Infecção Relacionada a Cateter
Introdução e Mecanismos de Contaminação
A infecção relacionada a cateter (IRC) é uma complicação grave e frequente em pacientes hospitalizados, especialmente aqueles com dispositivos intravasculares de longa permanência.
🧠 Conceito Chave: A IRC é uma das principais causas de sepse hospitalar, elevando morbidade, mortalidade e custos de saúde.
Principais Vias de Contaminação
A contaminação de cateteres pode ocorrer por diversas vias, cada uma associada a patógenos específicos:
- Mãos dos Profissionais de Saúde: Frequentemente veiculam Cocos Gram-positivos, como Staphylococcus aureus e Staphylococcus coagulase-negativos, que são a principal causa de IRC.
- Colonização da Conexão: A manipulação inadequada das conexões do cateter pode levar à colonização por Cocos Gram-positivos presentes na pele ou no ambiente.
- Microbiota da Pele do Paciente: Microrganismos da pele, especialmente Staphylococcus coagulase-negativos e S. aureus, podem migrar pela superfície externa do cateter no local de inserção.
- Contaminação do Fluido Infundido: Raramente, o próprio fluido administrado pode estar contaminado, geralmente por Cocos Gram-positivos ou, em casos específicos, por Gram-negativos ou Candida spp.
- Disseminação Hematogênica: Microrganismos de um foco infeccioso distante (ex: infecção urinária, pneumonia) podem atingir o cateter pela corrente sanguínea, colonizando-o internamente. Nesses casos, Enterobactérias e Não-fermentadores são mais comuns.
- Contaminação Durante a Inserção: A falha na técnica asséptica durante a inserção do cateter permite a entrada de Cocos Gram-positivos e outros microrganismos.
Fatores de Risco
A ocorrência de IRC é multifatorial, envolvendo características do paciente e do próprio cateter. A identificação desses fatores é crucial para a implementação de medidas preventivas.
Fatores Relacionados ao Paciente
- Idade Avançada: Idosos frequentemente apresentam imunossenescência e comorbidades que aumentam a suscetibilidade.
- Imunossupressão: Condições como quimioterapia, uso de corticosteroides, HIV/AIDS ou doenças autoimunes comprometem a resposta imune.
- Desnutrição: O estado nutricional deficiente impacta negativamente a função imunológica e a cicatrização.
- Queimaduras Extensas: A perda da barreira cutânea e o estado hipermetabólico aumentam drasticamente o risco de infecção.
Fatores Relacionados ao Cateter
- Tipo de Cateter: Cateteres venosos centrais (CVC) apresentam maior risco de infecção em comparação com cateteres periféricos, devido à sua permanência prolongada e manipulação mais complexa.
- Local de Inserção: A ordem de risco decrescente é femoral > jugular > subclávia. A região femoral tem maior densidade de microbiota cutânea e maior umidade, favorecendo a colonização.
- Punção sem Assepsia Correta: A falha em seguir rigorosamente os protocolos de assepsia durante a inserção é um fator de risco significativo.
- Duração Prolongada: Quanto maior o tempo de permanência do cateter, maior a probabilidade de colonização e infecção.
Fisiopatologia
A fisiopatologia da IRC envolve principalmente dois mecanismos:
- Colonização ou Contaminação Cutânea: Este é o mecanismo mais comum. Microrganismos da pele (principalmente Staphylococcus coagulase-negativos e Staphylococcus aureus) migram ao longo da superfície externa do cateter a partir do sítio de inserção. Eles formam um biofilme na superfície do cateter, protegendo-se dos antibióticos e da resposta imune do hospedeiro.
- Disseminação Hematogênica: Microrganismos de um foco infeccioso primário distante (ex: trato gastrointestinal, urinário) são transportados pela corrente sanguínea e aderem à superfície interna do cateter, formando um biofilme. Patógenos como Enterococcus spp., Candida spp. e Enterobactérias (como E. coli e Klebsiella spp.) são frequentemente associados a esta via.
🧬 Biofilme: A formação de biofilme é um mecanismo crucial na fisiopatologia da IRC, conferindo resistência a antibióticos e dificultando a erradicação da infecção.
Quadro Clínico
O quadro clínico da IRC pode variar desde sinais locais discretos até manifestações sistêmicas graves de sepse.
Sinais e Sintomas
- Inflamação Local: No sítio de inserção do cateter, podem ser observados eritema, dor, calor e, em casos mais avançados, secreção purulenta.
- Febre: É um dos sinais sistêmicos mais comuns e pode ser o único sintoma em pacientes imunocomprometidos ou com cateteres totalmente implantados.
- Instabilidade Hemodinâmica: Em casos de sepse grave, o paciente pode apresentar hipotensão, taquicardia, confusão mental e outros sinais de disfunção orgânica.
Complicações
A IRC pode levar a complicações sérias se não for prontamente diagnosticada e tratada:
- Tromboflebite Séptica: Inflamação e trombose da veia associada à infecção.
- Endocardite: Infecção das válvulas cardíacas, especialmente em pacientes com cateteres de longa permanência ou cardiopatias preexistentes.
- Infecções à Distância: Disseminação hematogênica para outros órgãos, resultando em osteomielite, artrite séptica, abscessos, entre outros.
Diagnóstico
O diagnóstico de IRC requer uma combinação de critérios clínicos e microbiológicos, visando diferenciar a infecção do cateter de outras fontes de infecção e de simples colonização.
Critérios Diagnósticos
O diagnóstico é fortemente sugerido quando:
- Cateter Instalado por Mais de 48 Horas: A infecção geralmente se manifesta após este período.
- Hemoculturas Positivas:
- Pelo menos duas amostras de hemocultura positivas para Staphylococcus coagulase-negativos (SCN), com pelo menos uma delas coletada do cateter ou com tempo diferencial de positividade (TDP) maior no cateter. A positividade de apenas uma amostra de SCN pode indicar contaminação.
- Pelo menos uma amostra de hemocultura positiva para demais patógenos (ex: S. aureus, Gram-negativos, Candida spp.), especialmente se houver sinais clínicos de infecção.
- Exclusão de Outras Fontes de Infecção: É fundamental investigar e descartar outras possíveis causas para a febre ou sepse do paciente.
🧪 Dica Diagnóstica: O tempo diferencial de positividade (TDP) entre hemoculturas coletadas do cateter e de veia periférica é um critério valioso. Um TDP > 2 horas (cateter positivo antes da veia periférica) sugere fortemente IRC.
Tratamento
O tratamento da IRC envolve a remoção do cateter, sempre que possível, e a antibioticoterapia adequada, com duração e escolha baseadas na gravidade do quadro e no microrganismo isolado.
Manejo do Cateter
A remoção do cateter é a medida mais eficaz para erradicar a infecção. É obrigatória nas seguintes situações:
- Instabilidade Hemodinâmica ou Sepse: Pacientes com choque séptico ou sepse grave.
- Complicações Locais ou Sistêmicas: Tromboflebite séptica, endocardite, infecção à distância.
- Patógenos Virulentos: Infecções por Staphylococcus aureus, Candida spp., Pseudomonas aeruginosa ou Gram-negativos produtores de ESBL (Extended-Spectrum Beta-Lactamase).
- Persistência da Bacteremia: Mesmo com antibioticoterapia adequada, se a bacteremia persistir por mais de 72 horas.
🚨 Atenção: Em casos de S. aureus ou Candida spp., a remoção do cateter é quase sempre indispensável devido à alta virulência e capacidade de formar biofilmes persistentes.
Antibioticoterapia Intravenosa
A escolha do antibiótico depende da condição clínica do paciente e dos resultados das culturas:
- Paciente Estável: Recomenda-se aguardar os resultados do Gram e da cultura para iniciar a terapia direcionada.
- Paciente Instável (Sepse/Choque Séptico): Iniciar cobertura empírica de amplo espectro imediatamente.
| Patógeno Suspeito/Isolado |
Antibiótico de Escolha |
Observações |
| Estafilococo |
Vancomicina |
Para S. aureus resistente à meticilina (MRSA) ou se a prevalência de MRSA for alta. |
| Estafilococo |
Oxacilina ou Cefazolina |
Para S. aureus sensível à meticilina (MSSA). |
| Enterococo |
Ampicilina |
Considerar associação com aminoglicosídeo em casos graves ou endocardite. |
| Enterobactérias |
Ceftriaxone |
Para cepas sensíveis. |
| Enterobactérias (ESBL) |
Meropenem ou outro carbapenêmico |
Para cepas produtoras de ESBL. |
| Candida spp. |
Caspofungina ou Anidulafungina |
Equinocandinas são a primeira escolha; Fluconazol pode ser usado para C. albicans sensível. |
Duração do Tratamento e Terapia Adicional
- Duração Padrão: A antibioticoterapia intravenosa geralmente dura de 7 a 14 dias após a remoção do cateter e/ou a negativação das hemoculturas.
- Cateter Mantido: Se o cateter não puder ser removido (ex: acesso único e vital), além da antibioticoterapia sistêmica, pode-se considerar a infusão adicional "fechada" de antibiótico (antibiotic lock therapy) diretamente no lúmen do cateter. Esta técnica envolve preencher o lúmen do cateter com uma solução concentrada de antibiótico e deixá-la em contato por um período prolongado (geralmente 12-24 horas por dia).
💊 Tratamento Complementar: A terapia de antibiotic lock é uma estratégia para preservar o cateter, mas sua eficácia é maior para infecções por Staphylococcus coagulase-negativos e deve ser avaliada caso a caso.