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Distúrbios Acidobásicos


Conceitos Iniciais

Sistemas Tampões e Equilíbrio Ácido-Base

O metabolismo celular humano produz constantemente substâncias ácidas como subprodutos de suas reações bioquímicas. Para manter a homeostase e garantir o funcionamento adequado das células, o organismo precisa eliminar esse excesso de ácidos e manter o pH sanguíneo dentro de uma faixa estreita e bem definida: 7,35 a 7,45. Fora dessa faixa, as células entram em disfunção, comprometendo suas atividades metabólicas essenciais.

Os sistemas tampões desempenham papel fundamental nesse controle, neutralizando variações bruscas no pH. Esses sistemas atuam de forma imediata, impedindo que pequenas cargas ácidas ou alcalinas produzam grandes alterações no pH plasmático.

🧠 Conceito-chave: O principal sistema tampão extracelular do organismo é o sistema bicarbonato-ácido carbônico (HCO₃⁻/CO₂). A relação entre esses dois componentes determina o pH sanguíneo, conforme a equação: pH = HCO₃⁻/CO₂.

Limitações do Sistema Tampão Extracelular

Embora eficaz nas primeiras horas, o sistema HCO₃⁻/CO₂ apresenta eficácia limitada. Após 2 a 3 horas de um distúrbio acidobásico, as células e os ossos começam a participar ativamente do tamponamento, captando ou liberando íons H⁺ para auxiliar os tampões extracelulares. Esse processo envolve troca de H⁺ por outros íons, como Na⁺, K⁺, proteínas e fosfato. Por essa razão, distúrbios acidobásicos crônicos podem estar associados a complicações ósseas, como raquitismo ou osteomalácia, especialmente em casos de acidose prolongada.

Equação de Henderson-Hasselbalch Simplificada

A relação entre bicarbonato e dióxido de carbono pode ser resumida pela seguinte sequência de reações químicas:

HCO₃⁻ + H⁺ ⇄ H₂CO₃ ⇄ CO₂ + H₂O

Interpretação da Gasometria Arterial

Valores de Referência

A gasometria arterial é o exame fundamental para avaliar o equilíbrio ácido-base. Os valores normais são:

Parâmetro Valor Normal Unidade
pH 7,35 - 7,45 -
PaCO₂ 35 - 45 mmHg
HCO₃⁻ (standard) 22 - 26 mEq/L
Buffer Base (BB) 48 mEq/L
Base Excess (BE) -3 a +3 mEq/L
💡 Dica prática: Sempre analise o bicarbonato standard (ou corrigido), não o "atual" ou "real". O bicarbonato real varia muito com a PaCO₂, o que dificulta a interpretação correta do distúrbio metabólico.
Base Excess (BE) e Buffer Base (BB)

O Buffer Base representa o total de bases no organismo. O bicarbonato, sendo a principal base, corresponde a cerca de metade desse valor (aproximadamente 24 mEq/L de um total de 48 mEq/L).

O Base Excess expressa a variação do Buffer Base em relação ao valor normal. Por exemplo:

Esses parâmetros ajudam a determinar se o distúrbio é agudo ou crônico. Os rins são responsáveis pela retenção ou excreção de bases, mas essa compensação renal só se torna evidente após 3 a 5 dias. Assim:

⚠️ Atenção: Alterações do BE ou BB indicam que os rins já iniciaram compensação, sugerindo distúrbio com duração superior a 3 dias.

Classificação dos Distúrbios Acidobásicos

Existem quatro distúrbios acidobásicos primários, cada um com características específicas:

Distúrbio Alteração Primária Efeito no pH Mecanismo
Acidose Metabólica ↓ HCO₃⁻ ↓ pH Perda de bicarbonato ou acúmulo de ácidos
Alcalose Metabólica ↑ HCO₃⁻ ↑ pH Ganho de bicarbonato ou perda de ácidos
Acidose Respiratória ↑ PaCO₂ ↓ pH Hipoventilação pulmonar
Alcalose Respiratória ↓ PaCO₂ ↑ pH Hiperventilação pulmonar

Método de Interpretação Sistemática da Gasometria

Passo 1: Avaliar o pH

Primeiro, observe se o pH está normal, ácido ou alcalino em relação à faixa de referência (7,35 - 7,45):

💡 Dica: Em distúrbios leves, o pH pode permanecer no limite inferior ou superior da normalidade, mas ainda indicar um distúrbio acidobásico. Nesses casos, observe atentamente PaCO₂ e HCO₃⁻.
Passo 2: Identificar o Distúrbio Primário

Determine qual alteração (PaCO₂ ou HCO₃⁻) explica a variação do pH:

Exemplos Práticos de Interpretação

Gasometria 1: pH 7,52 | PaCO₂ 28 | HCO₃⁻ 22

pH elevado (alcalose). Qual o distúrbio? PaCO₂ baixa explica a alcalose → Alcalose Respiratória.

Gasometria 2: pH 7,30 | PaCO₂ 28 | HCO₃⁻ 12

pH baixo (acidose). Qual o distúrbio? HCO₃⁻ baixo explica a acidose → Acidose Metabólica.

Gasometria 3: pH 7,32 | PaCO₂ 61 | HCO₃⁻ 32

pH baixo (acidose). Qual o distúrbio? PaCO₂ alta explica a acidose → Acidose Respiratória.

Gasometria 4: pH 7,48 | PaCO₂ 44 | HCO₃⁻ 31

pH elevado (alcalose). Qual o distúrbio? HCO₃⁻ alto explica a alcalose → Alcalose Metabólica.

Gasometria 5: pH 7,36 | PaCO₂ 36 | HCO₃⁻ 20

pH no limite inferior da normalidade. HCO₃⁻ está baixo → Acidose Metabólica Leve.

Passo 3: Avaliar Possibilidade de Distúrbio Misto

Distúrbios mistos ocorrem quando dois distúrbios acidobásicos coexistem. Suspeite de distúrbio misto nas seguintes situações:

Distúrbios Mistos

Distúrbios Mistos Contrários

Ocorrem quando uma acidose coexiste com uma alcalose. Nesses casos, o pH pode estar levemente alterado ou até normal, pois os distúrbios se contrabalanceiam.

Gasometria 6: pH 7,42 | PaCO₂ 19 | HCO₃⁻ 12

pH normal, mas PaCO₂ muito baixa (alcalose respiratória) e HCO₃⁻ muito baixo (acidose metabólica). Trata-se de distúrbios graves que se compensam mutuamente, mantendo o pH próximo ao normal.

Gasometria 7: pH 7,42 | PaCO₂ 60 | HCO₃⁻ 38

pH normal, mas PaCO₂ muito alta (acidose respiratória) e HCO₃⁻ muito alto (alcalose metabólica). Novamente, dois distúrbios graves se compensando.

🧠 Conceito importante: Quando o pH está normal mas PaCO₂ e HCO₃⁻ apresentam alterações amplas e em direções opostas, sempre suspeite de distúrbio misto contrário.
Distúrbios Mistos Concorrentes

Ocorrem quando dois distúrbios que alteram o pH na mesma direção coexistem, resultando em alterações mais graves do pH.

Acidose Mista: ↓ pH + ↑ PaCO₂ + ↓ HCO₃⁻

Coexistência de acidose respiratória e acidose metabólica. O pH pode estar extremamente baixo, indicando gravidade e risco de morte iminente.

Gasometria 8: pH 7,05 | PaCO₂ 55 | HCO₃⁻ 15

pH muito baixo. PaCO₂ alta (acidose respiratória) e HCO₃⁻ baixo (acidose metabólica) → Acidose Mista. Caso grave.

Alcalose Mista: ↑ pH + ↓ PaCO₂ + ↑ HCO₃⁻

Coexistência de alcalose respiratória e alcalose metabólica. O pH pode estar extremamente elevado, também denotando gravidade.

Gasometria 9: pH 7,80 | PaCO₂ 20 | HCO₃⁻ 30

pH muito alto. PaCO₂ baixa (alcalose respiratória) e HCO₃⁻ alto (alcalose metabólica) → Alcalose Mista. Caso grave.

⚠️ Atenção: Na acidose mista e na alcalose mista, o pH costuma estar severamente alterado, o que pode colocar a vida do paciente em risco iminente.

Resposta Compensatória

Mecanismos de Compensação

Quando um distúrbio acidobásico primário ocorre, o organismo tenta minimizar suas consequências através de mecanismos compensatórios. Existem dois órgãos principais envolvidos nessa compensação:

💡 Conceito-chave: A compensação respiratória é rápida (minutos a horas), enquanto a compensação renal é lenta (dias).

Fórmulas de Compensação Esperada

1. Acidose Metabólica → Hiperventilação Compensatória

PaCO₂ esperada = (1,5 × HCO₃⁻) + 8

2. Alcalose Metabólica → Hipoventilação Compensatória

PaCO₂ esperada = HCO₃⁻ + 15

3. Acidose Respiratória Crônica → Retenção Renal de HCO₃⁻

HCO₃⁻ esperado aumenta 4-5 mEq/L para cada aumento de 10 mmHg na PaCO₂.

Observação: Na acidose respiratória aguda, o aumento esperado é de apenas 1 mEq/L para cada 10 mmHg de aumento na PaCO₂.

4. Alcalose Respiratória Crônica → Excreção Renal de HCO₃⁻

HCO₃⁻ esperado diminui 4-5 mEq/L para cada redução de 10 mmHg na PaCO₂.

Observação: Na alcalose respiratória aguda, a redução esperada é de apenas 2 mEq/L para cada 10 mmHg de queda na PaCO₂.

💡 Interpretação das fórmulas: Se o valor calculado corresponder ao valor real da gasometria (com variação de ± 2), trata-se de um distúrbio simples/puro/compensado. Se houver discrepância maior que ± 2, suspeite de distúrbio misto.

Exemplos de Aplicação das Fórmulas

Exemplo 1: Gasometria com pH 7,28 | PaCO₂ 38 | HCO₃⁻ 11

pH baixo (acidose). HCO₃⁻ baixo explica a acidose → Acidose Metabólica.

PaCO₂ esperada = (1,5 × 11) + 8 = 24,5 mmHg

PaCO₂ real = 38 mmHg

A PaCO₂ real está muito acima da esperada → distúrbio misto (acidose metabólica + acidose respiratória associada).

Exemplo 2: Gasometria com pH 7,47 | PaCO₂ 47 | HCO₃⁻ 32

pH elevado (alcalose). HCO₃⁻ alto explica a alcalose → Alcalose Metabólica.

PaCO₂ esperada = 32 + 15 = 47 mmHg

PaCO₂ real = 47 mmHg

A PaCO₂ real está exatamente conforme esperado → distúrbio simples compensado (alcalose metabólica compensada).

⚠️ Importante: Mesmo quando a PaCO₂ ou HCO₃⁻ estão dentro da faixa normal, pode haver distúrbio misto se os valores não corresponderem ao esperado pelas fórmulas de compensação.

Anion Gap e Relação Delta-Delta

Anion Gap (AG)

O Anion Gap representa a diferença entre cátions e ânions medidos no plasma. É calculado pela fórmula:

AG = Na⁺ - (Cl⁻ + HCO₃⁻)

Valor normal: 10-12 mEq/L (pode variar de 8-12 dependendo do laboratório).

O AG é útil para classificar acidoses metabólicas:

Relação Delta-Delta (Δ/Δ)

A relação delta-delta ajuda a identificar distúrbios mistos em pacientes com acidose metabólica de AG aumentado. É calculada da seguinte forma:

Δ AG = AG atual - AG normal (10)

Δ HCO₃⁻ = HCO₃⁻ normal (24) - HCO₃⁻ atual

Relação Δ/Δ = Δ AG / Δ HCO₃⁻

Interpretação da Relação Delta-Delta
🔎 Interpretação clínica: A relação Δ/Δ revela se há coexistência de outros distúrbios além da acidose metabólica de AG aumentado, mesmo quando o pH ou outros parâmetros parecem explicados por um único distúrbio.
Exemplo 1: Δ/Δ > 2

Paciente com obstrução pilórica e choque séptico.

Gasometria: pH 7,40 | HCO₃⁻ 23 | PaCO₂ 36

Eletrólitos: Na⁺ 135 | Cl⁻ 82

AG = 135 - (82 + 23) = 30

Δ AG = 30 - 10 = 20

Δ HCO₃⁻ = 24 - 23 = 1

Δ/Δ = 20/1 = 20

A relação extremamente desproporcional indica que o paciente tem:

Os dois distúrbios se contrabalancearam, mantendo o pH e HCO₃⁻ praticamente normais, mas o AG elevado revela o distúrbio misto.

Exemplo 2: Δ/Δ < 1

Paciente com choque hipovolêmico por diarreia infecciosa.

Gasometria: pH 7,20 | HCO₃⁻ 10 | PaCO₂ 25

Eletrólitos: Na⁺ 135 | Cl⁻ 110

AG = 135 - (110 + 10) = 15

Δ AG = 15 - 10 = 5

Δ HCO₃⁻ = 24 - 10 = 14

Δ/Δ = 5/14 = 0,357

A relação desproporcional indica:

Trata-se de uma acidose mista concorrente: dois mecanismos distintos reduzindo o HCO₃⁻ (um com aumento de AG, outro sem), resultando em acidose mais grave.

🧠 Resumo: Uma relação Δ/Δ > 2 indica acidose de AG aumentado + alcalose metabólica. Uma relação Δ/Δ < 1 indica acidose de AG aumentado + acidose hiperclorêmica.

Acidose Metabólica

Conceito e Principal Etiologia

A acidose metabólica caracteriza-se pela redução primária dos níveis séricos de bicarbonato (HCO3-). Na prática clínica, a causa mais frequente é a acidose láctica, que ocorre quando o organismo produz ácido láctico em excesso. Este fenômeno está intimamente relacionado a estados de hipoxemia tecidual, situações nas quais a oferta de oxigênio aos tecidos encontra-se comprometida.

💡 Lembre-se: A acidose metabólica resulta da queda do bicarbonato plasmático. A acidose láctica é a causa mais comum e está associada a hipoxemia!

Etiologias da Acidose Metabólica

As causas de acidose metabólica dividem-se em dois grandes grupos, conforme o comportamento do ânion gap (AG). Esta classificação é fundamental para o diagnóstico diferencial e orienta a abordagem terapêutica.

Grupo I – Ânion Gap Elevado (Acidoses Normoclorêmicas)

Neste grupo, a acidose ocorre pela produção ou acúmulo de novos ácidos no organismo, resultando em aumento do ânion gap. As principais causas incluem:

Grupo II – Ânion Gap Normal (Acidoses Hiperclorêmicas)

Neste grupo, a acidose decorre da perda direta de bicarbonato ou de falha na acidificação urinária, sem produção de novos ácidos. O ânion gap permanece normal porque o cloreto aumenta para compensar a redução do bicarbonato. As principais causas são:

🧠 Conceito-Chave: Perdas abaixo do piloro (diarreia, fístulas intestinais) resultam em perda de bicarbonato, causando acidose. Perdas acima do piloro (vômitos) resultam em perda de HCl, causando alcalose.

Diagnóstico Diferencial: O Cálculo do Ânion Gap

O ânion gap é uma ferramenta essencial para classificar e diferenciar as causas de acidose metabólica. O cálculo é simples:

AG = Na - (Cl + HCO3)

Valor normal: 8 a 12 mEq/L

O ânion gap reflete o balanço eletroquímico do plasma. O sódio representa a principal carga positiva (cátion), enquanto cloreto e bicarbonato são os principais ânions mensuráveis. A diferença entre eles (normalmente 8-12 mEq/L) corresponde aos ânions não mensurados rotineiramente, como albumina, fosfato, sulfato e ácidos orgânicos.

Interpretação Fisiopatológica

Quando ocorre acidose metabólica, há redução do bicarbonato (ânion). Para manter a eletroneutralidade plasmática, outro ânion deve aumentar. Existem duas possibilidades:

💡 Regra Prática: Sempre que surgir um novo ácido no organismo (lactato, cetoácidos, ácido sulfúrico, salicilatos, etc.), o ânion gap aumenta. Nas perdas diretas de bicarbonato (diarreia, ATR), o AG permanece normal.

Causas de Ânion Gap Elevado

Acidose láctica, cetoacidose (diabética ou de jejum), uremia (insuficiência renal) e intoxicações por ácidos exógenos (AAS, metanol, etilenoglicol).

Causas de Ânion Gap Normal

Diarreia e outras perdas gastrointestinais baixas, acidoses tubulares renais e infusão rápida de volumes elevados de soro fisiológico (> 2 L/dia).

⚠️ Atenção: A infusão excessiva de soro fisiológico (SF 0,9%) fornece 154 mEq/L de cloreto, podendo induzir acidose hiperclorêmica iatrogênica. Prefira Ringer Lactato em pacientes críticos, pois o lactato é convertido em bicarbonato no fígado.

Diferenciando Acidoses Tubulares Renais

Nas acidoses tubulares renais (ATR), o ânion gap sérico é normal, mas o ânion gap urinário encontra-se elevado, auxiliando na diferenciação de outras causas hiperclorêmicas.

Relação Delta/Delta

A relação delta/delta é uma ferramenta avançada para identificar distúrbios acidobásicos mistos. Ela compara a variação do ânion gap com a variação do bicarbonato em relação aos seus valores normais. Fisiologicamente, essas variações devem ser proporcionais: se o AG aumenta 1 mEq/L devido à dissociação de um novo ácido, 1 mEq/L de H+ é liberado, consumindo 1 mEq/L de HCO3-.

Fórmula:

Delta/Delta = (AG atual - 10) / (24 - HCO3 atual)

Interpretação

Relação Delta/Delta Interpretação Exemplo Clínico
< 0,5 - 1,0 Acidose metabólica com AG elevado + Acidose com AG normal Choque hipovolêmico (acidose láctica) + diarreia intensa
1,0 - 2,0 Acidose metabólica pura com AG elevado Acidose láctica isolada, cetoacidose diabética pura
> 2,0 Acidose metabólica com AG elevado + Alcalose metabólica Choque séptico (acidose láctica) + vômitos recorrentes

Exemplo Clínico 1

Paciente em UTI com choque séptico e obstrução intestinal alta por neoplasia de antro gástrico. Gasometria: pH 7,4 | HCO3 23 mEq/L | pCO2 36 mmHg. Eletrólitos: Na 135 | Cl 82 mEq/L.

Cálculo do AG: 135 - (82 + 23) = 30 mEq/L (muito elevado!)

Delta/Delta: (30 - 10) / (24 - 23) = 20 / 1 = 20 (extremamente desproporcional!)

Apesar da gasometria aparentemente normal, há um distúrbio misto. O choque séptico gera acidose láctica (consome bicarbonato), mas a obstrução gástrica com drenagem nasogástrica excessiva gera alcalose metabólica (aumenta bicarbonato). Os dois distúrbios se contrabalanceiam, mantendo o pH e o HCO3 próximos ao normal, mas o AG elevado revela a acidose láctica oculta.

🔎 Diagnóstico: Um pH e HCO3 normais NÃO excluem distúrbio acidobásico! Sempre calcule o ânion gap e a relação delta/delta em pacientes graves.

Exemplo Clínico 2

Paciente em CTI com choque hipovolêmico secundário a diarreia infecciosa. Gasometria: pH 7,2 | HCO3 10 mEq/L | pCO2 25 mmHg. Eletrólitos: Na 135 | Cl 110 mEq/L.

Cálculo do AG: 135 - (110 + 10) = 15 mEq/L (discretamente elevado)

Delta/Delta: (15 - 10) / (24 - 10) = 5 / 14 = 0,36 (muito baixo!)

O paciente apresenta acidose láctica pelo choque (AG elevado), mas também perde bicarbonato diretamente nas fezes pela diarreia (AG normal). Ambos os mecanismos reduzem o HCO3-, resultando em acidose mista: um componente de AG aumentado e outro de AG normal (hiperclorêmico).

Tratamento da Acidose Metabólica

O tratamento varia conforme a etiologia e a gravidade do quadro. Nem todos os casos requerem reposição de bicarbonato de sódio.

Acidose Láctica e Cetoacidose

Conduta: Em geral, não fazer reposição de bicarbonato de sódio, exceto se pH < 6,9 na cetoacidose diabética. O fígado é capaz de metabolizar o lactato e os cetoácidos, regenerando bicarbonato endogenamente. O essencial é tratar a causa base: insulina para cetoacidose diabética, antibióticos e ressuscitação volêmica para sepse, correção do choque, etc.

💊 Tratamento: Na acidose láctica e cetoacidose, priorize o tratamento da causa subjacente. A administração de bicarbonato pode ser deletéria, exceto em acidose extrema (pH ≤ 6,9 na cetoacidose).

Uremia e Intoxicações por Ácidos

Conduta: Fazer reposição de bicarbonato de sódio se pH < 7,1-7,2. Diferente da acidose láctica, o fígado não consegue metabolizar ácido sulfúrico (uremia) ou ácidos exógenos (salicilatos, metanol, etilenoglicol). Se a reposição de bicarbonato não for eficaz, está indicada hemodiálise.

Acidoses Hiperclorêmicas (AG Normal)

Conduta: Administrar citrato de potássio, que é convertido em bicarbonato no fígado. Na ausência de citrato de potássio, pode-se utilizar bicarbonato de sódio. Esta conduta aplica-se a diarreia, fístulas entéricas e acidoses tubulares renais. O citrato de potássio tem a vantagem adicional de repor o potássio perdido nas perdas gastrointestinais.

Tipo de Acidose Metabólica Tratamento Observações
Acidose Láctica Tratar a causa base (antibiótico, ressuscitação volêmica, etc.) Não fazer NaHCO3 de rotina
Cetoacidose Insulina, hidratação, tratar a causa base Considerar NaHCO3 se pH < 6,9
Uremia NaHCO3 se pH < 7,1-7,2; hemodiálise se refratário Fígado não metaboliza ácido sulfúrico
Intoxicações NaHCO3; hemodiálise se refratário Considerar antídotos específicos
Hiperclorêmicas (diarreia, ATR) Citrato de potássio (ou NaHCO3 se indisponível) Citrato de potássio repõe K+ perdido

Alcalose Metabólica

Conceito e Principais Etiologias

A alcalose metabólica caracteriza-se pelo aumento primário do bicarbonato plasmático. A causa mais comum na prática clínica são os vômitos de repetição, que resultam em perda de ácido clorídrico (HCl) do suco gástrico. Outros cenários clínicos frequentes incluem uso excessivo de diuréticos, estenose hipertrófica do piloro e hiperaldosteronismo.

Etiologias da Alcalose Metabólica

A maioria das causas de alcalose metabólica está associada a tendência hipovolêmica. As principais incluem:

🧠 Conceito-Chave: A hipocalemia é causa E consequência de alcalose metabólica. A aldosterona promove reabsorção de sódio em troca de potássio ou hidrogênio. Quando há depleção de potássio, mais hidrogênio é excretado, perpetuando a alcalose.

Classificação pelo Cloreto Urinário

O cloreto urinário é o eletrólito mais útil para avaliar o status volêmico em pacientes com alcalose metabólica e orientar o tratamento. Valores < 20 mEq/L sugerem hipovolemia e resposta à reposição de cloreto. Valores > 20 mEq/L sugerem normo ou hipervolemia.

Tipo de Alcalose Cloreto Urinário Causas
Extrarrenal, responsiva a cloreto < 20 mEq/L Vômitos, drenagem nasogástrica, síndrome de Zollinger-Ellison, adenoma viloso, cloretorreia congênita
Renal, responsiva a cloreto > 20 mEq/L Diuréticos de alça e tiazídicos, síndrome de Bartter/Gitelman, acidose pós-hipercápnica
Extrarrenal, não responsiva a cloreto < 20 mEq/L Reposição excessiva de NaHCO3, citrato, acetato, lactato; hemotransfusões; síndrome leite-álcali; hipoproteinemia
Renal, não responsiva a cloreto > 20 mEq/L Hiperaldosteronismo primário e secundário, síndrome de Liddle, síndrome de Cushing
⚠️ Atenção: A alcalose metabólica causada por diuréticos é responsiva a cloreto, mas o cloreto urinário pode estar transitoriamente elevado (> 20 mEq/L) durante o efeito diurético. Suspenda o diurético por 24-48h antes de avaliar.

Acidúria Paradoxal

Um fenômeno interessante e frequentemente cobrado em provas é a acidúria paradoxal: alcalose metabólica com urina ácida. Como isso é possível?

A explicação reside na hipovolemia. Nos casos típicos de alcalose (vômitos, diuréticos), a hipovolemia é mais importante do que a necessidade de eliminar bicarbonato. No túbulo contorcido proximal (TCP), ocorre intensa reabsorção de sódio e água para restaurar a volemia. Este processo exige também a entrada de um ânion (carga negativa). O ânion reabsorvido é justamente o bicarbonato, que o rim deveria estar eliminando! Enquanto persistir a hipovolemia, o rim retém bicarbonato, mantendo a alcalose e tornando a urina ácida.

🔎 Conceito Clínico: Acidúria paradoxal = alcalose metabólica + urina ácida. Ocorre porque a hipovolemia força o rim a reabsorver bicarbonato junto com sódio e água, perpetuando a alcalose. Corrija a volemia para resolver!

Alterações Eletrolíticas Associadas

A alcalose metabólica típica (vômitos, diuréticos) cursa com:

Portanto, a tríade clássica da alcalose metabólica hipovolêmica é: hipovolemia, hipocloremia e hipocalemia. O tratamento deve corrigir os três componentes simultaneamente.

Tratamento da Alcalose Metabólica

O tratamento varia conforme a etiologia e o status volêmico do paciente.

Alcalose Responsiva a Cloreto (Hipovolêmica)

Causas: vômitos, drenagem nasogástrica, diuréticos.

Conduta: Administrar simultaneamente:

A reposição dos três componentes é mandatória. Se apenas um ou dois forem corrigidos, a alcalose persiste.

💊 Tratamento: Alcalose metabólica hipovolêmica = SF 0,9% + NaCl + KCl. Não omita nenhum dos três! A correção parcial não resolve o distúrbio.

Alcalose Não Responsiva a Cloreto (Hipervolêmica)

Causas: hiperaldosteronismo primário (síndrome de Conn, adenoma suprarrenal), síndrome de Cushing.

Conduta: Estes pacientes são hipervolêmicos e não se beneficiam de reposição de volume ou cloreto. O tratamento consiste em:

Hipertensão Renovascular

Causas: estenose de artéria renal, levando a hiperaldosteronismo secundário.

Conduta: Inibidor da ECA (IECA) ou revascularização arterial (angioplastia, cirurgia).

Tipo de Alcalose Status Volêmico Tratamento
Responsiva a cloreto (vômitos, diuréticos) Hipovolemia SF 0,9% + NaCl + KCl
Não responsiva a cloreto (hiperaldosteronismo) Hipervolemia Espironolactona + cirurgia (se adenoma)
HAS renovascular Normo ou hipervolemia IECA ou revascularização

Acidose Respiratória

Fisiopatologia e Mecanismo

A acidose respiratória ocorre quando há hipoventilação alveolar, levando ao acúmulo de CO₂ no sangue. O único mecanismo fisiopatológico capaz de desencadear acidose respiratória é a hipoventilação pulmonar. Este quadro geralmente decorre de condições que comprometem a mecânica ventilatória ou a função pulmonar de forma significativa.

🧠 Conceito-chave: A acidose respiratória SEMPRE resulta de hipoventilação alveolar, com consequente retenção de CO₂ (PaCO₂ > 45 mmHg) e redução do pH sanguíneo.

Formas Clínicas

A acidose respiratória pode se apresentar de três formas distintas, cada uma com características gasométricas específicas e implicações clínicas diferentes:

Acidose Respiratória Aguda

Nesta forma, o organismo ainda não teve tempo suficiente para ativar mecanismos compensatórios renais. A gasometria arterial revela pH < 7,35, PaCO₂ > 45 mmHg e excesso de base (BE) normal, uma vez que o rim não teve tempo de reter bicarbonato para compensar a acidemia.

Principais Causas de Acidose Respiratória Aguda:

Acidose Respiratória Crônica

Na forma crônica, o rim teve tempo para compensar a retenção crônica de CO₂ através do aumento da reabsorção de bicarbonato. A gasometria demonstra pH normal ou discretamente reduzido, PaCO₂ > 45 mmHg (frequentemente muito elevado) e BE elevado, refletindo a compensação metabólica renal bem estabelecida.

💡 Dica clínica: O paciente "retentor crônico de CO₂" geralmente apresenta DPOC avançado e pode manter níveis muito elevados de PaCO₂ (por vezes > 60-70 mmHg) com pH relativamente preservado devido à compensação renal crônica com bicarbonato elevado.
Principais Causas de Acidose Respiratória Crônica:

Acidose Respiratória Crônica Agudizada

Esta forma representa uma descompensação aguda sobreposta a uma acidose respiratória crônica prévia. O paciente, que já era retentor crônico de CO₂ e apresentava compensação metabólica estabelecida, sofre uma piora aguda da ventilação. A gasometria revela pH < 7,35, PaCO₂ > 45 mmHg (geralmente muito elevado) e BE elevado (evidenciando a compensação crônica prévia).

Exemplo Clássico:
⚠️ Atenção: A diferenciação entre acidose respiratória crônica agudizada e aguda pura se faz pelo valor do BE (excesso de base). BE elevado indica compensação metabólica prévia, sugerindo cronicidade de base.

Abordagem Terapêutica

O tratamento da acidose respiratória deve ser individualizado conforme a forma clínica e a gravidade do quadro:

Acidose Respiratória Aguda

Requer intervenção ventilatória imediata quando associada a comprometimento clínico significativo. As opções incluem intubação orotraqueal (IOT) seguida de ventilação mecânica invasiva (VM), dependendo da condição clínica geral do paciente, nível de consciência, fadiga muscular respiratória e capacidade de proteger vias aéreas.

Acidose Respiratória Crônica Compensada

Pacientes com acidose respiratória crônica bem compensada (pH normal ou discretamente reduzido, sem sintomas agudos) não necessitam de suporte ventilatório invasivo. O tratamento foca no controle da doença de base (otimização do tratamento da DPOC, uso de broncodilatadores, corticoides quando indicado, oxigenoterapia domiciliar quando apropriado).

Acidose Respiratória Crônica Agudizada

A indicação de suporte ventilatório (invasivo ou não invasivo) deve considerar:

Nesses casos, a ventilação não invasiva (VNI) pode ser tentada inicialmente em pacientes selecionados (conscientes, cooperativos, hemodinamicamente estáveis). Se houver falha da VNI ou contraindicações, procede-se com IOT + VM invasiva.

🚨 Emergência: pH < 7,20, alteração do sensório ou fadiga respiratória grave são indicações de suporte ventilatório urgente na acidose respiratória crônica agudizada.
Forma Clínica pH PaCO₂ BE Exemplo Clássico
Aguda < 7,35 > 45 mmHg Normal Crise asmática grave, Guillain-Barré
Crônica Normal ou ↓ discreto > 45 mmHg (frequentemente > 60) Elevado DPOC avançado estável
Crônica Agudizada < 7,35 > 45 mmHg (muito elevado) Elevado DPOC exacerbado

Alcalose Respiratória

Fisiopatologia e Mecanismo

A alcalose respiratória resulta de hiperventilação alveolar, com eliminação excessiva de CO₂ pelos pulmões. Este é o único mecanismo capaz de gerar alcalose respiratória. A queda da PaCO₂ eleva o pH sanguíneo, caracterizando alcalemia de origem respiratória.

🧠 Conceito-chave: A alcalose respiratória SEMPRE decorre de hiperventilação, levando à redução da PaCO₂ e elevação do pH. As causas variam desde hiperventilação psicogênica até condições clínicas graves que estimulam o centro respiratório.

Causas

As causas de alcalose respiratória dividem-se em agudas e crônicas, dependendo da duração do estímulo hiperventilador:

Causas Agudas

Situações que desencadeiam hiperventilação súbita e transitória:

Causas Crônicas

Condições que mantêm estímulo contínuo ao centro respiratório, promovendo hiperventilação sustentada:

💡 Dica diagnóstica: Em paciente séptico ou com insuficiência hepática, a hiperventilação (taquipneia) pode ser interpretada erroneamente como insuficiência respiratória. A gasometria revelará alcalose respiratória (pH elevado e PaCO₂ reduzida), e não hipoxemia isolada.

Tratamento

O manejo da alcalose respiratória deve focar na identificação e tratamento da causa subjacente. A simples correção do distúrbio gasométrico não é o objetivo primário; o essencial é eliminar o estímulo hiperventilador.

Estratégias Terapêuticas:

⚠️ Atenção: O uso de bolsas coletoras (rebreathing) deve ser reservado para casos específicos e graves de hiperventilação psicogênica. Não é indicado de rotina e pode ser perigoso se usado indiscriminadamente ou em causas orgânicas de hiperventilação.

A alcalose respiratória, embora geralmente menos grave que a acidose respiratória, não deve ser subestimada. A investigação cuidadosa da causa é fundamental, pois pode ser a manifestação inicial de condições graves como sepse ou TEP.

Tipo de Causa Exemplos Clínicos Mecanismo
Agudas Crise de ansiedade, Asma inicial, TEP, Pneumonia Hiperventilação súbita por hipoxemia, dor, ansiedade
Crônicas Sepse, Insuficiência hepática, Lesões do SNC Estímulo contínuo ao centro respiratório por toxinas, citocinas ou lesão neurológica