Gripe (Influenza)
A influenza é uma infecção respiratória aguda causada pelos vírus influenza, frequentemente confundida com outras síndromes gripais.
1. Conceitos Iniciais
É fundamental diferenciar a influenza verdadeira de outras infecções respiratórias virais, que podem apresentar sintomas semelhantes. A influenza é especificamente causada pelos vírus influenza, classificados em tipos A, B e C, com base em suas nucleoproteínas e proteínas matrizes.
Tipos de Vírus Influenza
- Influenza A: Possui a maior relevância clínica, sendo responsável por infectar humanos, aves e suínos. É o tipo associado à ocorrência de pandemias devido à sua alta capacidade de mutação e disseminação.
- Influenza B: Infecta exclusivamente humanos. Apresenta menor taxa de mutação e, consequentemente, um potencial de disseminação mais limitado em comparação ao tipo A.
- Influenza C: Infecta humanos e suínos, mas geralmente causa uma doença subclínica ou muito leve, com pouca importância prática do ponto de vista de saúde pública.
🧠 Conceito Chave: Os vírus influenza A são os mais variáveis e clinicamente significativos, com subtipos definidos por suas glicoproteínas de superfície, a hemaglutinina (H) e a neuraminidase (N), como H1N1, H3N2, etc.
Período de Incubação e Transmissão
- Período de Incubação: Geralmente varia de 1 a 4 dias, com uma média de 2 dias.
- Período de Transmissão: Ocorre desde 2 dias antes do início dos sintomas até aproximadamente 5 dias após o seu surgimento. Em crianças e imunocomprometidos, o período de transmissão pode ser mais prolongado.
2. Classificações Clínicas
A apresentação clínica da influenza pode variar desde uma síndrome gripal leve até formas graves, como a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG).
Síndrome Gripal (SG)
Caracteriza-se pela presença de febre, acompanhada de tosse ou dor de garganta (odinofagia), e mais um dos seguintes sintomas:
- Cefaleia
- Mialgia (dores musculares)
- Artralgia (dores articulares)
Em crianças menores de 6 anos: A definição é mais simplificada, incluindo febre e qualquer sintoma respiratório.
Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG)
Representa a forma mais grave da doença, definida pela presença de febre e dispneia (dificuldade respiratória), ou um dos seguintes sinais de gravidade:
- Saturação de oxigênio (SatO2) inferior a 95% em ar ambiente.
- Taquipneia (respiração rápida) ou desconforto respiratório.
- Piora das condições clínicas de base ou comorbidades preexistentes.
- Hipotensão arterial.
Em crianças: Sinais adicionais de SRAG incluem cianose, inapetência (falta de apetite), batimento de asa do nariz e tiragem (retrações intercostais ou subcostais).
Manifestações Típicas em Adultos
A influenza em adultos tipicamente se manifesta com um início súbito, caracterizado por calafrios, febre alta, prostração intensa, tosse e dores generalizadas, especialmente nas costas e pernas. A cefaleia é um sintoma proeminente, frequentemente acompanhada de fotofobia. Inicialmente, os sintomas respiratórios podem ser leves, como dor de garganta, sensação de queimação retroesternal, tosse não produtiva e, ocasionalmente, coriza.
Progressivamente, a doença do trato respiratório inferior torna-se dominante, com tosse que pode se tornar persistente, irritativa e produtiva. Sintomas gastrointestinais, como náuseas, vômitos e dor abdominal, podem ocorrer, sendo aparentemente mais comuns com a cepa H1N1 da pandemia de 2009. Crianças, em particular, podem apresentar náuseas, vômitos ou dor abdominal de forma mais acentuada, e até mesmo um quadro semelhante à sepse.
Após 2 a 3 dias, os sintomas agudos tendem a regredir rapidamente, embora a febre possa persistir por até 5 dias. Tosse residual, fraqueza, sudorese e fadiga podem perdurar por vários dias ou, em alguns casos, por semanas.
3. Diagnóstico
O diagnóstico da influenza é frequentemente clínico, especialmente quando há circulação viral confirmada na comunidade e o paciente apresenta uma síndrome típica. Embora existam diversos testes moleculares rápidos (testes de detecção de antígeno), sua utilidade no manejo individual pode ser limitada devido à variabilidade de sensibilidade, apesar da boa especificidade. A realização de testes diagnósticos deve ser considerada quando os resultados puderem influenciar as decisões clínicas.
Exames Inespecíficos
Esses exames não confirmam a infecção por influenza, mas podem auxiliar na avaliação da gravidade e na exclusão de outras condições.
- Hemograma: Pode mostrar leucopenia ou leucocitose, dependendo da fase e da presença de complicações.
- Proteína C Reativa (PCR): Marcador inflamatório inespecífico, elevado em infecções.
- Radiografia e Tomografia de Tórax: Importantes para avaliar o acometimento pulmonar.
- Radiografias Torácicas: Em pneumonias virais, podem ser normais ou apresentar áreas focais unilaterais ou bilaterais de consolidação, opacidades nodulares, espessamento de paredes brônquicas e pequenos derrames pleurais. A consolidação lobar é incomum. Em pacientes com pneumonia por vírus A (H1N1), são frequentemente observados infiltrados alveolares focais bilaterais, predominantes nas bases pulmonares.
- Tomografia Computadorizada (TC) de Tórax: Os achados predominantes em pneumonias virais são opacidades em vidro fosco uni ou bilaterais, que podem estar associadas ou não a áreas focais ou multifocais de consolidação. Essas opacidades e áreas de consolidação tendem a ter uma distribuição predominantemente peribroncovascular e subpleural, assemelhando-se a um padrão de pneumonia em organização.
Exames Específicos
A decisão de solicitar exames específicos para influenza deve considerar os seguintes pontos:
- O paciente está grave?
- O resultado positivo implicaria em tratamento específico?
- Há indicação de profilaxia para contatos?
- O resultado possui valor epidemiológico para vigilância em saúde?
Métodos de Pesquisa Viral
- RT-PCR (Reação em Cadeia da Polimerase com Transcrição Reversa):
- Possui alta acurácia, com boa sensibilidade e especificidade.
- A coleta é preferencialmente realizada entre o 3º e o 7º dia de sintomas, mas pode ser feita em qualquer período se o paciente estiver grave.
- Vantagem: Permite a diferenciação dos subtipos virais (ex: H1N1, H3N2).
- Testes Rápidos de Detecção de Antígeno:
- Oferecem resultados mais rápidos.
- Apresentam menor acurácia (sensibilidade) em comparação com o RT-PCR.
- Testes de Detecção de Antígenos (Imunofluorescência ou Imunocromatografia):
- Ficam prontos ainda mais rapidamente.
- Possuem baixíssima sensibilidade, mas altíssima especificidade.
- Sorologia:
- Utilizada para diagnóstico retrospectivo.
- Os anticorpos geralmente se tornam positivos após 2 semanas do início da doença.
- Para confirmação, são necessárias duas dosagens com elevação significativa dos títulos de anticorpos.
4. Tratamento
O tratamento da influenza varia conforme a gravidade do quadro clínico e a presença de fatores de risco.
Manejo de Formas Leves
- Hidratação: Fundamental para evitar desidratação, especialmente em casos de febre.
- Analgésicos e Antitérmicos: Para alívio de febre, cefaleia, mialgia e artralgia.
⚠️ Atenção: Evitar o uso de Ácido Acetilsalicílico (AAS) em crianças e adolescentes com suspeita de influenza devido ao risco de Síndrome de Reye, uma condição rara, mas grave, que afeta o cérebro e o fígado.
Tratamento Antiviral Específico (Oseltamivir)
O Oseltamivir (75mg, 12/12h, por 5 dias) é indicado nas seguintes situações:
- Pacientes com SRAG e/ou Alto Risco**: O tratamento deve ser iniciado independentemente do tempo de início dos sintomas.
- A Critério Clínico: Pode ser considerado para pacientes sem critérios de SRAG ou alto risco, desde que iniciado nas primeiras 48 horas do início dos sintomas para maximizar a eficácia.
💊 Dica de Tratamento: Diferentemente da COVID-19, o uso de corticosteroides não é recomendado no tratamento da influenza, pois pode estar associado a desfechos piores.
Suspeita de Pneumonia Secundária
Deve-se suspeitar de pneumonia bacteriana secundária à influenza nas seguintes situações:
- Instabilidade hemodinâmica ou insuficiência respiratória progressiva.
- Ausência de melhora clínica após 3 a 5 dias de tratamento com Oseltamivir.
- Recorrência de febre após um período de efervescência (melhora da febre inicial).
Nesses casos, é crucial iniciar antibioticoterapia empírica, cobrindo patógenos comuns como Staphylococcus aureus (incluindo MRSA, se houver risco) e considerar a possibilidade de pneumonia nosocomial em pacientes hospitalizados.
**Grupos de Risco para Complicações da Influenza
A identificação desses grupos é crucial para a indicação de tratamento antiviral e profilaxia.
- Idade: Crianças menores de 5 anos (especialmente menores de 2 anos) e idosos acima de 60 anos.
- Comorbidades Pulmonares: Incluindo asma, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e outras pneumopatias crônicas.
- Doenças Cardiovasculares: Exceto hipertensão arterial sistêmica (HAS) isolada.
- Nefropatias Crônicas.
- Hepatopatias Crônicas.
- Doenças Hematológicas Crônicas.
- Distúrbios Metabólicos: Incluindo diabetes mellitus.
- Transtornos Neurológicos e do Desenvolvimento: Como Síndrome de Down, paralisia cerebral, epilepsia.
- Imunossupressão: Causada por doenças (HIV/AIDS, câncer) ou uso de medicamentos (corticosteroides em altas doses, quimioterapia).
- Obesidade: Especialmente obesidade mórbida.
- Gestantes e Puérperas: Até 2 semanas após o parto.
- Crianças e Adolescentes menores de 19 anos: Em uso prolongado de Ácido Acetilsalicílico (AAS) devido ao risco de Síndrome de Reye.
- População Indígena.
5. Prevenção
A prevenção da influenza envolve medidas de isolamento, profilaxia medicamentosa e, principalmente, imunização.
Medidas de Isolamento
- Máscara Cirúrgica: Recomendada para pacientes com sintomas respiratórios e para profissionais de saúde em contato, seguindo precauções padrão e para gotículas.
- Máscara N95 (ou equivalente): Indicada para procedimentos geradores de aerossóis, como intubação orotraqueal ou aspiração de vias aéreas.
- Duração do Isolamento: O paciente deve permanecer em isolamento por 5 a 7 dias a partir do início dos sintomas, desde que esteja assintomático por pelo menos 24 horas. Se os sintomas persistirem, o isolamento deve ser mantido.
Profilaxia Pós-Exposição (Oseltamivir)
O Oseltamivir (75mg, 12/12h, por 10 dias) pode ser considerado para profilaxia em situações específicas:
- Pessoas com Risco de Complicações Pós-Exposição: Indivíduos que foram expostos a um caso confirmado de influenza e pertencem a um dos grupos de risco, especialmente se não foram vacinados ou se a vacinação ocorreu há menos de 2 semanas.
- Profissionais de Saúde Expostos: Aqueles que tiveram exposição de alto risco sem o uso adequado de Equipamentos de Proteção Individual (EPI).
Imunização (Vacinação)
A vacinação é a medida mais eficaz na prevenção da influenza e suas complicações.
- Vacina Trivalente (Vírus Inativado): Protege contra dois tipos de Influenza A e um tipo de Influenza B.
- Vacina Tetravalente (Vírus Inativado): Oferece proteção contra dois tipos de Influenza A e dois tipos de Influenza B.
💡 Dica de Estudo: Os tipos de vírus influenza em circulação mudam anualmente. Por isso, a composição da vacina é atualizada a cada ano, com base nos estudos dos subtipos mais prevalentes globalmente. A vacinação anual é, portanto, essencial para garantir a proteção.
Grupos Prioritários para Vacinação
- Extremos de Idade: Crianças de 6 meses a menores de 5 anos e idosos acima de 60 anos.
- Trabalhadores Essenciais: Profissionais de saúde, professores e funcionários de presídios.
- Populações Vulneráveis: Povos indígenas, gestantes e puérperas (até 45 dias pós-parto).
- Indivíduos com Comorbidades: Pessoas com doenças crônicas (respiratórias, cardíacas, renais, hepáticas, neurológicas, diabetes, imunossupressão).
- Obesidade: Indivíduos com obesidade grave.
- População Privada de Liberdade.
Observação: Em anos de maior risco ou campanhas específicas, o governo federal pode expandir a elegibilidade da vacina para toda a população, como ocorreu em 2021.
Precauções e Efeitos Adversos da Vacina
- Alergia a Ovo: Não é uma contraindicação absoluta. Pacientes com alergia leve podem ser vacinados com precaução. Em casos de alergia grave, a vacinação deve ser realizada em ambiente hospitalar.
- Abscesso no Sítio de Aplicação: Geralmente decorrente de erro na técnica de aplicação.
- Dor no Sítio de Aplicação: Reação local comum e esperada.
- Febre e Sintomas Constitucionais Leves: Podem ocorrer após a vacinação (ex: mialgia, mal-estar), mas não indicam infecção pelo vírus da influenza, pois a vacina é de vírus inativado.