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Derrame Pleural e Abscesso Pulmonar


Derrame Pleural

O derrame pleural é definido como o acúmulo anormal de líquido no espaço pleural, que é o espaço virtual entre as pleuras visceral e parietal. Fisiologicamente, este espaço contém cerca de 5 a 15 ml de líquido, essencial para o deslizamento das pleuras durante os movimentos respiratórios. A manifestação clínica varia desde a ausência de sintomas em derrames de pequeno volume até a insuficiência respiratória grave em casos mais volumosos.

🧠 Conceito Chave: O derrame pleural é um sinal de doença subjacente, não uma doença em si. A quantidade de líquido normal é mínima, e qualquer excesso é patológico.

Exame Físico

Os achados no exame físico são cruciais para a suspeita diagnóstica de derrame pleural e incluem:

💡 Dica de Prova: Lembre-se que o sinal de Lemos-Torres (abaulamento expiratório) é um achado distintivo do derrame pleural, enquanto a atelectasia cursa com retração intercostal.

Diagnóstico Diferencial

É fundamental diferenciar o derrame pleural de outras condições pulmonares que podem apresentar sintomas e sinais semelhantes. A tabela abaixo resume os principais pontos de distinção:

Condição Expansibilidade FTV Percussão Sinal Característico
Derrame Pleural Reduzida Reduzido/Abolido Maciço/Submaciço Abaulamento intercostal (Lemos-Torres)
Atelectasia Reduzida Reduzido/Abolido Maciço Retração intercostal
Consolidação Normal/Reduzida Aumentado Maciço Egofonia, broncofonia
Pneumotórax Reduzida Reduzido/Abolido Timpânico/Hiperressonante Ausência de MV

Achados Característicos na Radiografia

A radiografia de tórax é o exame inicial para a detecção do derrame pleural. Os achados típicos incluem:

Em pacientes internados, frequentemente submetidos a radiografias em decúbito dorsal, derrames pleurais pequenos podem ser mascarados, pois o líquido se distribui nas regiões posteriores, causando uma opacificação difusa. Nesses casos, a incidência de Laurell (decúbito lateral com raios horizontais) é valiosa, permitindo a detecção de derrames a partir de 50 ml. Se a coluna de líquido observada nessa incidência for maior que 1 cm, a toracocentese para análise do líquido pode ser realizada com segurança.

🔎 Diagnóstico por Imagem: A incidência de Laurell é fundamental para identificar derrames pleurais em pacientes acamados, e a medida de >1 cm de líquido nessa projeção indica que o derrame é puncionável.

Ultrassonografia Pulmonar

A ultrassonografia (USG) pulmonar é uma ferramenta cada vez mais utilizada à beira do leito para o diagnóstico e acompanhamento do derrame pleural, oferecendo alta sensibilidade e especificidade. Dois sinais característicos são:

🧪 Exame Complementar: A USG pulmonar é uma excelente alternativa para a detecção de derrames pleurais, especialmente os pequenos, e para guiar procedimentos como a toracocentese, minimizando riscos.

Etiologia

A etiologia do derrame pleural é classicamente dividida em transudatos e exsudatos, com base na composição do líquido pleural, que reflete o mecanismo fisiopatológico subjacente. A diferenciação é feita principalmente pelos Critérios de Light, após a realização da toracocentese.

Transudato

Os transudatos resultam de um desequilíbrio nas pressões hidrostática e oncótica, sem inflamação primária da pleura. O líquido é pobre em proteínas e células.

Exsudato

Os exsudatos são causados por processos inflamatórios ou neoplásicos da pleura, resultando em aumento da permeabilidade capilar e acúmulo de líquido rico em proteínas e células.

⚠️ Atenção: Algumas condições (marcadas com asterisco no texto original, como Mixedema, Obstrução de Veia Cava Superior, Câncer, TEP, Sarcoidose, Quilotórax) podem, em situações específicas, apresentar características de transudato ou exsudato, dependendo do mecanismo predominante.

Critérios de Light

Para diferenciar transudato de exsudato, a toracocentese é essencial, e o líquido pleural é analisado com base nos Critérios de Light. Um derrame é classificado como exsudato se pelo menos um dos seguintes critérios for preenchido; caso contrário, é um transudato:

Critério Transudato Exsudato
Relação Proteína Pleural/Sérica ≤ 0,5 > 0,5
Relação DHL Pleural/Sérico ≤ 0,6 > 0,6
DHL Pleural > 2/3 do Limite Superior Sérico Não Sim

Outros achados laboratoriais que sugerem um derrame pleural exsudativo incluem:

Derrame Parapneumônico

O derrame parapneumônico é aquele que se desenvolve no contexto de uma pneumonia. Ele surge devido à inflamação da pleura adjacente ao parênquima pulmonar infectado, sendo inicialmente um líquido inflamatório estéril. No entanto, o germe causador da pneumonia pode migrar para o espaço pleural, contaminando o líquido e levando a um derrame parapneumônico complicado ou empiema.

Classifica-se em:

A fisiopatologia do derrame parapneumônico complicado envolve uma "guerra imune" no espaço pleural. O consumo de energia pelas células inflamatórias e bactérias leva à queda da glicose. A produção de ácido lático e outros metabólitos ácidos reduz o pH. A morte celular e bacteriana libera enzimas intracelulares, elevando os níveis de DHL.

🚨 Emergência: Um derrame parapneumônico complicado ou empiema exige intervenção imediata, pois pode evoluir para fibrose pleural e encarceramento pulmonar.

Conduta e Abordagem

A abordagem do derrame pleural depende da sua etiologia e das características do líquido.

Toracocentese

Tratamento da Doença de Base

O tratamento da causa subjacente é fundamental. Se o derrame for recorrente ou não responder ao tratamento da doença de base (comum em neoplasias), pode-se considerar a pleurodese, um procedimento que visa eliminar o espaço pleural, promovendo a adesão das pleuras visceral e parietal.

Derrame Parapneumônico

A conduta no derrame parapneumônico varia conforme sua classificação e fase:

Fase Características Conduta
1. Aguda/Exsudativa (1ª semana) Líquido claro, sem septações. 💊 Antibioticoterapia + Drenagem em selo d'água (dreno torácico fechado).
2. Subaguda/Fibrinopurulenta (2ª semana) Líquido purulento, com septações e fibrina. 💊 Antibioticoterapia + Fibrinolíticos (TPA) e/ou Mucolíticos (DNAse) pelo dreno para quebrar septações, ou VATS (Videotoracoscopia) com pleuroscopia para lise de aderências (química ou mecânica) + Drenagem fechada.
3. Crônica/Organizada (3ª semana em diante) Formação de "carapaça" fibrosa que impede a reexpansão pulmonar. 💊 Antibioticoterapia + Decorticação (VATS ou cirurgia aberta) para remover a carapaça infecciosa e permitir a reexpansão pulmonar. Pode ser necessária Pleurostomia (drenagem pleural aberta) em casos selecionados.

A decorticação é um procedimento cirúrgico realizado por cirurgião torácico, geralmente por videotoracoscopia, que remove o pus e a fibrina acumulados na cavidade pleural, permitindo a reexpansão do pulmão.

💊 Tratamento Essencial: A drenagem é crucial para derrames parapneumônicos complicados e empiemas. A escolha da técnica (dreno simples, fibrinolíticos, VATS, decorticação) depende da fase da doença e da presença de septações.

Abscesso Pulmonar

O abscesso pulmonar é uma condição infecciosa grave caracterizada pela formação de uma lesão cavitária no parênquima pulmonar, contendo pus e/ou necrose tecidual.

Definição e Classificação

Um abscesso pulmonar é definido como uma área de necrose pulmonar e formação de cavidade, geralmente maior que 2 cm de diâmetro, resultante de uma infecção microbiana. Quando a lesão cavitária é menor que 2 cm, é mais comumente classificada como pneumonia necrosante.

🧠 Conceito Chave: A distinção entre pneumonia necrosante e abscesso pulmonar é baseada no tamanho da lesão cavitária.
Condição Característica Principal Tamanho da Lesão Cavitária
Pneumonia Necrosante Lesão cavitária com pus e/ou necrose < 2 cm
Abscesso Pulmonar Lesão cavitária com pus e/ou necrose > 2 cm

Fatores de Risco

O principal fator de risco para o desenvolvimento de abscesso pulmonar é a macroaspiração de conteúdo orofaríngeo ou gástrico, especialmente em pacientes com higiene bucal precária (dentes em mau estado de conservação). Essa aspiração facilita a entrada de bactérias para o trato respiratório inferior.

Situações que aumentam significativamente o risco de aspiração incluem:

Etiologia

A etiologia do abscesso pulmonar pode ser dividida em primária, quando decorrente de broncoaspiração, e secundária, associada a outras condições subjacentes.

Abscesso Pulmonar Primário (Broncoaspiração)

Representa a maioria dos casos e é predominantemente causado por microrganismos da flora orofaríngea que são aspirados. A composição bacteriana varia:

Abscesso Pulmonar Secundário

Ocorre em associação com outras condições que predispõem à formação de abscesso, sem necessariamente uma aspiração primária evidente:

Tipo de Abscesso Causa Principal Patógenos Comuns
Primário Broncoaspiração Anaeróbios (Peptostreptococcus, Fusobacterium), Polimicrobiana, Aeróbios (S. aureus, Gram-negativos)
Secundário Obstrução (tumor, corpo estranho), Imunossupressão, Embolia séptica Variável, dependendo da causa subjacente

Evolução da Lesão Pulmonar Pós-Aspiração

A aspiração de conteúdo gástrico ou orofaríngeo pode levar a diferentes quadros clínicos dependendo do tempo e da presença de infecção bacteriana:

⚠️ Atenção: A pneumonite química (Mendelson) não é uma infecção bacteriana e não requer antibióticos. O tratamento antibiótico é reservado para a pneumonia aspirativa, que se desenvolve dias após a aspiração e apresenta sinais de infecção. Este é um conceito recorrente em provas de residência!

Quadro Clínico

O abscesso pulmonar frequentemente se manifesta com sintomas semelhantes aos de uma pneumonia, mas com características que sugerem um processo mais arrastado e destrutivo:

Diagnóstico

O diagnóstico do abscesso pulmonar baseia-se na combinação de achados clínicos, laboratoriais e de imagem:

Localização Mais Comum

Devido à anatomia brônquica, os abscessos pulmonares por aspiração são mais comuns no pulmão direito, que possui uma angulação brônquica mais reta, facilitando a entrada de material aspirado. Os segmentos pulmonares mais frequentemente afetados são:

Essas localizações são típicas em pacientes que aspiram em decúbito dorsal ou lateral.

Tratamento

O tratamento do abscesso pulmonar é primariamente clínico, com terapia antibiótica prolongada, e pode requerer intervenções adicionais em casos de falha.

Terapia Antibiótica

O tratamento inicial é com antibióticos por via intravenosa, visando cobrir os patógenos anaeróbios e aeróbios mais comuns. As opções incluem:

A duração do tratamento antibiótico é prolongada, geralmente superior a 3 semanas, e deve ser mantida até a resolução clínica e radiológica do abscesso. Não há um consenso exato sobre a duração, mas a melhora da febre e dos sintomas é um bom indicativo para a transição para antibióticos por via oral.

💊 Tratamento: A terapia antibiótica para abscesso pulmonar é prolongada. A melhora clínica, como a ausência de febre, permite a troca da via intravenosa para oral.

Manejo da Falha Terapêutica

Se o paciente não apresentar melhora clínica significativa (persistência de febre, tosse, expectoração) após 7 a 10 dias de tratamento antibiótico adequado, é necessário reavaliar o caso e considerar outras intervenções:

🚨 Alerta Clínico: A falha do tratamento antibiótico em 7-10 dias exige investigação para obstrução brônquica e/ou drenagem do abscesso.