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Introdução à Hepatologia


Vascularização Hepática

A vascularização hepática é singular, caracterizada por um duplo suprimento sanguíneo, predominantemente venoso. O fígado recebe sangue de dois grandes sistemas venosos: o sistema cava e o sistema porta.

🧠 Conceito Chave: Aproximadamente 70% do fluxo sanguíneo hepático total é venoso, proveniente da veia porta, enquanto os 30% restantes são de origem arterial, pela artéria hepática. Curiosamente, a maior parte do oxigênio para os hepatócitos também é fornecida pelo fluxo venoso portal.

Sistema Porta Hepático

A veia porta é formada pela confluência de duas grandes veias: a veia mesentérica superior e a veia esplênica. A veia mesentérica inferior, por sua vez, drena para a veia esplênica antes de esta se unir à mesentérica superior. Outras veias importantes que contribuem para o sistema porta incluem a veia gástrica esquerda (também conhecida como veia coronária), que drena a pequena curvatura do estômago, e a veia umbilical, que se encontra obliterada no adulto.

O sangue arterial, proveniente da artéria hepática, embora represente uma menor proporção do fluxo total, é crucial para a nutrição das estruturas biliares e do tecido conjuntivo. No entanto, a importância do leito arterial é menor no contexto do fluxo total, tanto que o clampeamento da artéria hepática pode ser tolerado sem grandes repercussões em algumas situações clínicas.

💡 Lembre-se: O sistema porta é composto pelas veias esplênica, mesentérica superior, mesentérica inferior, gástrica esquerda e umbilical. Todo o sangue proveniente do trato gastrointestinal (intestino grosso e delgado) e do baço é direcionado ao fígado pela veia porta antes de alcançar a circulação sistêmica.

Primeira Passagem Hepática

Este fluxo direcionado ao fígado é conhecido como primeira passagem hepática. Ele é fundamental, pois permite que o fígado atue como um órgão protetor, metabolizando e detoxificando nutrientes, bactérias e toxinas absorvidas do intestino antes que estas atinjam a circulação sistêmica. Essa função de "filtro" é uma das mais importantes do fígado.


O Lóbulo Hepático e as Funções do Fígado

A unidade funcional do fígado é o lóbulo hepático, uma estrutura poligonal microscopicamente organizada. No centro de cada lóbulo, encontra-se uma veia centro-lobular. Nos vértices desses polígonos, localizam-se os espaços portais (ou tríades portais).

🧠 Conceito: Cada espaço portal é composto por um ramo terminal da veia porta, um ramo terminal da artéria hepática e um ducto biliar.

O sangue, uma mistura de 70% venoso (da veia porta) e 30% arterial (da artéria hepática), chega aos hepatócitos através dos ramos terminais nos espaços portais. Ele flui pelos sinusoides hepáticos, que são capilares fenestrados que "banham" os hepatócitos, permitindo a troca de substâncias. Após as funções metabólicas dos hepatócitos, o sangue é coletado pelas veias centro-lobulares.

As veias centro-lobulares se unem para formar veias de maior calibre, que eventualmente confluem nas veias hepáticas direita e esquerda. Estas, por sua vez, drenam diretamente para a veia cava inferior, retornando o sangue à circulação sistêmica.

Além dos hepatócitos, o fígado abriga células de defesa especializadas: as células de Kupffer. Estas são macrófagos fixos, residentes no fígado, que fagocitam agentes estranhos e detritos, contribuindo para a depuração sanguínea.

Produção e Drenagem da Bile

Os hepatócitos também são responsáveis pela produção de bile. A bile é secretada em pequenos canais, os canalículos biliares, que se formam entre os "muros" de hepatócitos. Esses canalículos drenam a bile para ductos biliares de calibre crescente, que se unem para formar os ductos biliares esquerdo e direito. Estes, por fim, confluem para formar o ducto hepático comum, que se une ao ducto cístico (da vesícula biliar) para formar o ducto colédoco.

Funções Essenciais do Fígado

O fígado desempenha um papel central em diversas funções vitais:

1. Depuração

A falha na conversão de amônia em ureia é uma das principais causas da encefalopatia hepática em pacientes com doença hepática avançada.

2. Síntese

💊 Implicações Clínicas: A redução da síntese hepática pode se manifestar clinicamente como edema (hipoalbuminemia), sangramentos (coagulopatia) e hipoglicemia.

Metabolismo da Bilirrubina

O metabolismo da bilirrubina é um processo complexo que envolve a formação, transporte, conjugação e excreção da bilirrubina, sendo crucial para a compreensão da icterícia.

1. Formação e Transporte

2. Metabolismo Hepático

🧬 Genética e Enzimas: A enzima glicuronil transferase é fundamental para a conjugação da bilirrubina. Deficiências ou disfunções nesta enzima estão associadas a síndromes de hiperbilirrubinemia indireta. A etapa de excreção da BD é a mais sensível à lesão hepática.

3. Fase Intestinal


Bioquímica Hepática: Abordagem da Icterícia

A icterícia, coloração amarelada da pele e mucosas devido ao acúmulo de bilirrubina, é um sinal clínico importante que exige investigação para determinar se é às custas de bilirrubina indireta (não conjugada) ou direta (conjugada).

Icterícia por Aumento da Bilirrubina Indireta (BI)

A elevação predominante da bilirrubina indireta geralmente indica um problema na fase pré-hepática ou na captação/conjugação hepática da bilirrubina.

Causas Principais

🔎 Diagnóstico Diferencial: Em casos de hiperbilirrubinemia indireta, a presença de anemia e outros marcadores de hemólise (LDH, reticulócitos, haptoglobina) é crucial para diferenciar da Síndrome de Gilbert ou Crigler-Najjar, onde a anemia está ausente.

Icterícia por Aumento da Bilirrubina Direta (BD)

A elevação predominante da bilirrubina direta sugere um problema na excreção hepática da bilirrubina ou na drenagem biliar.

Manifestações Clínicas Associadas

Causas Principais

As causas de hiperbilirrubinemia direta podem ser divididas em síndromes hepatocelulares (lesão dos hepatócitos) e síndromes colestáticas (obstrução do fluxo biliar).

1. Hepatites (Síndrome Hepatocelular)

Caracterizadas por lesão dos hepatócitos, levando à liberação de enzimas hepáticas.

2. Colestase (Síndrome Colestática)

Caracterizada por obstrução ou redução do fluxo biliar, seja intra ou extra-hepática.

Colestase Extra-hepática (com dilatação biliar)

Causada por obstrução mecânica das vias biliares fora do fígado.

Colestase Intra-hepática (sem dilatação biliar)

Causada por disfunção dos hepatócitos ou dos pequenos ductos biliares dentro do fígado.

⚠️ Atenção: A Colangite Esclerosante Primária (CEP) é uma doença que pode causar colestase tanto intra-hepática quanto extra-hepática, sendo importante considerá-la em ambos os cenários.
3. Distúrbios Hereditários do Metabolismo da Bilirrubina

Síndromes raras que afetam o transporte ou excreção da bilirrubina conjugada.

🚨 High Yield Note: Ao abordar um paciente com icterícia, sempre considere as quatro possibilidades principais:
  1. Lesão dos hepatócitos (síndrome hepatocelular)
  2. Obstrução biliar (síndrome colestática)
  3. Hemólise
  4. Distúrbio do metabolismo da bilirrubina
Tipo de Icterícia Causas Comuns Achados Laboratoriais Chave Manifestações Clínicas
Hiperbilirrubinemia Indireta Hemólise, Síndrome de Gilbert, Síndrome de Crigler-Najjar ↑BI, TGO/TGP normais ou levemente alterados. Hemólise: anemia, ↑LDH, ↓Haptoglobina, ↑Reticulócitos. Geralmente sem colúria ou prurido. Hemólise: palidez, esplenomegalia.
Hiperbilirrubinemia Direta (Hepatocelular) Hepatites (virais, medicamentosas, alcoólicas, autoimunes) ↑BD, ↑↑TGO/TGP (>10x), FA/GGT levemente aumentadas. Colúria, fadiga, náuseas, vômitos. Prurido menos comum.
Hiperbilirrubinemia Direta (Colestática) Coledocolitíase, malignidades, CBP, CEP, medicamentos ↑BD, ↑↑FA/GGT (>3x), 5'-nucleotidase ↑, TGO/TGP levemente aumentadas. Colúria, acolia fecal, prurido intenso, dor abdominal (se obstrutiva).
Hiperbilirrubinemia Direta (Hereditária) Síndrome de Dubin-Johnson, Síndrome de Rotor ↑BD, TGO/TGP, FA/GGT normais. Geralmente assintomática, sem prurido ou colúria significativa.