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Distúrbios Hidroeletrolíticos


Conceitos Iniciais

Antes de explorar os distúrbios hidroeletrolíticos propriamente ditos, é fundamental compreender os mecanismos fisiológicos que regulam o equilíbrio de água e eletrólitos no organismo.

Primeira Revisão: Hipovolemia e Sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona

Em situações de hipovolemia, o organismo ativa mecanismos compensatórios para restaurar a volemia adequada. O principal sistema envolvido é o Sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona (SRAA).

Retenção de Sódio e Água pela Aldosterona

A aldosterona atua na porção cortical do túbulo coletor renal, promovendo a reabsorção de sódio. Para cada íon sódio reabsorvido na presença de aldosterona, ocorre a excreção de íons potássio ou hidrogênio. Como o sódio exerce efeito osmótico significativo, sua reabsorção promove o carreamento de água junto, contribuindo para a restauração da volemia.

Retenção de Água pelo Hormônio Antidiurético

Simultaneamente à ação da aldosterona, ocorre a liberação do Hormônio Antidiurético (ADH), também chamado de vasopressina. O ADH age aumentando a permeabilidade do túbulo coletor à água, promovendo sua reabsorção. O resultado final desses dois mecanismos é o ganho volêmico, porém com uma particularidade importante: a retenção de água supera proporcionalmente a retenção de sódio.

💡 Conceito-chave: Na hipovolemia, a ativação do SRAA e do ADH resulta em maior retenção de água comparada ao sódio, explicando por que estados hipovolêmicos podem cursar com hiponatremia.

Segunda Revisão: Hipernatremia versus Hiponatremia

Considerando que a retenção de água excede a retenção de sódio nos mecanismos compensatórios, podemos estabelecer dois conceitos fundamentais:

Essa compreensão é essencial para identificar as causas subjacentes dos distúrbios do sódio e direcionar adequadamente a investigação e o tratamento.

Terceira Revisão: Distribuição da Água Corporal

A água representa a maior fração da composição corporal, variando conforme sexo, idade e composição corporal. Conhecer esses valores é importante para cálculos de reposição volêmica e de eletrólitos.

Percentual de Água Corporal Total

A diferença entre homens e mulheres decorre da maior proporção de tecido adiposo nas mulheres, uma vez que o tecido adiposo contém menos água. Indivíduos obesos e idosos também apresentam cerca de 10% a menos de água corporal total devido ao aumento da gordura corporal e redução da massa magra.

🧮 Fórmula importante: Água Corporal Total = 0,6 (homens) ou 0,5 (mulheres) × Peso (kg). Lembre-se de reduzir aproximadamente 10% em obesos e idosos.

Compartimentos da Água Corporal

A água corporal distribui-se em dois grandes compartimentos:

Portanto, a maior parte da água corporal encontra-se no espaço intracelular.

Quarta Revisão: Osmolaridade Plasmática

A osmolaridade plasmática representa a relação entre solutos e solvente no plasma sanguíneo. É um parâmetro fundamental na avaliação dos distúrbios hidroeletrolíticos.

Cálculo da Osmolaridade Plasmática

A fórmula para calcular a osmolaridade plasmática é:

🧪 Osmolaridade Plasmática = 2 × [Sódio] + Glicose/18 + Ureia/6
Observação: caso o laboratório forneça BUN (nitrogênio ureico) em vez de ureia, utilize BUN/2,8

Em condições fisiológicas normais, a osmolaridade plasmática situa-se entre 285-295 mOsm/L, com valor médio de 290 mOsm/L. Note que o sódio é o principal determinante da osmolaridade, respondendo por aproximadamente 280 dos 290 mOsm/L totais.

Osmolaridade Efetiva ou Tonicidade

A osmolaridade efetiva, também denominada tonicidade, refere-se à capacidade dos solutos de exercerem efeito osmótico, isto é, de "atrair" água através das membranas celulares. A fórmula da tonicidade difere da osmolaridade total:

🧪 Tonicidade (Osmolaridade Efetiva) = 2 × [Sódio] + Glicose/18

Nesta fórmula, a ureia é excluída porque não possui efeito tônico significativo. Enquanto sódio e glicose conseguem "puxar" água através das membranas celulares, a ureia atravessa livremente essas membranas, não gerando gradiente osmótico efetivo. Por isso, mesmo um paciente com insuficiência renal e ureia elevada (por exemplo, 300 mg/dL) não desenvolverá desvio osmótico significativo pela ureia isoladamente.

Quinta Revisão: Gap Osmótico

O gap osmótico representa a diferença entre a osmolaridade plasmática calculada pela fórmula e a osmolaridade medida diretamente por um osmômetro em laboratório.

Em algumas situações clínicas, o valor medido pelo osmômetro pode divergir significativamente do valor calculado. Por exemplo, se o osmômetro indica 320 mOsm/L mas o cálculo resulta em 290 mOsm/L, existe um gap osmótico de 30 mOsm/L.

⚠️ Significado clínico: Gap osmótico > 10 mOsm/L sugere fortemente intoxicação exógena, sendo o álcool etílico a causa mais comum. Outros tóxicos incluem metanol, etilenoglicol e isopropanol.

O gap osmótico ocorre porque o soluto responsável pelo aumento da osmolaridade não está incluído na fórmula de cálculo (que considera apenas sódio, glicose e ureia). O osmômetro detecta esse soluto adicional, gerando a discrepância.

Sexta Revisão: Controle da Osmolaridade e Manifestações Clínicas

Mecanismos de Controle da Osmolaridade

A osmolaridade plasmática é finamente regulada por dois mecanismos principais:

É importante destacar que, embora a aldosterona promova reabsorção de sódio (e consequentemente de água), o hormônio específico para controle da água é o ADH. Pacientes em estados de desidratação liberam ADH, resultando em urina concentrada e oligúria. O centro da sede, por sua vez, pode estar comprometido em pacientes com rebaixamento do nível de consciência ou idosos, nos quais a percepção de sede encontra-se frequentemente diminuída.

Manifestações Clínicas das Variações de Osmolaridade

O sistema nervoso central é particularmente sensível às alterações de osmolaridade. Os neurônios são as células que mais sofrem com variações osmóticas, tanto na hipernatremia quanto na hiponatremia.

🧠 Importante: As manifestações neurológicas da hiponatremia e da hipernatremia são similares: náuseas, vômitos, cefaleia, confusão mental, sonolência, torpor, convulsões e coma. A gravidade dos sintomas correlaciona-se com a velocidade e magnitude da alteração.

Pacientes com intoxicação alcoólica, por exemplo, apresentam osmolaridade elevada e desenvolvem sintomas neurológicos devido ao efeito osmótico sobre o tecido cerebral.


Distúrbios do Sódio

O sódio é o principal cátion extracelular e possui papel fundamental na regulação da osmolaridade plasmática. Suas características principais incluem:

🧠 Lembre-se: A fórmula da osmolaridade plasmática é: 2 × [Na] + Glicose/18 + Ureia/6. O sódio representa aproximadamente 280 dos 290 mOsm/kg normais, sendo o principal determinante da osmolaridade.

Hiponatremia

A hiponatremia representa o distúrbio eletrolítico mais frequentemente encontrado em pacientes hospitalizados.

Classificação Fisiopatológica da Hiponatremia

Hiponatremia Hipo-osmolar (Hipotônica)

Esta é a forma mais comum de hiponatremia. Considerando que o sódio representa cerca de 95% da osmolaridade plasmática (2 × 140 = 280 de aproximadamente 290 mOsm/kg), a redução do sódio sérico geralmente resulta em queda proporcional da osmolaridade. Neste cenário, a osmolaridade plasmática estará reduzida, caracterizando a hiponatremia verdadeira.

Hiponatremia Hiper-osmolar (Hipertônica)

Esta forma representa uma exceção importante. Ocorre principalmente em situações de hiperglicemia acentuada, como no estado hiperosmolar hiperglicêmico não cetótico ou na cetoacidose diabética grave. O mecanismo fisiopatológico envolve:

💡 Conceito-chave: A glicose possui efeito tônico e puxa água do intracelular para o extracelular, diluindo o sódio. Já a ureia, apesar de aumentar a osmolaridade, não possui efeito tônico significativo e não causa este fenômeno.
Pseudo-hiponatremia

Trata-se de uma redução artefatual do sódio sérico, não representando hiponatremia verdadeira. Ocorre em situações de:

Nesses casos, o excesso de proteínas ou lipídeos interfere na técnica laboratorial de dosagem do sódio, gerando um resultado falsamente reduzido. O tratamento da condição de base normaliza o resultado laboratorial.

Causas de Hiponatremia Hipo-osmolar

A hiponatremia hipo-osmolar, que representa a verdadeira hiponatremia, pode ser subdividida em dois grandes grupos fisiopatológicos:

Grupo 1: Excesso de Água Livre (Independente do ADH)

Nestas situações, há aporte excessivo de água livre sem capacidade renal adequada de excreção, resultando em diluição do sódio plasmático. As causas incluem:

🔎 Característica diagnóstica: Nestes casos, a osmolaridade urinária estará baixa (< 100 mOsm/kg), indicando urina diluída, pois o rim está tentando excretar o excesso de água livre.
Grupo 2: Excesso de Ação do Hormônio Antidiurético (ADH)

Este grupo representa as causas mais comuns de hiponatremia na prática clínica. O ADH promove reabsorção de água livre nos túbulos coletores renais, e seu excesso ou liberação inapropriada resulta em retenção hídrica desproporcional à retenção de sódio.

🔎 Característica diagnóstica: Nestes casos, a osmolaridade urinária estará elevada (> 100 mOsm/kg), indicando urina concentrada, pois o ADH está atuando nos túbulos coletores.

De acordo com o estado volêmico do paciente, subdividimos em três categorias:

Hiponatremia Hipovolêmica

Representa o cenário mais comum de hiponatremia na prática clínica diária. O mecanismo fisiopatológico envolve:

As principais etiologias incluem:

⚠️ Atenção especial: Os diuréticos tiazídicos são causa frequente de hiponatremia hipovolêmica. Diferentemente da furosemida, que prejudica o mecanismo de concentração urinária e tende a causar mais perda de água que sódio, os tiazídicos não interferem com a medula renal e permitem ação plena do ADH.

Diferenciação das Causas de Hiponatremia Hipovolêmica

O sódio urinário permite diferenciar entre perdas renais e extrarrenais:

Sódio Urinário Interpretação Causas Principais
< 20-25 mEq/L SRAA funcionante (rim retendo sódio adequadamente) Perdas extrarrenais: vômitos, diarreia, hemorragias, queimaduras, terceiro espaço
> 20-40 mEq/L SRAA não funcionante ou perda renal primária Perdas renais: diuréticos tiazídicos, insuficiência adrenal primária, síndrome cerebral perdedora de sal, nefropatias perdedoras de sal, acidose tubular renal
💊 Farmacologia importante: Furosemida e tiazídicos diferem quanto ao sódio. Ambos causam hipocalemia e alcalose metabólica (aumentam sódio distal, que é trocado por K+ e H+ sob ação da aldosterona). Porém, quanto à natremia: tiazídicos causam hiponatremia (não interferem com ADH); furosemida previne/trata hiponatremia (bloqueia concentração medular e impede ação do ADH).
Hiponatremia Hipervolêmica

Este cenário aparentemente paradoxal ocorre quando há redução do volume circulante arterial efetivo, apesar de hipervolemia global. O mecanismo fisiopatológico envolve:

As principais etiologias incluem:

🚨 Valor prognóstico: A presença de hiponatremia em pacientes com insuficiência cardíaca ou cirrose hepática indica pior prognóstico e doença mais avançada. A hiponatremia nestes contextos correlaciona-se com maior mortalidade.
🔎 Dica diagnóstica: Hiponatremia + edema/anasarca = hiponatremia hipervolêmica. A presença de edema clinicamente evidente aponta para esta categoria.
Hiponatremia Euvolêmica

Esta categoria é dominada pela Síndrome da Secreção Inapropriada de Hormônio Antidiurético (SIADH), condição de extrema relevância para provas de residência médica. O mecanismo fisiopatológico peculiar envolve:

🧠 Conceito fundamental para provas: A tríade diagnóstica da SIADH é: (1) Hiponatremia euvolêmica (sem edema, PVC normal); (2) Hipouricemia (PNA aumenta excreção de ácido úrico); (3) Sódio urinário elevado (> 30-40 mEq/L, pela natriurese induzida pelo PNA).

As principais etiologias da SIADH incluem:

Diagnóstico Diferencial: Síndrome Cerebral Perdedora de Sal (SCPS)

Esta síndrome representa um importante diagnóstico diferencial da SIADH, especialmente em pacientes neurocríticos. Ambas cursam com hiponatremia em contexto de lesão cerebral, mas apresentam diferenças fisiopatológicas e terapêuticas fundamentais:

Parâmetro SIADH SCPS
Fisiopatologia Excesso de ADH Secreção de peptídeo natriurético cerebral (BNP)
Estado volêmico Euvolemia Hipovolemia
Pressão arterial Normal Normal a reduzida
Ureia Normal a baixa Normal a elevada
Ácido úrico Baixo Baixo
Volume urinário Normal a reduzido Aumentado
Sódio urinário > 30 mEq/L Muito > 30 mEq/L
Tratamento Restrição hídrica + furosemida ± bloqueadores de ADH Reposição volêmica com SF 0,9% + dieta hiperssódica ± fludrocortisona
⚠️ Diferença fundamental: SIADH = euvolemia; SCPS = hipovolemia. Em paciente neurocrítico com hiponatremia, avaliar sinais de hipovolemia (taquicardia, hipotensão ortostática, redução de turgor cutâneo) para diferenciar entre as duas condições.

Outras causas de hiponatremia euvolêmica incluem:

Manifestações Clínicas da Hiponatremia

As manifestações clínicas da hiponatremia resultam primariamente do edema cerebral. O mecanismo fisiopatológico envolve:

Os sintomas incluem:

🧠 Conceito fundamental: A intensidade dos sintomas depende mais da velocidade de instalação da hiponatremia do que do valor absoluto do sódio sérico.
Hiponatremia Aguda versus Crônica

A distinção temporal possui implicações clínicas e terapêuticas fundamentais:

💡 Exemplo clínico: Dois pacientes com sódio de 110 mEq/L: o primeiro desenvolveu hiponatremia em 12 horas e está convulsionando no CTI; o segundo desenvolveu hiponatremia ao longo de 2 semanas e está em casa com sintomas leves. A diferença é o tempo de adaptação neuronal.

Abordagem da Hiponatremia

Hiponatremia Hiperosmolar e Pseudohiponatremia

Nestas situações, a prioridade terapêutica consiste no tratamento das condições causadoras subjacentes. A hiponatremia hiperosmolar ocorre tipicamente na presença de solutos osmoticamente ativos (como glicose elevada no diabetes descompensado), enquanto a pseudohiponatremia resulta de interferências laboratoriais causadas por hiperlipidemia ou hiperproteinemia grave.

Hiponatremia Hipoosmolar com Hipovolemia

Esta representa a apresentação clínica mais frequente na prática médica. A fisiopatologia envolve depleção primária do volume circulante, que desencadeia liberação compensatória de hormônio antidiurético (ADH). A abordagem terapêutica fundamental consiste na reposição volêmica com solução salina isotônica (NaCl 0,9%).

💡 Conceito-chave: Na hiponatremia hipovolêmica, o foco terapêutico não é a reposição direta de sódio, mas sim a restauração da volemia. Ao corrigir o volume circulante, cessa-se o estímulo para liberação de ADH, permitindo a normalização gradual da natremia.
Hiponatremia Hipoosmolar com Hipervolemia

Observada caracteristicamente em pacientes com insuficiência cardíaca congestiva, cirrose hepática ou síndrome nefrótica. Nestes casos, a expansão volêmica seria deletéria e potencialmente fatal. A estratégia terapêutica envolve restrição hídrica rigorosa associada a furosemida, um diurético de alça que interfere com a capacidade de concentração urinária mediada pelo ADH ao reduzir o gradiente osmótico medular.

Hiponatremia Hipoosmolar com Euvolemia

Típica da Síndrome de Secreção Inapropriada de Hormônio Antidiurético (SIADH). A abordagem inicial consiste em restrição hídrica associada a furosemida e dieta hiperssódica. Entretanto, esta combinação frequentemente proporciona apenas resposta parcial.

Quando o controle se mostra inadequado, indica-se a adição de antagonistas dos receptores de vasopressina (vaptanos), como o conivaptan por via endovenosa, particularmente útil em ambiente de terapia intensiva. Alternativamente, pode-se utilizar demeclociclina, um antibiótico da classe das tetraciclinas que apresenta efeito colateral de induzir diabetes insipidus nefrogênico, antagonizando assim a ação do ADH.

Manejo da Hiponatremia Aguda ou Sintomática

Quadros com menos de 48 horas de evolução ou manifestações neurológicas significativas (confusão mental, convulsões, coma) requerem abordagem emergencial distinta. A estratégia conservadora descrita anteriormente não se aplica quando há sofrimento neuronal agudo por edema cerebral.

Protocolo de Reposição com Solução Salina Hipertônica

A única solução autorizada para correção aguda de hiponatremia sintomática é a salina a 3% (contém 3 gramas de NaCl em 100 mL). Existem regras rigorosas para administração segura desta solução.

⚠️ Alerta de Segurança: A correção deve elevar o sódio sérico em no máximo 10-12 mEq/L nas primeiras 24 horas. Correção mais rápida aumenta drasticamente o risco de mielinólise pontina (síndrome desmielinizante osmótica), complicação neurológica devastadora e irreversível.
Mielinólise Pontina Central

Quando a infusão de sódio ocorre de maneira excessivamente rápida, os neurônios pontinos, particularmente vulneráveis a oscilações osmóticas bruscas, sofrem desidratação aguda (crenação celular). O aumento súbito da osmolaridade extracelular extrai água do meio intracelular, culminando em morte neuronal por desidratação.

As manifestações clínicas incluem tetraplegia espástica, paralisia pseudobulbar, alteração do nível de consciência e outros déficits neurológicos graves. O quadro é irreversível. O diagnóstico confirmatório é estabelecido por ressonância magnética de crânio, que demonstra áreas de hiperintensidade características na ponte.

Métodos de Cálculo para Reposição de Sódio
Método 1: Bolus Intermitente

Administrar 100 mL de salina 3% em 20 minutos. Este volume eleva a natremia em aproximadamente 4-6 mEq/L. O protocolo permite até 3 repetições consecutivas, com o objetivo de alcançar elevação de 5 mEq/L ou resolução dos sintomas neurológicos. Deve-se dosar o sódio sérico imediatamente após cada infusão.

Método 2: Cálculo do Déficit de Sódio

Primeira etapa: Calcular o déficit total de sódio (em mEq)

Déficit de Na+ (mEq) = Água corporal × ΔNa+ desejado

Segunda etapa: Converter de mEq para gramas de NaCl

Utilizar a equivalência: 1 grama de NaCl = 17 mEq de Na+

Terceira etapa: Converter para volume de salina 3%

Considerando que a solução contém 3 gramas de NaCl em cada 100 mL, calcular o volume necessário através de regra de três simples.

📝 Exemplo Prático: Homem, 70 kg, sódio sérico de 110 mEq/L, apresentando coma. Para completar 24h (restante das 21h): 0,6 × 70 × 9 = 378 mEq = 22,2 g = 740 mL nas próximas 21h
Método 3: Fórmula de Adrogué-Madias

Esta fórmula calcula a variação esperada na natremia para cada litro de solução infundida:

ΔNa+ por litro = ([Na+] da solução - [Na+] do paciente) ÷ (Água corporal + 1)

💡 Regra Prática Simplificada: Como estimativa rápida, considere que 1 mL/kg de salina 3% eleva aproximadamente 1 mEq/L o sódio sérico (assumindo água corporal = 0,5 × peso). Para um paciente de 70 kg: 70 mL → elevação de ~1 mEq/L; logo, 700 mL → elevação de ~10 mEq/L.

Hipernatremia

Define-se como concentração sérica de sódio superior a 145 mEq/L. Fisiopatologicamente, resulta de déficit relativo de água livre ou de hormônio antidiurético (diabetes insipidus), tornando o plasma hipertônico.

Etiologia

As causas principais incluem situações em que o paciente não consegue solicitar ou ingerir líquidos adequadamente:

Manifestações Clínicas

A hipernatremia induz desidratação neuronal por movimento osmótico de água do compartimento intracelular para o extracelular. As manifestações incluem cefaleia intensa, hemorragia cerebral (por ruptura de vasos durante a retração do parênquima), alteração do sensório e coma nos casos graves.

Tratamento

A abordagem depende do estado neurológico do paciente:

Pacientes Conscientes e Orientados

Prefere-se água potável por via oral ou água por sonda enteral, que permitem reposição mais fisiológica e segura.

Pacientes com Rebaixamento do Sensório

Indica-se soluções hipotônicas endovenosas: glicose 5% (livre de eletrólitos) ou NaCl 0,45% (salina hipotônica).

⚠️ Regra de Segurança: Reduzir o sódio sérico em no máximo 10 mEq/L nas primeiras 24 horas. Correção rápida excessiva pode induzir edema cerebral agudo, resultando em convulsões, herniação e coma.

Diabetes Insipidus: Considerações Diagnósticas

Quadro Clínico Geral

Caracterizado por poliúria (volume urinário > 3 L/dia), noctúria e polidipsia compensatória. A natremia pode permanecer normal enquanto a ingestão hídrica compensa as perdas, mas tende a elevar-se quando a compensação se torna insuficiente.

Diagnósticos Diferenciais

Frente a poliúria e polidipsia, considerar: diabetes mellitus (glicosúria osmótica), diabetes insipidus (déficit de ADH ou resistência renal) e polidipsia primária (comportamental/psiquiátrica).

Teste da Restrição Hídrica

Método diagnóstico que diferencia diabetes insipidus de polidipsia primária. O paciente permanece sem ingerir líquidos por 2-3 horas, com monitorização da osmolaridade plasmática e urinária, além de avaliação clínica contínua.

Achados Laboratoriais
Característica Diabetes Insipidus Central Diabetes Insipidus Nefrogênico
Fisiopatologia Déficit de produção/secreção de ADH pela neurohipófise Resistência renal à ação do ADH
Causas Principais Tumores hipofisários, TCE, cirurgia hipofisária, ingesta aguda de etanol Uso crônico de lítio, hipercalcemia, hipocalemia, recuperação de injúria renal aguda pós-renal
Osmolaridade Urinária Reduzida (hipostenúria) Reduzida (hipostenúria)
Teste com Desmopressina Boa resposta (aumento da osmolaridade urinária) Sem resposta (ADH exógeno não atua)
Tratamento Desmopressina (DDAVP) - análogo sintético do ADH Restrição de solutos (sódio e proteínas), diuréticos tiazídicos, AINES em casos refratários
🧠 Mecanismo dos Tiazídicos no DI Nefrogênico: Paradoxalmente, diuréticos tiazídicos reduzem o volume urinário ao induzirem depleção volêmica leve, estimulando reabsorção proximal de água e sódio, o que reduz a chegada de filtrado ao túbulo coletor (onde o ADH não funciona adequadamente).

Distúrbios do Potássio

O potássio é o principal cátion intracelular, com aproximadamente 98% do total corporal localizado dentro das células. A concentração sérica normal varia entre 3,5 e 5,5 mEq/L. Sua principal função está relacionada à excitabilidade neuromuscular, motivo pelo qual as células musculares (miócitos) são as mais afetadas por suas alterações, manifestando sintomas como câimbras, fraqueza muscular e, em casos graves, alterações cardíacas potencialmente fatais.

🧠 Conceito-chave: O potássio é predominantemente intracelular (98%), mas sua dosagem laboratorial é feita no sangue (meio extracelular), onde representa apenas 2% do total corporal. Pequenas variações na distribuição entre os compartimentos podem gerar grandes oscilações na concentração sérica.

Regulação do Potássio

O controle da concentração sérica de potássio depende fundamentalmente de dois mecanismos: o fluxo transcelular (movimentação entre os meios intra e extracelular) e a excreção renal. O principal hormônio regulador do potássio é a aldosterona, secretada pela zona glomerulosa do córtex adrenal.

A aldosterona atua no túbulo coletor renal promovendo a reabsorção de sódio em troca da excreção de potássio ou hidrogênio. Diversos fatores influenciam o fluxo transcelular do potássio:

💡 Dica de memorização: Lembre-se dos "hormônios dos eletrólitos": o ADH (hormônio antidiurético) é o "hormônio do sódio", enquanto a aldosterona é o "hormônio do potássio". Essa associação facilita a compreensão das causas e tratamentos dos distúrbios.

Hipocalemia

A hipocalemia é definida como concentração sérica de potássio inferior a 3,5 mEq/L. Resulta de perda excessiva ou redistribuição do potássio para o meio intracelular. Compreender o mecanismo fisiopatológico é fundamental para identificar as causas e orientar o tratamento.

Etiologia

As causas de hipocalemia podem ser divididas didaticamente em dois grandes grupos: situações em que há perda excessiva de potássio ou situações em que há redistribuição aumentada para dentro das células.

Perdas Excessivas de Potássio
⚠️ Atenção: Nos vômitos, a perda de potássio não ocorre diretamente pelo conteúdo gástrico (que contém pouco potássio), mas sim pela urina! A perda de ácido clorídrico gera alcalose metabólica, que estimula a excreção renal de potássio como mecanismo compensatório. Aldosterona prefere trocar sódio por potássio quando há escassez de hidrogênio.
Redistribuição para o Meio Intracelular

Existe uma inter-relação importante entre potássio e equilíbrio ácido-base: a hipocalemia causa alcalose metabólica (há excesso relativo de eliminação de H⁺) e a alcalose metabólica causa hipocalemia (há excesso relativo de eliminação de K⁺). Essa frase resume: "A hipocalemia é simultaneamente causa e consequência da alcalose metabólica".

Manifestações Clínicas

A hipocalemia manifesta-se principalmente por sintomas neuromusculares, embora muitos pacientes permaneçam assintomáticos em casos leves (K⁺ entre 3,0-3,5 mEq/L). Os principais achados incluem:

Alterações Eletrocardiográficas

O eletrocardiograma apresenta alterações progressivas conforme a gravidade da hipocalemia:

Nível de Potássio (mEq/L) Alterações no ECG
3,5 – 5,0 ECG normal
2,5 – 3,5 Aparecimento da onda U; depressão do segmento ST
1,5 – 2,5 Achatamento da onda T; onda U proeminente
< 1,5 Alargamento do QRS; onda U fundida com onda T; possível infradesnível de ST
🔎 Diagnóstico diferencial: A sequência clássica é: onda T achatada → surgimento de onda U → onda P apiculada → aumento do intervalo QT. Em casos graves, pode haver alargamento de QRS e infradesnível de ST.

Tratamento

O tratamento da hipocalemia depende da gravidade do quadro, da presença de alterações eletrocardiográficas e da tolerância à via oral. A reposição de potássio deve ser criteriosa para evitar hipercalemia iatrogênica.

Via Oral (Primeira Escolha)

A via oral é preferencial quando o potássio está acima de 3,0 mEq/L e não há alterações cardíacas significativas. O xarope de cloreto de potássio (KCl) 6% é a formulação mais utilizada. A concentração de 6% significa 6g de KCl em 100 mL de xarope.

Dose recomendada: 3g de KCl por dia, correspondendo a aproximadamente 50 mL de xarope divididos em 3-4 tomadas (15 mL, 3-4 vezes ao dia). A via oral proporciona absorção intestinal eficiente e é mais segura que a via venosa.

💊 Tratamento: Questões de prova frequentemente perguntam sobre a via de reposição no pós-operatório. Lembre-se: a via ORAL é a primeira escolha, não a venosa! Reserve a via intravenosa para casos graves, K⁺ < 3,0 ou alterações no ECG.
Via Intravenosa

Indicada quando há intolerância gastrointestinal, potássio sérico inferior a 3,0 mEq/L ou alterações eletrocardiográficas. A reposição venosa exige cuidados rigorosos devido ao risco de hipercalemia aguda e arritmias.

Regra do "20-300-40" (mnemônica para reposição venosa):

Preparo prático: Diluir 2 ampolas de KCl 10% (ou 1 ampola de KCl 19,1%) em 500 mL de soro fisiológico 0,45% (idealmente). Evitar soro glicosado, pois a glicose estimula liberação de insulina e pode piorar a hipocalemia. Cada 1g de KCl contém aproximadamente 13 mEq de potássio.

Hipocalemia Refratária

Quando a hipocalemia não responde adequadamente à reposição de potássio, deve-se suspeitar de hipomagnesemia concomitante. O magnésio é cofator essencial para o funcionamento da bomba Na⁺/K⁺-ATPase, e sua deficiência impede a normalização dos níveis de potássio. Nestes casos, é necessário repor magnésio simultaneamente.

⚠️ Atenção clínica: Sempre investigar e corrigir hipomagnesemia em casos de hipocalemia refratária ao tratamento. A correção do magnésio é pré-requisito para normalização do potássio.

Hipercalemia

A hipercalemia é definida como concentração sérica de potássio superior a 5,5 mEq/L. Representa uma emergência médica quando atinge níveis elevados ou causa alterações eletrocardiográficas, devido ao risco iminente de arritmias ventriculares fatais.

Etiologia

A hipercalemia resulta de retenção excessiva de potássio (redução da excreção renal) ou de redistribuição do meio intracelular para o extracelular. Compreender a fisiopatologia é essencial para identificar rapidamente as causas.

Redução da Excreção Renal ("Perde Pouco")
💡 Mecanismo dos IECA/BRA: Estes fármacos inibem o sistema renina-angiotensina-aldosterona, resultando em redução dos níveis de aldosterona. Com menos aldosterona, há menor reabsorção de sódio e, consequentemente, menor excreção de potássio, levando à hipercalemia.
Redistribuição do Meio Intracelular ("Guarda Pouco")
Pseudo-hipercalemia

Situações em que há elevação espúria do potássio sérico, sem reflexo clínico real:

🧪 Avaliação laboratorial: Sempre repetir a dosagem de potássio em casos de hipercalemia inesperada sem manifestações clínicas, especialmente se houver hemólise visível na amostra. A pseudo-hipercalemia é diagnóstico de exclusão.

Manifestações Clínicas

A maioria dos pacientes com hipercalemia permanece assintomática, especialmente em elevações leves a moderadas. Os sintomas, quando presentes, são predominantemente neuromusculares:

O principal risco da hipercalemia é o desenvolvimento de arritmias ventriculares potencialmente fatais, motivo pelo qual a realização de eletrocardiograma é obrigatória na avaliação inicial.

Alterações Eletrocardiográficas

As alterações no ECG surgem de forma progressiva e representam o principal marcador de gravidade da hipercalemia:

Nível de Potássio (mEq/L) Alterações no ECG
5,5 – 6,5 Onda T apiculada (em "tenda"), achatamento da onda P
6,5 – 8,0 Alargamento progressivo do QRS, diminuição do intervalo QT
> 8,0 Desaparecimento da onda P, QRS muito alargado, ritmo sinusoidal (pré-fibrilação ventricular)
🚨 Emergência médica: O ritmo sinusoidal (onda "senoidal") representa hipercalemia extrema e risco iminente de fibrilação ventricular e parada cardíaca. Requer tratamento imediato e agressivo.

Tratamento

O tratamento da hipercalemia segue uma sequência lógica de prioridades: primeiro protege-se o coração, depois redistribui-se o potássio para dentro das células e, finalmente, remove-se o excesso do organismo.

1ª Medida: Proteção Cardíaca (Estabilização de Membrana)

Indicação: ECG alterado OU potássio sérico > 6,5 mEq/L

Fármaco: Gluconato de cálcio 10%

Dose: 1 ampola (10 mL) diluída em 100 mL de soro glicosado 5%, infundida em 2-5 minutos

Mecanismo: O cálcio estabiliza a membrana dos cardiomiócitos, antagonizando os efeitos da hipercalemia e prevenindo arritmias ventriculares malignas

Observações: O efeito é imediato mas transitório (30-60 minutos). Repetir a dose a cada hora até normalização do ECG e após iniciar outras medidas. Não reduz o potássio sérico, apenas protege o coração.

💊 Prioridade terapêutica: O gluconato de cálcio é a PRIMEIRA medida em hipercalemia grave! Não espere os resultados de outras intervenções. Proteja o coração imediatamente enquanto implementa medidas para reduzir o potássio.
2ª Medida: Redistribuição do Potássio (Entrada na Célula)

Após proteger o coração, o próximo passo é promover a entrada de potássio nas células, reduzindo rapidamente sua concentração sérica:

Glicoinsulinoterapia (medida mais eficaz):

Beta-2-agonistas (salbutamol/albuterol):

Bicarbonato de sódio (apenas se acidose metabólica concomitante):

3ª Medida: Remoção do Potássio do Organismo

Após redistribuição, deve-se remover o excesso de potássio:

Furosemida:

Resinas de troca (Sorcal® - poliestireno sulfonato de cálcio):

Hemodiálise:

Medida Terapêutica Início de Ação Duração do Efeito Redução de K⁺ Esperada
Gluconato de cálcio Imediato 30-60 min Não reduz (protege coração)
Insulina + glicose 10-20 min 4-6 horas 0,5-1,2 mEq/L
Beta-2-agonista 30 min 2-4 horas 0,5-1,0 mEq/L
Bicarbonato de sódio 30-60 min 2-4 horas Variável
Furosemida 30-60 min 2-6 horas Variável
Resinas de troca 2-6 horas 4-24 horas 0,5-1,0 mEq/L por dose
Hemodiálise Imediato Durante sessão Até 140 mEq em 4h

Distúrbios do Cálcio

Fisiologia e Regulação do Cálcio

O cálcio corporal apresenta uma distribuição característica, com aproximadamente 99% armazenado no tecido ósseo na forma de cristais de fosfato de cálcio (hidroxiapatita). A manutenção dos níveis séricos deste íon depende de um sistema regulatório complexo que envolve principalmente dois hormônios: o paratormônio (PTH) e a vitamina D.

A vitamina D exerce papel fundamental na absorção intestinal de cálcio. Sua síntese inicia-se na pele através da conversão do 7-deidrocolesterol em colecalciferol (vitamina D3) pela ação dos raios ultravioleta B. Subsequentemente, o colecalciferol sofre hidroxilação hepática pela enzima 25-hidroxilase, formando a 25-hidroxivitamina D (calcidiol), que constitui a principal forma circulante. A etapa final de ativação ocorre nos rins, onde a enzima 1-alfa-hidroxilase converte o calcidiol em 1,25-di-hidroxivitamina D (calcitriol), a forma biologicamente ativa.

🧠 Conceito-chave: A vitamina D ativada (calcitriol) aumenta a absorção intestinal de cálcio, enquanto o PTH mobiliza cálcio dos ossos para o sangue e estimula a excreção renal de fósforo.

O paratormônio (PTH), secretado pelas glândulas paratireoides, atua através de múltiplos mecanismos para elevar a calcemia. Seus principais efeitos incluem: estimulação da reabsorção óssea (liberando cálcio e fósforo dos ossos), aumento da reabsorção tubular renal de cálcio, estímulo à excreção renal de fósforo (reduzindo a fosfatemia) e ativação da enzima 1-alfa-hidroxilase renal (promovendo a síntese de calcitriol).

Mensuração Laboratorial do Cálcio Sérico

A dosagem de cálcio pode ser realizada de duas formas: cálcio iônico (forma livre e biologicamente ativa) ou cálcio total. O cálcio iônico representa o método mais fidedigno, com valores de referência entre 1,05 e 1,15 mmol/L. Entretanto, quando se utiliza o cálcio total (valores normais: 8,5-10,5 mg/dL), é fundamental realizar a correção pela albumina sérica, uma vez que aproximadamente 40% do cálcio circulante encontra-se ligado a proteínas, especialmente albumina.

🧪 Fórmula para correção: Cálcio corrigido = Cálcio sérico medido + 0,8 × (4,0 - albumina do paciente)

Esta correção é essencial em pacientes hipoalbuminêmicos, pois nesses casos o cálcio total pode estar falsamente reduzido, apesar de níveis normais de cálcio iônico.

Metabolismo Integrado

O cálcio proveniente da dieta constitui a principal fonte deste mineral. Após absorção intestinal facilitada pela vitamina D, o cálcio é depositado no tecido ósseo ou permanece na circulação. Situações de hipocalcemia desencadeiam a liberação de PTH, que mobiliza cálcio ósseo para restaurar a calcemia. Este sistema mantém o equilíbrio entre os compartimentos ósseo, intestinal e sanguíneo.

Hipercalcemia

Manifestações Clínicas

A hipercalcemia produz um espectro variado de manifestações clínicas que podem afetar múltiplos sistemas orgânicos. A gravidade dos sintomas geralmente correlaciona-se com a magnitude e velocidade de instalação da elevação do cálcio sérico.

Manifestações Gastrointestinais

O trato digestivo frequentemente é acometido, manifestando-se através de constipação intestinal (sintoma bastante comum), anorexia, náuseas e vômitos. A redução da motilidade intestinal decorre do efeito do cálcio sobre a musculatura lisa.

Manifestações Neurológicas

O sistema nervoso central apresenta sensibilidade particular à hipercalcemia. Os pacientes podem desenvolver redução da capacidade de concentração, ansiedade, sintomas depressivos, confusão mental, alterações psicóticas e letargia. Em casos graves, pode ocorrer rebaixamento do nível de consciência.

Manifestações Musculares

O comprometimento muscular caracteriza-se por fraqueza muscular generalizada e mialgia, sintomas que podem limitar significativamente as atividades diárias do paciente.

Manifestações Renais

Os rins sofrem múltiplos efeitos da hipercalcemia crônica. Pode haver desenvolvimento de nefrolitíase (cálculos renais), nefrocalcinose (deposição de cálcio no parênquima renal) e diabetes insipidus nefrogênico, este último manifestando-se como poliúria importante.

⚠️ Atenção: A poliúria na hipercalcemia resulta da interferência do cálcio na ação do hormônio antidiurético (ADH) nos túbulos coletores renais, configurando um quadro de diabetes insipidus nefrogênico.
Alterações Eletrocardiográficas

No eletrocardiograma, a hipercalcemia caracteriza-se por redução do intervalo QT. Existe uma relação inversa entre os níveis de cálcio e a duração do intervalo QT: quanto maior a calcemia, menor o intervalo QT.

Etiologia e Investigação Diagnóstica

A abordagem diagnóstica da hipercalcemia deve seguir uma sequência lógica e sistemática para identificar a causa subjacente.

Primeira Etapa: Exclusão de Causas Medicamentosas

Inicialmente, deve-se investigar e excluir causas iatrogênicas. Os principais medicamentos implicados incluem diuréticos tiazídicos (reduzem excreção renal de cálcio), lítio (estimula secreção de PTH), e bisfosfonatos em doses excessivas.

Segunda Etapa: Dosagem do Paratormônio (PTH)

A mensuração do PTH sérico constitui o passo fundamental na investigação etiológica:

Terceira Etapa: Avaliação do PTHrp

Quando o PTH está suprimido e o PTHrp está elevado, configura-se o diagnóstico de hipercalcemia da malignidade. Diversos tumores sólidos (mama, pulmão, rim, entre outros) podem secretar esta proteína que mimetiza as ações do PTH.

Quarta Etapa: Dosagem de 1,25-di-hidroxivitamina D

A elevação da forma ativa da vitamina D pode indicar duas situações principais:

Quinta Etapa: Dosagem de 25-hidroxivitamina D

Quando a forma inativa da vitamina D encontra-se elevada, caracteriza-se intoxicação exógena por vitamina D. Por outro lado, se estiver reduzida, deve-se investigar outras causas como mieloma múltiplo, hipertireoidismo e intoxicação por vitamina A.

🔎 Algoritmo diagnóstico: PTH → PTHrp (se PTH baixo) → Vitamina D ativa e inativa → Investigação específica conforme padrão encontrado.
Padrão de PTH Exames Subsequentes Principais Diagnósticos
PTH elevado Hiperparatireoidismo primário
PTH baixo + PTHrp alto Investigação oncológica Hipercalcemia da malignidade
PTH baixo + 1,25-diOH-Vit D alta TC tórax, biópsia Linfoma, sarcoidose, tuberculose
PTH baixo + 25-OH-Vit D alta História medicamentosa Intoxicação por vitamina D
PTH baixo + 25-OH-Vit D baixa Eletroforese, TSH, Vit A Mieloma, hipertireoidismo, intox. Vit A

Tratamento da Hipercalcemia

O manejo terapêutico da hipercalcemia deve ser instituído de forma hierarquizada, considerando a gravidade do quadro e as comorbidades do paciente.

Hidratação Vigorosa

A medida terapêutica inicial e fundamental consiste em hidratação venosa vigorosa com solução salina isotônica (NaCl 0,9%). O objetivo é expandir o volume intravascular e promover calciurese (excreção renal de cálcio). Recomenda-se infusão de 200-400 mL/hora (equivalente a 2-4 litros ao dia), objetivando débito urinário entre 100-150 mL/hora. Esta abordagem deve ser empregada com cautela em pacientes cardiopatas, pela possibilidade de sobrecarga volêmica.

💊 Tratamento primário: Hidratação com soro fisiológico 0,9% em altas taxas de infusão é a base do tratamento agudo, promovendo diluição e excreção do cálcio.
Furosemida

O uso de diuréticos de alça (furosemida) não é mais recomendado rotineiramente. Seu emprego deve ser reservado exclusivamente para situações de sobrecarga volêmica iatrogênica ou quando houver sinais de congestão pulmonar durante a hidratação vigorosa.

Corticosteroides

Os glicocorticoides (prednisona, dexametasona) apresentam eficácia específica em hipercalcemias relacionadas a neoplasias hematológicas (linfomas, mieloma) e doenças granulomatosas (sarcoidose). O mecanismo de ação envolve redução da produção de calcitriol e diminuição da absorção intestinal de cálcio.

Agentes Antirreabsortivos (Bisfosfonatos)

Os bisfosfonatos inibem a atividade osteoclástica, reduzindo a reabsorção óssea. Apresentam início de ação lento (2-3 dias), mas efeito prolongado:

Calcitonina

A calcitonina apresenta início de ação mais rápido entre os agentes disponíveis (2-4 horas), porém sua eficácia é limitada pela duração curta do efeito (apenas 48 horas). Ocorre desenvolvimento de taquifilaxia (perda de resposta) rapidamente. É útil em situações que requerem redução rápida da calcemia, mas deve ser associada a outros agentes de ação mais duradoura.

Denosumabe

Trata-se de um anticorpo monoclonal humano que se liga ao ligante do receptor ativador do fator nuclear kappa-B (RANKL), bloqueando sua interação com o receptor RANK nos osteoclastos e seus precursores. Esta inibição resulta em redução da formação, função e sobrevida dos osteoclastos, diminuindo a reabsorção óssea. Constitui o agente antirreabsortivo mais potente disponível atualmente, sendo particularmente útil em casos refratários aos bisfosfonatos.

Tratamento Dose/Posologia Início de Ação Duração do Efeito
Soro fisiológico 0,9% 200-400 mL/h (2-4 L/dia) Imediato Durante infusão
Furosemida 20-40 mg IV (se sobrecarga) 30-60 min 4-6 horas
Pamidronato 30-90 mg IV em 2h 2-3 dias ~15 dias
Ácido zoledrônico 4-8 mg IV em 15 min 2-3 dias ~28 dias
Calcitonina 4 UI/kg SC/IM a cada 12h 2-4 horas 48 horas
Denosumabe 120 mg SC semanal (4 semanas) 4-10 dias Prolongado

Hipocalcemia

A hipocalcemia representa uma condição caracterizada pela redução dos níveis séricos de cálcio, frequentemente associada a manifestações neuromusculares decorrentes do aumento da excitabilidade das membranas celulares.

Manifestações Clínicas

O quadro clínico da hipocalcemia reflete predominantemente o estado de hiperexcitabilidade neuromuscular, manifestando-se classicamente como tetania. Os pacientes frequentemente relatam parestesias nas extremidades (mãos e pés) e região perioral, sintomas que podem preceder manifestações mais graves.

Ao exame físico, dois sinais semiológicos clássicos podem ser elicitados:

🔎 Diagnóstico no ECG: O achado eletrocardiográfico característico da hipocalcemia é o prolongamento do intervalo QT, que reflete o aumento da duração da repolarização ventricular. Este achado pode predispor a arritmias ventriculares graves.

Investigação Diagnóstica e Etiologia

A abordagem diagnóstica da hipocalcemia fundamenta-se inicialmente na dosagem do paratormônio (PTH) e fósforo sérico, permitindo diferenciar as principais causas através de padrões bioquímicos específicos:

Hipocalcemia com PTH Reduzido

Quando os níveis de PTH encontram-se inapropriadamente baixos ou normais na presença de hipocalcemia, caracteriza-se o hipoparatireoidismo. As principais etiologias incluem:

Hipocalcemia com PTH Elevado

Níveis elevados de PTH na presença de hipocalcemia caracterizam o hiperparatireoidismo secundário, no qual a glândula paratireoide responde adequadamente ao estímulo da hipocalcemia, mas fatores subjacentes impedem a normalização dos níveis de cálcio. Principais causas:

🧠 Algoritmo Diagnóstico: O primeiro passo na investigação consiste em avaliar PTH e fósforo sérico simultaneamente. A interpretação conjunta desses parâmetros orienta o diagnóstico diferencial de forma eficiente.

Interpretação dos Padrões Bioquímicos

A análise combinada de PTH, cálcio e fósforo permite identificar a etiologia subjacente:

Abordagem Terapêutica

O tratamento da hipocalcemia deve ser individualizado conforme a gravidade do quadro clínico e a causa subjacente. O objetivo central consiste na reposição de cálcio e vitamina D, com eventual necessidade de vitamina D ativada (calcitriol) em casos específicos.

Tratamento Agudo

Para hipocalcemia sintomática ou grave (cálcio ionizado < 1,0 mmol/L ou cálcio total < 7,5 mg/dL com sintomas), a reposição endovenosa imediata é mandatória:

⚠️ Atenção: A infusão rápida de gluconato de cálcio pode causar bradicardia e arritmias, especialmente em pacientes digitalizados. Monitorização cardíaca é recomendada durante a administração.
Tratamento Crônico

A manutenção dos níveis de cálcio em longo prazo requer suplementação oral substancial, frequentemente em doses consideravelmente elevadas:

A combinação de altas doses de cálcio e vitamina D é essencial porque a suplementação de cálcio isoladamente, mesmo em doses máximas, geralmente não consegue manter níveis séricos adequados sem a vitamina D para otimizar a absorção intestinal. Por isso, frequentemente são necessários ambos os suplementos simultaneamente.

💊 Lembre-se: No hipoparatireoidismo, as doses de cálcio e vitamina D necessárias são muito superiores às doses profiláticas usuais. É necessário tratamento agressivo para compensar a ausência da ação fisiológica do PTH sobre o metabolismo do cálcio.
Complicação do Tratamento: Hipercalciúria

O principal risco do tratamento crônico com altas doses de cálcio e vitamina D consiste no desenvolvimento de hipercalciúria (excreção urinária aumentada de cálcio), que pode levar à nefrolitíase e nefrocalcinose. Na ausência de PTH, que normalmente promove reabsorção tubular de cálcio, o excesso de cálcio é facilmente excretado pelos rins.

A monitorização periódica da calciúria de 24 horas é fundamental. Quando hipercalciúria significativa é detectada, a estratégia terapêutica inclui:

🧪 Monitorização: Pacientes em tratamento crônico devem realizar dosagens periódicas de cálcio sérico, cálcio urinário de 24 horas, creatinina e ultrassonografia renal para detecção precoce de complicações.

Distúrbios do Fosfato e Magnésio

Embora menos frequentemente abordados em avaliações, os distúrbios do fosfato e magnésio possuem implicações clínicas significativas e mecanismos fisiopatológicos específicos que merecem compreensão sistemática.

Alterações do Metabolismo do Fosfato

Hipofosfatemia

Define-se hipofosfatemia como níveis séricos de fosfato inferiores a 2,5 mg/dL. Os principais mecanismos envolvem redistribuição intracelular e perdas renais ou gastrointestinais.

Mecanismo Fisiopatológico Principal

A ativação da glicólise representa o mecanismo central em diversas causas de hipofosfatemia. A entrada de glicose nas células e o aumento do metabolismo glicolítico promovem incorporação do fosfato em compostos fosforilados (ATP, 2,3-DPG, fosforilação de glicose), resultando em depleção do fosfato sérico.

Principais Etiologias
Tratamento

A reposição de fosfato deve ser realizada cuidadosamente, preferindo-se a via oral quando possível. Nos casos graves ou sintomáticos:

Hiperfosfatemia

Caracteriza-se por níveis séricos de fosfato superiores a 4,5 mg/dL. Geralmente resulta de redução da excreção renal ou liberação celular aumentada.

Mecanismo Fisiopatológico Principal

A lise celular maciça com liberação do conteúdo intracelular rico em fosfato representa o mecanismo predominante nas causas agudas de hiperfosfatemia.

Principais Etiologias
Tratamento

A abordagem terapêutica visa aumentar a excreção renal e reduzir a absorção intestinal:

Parâmetro Hipofosfatemia (< 2,5 mg/dL) Hiperfosfatemia (> 4,5 mg/dL)
Mecanismo Principal Ativação da glicólise com incorporação intracelular de fosfato Lise celular maciça com liberação de fosfato intracelular
Causas Principais • Hiperparatireoidismo primário
• Deficiência de vitamina D
• Cetoacidose tratada com insulina
• Hipoparatireoidismo primário
• Intoxicação por vitamina D
• Trauma/Rabdomiólise
• Insuficiência renal
Tratamento Fosfato de potássio (KH₂PO₄) IV em infusão lenta por 24 horas Solução salina 0,9% + diálise se refratário ou com insuficiência renal

Alterações do Metabolismo do Magnésio

Hipomagnesemia

Define-se como níveis séricos de magnésio inferiores a 1,5 mg/dL. Este distúrbio frequentemente acompanha outras alterações eletrolíticas.

Mecanismo Fisiopatológico Principal

A hipomagnesemia frequentemente coexiste com hipocalemia, fenômeno descrito como "magnésio vai com potássio". O magnésio é necessário para o adequado funcionamento da bomba Na⁺-K⁺-ATPase; sua deficiência compromete a retenção celular de potássio, resultando em hipocalemia refratária até que o magnésio seja reposto.

Principais Etiologias
💡 Conceito Importante: Hipocalemia refratária ao tratamento com reposição de potássio deve sempre levantar a suspeita de hipomagnesemia concomitante. A correção do magnésio é essencial para normalizar os níveis de potássio.
Tratamento

A reposição de magnésio deve ser realizada preferencialmente por via endovenosa nos casos sintomáticos:

Hipermagnesemia

Níveis séricos elevados de magnésio são menos comuns e geralmente iatrogênicos ou associados a insuficiência renal.

Principais Etiologias
Tratamento

A hipermagnesemia sintomática requer intervenção imediata, especialmente quando há manifestações cardíacas ou neurológicas:

🚨 Emergência: Hipermagnesemia grave (> 10 mg/dL) pode causar bloqueio atrioventricular completo, depressão respiratória e parada cardíaca. O gluconato de cálcio endovenoso deve ser administrado imediatamente enquanto se preparam outras medidas terapêuticas.
Parâmetro Hipomagnesemia (< 1,5 mg/dL) Hipermagnesemia
Mecanismo Principal "Magnésio vai com potássio" - afeta bomba Na⁺-K⁺-ATPase Redução da excreção renal ou administração excessiva
Causas Principais • Diarreia crônica
• Alcoolismo
• Síndrome da fome óssea (pós-paratireoidectomia)
• Doença renal crônica
• Tratamento da eclâmpsia (sulfato de magnésio)
• Iatrogenia (antiácidos/laxativos)
Associação Hipocalemia refratária frequentemente associada Pode causar bloqueio cardíaco e depressão respiratória
Tratamento Sulfato de magnésio (MgSO₄) IV em bolus ou infusão contínua Gluconato de cálcio 2g IV (antagonista imediato) + medidas para aumentar excreção
🧠 High Yield: Em distúrbios hidroeletrolíticos, sempre avalie múltiplos eletrólitos simultaneamente. Hipomagnesemia frequentemente causa hipocalemia refratária; hipocalcemia pode coexistir com hiperfosfatemia no hipoparatireoidismo; e a correção rápida de fosfato pode precipitar hipocalcemia. A abordagem integrada é essencial para manejo adequado.