvimento de colaterais para desviar o fluxo e tentar equalizar as pressões.
Conceitos High Yield Notes
É crucial memorizar alguns conceitos-chave relacionados à circulação porta e aos gradientes de pressão:
- Veia Porta: É uma veia singular que se localiza entre duas redes de capilares (intestinais/esplênicos e hepáticos). É formada pela união da veia mesentérica superior com a veia esplênica. É importante lembrar que 3/4 do fluxo sanguíneo hepático é venoso, o que é diferente da maioria dos outros órgãos.
- Hipertensão Porta: Definida por um gradiente de pressão entre o sistema porta e o sistema cava > 5 mmHg.
- Varizes Esofagogástricas: Geralmente se formam quando o gradiente de pressão ultrapassa > 10 mmHg.
- Risco de Ruptura e Hemorragia de Varizes: O risco de sangramento é significativamente elevado quando o gradiente de pressão é > 12 mmHg.
Manifestações Clínicas da Cirrose
As manifestações clínicas da cirrose são um reflexo da combinação da insuficiência hepática e da hipertensão porta. Abaixo, detalhamos as principais e seus mecanismos:
| Manifestações de Insuficiência Hepática |
Manifestações de Hipertensão Porta |
| Hiperestrogenismo (Telangiectasias, Eritema Palmar, Ginecomastia) |
Varizes Esôfago-Gástricas |
| Coagulopatia |
Hemorroidas |
| Hipoalbuminemia |
Circulação Colateral Abdominal (Cabeça de Medusa) |
| Síndrome Hepatorrenal |
Esplenomegalia |
| Encefalopatia Hepática |
Ascite |
|
Encefalopatia Hepática |
Mecanismos das Manifestações
- Hiperestrogenismo: O fígado disfuncional não consegue metabolizar e remover o estrogênio da circulação de forma eficaz. O acúmulo de estrogênio leva a sinais como telangiectasias (aranhas vasculares), eritema palmar e ginecomastia em homens.
- Coagulopatia: O fígado é o principal local de síntese de muitos fatores de coagulação. Na cirrose, a produção desses fatores é comprometida, resultando em um estado de coagulopatia, frequentemente evidenciado por um INR (Razão Normalizada Internacional) alargado (ex: 1,7-1,9).
- Hipoalbuminemia: A albumina, uma proteína plasmática essencial para a manutenção da pressão oncótica, é produzida no fígado. A disfunção hepática reduz sua síntese, levando à hipoalbuminemia, que contribui para a formação de edemas e ascite.
- Síndrome Hepatorrenal: É uma complicação grave caracterizada por vasoconstrição renal severa e insuficiência renal funcional. Acredita-se que o acúmulo de substâncias vasoativas (como a amônia não depurada pelo fígado) na circulação sistêmica contribua para esse quadro.
- Ascite: Como mencionado, a hipertensão nos sinusoides hepáticos, combinada com a hipoalbuminemia, provoca o extravasamento de líquido para a cavidade peritoneal.
- Encefalopatia Hepática: Resulta do acúmulo de substâncias neurotóxicas, principalmente amônia, que não são adequadamente metabolizadas pelo fígado disfuncional. Essa amônia atinge o sistema nervoso central (SNC), causando disfunção cerebral. A encefalopatia é agravada pela hipertensão porta, pois o desvio portossistêmico permite que o sangue rico em toxinas contorne o fígado e chegue diretamente à circulação sistêmica e ao cérebro.
Classificação e Etiologia da Hipertensão Porta
A hipertensão porta pode ser classificada de acordo com o local da obstrução ao fluxo sanguíneo, o que é fundamental para o diagnóstico diferencial e manejo. Divide-se em três grandes grupos: pré-hepática, intra-hepática e pós-hepática.
1. Hipertensão Porta Pré-Hepática
🔎 Características: Geralmente cursa com muitas varizes, pouca ou nenhuma ascite e esplenomegalia. A função hepática costuma estar preservada.
- Trombose de Veia Porta: É uma causa comum, podendo ser espontânea (mais frequente em crianças, devido ao lúmen mais fino da veia) ou secundária a condições de hipercoagulabilidade (trombofilias) em adultos.
- Trombose de Veia Esplênica: Causa uma forma particular de hipertensão porta, conhecida como hipertensão porta segmentar.
- Marca Clínica: A principal manifestação são as varizes de fundo gástrico isoladas, pois as veias gástricas curtas, que drenam para a veia esplênica, não conseguem escoar o sangue. A esplenomegalia também é comum.
- Principal Causa: A pancreatite crônica é a etiologia mais frequente, pois a inflamação pancreática pode se estender por contiguidade e induzir a trombose da veia esplênica.
2. Hipertensão Porta Intra-Hepática
Esta categoria é subdividida com base na localização da obstrução dentro do lóbulo hepático, que inclui o espaço porta (com ramos da artéria hepática, veia porta e canalículo biliar), os sinusoides e a veia centrolobular.
Pré-Sinusoidal
💡 Dica: Caracterizada por muitas varizes e pouca ou nenhuma ascite.
- Esquistossomose: O ovo do Schistosoma mansoni, por seu tamanho, não consegue atravessar os sinusoides e se aloja no espaço porta, induzindo fibrose periportal (fibrose de Symmers).
🧠 Lembre-se: Como o líquido ascítico é um extravasamento dos sinusoides hepáticos, a hipertensão portal pré-sinusoidal não costuma cursar com ascite significativa, pois a obstrução ocorre antes dos sinusoides.
Sinusoidal
💡 Dica: Apresenta muitas varizes e muita ascite.
- Cirrose: É a causa mais comum de hipertensão porta sinusoidal. A alteração da arquitetura hepática leva a um aumento da pressão intrasinusoidal, o que favorece o extravasamento de líquido e, consequentemente, a ascite.
✅ Confirmação: A cirrose, ao alterar a arquitetura hepática e aumentar a pressão intrasinusoidal, é uma causa primária de ascite na hipertensão porta.
Pós-Sinusoidal
💡 Dica: Observa-se poucas varizes e muita ascite.
- Doença Veno-Oclusiva (DVO): Caracterizada pela obstrução das veias centrolobulares. Pode estar associada ao consumo de chás de plantas hepatotóxicas, como o "chá da Jamaica" (Bush Tea Disease). A trombose ocorre nas veias hepáticas de pequeno calibre, após os sinusoides.
3. Hipertensão Porta Pós-Hepática
🚨 Alerta: Frequentemente associada a ascite refratária e sinais de congestão sistêmica.
- Síndrome de Budd-Chiari: Caracterizada pela trombose das veias hepáticas (grandes veias que drenam o fígado para a veia cava inferior). Isso provoca um fluxo retrógrado de sangue para o sistema porta e sinusoides, causando ascite e hepatomegalia. Geralmente ocorre em pacientes com estados de hipercoagulabilidade (trombofilias hereditárias ou secundárias a tumores).
- Obstrução de Veia Cava Inferior: Pode ser causada por trombose ou compressão extrínseca por neoplasias.
- Doenças Cardíacas: Condições que elevam a pressão no átrio direito e, consequentemente, na veia cava inferior e veias hepáticas, como a pericardite constritiva e a insuficiência tricúspide grave.
- Parâmetro Diferencial: A presença de turgência jugular é um sinal importante que pode ajudar a diferenciar as causas cardíacas das outras etiologias de hipertensão porta.
🧠 Conceito: Na Síndrome de Budd-Chiari, a trombose das veias hepáticas impede o fluxo de saída do fígado, resultando em congestão hepática, aumento da pressão nos sinusoides e, consequentemente, ascite.
Varizes Esofagogástricas
As varizes esofagogástricas representam uma das complicações mais temidas da hipertensão portal, sendo a principal causa de morte em pacientes cirróticos. Elas surgem devido à dificuldade do fluxo sanguíneo através do fígado cirrótico, forçando o sangue a buscar vias alternativas de drenagem.
Fisiopatologia
O esôfago possui uma drenagem venosa dupla: parte para a veia cava e parte para o sistema porta. Na presença de hipertensão portal, o sangue encontra grande resistência no sistema porta e é "regurgitado" para a circulação esofágica e gástrica, sobrecarregando as veias locais e levando à formação de varicosidades.
- Gradiente Pressórico Portal (GPP):
- GPP > 5 mmHg: Caracteriza a hipertensão portal.
- GPP > 10 mmHg: Indica a formação de varizes.
- GPP > 12 mmHg: Aumenta significativamente o risco de ruptura e sangramento.
🧠 Conceito Chave: A hipertensão portal leva a um shunt do sangue através da veia gástrica esquerda e vasos curtos, sobrecarregando as veias esofágicas e gástricas e formando as varizes.
Aspectos Epidemiológicos e Prognósticos
- Risco de Hemorragia: Aproximadamente 30% dos pacientes com varizes esofágicas tendem a sangrar.
- Prevalência: Presente em cerca de 50% dos pacientes cirróticos, justificando a realização de Endoscopia Digestiva Alta (EDA) a cada 2-3 anos para rastreamento.
- Mortalidade: A hemorragia por varizes apresenta uma mortalidade de 20-30%, podendo chegar a 50% em pacientes com Child-Pugh C.
- Principal Causa de Morte: É a complicação mais letal da cirrose.
- Ressangramento: Ocorre em 60-70% dos casos no primeiro ano após o episódio inicial.
- Fatores de Risco para Sangramento:
- Classificação de Child-Pugh B ou C.
- Presença de Cherry-Red Spots (sinais vermelhos na endoscopia).
- Varizes de grande calibre (> 5 mm).
Classificação das Varizes
A classificação endoscópica das varizes é baseada no seu diâmetro:
- F1: Pequeno calibre (< 5 mm de diâmetro).
- F2: Médio calibre (5-20 mm de diâmetro).
- F3: Grande calibre (> 20 mm de diâmetro).
Abordagem Terapêutica
Situação A: Profilaxia Primária (Paciente Nunca Sangrou)
A profilaxia primária é indicada para pacientes com cirrose e hipertensão portal clinicamente significativa (evidenciada por ascite, circulação colateral ou GPP > 10 mmHg) que nunca apresentaram sangramento varicoso.
- Primeira Linha: Betabloqueadores não seletivos (propranolol, nadolol, carvedilol).
- Mecanismo de Ação: O bloqueio β1 diminui a frequência cardíaca e o débito cardíaco, reduzindo o aporte sanguíneo para o leito venoso esplâncnico. O bloqueio β2 promove vasoconstrição esplâncnica no leito intestinal, contribuindo para o esvaziamento das varizes.
- Alternativa (se contraindicação aos betabloqueadores): Ligadura Elástica por EDA.
- Contraindicações comuns para betabloqueadores incluem asma e bradicardia significativa.
💊 Dica de Tratamento: Lembre-se que os betabloqueadores não seletivos são a primeira escolha para profilaxia primária. A ligadura elástica é uma excelente alternativa em casos de intolerância ou contraindicação.
Situação B: Manejo da Hemorragia Aguda (Paciente Sangrou)
O manejo de um episódio de sangramento agudo por varizes esofagogástricas é uma emergência médica e envolve uma abordagem multifacetada:
- Estabilização Hemodinâmica.
- Investigação da Fonte e Tratamento Agudo (EDA + Drogas).
- Prevenção de Complicações.
1. Estabilização Hemodinâmica
É a prioridade inicial. Inclui a reposição volêmica com cristaloides, sangue e/ou plasma, conforme a necessidade do paciente. É crucial manter a estabilidade hemodinâmica para otimizar a perfusão tecidual.
🚨 Atenção: Não se deve administrar betabloqueadores na vigência de sangramento agudo! O paciente está instável e necessita da contratilidade cardíaca preservada para compensar a perda volêmica.
2. Descoberta da Fonte e Tratamento Específico
Após a estabilização inicial, a fonte do sangramento deve ser identificada e tratada.
- Endoscopia Digestiva Alta (EDA): Deve ser realizada em até 12-24 horas.
- Ligadura Elástica (LE): É a técnica endoscópica de escolha para varizes esofágicas.
- Escleroterapia: Uma alternativa, embora menos utilizada que a LE.
- Cianocrilato: Mais eficaz e frequentemente utilizado para varizes gástricas, especialmente as do tipo IGV1 (isoladas gástricas tipo 1) e GOV2 (gastroesofágicas tipo 2).
🔎 Diagnóstico e Tratamento: O cianocrilato é a escolha para varizes gástricas! Essa é uma informação de alta relevância para provas.
- Drogas Vasoativas Intravenosas: Devem ser iniciadas idealmente antes da EDA e mantidas por 2-5 dias.
- Somatostatina, Octreotide (análogo da somatostatina) ou Terlipressina (análogo da vasopressina): Promovem vasoconstrição esplâncnica, reduzindo o fluxo sanguíneo para as varizes e, consequentemente, a pressão portal.
💊 Tratamento Farmacológico: As drogas vasoativas são cruciais no manejo agudo, reduzindo o sangramento e a pressão portal. Inicie-as precocemente!
- Balão de Sengstaken-Blakemore ou Minnesota: Utilizado como medida temporária (máximo 24-48 horas) em casos de sangramento refratário à terapia endoscópica e farmacológica, ou quando a EDA não está disponível.
- O balão gástrico é insuflado com 300ml de ar e o esofágico com 30-45 mmHg de pressão.
- É uma ponte para um tratamento definitivo, como o TIPS.
🚨 Medida Temporária: O balão é uma solução de resgate para sangramento incontrolável, mas com tempo limitado de uso devido ao risco de complicações.
- TIPS (Shunt Portossistêmico Intra-Hepático Transjugular): Indicado em casos de sangramento refratário ou recorrente, após falha da terapia endoscópica e farmacológica.
- Indicações Principais:
- Sangramento ativo e refratário em pacientes na fila de transplante.
- Falha da EDA + terlipressina no controle do sangramento.
- Ascite refratária.
- Vantagens: Controla o sangramento e a ascite, além de preservar a vasculatura abdominal para um futuro transplante hepático.
- Desvantagens:
- Disponibilidade limitada.
- Risco de encefalopatia hepática (a amônia não é detoxificada pelos hepatócitos, pois o sangue do sistema porta desvia diretamente para o sistema cava).
- Possibilidade de estenose do shunt.
- Contraindicações:
- Insuficiência Cardíaca Direita.
- Doença Cística Hepática.
- Hipertensão Pulmonar Moderada/Severa.
- Trombose de Veia Porta ou Hepáticas.
🧠 Conceito TIPS: O TIPS desvia o fluxo portal para a circulação sistêmica, reduzindo a pressão portal, mas com o risco significativo de encefalopatia hepática devido à passagem de toxinas não metabolizadas pelo fígado.
- Cirurgia de Urgência (Shunts Não Seletivos): Como o shunt porto-cava. Atualmente, são raramente realizados e considerados uma medida de último recurso em pacientes instáveis com sangramento incontrolável.
- Consequências Graves: Alta taxa de encefalopatia hepática (quase regra) e hepatite isquêmica, com mortalidade elevada. Não permite transplante hepático futuro.
3. Prevenção de Complicações
Após o controle do sangramento agudo, a prevenção de complicações é fundamental.
- Peritonite Bacteriana Espontânea (PBE): O sangue no trato gastrointestinal é um excelente meio de cultura para bactérias.
- Profilaxia: Ceftriaxone 1g IV, seguido por Norfloxacino 400mg 12/12h por 7 dias.
- Ressangramento (Profilaxia Secundária): Pacientes que já sangraram têm alto risco de novos episódios.
- Estratégias:
- Associação de Betabloqueadores não seletivos e Ligadura Elástica.
- TIPS ou Transplante Hepático em casos selecionados.
- Cirurgias Eletivas:
- Derivação Esplenorrenal Distal (Cirurgia de Warren): Liga a veia esplênica à veia renal.
- Vantagem: Mantém o fluxo mesentérico portal, resolvendo as varizes.
- Desvantagem: Pode piorar a ascite.
- Desconexão Ázigo-Portal: Envolve a ligadura das veias gástricas e esplenectomia (é a única que inclui esplenectomia).
- Mais simples, boa opção para esquistossomose.
Ascite
A ascite, definida como o acúmulo de líquido na cavidade peritoneal, é a complicação mais comum da cirrose e um marcador de descompensação hepática. Sua presença indica um prognóstico reservado e a necessidade de investigação para diferenciar entre causas relacionadas à hipertensão portal e doenças peritoneais.
Manobras Semiológicas e Diagnóstico
A detecção da ascite pode ser feita por meio de exame físico e confirmada por exames de imagem.
- Manobras Semiológicas:
- Piparote.
- Macicez móvel de decúbito.
- Semicírculos de Skoda.
- Sinal da poça.
- Manobra da "arranhandura".
- Toque retal (pode revelar ascite volumosa).
- Exame de Imagem: A Ultrassonografia (USG) é o exame de escolha, capaz de identificar derrames ascíticos a partir de 100 ml.
Paracentese Diagnóstica
A paracentese é fundamental para determinar a etiologia da ascite e guiar o tratamento.
- Local de Punção: Preferencialmente na fossa ilíaca esquerda.
- Ponto de Punção: No terço médio lateral da linha que conecta o umbigo à crista ilíaca.
- Volume da Amostra: 20-30 ml para análise laboratorial.
- Paracentese Terapêutica: Em casos de desconforto respiratório ou grande volume, podem ser retirados litros de líquido.
- Exames Solicitados (Pacote Mínimo):
- Celularidade com diferencial: Para contagem de leucócitos e neutrófilos.
- Proteínas totais e Albumina: Essenciais para o cálculo do GASA.
- Glicose e LDH.
- Gram e Cultura: Para pesquisa de infecção.
- Exames Adicionais (conforme suspeita clínica):
- Pesquisa de células neoplásicas: Se o líquido ascítico for hemorrágico ou houver suspeita de carcinomatose peritoneal.
- ADA (Adenosina Deaminase): Se houver suspeita de tuberculose peritoneal.
🧪 Exame Essencial: A paracentese diagnóstica é indispensável para diferenciar as causas da ascite e direcionar o manejo.
Interpretação dos Resultados: Gradiente de Albumina Soro-Ascite (GASA)
O GASA é o principal critério para diferenciar ascite por hipertensão portal de ascite por doenças peritoneais.
- Cálculo: GASA = Albumina Soro - Albumina Ascite.
- Interpretação:
- GASA ≥ 1,1 g/dL: Indica ascite por hipertensão portal (alto gradiente, alta pressão).
- GASA < 1,1 g/dL: Sugere ascite por doença do peritônio (baixo gradiente).
| Causas de Ascite com GASA ≥ 1,1 g/dL (Hipertensão Portal) |
Causas de Ascite com GASA < 1,1 g/dL (Doença Peritoneal) |
| Cirrose |
Carcinomatose peritoneal |
| Hepatite Alcoólica |
Tuberculose peritoneal |
| Cirrose Cardíaca (Insuficiência Cardíaca) |
Ascite pancreática |
| Ascite Mista |
Obstrução ou infarto intestinal |
| Metástases hepáticas maciças |
Ascite biliar |
| Insuficiência hepática fulminante |
Síndrome nefrótica |
| Síndrome de Budd-Chiari |
Vazamento linfático pós-operatório |
| Trombose de veia porta |
Serosite em doenças inflamatórias |
| Mixedema |
|
| Síndrome de obstrução sinusoidal |
|
| Fígado esteatótico da gravidez |
|
Refinando os Conceitos: Diferenciação Adicional
Para diferenciar causas de ascite com GASA alto (ex: cirrose vs. Budd-Chiari) ou refinar o diagnóstico em GASA baixo, a dosagem de proteínas totais no líquido ascítico é crucial.
🧠 Conceito Importante: A avaliação das proteínas totais no líquido ascítico é fundamental para o diagnóstico diferencial, especialmente em ascites com GASA elevado.
| Tipo de Ascite |
GASA |
Proteínas Totais no Líquido Ascítico |
Outras Características |
| Cirrose |
≥ 1,1 g/dL (Alto) |
< 2,5 g/dL (Baixo) |
Causa mais comum. Bioquímica e citometria normais (exceto proteínas). |
| Neoplásica |
< 1,1 g/dL (Baixo) |
Alto |
2ª causa mais comum. Citologia oncótica positiva, LDH alto. |
| Cardíaca |
≥ 1,1 g/dL (Alto) |
> 2,5 g/dL (Alto) |
Citometria e bioquímica geralmente normais (exceto proteínas). |
| Tuberculosa |
< 1,1 g/dL (Baixo) |
Alto |
Predomínio de mononucleares (> 500 células/mm³), ADA alta. Laparoscopia com biópsia (granulomas) é padrão-ouro. |
| Síndrome Nefrótica |
< 1,1 g/dL (Baixo) |
< 2,5 g/dL (Baixo) |
Associada a proteinúria maciça e hipoalbuminemia sistêmica. |
Tratamento da Ascite
O manejo da ascite visa reduzir o volume de líquido e prevenir complicações.
- Restrição de Sódio: Fundamental, com ingestão limitada a 2g/dia (88 mEq/dia).
- Restrição Hídrica: Indicada apenas se houver hiponatremia significativa (sódio sérico < 125 mEq/L).
- Diuréticos: Se a restrição de sódio for insuficiente.
- Associação: Espironolactona (100-400 mg/dia) + Furosemida (40-160 mg/dia).
- Proporção: A associação é crucial, pois a espironolactona (antagonista da aldosterona) poupa potássio, enquanto a furosemida (diurético de alça) o espolia. Aumentos de dose devem manter a proporção (ex: 100mg espironolactona para 40mg furosemida).
- Ascite Refratária: Definida como falha na resposta ou recorrência precoce da ascite apesar do tratamento diurético otimizado.
- Opções de Manejo:
- Paracenteses Terapêuticas Seriadas: Alívio sintomático.
- TIPS (Shunt Portossistêmico Intra-Hepático Transjugular): Reduz a pressão portal e, consequentemente, a ascite.
- Transplante Hepático: Tratamento definitivo para a cirrose subjacente.
- Shunt Peritônio-Venoso: Raramente utilizado.
- Medidas Conservadoras Adicionais:
- Suspensão de betabloqueadores (se em uso) para melhorar a perfusão renal.
- Uso de Midodrina (vasoconstritor periférico) para aumentar a pressão arterial e melhorar a perfusão renal.
💡 Meta do Tratamento: A meta é uma perda de peso de 0,5 kg/dia, ou até 1 kg/dia se houver edema periférico associado.
Reposição de Albumina
A reposição de albumina é essencial em paracenteses de grande volume para prevenir disfunção circulatória pós-paracentese.
- Regra: Se forem retirados mais de 5 litros de líquido ascítico, deve-se repor 6-8 gramas de albumina para cada litro retirado.
🩸 High Yield Note: A reposição de albumina em paracenteses de grande volume é uma questão clássica de prova! Não se esqueça da proporção de 6-8g/L.
Peritonite Bacteriana Espontânea (PBE)
A Peritonite Bacteriana Espontânea (PBE) é uma complicação grave da cirrose hepática, caracterizada pela infecção do líquido ascítico sem uma fonte intra-abdominal evidente. É quase exclusiva de pacientes com ascite cirrótica.
Conceitos Iniciais
A PBE ocorre devido à translocação bacteriana do lúmen intestinal para o líquido ascítico. As bactérias mais frequentemente envolvidas são monobacterianas, como Escherichia coli e Klebsiella spp. Em casos de síndrome nefrótica, deve-se considerar o Pneumococo como agente etiológico.
A fisiopatologia envolve a deficiência na produção hepática de proteínas de defesa, como imunoglobulinas e opsoninas, o que favorece a proliferação bacteriana no líquido ascítico.
Quadro Clínico
Os sintomas da PBE podem ser variados e, por vezes, inespecíficos, o que exige alta suspeição clínica em pacientes cirróticos com ascite. Os sinais e sintomas mais comuns incluem:
- Febre: Um dos achados mais frequentes.
- Dor abdominal: Geralmente difusa.
- Encefalopatia hepática: Pode ser precipitada ou agravada pela infecção.
⚠️ Atenção: A PBE pode ser assintomática em até 30% dos casos, ressaltando a importância da paracentese diagnóstica em qualquer cirrótico com ascite e piora clínica inexplicada.
Diagnóstico
O diagnóstico da PBE é estabelecido principalmente pela paracentese diagnóstica com análise do líquido ascítico.
- Contagem de Polimorfonucleares (PMN): O critério diagnóstico essencial é a contagem de PMN > 250 células/mm³. Importante: A contagem deve ser de neutrófilos, e não de leucócitos totais.
- Cultura do líquido ascítico: O diagnóstico é confirmado com PMN > 250 células/mm³ e cultura positiva. No entanto, o tratamento empírico deve ser iniciado imediatamente após a paracentese diagnóstica, sem aguardar o resultado da cultura, devido à alta mortalidade associada à PBE não tratada.
🔎 Diagnóstico Rápido: PMN > 250 células/mm³ no líquido ascítico é suficiente para iniciar o tratamento da PBE.
Diagnóstico Diferencial
É fundamental diferenciar a PBE de outras condições que podem cursar com alterações no líquido ascítico:
- Ascite Neutrofílica (AN): Caracteriza-se por PMN > 250 células/mm³ com cultura negativa. A conduta é a mesma da PBE: iniciar tratamento antibiótico. A cultura negativa pode ser um falso-negativo ou indicar uma infecção em fase inicial.
- Bacterascite: Definida por PMN < 250 células/mm³ com cultura positiva.
- Com sintomas: Tratar com antibióticos.
- Sem sintomas: Pode-se optar por repuncionar o líquido ascítico em 48 horas para reavaliar a contagem de PMN. Se a contagem aumentar para > 250, trata-se como PBE.
Tratamento
O tratamento da PBE consiste na administração de cefalosporina de 3ª geração, com preferência pela Cefotaxima, por um período de 5 dias.
Profilaxias
A profilaxia é crucial para prevenir novos episódios de PBE e suas complicações.
Profilaxia Primária
Indicada para pacientes que nunca tiveram PBE, mas apresentam alto risco:
- Pós-sangramento por varizes esofágicas: O sangue no trato gastrointestinal é um excelente meio de cultura bacteriana. Administrar Ceftriaxone ou Norfloxacino por 7 dias.
- Proteínas no líquido ascítico < 1,5 g/dL: Pacientes cirróticos com baixa concentração de proteínas de defesa no líquido ascítico têm maior risco. Recomenda-se Norfloxacino 400 mg/dia para o resto da vida.
💡 Dica: Baixa proteína na ascite (<1,5 g/dL) significa menor defesa contra bactérias, justificando a profilaxia crônica.
Profilaxia Secundária
Indicada para pacientes que já tiveram um episódio de PBE, devido ao alto risco de recorrência (cerca de 70%).
- Após episódio de PBE: Administrar Norfloxacino 400 mg/dia para o resto da vida.
Profilaxia da Síndrome Hepatorrenal (SHR) durante PBE
Durante o tratamento da PBE, é fundamental realizar a profilaxia da Síndrome Hepatorrenal (SHR), uma complicação grave e potencialmente fatal.
- Albumina: Administrar 1,5 g/kg no 1º dia e 1 g/kg no 3º dia. A albumina ajuda a manter o volume intravascular e a perfusão renal, prevenindo a SHR.
Peritonite Bacteriana Secundária (PBS)
Diferente da PBE, a Peritonite Bacteriana Secundária (PBS) é causada por uma lesão de víscera intra-abdominal, como perfuração de apêndice, divertículo ou úlcera, resultando em peritonite generalizada.
Características e Diagnóstico
A PBS se distingue da PBE por apresentar:
- Polimicrobiana: Geralmente envolve múltiplos tipos de bactérias, em contraste com a PBE monobacteriana.
- Leucocitose com desvio à esquerda: Mais acentuada que na PBE.
- Achados no líquido ascítico que sugerem PBS (2 ou mais):
- Proteína > 1 g/dL: Indica uma resposta inflamatória mais intensa.
- Glicose < 50 mg/dL: Sugere alto consumo bacteriano de glicose.
- LDH elevada: Reflete maior dano tecidual e processo infeccioso mais intenso.
🚨 Alerta: A presença de múltiplos critérios no líquido ascítico (proteína > 1g/dL, glicose < 50 mg/dL, LDH elevada) aponta para uma peritonite bacteriana secundária, que exige abordagem diferente da PBE.
Conduta
A abordagem da PBS é mais agressiva e envolve:
- Exame de imagem: Essencial para identificar a fonte da perfuração (ex: tomografia computadorizada de abdome).
- Antibioticoterapia de amplo espectro: Cobrir gram-negativos e anaeróbios. Geralmente, Cefalosporina de 3ª geração associada a Metronidazol.
- Avaliação cirúrgica: Frequentemente necessária para correção da lesão subjacente (ex: apendicectomia, sigmoidectomia, drenagem de abscesso).
Comparativo - PBE vs. PBS e Diagnósticos Diferenciais
| Condição |
PMN |
Cultura |
Proteína |
LDH |
Glicose |
Conduta |
| PBE |
> 250 |
(+) Monobacteriana |
< 1 g/dL |
Normal/Baixa |
> 50 mg/dL |
Cefotaxima + Albumina |
| Ascite Neutrofílica |
> 250 |
(-) |
< 1 g/dL |
Normal/Baixa |
> 50 mg/dL |
Tratar como PBE |
| Bacterascite |
< 250 |
(+) Monobacteriana |
Variável |
Variável |
Variável |
Tratar se sintomas ou Reavaliar em 48h |
| PBS |
> 250 |
(+) Polimicrobiana |
> 1 g/dL |
Elevada |
< 50 mg/dL |
Cefotaxima + Metronidazol + Cirurgia |
Visão Completa das Profilaxias no Paciente Cirrótico
Um resumo das principais profilaxias em pacientes com cirrose e suas complicações:
Profilaxia de Hemorragia por Varizes Esofagogástricas
Primária (para quem nunca sangrou)
- Indicação: Varizes esofágicas de alto risco (tamanho > 5 mm, presença de cherry-red spots, ou Child-Pugh B/C).
- Opções: Betabloqueador não seletivo (ex: Propranolol, Nadolol) OU Ligadura Elástica Endoscópica (LEE).
Secundária (para quem já sangrou e está estável > 6 dias)
- Indicação: Após um episódio de sangramento por varizes.
- Conduta: Betabloqueador não seletivo E Ligadura Elástica Endoscópica (LEE) em sessões mensais até erradicação das varizes.
Profilaxia de PBE
Primária
- Após Hemorragia Digestiva: Ceftriaxone 1g IV ou Norfloxacino 400mg VO 12/12h por 7 dias.
- Ascite com Proteína < 1-1,5 g/dL: Norfloxacino 400mg/dia VO para o resto da vida.
Secundária
- Após episódio de PBE: Norfloxacino 400mg/dia VO para o resto da vida.
Profilaxia da Síndrome Hepatorrenal (SHR)
- Para quem: Pacientes com PBE.
- Conduta: Albumina 1,5 g/kg no 1º dia (em 6h) + 1 g/kg no 3º dia.
Encefalopatia Hepática
A encefalopatia hepática (EH) é uma síndrome neuropsiquiátrica complexa que ocorre em pacientes com insuficiência hepática e/ou hipertensão portal, caracterizada por um espectro de anormalidades neurológicas e psiquiátricas.
Fisiopatologia e Causas
O principal fator etiológico é o aumento dos níveis de amônia (NH₃) na circulação sistêmica, devido à falha do fígado em metabolizá-la. As causas subjacentes incluem insuficiência hepatocelular e hipertensão portal.
Quadro Clínico
Os sintomas variam de leves a graves e podem incluir:
- Flapping (Asterixis): Tremor característico das mãos.
- Letargia e sonolência: Alterações do nível de consciência.
- Alterações de humor e comportamento: Irritabilidade, euforia.
- Insônia e inversão do ciclo sono-vigília: Dormir muito durante o dia e ter dificuldade para dormir à noite.
🧠 Conceito Chave: Insônia noturna e sonolência diurna excessiva são sinais sugestivos de encefalopatia hepática em provas.
Diagnóstico
O diagnóstico da encefalopatia hepática é essencialmente clínico. Embora a dosagem de amônia sérica possa ser realizada, seus níveis são erráticos e variam muito ao longo do dia, não sendo um bom marcador isolado para o diagnóstico ou monitoramento.
Fatores Precipitantes
A EH pode ser precipitada ou agravada por diversas condições, sendo as mais comuns:
- Hemorragia gastrointestinal: A digestão de sangue no intestino aumenta a carga de nitrogênio.
- Constipação: Prolonga o tempo de contato das bactérias intestinais com o substrato proteico, aumentando a produção de amônia.
- PBE e outras infecções: Aumentam a produção de citocinas inflamatórias e a permeabilidade intestinal.
- Alcalose (metabólica ou respiratória): A alcalose, seja por hipocalemia ou uso de diuréticos, é um precipitante importante, pois favorece a difusão da amônia (NH₃) para o sistema nervoso central.
- Desidratação e distúrbios eletrolíticos.
Tratamento
O tratamento da EH visa corrigir os fatores precipitantes e reduzir a produção e absorção de amônia:
- Correção dos precipitantes: Tratar infecções, cessar sangramentos, corrigir distúrbios eletrolíticos.
- Dieta: Evitar restrição proteica severa, pois o paciente cirrótico já é desnutrido. Priorizar proteínas vegetais e laticínios, que são menos amoniogênicas.
- Lactulose: É a primeira linha de tratamento. Atua como laxativo, acelerando o trânsito intestinal e eliminando bactérias e substratos. Além disso, acidifica o pH do cólon, convertendo a amônia (NH₃) em íon amônio (NH₄⁺), que não é absorvível e é excretado nas fezes.
- Antibióticos: (Neomicina, Metronidazol, Rifaximina) Podem ser usados para reduzir a produção de amônia pelas bactérias intestinais. A Rifaximina é a mais utilizada atualmente devido à sua baixa absorção sistêmica.
- Transplante hepático: É o tratamento definitivo para a insuficiência hepática subjacente.
Síndrome Hepatorrenal (SHR)
A Síndrome Hepatorrenal (SHR) é uma complicação grave da cirrose avançada, caracterizada por uma disfunção renal progressiva na ausência de doença renal intrínseca, precipitada por uma falência hepática grave.
Conceitos e Fisiopatologia
A SHR é uma forma de injúria renal aguda (IRA) que ocorre em pacientes com doença hepática grave, como cirrose com ascite. A fisiopatologia central envolve uma vasodilatação periférica e esplâncnica intensa, mediada pela liberação de substâncias vasodilatadoras (como óxido nítrico) em resposta à presença de toxinas não depuradas na circulação. Essa vasodilatação leva a uma redução do volume arterial efetivo, ativando sistemas vasoconstritores endógenos (sistema renina-angiotensina-aldosterona e sistema nervoso simpático). Paradoxalmente, essa ativação resulta em vasoconstrição renal severa, comprometendo o fluxo sanguíneo para os rins, mesmo na ausência de hipovolemia real ou lesão renal estrutural.
🧠 Lembre-se: A SHR é uma IRA pré-renal que não melhora com volume, caracterizada por vasoconstrição renal funcional em um contexto de vasodilatação sistêmica.
Diagnóstico
O diagnóstico da SHR é de exclusão e baseia-se em critérios clínicos e laboratoriais. Historicamente, alguns critérios eram utilizados, mas foram atualizados em 2024 pelo International Club of Ascites (ICA) e Acute Dialysis Quality Initiative (ADQI).
Critérios Diagnósticos Antigos
- Creatinina sérica > 1,5 mg/dL.
- Sódio urinário baixo.
- Proteinúria < 500 mg/24h.
- Hematúria < 50 hemácias/campo.
- Ausência de outras causas de lesão renal.
- Ausência de melhora da creatinina com expansão volêmica.
Critérios Diagnósticos 2024 (ICA + ADQI)
Os critérios atuais são mais precisos e focam na lesão renal aguda (LRA) em pacientes cirróticos:
- Cirrose com ascite.
- Critérios de Lesão Renal Aguda (LRA) pela KDIGO:
- Aumento absoluto da creatinina sérica > 0,3 mg/dL em 48 horas.
- Aumento > 50% (1,5x) do valor basal da creatinina sérica em 7 dias.
- Redução do débito urinário < 0,5 mL/kg/hora por 6 horas (NOVO).
- Ausência de melhora da creatinina e/ou débito urinário:
- Após 24 horas de reposição volêmica adequada (NOVO).
- Importante: A administração sistemática de albumina por 48 horas como requisito diagnóstico para SHR não é mais contraindicada (NOVO).
- Ausência de forte evidência de outra causa primária de LRA (NOVO):
- Excluir choque séptico com necessidade de drogas vasoativas, lesão glomerular aguda, obstrução do trato urinário (urolitíase), ou lesão induzida por drogas nefrotóxicas (com melhora da função renal após suspensão).
- Atenção: Proteinúria não deve ser critério exclusivo para descartar SHR, pois pode coexistir com doença renal crônica.
A análise do sedimento urinário e biomarcadores pode auxiliar no diagnóstico diferencial:
- FENa < 0,2% e FEUr < 21%: Sugerem SHR (indica reabsorção renal de sódio e ureia em resposta à hipoperfusão).
- NGAL > 220 ng/mL: Sugere lesão tubular aguda.
- NGAL < 220 ng/mL: Ajuda a descartar lesão tubular aguda.
Classificação 2024
A classificação atual da SHR segue a temporalidade da KDIGO:
- SHR com Lesão Renal Aguda (LRA): Duração de até 7 dias.
- SHR com Doença Renal Aguda (DRA): Duração de até 90 dias.
- SHR com Doença Renal Crônica (DRC): Duração superior a 90 dias (TFG < 60 mL/min).
Tratamento
O tratamento da SHR visa restaurar a perfusão renal e é complexo:
- Evitar descompensação: Identificar e corrigir fatores precipitantes.
- Albumina: Essencial para expandir o volume intravascular e melhorar a perfusão renal.
- Terlipressina: Um análogo da vasopressina que induz vasoconstrição esplâncnica, redirecionando o fluxo sanguíneo para os rins.
- Transplante hepático: É o tratamento definitivo, pois corrige a doença hepática subjacente.
Classificação Antiga da SHR
Embora a classificação de 2024 seja a mais atual, a antiga ainda pode ser encontrada em algumas referências:
- Tipo 1: Progressão rápida (< 2 semanas), frequentemente precipitada por PBE, com creatinina sérica > 2,5 mg/dL. Pior prognóstico.
- Tipo 2: Progressão mais insidiosa, geralmente espontânea, com creatinina sérica entre 1,5 – 2,0 mg/dL. Melhor prognóstico que o Tipo 1.