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Endocardite Infecciosa

A Endocardite Infecciosa (EI) é uma condição grave caracterizada pela infecção do endotélio cardíaco, frequentemente manifestada pela formação de vegetações nas valvas cardíacas ou em outras estruturas intracardíacas.

🧠 Conceito Chave: É fundamental entender que a EI é uma infecção do endotélio. Nem toda vegetação intracardíaca é sinônimo de endocardite infecciosa (ex: endocardite de Libman-Sacks no lúpus), e nem toda endocardite infecciosa se manifesta exclusivamente com vegetações (pode haver abscessos).

Conceitos Iniciais

Apresentação Clássica e Fatores Predisponentes

A manifestação clássica da endocardite infecciosa envolve a combinação de bacteremia e a presença de uma lesão cardíaca prévia que serve como substrato para a infecção. A bacteremia pode ter diversas origens, como:

As lesões cardíacas prévias que predispõem à EI incluem:

Valvas Mais Acometidas

A ordem de frequência de acometimento das valvas em endocardite infecciosa geralmente segue o padrão:

O Staphylococcus aureus é um agente etiológico notável por sua capacidade de causar endocardite mesmo na ausência de lesão cardíaca prévia. Ele acomete preferencialmente as valvas do lado direito do coração, sendo o principal agente em usuários de drogas intravenosas (UDIV).

Patogenia da Endocardite Infecciosa

A patogenia da EI pode ser didaticamente dividida em duas fases principais: a fase de endocardite trombótica não bacteriana (ETNB) e a fase de endocardite bacteriana.

Fase de Endocardite Trombótica Não Bacteriana (ETNB)

Lesão Endocárdica

O processo se inicia com uma lesão no endotélio cardíaco, que pode ser desencadeada por diversos fatores. Essa lesão é crucial para a formação do substrato onde a infecção se desenvolverá. Os principais fatores de risco para essa lesão incluem:

Fatores de Risco para Endocardite Infecciosa (Decorebas de Prova)

É importante categorizar as condições cardíacas de acordo com o risco de desenvolver EI:

🧠 Lembre-se: A prótese valvar (seja biológica ou mecânica) é a condição que, individualmente, confere o maior risco para o desenvolvimento de EI. No entanto, ao analisar a população com diagnóstico de endocardite e sua doença estrutural cardíaca de base, o prolapso de valva mitral é a condição mais frequentemente associada.

Formação de Trombos

Para que a endocardite se inicie, é essencial a presença de fluxo turbilhonado intracavitário. Esse fluxo gera uma força de cisalhamento no endotélio, resultando em uma descontinuidade regional. A exposição da matriz extracelular ao plasma e outros componentes sanguíneos ativa o sistema hemostático, levando à agregação plaquetária local e ao depósito de fibrina. Este processo culmina na formação da Endocardite Trombótica Não Bacteriana (ETNB), que serve como o substrato ideal para a adesão bacteriana.

Fase de Endocardite Bacteriana

Bacteremia

Em um determinado momento, ocorre uma bacteremia significativa, geralmente originada de uma infecção em outro sítio (ex: erisipela, periodontite, infecção urinária). Uma grande quantidade de bactérias é então lançada na corrente sanguínea, alcançando o endotélio lesado e a ETNB. Os agentes mais comuns são Gram-positivos, como estafilococos e estreptococos.

Disseminação Sistêmica e Complicações

Após a colonização, as bactérias se proliferam na vegetação, que pode crescer e se fragmentar, levando à disseminação sistêmica de êmbolos sépticos. Isso pode resultar em:


Agentes Etiológicos

Os agentes etiológicos da Endocardite Infecciosa variam significativamente dependendo do tipo de valva acometida (nativa ou protética) e do tempo de evolução do quadro (agudo ou subagudo).

Endocardite em Valva Nativa

Endocardite Subaguda (Quadro arrastado/insidioso)

Caracteriza-se por um início mais lento e sintomas menos exuberantes. Os principais agentes incluem:

🔎 Dica de Prova: A presença de Streptococcus gallolyticus (antigo S. bovis) na hemocultura de um paciente com endocardite infecciosa é um alerta vermelho para a necessidade de investigação de lesões colônicas, incluindo câncer colorretal, através de colonoscopia.

Endocardite Aguda (Quadro grave e toxêmico)

Apresenta um início súbito e evolução rápida, com sinais de toxicidade sistêmica. O principal agente é:

⚠️ Atenção: Staphylococcus aureus e fungos (principalmente Candida spp.) compartilham características como a associação com UDIV, formação de grandes vegetações e alta propensão a fenômenos embólicos. A diferenciação clínica pode ser feita pela evolução do quadro: S. aureus geralmente causa doença aguda e fulminante, enquanto fungos tendem a causar quadros mais subagudos.

Endocardite em Valva Protética

A etiologia da EI em valvas protéticas depende do tempo transcorrido desde a cirurgia de troca valvar:

Período Pós-Cirúrgico Características Agentes Etiológicos Comuns
< 2 meses (Precoce) Associada a contaminação intraoperatória ou nosocomial. Staphylococcus coagulase-negativo (S. epidermidis), Staphylococcus aureus, Gram-negativos (ex: Pseudomonas aeruginosa, Serratia marcescens), Corynebacterium striatum, Cutibacterium acnes, Candida spp. (ambiente hospitalar).
> 1 ano (Tardia) Similar à endocardite em valva nativa, geralmente de origem comunitária. Estreptococos (viridans, gallolyticus), Staphylococcus aureus, Enterococos.
Entre 2 meses e 1 ano (Intermediária) Apresenta uma mistura dos agentes etiológicos das formas precoce e tardia. Mistura dos agentes da endocardite precoce e tardia.

Pontos Chave e Complicações

Valvas Cardíacas e Fatores de Risco Específicos

As valvas do lado esquerdo (mitral e aórtica) são as mais frequentemente acometidas, em grande parte devido à alta prevalência de doença reumática e degenerativa. O acometimento das valvas direitas, especialmente a tricúspide, é menos comum, mas deve levantar a suspeita de uso de drogas intravenosas (UDIV) como fator de risco principal. Nesses casos, os agentes etiológicos mais prováveis são Staphylococcus aureus, Candida (fungo) e Pseudomonas.

🚨 Alerta de Complicação: A principal causa de morte em pacientes com endocardite infecciosa não é a sepse, mas sim as complicações mecânicas que levam à insuficiência cardíaca. Isso ocorre devido à destruição valvar, ruptura de cordoalhas ou formação de abscessos que comprometem a função cardíaca.

Endocardite em Usuários de Drogas Intravenosas (UDIV)

A endocardite em UDIV possui características distintas que merecem atenção especial:

💊 High Yield Note: Endocardite em UDIV

High Yield Notes


Manifestações Clínicas

Manifestações Clássicas

Em casos de endocardite do lado direito do coração, especialmente em usuários de drogas intravenosas, a ausência de sopro é possível. Nesses cenários, a infecção por Staphylococcus aureus deve ser fortemente considerada.

Manifestações Periféricas

As manifestações periféricas da EI podem ser divididas em inespecíficas, embólicas (vasculares) e imunológicas, cada uma com características distintas.

Manifestações Inespecíficas

Manifestações Embólicas (Vasculares)

Resultam da fragmentação e disseminação de vegetações sépticas para a circulação sistêmica ou pulmonar.

Manifestações Imunológicas

São decorrentes da formação de imunocomplexos e da resposta inflamatória sistêmica.

🧠 Conceito Chave: É fundamental diferenciar os Nódulos de Osler (dolorosos, imunológicos) das Manchas de Janeway (indolores, vasculares/embólicas).

Complicações

As complicações da endocardite infecciosa são variadas e podem ser locais, embólicas, metastáticas, imunológicas ou neurológicas, contribuindo significativamente para a morbimortalidade da doença.

Complicações Locais

🚨 Emergência: A Insuficiência Cardíaca Congestiva (ICC), geralmente decorrente de lesão valvar direta, é a complicação mais letal da endocardite infecciosa.

Fenômenos Embólicos

A embolização de fragmentos das vegetações é uma complicação frequente e pode afetar qualquer órgão.

Infecções Metastáticas

A bacteremia persistente pode levar à formação de focos infecciosos secundários em outros locais.

Fenômenos Imunológicos

Além das manifestações periféricas, podem incluir:

Febre Prolongada

A persistência da febre, mesmo após o início da antibioticoterapia, pode indicar:

Complicações Neurológicas

São graves e podem ser isquêmicas ou hemorrágicas.


Diagnóstico

O diagnóstico da endocardite infecciosa é desafiador e baseia-se em uma combinação de achados clínicos, microbiológicos e de imagem. Os Critérios de Duke, recentemente atualizados pelo ISCVID em 2023, são a ferramenta diagnóstica padrão-ouro e devem ser dominados para as provas de residência.

Critérios de Duke – ISCVID 2023

A atualização de 2023 reestruturou os critérios em três categorias diagnósticas: endocardite definida, possível ou descartada, com uma nova subdivisão dos critérios maiores.

Critérios MAIORES

Subdivididos em microbiológicos, de imagem e cirúrgicos, refletem evidências diretas da infecção.

Critérios Microbiológicos
Critérios de Imagem

Evidências ecocardiográficas, tomográficas ou de PET/CT de envolvimento cardíaco.

🔎 Diagnóstico: O ecocardiograma transesofágico é preferível em casos de suspeita de EI em pacientes com prótese valvar, endocardite prévia, janela ecocardiográfica inadequada (obesidade, mamas volumosas) ou infecção por Staphylococcus aureus.
Critérios Cirúrgicos

Critérios MENORES

São achados que, embora não sejam diagnósticos por si só, aumentam a probabilidade de EI.

Exames Complementares Úteis

Além dos critérios de Duke, outros exames podem fornecer informações valiosas.

Interpretação dos Critérios de Duke – ISCVID 2023

A combinação dos critérios maiores e menores permite classificar a endocardite em definida, possível ou descartada.

Endocardite Definida

O diagnóstico é confirmado por critérios patológicos ou clínicos.

Endocardite Possível

Sugere a necessidade de investigação adicional.

Endocardite Descartada

O diagnóstico de EI é excluído nas seguintes situações:

Critérios de Duke (ISCVID 2023) Endocardite Definida Endocardite Possível Endocardite Descartada
Combinações 2 Maiores OU 1 Maior + 3 Menores OU 5 Menores 1 Maior + 1 Menor OU 3 Menores Outro diagnóstico claro OU Resposta a ATB < 4 dias sem evidência cirúrgica/autópsia OU Não se encaixa em Definida/Possível
Patológicos Evidência histopatológica ou microbiológica direta N/A N/A

Tratamento da Endocardite Infecciosa

O manejo terapêutico da endocardite infecciosa é complexo e pode apresentar variações significativas na literatura, demandando uma abordagem individualizada. A escolha do regime antimicrobiano e a duração da terapia são influenciadas por fatores como o tipo de valva afetada (nativa ou protética), o agente etiológico e a apresentação clínica (aguda ou subaguda).

Regimes Empíricos Iniciais

O tratamento antimicrobiano deve ser iniciado prontamente, mas a estratégia pode diferir conforme a urgência do quadro e a disponibilidade de resultados de culturas.

Endocardite em Valva Nativa

A terapia antimicrobiana para endocardite em valva nativa geralmente se estende por 4 a 6 semanas.

Endocardite em Valva Protética

A endocardite em valva protética exige um curso de tratamento mais prolongado, geralmente por mais de 6 semanas, devido ao maior risco de falha terapêutica e complicações.

💡 Dica de Prova: Algumas literaturas indicam o uso de Rifampicina para cobrir Staphylococcus aureus que pode formar biofilmes e se "esconder" na valva protética, dificultando a erradicação.
Na endocardite infecciosa subaguda, a decisão de postergar o início da antibioticoterapia até a obtenção dos resultados das culturas é uma particularidade importante e pode ser um diferencial em questões de prova!

Tratamento Guiado por Cultura (Baseado no Harrison 21ª Edição)

Uma vez que o agente etiológico é identificado e sua sensibilidade aos antimicrobianos é determinada, o tratamento pode ser ajustado para um regime mais específico e eficaz, otimizando a resposta e minimizando efeitos adversos.

Estreptococos Viridans e Outros Estreptococos Sensíveis à Penicilina

Inclui Streptococcus viridans sensíveis à penicilina, Streptococcus gallolyticus (anteriormente S. bovis) e outros estreptococos com Concentração Inibitória Mínima (CIM) para penicilina ≤ 0,12 mcg/mL.

Estreptococos Relativamente Resistentes à Penicilina

Estreptococos com CIM para penicilina > 0,12 e < 0,5 mcg/mL.

Estreptococos com Alta Resistência à Penicilina

Estreptococos com CIM para penicilina > 0,5 mcg/mL, incluindo Granulicatella, Abiotrophia e Gemella morbiliorum.

Enterococos

O tratamento de endocardite por enterococos exige uma combinação de agentes para atingir a bactericida sinérgica.

Estafilococos Sensíveis à Meticilina (MSSA) em Valva Nativa

🔬 High Yield Note: A associação de Gentamicina por 3-5 dias no início do tratamento com Oxacilina era uma prática comum. No entanto, estudos mais recentes não demonstraram benefício adicional significativo, tornando sua associação opcional atualmente.

Estafilococos Resistentes à Meticilina (MRSA) em Valva Nativa

Estafilococos Sensíveis à Meticilina (MSSA) em Valva Protética

Estafilococos Resistentes à Meticilina (MRSA) em Valva Protética

Microrganismos HACEK

Grupo de bactérias Gram-negativas de crescimento lento que podem causar endocardite, incluindo Haemophilus, Aggregatibacter, Cardiobacterium, Eikenella e Kingella.

Coxiella Burnetii

Agente etiológico da febre Q, pode causar endocardite crônica e de difícil tratamento.

Bartonella spp

Pode causar endocardite em pacientes imunocomprometidos ou com exposição a animais.


Detalhes Importantes no Manejo da Endocardite Infecciosa

Além da antibioticoterapia direcionada, outros aspectos do manejo, como a terapia anticoagulante e a indicação cirúrgica, são cruciais para o prognóstico do paciente e frequentemente abordados em exames de residência.

Terapia Anticoagulante

A abordagem da anticoagulação em pacientes com endocardite infecciosa é complexa e depende do status prévio do paciente e da ocorrência de eventos embólicos.

Tratamento Cirúrgico

A intervenção cirúrgica é um pilar fundamental no tratamento da endocardite infecciosa em situações específicas, visando remover o foco infeccioso, reparar ou substituir a valva danificada e prevenir complicações graves.

Indicações para Cirurgia

A cirurgia é indicada em diversas situações de alto risco ou falha terapêutica, sendo as principais:

Abordagem Cirúrgica

A escolha entre reparo (plastia) e substituição (troca) da valva depende da extensão do dano e da viabilidade do reparo.

🧠 Conceito Chave: Os principais fatores de risco para o desenvolvimento de endocardite infecciosa são a presença de uma valva artificial e um histórico prévio de endocardite. Por essa razão, a plastia é frequentemente a primeira tentativa, buscando evitar a introdução de um novo material protético e seus riscos associados.

Manutenção da Antibioticoterapia Pós-Cirurgia

A duração total da antibioticoterapia após a cirurgia depende de vários fatores:


Profilaxia da Endocardite Infecciosa

A profilaxia da endocardite infecciosa é uma medida preventiva crucial, mas sua indicação é restrita a pacientes e procedimentos de alto risco, visando evitar o primeiro episódio da doença ou recorrências em indivíduos vulneráveis.

Critérios para Profilaxia

A profilaxia é indicada apenas quando há uma combinação de paciente de alto risco e procedimento de alto risco. É fundamental que ambos os critérios sejam preenchidos.

Pacientes de Alto Risco

São considerados pacientes de alto risco para endocardite infecciosa:

🚫 Importante: Condições como prolapso de valva mitral sem regurgitação significativa, estenose mitral isolada, sopros cardíacos inocentes ou doença reumática prévia sem disfunção valvar NÃO são indicações para profilaxia de endocardite.

Procedimentos de Alto Risco

Os procedimentos que justificam a profilaxia são aqueles com maior probabilidade de causar bacteremia transitória significativa, principalmente envolvendo mucosas.

🚨 Alerta: Procedimentos gastrointestinais e geniturinários, em geral, NÃO requerem profilaxia de rotina para endocardite infecciosa, a menos que haja uma infecção ativa no local que possa causar bacteremia significativa.

Esquema de Profilaxia

O regime antimicrobiano deve ser administrado em dose única, 30 a 60 minutos antes do procedimento, para garantir níveis séricos adequados durante o período de maior risco de bacteremia.

🧠 Conceito Fundamental: A profilaxia é um tema recorrente e crucial em provas! Lembre-se que a indicação é estrita: somente para pacientes de alto risco que serão submetidos a procedimentos de alto risco. A presença de ambos os fatores é indispensável para a decisão de profilaxia.

Lesões que NÃO Predispõem à Endocardite

É igualmente importante conhecer as condições cardíacas que, apesar de serem patologias ou achados, não aumentam o risco de endocardite infecciosa e, portanto, não justificam profilaxia.