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Parasitoses Intestinais


Conceitos Iniciais

As parasitoses intestinais representam um grupo heterogêneo de infecções causadas por protozoários ou helmintos, com manifestações clínicas que variam desde quadros assintomáticos até condições graves e potencialmente fatais. Para uma compreensão aprofundada, é fundamental dominar alguns conceitos básicos que permeiam o estudo dessas patologias.

⚠️ Atenção: Eosinofilia nem sempre presente! É um erro comum associar todas as parasitoses intestinais à eosinofilia. Embora seja um marcador importante em algumas infecções por helmintos, muitos parasitas, especialmente os protozoários, raramente ou nunca induzem essa resposta imune em indivíduos imunocompetentes. Portanto, a ausência de eosinofilia não exclui o diagnóstico de parasitose.

A apresentação clínica das parasitoses intestinais é extremamente diversa. Um mesmo parasita pode causar desde uma diarreia leve e autolimitada até manifestações neurológicas focais, como convulsões ou paraplegia, indicando a capacidade de extrapolar o trato gastrointestinal e afetar outros sistemas orgânicos.

🔎 Diagnóstico: Limitações do EPF! O Exame Parasitológico de Fezes (EPF) é uma ferramenta diagnóstica crucial, mas não é universalmente indicado para todas as parasitoses. Existem situações e parasitas específicos em que o EPF pode não ser o método mais eficaz ou sequer ser capaz de detectar o agente etiológico, exigindo a utilização de outras abordagens diagnósticas.

É importante ressaltar que a maioria das infecções parasitárias intestinais é assintomática. Contudo, mesmo na ausência de sintomas, o tratamento é mandatório quando um parasita patogênico é identificado. A principal preocupação, neste cenário, não é apenas o portador individual, mas a saúde pública, visando interromper a cadeia de transmissão e prevenir a disseminação do agente infeccioso na comunidade.

Classificação dos Parasitas Intestinais

Os parasitas intestinais são tradicionalmente divididos em dois grandes grupos, com características biológicas e ciclos de vida distintos:

Grupo Parasitário Características Principais Exemplos de Parasitas de Interesse
Protozoários Unicelulares, divisão binária, não causam eosinofilia (imunocompetentes), forma infecciosa: trofozoíta, forma de resistência: cisto. Entamoeba histolytica, Giardia lamblia, Isospora belli*, Cryptosporidium*
Helmintos Multicelulares, reprodução sexuada, frequentemente causam eosinofilia, formas diagnósticas: ovos, larvas, adultos.
    Nematelmintos Vermes cilíndricos. Ascaris lumbricoides, Toxocara canis/cati, Ancilostomídeos (Necator americanus, Ancylostoma duodenale), Strongyloides stercoralis, Trichuris trichiura, Enterobius vermicularis
    Platelmintos Vermes achatados. Schistosoma mansoni, Taenia solium, Taenia saginata

*Isospora belli e Cryptosporidium serão abordados em contextos específicos como HIV/AIDS.


Protozoários Intestinais

Aspectos Gerais

Os protozoários intestinais de maior relevância para a prática clínica e para as provas de residência são a Entamoeba histolytica e a Giardia lamblia. A forma parasitária ativa e patogênica desses organismos é o trofozoíta, responsável pela inflamação e pelos sintomas.

Características Essenciais dos Protozoários:

🧠 Conceito Chave: Cistos vs. Ovos! Protozoários não produzem ovos! A pesquisa no EPF para protozoários é de cistos (forma de resistência) e, em casos de diarreia aguda, também de trofozoítas (forma ativa). Essa distinção é fundamental para o diagnóstico correto e para evitar erros conceituais.

Diagnóstico

O diagnóstico das parasitoses por protozoários intestinais baseia-se principalmente na identificação do parasita ou de seus componentes:

Tratamento

O tratamento das infecções por protozoários intestinais é realizado primariamente com medicamentos da classe dos nitroimidazólicos ou nitazoxanida:

Classe Terapêutica Exemplos de Fármacos Posologia Comum Observações
Nitroimidazólicos Metronidazol, Secnidazol, Tinidazol Variável conforme o fármaco e o parasita (ex: Metronidazol 500mg 8/8h por 5-7 dias para amebíase). Amplo espectro contra protozoários anaeróbios.
Nitazoxanida Anita 1 comprimido (500mg) a cada 12 horas por 3 dias. Eficaz contra diversos protozoários e alguns helmintos, boa tolerabilidade.

A escolha específica do fármaco e a duração do tratamento podem variar de acordo com o parasita identificado e a gravidade do quadro clínico.

Amebíase

A amebíase é uma infecção causada pela Entamoeba histolytica, um protozoário cujo hábitat principal é o cólon. Sua característica mais marcante é a capacidade de invasão tecidual, diferenciando-a de outros parasitas intestinais. Ao penetrar a mucosa intestinal, a ameba pode alcançar a circulação sanguínea e se disseminar para outros órgãos, resultando em manifestações tanto intestinais quanto extraintestinais.

Ciclo de Vida

Manifestações Clínicas

A maioria das infecções por Entamoeba histolytica é assintomática ou apresenta quadros inespecíficos. No entanto, a capacidade invasiva do parasita pode levar a quadros mais graves:

🧠 High Yield Note: Ameboma
A invasão crônica da mucosa colônica pela Entamoeba histolytica pode induzir uma intensa resposta inflamatória, levando à formação de uma massa granulomatosa no intestino, conhecida como ameboma. Clinicamente, o ameboma pode simular um câncer colorretal, apresentando-se com alteração do hábito intestinal, dor abdominal e massa palpável. O diagnóstico diferencial é fundamental para evitar procedimentos desnecessários.

Diagnóstico

O diagnóstico da amebíase intestinal é primariamente realizado pelo Exame Parasitológico de Fezes (EPF).

É importante coletar múltiplas amostras, pois a eliminação dos parasitas pode ser intermitente.

Formas Extraintestinais

Devido à drenagem venosa do cólon para o sistema porta, o fígado é o órgão mais frequentemente acometido em casos de amebíase extraintestinal, resultando no abscesso hepático amebiano. Outros locais menos comuns incluem pulmões e sistema nervoso central.

Diagnóstico do Abscesso Hepático Amebiano

O diagnóstico envolve a combinação de exames de imagem e sorologia:

⚠️ Atenção: Em casos de manifestações sistêmicas de parasitoses, que geram intensa resposta imunológica, a produção de anticorpos é significativa, tornando a sorologia um método diagnóstico valioso.

Tratamento da Amebíase

O tratamento da amebíase deve considerar a forma da doença (intestinal ou extraintestinal) e a presença de sintomas.

⚠️ Cuidado: Comensais!
Não se deve tratar a presença de Entamoeba coli, Iodamoeba butschlii ou Endolimax nana nas fezes, pois são amebas comensais e não patogênicas. Este é um ponto frequente em provas de residência!
Característica Abscesso Hepático Amebiano Abscesso Hepático Piogênico
Agente Entamoeba histolytica Bactérias (ex: E. coli, Klebsiella)
Número de Lesões Geralmente único Frequentemente múltiplos
Localização Geralmente lobo direito, perto do diafragma Ambos os lobos
Início Agudo a subagudo Agudo
Icterícia Rara ou leve Moderada a grave
Conteúdo Achocolatado ("pasta de anchova"), inodoro Amarelo-esverdeado, purulento, fétido
Diagnóstico Específico Sorologia (ELISA) positiva Hemocultura, cultura do aspirado
Tratamento Metronidazol (não drenar rotineiramente) Drenagem (percutânea ou cirúrgica) + Antibióticos
Drenagem Reservada para casos de ruptura iminente ou falha terapêutica Indicada na maioria dos casos

Giardíase

A giardíase é uma infecção do intestino delgado causada pela Giardia lamblia (também conhecida como Giardia intestinalis ou Giardia duodenalis). Diferente da ameba, a giárdia não invade a mucosa intestinal, mas sim "atapeta" a superfície dos enterócitos no duodeno e jejuno, formando uma barreira física que impede a absorção de nutrientes.

Ciclo de Vida

Similar à amebíase, o ciclo de vida da giárdia envolve a ingestão de cistos (forma infectante) presentes em água ou alimentos contaminados. No intestino delgado, os cistos liberam trofozoítas, que se aderem à mucosa e se multiplicam. Os trofozoítas podem se encistar novamente e serem eliminados nas fezes.

Manifestações Clínicas

A giardíase é uma causa comum de diarreia, especialmente em crianças. A clínica clássica é de uma diarreia alta não invasiva:

🔎 Diagnóstico Diferencial:
Devido à má absorção e diarreia alta, a giardíase é um importante diagnóstico diferencial para a doença celíaca.

Diagnóstico

O diagnóstico da giardíase é feito principalmente por:

Tratamento

O tratamento da giardíase é eficaz e geralmente envolve nitroimidazóis ou albendazol.

🧬 Vínculo com Imunodeficiência:
Há uma associação conhecida entre hipogamaglobulinemia por IgA e casos graves ou recorrentes de giardíase. Pacientes com deficiência de IgA têm uma barreira de proteção gastrointestinal diminuída, tornando-os mais suscetíveis a infecções por Giardia lamblia.
💡 Dica Clínica:
Fezes mal-cheirosas e pálidas são um forte indicativo de esteatorreia, sugerindo má absorção intestinal, um achado comum na giardíase.

Helmintos

Aspectos Gerais

Os helmintos, popularmente conhecidos como "vermes", são parasitas multicelulares que podem infectar o trato gastrointestinal humano, entre outros órgãos. Embora alguns possam ser microscópicos em suas fases iniciais, muitos são visíveis a olho nu em sua forma adulta, podendo variar de alguns milímetros a vários metros de comprimento.

Características Fundamentais dos Helmintos

🧠 Conceito Chave: A presença de eosinofilia acentuada deve sempre levantar a suspeita de parasitose por helmintos. Diferente de protozoários, helmintos possuem ovos que são eliminados nas fezes.

Ciclo Evolutivo Simplificado

O ciclo de vida de um helminto tipicamente começa com a cópula de vermes adultos (macho e fêmea) no intestino do hospedeiro. A fêmea libera ovos, que são então eliminados nas fezes e contaminam o ambiente (água, solo, alimentos). Uma vez ingeridos por um novo hospedeiro, esses ovos eclodem, liberando larvas. As larvas, por sua vez, se desenvolvem em vermes adultos, reiniciando o ciclo. É crucial notar que ovos de helmintos existem, ao contrário de amebas e giárdias, que eliminam cistos.

Aspectos Clínicos e Epidemiológicos

Quadro Clínico Comum

Os sintomas mais frequentes incluem diarreia e dor abdominal, embora a apresentação possa variar amplamente dependendo do parasita e da carga parasitária.

Tratamento Geral

O tratamento das helmintíases geralmente envolve anti-helmínticos de amplo espectro:

Síndrome de Loeffler

A Síndrome de Loeffler é um quadro clínico caracterizado por infiltrados pulmonares migratórios e eosinofilia periférica, resultante da passagem de larvas de helmintos pelos pulmões durante seu ciclo evolutivo. É uma manifestação de hipersensibilidade a antígenos parasitários.

Helmintos Causadores do Ciclo Pulmonar (Ciclo de Loss)

Cinco helmintos são classicamente associados à Síndrome de Loeffler, realizando uma fase de migração pulmonar essencial para seu desenvolvimento:

💡 Dica Mnemônica: Para lembrar os parasitas que causam a Síndrome de Loeffler, utilize o acrônimo SANTA: Strongyloides stercoralis, Ancylostoma duodenale, Necator americanus, Toxocara canis e Ascaris lumbricoides.

Ascaridíase

A ascaridíase é uma helmintíase intestinal causada pelo Ascaris lumbricoides, considerado o parasita intestinal mais comum do mundo. Sua prevalência é alta em regiões com saneamento básico deficiente.

Conceitos Essenciais

Detalhes do Ciclo Pulmonar e Síndrome de Loeffler na Ascaridíase

Após a ingestão dos ovos, as larvas de Ascaris liberadas no intestino delgado penetram a parede intestinal e atingem a circulação sanguínea. Guiadas pela busca por oxigênio, elas migram para os pulmões. Nos pulmões, perfuram os capilares e invadem os alvéolos, desencadeando uma resposta inflamatória local. Essa fase pulmonar é caracterizada por sintomas como tosse seca, expectoração, crepitações, broncoespasmo (em pacientes asmáticos) e infiltrados pulmonares visíveis em radiografias. Este conjunto de manifestações pulmonares e eosinofilia é conhecido como Síndrome de Loeffler. As larvas são então expelidas dos alvéolos pelos movimentos ciliares e pela tosse, ascendem pela árvore brônquica e traqueia, são deglutidas e, finalmente, chegam ao intestino delgado, onde amadurecem para a forma adulta.

Manifestações Clínicas

O quadro clínico da ascaridíase é bastante variado e depende da fase da infecção e da carga parasitária:

🔎 Diagnóstico Diferencial: Infiltrados pulmonares migratórios são uma forte pista para parasitoses por helmintos, distinguindo-os de pneumonias bacterianas ou virais.

Diagnóstico

O diagnóstico definitivo da ascaridíase é realizado pela identificação de ovos de Ascaris lumbricoides nas fezes através do Exame Parasitológico de Fezes (EPF). É importante lembrar que são ovos, e não cistos, que são encontrados.

Tratamento

O tratamento da ascaridíase varia conforme a apresentação clínica, especialmente em casos de suboclusão intestinal.

Tratamento para Ascaridíase Não Complicada
Manejo da Suboclusão Intestinal por Ascaris

Em casos de suboclusão ou oclusão intestinal, a abordagem é mais complexa e visa evitar a cirurgia, se possível.

⚠️ Atenção: Em casos de suboclusão, NÃO utilizar Pamoato de Pirantel inicialmente, pois sua ação pode causar agitação dos vermes e piorar a obstrução.
Situação Clínica Tratamento de Escolha Observações Importantes
Ascaridíase Não Complicada Albendazol (400mg DU) ou Mebendazol Levamisol, Pamoato de Pirantel, Ivermectina, Nitazoxanida são alternativas.
Suboclusão Intestinal Suporte: Hidratação, SNG. Farmacológico: Piperazina + Óleo Mineral (teórico) ou Enema salina hipertônica + óleo mineral (prática). Contraindicado: Pamoato de Pirantel. Benzodazol após desobstrução. Cirurgia se falha clínica.

Toxocaríase

A toxocaríase é uma zoonose parasitária causada pela infecção por larvas de Toxocara canis (o "áscaris do cachorro") ou, menos frequentemente, Toxocara cati (o "áscaris do gato"). Em humanos, a doença se manifesta como Larva Migrans Visceral ou Larva Migrans Ocular, pois o parasita não consegue completar seu ciclo de vida no hospedeiro acidental.

Conceitos Fundamentais

Patogênese: Larva Migrans Visceral

Quando uma criança ingere ovos embrionados de Toxocara canis (comumente em parques, caixas de areia ou jardins contaminados), esses ovos eclodem no intestino delgado, liberando larvas. No entanto, ao contrário do Ascaris lumbricoides em humanos, as larvas de Toxocara não conseguem completar seu ciclo de vida no hospedeiro humano. Elas penetram a parede intestinal e migram através da circulação para diversas vísceras, como fígado, pulmões, coração, cérebro e olhos. Essas larvas ficam "perdidas" no corpo humano, incapazes de retornar ao intestino para amadurecer, e acabam morrendo após um período. A migração e a presença dessas larvas nos tecidos desencadeiam uma intensa resposta inflamatória e imunológica, que é a base do quadro clínico.

Manifestações Clínicas

A toxocaríase é uma doença sistêmica, com uma ampla gama de achados clínicos devido à migração larvária por diferentes órgãos:

🩸 High Yield Note: A eosinofilia maciça (muito elevada) é um achado característico e quase patognomônico da toxocaríase, refletindo a intensa resposta imune à migração larvária sistêmica.

Diagnóstico

Devido à natureza sistêmica da infecção e à incapacidade das larvas de completarem o ciclo e serem eliminadas nas fezes, o diagnóstico da toxocaríase não é feito por EPF.

Tratamento

O tratamento da toxocaríase visa eliminar as larvas e controlar a resposta inflamatória.

🐾 Vínculo Conceitual: Pense na toxocaríase como a infecção pelo "Áscaris do Cachorro" que se perde no corpo humano, causando uma doença sistêmica e não intestinal.

Ancilostomíase

A ancilostomíase é uma parasitose intestinal causada por helmintos conhecidos como "vermes do velho mundo" e "vermes do novo mundo", que se destacam por sua capacidade de causar anemia ferropriva significativa.

Conceitos Essenciais

🧠 Lembre-se: Os ancilostomídeos são parasitas hematófagos, utilizando seus "dentes" para morder o epitélio intestinal e sugar sangue, o que os torna a principal causa de anemia ferropriva entre as helmintíases.
⚠️ Atenção: A transmissão da ancilostomíase é cutânea (penetração da larva filarioide pela pele), e não fecal-oral.

Quadro Clínico

O quadro clínico da ancilostomíase pode variar desde manifestações cutâneas no local de penetração da larva até sintomas gastrointestinais e sistêmicos.

🔎 Diagnóstico Diferencial: A presença de eosinofilia associada à anemia ferropriva deve sempre levantar a suspeita de ancilostomíase em áreas endêmicas.

Diagnóstico

O diagnóstico da ancilostomíase é feito principalmente pela identificação dos ovos do parasita nas fezes.

Tratamento

O tratamento da ancilostomíase é geralmente simples e eficaz com o uso de anti-helmínticos.

💊 Tratamento: Os "bendazóis", como o Albendazol em dose única, são altamente eficazes contra a ancilostomíase. A suplementação de ferro é crucial para a anemia.

Estrongiloidíase

A estrongiloidíase é uma parasitose causada pelo Strongyloides stercoralis, um geo-helminto com características únicas em seu ciclo de vida, incluindo a capacidade de autoinfestação, que pode levar a quadros graves em imunodeprimidos.

Conceitos Essenciais

🧬 Diferencial: O Strongyloides stercoralis é o único helminto intestinal que elimina larvas (e não ovos) nas fezes e possui a capacidade de autoinfestação.
🚨 Alerta Clínico: Em pacientes imunodeprimidos (especialmente aqueles em uso de corticoides em doses imunossupressoras), a autoinfestação pode levar à hiperinfecção ou forma disseminada da estrongiloidíase. Isso acarreta um risco elevado de sepse por Gram-negativos entéricos devido à translocação bacteriana através da mucosa intestinal lesada pelas larvas, com alta mortalidade. É mandatório rastrear e tratar antes de iniciar imunossupressão potente.

Quadro Clínico

As manifestações clínicas da estrongiloidíase são variadas e podem ser particularmente graves em pacientes com autoinfestação ou imunossupressão.

💡 Dica: A Larva Currens (lesão cutânea migratória e pruriginosa de rápida progressão) é um achado clínico distintivo da estrongiloidíase.

Diagnóstico

O diagnóstico da estrongiloidíase requer métodos específicos devido à eliminação de larvas, e não ovos, nas fezes.

🧪 Exame: Para Estrongiloidíase, o método de Baermann-Moraes é o padrão-ouro para detectar as larvas móveis nas fezes.

Tratamento

O tratamento da estrongiloidíase visa erradicar o parasita e é crucial, especialmente antes de qualquer terapia imunossupressora.

💊 Tratamento de Escolha: A Ivermectina é a primeira linha para estrongiloidíase, sendo fundamental para prevenir quadros graves em imunodeprimidos.

Larvas Importantes

Nome da Larva/Síndrome Agente Etiológico Associado Característica Principal
Larva Migrans Cutânea (Humano) Ancylostoma duodenale, Necator americanus Penetração cutânea da larva filarioide, dermatite do solo.
Larva Migrans Visceral Toxocara canis (e cati) Migração de larvas para órgãos internos (fígado, pulmão, SNC), eosinofilia.
Larva Migrans Cutânea (Cachorro/Gato) Ancylostoma braziliense "Bicho geográfico", lesão cutânea serpiginosa e pruriginosa.
Larva Currens Strongyloides stercoralis Lesão cutânea migratória de rápida progressão, altamente pruriginosa.

Enterobíase (Oxiuríase)

A enterobíase, também conhecida como oxiuríase, é uma parasitose intestinal comum, especialmente em crianças, causada por um nematelminto.

Agente Etiológico e Habitat

Manifestações Clínicas

A principal característica clínica da enterobíase é o prurido anal intenso, especialmente noturno, que ocorre devido à migração das fêmeas grávidas do parasita para a região perianal para depositar seus ovos. Este sintoma pode levar a:

🔎 Dica Clínica: O Enterobius vermicularis é o principal agente etiológico do prurido anal noturno, um achado clássico em provas de residência.

Diagnóstico

O diagnóstico da enterobíase não é feito por exames parasitológicos de fezes convencionais, mas sim pela detecção dos ovos ou do próprio parasita na região perianal.

🧪 High Yield Note: O método de Graham é o padrão-ouro para o diagnóstico de enterobíase, pois os ovos são depositados na região perianal e não nas fezes.

Tratamento

O tratamento da enterobíase é simples e eficaz, geralmente com dose única, mas é crucial tratar todos os membros da família para evitar reinfecções.

💊 Lembre-se: Recomenda-se repetir a dose após 2 a 4 semanas, especialmente em casos de reinfecção, e tratar todos os contatos domiciliares.

Tricuríase (Tricocefalíase)

A tricuríase é uma infecção intestinal causada pelo Trichuris trichiura, um nematelminto que parasita o intestino grosso.

Agente Etiológico e Habitat

Manifestações Clínicas

A maioria das infecções por Trichuris trichiura é assintomática ou causa sintomas leves. No entanto, infecções maciças podem levar a quadros mais graves.

🚨 Atenção: Em provas de residência, a associação entre prolapso retal e parasitose intestinal aponta diretamente para a tricuríase.

Diagnóstico

O diagnóstico da tricuríase é realizado pela identificação dos ovos característicos do parasita nas fezes.

Tratamento

O tratamento da tricuríase geralmente envolve a administração de anti-helmínticos por alguns dias.

Teníase

A teníase é uma infecção intestinal causada pela presença da forma adulta da tênia no intestino delgado humano. É importante diferenciar a teníase da cisticercose, que é a infecção pela forma larval.

Agentes Etiológicos e Habitat

Ciclo de Vida e Transmissão

A teníase é adquirida pela ingestão de carne crua ou malcozida contendo as larvas da tênia (cisticercos).

🧠 Conceito Chave: Na teníase, o homem é o hospedeiro definitivo (abriga a forma adulta do parasita) e se infecta pela ingestão de carne com cisticercos (larvas). O porco ou boi são os hospedeiros intermediários.

Manifestações Clínicas

A teníase é frequentemente assintomática ou causa sintomas gastrointestinais inespecíficos.

A ingestão de ovos de Taenia solium pelo ser humano leva à neurocisticercose, uma condição distinta e mais grave que a teníase.

Diagnóstico

O diagnóstico da teníase baseia-se na identificação de ovos ou proglotes nas fezes.

Tratamento

O tratamento da teníase visa eliminar a tênia adulta do intestino.

💊 Tratamento High Yield: Para teníase, Praziquantel ou Niclosamida em dose única são as escolhas principais.

Himenolepíase

A himenolepíase é uma cestodíase causada pela Hymenolepis nana, conhecida como "tênia anã" devido ao seu pequeno tamanho.

Conceitos Chave

Diagnóstico

Tratamento

Neurocisticercose

A neurocisticercose é a forma mais grave da cisticercose, uma infecção parasitária do sistema nervoso central causada pela ingestão dos ovos da Taenia solium.

Conceitos Fundamentais

🧠 Diferença Crucial: Na teníase, o homem ingere a larva (cisticerco) e abriga a tênia adulta. Na neurocisticercose, o homem ingere o ovo e abriga a larva (cisticerco) em seus tecidos, agindo como hospedeiro intermediário.

Manifestações Clínicas

A clínica da neurocisticercose é extremamente variada e depende do número, tamanho, localização e estágio de desenvolvimento dos cisticercos no SNC.

🚨 Ponto de Prova: Crises epilépticas sem antecedentes neurológicos em um adulto são um forte indicativo de neurocisticercose em áreas endêmicas.

Diagnóstico

O diagnóstico da neurocisticercose é complexo e envolve uma combinação de critérios clínicos, epidemiológicos, imunológicos e, principalmente, de neuroimagem.

Método Diagnóstico Achados Característicos Observações
Ressonância Magnética (RNM) Melhor método para identificar lesões císticas com escólex central (cisto viável). Maior sensibilidade para cistos pequenos e lesões no tronco cerebral.
Tomografia Computadorizada (TC) Melhor exame para identificar microcalcificações cerebrais (cistos calcificados). Útil para avaliar edema perilesional e hidrocefalia.
Líquido Cefalorraquidiano (LCR) Pode apresentar eosinofilia, pleocitose linfomonocitária, hiperproteinorraquia e hipoglicorraquia. Pesquisa de anticorpos (ELISA) ou antígenos (Western Blot) no LCR pode auxiliar.

Tratamento

O tratamento da neurocisticercose é individualizado e depende do número, localização, viabilidade dos cistos e da presença de sintomas.

💊 Estratégia Terapêutica: O tratamento da neurocisticercose é multifacetado, combinando anti-helmínticos para cistos viáveis, corticoides para controlar a inflamação e anticonvulsivantes para crises, além de cirurgia em casos selecionados.

Esquistossomose Mansônica

A esquistossomose mansônica, causada pelo Schistosoma mansoni, é uma helmintíase de grande relevância em saúde pública, especialmente no Brasil. Embora frequentemente abordada no contexto das parasitoses intestinais devido à eliminação de ovos pelas fezes, é crucial entender que o parasita adulto habita os vasos mesentéricos e hemorroidários, e não o lúmen intestinal.

🧠 Conceito Chave: O Schistosoma mansoni é um parasita dos vasos mesentéricos, não do intestino. Sua transmissão é cutânea, e é uma importante causa de hipertensão porta intra-hepática pré-sinusoidal.

Ciclo Biológico

O ciclo de vida do Schistosoma mansoni é complexo e envolve dois hospedeiros:

O ciclo se inicia com a eliminação de ovos nas fezes de um indivíduo infectado. Para a perpetuação do ciclo, esses ovos devem ser depositados em ambientes aquáticos, como lagoas ou açudes. No ambiente aquático, os ovos eclodem, liberando uma larva ciliada, o miracídio, que é a forma não infectante para o homem.

O miracídio penetra ativamente no caramujo do gênero Biomphalaria, onde se desenvolve e se multiplica, transformando-se em cercárias. As cercárias são as formas larvais infectantes para o homem e são liberadas na água pelo caramujo.

A infecção humana ocorre quando as cercárias penetram ativamente na pele de indivíduos que têm contato com águas contaminadas. Após a penetração cutânea, as cercárias migram pela circulação sanguínea, atingindo os vasos mesentéricos, onde amadurecem e se tornam vermes adultos. Os vermes adultos copulam, e as fêmeas depositam ovos, principalmente na submucosa do reto, que são então eliminados nas fezes, reiniciando o ciclo.

⚠️ Atenção: Diferente dos geo-helmintos, a esquistossomose não é transmitida pelo solo, mas sim pela água contaminada com cercárias.

Fisiopatologia da Hipertensão Porta

A hipertensão porta na esquistossomose é uma complicação grave e resulta do destino dos ovos. Embora a maioria dos ovos seja eliminada nas fezes, alguns ficam retidos na parede do reto ou são drenados pela veia mesentérica inferior, alcançando o sistema porta e, consequentemente, o fígado. No fígado, esses ovos se alojam no espaço porta, antes dos sinusoides hepáticos.

Por serem corpos estranhos, os ovos desencadeiam uma intensa reação inflamatória, levando à formação de granulomas. Esses granulomas causam fibrose e endurecimento dos vasos portais intra-hepáticos, resultando em um aumento da resistência ao fluxo sanguíneo e, consequentemente, em hipertensão porta intra-hepática pré-sinusoidal. É importante notar que essa lesão não afeta diretamente os hepatócitos e, portanto, não leva à cirrose hepática, embora possa causar varizes esofágicas e gástricas.

Manifestações Clínicas

A apresentação clínica da esquistossomose varia conforme a fase da infecção:

Dermatite Cercariana ("Coceira do Nadador")

É a manifestação inicial e aguda, ocorrendo no local da penetração das cercárias na pele. Caracteriza-se por uma reação inflamatória pruriginosa, com pápulas e eritema, que geralmente regride espontaneamente.

Forma Aguda: Febre de Katayama

Desenvolve-se semanas após a infecção inicial, quando as larvas migram e os vermes adultos começam a depositar ovos. É uma síndrome de hipersensibilidade à presença do parasita e seus ovos. Os sintomas incluem:

Este quadro é semelhante ao da toxocaríase, mas se diferencia pela ausência da Síndrome de Loeffler e pela história epidemiológica de contato com água doce contaminada (em contraste com o contato com solo contaminado na toxocaríase).

🚨 High Yield Note: A Febre de Katayama é um ponto crucial para provas, caracterizada por uma reação inflamatória aguda à migração larval e deposição de ovos.
Forma Crônica: Granulomas e Complicações

A fase crônica é marcada pela formação persistente de granulomas em resposta aos ovos retidos, levando a complicações sistêmicas:

Co-infecção: Sepse por Salmonella

Indivíduos com esquistossomose podem desenvolver uma salmonelose septicêmica prolongada, caracterizada por febre persistente e hepatoesplenomegalia. A infecção parasitária modifica o sistema imunitário, favorecendo a persistência e disseminação da Salmonella.

Diagnóstico

O diagnóstico da esquistossomose depende da fase da doença:

🔎 Diagnóstico: Para a fase aguda (Febre de Katayama), a sorologia é preferível. Para a fase crônica, o EPF e a biópsia retal são os principais.

Tratamento

O tratamento da esquistossomose visa erradicar o parasita, mas não reverte as complicações crônicas já estabelecidas.

💊 Tratamento: O Praziquantel é a primeira escolha. Lembre-se que os antiparasitários não revertem complicações crônicas como hipertensão porta ou pulmonar, que requerem manejo específico.

High Yield Notes

Característica Parasitose(s) Associada(s)
Geo-helmintos Ancilostomose, Estrongiloidíase
Penetração Cutânea Esquistossomose, Estrongiloidíase, Ancilostomose
Elimina Larva nas Fezes Estrongiloidíase
Ingestão de Larva da Tênia Teníasis
Ingestão de Ovos da Tênia Solium Neurocisticercose
Tratamento com Praziquantel Esquistossomose, Teníase
Febre de Katayama Esquistossomose