Abscesso Hepático Piogênico
Conceitos Iniciais
O abscesso hepático piogênico (AHP) é uma coleção de pus no parênquima hepático, resultante de uma infecção bacteriana. É uma condição grave que exige diagnóstico e tratamento precoces.
- A maioria dos abscessos (aproximadamente 75%) acomete o lobo hepático direito, seguido pelo lobo esquerdo (20%) e o lobo caudado (5%).
- Cerca de metade dos casos apresenta abscessos únicos, enquanto a outra metade pode ter múltiplos focos.
Agentes Etiológicos
A etiologia do AHP é frequentemente polimicrobiana, refletindo as diversas vias de infecção. Os principais agentes incluem:
- Polimicrobiana: Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae são os mais comuns.
- Via Hematogênica: Staphylococcus aureus é o agente mais frequente quando isolado.
- Via Biliar: Em infecções de origem biliar, sempre considerar E. coli e Enterococcus.
Vias de Infecção e Causas
As bactérias podem atingir o fígado por diversas rotas, sendo a via biliar a mais comum. As principais causas e mecanismos de disseminação incluem:
- Vias Biliares: Infecções ascendentes, como colangite, colecistite, coledocolitíase, estenoses biliares ou neoplasias obstrutivas. Esta é a principal via de infecção.
- Veia Porta: Disseminação de infecções intra-abdominais (ex: diverticulite, apendicite, doença de Crohn, câncer de cólon não metastático) ou bacteremia portal.
- Artéria Hepática: Bacteremia sistêmica, onde o fígado atua como um filtro.
- Extensão Direta: Propagação de processos infecciosos adjacentes, como abscessos subfrênicos ou perinéfricos.
- Trauma: Lesões hepáticas que podem introduzir bactérias ou criar um ambiente propício para infecção.
- Criptogênica: Casos em que a fonte da infecção não é identificada.
🧠 Lembre-se: A infecção na via biliar é a principal causa de abscesso hepático piogênico!
Manifestações Clínicas
O quadro clínico do abscesso hepático piogênico pode ser inespecífico, o que dificulta o diagnóstico precoce. A apresentação clássica, embora rara, inclui febre, dor em hipocôndrio direito e icterícia.
- Febre é o sintoma mais comum e frequentemente insidiosa, sendo uma causa importante de Febre de Origem Indeterminada (FOI).
- Dor em hipocôndrio direito é mais frequente que a icterícia.
- Icterícia pode estar presente, mas ocorre em uma minoria dos casos.
- A tríade de Charcot (febre, dor em hipocôndrio direito e icterícia) é o quadro clássico, mas ocorre em apenas 10% dos pacientes.
- Outros achados podem incluir hepatomegalia, ascite e esplenomegalia.
⚠️ Atenção: A tríade de Charcot é clássica, mas não é a apresentação mais comum do abscesso hepático piogênico. Febre e dor abdominal são os sintomas mais consistentes.
Exames Complementares e Diagnóstico
O diagnóstico do abscesso hepático piogênico baseia-se na combinação de achados clínicos, laboratoriais e de imagem. A punção aspirativa para cultura é crucial para a identificação do agente etiológico.
Exames Laboratoriais
- Hemograma: Leucocitose com desvio à esquerda, anemia normocítica normocrômica.
- Marcadores Inflamatórios: Aumento da velocidade de hemossedimentação (VHS) e da proteína C reativa (PCR).
- Função Hepática: Elevação das transaminases (AST/ALT) e da fosfatase alcalina (FA), sendo esta última um achado mais específico.
- Outros: Hipoalbuminemia pode ser observada em cerca de um terço dos pacientes.
Métodos de Imagem
A imagem é fundamental para a localização e caracterização do abscesso.
- Ressonância Magnética (RNM): Considerada o método de imagem mais sensível para o diagnóstico.
- Tomografia Computadorizada (TC) com contraste: Excelente para identificar e caracterizar os abscessos, sendo amplamente utilizada.
- Ultrassonografia (USG): Método inicial e menos invasivo, útil para triagem e acompanhamento.
- Radiografia de Tórax: Pode revelar elevação da hemicúpula diafragmática direita ou derrame pleural/atelectasia no lobo pulmonar inferior ipsilateral, achados inespecíficos, mas que podem sugerir um processo inflamatório subdiafragmático.
🔎 Diagnóstico: O diagnóstico definitivo é feito pela clínica associada à imagem. A punção aspirativa para cultura é essencial para guiar o tratamento antimicrobiano.
Diagnóstico Diferencial: Abscesso Amebiano vs. Piogênico
É crucial diferenciar o abscesso hepático piogênico do abscesso hepático amebiano, pois o tratamento é distinto. A tabela abaixo resume as principais diferenças:
| Fator Analisado |
Abscesso Amebiano |
Abscesso Piogênico |
| Idade |
20-40 anos |
> 50 anos |
| Homem x Mulher |
> 10:1 (predomínio masculino) |
1-1,5:1 (equilibrado) |
| Único x Múltiplo |
Único (80%) |
Único (50%) |
| Localização |
Lobo direito |
Lobo direito |
| Epidemiologia (Ex: Viagem) |
Sim (áreas endêmicas) |
Não |
| Diabetes Mellitus |
Incomum (~2%) |
Comum (~27%) |
| Icterícia |
Raro |
Pode ocorrer (20%) |
| Aumento de Bilirrubinas |
Incomum |
Comum |
| Evolução para Bacteremia/Sepse |
Raro |
Mais comum |
| Hemocultura Positiva |
Não |
Comum |
| Marcador Sorológico para Amebíase |
Sim (sorologia positiva) |
Não |
Tratamento
O tratamento do abscesso hepático piogênico envolve uma combinação de drenagem da coleção e antibioticoterapia sistêmica.
Drenagem
A drenagem é um pilar fundamental do tratamento e pode ser realizada por diferentes métodos:
- Punção com Agulha: Pode ser utilizada com sucesso, especialmente para abscessos menores que 5 cm. No entanto, pode exigir múltiplas punções para resolução completa.
- Drenagem por Cateter: Indicada para abscessos maiores que 5 cm. É um processo contínuo, e o cateter deve ser removido quando a drenagem se torna mínima, geralmente em até 7 dias.
Antibioticoterapia
A escolha do antibiótico deve cobrir um amplo espectro de bactérias, incluindo estreptococos, gram-negativos entéricos e anaeróbios, até que a cultura do abscesso guie a terapia específica.
- Regimes Comuns:
- Betalactâmicos com inibidor de betalactamase (ex: ampicilina-sulbactam, piperacilina-tazobactam, ticarcilina-clavulanato).
- Carbapenêmicos (ex: imipenem, meropenem).
- Cefalosporina de 3ª geração (ex: ceftriaxona) associada a metronidazol.
- Ciprofloxacino associado a metronidazol.
- Duração: O tratamento geralmente se estende por 4 a 6 semanas, com as primeiras semanas administradas por via intravenosa.
💊 Tratamento: A antibioticoterapia deve ser prolongada (4-6 semanas) e cobrir um amplo espectro, incluindo anaeróbios.
Abordagem Cirúrgica
A cirurgia é reservada para situações específicas, quando as abordagens menos invasivas falham ou em casos de complicações.
- Falha Terapêutica: Quando a drenagem percutânea e a antibioticoterapia não resultam em melhora clínica após 4-7 dias.
- Complicações: Hemoperitônio, extravasamento de pus para a cavidade abdominal após drenagem, ou abscessos que não são acessíveis percutaneamente.
- Fatores Preditivos de Necessidade Cirúrgica: Múltiplos abscessos, conteúdo muito viscoso (que pode obstruir o cateter de drenagem).
Hepatectomia
A ressecção hepática é uma medida extrema e é restrita a cenários muito específicos:
- Destruição extensa do parênquima hepático.
- Presença de hepatolitíase (cálculos intra-hepáticos).
- Estenose biliar intra-hepática.
- Quando a origem do abscesso é uma neoplasia hepática infectada.
NÃO SE FAZ DRENAGEM DE ABSCESSO HEPÁTICO AMEBIANO! O tratamento do abscesso amebiano é primariamente medicamentoso.