Infecção do Trato Urinário (ITU)
Conceitos Iniciais
A Infecção do Trato Urinário (ITU) é uma condição clínica comum, caracterizada pela presença de microrganismos patogênicos no trato urinário.
- Prevalência: Mais comum em mulheres, devido à uretra mais curta e à maior proximidade com o ânus, além da influência da atividade sexual.
- Principal Agente Etiológico: A bactéria mais frequentemente isolada é a Escherichia coli.
- Outros Agentes: Incluem Staphylococcus saprophyticus, Enterococo, Klebsiella, Proteus, Pseudomonas e bactérias produtoras de ESBL (Extended-Spectrum Beta-Lactamase).
Bacteriúria Assintomática
A bacteriúria assintomática refere-se à presença de bactérias na urina em quantidades significativas, sem que o paciente apresente sintomas clínicos de ITU.
Definição
Caracteriza-se por:
- Paciente assintomático.
- Urinocultura positiva, com contagem de colônias:
- ≥ 105 UFC/mL em amostra de jato médio.
- ≥ 102 UFC/mL em pacientes cateterizados.
- Critérios de Amostra:
- Para homens: uma única amostra positiva é suficiente.
- Para mulheres: são necessárias duas amostras consecutivas com o mesmo microrganismo.
🧠 Lembre-se: A presença de piúria (leucócitos na urina) por si só não é suficiente para fechar o diagnóstico de bacteriúria assintomática e não indica tratamento na ausência de sintomas.
Tratamento
O tratamento da bacteriúria assintomática é geralmente restrito a grupos específicos de pacientes, nos quais o risco de complicações é elevado. A decisão de tratar deve ser cuidadosamente avaliada.
Indicações para Tratamento
O tratamento é recomendado nas seguintes situações:
- Gravidez: Devido ao risco aumentado de pielonefrite e desfechos adversos na gestação.
- Procedimentos Urológicos Invasivos: Especialmente aqueles em que há expectativa de sangramento mucoso, para prevenir infecções pós-procedimento.
- Transplantados Renais: Conforme o Harrison, devido à imunossupressão e ao risco de infecção do enxerto.
- Neutropênicos: Também de acordo com o Harrison, pela vulnerabilidade a infecções graves.
- Pacientes com Diabetes Mellitus Tipo 2: Conforme o Cecil, pela maior suscetibilidade a infecções.
- Crianças com Refluxo Vesicoureteral (RVU): Em alguns casos, para prevenir danos renais.
- Isolamento de Proteus ou Outras Bactérias Produtoras de Urease: Devido ao risco de formação de cálculos renais.
Esquemas Terapêuticos
- Padrão:
- Fosfomicina: 3g, dose única (DU).
- Nitrofurantoína: 100mg, 3 a 7 dias.
- Alternativas: Sulfametoxazol-Trimetoprima (SMZ-TMP), betalactâmicos e quinolonas.
⚠️ Atenção para Gestantes: Evitar Nitrofurantoína e SMZ-TMP no primeiro trimestre da gestação, devido a uma relação incerta com anomalias congênitas.
🚨 Ponto Crucial para Provas: Idosos, pacientes com lesão medular ou portadores de cateter de demora não devem ser tratados para bacteriúria assintomática, pois o tratamento não demonstrou benefício e pode levar a resistência antimicrobiana.
Candidúria
A candidúria é a presença de espécies de Candida na urina. É um achado relativamente comum, especialmente em certos grupos de pacientes.
Contexto e Fatores de Risco
O aparecimento de Candida na urina, sendo a Candida albicans a espécie mais comum (embora outras espécies, juntas, representem mais de 50% dos isolados), é frequentemente observado em:
- Pacientes com cateter vesical de demora (CVD).
- Pacientes diabéticos.
- Indivíduos tratados com antibióticos de amplo espectro.
- Pacientes internados em UTI.
Manejo e Tratamento
- Pacientes Sintomáticos: Todo paciente com candidúria que apresenta sintomas de ITU (disúria, polaciúria, dor suprapúbica, etc.) deve ser tratado.
- Pacientes Assintomáticos:
- Até 33% dos casos de candidúria assintomática podem se resolver espontaneamente com a retirada do cateter vesical de demora (CVD).
- O tratamento medicamentoso é recomendado apenas para aqueles com maior risco de desenvolver cistite sintomática, pielonefrite ou doença disseminada, como:
- Pacientes neutropênicos.
- Transplantados clinicamente instáveis.
- Indivíduos submetidos à manipulação urológica.
💡 Dica: Em casos de candidúria assintomática, a retirada do cateter vesical de demora (CVD) pode resolver até 33% dos casos, evitando o tratamento medicamentoso.
Esquema de Primeira Linha
- Fluconazol: 200-400mg/dia por 14 dias.
Cistite (ITU Baixa)
A cistite é uma infecção que afeta a bexiga urinária, caracterizada por sintomas localizados no trato urinário inferior, sem evidência de envolvimento sistêmico.
Clínica
Os sintomas clássicos da cistite incluem:
- Disúria: Dor ou ardor ao urinar.
- Polaciúria: Aumento da frequência urinária.
- Urgência Urinária: Necessidade súbita e inadiável de urinar.
- Nictúria: Aumento da frequência urinária noturna.
- Hematúria: Presença de sangue na urina (macroscópica ou microscópica).
- Estrangúria: Micção dolorosa e lenta, com esforço.
- Desconforto Suprapúbico: Dor ou pressão na região acima do púbis.
É importante ressaltar que a cistite geralmente cursa sem febre, o que a diferencia de infecções do trato urinário superior, como a pielonefrite.
Diagnóstico
O diagnóstico da cistite é predominantemente clínico, baseado nos sintomas apresentados pelo paciente.
- Diagnóstico Clínico: Na maioria dos casos de cistite não complicada, o diagnóstico é clínico, e o tratamento pode ser iniciado sem a necessidade de exames laboratoriais.
- Casos Complicados: Em situações específicas, como malformações do trato urinário, diabetes, HIV, uso de cateter, transplantados renais, gestantes, entre outros, a investigação laboratorial é indicada:
- Exame de Urina Tipo I (EAS): Pode revelar piúria, esterase leucocitária positiva e teste do nitrito positivo.
- Urinocultura com Antibiograma: Considerado o padrão ouro para identificar o agente etiológico e sua sensibilidade aos antibióticos, embora nem sempre seja necessário para iniciar o tratamento empírico.
🔎 Diagnóstico: Os testes de nitrito e esterase leucocitária no EAS não são totalmente confiáveis e podem apresentar falsos negativos em diversas situações, como micção frequente (não há tempo para acúmulo de nitrito) ou pH urinário alterado por suplementos ou bactérias não redutoras de nitrato.
Exames Complementares de Sangue
Exames de sangue não são solicitados de rotina para cistite não complicada. No entanto, podem ser úteis em cenários específicos:
- Sintomas atípicos ou persistentes.
- Pacientes do sexo masculino.
- Suspeita de germe resistente.
- Gestação.
- Anormalidades no trato geniturinário (TGU).
- Diabetes mal controlado.
Tratamento
O tratamento da cistite visa erradicar a infecção e aliviar os sintomas. A escolha do antibiótico e a duração do tratamento dependem de fatores como a gravidade da infecção, a presença de complicações e o perfil de resistência local.
Esquemas Terapêuticos
- Padrão:
- Fosfomicina: 3g, dose única (DU).
- Nitrofurantoína: 100mg, por 5 a 7 dias.
- Alternativas:
- Sulfametoxazol-Trimetoprima (SMZ-TMP): por 3 dias.
- Betalactâmicos: por 5 a 7 dias.
Alívio Sintomático
- Fenazopiridina (Pyridium): Pode ser utilizada por até 2 dias em casos de disúria grave para alívio sintomático.
Observações Importantes sobre o Tratamento
| Antibiótico/Fármaco |
Considerações Chave |
| Quinolonas |
- Indicadas para cistite recorrente ou em homens (duração de 7-14 dias).
- Em mulheres, têm sido consideradas como última escolha devido a evidências de lesões aórticas e alta taxa de resistência da E. coli no Brasil.
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| Nitrofurantoína e Betalactâmicos |
- Penetram pouco no tecido prostático, sendo menos eficazes e, portanto, devem ser evitados no tratamento de ITU em homens.
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| Fenazopiridina |
- Pode causar náuseas e, em casos raros, hemólise.
- Seu uso deve ser limitado a no máximo 2 dias para alívio da disúria.
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Cistite Recorrente
A cistite recorrente é um desafio clínico comum, definida pela frequência de episódios de infecção do trato urinário inferior.
Definição
É caracterizada por:
- ≥ 2 infecções em 6 meses.
- Ou ≥ 3 infecções em 1 ano.
Conduta
O manejo da cistite recorrente envolve uma combinação de medidas comportamentais e, em alguns casos, profilaxia antibiótica.
- Medidas Comportamentais:
- Urinar após o coito.
- Higiene local adequada.
- Hidratação oral abundante.
- Evitar segurar a urina por longos períodos.
- Antibioticoprofilaxia: Pode ser considerada em casos selecionados.
Esquema de Profilaxia
- Nitrofurantoína: 50-100mg/dia.
- Duração: O tempo de profilaxia pode variar, mas geralmente é superior a 3 meses, podendo se estender por até 1 ano, conforme a literatura.
🧠 Conceito: Probióticos e cranberry não possuem evidências científicas robustas que justifiquem seu uso na prevenção ou tratamento da cistite recorrente.
Pielonefrite (ITU Alta)
Classificação
Tradicionalmente, a Infecção do Trato Urinário (ITU) pode ser classificada como não complicada ou complicada. Essa distinção é fundamental para guiar a abordagem diagnóstica e terapêutica.
- Não Complicada: Refere-se a infecções que ocorrem em um trato urinário estrutural e funcionalmente normal, sem fatores de risco adicionais para falha terapêutica ou complicações.
- Complicada: Envolve infecções em pacientes com anormalidades anatômicas ou funcionais do trato urinário (como cateteres, cálculos, obstruções, estenoses, stents ou drenos), condições como pielonefrite enfisematosa e abscessos renais, ou em grupos específicos como imunocomprometidos e diabéticos descompensados.
🧠 Conceito Chave: Pelos conceitos mais atuais, é crucial entender que toda pielonefrite é considerada uma infecção urinária complicada, independentemente da presença de outros fatores de risco. Essa perspectiva é vital para a estratificação de risco e a escolha do tratamento.
Sintomas que sugerem uma ITU complicada incluem:
- 🌡️ Febre: Temperatura corporal superior a 37,7ºC.
- 🥶 Calafrios, Tremores, Fadiga ou Mal-estar: Sintomas sistêmicos significativos.
- 🦵 Lombalgia ou Sensibilidade em Ângulo Costovertebral: Indicativos de envolvimento renal.
- 🤢 Náuseas ou Vômitos: Podem dificultar a terapia oral e indicar maior gravidade.
- ♂️ Dor Pélvica ou Perineal em Homens: Sugere envolvimento prostático ou outras complicações.
É importante ressaltar que pacientes com anormalidades urológicas, imunocomprometidos ou com diabetes não controlada, embora apresentem fatores de risco para infecções graves, não são automaticamente classificados com ITU complicada na vigência de sintomas urinários baixos. Contudo, esses pacientes têm maior propensão a desenvolver infecções graves que podem evoluir rapidamente, exigindo atenção redobrada.
Agentes Etiológicos e Suas Dicas
Conhecer os principais agentes etiológicos e suas características é fundamental para a prática clínica:
- 🦠 Escherichia coli (E. coli): O uropatógeno mais comum, responsável pela maioria das ITUs, tanto em homens quanto, principalmente, em mulheres.
- 🦠 Proteus spp.: Frequentemente associado à alcalinização da urina e à formação de cálculos de estruvita (pedras de infecção).
- 🦠 Staphylococcus saprophyticus: Uma causa comum de ITU em mulheres jovens sexualmente ativas.
- 🦠 Adenovírus: Principal agente viral associado à cistite hemorrágica.
- 🦠 Pseudomonas aeruginosa: Geralmente ligada a manipulações do trato urinário, como cateterismo ou instrumentação.
- 🦠 Enterococo: Associado a manipulações do trato urinário, presença de prepúcio e comum em homens idosos.
Clínica
A apresentação clássica da pielonefrite inclui a tríade de febre, dor no flanco e calafrios, frequentemente acompanhada de sinal de Giordano positivo. Sintomas de cistite (disúria, polaciúria, urgência) podem ou não estar presentes.
- 🌡️ Febre: Geralmente alta e tipicamente se eleva em um padrão chamado “cerca de piquete”, resolvendo após 72 horas de tratamento antibiótico eficaz.
- ⚠️ Apresentações Atípicas: São comuns, especialmente em idosos, imunossuprimidos e pacientes debilitados, onde os sintomas podem ser mais sutis, inespecíficos ou até ausentes.
🚨 Alerta: Em 20-35% dos casos de pielonefrite, ocorre bacteremia. Por isso, em qualquer paciente com suspeita de pielonefrite, é mandatório coletar pelo menos duas hemoculturas antes de iniciar a antibioticoterapia.
Diagnóstico
O diagnóstico da pielonefrite baseia-se na combinação de clínica, urinálise (EAS) e urocultura, sendo estes exames obrigatórios. Para pacientes que necessitam de hospitalização, exames adicionais como hemograma completo, proteína C reativa (PCR), avaliação da função renal e eletrólitos séricos devem ser solicitados para uma avaliação mais abrangente da gravidade e presença de complicações.
EAS (Exame de Urina Tipo I)
- 🧪 Esterase Leucocitária Reagente: Indica a presença de piúria, ou seja, leucócitos na urina, que é um marcador de inflamação.
- 🔬 Piúria: Definida como mais de 5 leucócitos por campo de grande aumento ou mais de 10.000 leucócitos/mL.
- 🧪 Nitrito Positivo: Sugere a presença de bactérias Gram-negativas que convertem nitrato em nitrito. Possui baixa sensibilidade, mas alta especificidade para ITU.
- 🦠 Bacteriúria e Gram Positivos: A presença de bactérias no sedimento urinário e a coloração de Gram podem fornecer pistas importantes sobre o agente etiológico.
⚠️ Atenção: Fique atento aos principais germes relacionados à ITU com nitrito negativo: Pseudomonas aeruginosa, Staphylococcus aureus e Enterococcus spp. Estes uropatógenos não possuem a enzima nitrato-redutase, resultando em teste de nitrito falso-negativo.
Urinocultura
A urocultura é indispensável para a confirmação diagnóstica, identificação precisa do agente etiológico e determinação do perfil de sensibilidade aos antibióticos, o que é crucial para guiar a terapia antimicrobiana.
Tomografia (com ou sem contraste): Quando Solicitar?
A tomografia computadorizada é um exame de imagem valioso, indicado em situações específicas para avaliar complicações ou anormalidades do trato urinário:
- 🔎 Dúvida Diagnóstica: Quando a apresentação clínica não é clara ou há suspeita de outras condições.
- 🚨 Falha Terapêutica/Doença Persistente: Ausência de melhora clínica (especialmente da febre) após 72 horas de tratamento antibiótico adequado.
- 🚨 Suspeita de Abscesso ou Obstrução: Condições graves que exigem intervenção imediata.
- 🧬 Anormalidades Anatômicas Conhecidas: Para avaliar a extensão da infecção ou a presença de complicações em pacientes com uropatias pré-existentes.
Tratamento (7-21 Dias)
Tradicionalmente, a maioria dos pacientes com pielonefrite era hospitalizada para receber antibioticoterapia intravenosa. No entanto, as evidências atuais sugerem que a terapia oral é aceitável em casos selecionados, especialmente em pacientes com baixo risco de complicações e boa tolerância oral. O plano de tratamento deve ser sempre individualizado, considerando a gravidade do quadro e os fatores de risco do paciente.
Indicações de Internação Hospitalar
A hospitalização é recomendada nas seguintes situações:
- 🚨 Gravidade Clínica: Pacientes com sepse, instabilidade hemodinâmica ou sinais de disfunção orgânica.
- 🛡️ Imunodepressão: Pacientes imunocomprometidos (HIV, uso de imunossupressores, neutropenia).
- 🤰 Gestação: Todas as gestantes com pielonefrite devem ser hospitalizadas.
- 🔎 Suspeita de Complicações: Obstrução do trato urinário, abscesso renal ou nefrolitíase.
- ♂️ Sexo Masculino: Pielonefrite em homens é frequentemente considerada complicada e exige investigação mais aprofundada.
- 🤢 Vômitos Persistentes: Impossibilidade de manter a via oral e garantir a absorção do antibiótico.
Esquemas Terapêuticos
| Tipo de Pielonefrite |
Cenário |
Opções de Antibióticos |
| Não Complicada |
Hospitalar |
Ciprofloxacino, Levofloxacino ou Ceftriaxona (intravenosos) |
| Ambulatorial (Baixo Risco de Resistência) |
Quinolonas (Ciprofloxacino, Levofloxacino), Ceftriaxona (dose única IM/IV seguida de oral) ou Amoxicilina-Clavulanato |
| Ambulatorial (Alto Risco de Resistência) |
Ertapenem (intravenoso ou intramuscular) |
| Complicada |
Cobertura para Pseudomonas spp. |
Piperacilina-Tazobactam ou Cefepime |
| ESBL + Pseudomonas spp. |
Imipenem ou Meropenem |
| Cobertura Empírica para Gram-Positivos |
Considerar Vancomicina (especialmente em casos de sepse grave ou fatores de risco para MRSA) |
Intervenção Cirúrgica
A intervenção cirúrgica é indicada em casos de nefrolitíase obstrutiva que não pode ser resolvida clinicamente ou em abscessos renais com diâmetro superior a 5 cm.
A suspeita de abscesso renal deve surgir na ausência de melhora da febre após 4-5 dias de antibioticoterapia adequada, ou na presença de febre com piúria estéril (bacteriúria sem crescimento na hemocultura, sugerindo que a bactéria está encapsulada no abscesso). O tratamento antibiótico para abscesso deve sempre incluir cobertura anti-Pseudomonas.
💊 Dica de Tratamento: Para casos não complicados, uma abordagem aceitável pode ser a
verificação do Gram da urina antes do início da antibioticoterapia para guiar a escolha inicial, otimizando o tratamento empírico:
- Cocos Gram-positivos em cadeia (sugestivo de Enterococo): Ampicilina ou Amoxicilina.
- Cocos Gram-positivos em cachos (sugestivo de Estafilococos): Cefalosporinas.
- Gram-negativos: Aminoglicosídeos. Evitar quinolonas como primeira escolha devido ao aumento da resistência.
🚫 Medicamentos a Evitar: Atenção! Fosfomicina e Nitrofurantoína, embora eficazes para cistite, não devem ser utilizadas no tratamento da pielonefrite devido à baixa penetração no parênquima renal. O Bactrim (sulfametoxazol-trimetoprim) só deve ser empregado se houver comprovação de suscetibilidade do patógeno.
Prognóstico
Praticamente todos os pacientes com pielonefrite apresentam melhora significativa nos primeiros dois dias de antibioticoterapia, com resolução da febre e melhora do estado geral. A ausência de melhora nesse período deve levantar a forte suspeita de complicações como abscessos renais ou obstrução do trato urinário, exigindo investigação adicional e reavaliação do plano terapêutico.
Aprofundando a Profilaxia de ITU Recorrente/de Repetição
Definição de ITU de Repetição
A Infecção do Trato Urinário (ITU) de repetição é geralmente definida como duas ou mais infecções em um período de 6 meses ou três ou mais infecções em 1 ano. É importante ressaltar que essa definição pode não ser consensual em todas as literaturas, e a melhor forma de tomar a decisão sobre iniciar a profilaxia é avaliar se as infecções recorrentes interferem significativamente na qualidade de vida da paciente.
Medidas para Prevenir a Pielonefrite
Diversas medidas podem ser adotadas para reduzir o risco de ITU de repetição e, consequentemente, de pielonefrite:
- 🚫 Evitar Uso de Espermicidas: Podem alterar a flora vaginal e aumentar o risco de ITU.
- ♀️ Estrogênio Vaginal na Pós-Menopausa: Ajuda a restaurar a flora vaginal e a integridade da mucosa em mulheres menopausadas.
- 🚽 Urinar Após a Relação Sexual (Mulheres): Auxilia na eliminação de bactérias que podem ter ascendido à uretra durante o coito.
- ❌ Evitar Cateterização Urinária Desnecessária: Reduz o risco de infecções associadas a cateteres.
- 🛠️ Corrigir Anormalidades Urológicas: Estenoses, cálculos e outras anomalias anatômicas devem ser corrigidas cirurgicamente quando indicado.
- 💊 Profilaxia com Antibióticos: Indicada em mulheres com ITU de repetição e no pós-transplante renal imediato.
- 🍓 Produtos à Base de Cranberry: Embora populares, a evidência científica para sua eficácia na prevenção de ITU é limitada e inconsistente, não sendo uma recomendação de primeira linha.
Estratégias de Profilaxia
Existem três abordagens principais para a profilaxia de ITU de repetição, que devem ser escolhidas com base nas características e preferências da paciente:
- 1. Profilaxia Contínua: Administração diária de um antibiótico em baixa dose por um período prolongado.
- 2. Profilaxia Pós-Coito: Dose única de antibiótico administrada após a relação sexual, indicada para mulheres cuja ITU está claramente relacionada à atividade sexual.
- 3. Profilaxia Iniciada Pela Paciente: A paciente é instruída a coletar uma amostra de urina para cultura e iniciar o antibiótico ao primeiro sinal de infecção, sob orientação médica.
Para as estratégias contínua e pós-coito, os regimes comuns incluem sulfametoxazol-trimetoprim (SMZ-TMP) ou nitrofurantoína, administrados uma vez ao dia em 1/3 ou 1/4 da dose habitual, geralmente por um período de 6 meses ou mais, conforme a necessidade clínica e a resposta do paciente.
Outros Tipos de Pielonefrite
Pielonefrite Xantogranulomatosa
Uma forma rara e grave de pielonefrite crônica, caracterizada por destruição maciça do parênquima renal e substituição por tecido granulomatoso.
- 👤 Perfil Típico: Mulheres de meia-idade com histórico de pielonefrite de repetição.
- 🖼️ Achados de Imagem: Presença de cálculos coraliformes e destruição renal extensa, com o característico sinal da pata do urso na tomografia, que representa o parênquima renal substituído por massas inflamatórias.
- 🦠 Agentes Etiológicos Comuns: Principalmente E. coli e Proteus spp.
- 💊 Tratamento: Combinação de antibioticoterapia prolongada e, frequentemente, nefrectomia do rim afetado, devido à natureza destrutiva e irreversível da doença.
Pielonefrite Enfisematosa
Uma infecção necrotizante grave do rim, caracterizada pela produção de gás no parênquima renal e/ou no sistema coletor, sendo uma emergência urológica.
- 👤 Perfil Típico: Pacientes diabéticos com hiperglicemia descompensada e pielonefrite grave.
- 🖼️ Achados de Imagem: Detecção de gás no parênquima renal ou nos tecidos perirrenais na tomografia computadorizada, que é o exame de escolha para o diagnóstico.
- 🦠 Agentes Etiológicos Comuns: Predominantemente E. coli e Klebsiella spp.
- 💊 Tratamento: Antibioticoterapia de amplo espectro e, frequentemente, drenagem percutânea do gás e coleções. Em casos mais graves e refratários, a nefrectomia pode ser necessária para salvar a vida do paciente.