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Hepatites Virais

As hepatites virais representam um grupo de doenças inflamatórias do fígado causadas por diferentes vírus, que podem levar a quadros agudos ou crônicos, com variadas manifestações clínicas e prognósticos.


Conceitos Iniciais

Classificação e Evolução Clínica Geral

A evolução de uma hepatite viral é primariamente determinada pela resposta imunológica do indivíduo, e não diretamente pela virulência do agente viral. Didaticamente, as hepatites virais podem ser classificadas quanto à sua duração e gravidade:

🧠 Lembre-se: O destino da infecção viral (cura, cronificação ou fulminância) é ditado pela resposta imune do hospedeiro.

Mecanismos da Evolução Clínica

A razão pela qual um indivíduo evolui para uma hepatite crônica ou fulminante está intrinsecamente ligada à sua resposta imune. Por exemplo, um recém-nascido (RN) infectado pelo vírus da hepatite B tem uma chance de cronificação de aproximadamente 95% devido à imaturidade de seu sistema imunológico, enquanto em adultos essa chance é de cerca de 5%. A forma fulminante, por outro lado, ocorre quando o sistema imunológico reage de forma excessiva e agressiva, destruindo não apenas o vírus, mas também uma grande quantidade de hepatócitos, levando à insuficiência hepática aguda grave. Nesses casos, o corpo, ao tentar conter o vírus, acaba por destruir o próprio fígado.

Fases da Hepatite Aguda

Após o contato com o vírus, segue-se um período de incubação, cuja duração varia conforme o tipo viral.

Vírus da Hepatite Principal Via de Transmissão Período de Incubação (média)
Hepatite A (HAV) Fecal-oral (raramente sexual/parenteral) 4 semanas
Hepatite E (HEV) Fecal-oral 5-6 semanas
Hepatite C (HCV) Parenteral (principalmente sangue e derivados) 7 semanas
Hepatite B (HBV) Parenteral (sexual, vertical, percutânea) 8-12 semanas
Hepatite D (HDV) Parenteral (coinfecção ou superinfecção com HBV) 8-12 semanas

A manifestação clínica surge quando o sistema imune começa a combater o vírus, agredindo o fígado. A evolução clínica típica de uma hepatite aguda é didaticamente dividida em três fases:

⚠️ Atenção: Todos os vírus das hepatites (A, B, C, D, E) podem, em casos raros, evoluir para a forma fulminante. No entanto, apenas os vírus da hepatite B e C são capazes de cronificar.

1. Fase Prodrômica (ou Pré-Ictérica)

2. Fase Ictérica

Esta fase nem sempre está presente, sendo mais comum em adultos do que em crianças. É o período de maior intensidade da lesão hepática e das manifestações clínicas:

3. Fase de Convalescença

Nesta fase, o paciente apresenta uma melhora progressiva tanto clínica quanto laboratorial. As enzimas hepáticas retornam gradualmente aos seus níveis normais, e os sintomas desaparecem, indicando a resolução da hepatite aguda na grande maioria dos casos.

Achados Laboratoriais

A avaliação laboratorial é crucial para o diagnóstico e acompanhamento das hepatites virais:

Diagnóstico

O diagnóstico definitivo das hepatites virais é realizado principalmente através da sorologia viral, que detecta anticorpos específicos e/ou antígenos virais, permitindo identificar o agente etiológico.


1. Hepatite A (HAV)

A hepatite A é uma infecção viral aguda do fígado, geralmente autolimitada e sem evolução para cronicidade.

Características Essenciais

Formas Clínicas

A apresentação clínica da hepatite A pode variar significativamente:

🔎 Dica de Prova: A forma colestática é uma apresentação atípica da Hepatite A que pode confundir o diagnóstico, pela elevação de FA/GGT e icterícia prolongada.

Tratamento

O tratamento da hepatite A é essencialmente de suporte. A doença é autolimitada e geralmente se resolve espontaneamente, sem necessidade de terapia antiviral específica.

Profilaxia

A prevenção da hepatite A é fundamental e envolve medidas de saneamento básico, higiene pessoal e vacinação.

Vacinação

Profilaxia Pré-Exposição (para viajantes a áreas endêmicas ou em calendário vacinal)

Profilaxia Pós-Exposição (até 2 semanas após a exposição)


2. Hepatite E (HEV)

A hepatite E é uma infecção viral que, embora rara no Brasil, é importante em regiões endêmicas e possui particularidades clínicas, especialmente em populações específicas.

Características e Particularidades

🚨 Alerta na Gestação: A Hepatite E é a hepatite viral com maior risco de fulminância em gestantes, atingindo cerca de 20% dos casos.

3. Hepatite B Aguda

A hepatite B aguda é uma infecção hepática causada pelo vírus da hepatite B (HBV), um DNA vírus, que pode variar de uma doença assintomática a uma condição grave e fulminante.

O Vírus e Seus Marcadores Sorológicos

O vírus da hepatite B (HBV) é um vírus de DNA, o que o diferencia da maioria dos outros vírus da hepatite (que são RNA vírus). Sua estrutura complexa e a presença de múltiplos antígenos são fundamentais para o diagnóstico e a compreensão da história natural da infecção.

🧬 Conceito Chave: O HBV é o único vírus da hepatite que possui DNA como material genético, o que confere características únicas à sua patogênese e história natural.

Transmissão

A transmissão do HBV ocorre principalmente por via sexual, vertical e percutânea, sendo crucial para a profilaxia e o controle da doença.

⚠️ Atenção: A transmissão vertical é um ponto de alta incidência em provas. Lembre-se da profilaxia combinada (vacina + imunoglobulina) para o RN e do tratamento materno com tenofovir no terceiro trimestre em casos de HBeAg positivo.

História Natural da Infecção por HBV

A evolução da infecção por HBV é complexa e varia significativamente com a idade de aquisição do vírus, influenciando o risco de cronificação e desenvolvimento de complicações graves.

🧠 Conceito Essencial: A hepatite B pode causar CHC mesmo na ausência de cirrose, um diferencial importante em relação a outras etiologias de CHC.
Evolução da Infecção por HBV Adultos Crianças Recém-Nascidos
Chance de Cronificação 1-5% 20-30% 90-95%
Progressão da Doença (em casos crônicos) Taxa de Ocorrência
Hepatite B Crônica para Cirrose 20-50%
Cirrose para Carcinoma Hepatocelular (CHC) 10%
Hepatite B Aguda Fulminante 1%

Diagnóstico: Interpretação dos Marcadores Sorológicos

A interpretação correta dos marcadores sorológicos é a chave para o diagnóstico da hepatite B, diferenciando infecção aguda, crônica, cura ou imunidade.

Entendendo a Dinâmica Sorológica

Ao entrar no organismo, o primeiro marcador detectável é o HBsAg. Inicialmente, não há sintomas, pois o vírus está replicando. Com a resposta imune, surge o Anti-HBc IgM, que coincide com o início dos sintomas (como icterícia em 30% dos casos). Com o tempo, o Anti-HBc IgM é substituído pelo Anti-HBc IgG, e o Anti-HBe aparece, indicando que a replicação viral está sendo contida. A cura é confirmada pelo surgimento do Anti-HBs. Pode haver um período de "janela imunológica" onde o HBsAg já negativou, mas o Anti-HBs ainda não positivou, sendo o Anti-HBc IgM o único marcador de infecção aguda nesse momento.

Resumo dos Perfis Sorológicos

Marcador Aguda Crônica Cura Vacina
HBsAg + + - -
Anti-HBc IgM + - - -
Anti-HBc IgG +/- + + -
Anti-HBs - - + +

Exercitando a Interpretação Sorológica

Para facilitar a compreensão, podemos seguir um algoritmo de três passos:

  1. Primeiro Passo: Avaliar HBsAg
  2. Segundo Passo: Avaliar Anti-HBc Total (IgM e IgG)
  3. Terceiro Passo: Avaliar Anti-HBs
🔎 Perfis Sorológicos Comuns:
🧪 Dica de Exame: A replicação viral também pode ser identificada pelo PCR do DNA viral. Uma carga viral de DNA-HBV > 20.000 cópias/mL geralmente indica fase replicativa. A "fase inicial" é sinônimo de "fase replicativa", e a "fase tardia" de "fase não replicativa".

Variantes Virais (Mutantes)

Existem mutações no HBV que podem alterar a apresentação clínica e sorológica, dificultando o diagnóstico e aumentando o risco de complicações.

🚨 Alerta Clínico: O mutante pré-core é um "paradoxo" sorológico. HBeAg negativo com alta carga viral (DNA-HBV elevado) deve levantar a suspeita, pois indica replicação ativa e maior risco de desfechos graves.

Manifestações Extra-Hepáticas

A infecção por HBV pode desencadear diversas manifestações extra-hepáticas, resultantes de complexos imunes ou vasculites.

Profilaxia

A profilaxia da hepatite B é fundamental e inclui estratégias pré e pós-exposição.

Profilaxia Pré-Exposição

Profilaxia Pós-Exposição

A profilaxia pós-exposição combina vacina (se o indivíduo não for vacinado ou não tiver imunidade) e imunoglobulina anti-HBV (HBIG), administradas em sítios diferentes, idealmente nas primeiras 12 horas após a exposição, podendo ser eficaz até 7 dias.

Indicações para Profilaxia Pós-Exposição:

Tratamento

O tratamento da hepatite B aguda é predominantemente sintomático, com indicação de antivirais em situações específicas.


4. Hepatite B Crônica

A Hepatite B Crônica (HBC) é definida pela persistência do antígeno de superfície do vírus da Hepatite B (HBsAg) por um período superior a seis meses. A taxa de cronificação varia significativamente com a idade de aquisição da infecção: em adultos, situa-se entre 1-5%; em crianças, entre 20-30%; e em recém-nascidos, pode atingir até 90% dos casos.

Definição

História Natural

A história natural da infecção crônica pelo vírus da Hepatite B (VHB) é dinâmica e complexa, caracterizada por diferentes fases de interação entre o vírus e o sistema imunológico do hospedeiro. Tradicionalmente, essas fases eram denominadas imunotolerância, imunorreativa, portador inativo e reativação, embora essas nomenclaturas estejam caindo em desuso em prol de uma abordagem mais baseada na replicação viral e inflamação hepática.

O VHB é um vírus DNA que forma o DNA circular covalentemente fechado (cccDNA) no núcleo dos hepatócitos, o que permite a latência virológica. Isso significa que não há cura microbiológica, apenas a cura funcional (soroconversão do HBsAg). A doença pode ser reativada, especialmente em pacientes imunossuprimidos, com risco elevado se a imunossupressão for induzida por agentes anti-CD20, como o Rituximabe.

🧠 Conceito Chave: O VHB forma o cccDNA, garantindo a persistência viral e a possibilidade de reativação, mesmo após a "cura funcional". A reativação é um risco significativo em pacientes imunossuprimidos, especialmente com o uso de Rituximabe.

Tratamento

O tratamento da Hepatite B Crônica visa suprimir a replicação viral, reduzir a inflamação hepática e prevenir a progressão para cirrose e carcinoma hepatocelular. As indicações e esquemas terapêuticos são baseados em diretrizes do Ministério da Saúde (MS).

Indicações de Tratamento

O tratamento é indicado quando há evidência de replicação viral ativa e dano hepático:

Outras Indicações

Esquemas Terapêuticos

O objetivo principal do tratamento é a redução do HBV-DNA após 6 meses, idealmente com a soroconversão do HBsAg (negativação).

⚠️ Atenção: Terapia Preemptiva com Rituximabe! Se um paciente com anti-HBc positivo (independentemente do anti-HBs) for usar Rituximabe, é MANDATÓRIO iniciar terapia preemptiva com Entecavir ou Tenofovir por 18 meses após o término do Rituximabe para prevenir a reativação do VHB.
HBeAg PCR-HBV ALT Nome Antigo (Estágio) Tratar?
Reagente Muito Alto Normal Imuno-Tolerante Não
Reagente Alto Elevada Imuno-Reativo Sim
Não-reagente Baixo Normal Portador Inativo Não
Não-reagente Alto Elevada Reativação Sim

5. Hepatite D

A Hepatite D é uma infecção viral hepática causada pelo vírus da Hepatite Delta (VHD), um vírus RNA que é considerado defectivo, pois sua replicação depende da co-infecção com o vírus da Hepatite B (VHB).

Características Principais

Coinfecção

A coinfecção ocorre quando há a aquisição simultânea dos vírus da Hepatite B e D (agudas). Embora não aumente o risco de cronificação da Hepatite B, a coinfecção eleva significativamente o risco de desenvolvimento de hepatite fulminante.

Superinfecção

A superinfecção acontece quando um indivíduo já portador de Hepatite B crônica adquire o vírus da Hepatite D. Este cenário é mais grave, com maior risco de evolução para formas fulminantes e cirrose.

Interpretação Sorológica

Forma HBsAg Anti-HBc Total Anti-HBc IgM Anti-HDV Total Anti-HBs
Coinfecção + + + + -
Superinfecção + + - + -
Cura (VHB) - + - + +

6. Hepatite C

A Hepatite C é uma doença infecciosa do fígado causada pelo vírus da Hepatite C (HCV), um vírus RNA que se destaca pela alta taxa de cronificação e pela capacidade de causar doença hepática grave, incluindo cirrose e carcinoma hepatocelular.

Definição

História Natural e Conceitos Importantes

O HCV é um vírus RNA altamente mutante, com seis genótipos principais e 76 subtipos. No Brasil, o genótipo 1 é o mais frequente e também o mais associado a formas mais graves da doença.

📈 Progressão da Hepatite C:

Transmissão

A transmissão do HCV ocorre principalmente por via parenteral, mas outras vias também são relevantes:

Manifestações Extra-Hepáticas

A infecção crônica pelo HCV pode estar associada a diversas manifestações sistêmicas:

Diagnóstico

O diagnóstico da Hepatite C envolve uma abordagem em duas etapas, devido às características do teste de triagem.

Primeiro Passo: Anti-HCV

⚠️ Atenção: Anti-HCV não confirma infecção ativa! Portanto, um anti-HCV positivo pode indicar:
  1. Hepatite C em atividade (aguda ou crônica).
  2. Cicatriz sorológica (cura espontânea ou pós-tratamento).
  3. Falso-positivo (ex: alcoolismo, doença autoimune).

Segundo Passo: HCV-RNA (Carga Viral)

🔎 Fluxograma Diagnóstico:

Anti-HCV Negativo ➡️ Exclui Hepatite C.

Anti-HCV Positivo ➡️ Solicitar HCV-RNA (PCR Quantitativo).

HCV-RNA Negativo ➡️ Cicatriz sorológica ou falso-positivo.

HCV-RNA Positivo ➡️ Infecção por HCV ativa (aguda ou crônica).

Conduta Terapêutica

Princípios do Tratamento

Atualmente, o tratamento é recomendado para todos os pacientes com Hepatite C crônica, independentemente do grau de fibrose ou da presença de sintomas. O objetivo principal é alcançar a Resposta Virológica Sustentada (RVS), definida como HCV-RNA negativo 12 a 24 semanas após o término do tratamento.

Esquemas Terapêuticos

Os esquemas atuais são baseados em antivirais de ação direta (DAAs), que oferecem altas taxas de cura e são bem tolerados.

💡 Dica Importante: Mesmo após a cura (RVS), o paciente pode se reinfectar. O anti-HCV positivo não confere imunidade permanente contra novas infecções.

Conceitos High Yield Notes

Característica Hepatite B Hepatite C
Cronificação RN > Criança > Adulto (1-90%) 80-90% dos casos
Manifestações Extra-Hepáticas Poliarterite Nodosa (PAN), Glomerulonefrite Membranosa, Síndrome de Gianotti-Crosti Crioglobulinemia Mista, Glomerulonefrite Mesangiocapilar
Tratamento Para alguns (critérios específicos), com Interferon, Tenofovir ou Entecavir Para todos, com Sofosbuvir + Ledipasvir/Velpatasvir ou Glecaprevir/Pibrentasvir

Pontos Chave para Memorização

Interpretação da Hiperbilirrubinemia