Meningite
Conceitos Iniciais
A meningite é caracterizada por uma infecção purulenta das meninges e do espaço subaracnoide. Sua incidência é mais comum nos meses de inverno e, frequentemente, é precedida por infecções das vias aéreas superiores (IVAS) ou influenza.
Fisiopatologia
O processo patológico da meningite bacteriana geralmente se inicia com a colonização da oronasofaringe por um agente infeccioso. A partir daí, ocorre a disseminação hematogênica, onde o patógeno invade a corrente sanguínea e, posteriormente, o sistema nervoso central (SNC). Uma vez no SNC, há proliferação bacteriana e uma intensa resposta inflamatória, culminando em edema cerebral e hipertensão intracraniana (HIC).
🧠 Conceito Chave: Para que ocorra meningite, o germe deve inicialmente colonizar a oronasofaringe. A principal via de acesso ao SNC é a disseminação hematogênica. A ascensão direta do germe da oronasofaringe para o espaço subaracnoide ocorre apenas em casos de trauma cranioencefálico (TCE) com fístula liquórica. É crucial entender que a meningococcemia (sepse por meningococo) pode ocorrer sem meningite, e esse conceito é vital para o prognóstico.
Fatores de Risco
Diversos fatores podem aumentar a susceptibilidade à meningite, especialmente por pneumococo:
- Infecções prévias: Otite Média Aguda (OMA), Sinusite.
- Condições médicas: Alcoolismo, Diabetes Mellitus, Esplenectomia, Hipogamaglobulinemia, Infecção por HIV, Anemia Falciforme, Deficiência do Complemento.
- Trauma: TCE com fratura de base de crânio e fístula liquórica.
Etiologia
Na prática clínica e em provas de residência, é comum que o agente etiológico seja descrito por sua morfologia e coloração pelo Gram, em vez de seu nome. É fundamental memorizar essas características:
💡 Dica de Prova: Os dois principais agentes da meningite são diplococos. O Pneumococo é Positivo ao Gram, enquanto a Neisseria meningitidis (meningococo) é Negativa. O Haemophilus influenzae é um bacilo Gram-negativo, e a Listeria monocytogenes é um bacilo Gram-positivo.
| Agente Etiológico |
Morfologia |
Coloração de Gram |
| Streptococcus pneumoniae (Pneumococo) |
Diplococo |
Gram-positivo |
| Neisseria meningitidis (Meningococo) |
Diplococo |
Gram-negativo |
| Haemophilus influenzae |
Bacilo |
Gram-negativo |
| Listeria monocytogenes |
Bacilo |
Gram-positivo |
Etiologia por Faixa Etária e Situações Específicas
- Recém-Nascidos: Streptococcus do Grupo B (S. agalactiae), E. coli e Listeria monocytogenes. A Listeria é particularmente relevante em extremos de idade (RN e idosos) e em pacientes imunocomprometidos.
- 1 Mês – 3 Meses: Os agentes anteriores, com a adição de Neisseria meningitidis e Streptococcus pneumoniae.
- 3 Meses – 50-55 Anos: Predominantemente Streptococcus pneumoniae (1º lugar) e Neisseria meningitidis (2º lugar). O pneumococo é considerado o agente mais comum de meningite bacteriana em todas as idades, segundo o Harrison e o Ministério da Saúde.
- Após TCE/Fístula Liquórica: O pneumococo é o principal agente a ser considerado, pois pode ascender diretamente da oronasofaringe sem disseminação hematogênica.
- Pós-Punção Lombar: Staphylococcus aureus e Pseudomonas aeruginosa. Em idosos, deve-se adicionar a cobertura para Listeria monocytogenes.
💊 Tratamento Essencial: Se houver suspeita de infecção por Listeria monocytogenes, a Ampicilina é o antibiótico de escolha e deve ser incluída no esquema terapêutico.
Particularidades dos Agentes Etiológicos
Neisseria meningitidis (Meningococo)
- Acomete principalmente indivíduos com menos de 20 anos.
- Pacientes com deficiência em componentes do complemento são mais suscetíveis.
- Existem 13 sorogrupos, sendo A, B, C, Y e W135 os mais associados à doença invasiva. No Brasil, o sorogrupo C é o mais prevalente.
- A letalidade é de aproximadamente 10%, inferior à do pneumococo.
- Cerca de 10-30% da população pode ser portadora assintomática na nasofaringe.
Listeria monocytogenes
- Bacilo Gram-positivo que afeta principalmente idosos e pacientes com imunidade celular alterada (transplantados, gestantes no segundo e terceiro trimestres, portadores de neoplasias malignas, indivíduos em terapia imunossupressora).
- Apresenta uma letalidade de cerca de 15%.
Haemophilus influenzae tipo B
- Maior incidência em adultos não vacinados, devido à ampla cobertura vacinal na infância.
Bastonetes Gram-Negativos
- Podem causar meningite em pacientes alcoolistas, diabéticos com infecção do trato urinário (ITU) crônica e em indivíduos com estrongiloidíase disseminada.
- Também são uma complicação importante em procedimentos neurocirúrgicos.
Estafilococos (S. aureus e S. epidermidis)
- Causas relevantes em pacientes com derivação ventriculoperitoneal (DVP) e dispositivos subcutâneos para quimioterapia intratecal.
Manifestações Clínicas
A apresentação clínica da meningite pode variar, mas alguns sinais e sintomas são clássicos e de grande importância diagnóstica.
Sinais e Sintomas
- Tríade Clássica: Febre, Rigidez de Nuca e Cefaleia.
- Hipertensão Intracraniana (HIC): Em casos mais graves, pode haver pupilas dilatadas e pouco reativas, papiledema, paralisia do VI par craniano, descerebração e o reflexo de Cushing (caracterizado por bradicardia, hipertensão arterial sistêmica e arritmia respiratória).
- Convulsões: Podem ocorrer em alguns pacientes.
- Hiponatremia: Devido à Síndrome da Secreção Inapropriada de Hormônio Antidiurético (SIADH), presente em aproximadamente 40% dos casos.
- Rash/Petéquias: Mais comuns na meningococcemia, indicando doença invasiva.
- Síndrome de Waterhouse-Friderichsen: Destruição hemorrágica das adrenais, levando a choque. Pode ser causada por sepse por Neisseria meningitidis ou Pseudomonas em crianças.
🚨 Emergência: Síndrome de Waterhouse-Friderichsen! Esta síndrome é uma condição grave de choque séptico com insuficiência adrenal aguda, frequentemente associada à meningococcemia. Devido à dificuldade em diferenciar a causa do choque (séptico vs. insuficiência adrenal), a administração empírica de corticoides é uma prática comum em pacientes chocados com suspeita de meningococcemia.
- Comprometimento Encefálico: Dependendo do grau de envolvimento do parênquima cerebral, podem surgir paralisias, tremores, transtornos pupilares, hipoacusia, ptose e nistagmo.
- Paralisia do VII Par e Oftalmoplegia: Mais frequentemente associadas à meningite pneumocócica.
🧠 Conceito: Meningoencefalite! Quando há acometimento tanto das meninges quanto do parênquima cerebral, o quadro é denominado meningoencefalite.
Complicações e Espectros Clínicos
Coleção Subdural
A formação de coleção subdural é uma complicação que justifica a diferença no tempo de tratamento entre a meningite meningocócica e a pneumocócica. Enquanto a meningite meningocócica pode ser tratada em 7 dias (o meningococo é mais sensível à penicilina), a meningite pneumocócica requer um tratamento mais prolongado, geralmente de 14 dias, para garantir a esterilização completa do espaço subaracnoide e prevenir a formação de abscessos subdurais.
Espectros da Doença Meningocócica
A doença meningocócica pode se manifestar em diferentes espectros clínicos, com prognósticos variados:
- Meningite "Pura": A forma mais comum, com infecção restrita às meninges.
- Meningite + Meningococcemia: Infecção das meninges associada à presença do germe na corrente sanguínea (sepse).
- Meningococcemia "Pura": A forma mais grave, onde o germe está presente na corrente sanguínea causando sepse, mas sem evidência de meningite. Paradoxalmente, a ausência de meningite piora o prognóstico na doença meningocócica, pois indica uma infecção sistêmica mais descontrolada.
Exame Físico: Sinais Meníngeos
A avaliação dos sinais meníngeos é fundamental no exame físico de pacientes com suspeita de meningite.
Sinal de Brudzinski
O examinador flexiona passivamente o pescoço do paciente, que está em decúbito dorsal. O sinal é positivo se houver flexão espontânea e involuntária de ambas as pernas e coxas. Na meningite, a flexão do pescoço estica as raízes nervosas através das meninges inflamadas, causando dor e o movimento reflexo dos membros inferiores.
Sinal de Kernig
Com o paciente em decúbito dorsal, o examinador flexiona passivamente o quadril a 90 graus, mantendo o joelho estendido. O sinal é positivo se o paciente sentir dor, resistência e incapacidade de estender o joelho completamente (além de 135 graus) enquanto o quadril permanece flexionado.
Sinal de Lasègue
Este teste, também conhecido como elevação da perna estendida, é classicamente associado à compressão radicular (dor ciática). No entanto, há uma sobreposição com o sinal de Kernig, e ambos podem ser positivos na meningite. A diferença crucial é que, na radiculopatia lombossacra, o sinal de Lasègue é geralmente unilateral, enquanto na meningite, ele é bilateral.
🔎 Diagnóstico Diferencial: Em Lasègue, a dor bilateral sugere meningite, enquanto a dor unilateral é mais indicativa de radiculopatia.
Diagnóstico
O diagnóstico da meningite é uma emergência médica que exige agilidade e precisão. A abordagem diagnóstica envolve a coleta de hemoculturas e, crucialmente, a análise do líquido cefalorraquidiano (LCR) obtido por punção lombar.
Coleta de Hemocultura
A coleta de hemoculturas deve ser realizada antes do início da antibioticoterapia (ATB). Embora o antibiótico administrado possa reduzir a sensibilidade da cultura do LCR em cerca de duas horas, muitos autores preconizam que o início do ATB não deve ser atrasado pela punção lombar, especialmente em situações de emergência. Geralmente, há tempo hábil para a punção lombar entre a coleta das hemoculturas e o início do tratamento.
🚨 Atenção: Nunca atrase o início do antibiótico! A meningite bacteriana é uma emergência infecciosa, e o tempo porta-ATB deve ser de no máximo 60 minutos para otimizar o prognóstico.
Punção Lombar (PL) para Análise do LCR
A punção lombar é o procedimento diagnóstico padrão-ouro para a meningite, realizada tipicamente entre as vértebras L3-L4. A análise do LCR é essencial para identificar o agente etiológico e diferenciar os tipos de meningite.
Indicações para Neuroimagem (Tomografia Computadorizada - TC) antes da PL
Em certas situações clínicas, a realização de uma neuroimagem (geralmente TC de crânio) antes da punção lombar é mandatória para excluir lesões expansivas ou sinais de hipertensão intracraniana grave que poderiam aumentar o risco de herniação cerebral durante a PL. As principais indicações incluem:
- Imunodepressão (ex: HIV/AIDS, uso de imunossupressores, câncer).
- Papiledema ao exame de fundo de olho.
- Redução grave do nível de consciência (escore de Glasgow < 10).
- Déficit neurológico focal (ex: hemiparesia, afasia).
- História de TCE prévio (traumatismo cranioencefálico).
- Convulsões recentes (menos de 1 semana).
- História de doenças do SNC (ex: hidrocefalia, massa cerebral).
🧠 Conceito Chave: A TC antes da PL não contraindica a punção, mas sim busca lesões expansivas ou sinais de HIC grave. Se presentes, a PL pode ser realizada com maior cautela e, em alguns casos, guiada por raquimanometria.
Contraindicações da Punção Lombar
Existem contraindicações absolutas e relativas para a realização da punção lombar:
- Contraindicação Absoluta Principal: Presença de lesão infecciosa no local da punção (risco de inocular microrganismos no espaço subaracnoide).
- Outras Contraindicações (relativas ou que exigem cautela/avaliação prévia):
- Coagulopatia grave não corrigida (risco de hematoma epidural).
- Insuficiência respiratória aguda (pode piorar com a posição).
- Hipertensão Intracraniana (HIC) grave com sinais de herniação iminente (ex: anisocoria, hipertensão arterial sistêmica, bradicardia - tríade de Cushing).
- Presença de lesão expansiva intracraniana (identificada por neuroimagem).
💡 Dica: Em lactentes com fontanela aberta, a punção lombar pode ser realizada mesmo na presença de sinais de HIC, pois a fontanela aberta oferece um mecanismo de compensação e menor risco de herniação.
Análise do Líquor: Parâmetros e Interpretação
A análise do LCR é fundamental para diferenciar os tipos de meningite. Os principais parâmetros a serem avaliados são o aspecto, a celularidade (pleocitose), a concentração de proteínas (proteinorraquia) e a glicose (glicorraquia).
Interpretação da Glicorraquia
A glicorraquia normal corresponde a aproximadamente 2/3 da glicemia sérica do paciente, coletada simultaneamente. Valores médios variam entre 40-60 mg/dL, mas o cálculo da proporção é mais preciso para evitar erros de interpretação.
🧠 Lembre-se: O LCR é normalmente um "deserto" de células (até 4 células/mm³). O aumento do número de células é chamado de pleocitose, indicando um processo inflamatório ou infeccioso no espaço subaracnoide.
Quadro Comparativo do Líquor nas Meningites
| Critério |
Bacteriana |
Viral |
Fúngica |
Tuberculosa |
| Aspecto |
Turvo, opalescente |
Límpido ou opalescente |
Límpido ou opalescente |
Opalescente |
| Celularidade |
> 500 células/mm³ (predomínio de neutrófilos) |
100-500 células/mm³ (predomínio de linfócitos) |
Normal ou < 500 células/mm³ (predomínio de linfócitos) |
100-1000 células/mm³ (neutrófilos e linfócitos) |
| Proteínas (Normal: 20-45 mg/dL) |
Elevada (> 200 mg/dL) |
Normal ou levemente aumentada |
Normal ou levemente aumentada |
Muito elevada (> 300 mg/dL) |
| Glicose (Normal: 2/3 da glicemia) |
↓↓↓ (< 40 mg/dL ou LCR/sangue < 0,4) |
Normal |
Normal ou ↓↓ |
↓↓↓↓↓↓ (< 40 mg/dL) |
| Lactato (Normal: < 19,6 mg/dL) |
↑↑↑ |
Normal ou levemente aumentado |
Normal |
Levemente aumentado |
Achados Específicos na Meningite Bacteriana
Para a meningite bacteriana, os achados clássicos no LCR são:
- Pressão de Abertura: Geralmente elevada (> 18 cmH₂O), avaliada pelo raquimanômetro.
- Celularidade: > 500 células/mm³, com predomínio de polimorfonucleares (neutrófilos).
- Proteínas: Aumentadas (> 45 mg/dL, frequentemente > 200 mg/dL).
- Glicose: Diminuída (< 40 mg/dL ou relação glicose LCR/glicose sanguínea < 0,4).
Exames Complementares do LCR
- Bacterioscopia pelo Gram: Positiva em 60-80% dos casos. Permite a identificação presuntiva do agente:
- Pneumococo (Streptococcus pneumoniae): Diplococo Gram-positivo.
- Meningococo (Neisseria meningitidis): Diplococo Gram-negativo.
- Haemophilus influenzae tipo B: Cocobacilo Gram-negativo.
- Listeria monocytogenes: Cocobacilo Gram-positivo.
- Staphylococcus aureus: Cocos Gram-positivos em cachos.
- Cultura: Positiva em 80-90% dos casos, variando conforme o agente (ex: 80% para Haemophilus, 50% para Pneumococo, 30-40% para Meningococo).
- Antígenos Bacterianos (Aglutinação pelo Látex): Detecta antígenos bacterianos no LCR com alta especificidade (próxima de 100% para meningococo e pneumococo) e boa sensibilidade. Outros métodos incluem contraimunoeletroforese cruzada, teste do Limulus (para endotoxinas de Gram-negativos), PCR, imunofluorescência e ELISA.
⚠️ Importante: Mesmo com Gram ou cultura negativos, o tratamento empírico não deve ser atrasado se a suspeita clínica for alta, devido à sensibilidade limitada desses exames.
🔎 Diagnóstico Complementar: Em casos de meningococcemia associada, a biópsia das lesões petequiais pode revelar o microrganismo, auxiliando na confirmação etiológica.
Diferenciação Rápida dos Tipos de Meningite
Para fixar os conceitos e auxiliar na diferenciação rápida para provas, observe os padrões clássicos:
- Meningite Bacteriana: Aumento de polimorfonucleares (neutrófilos) e glicose muito baixa.
- Meningite Fúngica ou Tuberculosa: Aumento de linfomononucleares e glicose baixa (comumente em pacientes HIV+ para criptococose).
- Meningite Viral (ou Asséptica): Aumento de linfomononucleares e glicose normal. É a meningite mais comum na prática, frequentemente causada por enterovírus.
🧠 Conceito: Em todas as formas de meningite, há hiperproteinorraquia (aumento das proteínas no LCR), sendo esse aumento muito importante na meningite tuberculosa.
Observações Adicionais sobre o LCR
- Uso de ATB prévio: Se o paciente já estiver em uso de antibióticos, o LCR inicial de uma meningite bacteriana pode apresentar celularidade normal ou predomínio de linfomononucleares, mascarando o padrão clássico e dificultando a interpretação.
- LCR Sanguinolento: Um LCR com aspecto sanguinolento (ou xantocrômico) pode indicar um acidente de punção ou hemorragia subaracnoide. Para diferenciar, após a centrifugação do conteúdo, se for acidente de punção, o sobrenadante ficará límpido. Na hemorragia subaracnoide, o sobrenadante permanece xantocrômico.
- Listeria e Linfomononucleares: Em aproximadamente 1/3 dos casos de meningite bacteriana aguda (MBA) por Listeria monocytogenes, pode haver predomínio de linfomononucleares, o que pode confundir com meningite viral ou fúngica.
Morfologia Bacteriana no Gram
A identificação da morfologia e coloração Gram é um passo crucial para o tratamento empírico direcionado, mesmo antes da cultura:
| Morfologia no Gram |
Bactéria Comum |
| Diplococos Gram-positivos |
Streptococcus pneumoniae (Pneumococo) |
| Diplococos Gram-negativos |
Neisseria meningitidis (Meningococo) |
| Cocobacilos e bastões Gram-positivos |
Listeria monocytogenes |
| Pequenos cocobacilos pleomórficos Gram-negativos |
Haemophilus influenzae tipo B |
| Cocos ou cocobacilos Gram-positivos |
Streptococcus do grupo B (principalmente em neonatos) |
Tratamento da Meningite
O tratamento inicial da meningite bacteriana é sempre empírico, baseado na faixa etária e nos fatores de risco do paciente, antes da identificação do agente etiológico. A escolha dos antibióticos visa cobrir os patógenos mais prováveis para cada grupo.
🧠 Lembre-se: Em caso de suspeita de Listeria monocytogenes, a Ampicilina é o antibiótico de escolha! Ela é fundamental em neonatos, idosos e imunocomprometidos. 💊
Antibioticoterapia Empírica por Faixa Etária
- Recém-nascidos (RN) até 2-3 meses: CEFOTAXIMA + AMPICILINA
- Justificativa: Em neonatos, o ceftriaxone é evitado devido ao risco de Kernicterus, pois compete intensamente com a bilirrubina pela ligação às proteínas plasmáticas. A cefotaxima é a cefalosporina preferencial. A ampicilina é incluída para cobertura de Listeria monocytogenes e Streptococcus agalactiae (GBS).
- 2-3 meses até 55 anos: CEFTRIAXONE + VANCOMICINA
- Justificativa: Nesta faixa etária, a incidência de Listeria diminui, e a ampicilina geralmente não é necessária. A vancomicina é adicionada devido ao aumento da prevalência de pneumococos resistentes à ceftriaxona, uma recomendação que tem sido amplamente adotada na literatura brasileira e internacional.
- > 55 anos ou com comorbidades (ex: alcoolismo, imunossupressão): CEFTRIAXONE + VANCOMICINA + AMPICILINA
- Justificativa: A ampicilina é reintroduzida para cobrir novamente a Listeria monocytogenes, que volta a ser um patógeno relevante em idosos e pacientes com comorbidades que comprometem a imunidade celular.
Esquemas Empíricos Detalhados (Baseado em Harrison)
Para uma abordagem mais aprofundada, o Harrison detalha esquemas empíricos considerando condições subjacentes específicas:
| Condição/Faixa Etária |
Antibioticoterapia Empírica |
Observações |
| Adultos até 55 anos |
Cefotaxima, Ceftriaxone ou Cefepime + Vancomicina |
Cobertura para S. pneumoniae (incluindo cepas resistentes), N. meningitidis e H. influenzae. |
| Adultos > 55 anos, Alcoólatras, Debilitados, Transplantados, Gestantes, Pacientes com câncer |
Esquema acima + AMPICILINA |
⚠️ Atenção: Adição de Ampicilina para cobrir Listeria monocytogenes. |
| Meningite nosocomial, Pós-TCE, Pós-neurocirurgia, Neutropênicos, Deficiência da imunidade celular |
CEFTAZIDIMA ou MEROPENEM + Vancomicina + AMPICILINA |
🔎 Diagnóstico: Cobertura para bacilos Gram-negativos (incluindo Pseudomonas), Staphylococcus e Listeria. |
| Meningite pós-punção lombar |
CEFTAZIDIMA + OXACILINA |
Cobertura para Pseudomonas e Staphylococcus (incluindo S. aureus). |
💡 Dica: A inclusão da Vancomicina nos esquemas empíricos é uma prática consolidada, especialmente devido à crescente resistência do Streptococcus pneumoniae às cefalosporinas de terceira geração. Protocolos brasileiros têm se alinhado às recomendações americanas nesse aspecto. 💊
Tratamento Direcionado por Cultura e Sensibilidade
Após a identificação do agente etiológico e seu perfil de sensibilidade, a antibioticoterapia pode ser ajustada. Abaixo, as recomendações para situações específicas:
Streptococcus pneumoniae (Pneumococo) Guiado por Cultura
- Sensível à Penicilina: Penicilina G Cristalina
- Resistência Intermediária à Penicilina: Cefotaxima ou Ceftriaxone
- Alta Resistência à Penicilina: Cefotaxima ou Ceftriaxone + Vancomicina
Situações Específicas
- Cobertura de Pseudomonas associada: Substituir Cefotaxima ou Ceftriaxone por Ceftazidima (ou Cefepime, conforme Cecil).
- Cobertura de Listeria: Ampicilina (alternativa: SMZ-TMP/Bactrim).
- Otite, Mastoidite ou Sinusite associadas: Adicionar Metronidazol para cobertura de anaeróbios.
Tratamento da Meningite com Etiologia Determinada
Uma vez que o agente etiológico é identificado, o tratamento pode ser otimizado. A tabela abaixo resume as recomendações, adaptadas de referências como Harrison e Cecil:
| Agente Etiológico |
Antibiótico(s) |
Duração do Tratamento |
| Neisseria meningitidis |
Penicilina G Cristalina ou Ampicilina. Para cepas resistentes à Ampicilina: Ceftriaxone ou Cefotaxima. |
7 dias |
| Haemophilus influenzae |
Ceftriaxone ou Cefotaxima |
7-10 dias |
| Streptococcus pneumoniae |
- Sensível à Penicilina: Penicilina G Cristalina
- Resistência Intermediária: Ceftriaxone ou Cefotaxima
- Resistente à Penicilina: Vancomicina + Ceftriaxone ou Cefotaxima
|
14 dias |
| Staphylococcus spp. |
Oxacilina (para S. aureus sensível à meticilina - MSSA) ou Vancomicina (para S. aureus resistente à meticilina - MRSA). |
21 dias |
| Bacilos Gram-negativos (outros) |
Ceftriaxone ou Cefotaxima |
21 dias |
| Pseudomonas aeruginosa |
Ceftazidima ou Cefepime ou Meropenem |
21 dias |
| Listeria monocytogenes |
Ampicilina (com ou sem Gentamicina) ou SMZ-TMP (Sulfametoxazol-Trimetoprima). |
21 dias |
| Streptococcus agalactiae (GBS) |
Penicilina G ou Ampicilina |
14-21 dias |
💊 Rifampicina: Indicações para Adição ao Esquema Terapêutico
A Rifampicina pode ser adicionada ao tratamento em situações específicas, principalmente quando há preocupação com a eficácia da terapia inicial:
- Piora clínica após 24-48 horas de tratamento com vancomicina e cefalosporina.
- Falha na esterilização liquórica (persistência de culturas positivas no líquor).
- Identificação de Streptococcus pneumoniae com Concentração Inibitória Mínima (CIM) > 4 para cefotaxima ou ceftriaxone.
💊 Corticosteroides (Dexametasona) na Meningite
A administração de corticosteroides, especificamente a dexametasona, é uma medida adjuvante importante no tratamento da meningite bacteriana, visando reduzir a inflamação e prevenir sequelas neurológicas.
- Momento da Administração: Deve ser administrada 20-30 minutos ANTES da primeira dose do antibiótico.
- Dose e Duração: Dexametasona 0,15 mg/kg EV a cada 6 horas por 2 a 4 dias.
- Indicações Principais: Embora seja comum iniciar empiricamente em quase todos os pacientes com suspeita de meningoencefalite, sua eficácia comprovada é para meningites causadas por Haemophilus influenzae e Streptococcus pneumoniae.
- Prevenção de Sequela: É particularmente útil na prevenção da surdez, a sequela mais comum da meningite por Haemophilus influenzae.
🚨 Alerta: Se a dexametasona for utilizada em meningite por Pneumococo com alta resistência à Penicilina (CIM > 2), a Rifampicina DEVE ser adicionada ao esquema. Isso ocorre porque os glicocorticoides podem diminuir a penetração da vancomicina no Sistema Nervoso Central (SNC). Uma alternativa seria a administração intraventricular de vancomicina. 💊
Na prática, diante de um paciente com suspeita de meningite, as duas condutas imediatas são a administração de corticosteroide e antibiótico, mesmo antes de conhecer o agente etiológico. Se posteriormente for confirmado Pneumococo ou Haemophilus, o corticoide é mantido pelo período recomendado.
😷 Isolamento e Quimioprofilaxia
Medidas de controle de infecção são cruciais para prevenir a disseminação da doença:
- Tipo de Isolamento: Isolamento respiratório (para gotículas, utilizando máscara cirúrgica) é necessário.
- Duração: Mantido pelas primeiras 24 horas após o início da antibioticoterapia eficaz.
- Agentes Específicos: Indicado para meningites causadas por Neisseria meningitidis e Haemophilus influenzae, que são os agentes que requerem quimioprofilaxia para contatos próximos.
- Conduta Empírica: Na dúvida sobre o agente etiológico, o isolamento deve ser instituído para todos os pacientes com suspeita de meningite até a confirmação ou exclusão dos agentes transmissíveis.
⚠️ Atenção: Em casos de dúvida diagnóstica entre meningite bacteriana aguda (MBA) e meningoencefalite herpética, o Aciclovir deve ser iniciado empiricamente junto com os antibióticos, até que os resultados dos exames complementares permitam a diferenciação. 💊
📈 Evolução e Prognóstico
A resposta ao tratamento é um indicador importante da evolução do paciente:
- Resolução da Febre: Espera-se que a febre ceda dentro dos primeiros 3 a 5 dias de tratamento.
- Febre Prolongada: Se a febre persistir, deve-se investigar complicações como: empiema subdural, abscesso cerebral, tromboflebites, febre medicamentosa (por antibióticos) ou infecção urinária. Nesses casos, Tomografia Computadorizada (TC) ou Ressonância Magnética (RNM) são úteis.
- Outras Indicações de Neuroimagem:
- Desenvolvimento de déficit neurológico focal.
- Manutenção de rebaixamento do nível de consciência (RNC) ou convulsões após 72 horas do início do tratamento.
- Culturas persistentemente positivas.
- Meningite recorrente (para investigar a presença de fístula liquórica).
- Artrite Reativa na Meningite Meningocócica: Em alguns casos, pode ocorrer persistência ou retorno da febre associada à artrite reativa por volta do 4º dia. Esta não é uma complicação infecciosa e geralmente responde bem ao tratamento com AAS (Ácido Acetilsalicílico).
- Agente Mais Letal: O Streptococcus pneumoniae (Pneumococo) é o agente etiológico mais associado a maior letalidade na meningite bacteriana. A meningite meningocócica, por outro lado, tende a responder melhor à antibioticoterapia.
🧪 Reavaliação e Nova Punção Lombar
A reavaliação do líquor através de uma nova punção lombar é fundamental em cenários específicos para monitorar a resposta ao tratamento e guiar condutas adicionais:
- Indicações de Nova Punção Lombar:
- Após 24-36 horas de tratamento para meningite por Streptococcus pneumoniae ou Neisseria meningitidis.
- Após 48 horas para meningite por Staphylococcus aureus.
- Qualquer paciente que não apresente melhora clínica após as primeiras 48 horas de tratamento.
- Conduta em Caso de Líquor Não Estéril: Se o líquor não estiver estéril na nova punção, deve-se acrescentar Vancomicina EV ao esquema antibiótico. Se a vancomicina já estiver em uso, considerar a administração intraventricular ou intratecal da vancomicina.
- Dispensa da Punção: Nos casos em que há boa evolução clínica e o agente não se enquadra nas indicações acima, a punção lombar de controle após 48 horas é dispensável.
Quimioprofilaxia
A quimioprofilaxia é uma medida crucial para prevenir a disseminação de certos tipos de meningite em contatos próximos do paciente, visando erradicar o agente etiológico da nasofaringe e reduzir o risco de infecção secundária.
Doença Meningocócica
Para Quem?
A profilaxia é indicada para indivíduos com risco elevado de contaminação, incluindo:
- Familiares e contatos íntimos que compartilham o mesmo domicílio.
- Profissionais de saúde que tiveram contato direto com secreções de vias aéreas do paciente (ex: durante intubação orotraqueal, aspiração de vias aéreas ou exame de fundo de olho sem proteção adequada).
- Outras crianças em ambientes de coletividade, como creches e jardins de infância, que tiveram contato próximo com o caso índice.
Como?
O esquema de tratamento profilático envolve:
- 💊 Rifampicina: A dose padrão para adultos é de 600 mg/dose, administrada a cada 12 horas, por 2 dias, totalizando 4 doses. Para crianças, a dose é de 10 mg/kg a cada 12 horas.
- Alternativas: Em situações específicas, outras opções podem ser consideradas:
- Ceftriaxona: Preferencialmente indicada para gestantes, embora no Brasil a rifampicina seja frequentemente utilizada mesmo nesses casos.
- Ciprofloxacino.
- Azitromicina: 500 mg em dose única (DU).
Meningite por Haemophilus influenzae
Para Quem?
A quimioprofilaxia é recomendada para todos os contatos próximos do paciente, especialmente se houver no ambiente uma criança com menos de 5 anos de idade, não vacinada ou imunodeprimida, além do caso índice.
Como?
- 💊 Rifampicina: A dose para adultos é de 600 mg, administrada uma vez ao dia, por 4 dias, totalizando 4 doses. Para crianças, a dose é de 20 mg/kg/dia.
⚠️ Atenção: Se o tratamento inicial da meningite (seja por Haemophilus ou Meningococo) não incluiu um agente que erradique o patógeno da orofaringe (ex: uso de penicilina para meningococo em vez de ceftriaxona), é fundamental realizar a quimioprofilaxia para o próprio paciente após a alta hospitalar. Isso garante a erradicação do agente e previne a disseminação.
Medidas Adicionais Importantes
- Isolamento e Profilaxia: Medidas de isolamento respiratório são essenciais para casos de meningite por Meningococo e Haemophilus para evitar a transmissão.
- Corticoterapia: A administração de corticoides é indicada em casos de meningite por Pneumococo e Haemophilus para reduzir a inflamação e as complicações neurológicas.
Diagnóstico Diferencial
Meningite Viral
🧠 Conceito Chave: A meningite viral é mais comum que a Meningite Bacteriana Aguda (MBA), apresentando geralmente um quadro menos grave e um melhor prognóstico.
Etiologia
Os principais agentes virais envolvidos na meningite viral incluem:
- Enterovírus (Coxsackie, Ecovírus, etc.): São responsáveis por 75-90% dos casos, com transmissão predominantemente fecal-oral.
- Outros vírus: Herpes-simplex (HSV-1, HSV-2), Varicela-Zoster (VZV), Epstein-Barr (EBV), HIV e Caxumba.
| Agente Viral |
Características e Diagnóstico |
| Enterovírus |
🧪 Diagnóstico: O agente etiológico específico é frequentemente identificado por PCR e cultura viral do LCR, complementados por sorologias virais. |
| HSV-2 |
Pode ocorrer após o primeiro episódio de herpes genital, representando cerca de 5% dos casos de meningite viral. É a principal causa de Meningite Viral Recorrente (Meningite de Mollaret). 🧪 Diagnóstico: Realizado pela PCR do DNA viral no LCR. 💡 Lembre-se: Embora a meningite herpética seja frequentemente associada ao HSV-2, a maior parte dos casos de encefalite herpética é causada por HSV-1. |
| VZV |
Pode manifestar-se concomitantemente a um quadro de varicela, mas em até 40% dos casos não há alterações cutâneas. 🧪 Diagnóstico: Por PCR ou detecção de anticorpos anti-VZV no LCR. |
| EBV |
Pode acompanhar ou não um episódio de mononucleose. 🔎 Sugestivo: A presença de linfócitos atípicos no LCR e linfocitose atípica no sangue periférico sugere esta etiologia. 🧪 Diagnóstico: O anticorpo IgM anti-VCA é indicativo. O EBV não é isolado em cultura de LCR, mas métodos de amplificação do DNA viral por PCR são eficazes para o diagnóstico. |
Clínica
Os sintomas da meningite viral são semelhantes aos da MBA (cefaleia, febre, sinais meníngeos), porém geralmente com menor gravidade e um curso mais brando.
- Cefaleia: Frequentemente descrita como fronto e retro-orbitária, podendo haver dor à movimentação ocular.
- Manifestações cutâneas: Um rash maculopapular pode ser observado em alguns casos.
- Sinais inespecíficos: Mialgia, dor abdominal, fotofobia, náuseas e vômitos são comuns.
- Paralisia de pares cranianos: Ocorre mais frequentemente na meningite associada ao HIV, afetando sobretudo os pares V, VII e VIII.
- Ausência de sinais focais: Sinais neurológicos focais e convulsões são geralmente incomuns.
- Sinais meníngeos: Os sinais de Kernig e Brudzinski são habitualmente ausentes.
Diagnóstico
A análise do Líquido Cefalorraquidiano (LCR) é a principal ferramenta diagnóstica:
- Aspecto: Geralmente claro ou levemente opalescente.
- Celularidade: Aumento da celularidade, mas geralmente mantendo < 500 células/mm³, com predomínio de mononucleares.
- Proteínas: Elevação discreta.
- Glicose: Geralmente normal.
🔎 Dica Diagnóstica: Em adultos jovens e sexualmente ativos com quadro de meningite viral, é sempre prudente investigar a presença de HIV.
Tratamento
O tratamento da meningite viral é primariamente de suporte, e a internação hospitalar geralmente não é necessária, exceto em casos de maior gravidade ou complicações.
- 💊 Aciclovir: Pode ser benéfico (embora não haja consenso universal) em casos de meningite herpética e em meningites graves causadas por EBV ou VZV. O tempo de tratamento varia de 7 a 14 dias (administração oral ou venosa).
- Corticoides: Algumas referências, como o capítulo de EBV do Harrison, apontam benefício do uso de corticoides em infecções graves do Sistema Nervoso Central (SNC) por vírus.
- Imunoglobulina: Pode ser utilizada em pacientes com deficiência de imunidade humoral.
- Pleconarina: Demonstrou um benefício discreto no tratamento das meningites causadas por enterovírus.
Meningoencefalite Herpética
🚨 Conceito Crítico: É uma forma grave de meningoencefalite, cujo quadro clínico se assemelha à Meningite Bacteriana Aguda, mas com a adição de sinais de envolvimento encefálico, o que a torna uma emergência médica.
Etiologia
- Causada principalmente pelo Vírus Herpes Simples tipo 1 (HSV-1).
Clínica
Apresenta sintomas iguais aos da MBA (febre, cefaleia, sinais meníngeos), mas com a adição de manifestações de disfunção cerebral:
- Distúrbios do comportamento.
- Sinais neurológicos focais e difusos: Incluem afasia, ataxia, paresias e convulsões.
Diagnóstico
- LCR: O perfil é semelhante ao da meningite viral. Um achado característico e importante é a presença de > 500 hemácias/mm³ em mais de 20% dos pacientes.
- Exames de Neuroimagem (TC de crânio) e Eletroencefalograma (EEG): Frequentemente revelam alterações no lobo temporal. Este é um achado crucial que ajuda a diferenciar uma meningite viral simples de uma encefalite viral.
- PCR do LCR: É o melhor método para identificar o vírus no LCR, confirmando a etiologia.
Tratamento
- 💊 Aciclovir: A dose recomendada é de 10 mg/kg, administrada a cada 8 horas, por via venosa, durante 14 a 21 dias. É recomendado repetir a punção liquórica após o término do tratamento para avaliar a resposta.
🚨 Urgência: A meningoencefalite herpética possui uma alta letalidade (20-30% dos casos). O início tardio do tratamento aumenta significativamente o risco de sequelas neurológicas graves, como déficits cognitivos e alterações comportamentais. Na dúvida diagnóstica entre MBA e meningoencefalite herpética, a conduta é tratar empiricamente para ambas as condições até a definição etiológica.
Meningite Tuberculosa
🧠 Conceito Importante: A meningite tuberculosa é uma das formas mais graves da tuberculose, com alto potencial de morbimortalidade e risco de sequelas neurológicas permanentes. A vacinação com BCG reduz o risco, mas não impede completamente o desenvolvimento da doença. Em adultos, frequentemente se manifesta como uma forma pós-primária de TB.
Clínica
O quadro clínico geralmente é subagudo (sendo a principal causa de meningite subaguda), com evolução em três fases distintas, embora possa, ocasionalmente, manifestar-se de forma aguda, similar à MBA.
- Estágio I: Caracterizado por sintomas inespecíficos, como febre baixa, mal-estar e cefaleia leve, com duração de 2 a 3 semanas.
- Estágio II: A doença progride com cefaleia mais intensa, febre persistente e sinais meníngeos evidentes, acompanhados de alterações de pares cranianos, hemiparesia e desorientação. 💡 Dica: O diagnóstico e o início do tratamento devem ser idealmente realizados nesta fase para otimizar o prognóstico.
- Estágio III: Representa a fase avançada da doença, com evolução para torpor, coma, coreoatetose e crises convulsivas, indicando grave comprometimento neurológico.
Complicações
A meningite tuberculosa pode levar a diversas complicações graves e permanentes, incluindo:
- Compressão de pares cranianos.
- Vasculite e infarto cerebral devido à inflamação dos vasos sanguíneos.
- Hidrocefalia hiperbárica (aumento da pressão intracraniana).
- Síndrome de Secreção Inapropriada de Hormônio Antidiurético (SIADH).
- Tuberculomas (lesões granulomatosas no parênquima cerebral).
Diagnóstico
- Radiografia de Tórax: Pode revelar achados de tuberculose pulmonar pós-primária ou cicatricial em até 45% dos adultos.
- Tomografia Computadorizada (TC) de Crânio Contrastada:
- Hidrocefalia: É o principal achado, presente em 50% dos adultos.
- Hipercaptação da meninge basal: Observada em 40% dos casos, indicando inflamação.
- Infartos cerebrais: Presentes em 15-30% dos pacientes.
- Tuberculomas: Encontrados em 5-10% dos casos.
- LCR (Líquido Cefalorraquidiano):
- Proteínas: Muito elevadas, geralmente entre 100-500 mg/dL.
- Celularidade: Aumento (100-500 células/mm³), com predomínio linfomononuclear.
- Glicose: Baixa em 80% dos casos. ⚠️ Atenção: Nos primeiros dias da doença, pode haver predomínio de polimorfonucleares (PNM) em 20% dos casos.
- ADA (Adenosina Deaminase): Apresenta alta acurácia (90%) no diagnóstico.
- BAAR (Bacilo Álcool-Ácido Resistente): Raramente positivo no LCR.
- Cultura: Positiva em 50-60% dos casos, mas pode levar semanas para o resultado.
- PCR: A amplificação do DNA viral por PCR tem sensibilidade de até 80%, mas apresenta cerca de 10% de falso-positivos.
- PPD (Derivado Proteico Purificado): A reatividade pode ou não ocorrer na meningite tuberculosa; uma conversão recente é um dado epidemiológico importante que fala a favor do diagnóstico.
Tratamento
- 💊 Esquema RIPE: O tratamento consiste em um esquema de 12 meses, iniciando com Rifampicina, Isoniazida, Pirazinamida e Etambutol (RIPE) por 2 meses, seguido por Rifampicina e Isoniazida (RI) por mais 10 meses.
- Corticoterapia: A Prednisona (40-60 mg/dia) é administrada nas primeiras 4-8 semanas. É fundamental para prevenir sequelas neurológicas e mitigar a piora clínica que pode ocorrer nos primeiros dias do tratamento com RIPE.
- Punção Lombar: Recomenda-se repetir a punção lombar a cada 15 dias, monitorando a normalização dos níveis de proteína no LCR.
🚨 Conduta Urgente: Devido à alta probabilidade de sequelas graves, não é necessário aguardar a confirmação diagnóstica para iniciar o tratamento. Em caso de forte suspeita clínica, trate imediatamente!
Evolução e Prognóstico
- O diagnóstico no estágio I da doença é raro.
- A letalidade varia de 10-20% nos estágios I e II.
- Sequelas importantes ocorrem em 25-50% dos casos, sendo a hidrocefalia a complicação mais comum e debilitante.