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Pneumonias Comunitária e Nosocomial


Conceitos Iniciais

As pneumonias são infecções agudas do parênquima pulmonar, classificadas de acordo com o ambiente de aquisição.

Definições

🧠 Lembre-se: A diferenciação entre PAC, PN e PAVM é fundamental para guiar a investigação etiológica e a escolha da terapia antimicrobiana inicial.

Pneumonia Adquirida na Comunidade (PAC)

A PAC é uma das principais causas de morbidade e mortalidade infecciosa globalmente.

Patogenia

A maioria dos casos de PAC ocorre por meio da microaspiração de microrganismos da orofaringe para as vias aéreas inferiores. Outros mecanismos, menos frequentes, incluem:

Diagnóstico

O diagnóstico da PAC baseia-se primariamente na avaliação clínica e na radiografia de tórax. A radiografia é recomendada para todos os pacientes, se possível, para confirmar o infiltrado pulmonar.

Investigação Etiológica

O tratamento da PAC é, na maioria das vezes, empírico, ou seja, iniciado antes da identificação do agente etiológico. A busca ativa pelo microrganismo causador não é rotineira para pacientes ambulatoriais.

⚠️ Atenção: A investigação etiológica é reservada para casos específicos, como pacientes internados, com quadros graves, refratários ao tratamento inicial ou admitidos em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Nesses cenários, exames como hemocultura, cultura de escarro, pesquisa de antígenos urinários (para Streptococcus pneumoniae e Legionella) e testes moleculares podem ser úteis.

Quadro Clínico

Os sintomas da PAC são variados e podem incluir febre, tosse, dispneia, dor torácica pleurítica e crepitações à ausculta pulmonar. A apresentação pode ser classificada como típica ou atípica, embora haja sobreposição.

Apresentação Típica

Caracteriza-se por um início mais abrupto e sintomas marcantes:

Apresentação Atípica

Apresenta um curso mais insidioso e sintomas menos específicos, muitas vezes mimetizando um quadro gripal:

💡 Dica: Em pacientes idosos ou imunodeprimidos, a apresentação clínica pode ser ainda menos específica, com sintomas como desorientação, prostração e taquidispneia, sem os sinais clássicos de febre ou tosse produtiva. Fique atento a essas manifestações sutis!

Radiografia

A radiografia de tórax é essencial para confirmar o diagnóstico de pneumonia e identificar padrões que podem sugerir a etiologia.

Padrões Radiológicos Comuns

Os principais padrões observados são pneumonia lobar, broncopneumonia e padrão intersticial. Embora haja associações, é importante lembrar que um agente pode causar diferentes padrões.

Padrão Radiológico Características Agentes Típicos Associados Prevalência na PAC
Pneumonia Lobar Consolidação homogênea de um lobo ou segmento pulmonar, com broncogramas aéreos. Streptococcus pneumoniae (principal causa) Menos comum que broncopneumonia para típicos.
Broncopneumonia Infiltrados multifocais, irregulares, peribrônquicos, com acometimento de múltiplos lobos. Streptococcus pneumoniae (principal tipo das pneumonias pneumocócicas e em geral), Haemophilus influenzae, Staphylococcus aureus. Mais prevalente para agentes típicos.
Padrão Intersticial Infiltrados reticulares ou reticulonodulares difusos, espessamento de septos interlobulares. Mycoplasma pneumoniae, Chlamydophila pneumoniae, Vírus, Legionella. Mais prevalente para agentes atípicos.
🔎 Diagnóstico:

É importante notar que 18% das PACs podem ser de etiologia viral e 10-15% podem ser polimicrobianas, frequentemente envolvendo a combinação de um agente típico e um atípico.

Agentes Etiológicos

A identificação dos agentes etiológicos é crucial para a escolha do tratamento. Eles são classificados em típicos e atípicos com base em suas características microbiológicas e resposta aos antimicrobianos.

Agentes Típicos

São bactérias que geralmente respondem bem a antibióticos beta-lactâmicos e coram facilmente pelo método de Gram.

🧠 Conceito: O Streptococcus pneumoniae (pneumococo) é o agente bacteriano mais comum da PAC em todas as faixas etárias, exceto em neonatos (onde predominam estreptococos do grupo B). Ele é o protótipo dos agentes típicos.

Agentes Atípicos

São microrganismos que não coram bem pelo Gram e não respondem adequadamente aos beta-lactâmicos, exigindo outras classes de antibióticos.

Principais Agentes Etiológicos da PAC

A prevalência dos agentes pode variar, mas os mais frequentemente encontrados são:

Em casos de PAC grave, outros agentes devem ser considerados:

Detalhes sobre Agentes Típicos

Streptococcus pneumoniae (Pneumococo)
Haemophilus influenzae
Klebsiella pneumoniae
Staphylococcus aureus

Detalhes sobre Agentes Atípicos

Os agentes atípicos são responsáveis por quadros clínicos que podem ser mais arrastados e com manifestações extrapulmonares.

Mycoplasma pneumoniae

O Mycoplasma pneumoniae é um agente comum, especialmente em faixas etárias mais jovens, e frequentemente associado a uma síndrome gripal prolongada.

🧠 Mnemônico: "Mike plasma mordeu a orelha (miringite bolhosa) do hollyFRIOd (AHAI IgM)".
Legionella pneumophila

A Legionella pneumophila é um bacilo Gram-negativo associado a ambientes aquáticos e sistemas de ar-condicionado, causando quadros mais graves.

🧠 Mnemônico: "Legião de sintomas estranhos" – refere-se à variedade de manifestações atípicas.
Chlamydia pneumoniae

A Chlamydia pneumoniae é uma bactéria intracelular Gram-negativa que causa uma pneumonia geralmente mais leve, frequentemente acompanhada de sintomas de vias aéreas superiores.

💡 Dica: A Chlamydia psittaci deve ser considerada em casos de pneumonia com história de contato com pássaros (psitacose).
Agente Atípico Características Chave Manifestações Extrapulmonares Tratamento de Escolha
Mycoplasma pneumoniae 5-20 anos, "gripão" arrastado Miringite bolhosa, AHAI (IgM), Raynaud, SJS, GBS Macrolídeos, Doxiciclina, Quinolonas
Legionella pneumophila Cocobacilo G-, ar-condicionado, grave Hiponatremia (SIADH), Sinal de Faget, TGI Macrolídeos, Quinolonas
Chlamydia pneumoniae Intracelular G-, PNM leve, VAS Faringite, laringite, sinusite Macrolídeos
Vírus Influenza

O vírus Influenza é um agente viral comum de pneumonia, especialmente durante as estações de surto, e pode levar a quadros graves.

🚨 SRAG: Definida como síndrome gripal (febre, tosse, fadiga, algias) acompanhada de dispneia, saturação de O₂ < 95%, aumento da frequência respiratória ou desconforto respiratório, hipotensão arterial ou piora de doença de base.
⚠️ Fatores de Risco para SRAG:
Moraxella catarrhalis

A Moraxella catarrhalis é um diplococo Gram-negativo frequentemente associado a pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).

Streptococcus pyogenes

O S. pyogenes é uma causa incomum de pneumonia, mas quando ocorre, possui características distintivas.

Pseudomonas aeruginosa

A Pseudomonas aeruginosa é um bacilo Gram-negativo associado a pneumonias graves, especialmente em pacientes com condições predisponentes.

🚨 Associações: Pneumonia grave em pacientes com fibrose cística, bronquiectasias ou imunossupressão.

Anaeróbios

As pneumonias por anaeróbios são tipicamente polimicrobianas e resultam da aspiração de conteúdo orofaríngeo.

🧠 Pneumonite Química vs. Pneumonia por Aspiração:

A aspiração de conteúdo gástrico ou orofaríngeo pode inicialmente causar uma pneumonite química, uma inflamação pulmonar não infecciosa. Nesses casos, o tratamento com antibióticos (ATB) não é indicado nas primeiras horas. Deve-se aguardar a evolução para pneumonia (com sinais de infecção) para iniciar o ATB. A pneumonia por anaeróbios é frequentemente necrosante.

🔎 Localização Típica do Abscesso Pulmonar por Aspiração:

Devido à anatomia do brônquio-fonte direito ser menos angulada, o conteúdo aspirado tende a ir para o pulmão direito.

As localizações são semelhantes às da tuberculose pulmonar.

🚨 Importante: Pneumonia com abscesso no lado esquerdo e evolução aguda deve levantar a suspeita de Staphylococcus aureus, especialmente em usuários de drogas intravenosas. Embora anaeróbios possam causar abscessos à esquerda, o lado direito é o mais comum.

Quando Investigar o Agente Etiológico?

💡 Indicações para Investigação Detalhada:

Métodos Diagnósticos Específicos

Escarro

A análise do escarro é um exame valioso para pacientes com pneumonia comunitária que necessitam de internação hospitalar.

Hemoculturas

Apesar de sua importância em infecções sistêmicas, as hemoculturas possuem baixa taxa de positividade na pneumonia.

USG de Tórax e TC de Tórax

Exames de imagem são cruciais para o diagnóstico e detecção de complicações.

🧪 Comparativo de Imagem:

Na impossibilidade de exames de imagem, o tratamento empírico pode ser iniciado com base na clínica. Exames de imagem são fundamentais para identificar complicações.

Teste do Antígeno Urinário Pneumocócico

Um teste rápido e útil para a detecção de Streptococcus pneumoniae.

Teste do Antígeno Urinário da Legionella

Especialmente útil para o diagnóstico de infecções por Legionella.

PCR de Material Coletado por Swab Nasofaríngeo

Método molecular com ampla aplicação.

Sorologia

A sorologia tem utilidade limitada na prática clínica aguda.

⚠️ Atenção: A sorologia é pouco útil na prática para o diagnóstico agudo de pneumonia.
Procalcitonina (PCT) e Proteína C Reativa (PCR)

Esses marcadores inflamatórios são importantes para o prognóstico e manejo da pneumonia.

🩸 Marcadores Inflamatórios e Prognóstico:
Broncofibroscopia

Procedimento invasivo com indicações específicas.

Painel Viral

Exame importante em contextos específicos.

Abordagem da PAC

1° Passo: Onde Tratar o Paciente?

Critérios para Decisão de Internação

A decisão sobre o local de tratamento para pacientes com pneumonia adquirida na comunidade (PAC) é crucial e deve ser guiada por ferramentas de estratificação de risco, sempre complementadas pelo julgamento clínico. As principais ferramentas incluem o escore CURB-65, o escore PSI/PORT e as diretrizes da ATS/IDSA.

Escore CURB-65

O CURB-65 é um escore britânico amplamente utilizado para avaliar a gravidade da PAC e auxiliar na decisão de internação. Cada critério positivo adiciona um ponto:

A interpretação do escore CURB-65 orienta o manejo:

💡 Dica de Prova: Embora o CURB-65 seja o mais validado, para avaliação à beira-leito na atenção primária, pode-se utilizar o CRB-65 (sem a ureia). Neste, 1 ponto já sugere internação e ≥ 3 pontos a recomenda fortemente. Contudo, o CURB-65 completo é preferível sempre que possível.
⚠️ Atenção: O julgamento clínico é sempre soberano. Um paciente com CURB-65 de 1 ponto, mas com vômitos incoercíveis, vulnerabilidade social ou incapacidade de manter a hidratação oral, deve ser internado.
Escore PSI/PORT (Pneumonia Severity Index)

O Escore PSI, também conhecido como PORT (Pneumonia Outcomes Research Team), é uma ferramenta mais complexa e detalhada que o CURB-65, utilizada para estratificar o risco de mortalidade em 30 dias e auxiliar na decisão do local de tratamento. Ele considera fatores demográficos, comorbidades, achados do exame físico, laboratoriais e radiológicos.

Fatores Demográficos Escore Achados Laboratoriais e Radiológicos Escore
Idade (anos) - Homens n pH < 7,35 +30
Idade (anos) - Mulheres n-10 Ureia > 65 mg/dL +20
Procedência de asilos +10 Sódio < 130 mEq/L +20
Comorbidades Glicose > 250 mg/dL +10
Neoplasia +30 Hematócrito < 30% +10
Doença hepática +20 PaO₂ < 60 mmHg +10
Insuficiência Cardíaca Congestiva (ICC) +10 Derrame pleural +10
Doença cerebrovascular +10 Exame Físico
Doença renal +10 Alteração do estado mental +20
Frequência Respiratória (FR) ≥ 30 ciclos/min +20
Pressão Arterial Sistólica (PAS) < 90 mmHg +20
Temperatura < 35°C ou > 40°C +15
Frequência Cardíaca (FC) ≥ 125 bpm +10

Após o cálculo do escore total, o paciente é classificado em uma das cinco classes de risco, que orientam o local de tratamento:

Classe de Risco Pontuação Total Mortalidade em 30 dias (%) Local Sugerido de Tratamento
I - 0,1 Ambulatório
II ≤ 70 0,6 Ambulatório
III 71-90 2,8 Ambulatório ou internação breve
IV 91-130 8,2 Internação em enfermaria
V > 130 29,2 Internação em UTI
🧠 Conceito: O PSI/PORT é mais preciso que o CURB-65 para estratificação de risco, mas sua complexidade o torna menos prático para uso rápido à beira-leito. É mais útil para decisões em pacientes com menor risco inicial.
Decisão: Enfermaria ou Unidade de Terapia Intensiva (UTI)?

A necessidade de internação em UTI para pacientes com PAC é determinada pela presença de critérios de gravidade, que podem ser divididos em maiores e menores. A presença de um critério maior ou de três ou mais critérios menores indica a necessidade de tratamento em UTI.

Critérios Maiores para Internação em UTI
Critérios Menores para Internação em UTI
💡 Dica: Note que alguns critérios menores são os mesmos do CURB-65. Se um paciente tiver 3 ou mais pontos no CURB-65, ele já preenche um critério para UTI (3 menores).

2º Passo: Como Tratar a Pneumonia?

Esquemas Terapêuticos Empíricos para PAC

A escolha do regime antimicrobiano empírico depende do local de tratamento (ambulatorial, enfermaria ou UTI) e da presença de fatores de risco para patógenos específicos ou resistência a antibióticos.

Tratamento Ambulatorial

Para pacientes tratados em regime ambulatorial, a abordagem difere se há comorbidades ou fatores de risco.

Paciente Previamente Hígido e Sem Fatores de Risco para Pneumococo Resistente

Nesses casos, os principais patógenos a serem considerados são Streptococcus pneumoniae (pneumococo), Mycoplasma pneumoniae e Haemophilus influenzae.

Paciente com Comorbidades, Uso Recente de Antibióticos (últimos 3 meses) ou Fatores de Risco para Pneumococo Resistente

Aqui, a cobertura deve ser mais ampla, visando os mesmos patógenos, mas com maior atenção à resistência.

⚠️ Atenção: As quinolonas respiratórias, embora eficazes, possuem riscos importantes como tendinite, neuropatia, alterações psíquicas e risco de aneurisma de aorta. Seu uso deve ser ponderado.
Tratamento Hospitalar em Enfermaria

Para pacientes internados em enfermaria, a cobertura empírica deve ser mais robusta, visando os patógenos comuns (pneumococo, Mycoplasma, Haemophilus) e outros potenciais.

Tratamento Hospitalar em UTI

Em pacientes críticos na UTI, a cobertura deve ser a mais ampla possível, incluindo pneumococo, bacilos Gram-negativos entéricos, Legionella e Staphylococcus aureus.

Uso de Corticosteroides

O uso de corticosteroides em PAC é considerado em quadros mais graves e com maior resposta inflamatória sistêmica, como aqueles que necessitam de ventilação mecânica ou apresentam dessaturação significativa. A decisão pode ser guiada por marcadores inflamatórios, como a Proteína C Reativa (PCR) > 150 mg/L.

💊 Indicação: Corticoides são reservados para pacientes com PAC grave, especialmente aqueles com choque séptico ou insuficiência respiratória grave.
Controle e Monitoramento

O controle da resposta ao tratamento é primariamente clínico.

Tempo de Tratamento Antibiótico

A duração do tratamento antibiótico varia conforme o agente etiológico e a gravidade da pneumonia.

High Yield Notes - Pontos Chave para PAC

Agentes Etiológicos Comuns e Suas Particularidades
Agente Características/Dicas Tratamento Sugerido (se específico)
🦠 Pneumococo (Streptococcus pneumoniae) Mais comum. Beta-lactâmicos (Amoxicilina, Cefalosporinas).
🦠 Mycoplasma pneumoniae Miringite bolhosa, anemia hemolítica (IgM). Macrolídeos (Azitromicina, Claritromicina).
🦠 Chlamydia pneumoniae Pneumonia atípica. Macrolídeos, Doxiciclina.
🦠 Legionella pneumophila Hiponatremia, diarreia, alteração hepática (↑ transaminases), bradicardia relativa. Macrolídeos (Azitromicina) ou Quinolonas respiratórias.
🦠 Anaeróbios Associados à microaspiração (ex: alcoolismo, disfagia). Clindamicina ou Amoxicilina-Clavulanato.
🦠 Vírus Influenza, RSV, Adenovírus, etc. Antivirais específicos (se disponíveis), suporte.
Critérios de Internação para PAC
Escore CURB-65 (≥ 2 pontos = internação, ≥ 3 pontos = UTI)
💡 Lembre-se: O CRB-65 (sem ureia) pode ser usado na atenção primária, com ≥ 1 ponto indicando internação e ≥ 3 pontos recomendando-a.
Critérios para Internação em UTI (1 Maior OU 3 Menores)

Critérios Maiores:

Critérios Menores:

Esquemas Terapêuticos Resumidos para PAC
Cenário Clínico Patógenos Comuns Tratamento Empírico Sugerido
Ambulatorial: Paciente Hígido Pneumococo, Mycoplasma 💊 Amoxicilina OU Macrolídeo
Ambulatorial: Comorbidades/FR Pneumococo, Mycoplasma, H. influenzae 💊 Beta-lactâmico + Macrolídeo OU Quinolona Respiratória
Internação em Enfermaria Pneumococo, Mycoplasma, H. influenzae 💊 Beta-lactâmico (Cefalosporina 3ª Geração) + Macrolídeo OU Quinolona Respiratória
Internação em UTI (Grave) Pneumococo, Gram-negativos, Legionella, S. aureus 💊 Beta-lactâmico (Cefalosporina 3ª Geração) + Macrolídeo OU Quinolona Respiratória
UTI com suspeita de MRSA (Adicionar cobertura) 💊 Esquema UTI + Vancomicina OU Linezolida
UTI com suspeita de Pseudomonas (Trocar beta-lactâmico) 💊 Piperacilina-Tazobactam/Cefepime/Imipenem + Levofloxacino/Ciprofloxacino

Pneumonia Nosocomial e Associada à Ventilação Mecânica

Visão Geral

Aspecto Pneumonia Hospitalar (PH) / Nosocomial Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica (PAVM)
Definição Temporal ≥ 48h após admissão hospitalar ≥ 48h após Intubação Orotraqueal (IOT) e Ventilação Mecânica (VM)
Diagnóstico (Clínica + Imagem)
Critérios Infiltrado pulmonar (novo ou progressivo/piorando)
+ ≥ 2 dos seguintes sinais de infecção:
  • Febre (> 38°C) ou Hipotermia (< 36°C)
  • Leucocitose (> 12.000/mm³) ou Leucopenia (< 4.000/mm³)
  • Secreção traqueal purulenta (nova ou com piora)
  • Piora da oxigenação (aumento da necessidade de O2)
Agentes Etiológicos Comuns (Sempre Pesquisar!)
Gram-negativos
  • Pseudomonas aeruginosa
  • Klebsiella pneumoniae
  • Acinetobacter baumannii
  • Outros bacilos Gram-negativos entéricos
Gram-positivos
  • Staphylococcus aureus (MSSA ou MRSA)
Tratamento Antibiótico Empírico (Baseado em Risco)
Padrão (sem fatores de risco MDR) Escolher um:
  • Cefepime
  • Piperacilina-tazobactam
  • Imipenem ou meropenem
Risco de Gram-negativo MDR
(Ex: fibrose cística, bronquiectasias, uso de ATB < 90 dias, etc.)
Adicionar um ao padrão:
  • Aminoglicosídeo (ex: amicacina, gentamicina)
  • Ciprofloxacino ou levofloxacino
  • Aztreonam (para alérgicos a beta-lactâmicos)
Risco de MRSA
(> 20% na unidade ou desconhecida)
Adicionar um ao padrão:
  • Vancomicina
  • Linezolida
Cenários de alto risco
(VM + ATB IV < 90 dias, diálise, choque séptico, SDRA, > 5 dias de internação)
Escolher um de cada grupo acima (Gram-negativo, segundo Gram-negativo, MRSA).
Exemplo: Cefepime + levofloxacino + vancomicina
💊 Lembre-se: O princípio fundamental do tratamento é desescalonar a antibioticoterapia assim que os resultados das culturas e testes de sensibilidade estiverem disponíveis!
⚠️ Atenção: A prevalência de MRSA e Gram-negativos MDR varia MUITO de acordo com o serviço. Conheça a epidemiologia local!
💊 Importante: A daptomicina NÃO é uma boa opção para pneumonia, pois é inativada pelo surfactante pulmonar.

Diferenciação e Definição

A abordagem da pneumonia nosocomial exige uma distinção crucial: a infecção é causada por patógenos adquiridos na comunidade ou por germes hospitalares? Essa diferenciação é fundamental, pois os microrganismos hospitalares tendem a ser mais agressivos e, frequentemente, mais resistentes a antibióticos do que os de origem comunitária.

O tempo de internação é o principal fator para essa distinção, uma vez que a flora do paciente leva aproximadamente 5 dias para ser substituída pela flora hospitalar, tornando-o suscetível a patógenos do ambiente hospitalar.

Característica Início Precoce Início Tardio
Tempo de Ocorrência 48 horas a 4 dias de internação ou VM > 5 dias de internação ou VM
Agentes Etiológicos Prováveis Germes da comunidade Germes hospitalares (mais agressivos e resistentes)

Especificamente, as definições são:

🚨 High Yield: A PAVM é a causa mais comum de óbito por infecção hospitalar, destacando sua gravidade e a necessidade de medidas preventivas rigorosas e manejo adequado.

Fatores de Risco

Diversos fatores contribuem para o desenvolvimento de pneumonia nosocomial e PAVM, sendo a ventilação mecânica invasiva o mais significativo.

A ventilação mecânica compromete as barreiras naturais das vias aéreas superiores (VAS), como o sistema mucociliar. Além disso, ocorre colonização das vias aéreas inferiores (VAI) por bactérias gram-negativas entéricas. O balonete do tubo endotraqueal, mesmo inflado, não garante vedação completa, permitindo microaspirações de material contaminado da orofaringe, especialmente da secreção acumulada acima do balonete.

💡 Dica: Embora a PAVM seja definida após 48h de intubação, a incidência é maior nos primeiros 5 dias de ventilação mecânica, ressaltando a importância das medidas preventivas precoces.

Manejo de Fatores de Risco e Prevenção

Uso Criterioso de Antagonistas H2 e Antiácidos

É crucial evitar o uso indiscriminado de antagonistas H2 e outros antiácidos. A elevação do pH gástrico para valores acima de 4 elimina uma das barreiras protetoras contra a colonização por bactérias gram-negativas hospitalares, aumentando o risco de pneumonia. Portanto, a profilaxia de úlcera de estresse deve ser restrita a pacientes com alto risco de sangramento gastrointestinal:

💊 Alternativa: O sucralfato pode ser uma opção para profilaxia de úlcera de estresse, pois protege a parede gástrica sem alterar o pH gástrico, não aumentando o risco de pneumonia nosocomial.

Posicionamento e Dieta Enteral

A elevação da cabeceira do leito (30-45 graus) é uma medida preventiva fundamental, pois reduz significativamente as chances de macro e microaspiração de secreções orofaríngeas e gástricas.

A dieta enteral, além de poder alcalinizar o pH gástrico, pode servir como meio para a ascensão bacteriana até o trato respiratório. Recomendações atuais para minimizar esse risco incluem:

Medidas Preventivas Gerais para PAVM

A prevenção da PAVM envolve um conjunto de práticas baseadas em evidências, visando reduzir a colonização e a aspiração de patógenos:

Diagnóstico

O diagnóstico de pneumonia nosocomial ou PAVM é estabelecido pela presença de um novo infiltrado pulmonar ou progressão de um infiltrado existente na radiografia de tórax, associado a pelo menos dois dos seguintes sinais clínicos de infecção:

Exames Complementares

Além da avaliação clínica e radiológica, a investigação laboratorial e microbiológica é fundamental para guiar a terapia antimicrobiana:

Agentes Etiológicos

Os agentes etiológicos da pneumonia nosocomial e PAVM são predominantemente bactérias, muitas vezes com perfis de resistência importantes, variando conforme o ambiente hospitalar:

Fatores de Risco para Germes Multirresistentes (MDR)

A identificação de pacientes com risco para infecção por germes MDR é crucial para a escolha da terapia antimicrobiana empírica inicial. Considere a possibilidade de MDR nas seguintes situações:

Risco de Infecção por Pseudomonas e Outros Gram-Negativos

O risco de infecção por Pseudomonas aeruginosa ou outros bacilos gram-negativos é elevado em pacientes com pneumopatia estrutural preexistente, como bronquiectasias ou fibrose cística. Além disso, a presença de bacilos gram-negativos predominantes no gram de escarro, somada aos fatores de risco para MDR já mencionados, aumenta ainda mais essa probabilidade, exigindo cobertura antimicrobiana específica.

Tratamento

O tratamento das pneumonias nosocomiais e associadas à ventilação mecânica é complexo e deve ser guiado pela avaliação do risco do paciente para patógenos multirresistentes (MDR) e Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), bem como pela disponibilidade de culturas e sensibilidade antimicrobiana.

Tratamento Empírico da Pneumonia Nosocomial (Não Associada à VM)

A escolha do regime antibiótico empírico para a pneumonia nosocomial que não está associada à ventilação mecânica depende da estratificação de risco do paciente para patógenos específicos, como MRSA e bactérias multirresistentes (MDR).

Categoria de Risco Opções de Tratamento Empírico
Baixo risco de morte e sem fatores de risco para MRSA ou MDR Escolher um dos seguintes:
  • Piperacilina-Tazobactam (TAZOCIN)
  • Cefepime
  • Imipenem
  • Meropenem
  • Levofloxacino 750 mg
Baixo risco de morte e com fatores de risco para MRSA Escolher um dos seguintes:
  • Piperacilina-Tazobactam (TAZOCIN)
  • Cefepime
  • Ceftazidime
  • Imipenem
  • Meropenem
  • Levofloxacino 750 mg
  • Ciprofloxacino
  • Aztreonam

Associar a:
  • Vancomicina OU
  • Linezolida
Alto risco de morte ou uso de ATB IV nos últimos 90 dias (considerar também em pacientes com risco de infecção por Pseudomonas e MDR) Escolher dois dos seguintes (idealmente associar um beta-lactâmico a uma quinolona ou aminoglicosídeo):
  • Piperacilina-Tazobactam (TAZOCIN)
  • Cefepime
  • Ceftazidime
  • Imipenem
  • Meropenem
  • Levofloxacino 750 mg
  • Ciprofloxacino
  • Amicacina
  • Gentamicina
  • Tobramicina
  • Aztreonam

E, em caso de fatores de risco para MRSA, associar:
  • Vancomicina OU
  • Linezolida
💡 Dica de Prova: A escolha do antibiótico empírico inicial é crucial e deve cobrir os patógenos mais prováveis com base nos fatores de risco do paciente e no perfil de resistência local.

Tratamento Empírico da Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica (PAV)

A PAV exige uma abordagem terapêutica que considere a alta probabilidade de patógenos multirresistentes, especialmente em pacientes com fatores de risco.

Categoria de Risco Opções de Tratamento Empírico
Pacientes sem necessidade de cobertura para MDR e MRSA Escolher um dos seguintes:
  • Piperacilina-Tazobactam (TAZOCIN)
  • Cefepime
  • Ceftazidime
  • Imipenem
  • Meropenem
  • Levofloxacino
Pacientes com necessidade de cobertura para MRSA e dupla cobertura para Pseudomonas/Gram-negativos Escolher uma droga de cada Frente a seguir (esquema tríplice):

Frente 1 (Anti-Pseudomonas/Beta-lactâmico):
  • Piperacilina-Tazobactam (TAZOCIN)
  • Cefepime
  • Imipenem
  • Meropenem
  • Aztreonam

Frente 2 (Anti-MRSA):
  • Vancomicina OU
  • Linezolida

Frente 3 (Anti-Pseudomonas/Não Beta-lactâmico - Quinolona ou Aminoglicosídeo ou Polimixina):
  • Levofloxacino IV
  • Ciprofloxacino IV
  • Amicacina
  • Gentamicina
  • Tobramicina
  • Polimixina B
  • Colistina

Tratamento Direcionado Após Cultura: Perfil de Sensibilidade

Após a obtenção dos resultados das culturas e do perfil de sensibilidade, o tratamento empírico deve ser ajustado para um regime mais específico, otimizando a eficácia e reduzindo a pressão seletiva para resistência.

Agente Etiológico Antibióticos de Escolha (Sensibilidade)
Pseudomonas aeruginosa Ceftazidime, Cefepime, Piperacilina-Tazobactam, Ticarcilina, Levofloxacino, Ciprofloxacino, Aztreonam, Imipenem, Meropenem.
⚠️ Atenção: Atualmente, já existem cepas sensíveis apenas a Polimixina B.
Enterobactérias ESBL (Produtoras de Beta-lactamase de Espectro Estendido) Cefepime OU Ceftazidime, Imipenem, Meropenem OU Ertapenem.
KPC (Klebsiella pneumoniae Carbapenemase) Ceftazidima-Avibactam, associações com Polimixina B.
Acinetobacter baumannii Sensível apenas aos Carbapenêmicos e Polimixina B.
Staphylococcus aureus MSS (Meticilina Sensível) Oxacilina OU Cefazolina.
Staphylococcus aureus MRSA (Meticilina Resistente) Resistente à Oxacilina. Sensível a Vancomicina, Teicoplanina, Linezolida e Quinupristina-Dalfopristina.
🧠 Conceito Importante: Daptomicina não é uma boa alternativa para infecções pulmonares devido à inativação pelo surfactante pulmonar (questão recorrente de prova).
Staphylococcus aureus VRSA (Vancomicina Resistente) Resistente à Vancomicina. Sensível a Linezolida.
Stenotrophomonas maltophilia Sulfametoxazol-Trimetoprim (SMZ-TMP).

Manejo dos Resultados das Culturas e Duração do Tratamento

O Que Fazer Com o Resultado das Culturas?

Uma vez que os resultados das culturas e o perfil de sensibilidade estejam disponíveis, geralmente após 48-72 horas, o tratamento deve ser ajustado.

💊 Ajuste Terapêutico: É fundamental escalonar (se a cobertura inicial for insuficiente) ou, mais frequentemente, desescalonar (estreitar o espectro do antibiótico para o agente isolado e sensível) o tratamento de acordo com o resultado. Isso otimiza a terapia e reduz a resistência antimicrobiana.
Tempo de Tratamento?

A duração do tratamento para pneumonias nosocomiais e PAV tem sido objeto de estudos recentes, que sugerem a possibilidade de cursos mais curtos em casos de boa resposta clínica.

⏱️ Duração do Tratamento: Estudos recentes evidenciam que o tratamento pode ser por 7 dias, caso haja melhora clínica considerável. Atualmente, um nível baixo de pró-calcitonina é considerado um promissor marcador para a suspensão do tratamento, quando aliado aos critérios de melhora clínica.

High Yield Topics

Vínculos Mentais Importantes

Pneumonia Lobar

Caracteriza-se por uma consolidação que afeta um lobo pulmonar inteiro ou uma grande porção dele. É classicamente associada a um agente etiológico específico.

Pneumonia do Lobo Pesado (Abaulamento da Cissura)

Um tipo especial de pneumonia lobar, onde o comprometimento do lobo superior provoca um abaulamento da cissura no exame de imagem.

Pneumatoceles

São cistos de paredes finas, resultantes da passagem de ar para o interstício subpleural através de pequenas roturas bronquiolares. Não exigem drenagem, pois regridem com a antibioticoterapia.

Pneumonia Redonda (Pseudotumor)

Manifesta-se no raio-X como uma condensação de formato arredondado, que pode ser confundida com um tumor.

Necrose Parenquimatosa e Cavitações (Pneumonia Necrosante e Abscesso Pulmonar)

A necrose do tecido pulmonar pode levar à formação de cavitações, que podem ser classificadas de acordo com seu tamanho e conteúdo.

Derrame Pleural Associado à Pneumonia

A presença de derrame pleural é uma complicação comum da pneumonia bacteriana, e sua incidência varia conforme o agente etiológico.

Fatores de Risco para Agentes Etiológicos Específicos

Fatores de Risco Agente Etiológico Associado
Alcoolismo Pneumococo, anaeróbios, Klebsiella, Acinetobacter, Mycobacterium tuberculosis
DPOC ou Tabagismo Haemophilus influenzae, Pseudomonas, Legionella, Pneumococo, Moraxella catarrhalis, Chlamydophila pneumoniae
Pneumopatia Estrutural (Ex: Bronquiectasias) Pseudomonas, Burkholderia cepacia, Staphylococcus aureus
Aspiração (AVE prévio, distúrbios de deglutição, rebaixamento do nível de consciência, etc.) Gram-negativos entéricos, anaeróbios
Abscesso Pulmonar Staphylococcus aureus (MRSA), anaeróbios, pneumonia fúngica, Mycobacterium tuberculosis, micobactérias atípicas
Exposição a fezes de pássaros ou morcegos Histoplasma capsulatum
Exposição a pássaros Chlamydophila psittaci
Exposição a animais de fazenda (ovelhas, cabras, etc.) Coxiella burnetii
Exposição a coelhos Francisella tularensis
HIV (Fase Inicial) Pneumococo, Haemophilus influenzae, Mycobacterium tuberculosis
HIV (Fase Tardia) Mesmos da fase inicial + Pneumocystis jiroveci, Cryptococcus, Histoplasma, Aspergillus, micobactérias atípicas, Haemophilus influenzae, Pseudomonas
Viagens a hotéis e cruzeiros, exposição a água contaminada em sistemas de calefação e ar condicionado Legionella
Surtos de Influenza na comunidade Influenza, Pneumococo, Staphylococcus aureus
Uso de drogas injetáveis Staphylococcus aureus, anaeróbios, Mycobacterium tuberculosis, Pneumococo
Obstrução endobrônquica Anaeróbios, Pneumococo, Haemophilus influenzae, Staphylococcus aureus
Tosse intensa por mais de 2 semanas, com vômitos Bordetella pertussis