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Síndromes Febris


Conceitos Iniciais

Para facilitar o estudo e a compreensão das diversas síndromes febris, podemos organizá-las em categorias principais, baseadas em suas características clínicas ou vetores:


Síndromes Febris "Puras"

As arboviroses são as principais representantes das síndromes febris "puras", caracterizadas por serem viroses transmitidas por artrópodes.

Dengue

A dengue é uma arbovirose de grande relevância epidemiológica, com potencial de causar quadros graves e óbitos.

Agente Causador (Etiológico)

A dengue é causada por um Flavivírus, que possui cinco sorotipos distintos:

⚠️ Atenção: A imunidade adquirida após a infecção por um sorotipo é duradoura e específica para aquele sorotipo. Isso significa que uma pessoa pode ter até quatro episódios de dengue ao longo da vida (considerando os sorotipos circulantes no Brasil). Uma infecção subsequente por um sorotipo diferente tende a ser mais grave devido a uma resposta imune exacerbada.

Agente Transmissor (Vetor)

O principal vetor da dengue é a fêmea do mosquito Aedes aegypti, que também é responsável pela transmissão de outros arbovírus.

Período de Incubação

O período de incubação da dengue varia de 3 a 15 dias, com uma média de 5 a 6 dias.

Clínica

A apresentação clínica da dengue pode variar desde quadros leves e autolimitados até formas graves com risco de morte. A evolução da doença é dividida em três fases principais: febril, crítica e de recuperação.

(1) Caso Suspeito de Dengue

Um caso suspeito de dengue é definido pela presença de febre de início abrupto (temperatura > 38ºC) com duração de até 7 dias, associada a pelo menos dois dos seguintes sinais ou sintomas:

💡 Dica: O mnemônico "PROBLEMAS" pode ajudar a lembrar os critérios para caso suspeito de dengue: Petéquias/Prova do laço, Rash, dOr retro-orbitária, Leucopenia, ÊMese, Mialgia, Artralgia, Sefaleia.

Evolução: Embora a febre possa melhorar por volta do 3º-4º dia, este período pode coincidir com a fase crítica da doença, onde há risco de piora do quadro clínico. A duração total da doença é de 5 a 7 dias, mas o período de convalescença pode ser prolongado por várias semanas, acompanhado de grande debilidade física.

Critérios Epidemiológicos: Para inclusão neste grupo, o paciente deve ter vivido ou viajado nos últimos 14 dias para uma área com transmissão de dengue ou presença do Aedes aegypti, o que é compatível com o período de incubação médio.

(2) Dengue com Sinais de Alarme

A presença de qualquer um dos sinais de alarme em um caso suspeito de dengue indica a necessidade de atenção redobrada, pois sinaliza um risco aumentado de evolução para a forma grave da doença, com hemoconcentração, plaquetopenia e disfunção orgânica.

Os sinais de alarme indicam principalmente o aumento da permeabilidade vascular, que leva ao extravasamento de plasma, hemoconcentração e, potencialmente, choque.

Categoria Sinais de Alarme Explicação Didática
Indicadores de Hemoconcentração / Aumento da Permeabilidade Vascular
  • Aumento progressivo do hematócrito.
  • Lipotimia (hipotensão postural).
  • Acúmulo de líquidos em cavidades (ascite, derrame pleural, derrame pericárdico).
A resposta imune ao vírus provoca um aumento da permeabilidade vascular, fazendo com que o plasma extravase dos vasos para o interstício. Isso resulta em um sangue mais "espesso" (aumento do hematócrito) e pode levar à hipotensão e acúmulo de líquido em espaços como abdome, pleura e pericárdio.
Indicadores de Plaquetopenia
  • Sangramento de mucosas (gengivorragia, epistaxe, metrorragia).
A queda no número de plaquetas (plaquetopenia) compromete a coagulação, manifestando-se por sangramentos mais evidentes do que as petéquias da fase inicial.
Indicadores de Disfunção Orgânica Leve
  • Dor abdominal intensa e contínua ou à palpação.
  • Vômitos persistentes.
  • Hepatomegalia > 2 cm.
  • Letargia/Irritabilidade (mais relevante em crianças).
Estes sinais sugerem um comprometimento inicial de órgãos, especialmente do trato gastrointestinal e do sistema nervoso central.
🚨 Mnemônico para Sinais de Alarme:
(3) Dengue Grave

A dengue grave é caracterizada por um ou mais dos seguintes critérios, indicando um risco iminente de óbito e exigindo manejo emergencial:

Extravasamento Grave de Plasma (Sinais de Choque)

O choque hipovolêmico é a principal causa de óbito na dengue e é identificado pelos "3 P's":

Sangramento Grave

Manifesta-se por hemorragias de grande volume ou em locais críticos:

Comprometimento Grave de Órgãos

Indica disfunção severa de sistemas vitais:

🧠 Conceito Chave: A principal causa de óbito na dengue é o choque hipovolêmico, resultante do extravasamento plasmático grave. O reconhecimento precoce dos sinais de alarme e gravidade é fundamental para a intervenção e manejo adequados.

Diagnóstico

A confirmação diagnóstica da dengue depende do momento da evolução da doença, buscando a presença do vírus ou a resposta imunológica do paciente.

💡 Dica de Ouro: O pico da viremia ocorre por volta do 3º dia de evolução. Após o 5º dia, a carga viral diminui significativamente, tornando a pesquisa viral menos eficaz. A partir do 6º dia, o foco deve ser na detecção de anticorpos.
Fase Aguda (Viremia): Identificação Viral (Até 5 Dias)

Nesta fase, o objetivo é detectar o vírus ou seus componentes diretamente:

⚠️ Atenção ao NS1: Sua especificidade varia de 82-100% e sensibilidade de 34-72%. Uma negatividade do NS1 não exclui o diagnóstico de dengue, especialmente após os primeiros dias de infecção, devido à sua sensibilidade limitada.
Após Soroconversão: Identificação de Anticorpos (A Partir do 6º Dia)

Após o período de viremia, o sistema imunológico do paciente começa a produzir anticorpos específicos:

🔎 Diagnóstico: Se o teste de IgM for negativo próximo ao 6º dia de evolução, pode ser necessário repeti-lo mais próximo do 30º dia, caso a suspeita clínica persista e não haja outra confirmação.
Necessidade de Confirmação Diagnóstica

A decisão de confirmar laboratorialmente um caso de dengue depende do cenário epidemiológico e da gravidade do paciente:

Exames Complementares

A solicitação de exames complementares é guiada pela classificação de risco do paciente, visando monitorar a evolução e identificar sinais de gravidade:

Vacina Contra a Dengue ("Qdenga")

Desde dezembro de 2023, o Ministério da Saúde incorporou a vacina Qdenga no SUS, representando um avanço importante na prevenção da doença:

Abordagem Clínica e Manejo - Resumido

A abordagem eficaz da dengue visa reduzir a morbimortalidade, com foco no treinamento das equipes de saúde e na melhoria do acesso aos serviços de saúde, especialmente na porta de entrada.

Prova do Laço

A prova do laço é um exame simples e rápido para avaliar a fragilidade capilar, um indicador de risco de agravamento na dengue, e deve ser realizada em todos os casos suspeitos, exceto se já houver sangramento espontâneo.

Medicações

Conforme mencionado, o tratamento da dengue é primariamente sintomático, com foco no alívio da febre e da dor. Reforça-se a contraindicação de AINES e AAS devido ao risco de complicações hemorrágicas.

Estadiamento e Manejo por Grupos de Risco

A classificação dos pacientes em grupos A, B, C e D é fundamental para guiar a conduta terapêutica, o local de tratamento e a intensidade da hidratação, otimizando o manejo e prevenindo a progressão para formas graves.

Grupo Características Principais Conduta e Local de Tratamento Hidratação
A
  • Ausência de sinais de alarme ou gravidade.
  • Sem sangramento de pele espontâneo.
  • Não se enquadra nos critérios dos grupos B, C ou D.
Tratamento Domiciliar Hidratação Oral: 60 mL/kg/dia (sendo 1/3 de solução salina, como SRO ou soro caseiro; e 2/3 de líquidos variados, como água, sucos, chás). Manter até 48h após o período afebril.
B
  • Sangramento de pele (espontâneo ou prova do laço positiva).
  • Risco social (dificuldade de acesso a serviços de saúde, moradia precária, isolamento).
  • Situações especiais: idade < 2 anos, gestantes, idade > 65 anos.
  • Comorbidades: cardiopatia, pneumopatia, hepatopatia, doença autoimune, asma, obesidade, diabetes.
Tratamento em Leito de Observação Hidratação Oral: 60 mL/kg/dia (1/3 de solução salina; 2/3 de líquidos) + Hemograma em leito de observação.
  • Se hemoconcentração (aumento do hematócrito) ou surgimento de sinais de alarme: reclassificar para Grupo C.
  • Se hematócrito normal (40%♂ e 45%♀) e sem sinais de alarme: alta com hidratação do Grupo A.
C
  • Dengue com Sinais de Alarme: A presença de apenas um sinal já indica internação.
  • Sinais de Alarme: Dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, acúmulo de líquidos (ascite, derrame pleural, derrame pericárdico), hipotensão postural, letargia/irritabilidade, hepatomegalia > 2 cm, sangramento de mucosas, aumento progressivo do hematócrito.
Internação em Enfermaria Hidratação Intravenosa (IV): 20 mL/kg de solução cristaloide (ex: soro fisiológico) em 2 horas (repetir até 3 vezes).
  • Se melhora clínica: Manutenção com 25 mL/kg em 6h, seguido por 25 mL/kg em 8h (sendo 1/3 com SF e 2/3 com SG).
  • Se não melhorar após 3 etapas de ataque: reclassificar para Grupo D.
D
  • Dengue Grave: Caracterizada por choque, sangramento grave ou comprometimento grave de órgãos.
  • Choque: Hipotensão, pulso fino e rápido, enchimento capilar lento (>2s), extremidades frias, oligúria.
  • Sangramento Grave: Hematêmese, melena, sangramento do sistema nervoso central.
  • Comprometimento de Órgãos: Miocardite, encefalopatia, hepatite grave (ALT/AST > 1000 UI/L).
Internação em UTI Hidratação Intravenosa (IV): 20 mL/kg de solução cristaloide em 20 minutos (repetir até 3 vezes).
  • Reavaliação clínica a cada 15-30 minutos e hematócrito a cada 2 horas. O choque geralmente dura cerca de 48h.
  • Se melhora: tratar como Grupo C.
  • Se não melhorar com 3 etapas de ataque: considerar coloides (ex: albumina), hemácias (se anemia grave) ou plasma (se coagulopatia). Pode ser necessário uso de vasopressores (ex: noradrenalina).
🧠 Lembre-se (Atualização do Fluxograma): Anteriormente, o fluxograma para o Grupo B incluía uma etapa de hidratação oral por 4 horas com reavaliação clínica e laboratorial. Atualmente, a classificação para Grupo C a partir do Grupo B é feita diretamente pela avaliação do primeiro hemograma (se houver hemoconcentração ou sinais de alarme), sem a etapa intermediária de hidratação oral por 4 horas.
Situações Especiais

Em pacientes dos grupos C e D, a ocorrência de edema subcutâneo generalizado e derrames cavitários (pleural, ascítico) é comum devido à perda capilar, e não necessariamente indica hiper-hidratação. O monitoramento da reposição volêmica deve ser feito com base no hematócrito, diurese e sinais vitais, evitando procedimentos invasivos desnecessários como toracocentese ou paracentese, que podem agravar o quadro hemorrágico.

💊 Manejo de Anticoagulantes:
Critérios de Internação Hospitalar

A internação é indicada para pacientes que apresentam fatores de risco ou sinais de gravidade, visando monitoramento intensivo e manejo adequado:

Critérios para Alta Hospitalar

Para a alta hospitalar segura, todos os seguintes critérios devem ser preenchidos, garantindo a estabilidade clínica do paciente:

🩸 Transfusão de Plaquetas: A transfusão de plaquetas deve ser considerada em casos de sangramento persistente não controlado, após a correção de outros fatores de coagulação e do choque, e na presença de trombocitopenia com INR > 1,5x o valor normal. Não é indicada rotineiramente apenas pela plaquetopenia.

Abordagem Clínica e Manejo - Detalhado

O manejo da dengue é guiado pela classificação do paciente em grupos de risco (A, B, C ou D), que determina a necessidade de hidratação (oral ou venosa), exames complementares e o local de acompanhamento. A avaliação inicial busca identificar a presença de sinais de alarme, sinais de gravidade, sangramento espontâneo ou induzido (como a prova do laço), condições clínicas especiais, risco social ou comorbidades.

💊 Princípio Fundamental: A hidratação deve ser iniciada imediatamente, de acordo com a classificação do paciente, mesmo antes da confirmação laboratorial. Pacientes dos grupos A e B recebem hidratação oral, enquanto os dos grupos C e D necessitam de hidratação venosa.
Grupo A: Dengue sem Sinais de Alarme, Condição Especial, Risco Social ou Comorbidades

Este grupo engloba pacientes com dengue sem quaisquer sinais de alarme, sem condições clínicas especiais, risco social ou comorbidades associadas.

⚠️ Alerta Importante: Os sinais de alarme e agravamento do quadro clínico frequentemente surgem na fase de remissão da febre. É fundamental entregar o cartão de acompanhamento de dengue e orientar sobre os sinais de alerta.
Grupo B: Dengue sem Sinais de Alarme, com Condição Especial, Risco Social ou Comorbidades

Este grupo inclui pacientes sem sinais de alarme, mas que apresentam condições clínicas especiais, risco social ou comorbidades que podem predispor a uma evolução desfavorável.

🧠 Conceito Chave: As condições clínicas especiais e/ou risco social ou comorbidades que justificam a classificação no Grupo B incluem: Estes pacientes requerem acompanhamento diferenciado devido ao maior risco de evolução desfavorável.
Grupo C: Dengue com Sinais de Alarme

Este grupo é caracterizado pela presença de sinais de alarme, que indicam um risco aumentado de progressão para formas graves da doença e extravasamento plasmático significativo.

🧪 Nota de Exame: Exames específicos para confirmação de dengue são obrigatórios para vigilância epidemiológica, mas não são essenciais para a tomada de decisão da conduta clínica inicial.

É fundamental preencher e entregar o cartão de acompanhamento ao paciente.

Grupo D: Dengue Grave

A dengue grave é a forma mais severa da doença, caracterizada por extravasamento plasmático grave, sangramentos importantes ou comprometimento grave de órgãos. Exige manejo intensivo e imediato.

Diagnóstico Diferencial: Arboviroses

A diferenciação entre as arboviroses como Dengue, Zika e Chikungunya é fundamental para o manejo clínico e epidemiológico, embora apresentem sintomas sobrepostos. A tabela abaixo resume as principais características para auxiliar no diagnóstico diferencial.

Característica Dengue Zika Chikungunya
Febre Alta (> 38°C), 4-7 dias Ausente ou Baixa (< 38°C) Alta (> 38°C), 2-3 dias
Rash Raro, 2º-4º dia Comum, 1º-2º dias Raro, 2º-4º dia
Mialgia ++++ ++ ++
Artralgia + ++ ++++
Dor Articular Leve Leve Grave
Discrasia Sanguínea +++ Ausente +
Risco de Morte +++ + ++
💡 Dica para Memorizar Mialgia e dor retro-orbital Rash + Conjuntivite não purulenta Artrite (dor + inflamação articular)
🔎 Detalhe Clínico Mais letal: choque e hemorragia Acometimento neurológico: SGB. Transmissão sexual e transplacentária Pode cronificar e deformar articulações

Chikungunya

A Chikungunya é uma doença viral causada pelo vírus Chikungunya (CHIKV), que pertence à família Togaviridae e ao gênero Alphavirus. Sua transmissão ocorre principalmente através de mosquitos do gênero Aedes, sendo o Aedes aegypti o vetor mais comum, seguido pelo Aedes albopictus. A infecção pode se manifestar em três fases distintas: aguda, subaguda ou crônica.

Período de Incubação

O período de incubação do vírus Chikungunya varia, sendo em média de 3 a 7 dias, com um limite máximo de até 12 dias.

Epidemiologia

Embora o vírus Chikungunya seja conhecido globalmente há mais tempo, os primeiros casos de transmissão autóctone no Brasil foram registrados em 2014. A transmissão interpessoal é rara, ocorrendo primariamente por via vertical (durante o período intraparto) ou, em menor grau, por transfusão sanguínea.

Clínica

A apresentação clínica da Chikungunya é frequentemente comparada à da Dengue, porém, tende a ser menos grave em termos de letalidade. Uma característica marcante é a presença de poliartralgia intensa e de predomínio distal. Diferentemente da Dengue, a queda da temperatura corporal na Chikungunya não está associada a uma piora dos sintomas.

🧠 Lembre-se: Após um primeiro episódio de Chikungunya, o paciente desenvolve imunidade duradoura, não ocorrendo reinfecção pelo mesmo sorotipo.

Contudo, uma parcela dos pacientes pode evoluir para formas subaguda e crônica da doença. Nestas fases, observa-se poliartrite distal, reexacerbação da dor articular e tenossinovite hipertrófica subaguda, especialmente em punhos e tornozelos. A artralgia pode persistir por longos períodos.

Geralmente, há uma melhora clínica significativa após 14 dias do início dos sintomas. No entanto, uma recaída pode ocorrer após este período, caracterizando a forma subaguda. Se os sintomas persistirem por mais de 3 meses, a doença é classificada como crônica.

O acometimento articular é tipicamente poliarticular e simétrico, mas pode, em alguns casos, ser assimétrico ou monoarticular. A apresentação articular pode mimetizar a artrite reumatoide.

Nas fases subaguda e crônica, outras manifestações podem surgir, incluindo:

É importante notar que diversas manifestações atípicas podem ocorrer, com potencial acometimento multissistêmico, tornando o quadro clínico bastante variado. A Chikungunya apresenta baixa letalidade, mas uma elevada morbidade, impactando significativamente a produtividade e a qualidade de vida dos pacientes afetados.

🧬 Conexão Genética: A doença tem sido associada ao HLA-B27, sugerindo uma possível relação com espondilite anquilosante e outras espondiloartropatias.

Caso Suspeito

Considera-se caso suspeito o paciente que apresenta febre de início súbito (temperatura superior a 38,5°C) e artralgia ou artrite intensa de início agudo, sem outra explicação aparente. Além disso, deve ter residido ou visitado áreas endêmicas ou epidêmicas até duas semanas antes do início dos sintomas, ou ter vínculo epidemiológico com um caso confirmado.

Caso Confirmado

É todo caso suspeito que apresenta positividade em qualquer um dos seguintes exames laboratoriais: isolamento viral, PCR (Reação em Cadeia da Polimerase), ou detecção de anticorpos IgM (coletados durante a fase aguda ou de convalescença). Alternativamente, a confirmação pode ocorrer por um aumento de quatro vezes no título de anticorpos, demonstrando soroconversão entre amostras da fase aguda e convalescente, idealmente coletadas entre 15 e 45 dias após o início dos sintomas ou 10 a 14 dias após a coleta da amostra da fase aguda.

Achados Laboratoriais

Diagnóstico Específico

O diagnóstico laboratorial específico pode ser realizado por sorologia (detecção de anticorpos), PCR (detecção do RNA viral) ou isolamento viral.

Tratamento

1. Doença Aguda
2. Sintomas Articulares Subagudos/Pós-Agudos
3. Sintomas Articulares Crônicos
Fase Clínica Diagnóstico Conduta
Aguda
(3-10 dias)
"Febre articular"
Febre + quadro articular (mão, punho, pé)
Poliartrite simétrica distal
Sorologia + PCR
- Até 5º dia: PCR
- > 6º dia: sorologia IgM
HMG: linfopenia
- Repouso
- Analgesia simples
- Crioterapia
- Refratários: opioides
- Não fazer AINEs/AAS
- Fisioterapia
Pós-Aguda
(< 3 meses)
Retorno ou manutenção dos sintomas articulares
Sorologia IgG - Repouso
- Analgesia simples
- Refratários: opioides
- AINEs
- Corticoides (prednisona)
Crônica
(> 3 meses)
Deformidade articular
Mulher, > 45 anos, artropatia prévia
Sorologia IgG - Fisioterapia
- HCQ (escolha) ou Metotrexato

Zika

A Zika é uma doença causada pelo Zika vírus (ZIKAV), um Flavivírus, transmitido principalmente por mosquitos do gênero Aedes, com destaque para o Aedes aegypti. Além da transmissão vetorial, a via sexual é uma forma de contágio bem documentada, e outras vias, como transfusões sanguíneas, estão sob investigação.

Epidemiologia

No Brasil, os primeiros casos autóctones de Zika surgiram em 2015, e em 2016, a doença já havia atingido proporções epidêmicas, com mais de 200 mil casos registrados.

Clínica

💡 Atenção: Mais de 80% dos casos de infecção pelo Zika vírus são assintomáticos, o que difere significativamente de outras arboviroses como a Chikungunya.

Quando sintomática, a febre do Zika é geralmente baixa e intermitente, acompanhada por um exantema maculopapular pruriginoso, hiperemia conjuntival não purulenta (sem prurido), artralgia, mialgia e cefaleia.

A evolução da doença é tipicamente benigna, com os sintomas desaparecendo geralmente após 3 a 7 dias. No entanto, a artralgia pode persistir por até um mês.

Manifestações menos comuns incluem edema, odinofagia, tosse seca, hematospermia e alterações gastrointestinais, como vômitos.

Complicações

O Zika vírus é conhecido por suas complicações neurológicas e congênitas, que representam os aspectos mais graves da infecção.

Achados Laboratoriais e Diagnóstico Específico

Tratamento

O tratamento para a infecção por Zika vírus é exclusivamente de suporte, focado no alívio dos sintomas.

Comparativo - Dengue, Chikungunya e Zika

Característica Dengue Chikungunya Zika
Febre Alta (> 38°C) Ausente ou Baixa (até 38°C) Baixa ou ausente
Exantema (Rash) Menos frequente: 2º e 4º dias Mais frequente: 1º e 2º dias Muito frequente, pruriginoso
Sintoma "Marca" Mialgia e dor retro-orbitária Artrite intensa e poliarticular Rash + conjuntivite não purulenta
"Dica" para Prova Mais letal (risco de choque) Mais mórbida (artropatia deformante) Síndrome Congênita, transmissão sexual

Síndromes Febris Ictéricas

As síndromes febris ictéricas representam um grupo de doenças infecciosas que compartilham a febre e a icterícia como manifestações clínicas proeminentes.

Febre Amarela

A Febre Amarela é uma arbovirose grave, com potencial epidêmico, que pode apresentar-se em formas leves e autolimitadas ou em quadros graves com alta letalidade.

Agente Etiológico e Transmissão

A doença é causada por um arbovírus do gênero Flavivirus, que possui RNA como material genético. Sua transmissão ocorre de duas formas principais:

⚠️ Atenção: Não há registro de casos de Febre Amarela urbana no Brasil desde 1942. Contudo, a presença do Aedes aegypti em larga escala no país mantém o risco de reurbanização da doença, o que seria uma catástrofe de saúde pública.

É importante notar que, ao contrário da dengue (transmissão mosquito-pessoa-pessoa-mosquito), a Febre Amarela possui um reservatório animal (macacos) na sua forma silvestre, o que a torna mais complexa em termos de controle epidemiológico.

Período de Incubação

O período de incubação da Febre Amarela varia de 3 a 6 dias após a picada do mosquito infectado.

Manifestações Clínicas

A Febre Amarela pode se manifestar em duas formas principais:

Forma Leve/Autolimitada (90% dos Casos)

Esta forma é frequentemente descrita como uma "síndrome febril pura", com sintomas inespecíficos que podem ser confundidos com outras viroses, como a dengue. Os principais achados incluem:

A melhora clínica geralmente ocorre entre o 3º e o 4º dia do início dos sintomas.

🔎 Sinal de Faget: Uma característica distintiva, embora não exclusiva, é a dissociação pulso-temperatura, conhecida como Sinal de Faget. Nela, o paciente apresenta febre, mas com frequência cardíaca normal ou até bradicardia relativa, em vez da taquicardia esperada.
🧠 Conceito High Yield: O Sinal de Faget é classicamente associado a: Febre Amarela, Legionelose e Febre Tifoide. Lembre-se que, em geral, para cada grau Celsius de aumento da temperatura corporal, a frequência cardíaca aumenta em pelo menos 8 batimentos por minuto.
Forma Grave/Disfunção Hepatorrenal (10% dos Casos)

Esta é a forma mais preocupante da doença, com uma letalidade que pode atingir cerca de 50%. Caracteriza-se por uma tríade clássica de disfunções orgânicas:

A forma grave da Febre Amarela é uma hepatite viral necrosante, que leva a um aumento significativo de bilirrubina direta e transaminases. É comum observar uma proporção TGO > TGP, devido à maior concentração de TGO em células renais e musculares, que também são afetadas.

🚨 Alerta: A Febre Amarela grave é uma doença "ruim" por si só, com alta letalidade intrínseca, diferentemente da dengue grave, cuja letalidade é mais controlável com tratamento adequado.

Diagnóstico

O diagnóstico da Febre Amarela segue uma lógica similar à de outras arboviroses:

Tratamento e Profilaxia

Tratamento

Não existe tratamento antiviral específico para a Febre Amarela. A conduta é essencialmente de suporte, visando controlar os sintomas e as complicações, de forma semelhante ao manejo da dengue grave. A notificação do caso às autoridades de saúde é compulsória.

Profilaxia

A principal e mais eficaz medida de prevenção é a vacinação. A vacina contra a Febre Amarela é altamente imunogênica e confere proteção duradoura:

Leptospirose

A Leptospirose é uma zoonose bacteriana de distribuição mundial, com maior incidência em áreas tropicais e subtropicais, frequentemente associada a enchentes e condições sanitárias precárias.

Agente Etiológico e Transmissão

A doença é causada pela bactéria Leptospira interrogans, uma espiroqueta. Este microrganismo é adaptado ao organismo de certos animais, principalmente roedores.

🧠 Conceito: A Leptospira, por ser uma espiroqueta, possui um movimento de "saca-rolhas" que facilita sua penetração ativa na pele. Ela "não foi feita" para humanos, mas para o rim de roedores, o que explica a patogenia peculiar da doença em humanos.

Período de Incubação

O período de incubação da Leptospirose varia de 1 a 30 dias, sendo mais comum entre 5 e 14 dias.

Manifestações Clínicas

A Leptospirose é frequentemente descrita como uma "vasculite infecciosa" devido à sua capacidade de afetar o endotélio vascular. A doença evolui em duas fases:

Forma Precoce/Anictérica (90% dos Casos)

Esta é a fase inicial, também conhecida como fase bacterêmica, septicêmica ou leptospirêmica, onde a bactéria se dissemina pelo corpo. Os sintomas são inespecíficos e incluem:

Após a fase bacterêmica, pode ocorrer a fase imune, onde o próprio sistema imune pode gerar sintomas, geralmente autolimitados:

Forma Tardia/Ictero-hemorrágica (Doença de Weil) (10% dos Casos)

A partir do 4º dia de doença, alguns pacientes podem evoluir para a forma grave, conhecida como Doença de Weil. Este quadro é caracterizado por uma tríade grave:

💡 Dica para Prova: A lesão renal na Leptospirose é predominantemente tubular (NIA), e classicamente cursa com hipocalemia (potássio baixo), um achado fundamental para o diagnóstico em questões de residência. Outras causas de IRA tubular incluem aminoglicosídeos e anfotericina B.

Em resumo, a Doença de Weil é um quadro grave de icterícia associado à síndrome pulmão-rim, com lesão renal tubular e hipocalemia.

Diagnóstico

O diagnóstico da Leptospirose envolve exames inespecíficos e específicos:

Exames Inespecíficos

Refletem a resposta inflamatória sistêmica e a lesão orgânica:

Exames Específicos

Visam identificar a bactéria ou a resposta imune a ela:

Tratamento e Prevenção

Tratamento

O tratamento da Leptospirose é baseado em antibioticoterapia e medidas de suporte. A notificação do caso é compulsória.

Prevenção

A prevenção da Leptospirose envolve medidas de saúde pública e, em alguns casos, quimioprofilaxia:

Malária

A malária é uma doença infecciosa febril aguda, causada por protozoários do gênero Plasmodium, transmitida pela picada da fêmea do mosquito Anopheles infectada. Caracteriza-se por febre, calafrios, suores e cefaleia, que podem ocorrer em padrões cíclicos. É uma das doenças parasitárias mais importantes globalmente, com alta morbidade e mortalidade, especialmente em regiões tropicais e subtropicais.

Conceitos Essenciais

No Brasil, a região Norte é a mais afetada pela malária, concentrando a maior parte dos casos da doença.

🧠 Lembre-se: A malária é uma doença endêmica na região Norte do Brasil, sendo um foco importante para a saúde pública e para questões de prova.

Agente Etiológico: Gênero Plasmodium

Os principais agentes etiológicos da malária em humanos são quatro espécies de Plasmodium, cada uma com características distintas:

💡 Dica: O P. vivax é o mais comum, o P. falciparum é o mais grave, e o P. malariae, embora raro, tem a particularidade de estar associado à síndrome nefrótica, um ponto que frequentemente aparece em exames.

Vetor: Anopheles darlingi

O principal vetor da malária no Brasil é o mosquito Anopheles darlingi. A forma de transmissão e as manifestações clínicas podem variar dependendo da área:

O principal alvo do parasita no hospedeiro humano são as hemácias.

Período de Incubação

O período de incubação da malária varia de 8 a 30 dias, dependendo da espécie do Plasmodium e da carga parasitária.

Ciclo do Parasita

O ciclo de vida do Plasmodium é complexo e envolve dois hospedeiros: o mosquito (hospedeiro definitivo) e o ser humano (hospedeiro intermediário). Para fins didáticos, é crucial compreender três conceitos:

  1. Duas Etapas Distintas: O ciclo no ser humano possui uma etapa hepática (exoeritrocitária) e uma etapa eritrocitária. Essa dualidade é fundamental para o tratamento, que frequentemente envolve duas drogas: uma para eliminar os parasitas no fígado e outra para combater os que estão nas hemácias.
  2. Ciclo Sexuado vs. Assexuado:
    🧠 Conceito: Lembre-se que "quem faz a bagunça" (o ciclo sexuado) é o mosquito!
  3. Forma Hipnozoíta: Esta forma dormente do parasita é encontrada no fígado e está especificamente relacionada ao Plasmodium vivax (e também ao P. ovale). Os hipnozoítas podem permanecer inativos por meses ou anos e são responsáveis pelas recidivas da malária, mesmo após o tratamento da fase eritrocitária. Para erradicar o P. vivax e prevenir recidivas, é essencial utilizar uma droga capaz de eliminar essa forma hepática latente.
💊 Tratamento: A presença de hipnozoítas no P. vivax exige o uso de primaquina para sua erradicação, prevenindo as recaídas.

Manifestações Clínicas

A malária clássica é caracterizada por um conjunto de sintomas decorrentes do parasitismo e da lise das hemácias. Os principais achados clínicos incluem:

Malária Grave: Particularidades do Plasmodium falciparum

A infecção por Plasmodium falciparum é a mais perigosa devido a mecanismos específicos que levam a uma doença mais severa e com maior risco de letalidade:

🚨 Atenção: A gravidade do P. falciparum reside na sua capacidade de gerar alta parasitemia, obstrução microvascular por adesão de hemácias e distúrbios metabólicos graves como hipoglicemia e acidose láctica.

Diagnóstico Laboratorial

O diagnóstico da malária é fundamentalmente laboratorial e deve ser realizado o mais rápido possível para iniciar o tratamento adequado.

🔎 Diagnóstico: A Gota Espessa é o método de escolha para o diagnóstico da malária, permitindo a identificação e quantificação do parasita.

Abordagem Terapêutica

O tratamento da malária deve ser iniciado prontamente após o diagnóstico e sempre inclui a notificação do caso às autoridades de saúde. O objetivo é eliminar os parasitas do sangue (esquizonticidas) e, no caso de P. vivax, também as formas hepáticas dormentes (hipnozoítas).

🧠 Lembre-se: "Quem se faz de morto (hipnozoíta), está muito vivo (P. vivax)." Essa frase ajuda a lembrar que o P. vivax exige tratamento específico para os hipnozoítas.
Tratamento do Plasmodium vivax

Para o P. vivax, o tratamento visa eliminar tanto as formas eritrocitárias quanto os hipnozoítas hepáticos:

⚠️ Atenção: A primaquina é contraindicada na gestação e em pacientes com deficiência de G6PD (glicose-6-fosfato desidrogenase) devido ao risco de hemólise. Em gestantes, o tratamento é feito apenas com cloroquina durante toda a gravidez. Em caso de deficiência de G6PD, a primaquina deve ser evitada ou administrada com cautela e monitoramento rigoroso.

Em casos de recorrência de malária por P. vivax, pode ser necessário estender o tratamento com primaquina para 14 dias, associado a artesunato.

Tratamento de Formas Graves (Qualquer Espécie)

A malária grave, independentemente da espécie, é uma emergência médica e requer tratamento imediato e agressivo:

Tratamento do Plasmodium falciparum (não grave)

Para casos de malária por P. falciparum que não preenchem critérios de gravidade:

Critérios para Malária Grave

A identificação precoce da malária grave é crucial. Os principais critérios incluem:

Comparativo entre Plasmodium falciparum e Plasmodium vivax

As duas espécies mais prevalentes no Brasil possuem diferenças importantes que impactam a clínica e o tratamento:

Característica Plasmodium falciparum Plasmodium vivax
Período de Incubação Aproximadamente 1 semana. 1-2 semanas.
Hipnozoítas ("Recaídas") Não possui. Sim, presente no fígado, causando recaídas.
Hemácias Infectadas Infecta hemácias de todas as idades (jovens e maduras). Infecta preferencialmente reticulócitos (hemácias jovens).
Periodicidade dos Paroxismos Terçã (a cada 48h). Terçã (a cada 48h).
Tratamento (não grave) Artemeter + Lumefantrina. Cloroquina (3 dias) + Primaquina (7 dias). Em caso de recorrência, estender primaquina para 14 dias + artesunato.

Quimioprofilaxia

A quimioprofilaxia para malária em viajantes é uma medida importante em algumas regiões, mas no contexto brasileiro, as diretrizes são específicas:

Controle de Cura

O controle de cura é essencial para monitorar a resposta ao tratamento e detectar possíveis falhas terapêuticas ou recidivas. É realizado de forma prolongada com exames de Gota Espessa:

Comparativo - Febre Amarela, Leptospirose e Malária

Característica Febre Amarela Leptospirose Malária
Agente Etiológico Flavivírus (RNA) Leptospira interrogans (Espiroqueta) Plasmodium spp. (Protozoário)
Transmissão Principal Mosquito (Haemagogus, Sabethes, Aedes aegypti) Contato com urina de roedores (água/solo contaminados) Picada da fêmea do mosquito Anopheles infectada
Reservatório Macacos (silvestre), Humanos (urbana) Rins de roedores (ratos) Humanos (principalmente), Mosquitos Anopheles
Período de Incubação 3-6 dias 5-14 dias (média) 8-30 dias
Achados Clínicos/Epidemiológicos Chave Sinal de Faget (bradicardia com febre), história de ecoturismo. Sufusão conjuntival, mialgia intensa (panturrilhas), icterícia rubínica, história de enchentes/roedores. Febre em crises (paroxismos), história de viagem/residência em região Amazônica.
Hemograma Leucopenia (doença viral). Leucocitose (doença bacteriana), IRA com hipocalemia (↓K). Anemia (hemolítica).
Bilirrubinas ↑Bilirrubina Direta. ↑Bilirrubina Direta. ↑Bilirrubina Indireta (devido à hemólise).
Bioquímica Hepática ↑TGO > TGP (transaminases elevadas). ↑Fosfatase Alcalina (FA), Gama-GT (GGT). ↑LDH (lactato desidrogenase, marcador de hemólise).
Forma Grave Icterícia, Hemorragia, Oligúria (TGO > TGP). Doença de Weil: Icterícia rubínica, Hemoptise, IRA com ↓K. Malária cerebral, SARA, IRA, Hipoglicemia, Acidose láctica, Anemia grave.
Lesão Renal Típica IRA por hipovolemia/lesão viral. Nefrite Intersticial Alérgica (NIA) com hipocalemia. IRA por obstrução microvascular (P. falciparum), Síndrome nefrótica (P. malariae).
Diagnóstico Padrão-Ouro ELISA IgM (após 6º dia). Microaglutinação (MAT) (após 2ª semana). Gota Espessa.
Tratamento Grave Suporte. Penicilina G Cristalina / Ceftriaxone + Suporte. Artesunato IV + Suporte.
Profilaxia Vacina. Saneamento, controle de roedores, Doxiciclina (alto risco). Não indicada no Brasil (repelentes, roupas protetoras).

Síndromes Febris Transmitidas por Roedores e Carrapatos

Este grupo de doenças infecciosas é de particular interesse devido à sua epidemiologia, que envolve vetores como carrapatos e o contato com roedores, e suas manifestações clínicas variadas, que podem progredir para quadros graves se não diagnosticadas e tratadas precocemente.

Febre Maculosa Brasileira

A Febre Maculosa Brasileira (FMB) é uma doença infecciosa grave, de origem bacteriana, causada pela bactéria Rickettsia rickettsii. É transmitida por carrapatos do gênero Amblyomma, popularmente conhecidos como "carrapato estrela", que parasitam diversos animais, incluindo cavalos, bois e capivaras.

Definição e Epidemiologia

🧠 Lembre-se: A Febre Maculosa Brasileira tem forte associação com áreas rurais e contato com animais de fazenda ou silvestres que hospedam o "carrapato estrela".

Manifestações Clínicas

O quadro clínico da FMB geralmente se inicia de forma súbita, com sintomas inespecíficos que podem dificultar o diagnóstico precoce. A evolução da doença pode ser rápida e grave.

⚠️ Atenção: O atraso no reconhecimento do rash e no início do tratamento é um fator crítico para a mortalidade da FMB. A evolução para lesões petequiais/hemorrágicas é um sinal de alerta.

Diagnóstico

O diagnóstico da Febre Maculosa é desafiador, especialmente nas fases iniciais, devido à inespecificidade dos sintomas. A confirmação laboratorial é essencial, mas muitas vezes retrospectiva.

🔎 Diagnóstico: Na suspeita de FMB, o tratamento deve ser iniciado imediatamente, sem aguardar a confirmação laboratorial, que é frequentemente retrospectiva e não deve atrasar a conduta.

Tratamento

O tratamento da Febre Maculosa Brasileira é primariamente com antibióticos, e a precocidade do início da terapia é o fator mais importante para o prognóstico.

💊 Tratamento: A Doxiciclina é o tratamento de escolha para todas as idades e deve ser iniciada o mais rápido possível diante da suspeita clínica, mesmo antes da confirmação laboratorial.

Doença de Lyme

A Doença de Lyme é uma infecção bacteriana multissistêmica transmitida por carrapatos, com manifestações que podem variar desde lesões cutâneas localizadas até comprometimento neurológico, cardíaco e articular.

Definição

Manifestações Clínicas

A Doença de Lyme evolui em estágios, com diferentes manifestações clínicas em cada fase.

🧠 Conceito: A progressão clássica da Doença de Lyme é: Eritema Migratório > Quadro Cardioneurológico > Artrite.

Tratamento

O tratamento da Doença de Lyme varia conforme o estágio da doença e a gravidade das manifestações.

Estágio da Doença Tratamento de Escolha Observações
Eritema Migratório Doxiciclina VO Amoxicilina ou Cefuroxima para crianças < 8 anos e gestantes.
Neuroborreliose/Cardite (grave) Ceftriaxone IV Doxiciclina VO pode ser usada em casos selecionados de neuroborreliose.
Artrite de Lyme Doxiciclina VO ou Ceftriaxone IV Depende da gravidade e resposta inicial.

Hantavirose

A Hantavirose é uma zoonose viral grave, causada por hantavírus, que pode se manifestar de diferentes formas clínicas, sendo a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH) a forma mais comum e grave no Brasil.

Definição e Transmissão

⚠️ Atenção: A principal via de transmissão da Hantavirose é a inalação de aerossóis contaminados com excretas de roedores silvestres.

Manifestações Clínicas (Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus - SCPH)

No Brasil, a Hantavirose se manifesta predominantemente como a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), que evolui em fases distintas:

🌍 Diferença Regional: Enquanto no Brasil a forma grave é a SCPH, em regiões da Ásia e Europa, a Hantavirose pode se manifestar como Febre Hemorrágica com Síndrome Renal (FHSR), caracterizada por febre, hemorragias e comprometimento renal.

Achados Laboratoriais

Os exames laboratoriais na Hantavirose podem apresentar alterações importantes que auxiliam na suspeita diagnóstica:

Critérios Diagnósticos (Ministério da Saúde)

O Ministério da Saúde estabelece critérios para a definição de caso suspeito e confirmado de Hantavirose, visando a vigilância epidemiológica e o manejo adequado.

Caso Suspeito:
Caso Confirmado:
🧪 Escolha Laboratorial: A sorologia para detecção de anticorpos IgM/ELISA é a principal ferramenta para a confirmação laboratorial da Hantavirose, com alta sensibilidade (aproximadamente 95%).

Tratamento

Não existe tratamento antiviral específico para a Hantavirose. O manejo é essencialmente de suporte.


Outras Causas de Febre (Miscelânea)

Esta seção aborda causas diversas de síndromes febris, incluindo a Leishmaniose Visceral (Calazar), Febre Tifoide, Ebola e Febre de Origem Indeterminada (FOI).

Leishmaniose Visceral (Calazar)

🧠 Conceito Chave: A Leishmaniose Visceral é uma síndrome febril prolongada que frequentemente entra no diagnóstico diferencial de neoplasias hematológicas devido às suas manifestações clínicas e laboratoriais.

Agente Etiológico

Vetores

Epidemiologia

A Leishmaniose Visceral é endêmica em diversas regiões do Brasil, com destaque para:

💡 Dica de Memorização: "Para ter Calazar, basta morar no Ceará" – um mnemônico útil para lembrar uma das regiões de alta incidência.

Reservatórios

Período de Incubação

Manifestações Clínicas e Fisiopatologia

A patogenicidade da Leishmania é relativamente baixa, o que significa que a maioria das pessoas expostas não desenvolve a doença. A manifestação clínica está fortemente associada a uma imunodeficiência celular (resposta Th1).

⚠️ Atenção: A inversão da relação albumina/globulina e a hipergamaglobulinemia policlonal são achados importantes que devem levantar a suspeita de Leishmaniose Visceral, especialmente em pacientes com febre prolongada e hepatoesplenomegalia.

Diagnóstico

O diagnóstico da Leishmaniose Visceral pode ser realizado por métodos parasitológicos ou sorológicos.

Métodos Parasitológicos (Pesquisa de Amastigotas)

Buscam a visualização direta das formas amastigotas do parasita em amostras de tecidos.

🔎 Diagnóstico: Embora o aspirado de medula óssea seja mais seguro e frequentemente utilizado, a punção esplênica oferece maior sensibilidade, mas com riscos aumentados. A escolha depende da avaliação clínica e da experiência do serviço.
Métodos Sorológicos

Detectam anticorpos contra a Leishmania no soro do paciente.

Teste de Montenegro (Intradermorreação de Montenegro)

Tratamento

🚨 Notificação Compulsória: A Leishmaniose Visceral é uma doença de notificação compulsória. Não se esqueça de notificar os casos às autoridades de saúde.
Antimonial Pentavalente (Glucantime)
Anfotericina B (Lipossomal ou Desoxicolato)
💊 Tratamento: Sempre que possível, dê preferência à Anfotericina B Lipossomal, especialmente em grupos de risco ou com comorbidades, devido à sua menor toxicidade e maior segurança.

Diagnóstico Diferencial

A Leishmaniose Visceral deve ser diferenciada de outras condições que cursam com febre prolongada, pancitopenia e, principalmente, esplenomegalia acentuada. Um mnemônico útil para causas de esplenomegalia é "MEGALIA":

Letra Condição Observações
M Malária Especialmente a forma imunorreativa em áreas endêmicas.
E Esquistossomose Na forma hepatoesplênica, comum em áreas endêmicas.
GA Doença de Gaucher Uma mucopolissacaridose, doença de depósito lisossômico.
L Leishmaniose Visceral A própria doença em questão.
IA Doenças Hematológicas Como Leucemia Mieloide Crônica (LMC), Mielofibrose com Metaplasia Mieloide Agnogênica (MMA) e Tricoleucemia.

Febre Tifoide

A febre tifoide é uma infecção sistêmica causada pela bactéria Salmonella enterica, sorotipo Typhi. Caracteriza-se por um quadro febril prolongado, frequentemente acompanhado de sintomas gastrointestinais e, em alguns casos, manifestações neurológicas e cutâneas. É uma doença de transmissão fecal-oral, intimamente ligada a condições precárias de saneamento e higiene.

Conceitos Essenciais

🧠 Lembre-se: A Salmonella Typhi é eliminada no ambiente pelas fezes humanas. A infecção ocorre pela ingestão de material fecal contaminado, ressaltando a importância do saneamento e higiene.

Ciclo da Infecção

Após a ingestão, a Salmonella Typhi atravessa o trato gastrointestinal. Uma carga bacteriana elevada ou condições de hipocloridria (comuns em idosos ou usuários de inibidores de bomba de prótons - IBP) facilitam a sobrevivência da bactéria ao ambiente ácido do estômago. O ciclo de infecção se desenrola da seguinte forma:

Quadro Clínico

A apresentação clínica da febre tifoide evolui em fases, geralmente semanais, com sintomas distintos:

Primeira Semana (Fase Bacterêmica)

Nesta fase inicial, a bactéria circula na corrente sanguínea, levando a um quadro febril agudo.

Segunda Semana

Com a progressão da doença, o sistema imunológico começa a reagir, e a febre pode se intensificar.

⚠️ Atenção: Dor na fossa ilíaca direita com febre alta pode sugerir apendicite, mas na febre tifoide, a febre é mais intensa e o quadro é sistêmico. Apendicite raramente causa "febrão" a menos que supurada.
Terceira e Quarta Semanas

Nesta fase, a resposta imune nas placas de Peyer pode ser intensa, levando a complicações graves.

A Partir da Quarta Semana: Portador Crônico

Em uma pequena porcentagem dos casos (cerca de 3-5%), a infecção pode persistir, levando ao estado de portador crônico.

🚨 High Yield Note: O portador crônico é um reservatório humano crucial para a manutenção da febre tifoide em comunidades, especialmente em locais com saneamento deficiente.

Diagnóstico

O diagnóstico da febre tifoide requer a combinação de achados clínicos e laboratoriais, com destaque para as culturas.

Achados Laboratoriais Inespecíficos

O hemograma pode apresentar características paradoxais para uma infecção bacteriana:

🔬 Conceito Chave: Fique atento aos achados laboratoriais "paradoxais": leucopenia com desvio à esquerda e VHS normal, apesar da infecção bacteriana e inflamação.
Culturas (Padrão-Ouro)

A cultura é o método diagnóstico mais confiável, variando em sensibilidade conforme a fase da doença:

🔎 Dica de Prova: Em casos de hemocultura e coprocultura negativas com alta suspeita clínica, a mielocultura é a melhor opção diagnóstmica devido à sua alta sensibilidade.
Outros Métodos

Tratamento

O tratamento da febre tifoide é baseado em antibioticoterapia, com opções que variam conforme a gravidade e a sensibilidade local.

Profilaxia e Vacinação

Método Diagnóstico Sensibilidade e Timing Observações
Hemocultura 50-70% (1ª-2ª semana) Melhor na fase bacterêmica inicial.
Coprocultura 30-40% (3ª-4ª semana) Útil na fase de eliminação fecal.
Mielocultura > 90% (qualquer fase) Mais sensível, positiva mesmo com ATB.
Sorologia Variável Não é o método de escolha.
PCR Alta Útil em casos de dúvida ou culturas negativas.

Ebola

O Ebola é uma doença infecciosa grave e frequentemente fatal, causada pelo Ebola vírus, pertencente à família Filoviridae. Caracteriza-se por uma síndrome febril hemorrágica com alta letalidade.

Transmissão

Epidemiologia

Período de Incubação

Quadro Clínico

A doença se inicia com sintomas inespecíficos e progride para manifestações hemorrágicas graves.

🚨 Alerta: As hemorragias são um sinal de gravidade e indicam a progressão da doença para formas mais severas, com risco de CIVD.

Achados Laboratoriais

Diagnóstico

O diagnóstico é baseado na suspeita clínica e epidemiológica, confirmada por exames laboratoriais específicos.

Tratamento

O tratamento é primariamente de suporte, com foco na manutenção das funções vitais e no controle das complicações.

💡 Mnemônico para Ebola:

Febre de Origem Indeterminada (FOI)

A Febre de Origem Indeterminada (FOI) é um desafio diagnóstico na prática médica, definida por um conjunto específico de critérios que indicam a necessidade de uma investigação aprofundada.

Definição

Para ser classificada como FOI, a condição deve preencher os seguintes critérios:

Principais Causas

As causas da FOI são diversas e podem ser agrupadas em categorias principais:

💡 Dica para FOI: Em pacientes idosos com FOI, a arterite temporal deve ser sempre considerada no diagnóstico diferencial.
💊 Atenção Farmacológica: Lembre-se que alguns medicamentos, como fenitoína e vancomicina, são causas conhecidas de febre medicamentosa que pode se apresentar como FOI.