Doenças Tubulointersticiais
Conceitos Fundamentais
Função Tubular e Fisiopatologia
A função primordial dos túbulos renais consiste na reabsorção do ultrafiltrado glomerular. O processo de formação urinária inicia-se nos glomérulos, estruturas especializadas na filtração do plasma sanguíneo. Diariamente, os glomérulos filtram aproximadamente 140 litros de ultrafiltrado, considerando uma taxa de filtração glomerular (TFG) em torno de 100 mL/min. Deste volume imenso, cerca de 98% é reabsorvido pelos túbulos renais, resultando na excreção de apenas 1 a 2 litros de urina por dia.
Quando ocorre lesão tubular, a capacidade de reabsorção fica comprometida, gerando acúmulo de líquido intratubular, aumento da pressão hidrostática intraluminal e, consequentemente, redução da taxa de filtração glomerular. Este mecanismo explica como doenças primariamente tubulares podem evoluir com insuficiência renal aguda ou crônica.
🧠 Conceito-chave: As doenças tubulointersticiais comprometem principalmente a função de reabsorção tubular, podendo levar à oligúria, distúrbios eletrolíticos, acidose metabólica e insuficiência renal progressiva.
Principais Doenças Tubulointersticiais
As principais patologias que acometem os túbulos e o interstício renal incluem:
- Necrose Tubular Aguda (NTA): causa mais comum de lesão renal aguda hospitalar
- Nefrite Intersticial Aguda (NIA): processo inflamatório agudo, frequentemente de origem medicamentosa
- Nefrite Intersticial Crônica (NIC): inflamação crônica com evolução para fibrose intersticial
- Necrose de Papila (Papilite Necrosante): isquemia e necrose da papila renal
- Distúrbios Tubulares Segmentares: alterações funcionais específicas de segmentos tubulares
Necrose Tubular Aguda (NTA)
Definição e Fisiopatologia
A necrose tubular aguda representa uma síndrome caracterizada por lesão das células epiteliais tubulares, resultando em obstrução tubular por debris celulares, edema intersticial e disfunção renal. A lesão das células epiteliais compromete tanto a reabsorção quanto a secreção tubular, levando à redução da TFG e desenvolvimento de oligúria (débito urinário inferior a 400 mL/24h) na maioria dos casos.
Histologicamente, observam-se áreas de necrose do epitélio tubular, presença de cilindros intratubulares compostos por células descamadas, debris celulares e proteína de Tamm-Horsfall. Com o tempo, inicia-se o processo de regeneração tubular, caracterizado por mitoses e proliferação celular.
🚨 Importante: A NTA é a principal causa de lesão renal aguda (LRA) em ambiente hospitalar, respondendo por aproximadamente 45% dos casos de LRA intra-hospitalar.
Etiologia
Causas Isquêmicas
Representam a etiologia mais frequente da NTA e decorrem de situações que comprometem a perfusão renal de forma prolongada ou grave, ultrapassando a capacidade de autorregulação renal. As principais causas isquêmicas incluem:
- Choque circulatório: hipovolêmico, séptico, cardiogênico ou distributivo
- Hemorragias maciças: perda volêmica significativa com hipoperfusão renal
- Sepse: vasodilatação periférica, aumento da permeabilidade capilar e hipotensão
- Grandes queimados: perda de fluidos, hipovolemia e resposta inflamatória sistêmica
- Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica (SIRS): liberação de mediadores inflamatórios com vasodilatação
- Contraste iodado: vasoconstrição intrarrenal e toxicidade tubular direta
O mecanismo comum dessas situações é a hipoperfusão renal prolongada, que gera isquemia das células tubulares, especialmente no segmento medular externo, região mais vulnerável devido ao baixo suprimento de oxigênio.
Causas Tóxicas
Diversas substâncias podem causar lesão tubular direta através de mecanismos tóxicos. As principais incluem:
- Aminoglicosídeos: nefrotoxicidade dose-dependente, acúmulo intracelular
- Anfotericina B: vasoconstrição arteriolar e toxicidade tubular direta
- Rabdomiólise: liberação de mioglobina com toxicidade tubular e obstrução
- Contraste iodado: além da vasoconstrição, causa toxicidade tubular direta
- Outros: cisplatina, metais pesados, etilenoglicol, solventes orgânicos
⚠️ Atenção: A rabdomiólise pode ocorrer em situações como trauma extenso, síndrome compartimental, crises convulsivas prolongadas, exercício físico extremo, uso de estatinas, hipertermia maligna e intoxicações. A mioglobina liberada causa toxicidade tubular direta e pode precipitar nos túbulos, especialmente em contexto de desidratação e acidose.
Apresentação Clínica
O quadro clínico típico da NTA caracteriza-se por:
- Insuficiência renal aguda oligúrica: redução abrupta do débito urinário
- Elevação de escórias nitrogenadas: ureia e creatinina elevadas
- Exposição a fatores de risco: histórico de evento isquêmico, uso de nefrotóxicos, rabdomiólise, contraste iodado
- Ausência de febre e rash cutâneo: ajuda a diferenciar de nefrite intersticial aguda
A identificação da NTA baseia-se primordialmente na história clínica com exposição a fatores desencadeantes e nos achados laboratoriais compatíveis. O exame físico geralmente é inespecífico, podendo demonstrar sinais de hipervolemia quando há oligúria significativa.
Diagnóstico Diferencial: NTA versus LRA Pré-Renal
A distinção entre lesão renal aguda pré-renal (funcional, reversível com reposição volêmica) e NTA (lesão tubular estabelecida) é fundamental para o manejo adequado. A LRA pré-renal representa um estado de hipoperfusão renal sem lesão estrutural, enquanto na NTA já ocorreu dano ao epitélio tubular.
Características Diferenciais
Na LRA pré-renal, os túbulos mantêm sua função de reabsorção preservada, resultando em urina concentrada e com baixo teor de sódio. Já na NTA, a lesão tubular compromete a capacidade de concentração urinária e reabsorção de sódio, gerando urina diluída e com alto teor de sódio.
| Parâmetro |
LRA Pré-Renal |
NTA (LRA Renal) |
| Sódio urinário (mEq/L) |
< 20 |
> 40 |
| Fração de excreção de sódio (FENa) |
< 1% |
> 2% |
| Densidade urinária |
> 1.020 |
< 1.010 |
| Osmolaridade urinária (mOsm/kg) |
> 500 |
< 350 |
| Relação Ureia/Creatinina plasmática |
> 20:1 |
< 20:1 |
| Sedimento urinário |
Normal ou cilindros hialinos |
Cilindros granulosos pigmentados e células epiteliais |
Cálculo da Fração de Excreção de Sódio (FENa)
A FENa representa a porcentagem de sódio filtrado que é excretada na urina. Seu cálculo é realizado pela fórmula:
FENa = (Na urinário × Creatinina plasmática) / (Na plasmático × Creatinina urinária) × 100
💡 Dica Prática: A presença de cilindros granulosos pigmentados (castanhos/marrons) no sedimento urinário é altamente sugestiva de NTA, especialmente em contexto de rabdomiólise ou hemólise.
Situações que Limitam o Uso da FENa
Existem circunstâncias específicas em que os parâmetros tradicionais podem não diferenciar adequadamente LRA pré-renal de NTA:
LRA Pré-Renal com FENa Elevada
- Uso de diuréticos: aumentam a excreção de sódio artificialmente, elevando a FENa mesmo na presença de hipovolemia
- Insuficiência adrenal: deficiência de aldosterona compromete a reabsorção de sódio
- Nefropatia perdedora de sal: condições crônicas com perda tubular de sódio
- Alcalose metabólica: aumento da excreção de bicarbonato arrasta sódio
NTA com FENa Baixa
- Nefropatia por contraste: pode cursar com FENa < 1% nas fases iniciais
- Rabdomiólise: especialmente nas primeiras 24-48 horas
- Sepse: em alguns casos pode haver vasoconstrição renal com retenção de sódio
Nestas situações, recomenda-se o uso da Fração de Excreção de Ureia (FEUr), que não é influenciada por diuréticos:
FEUr = (Ureia urinária × Creatinina plasmática) / (Ureia plasmática × Creatinina urinária) × 100
Na LRA pré-renal, a FEUr é tipicamente < 30-35%, enquanto na NTA costuma ser > 35-40%.
Tratamento da NTA
O manejo da necrose tubular aguda é essencialmente suportivo, uma vez que não existe terapia específica capaz de acelerar a regeneração tubular. O epitélio tubular possui capacidade regenerativa intrínseca, com recuperação esperada em 7 a 21 dias após a remoção do fator agressor.
Medidas Gerais de Suporte
- Suspensão de agentes nefrotóxicos: interromper medicações potencialmente lesivas
- Ajuste de doses medicamentosas: adequar conforme clearance de creatinina
- Controle volêmico: evitar hipervolemia e hipovolemia
- Correção de distúrbios eletrolíticos: especialmente hipercalemia
- Controle da acidose metabólica: quando pH < 7,20
- Suporte nutricional adequado: dieta hipoproteica na fase oligúrica
- Prevenção de complicações: profilaxia de úlceras de estresse, trombose venosa profunda
Indicações de Terapia Renal Substitutiva (Diálise)
- Hipercalemia refratária: K⁺ > 6,5 mEq/L ou com alterações eletrocardiográficas
- Acidose metabólica grave: pH < 7,15
- Hipervolemia refratária: edema pulmonar, insuficiência cardíaca descompensada
- Uremia sintomática: pericardite urêmica, encefalopatia, sangramento
- Intoxicações dialíveis: etilenoglicol, metanol, lítio, salicilatos
⚠️ Fatores que Retardam a Recuperação: Idade avançada, comorbidades múltiplas (diabetes, hipertensão, doença renal crônica prévia), exposição prolongada ao fator agressor, sepse persistente, uso mantido de nefrotóxicos e presença de obstrução urinária podem retardar ou impedir a recuperação completa da função renal.
Nefropatia Induzida por Contraste
Definição e Epidemiologia
A nefropatia induzida por contraste (NIC) caracteriza-se por deterioração aguda da função renal ocorrendo dentro de 24 a 72 horas após a administração de contraste radiológico iodado. Define-se operacionalmente como elevação da creatinina sérica em ≥ 0,5 mg/dL ou ≥ 25% do valor basal dentro deste período, na ausência de outras causas identificáveis de lesão renal aguda.
A NIC constitui uma causa significativa de LRA hospitalar, especialmente em pacientes submetidos a procedimentos coronarianos intervencionistas. Representa a terceira causa mais comum de LRA hospitalar, após hipoperfusão renal e medicações nefrotóxicas.
Fatores de Risco
Fatores Relacionados ao Paciente
- Idade avançada: especialmente > 75 anos
- Doença renal crônica prévia: principal fator de risco, especialmente com TFG < 60 mL/min
- Diabetes mellitus: particularmente com nefropatia diabética estabelecida
- Insuficiência cardíaca: redução do débito cardíaco e hipoperfusão renal
- Desidratação: hipovolemia aumenta o risco de vasoconstrição renal
- Hipotensão: compromete a perfusão renal
- Anemia: reduz a oxigenação medular
- Hiperuricemia: agrava a lesão tubular
Fatores Relacionados ao Procedimento
- Volume de contraste: risco aumenta proporcionalmente ao volume administrado
- Tipo de contraste: contrastes de alta osmolaridade conferem maior risco
- Via de administração: intra-arterial (especialmente coronariana) > intravenosa
- Administrações repetidas: múltiplas exposições em curto intervalo
Medicações que Aumentam o Risco
- Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs): vasoconstrição da arteriola aferente
- Inibidores da ECA e bloqueadores do receptor de angiotensina: vasodilatação da arteriola eferente
- Diuréticos: podem agravar hipovolemia
- Outros nefrotóxicos: aminoglicosídeos, anfotericina B
🔎 Diagnóstico Diferencial: É fundamental excluir outras causas de LRA, como ateroembolismo (que cursa com eosinofilia, livedo reticular e complemento baixo), trombose de artéria renal e NTA por outros fatores. A NIC caracteriza-se por início em 24-72h pós-contraste, com pico em 3-5 dias e retorno ao basal em 7-14 dias.
Fisiopatologia
Dois mecanismos principais contribuem para a lesão renal na NIC:
- Vasoconstrição intrarrenal: mediada por desequilíbrio entre vasoconstritores (endotelina, adenosina) e vasodilatadores (óxido nítrico, prostaglandinas), resultando em isquemia medular
- Toxicidade tubular direta: lesão oxidativa das células tubulares, especialmente no túbulo proximal, com geração de radicais livres
Estratégias de Prevenção
Hidratação
A hidratação adequada constitui a medida preventiva mais eficaz e com maior evidência científica. Os protocolos mais utilizados incluem:
- Soro fisiológico 0,9%: 1 mL/kg/h por 6-12 horas antes e após o exame
- Solução de bicarbonato de sódio: 3 mL/kg/h por 1 hora antes, seguido de 1 mL/kg/h por 6 horas após (protocolo alternativo)
A hidratação promove diluição do contraste nos túbulos, aumenta o fluxo urinário, reduz a viscosidade sanguínea e diminui a ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona.
Escolha do Contraste
- Preferir contrastes não iônicos de baixa osmolaridade ou iso-osmolares
- Utilizar o menor volume possível compatível com a qualidade diagnóstica do exame
- Evitar administrações repetidas em intervalo inferior a 48-72 horas
Manejo Medicamentoso
- Suspender temporariamente: AINEs, diuréticos (se possível), inibidores da ECA/BRA (controverso), metformina
- N-acetilcisteína: 600-1200 mg VO 12/12h no dia anterior e no dia do exame (benefício controverso)
Avaliação do Risco
Em pacientes de alto risco, considerar:
- Adiamento do exame quando possível
- Métodos alternativos de imagem sem contraste (ressonância com gadolínio, ultrassonografia)
- Intensificação das medidas preventivas
💊 Terapêutica: Não existe tratamento específico para NIC estabelecida. O manejo é suportivo, semelhante ao da NTA. A maioria dos pacientes recupera a função renal em 7-14 dias, mas cerca de 10-30% dos pacientes de alto risco podem desenvolver lesão renal permanente.
Nefrite Intersticial Aguda (NIA)
Definição e Fisiopatologia
A nefrite intersticial aguda caracteriza-se por inflamação do interstício renal, geralmente de origem imunológica, que causa edema intersticial e compressão tubular, resultando em redução do calibre dos túbulos e comprometimento da função renal.
Etiologia
Causas Medicamentosas (75% dos casos)
A causa mais comum de NIA é a reação alérgica a medicamentos. Os principais agentes implicados incluem:
- Antibióticos beta-lactâmicos: penicilinas, cefalosporinas (mais comum)
- Sulfametoxazol-trimetoprima
- Rifampicina
- Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs)
- Diuréticos tiazídicos: mais cobrado em provas
- Furosemida
- Alopurinol
- Fenitoína
- Inibidores de bomba de prótons: omeprazol
Doenças Sistêmicas
- Lúpus eritematoso sistêmico
- Síndrome de Sjögren
- Sarcoidose
Infecções
- Tuberculose (bacilo de Koch)
- Citomegalovírus
- Candidíase
- Escherichia coli
- Leptospirose
Quadro Clínico
A tríade clássica da NIA medicamentosa inclui:
- Insuficiência renal aguda oligúrica
- Febre
- Dor lombar bilateral: devido à distensão da cápsula renal pelo processo inflamatório
Quando a NIA é induzida por medicamentos, podem estar presentes:
- Exantema cutâneo (rash)
- Eosinofilia periférica
- Elevação de IgE sérica
⚠️ Importante: A tríade clássica (febre, rash, eosinofilia) está presente em menos de 30% dos casos. A ausência desses sinais não exclui o diagnóstico de NIA medicamentosa.
Achados Laboratoriais
- Elevação de ureia e creatinina
- Eosinofilia periférica
- Eosinofilúria: identificada pela coloração de Hansel
- Hematúria não dismórfica
- Proteinúria discreta: geralmente < 1 g/24h
- Piúria: pode ser intensa, simulando infecção urinária
- Cilindros leucocitários
- Fração de excreção de sódio (FENa) > 1%
🔎 Diagnóstico: A presença de eosinofilia + eosinofilúria em paciente com LRA e história de exposição a medicamento suspeito fortemente sugere NIA medicamentosa. A biópsia renal confirma o diagnóstico quando necessário, mostrando infiltrado inflamatório intersticial rico em linfócitos e eosinófilos.
Particularidades dos AINEs
Os anti-inflamatórios não esteroidais podem causar NIA com características especiais:
- NIA + síndrome nefrótica: combinação incomum em outras causas
- Ausência de sinais alérgicos clássicos: geralmente sem febre, rash ou eosinofilia
- Início insidioso: semanas a meses após exposição
- Na biópsia: NIA associada a lesões glomerulares mínimas
Síndromes Associadas
- Síndrome DRESS: rash cutâneo induzido por droga + eosinofilia + sintomas sistêmicos
- Síndrome TINU: NIA + uveíte (associação rara mas característica)
Tratamento
O manejo da NIA baseia-se em:
- Suspensão imediata do agente causador
- Medidas de suporte: hidratação, correção de distúrbios eletrolíticos
- Corticosteroides: prednisona 1 mg/kg/dia por 4-6 semanas em casos graves ou refratários, com desmame progressivo
- Diálise: se indicações usuais de LRA
💊 Prognóstico: A maioria dos pacientes recupera a função renal após suspensão do agente causador, especialmente se o diagnóstico for precoce (< 2 semanas de LRA). A recuperação completa ocorre em 60-70% dos casos. O uso de corticosteroides pode acelerar a recuperação em casos selecionados.
Nefrite Intersticial Crônica (NIC)
Definição e Fisiopatologia
A nefrite intersticial crônica caracteriza-se por processo inflamatório prolongado que evolui para fibrose intersticial e atrofia tubular, resultando em perda progressiva e irreversível da função renal. O mecanismo é análogo ao da cirrose hepática: inflamação crônica → fibrose → insuficiência orgânica.
Etiologia
Principais Causas
- Evolução de NIA não tratada ou recorrente
- Gota (hiperuricemia crônica): deposição de cristais de urato no interstício renal
- Intoxicação por chumbo (saturnismo)
- Síndrome de Sjögren
Nefropatia por Analgésicos
O uso crônico de analgésicos representa causa clássica de NIC, especialmente:
- Fenacetina: atualmente pouco utilizada
- Paracetamol
- Dipirona
- AINEs: uso prolongado
Fisiopatologia: Estes agentes causam isquemia medular progressiva, levando a necrose papilar, calcificações e fibrose intersticial.
Aspecto radiológico típico: Rins atrofiados, dismórficos, com calcificações papilares características (aspecto de "rim de analgésico").
Tratamento: Suspensão definitiva da droga suspeita + medidas de suporte e retardo da progressão da DRC.
Doença Vascular Crônica
Etiologias: Hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, envelhecimento, anemia falciforme.
Fisiopatologia: Isquemia crônica por vasculopatia → fibrose intersticial → perda progressiva da função renal.
Tratamento: Controle rigoroso da doença de base + medidas nefroprotetoras.
Hipercalcemia
Fisiopatologia: A hipercalcemia causa deposição de cálcio nos túbulos renais, gerando insensibilidade ao hormônio antidiurético (ADH) e consequente poliúria.
Causas de deposição de cálcio sem hipercalcemia: Sarcoidose, intoxicação por vitamina D.
Intoxicação por Metais Pesados
Fisiopatologia: Deposição de metais nos túbulos renais com toxicidade direta.
Agentes: Chumbo, mercúrio, cádmio, lítio. Associação também descrita com uso crônico de tenofovir.
Obstrução Ureteral Crônica
Fisiopatologia: Obstrução prolongada → aumento da pressão intratubular → redução da taxa de filtração glomerular → atrofia tubular e fibrose intersticial.
Manifestações: Acidose metabólica hiperclorêmica, hipercalemia (acidose tubular renal tipo IV).
Tratamento: Desobstrução urgente das vias urinárias.
Mieloma Múltiplo
Fisiopatologia: Deposição de cilindros proteicos (cadeias leves) nos túbulos → obstrução tubular → lesão intersticial ("rim do mieloma").
Tratamento: Quimioterapia para o mieloma + manejo das complicações renais (hidratação, alcalinização urinária, tratamento de hipercalcemia).
Quadro Clínico
A NIC apresenta dois sinais cardinais que a diferenciam de glomerulopatias:
1. Poliúria
Resulta da perda da capacidade de concentração urinária devido à disfunção tubular, levando a eliminação excessiva de urina diluída.
2. Anemia e Acidose Metabólica Precoces
Ocorrem desproporcionalmente cedo em relação ao grau de redução da taxa de filtração glomerular, pois:
- Anemia: perda da produção tubular de eritropoetina
- Acidose metabólica: falência dos mecanismos tubulares de acidificação urinária
🧠 Conceito Importante: Nas glomerulopatias, anemia e acidose surgem tardiamente, quando o clearance de creatinina está muito reduzido. Na NIC, esses distúrbios aparecem precocemente, mesmo com clearance relativamente preservado, refletindo disfunção tubular primária.
Manifestações Adicionais
Dependendo do segmento tubular acometido, podem ocorrer síndromes específicas:
- Síndrome de Fanconi: disfunção do túbulo proximal
- Acidose tubular renal (tipos I, II ou IV)
- Diabetes insipidus nefrogênico: resistência tubular ao ADH
Necrose de Papila ou Papilite Necrosante
Conceito
A papila renal é uma estrutura anatomicamente vulnerável à isquemia, pois está localizada em uma região com baixo fluxo sanguíneo relativo. Sua localização na porção mais profunda da medula renal, distante dos vasos principais, torna-a cronicamente mal perfundida. Quando ocorre comprometimento adicional do suprimento vascular, pode desenvolver-se necrose papilar.
Etiologia (Mnemônico: PHODA)
As principais causas de necrose de papila podem ser memorizadas pelo acrônimo PHODA:
- P: Pielonefrite (infecção ascendente com comprometimento vascular)
- H: Hemoglobinopatia (principalmente anemia falciforme, com oclusão vascular por hemácias deformadas)
- O: Obstrução urinária (aumento da pressão intratubular com comprometimento do fluxo sanguíneo)
- D: Diabetes mellitus (microangiopatia com isquemia crônica)
- A: Analgésicos/AINEs (por mecanismos de vasoconstrição e toxicidade direta)
⚠️ Atenção: A necrose de papila frequentemente mimetiza cálculo renal na apresentação clínica, mas a presença de febre e fatores de risco específicos ajudam no diagnóstico diferencial.
Quadro Clínico
A tríade clássica da necrose de papila inclui:
- Febre: geralmente presente, especialmente nos casos infecciosos
- Dor lombar: intensa, simulando cólica nefrética
- Hematúria não dismórfica: indicando sangramento do trato urinário inferior, não glomerular
Diagnóstico
A investigação diagnóstica deve incluir métodos de imagem progressivamente mais específicos:
- Ultrassonografia de rins e vias urinárias: método inicial para avaliação da medula renal e região papilar, pode demonstrar alterações estruturais
- Tomografia computadorizada com contraste: exame de escolha, permite visualização detalhada da papila necrótica
- Urografia excretora: pode revelar o sinal patognomônico conhecido como "ring shadow" (sombras em anel), representando a captação de contraste ao redor da papila necrótica destacada
🔎 Diagnóstico: O sinal do "ring shadow" na urografia excretora é altamente sugestivo de necrose de papila.
Tratamento
O tratamento fundamenta-se em duas abordagens principais:
- Controle da causa base: identificar e tratar o fator etiológico (controle glicêmico no diabetes, suspensão de AINEs, tratamento de infecção, desobstrução urinária)
- Medidas de suporte: hidratação adequada, analgesia e monitoramento da função renal
Distúrbios Segmentares do Néfron
Introdução
Para compreender adequadamente as doenças que afetam segmentos específicos do néfron, é fundamental revisar primeiro as funções normais de cada porção tubular. Cada segmento possui características funcionais distintas, e sua disfunção resulta em manifestações clínicas específicas.
Anatomia e Fisiologia do Néfron
Túbulo Contorcido Proximal (TCP)
O túbulo proximal é responsável pela maior parte da reabsorção do ultrafiltrado glomerular, processando aproximadamente 60% do volume filtrado. Suas principais funções incluem:
- Reabsorção de glicose: 100% da glicose filtrada em condições normais
- Reabsorção de aminoácidos: essenciais para homeostase proteica
- Reabsorção de ácido úrico: importante no metabolismo de purinas
- Reabsorção de fosfato: fundamental para metabolismo ósseo
- Reabsorção de bicarbonato: essencial para equilíbrio ácido-base
💡 Dica: Em provas, dê atenção especial à reabsorção de glicose no TCP, pois doenças que afetam esse segmento frequentemente cursam com glicosúria.
Alça de Henle
A alça de Henle possui características únicas que a diferenciam dos demais segmentos tubulares:
- Reabsorção exclusiva de solutos: não reabsorve água
- Impermeabilidade à água: característica fundamental para o mecanismo de contracorrente
- Concentração da medula renal: cria o gradiente osmótico necessário para concentração urinária
Túbulo Contorcido Distal (TCD)
O túbulo distal desempenha papel importante no ajuste fino da composição urinária:
- Reabsorção de sódio: mediada pelo cotransportador Na-Cl
- Reabsorção de cálcio: regulada pelo paratormônio
Túbulo Coletor
O túbulo coletor é o segmento final do néfron e responde a controles hormonais precisos:
- Aldosterona: promove reabsorção de sódio em troca de hidrogênio ou potássio
- Hormônio antidiurético (ADH): aumenta permeabilidade à água, permitindo sua reabsorção e concentração urinária
Distúrbios do Túbulo Contorcido Proximal
Disfunções Parciais
Glicosúria Renal
A glicosúria renal representa uma condição benigna na qual ocorre excreção urinária de glicose apesar de glicemia normal. Resulta de defeito isolado nos transportadores de glicose do túbulo proximal, reduzindo o limiar renal para reabsorção de glicose.
🧠 Lembre-se: Glicosúria NEM SEMPRE significa diabetes mellitus. A glicosúria renal ocorre com glicemia normal e não aumenta o risco de desenvolver diabetes.
Características importantes da glicosúria renal:
- Glicemia de jejum e pós-prandial normais
- Teste de tolerância à glicose normal
- Presença de glicose na urina (geralmente leve a moderada)
- Ausência de sintomas sistêmicos
- Não requer tratamento específico
Acidose Tubular Renal Tipo II (Proximal)
A acidose tubular renal tipo II resulta da incapacidade de reabsorção adequada de bicarbonato no túbulo proximal. Este distúrbio pode ser isolado ou fazer parte de síndromes mais complexas.
⚠️ Atenção: Mieloma múltiplo é causa clássica de ATR tipo II. A deposição de cadeias leves no túbulo proximal compromete sua função.
Características da ATR tipo II:
- Mecanismo: perda urinária de bicarbonato (bicarbonatúria)
- Acidose metabólica: pH sanguíneo reduzido
- pH urinário: pode ser normal ou até ácido (paradoxal), pois quando o bicarbonato plasmático cai abaixo do limiar de reabsorção, o rim consegue acidificar a urina
- Hipocalemia: a perda de bicarbonato leva à excreção aumentada de potássio
A presença de pH urinário normal na vigência de acidose pode parecer contraditória, mas se explica porque, uma vez que o bicarbonato plasmático cai suficientemente, o rim consegue reabsorver todo o bicarbonato filtrado e acidificar normalmente a urina. O problema está no limiar reduzido de reabsorção, não na capacidade de acidificação distal.
Disfunções Completas
Síndrome de Fanconi
A síndrome de Fanconi representa disfunção global do túbulo proximal, cursando com perda múltipla de substâncias normalmente reabsorvidas neste segmento. Pode ser hereditária ou adquirida (por exemplo, deposição de proteínas anormais como no mieloma múltiplo ou doenças de depósito).
Manifestações clínicas incluem:
- Glicosúria (com glicemia normal)
- Aminoacidúria generalizada
- Fosfatúria (com hipofosfatemia)
- Bicarbonatúria (acidose metabólica)
- Perda de ácido úrico
Em crianças, a hipofosfatemia crônica pode levar a raquitismo e defeitos no crescimento por comprometimento da mineralização óssea.
Distúrbios da Alça de Henle
Síndrome de Bartter ou Intoxicação por Furosemida
A síndrome de Bartter é uma tubulopatia genética que mimetiza os efeitos da administração crônica de furosemida. Ambas as condições resultam da inibição do cotransportador Na-K-2Cl na porção ascendente espessa da alça de Henle.
Fisiopatologia
O bloqueio do cotransportador Na-K-2Cl impede a reabsorção conjunta de sódio, potássio e cloro. As consequências fisiopatológicas incluem:
- Perda de sódio e água: leva à poliúria e depleção de volume
- Hipocalemia: maior chegada de sódio ao túbulo coletor estimula sua reabsorção com excreção de potássio
- Alcalose metabólica: a hipocalemia induz maior excreção de hidrogênio e retenção de bicarbonato
- Hiperreninemia e hiperaldosteronismo secundários: resposta à depleção de volume
💡 Dica: Pense em Bartter ou uso crônico de furosemida diante de: alcalose metabólica + hipocalemia + poliúria + pressão arterial normal ou baixa.
Quadro Clínico
- Poliúria e polidipsia
- Fraqueza muscular (por hipocalemia)
- Cãibras e tetania (raras)
- Pressão arterial normal (diferente de outras causas de hiperaldosteronismo)
- Retardo de crescimento (em crianças)
Tratamento
O tratamento visa corrigir os distúrbios eletrolíticos:
- Reposição de potássio e magnésio
- Diuréticos poupadores de potássio (espironolactona, amilorida)
- Anti-inflamatórios não esteroidais (reduzem produção de prostaglandinas, diminuindo perda salina)
- Inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) em casos selecionados
Distúrbios do Túbulo Contorcido Distal
Síndrome de Gitelman ou Intoxicação por Tiazídicos
A síndrome de Gitelman é uma tubulopatia genética que simula os efeitos do uso crônico de diuréticos tiazídicos. Ambas decorrem da inibição do cotransportador Na-Cl no túbulo contorcido distal.
Fisiopatologia
O bloqueio do cotransportador Na-Cl no TCD tem múltiplas consequências:
- Perda de sódio: leva à depleção de volume e hiperreninemia
- Hipocalemia: mecanismo similar ao da síndrome de Bartter
- Alcalose metabólica: secundária à hipocalemia e depleção de volume
- Hipomagnesemia: característica distintiva, pois o TCD também reabsorve magnésio
- Hipocalciúria: diferentemente da síndrome de Bartter, há aumento da reabsorção de cálcio
🧠 Lembre-se: A hipocalciúria e a hipomagnesemia ajudam a diferenciar Gitelman de Bartter. Gitelman é o "distúrbio do túbulo distal com baixo cálcio urinário e baixo magnésio".
Quadro Clínico
- Geralmente mais branda que Bartter
- Pode ser assintomática ou oligossintomática
- Fadiga e fraqueza muscular (hipocalemia e hipomagnesemia)
- Câimbras e parestesias
- Poliúria menos intensa que em Bartter
- Tetania ocasional (por hipomagnesemia)
Tratamento
O manejo é direcionado à reposição dos eletrólitos perdidos:
- Reposição de potássio (oral)
- Reposição de magnésio (fundamental, pois a hipomagnesemia dificulta a correção da hipocalemia)
- Diuréticos poupadores de potássio (espironolactona, amilorida)
- AINEs em casos selecionados
Distúrbios do Túbulo Coletor (Córtex)
Acidose Tubular Renal Tipo I (Distal)
A ATR tipo I decorre de disfunção das células intercaladas do túbulo coletor, que são responsáveis pela acidificação final da urina através da secreção de íons hidrogênio.
Fisiopatologia
A incapacidade de secretar adequadamente íons H+ resulta em:
- Acidose metabólica: acúmulo de ácidos não excretados
- pH urinário persistentemente alcalino: mesmo na presença de acidemia (geralmente > 5,5)
- Hipocalemia: desvio da excreção para potássio quando o hidrogênio não pode ser excretado
- Hipercalciúria: mobilização óssea de cálcio para tamponar a acidose
⚠️ Atenção: Síndrome de Sjögren é causa clássica de ATR tipo I. Sempre investigar manifestações autoimunes em pacientes com ATR distal.
Quadro Clínico
- Acidose metabólica hiperclorêmica com ânion gap normal
- pH urinário > 5,5 (inapropriadamente alcalino)
- Hipocalemia (pode causar fraqueza muscular)
- Nefrolitíase (por hipercalciúria e pH urinário alcalino, favorecendo cálculos de fosfato de cálcio)
- Nefrocalcinose (deposição de cálcio no parênquima renal)
- Retardo de crescimento em crianças
Tratamento
- Reposição alcalina (bicarbonato de sódio ou citrato de potássio)
- Suplementação de potássio quando necessário
- Tratamento da doença de base (se identificada)
Acidose Tubular Renal Tipo IV
A ATR tipo IV resulta de deficiência ou resistência à aldosterona, hormônio que regula a secreção de hidrogênio e potássio no túbulo coletor.
Fisiopatologia
A deficiência de aldosterona leva a:
- Hipercalemia: redução da excreção de potássio (marca distintiva)
- Acidose metabólica: redução da excreção de hidrogênio
- pH urinário ácido: diferente da ATR tipo I, pois a capacidade de acidificação está preservada, apenas reduzida em magnitude
🧠 Lembre-se: ATR tipo IV = hipercalemia + acidose. É a única ATR com hipercalemia. Pense em hipoaldosteronismo ou resistência à aldosterona.
Causas Principais
- Doença renal crônica (causa mais comum)
- Diabetes mellitus (hiporreninismo hipaldosteronismo)
- Uso de IECAs ou BRAs
- Uso de anti-inflamatórios não esteroidais
- Heparina (inibe produção de aldosterona)
- Diuréticos poupadores de potássio
- Insuficiência adrenal
Tratamento
- Restrição de potássio na dieta
- Diuréticos de alça (promovem excreção de potássio)
- Bicarbonato de sódio (para acidose)
- Fludrocortisona (reposição mineralocorticoide em casos selecionados)
- Ajuste de medicações que contribuem para hipercalemia
| Característica |
Tipo I (Distal) |
Tipo II (Proximal) |
Tipo IV |
| Segmento afetado |
Túbulo coletor |
Túbulo proximal |
Túbulo coletor |
| Defeito principal |
Secreção de H+ |
Reabsorção de HCO3- |
Deficiência de aldosterona |
| pH urinário |
> 5,5 (alcalino) |
Normal ou < 5,5 |
< 5,5 (ácido) |
| Potássio sérico |
Baixo (hipocalemia) |
Baixo (hipocalemia) |
Alto (hipercalemia) |
| Causa clássica |
Síndrome de Sjögren |
Mieloma múltiplo |
Doença renal crônica |
| Complicações |
Nefrolitíase, nefrocalcinose |
Raquitismo (crianças) |
Hipercalemia severa |
Distúrbios do Túbulo Coletor (Medula)
Diabetes Insipidus Nefrogênico
O diabetes insipidus nefrogênico caracteriza-se pela resistência renal à ação do hormônio antidiurético (ADH ou vasopressina), resultando em incapacidade de concentrar adequadamente a urina. Diferencia-se do diabetes insipidus central, no qual há deficiência de produção ou liberação de ADH pela neurohipófise.
Fisiopatologia
O ADH normalmente se liga a receptores V2 nas células principais do ducto coletor, ativando a via do AMPc e promovendo a inserção de aquaporinas-2 na membrana apical. Essas aquaporinas permitem a reabsorção de água. Na forma nefrogênica, defeitos nos receptores V2 ou nas próprias aquaporinas impedem essa resposta.
Manifestações Clínicas
O quadro clínico é dominado por:
- Hipostenúria: urina persistentemente diluída, com osmolalidade urinária baixa (tipicamente <300 mOsm/kg), mesmo em situações de desidratação ou hiperosmolalidade plasmática
- Poliúria: volume urinário elevado (>3L/dia em adultos; >2L/m²/dia em crianças), devido à incapacidade de reabsorver água no ducto coletor
- Polidipsia compensatória: aumento da ingestão de líquidos para compensar as perdas urinárias, mantendo o equilíbrio hídrico
🔎 Diagnóstico diferencial: O teste de privação hídrica com administração de desmopressina (análogo de ADH) distingue as formas central e nefrogênica. Na central, há resposta com concentração urinária; na nefrogênica, a urina permanece diluída.
Etiologias
As causas podem ser congênitas (mutações nos genes do receptor V2 ou da aquaporina-2) ou adquiridas (lítio, hipercalcemia crônica, hipocalemia crônica, doença renal crônica, uropatia obstrutiva).
Síndrome de Liddle (Pseudo-Hiperaldosteronismo)
A síndrome de Liddle é uma tubulopatia genética rara, caracterizada por hiperatividade constitutiva dos canais epiteliais de sódio (ENaC) nas células principais do túbulo coletor, mimetizando um estado de excesso de aldosterona, apesar de níveis normais ou suprimidos do hormônio.
Fisiopatologia
Mutações nos genes que codificam as subunidades β ou γ do canal ENaC impedem sua degradação normal, resultando em aumento do número de canais na membrana apical. Isso leva à reabsorção excessiva de sódio e secreção aumentada de potássio e H⁺, independentemente da aldosterona.
Manifestações Clínicas
O quadro típico inclui:
- Hipertensão arterial de início precoce: frequentemente manifestando-se na infância ou adolescência, devido à expansão de volume pela retenção de sódio
- Hipocalemia: resultante do aumento da secreção de potássio mediada pela hiperatividade dos canais ENaC
- Alcalose metabólica: consequência da secreção aumentada de H⁺
- Atividade de renina plasmática suprimida: devido à expansão de volume
- Aldosterona plasmática baixa ou normal-baixa: suprimida pela expansão de volume e hipocalemia, diferenciando da verdadeira hiperaldosteronismo
💊 Tratamento específico: Os diuréticos poupadores de potássio que bloqueiam diretamente o canal ENaC (amilorida ou triantereno) são o tratamento de escolha. Espironolactona NÃO é eficaz, pois não há excesso de aldosterona.
Diagnóstico Diferencial
A síndrome de Liddle deve ser diferenciada de outras causas de hipertensão com hipocalemia, especialmente hiperaldosteronismo primário. A chave diagnóstica é a presença de aldosterona suprimida na Liddle, enquanto está elevada no hiperaldosteronismo primário.
Situações Especiais
Rabdomiólise
Definição e Fisiopatologia
A rabdomiólise caracteriza-se pela destruição massiva do músculo esquelético, com consequente liberação do conteúdo intracelular para a circulação sistêmica. Esta condição pode evoluir com complicações graves, incluindo lesão renal aguda, distúrbios hidroeletrolíticos e, em casos severos, síndrome compartimental.
Etiologia
Diversas condições podem desencadear rabdomiólise. As principais causas incluem:
Drogas e Substâncias Tóxicas
- Drogas ilícitas: cocaína, heroína e anfetaminas são causas frequentes
- Álcool: intoxicação aguda ou consumo crônico excessivo
- Estatinas: embora mialgia isolada seja mais comum, podem causar rabdomiólise, especialmente quando combinadas com outros fármacos ou em doses elevadas
Esforço Físico Intenso
- Exercício extremo: treinamentos militares intensivos, maratonas e competições de CrossFit
- Esportes de alto rendimento: principalmente quando realizados sem condicionamento adequado
Trauma e Infecções
- Lesão muscular direta: politraumatismo, síndrome de esmagamento, acidentes automobilísticos
- Processos infecciosos: miosites virais ou bacterianas
Manifestações Clínicas
A apresentação clínica da rabdomiólise pode variar de acordo com a gravidade do quadro. Os sinais e sintomas mais característicos incluem:
- Tríade clássica: dor muscular, fraqueza e urina escurecida
- Mialgia e edema muscular: desconforto e inchaço nos grupos musculares acometidos
- Mioglobinúria: urina com coloração castanho-escura, descrita como "cor de coca-cola" ou "cor de chá preto"
- Oligúria: redução do débito urinário, sinalizando possível comprometimento renal
- Fraqueza generalizada: pode ser intensa, limitando a mobilidade do paciente
🔎 Atenção ao Diagnóstico: A tríade clássica (dor muscular + fraqueza + urina escurecida) está presente em menos de 10% dos casos. Suspeite de rabdomiólise mesmo com apresentação incompleta, especialmente em contextos de risco.
Diagnóstico Laboratorial
O diagnóstico de rabdomiólise baseia-se em achados clínicos associados a alterações laboratoriais específicas:
Marcadores Principais
- Creatinofosfoquinase (CPK): marcador de escolha devido à maior meia-vida, tornando-o mais confiável. Valores superiores a 5 vezes o limite superior da normalidade associados a quadro clínico compatível confirmam o diagnóstico
- Mioglobina sérica: embora mais específica, possui meia-vida curta (2-3 horas), podendo estar normal mesmo na presença de rabdomiólise ativa
Alterações Laboratoriais Associadas
- Urinálise: presença de hemoglobina na urina sem hemácias/eritrócitos ao exame microscópico (indicando mioglobinúria)
- Hiperfosfatemia: liberação do fósforo intracelular
- Hipocalcemia: deposição de cálcio no músculo lesado e formação de complexos com fosfato
- Hipercalemia: liberação do potássio intracelular
- Acidose láctica: resultado da destruição muscular
- Lesão renal aguda: presente em cerca de 30-50% dos casos, sendo mais comum quando CPK > 15.000-20.000 U/L
💡 Dica de Prova: Mioglobinúria pode ser detectada através do "teste do heme positivo na urina sem hemácias". A mioglobina reage com o reagente usado para detectar hemoglobina, mas não há eritrócitos no sedimento urinário.
Mecanismos de Lesão Renal Aguda
A lesão renal na rabdomiólise resulta de múltiplos mecanismos fisiopatológicos:
- Toxicidade direta da mioglobina: lesão dos túbulos renais levando a necrose tubular aguda
- Obstrução tubular: precipitação de mioglobina nos túbulos, especialmente em pH ácido, formando cilindros que obstruem o fluxo urinário
- Hipovolemia relativa: sequestro de volume intravascular para o terceiro espaço (músculo lesado), reduzindo a perfusão renal
- Vasoconstrição renal: aumento de mediadores inflamatórios locais reduz o fluxo sanguíneo renal
Tratamento
O manejo da rabdomiólise visa prevenir ou minimizar a lesão renal aguda e corrigir as complicações metabólicas. O tratamento precoce é fundamental para melhorar o prognóstico.
Hidratação Vigorosa
A pedra angular do tratamento é a expansão volêmica agressiva, que deve ser iniciada idealmente nas primeiras 6 horas após o insulto. Os objetivos são:
- Meta de débito urinário: 200-300 mL/h
- Duração: manter fluxo elevado por pelo menos 24 horas ou até observar redução consistente dos níveis de CPK
- Solução preferencial: soro fisiológico 0,9%
💊 Protocolo de Hidratação: Iniciar com 1-2 litros de SF 0,9% em bolus, seguido de infusão contínua de 200-1.000 mL/h, ajustando conforme débito urinário e estado volêmico do paciente.
Alcalinização da Urina
A utilização de bicarbonato de sódio para alcalinização urinária permanece controversa:
- Racional teórico: pH urinário alcalino reduz a precipitação de mioglobina, diminuindo a formação de cilindros tubulares e a toxicidade direta da mioglobina
- Riscos potenciais: pode causar nefrocalcinose (deposição de cristais de fosfato de cálcio) e agravar a disfunção renal; piora da hipocalcemia
- Contraindicações absolutas: presença de alcalose metabólica ou hipocalcemia sintomática
⚠️ Importante: A maioria dos estudos atuais não demonstra benefício claro da alcalinização sobre a hidratação isolada. Priorize sempre a expansão volêmica adequada.
Manejo das Complicações
- Hipercalemia grave ou refratária: considerar medidas urgentes (glicose + insulina, bicarbonato, salbutamol) e, se persistente, indicar hemodiálise
- Acidose metabólica refratária: pode necessitar de diálise
- Indicações de hemodiálise: hipercalemia severa, acidose metabólica grave, sobrecarga volêmica, uremia sintomática ou lesão renal aguda progressiva
Síndrome de Lise Tumoral
Conceito e Epidemiologia
A síndrome de lise tumoral (SLT) é uma emergência oncológica caracterizada por distúrbios metabólicos decorrentes da destruição maciça e rápida de células tumorais. Ocorre mais frequentemente após o início da quimioterapia, mas pode surgir espontaneamente em tumores com alto índice de proliferação celular.
Neoplasias de Alto Risco
- Linfomas de alto grau: especialmente o linfoma de Burkitt
- Leucemias agudas: leucemia linfoblástica aguda (LLA) e leucemia mieloide aguda (LMA) com leucocitose elevada
- Tumores sólidos de crescimento rápido: menos comum, mas pode ocorrer
Fatores de Risco
- Alta carga tumoral: massa tumoral volumosa, linfadenopatia extensa
- Desidratação: reduz a capacidade de excreção renal dos metabólitos
- Hipotensão: compromete a perfusão renal
- Doença renal crônica prévia: menor capacidade de depuração
- Hiperuricemia basal: níveis elevados de ácido úrico antes do tratamento
- Desidrogenase láctica (DHL) elevada: marcador de turnover celular
Fisiopatologia e Alterações Metabólicas
A destruição celular maciça resulta em liberação súbita do conteúdo intracelular para a circulação, causando uma cascata de alterações metabólicas:
Alterações Laboratoriais Típicas
- Hipercalemia: liberação do potássio intracelular (concentração intracelular 30-40 vezes maior que no plasma)
- Hiperfosfatemia: liberação de fosfato das células tumorais
- Hipocalcemia: mecanismo duplo – ligação do cálcio ao fosfato elevado com deposição de cristais de fosfato de cálcio nos tecidos
- Hiperuricemia: metabolização do DNA liberado pelas células tumorais, gerando grandes quantidades de ácido úrico
- Lesão renal aguda: precipitação de cristais de ácido úrico e fosfato de cálcio nos túbulos renais
🧠 Entendendo a Fisiopatologia: DNA celular → metabolização → purinas → xantina → ácido úrico. O acúmulo de ácido úrico leva à formação de cristais nos túbulos renais, causando obstrução e lesão renal aguda.
Manifestações Clínicas
A síndrome de lise tumoral pode apresentar-se de diferentes formas, desde alterações laboratoriais assintomáticas até quadros graves com risco de morte:
Formas de Apresentação
- SLT laboratorial: alterações metabólicas sem sintomas clínicos
- SLT clínica: sintomas decorrentes das alterações metabólicas e/ou disfunção orgânica
Sinais e Sintomas
- Relacionados à hipercalemia: fraqueza muscular, parestesias, arritmias cardíacas (pode ser fatal)
- Relacionados à hipocalcemia: tetania, parestesias periorais, sinal de Chvostek, sinal de Trousseau, convulsões
- Relacionados à lesão renal: oligúria, anúria, edema, sintomas urêmicos
- Relacionados à hiperuricemia: cristalúria, nefrolitíase aguda
🚨 Alerta de Emergência: Arritmias cardíacas por hipercalemia representam a principal causa de morte na SLT aguda. Monitore ECG continuamente em pacientes de alto risco.
Prevenção
A prevenção é fundamental e deve ser implementada em todos os pacientes de alto risco antes do início da quimioterapia:
Hidratação Vigorosa
- Objetivo: manter débito urinário superior a 100 mL/h
- Protocolo: iniciar 24-48 horas antes da quimioterapia
- Solução: soro fisiológico 0,9% ou soro glicosado (evitar soluções alcalinas)
Controle da Hiperuricemia
- Alopurinol: inibidor da xantina oxidase, impede a formação de ácido úrico. Dose: 300-600 mg/dia, iniciar 2-3 dias antes da quimioterapia
- Rasburicase: enzima recombinante que catalisa a conversão de ácido úrico em alantoína (5-10 vezes mais solúvel). Indicada em pacientes de altíssimo risco ou com hiperuricemia grave basal. Dose: 0,2 mg/kg em dose única
💡 Comparação dos Agentes: Alopurinol previne a formação de ácido úrico, mas não reduz níveis já elevados. Rasburicase degrada o ácido úrico existente, sendo mais eficaz em situações de urgência.
Tratamento
Quando a síndrome já está instalada, o manejo visa corrigir as alterações metabólicas e preservar a função renal:
- Manejo da hipercalemia: medidas convencionais (cálcio EV, insulina + glicose, bicarbonato, salbutamol, resinas de troca iônica)
- Controle da hiperfosfatemia: quelantes de fósforo, diálise se grave
- Correção cautelosa da hipocalcemia: apenas se sintomática, pois pode precipitar fosfato de cálcio
- Rasburicase: se não utilizada na prevenção e hiperuricemia grave
- Diálise precoce: indicada em lesão renal aguda progressiva, hipercalemia refratária, hiperfosfatemia grave ou sobrecarga volêmica
⚠️ Atenção na Diálise: Em alguns casos, pode ser necessária diálise contínua devido à liberação constante de metabólitos intracelulares, especialmente nas primeiras 48-72 horas após início da quimioterapia.
Nefrotoxicidade por Drogas e Toxinas
Aminoglicosídeos
Os aminoglicosídeos são antibióticos amplamente utilizados para infecções por bacilos gram-negativos, mas apresentam importante potencial nefrotóxico.
Epidemiologia e Mecanismo
- Incidência: aproximadamente 15% dos pacientes desenvolvem lesão renal aguda
- Mecanismo: acúmulo nos lisossomos das células tubulares proximais, causando necrose tubular aguda não-oligúrica
- Local da lesão: túbulo contorcido proximal
- Característica marcante: lesão renal aguda associada a hipocalemia
Explicação da Hipocalemia
A hipocalemia ocorre por dois mecanismos principais:
- Hipomagnesemia: os aminoglicosídeos causam perda renal de magnésio, que por sua vez leva à perda renal de potássio
- Aumento da reabsorção tubular de sódio: alteração no transporte iônico no túbulo distal, com maior excreção de potássio
🧠 Memorize as Causas de LRA + Hipocalemia:
- 1. Leptospirose
- 2. Aminoglicosídeos
- 3. Anfotericina B
- 4. Nefroesclerose hipertensiva maligna
| Causa |
Mecanismo da Hipocalemia |
Outras Características |
| Leptospirose |
Tubulopatia proximal |
Febre, icterícia, mialgia, sufusões hemorrágicas |
| Aminoglicosídeos |
Hipomagnesemia + aumento da reabsorção de Na |
NTA não-oligúrica, lesão do TCP |
| Anfotericina B |
Perda tubular distal de K+ |
Poliúria, ATR tipo I, hipomagnesemia |
| Nefroangiosclerose Maligna |
Hiperaldosteronismo secundário |
PA muito elevada, retinopatia grau III/IV, microangiopatia |
Fatores de Risco
- Duração prolongada do tratamento: risco aumenta após 7-10 dias
- Doses inadequadas: subdoses ou superdoses
- Fracionamento das doses: múltiplas administrações diárias aumentam risco
- Administração noturna: clearance renal reduzido durante a noite
- Idade avançada: idosos têm maior susceptibilidade
- Disfunção hepática: altera farmacocinética
- Outros fatores de risco para LRA: desidratação, sepse, uso concomitante de nefrotóxicos
- Hipocalemia prévia: aumenta uptake celular do aminoglicosídeo
Estratégias de Prevenção
- Posologia otimizada: preferir dose única diária em vez de doses fracionadas (altas doses intercaladas por longos períodos aumentam eficácia e reduzem toxicidade)
- Horário de administração: administrar durante o dia (evitar período noturno)
- Monitorização de níveis séricos: ajustar doses conforme função renal
- Hidratação adequada: manter euvolemia
- Escolha do agente: considerar perfil de toxicidade individual
💊 Perfil de Nefrotoxicidade dos Aminoglicosídeos:
- Mais nefrotóxico: Neomicina
- Toxicidade intermediária: Gentamicina, Tobramicina, Amicacina
- Menos nefrotóxico: Estreptomicina
Anfotericina B
A anfotericina B é um antifúngico potente, mas com elevada nefrotoxicidade, especialmente na formulação convencional (desoxicolato).
Epidemiologia e Mecanismo
- Incidência: aproximadamente 80% dos pacientes desenvolvem algum grau de disfunção renal
- Mecanismo duplo: aumento da permeabilidade das células tubulares aos eletrólitos (efeito direto) e necrose tubular aguda não-oligúrica
- Local da lesão: túbulo contorcido distal
Manifestações Características
- Hipocalemia: perda renal excessiva de potássio
- Hipomagnesemia: perda renal de magnésio
- Poliúria: pode causar diabetes insipidus nefrogênico (resistência à vasopressina no túbulo coletor)
- Acidose tubular renal tipo I (distal): incapacidade de acidificar a urina adequadamente
🔎 Achado Clássico: Paciente em uso de anfotericina B com poliúria, hipocalemia, hipomagnesemia e acidose metabólica hiperclorêmica (gap aniônico normal) sugere toxicidade tubular distal.
Prevenção da Nefrotoxicidade
- Fator de risco principal: hipovolemia – evitar a todo custo
- Expansão volêmica pré-dose: infundir 1.000 mL de soro fisiológico 0,9% uma hora antes da administração do antifúngico
- Formulação preferencial: anfotericina B lipossomal (menor toxicidade, porém maior custo)
- Monitorização rigorosa: função renal, eletrólitos e magnésio
- Reposição eletrolítica: potássio e magnésio conforme necessário
Vancomicina
A vancomicina, quando utilizada isoladamente, apresenta baixo potencial nefrotóxico. No entanto, na prática clínica, frequentemente está associada a fatores que aumentam o risco de lesão renal.
Características da Nefrotoxicidade
- Mecanismo: quando ocorre, causa lesão no túbulo contorcido proximal
- Fatores contribuintes: uso concomitante com outros nefrotóxicos (aminoglicosídeos, contraste iodado), pacientes graves (sepse, instabilidade hemodinâmica), doses elevadas ou níveis séricos elevados
- Incidência: aumenta para 20-30% quando associada a outros fatores de risco
⚠️ Importante: A nefrotoxicidade da vancomicina é frequentemente atribuída a ela de forma equivocada. Na maioria dos casos, outros fatores (gravidade do paciente, uso de drogas concomitantes) são os principais responsáveis pela lesão renal.
Betalactâmicos
Os antibióticos betalactâmicos são amplamente reconhecidos na prática clínica pelo seu potencial de desencadear reações de hipersensibilidade renal. A principal manifestação desta toxicidade é a nefrite intersticial alérgica (NIA), uma condição inflamatória que acomete o interstício renal e pode levar à deterioração aguda da função renal.
⚠️ Atenção: A nefrite intersticial alérgica por betalactâmicos é uma causa importante de lesão renal aguda induzida por medicamentos. Sempre considere este diagnóstico em pacientes que desenvolvem insuficiência renal após o início de antibioticoterapia com penicilinas ou cefalosporinas.
Sulfonamidas
As sulfonamidas apresentam um padrão peculiar de nefrotoxicidade. Estes fármacos podem causar elevação da creatinina sérica sem redução concomitante da taxa de filtração glomerular (TFG). Este fenômeno ocorre porque as sulfonamidas interferem na secreção tubular de creatinina, resultando em aumento sérico deste marcador sem que haja verdadeira piora da função renal. Além disso, também podem causar nefrite intersticial alérgica.
💡 Dica Importante: Nem todo aumento de creatinina reflete diminuição da filtração glomerular! As sulfonamidas são o exemplo clássico de elevação de creatinina por bloqueio da secreção tubular, sem verdadeira lesão renal.
Anti-Inflamatórios Não Esteroidais (AINEs)
Mecanismos de Lesão Renal
Os AINEs podem causar comprometimento renal por diferentes mecanismos fisiopatológicos. Compreender estas vias é essencial para prevenir e manejar adequadamente as complicações renais associadas ao uso destes medicamentos.
Mecanismo 1: Lesão Renal Aguda Reversível por Hipofluxo
Este é o mecanismo mais comum de nefrotoxicidade por AINEs. A inibição das ciclooxigenases (COX) bloqueia a síntese de prostaglandinas renais, que são fundamentais para a vasodilatação das arteríolas aferentes, especialmente em situações de baixo fluxo renal. Com a vasoconstrição resultante, ocorre redução do fluxo sanguíneo renal e da taxa de filtração glomerular.
Esta lesão apresenta características importantes:
- Reversibilidade: a função renal se recupera completamente após a suspensão do medicamento
- Fatores de risco para gravidade: pacientes com fluxo renal previamente comprometido (insuficiência cardíaca congestiva, cirrose hepática, hemorragia grave, desidratação) ou com doença renal preexistente (síndrome nefrótica, nefrite lúpica, rim único, doença renal crônica)
- Prevenção: evitar o uso de AINEs em pacientes com os fatores de risco citados ou usar com extrema cautela e monitorização rigorosa
🚨 Emergência: Pacientes com insuficiência cardíaca, cirrose ou doença renal prévia dependem das prostaglandinas para manter a perfusão renal adequada. O uso de AINEs nestes indivíduos pode precipitar lesão renal aguda grave!
Mecanismo 2: Nefrite Intersticial Associada à Síndrome Nefrótica
Esta apresentação é menos frequente, porém altamente característica dos AINEs, especialmente aqueles derivados do ácido propiônico (fenoprofeno, ibuprofeno e naproxeno). Diferentemente de outras causas de nefrite intersticial alérgica, a forma induzida por AINEs possui peculiaridades importantes:
- Apresentação clínica oligossintomática: ausência da tríade clássica de febre, rash cutâneo e eosinofilia periférica
- Manifestação predominante: muitos casos apresentam-se clinicamente apenas com síndrome nefrótica (edema, proteinúria maciça, hipoalbuminemia)
- Achados histopatológicos: a biópsia renal revela infiltrado inflamatório intersticial típico de nefrite intersticial alérgica combinado com lesões glomerulares de doença de lesão mínima
- Variações de apresentação: aproximadamente 10-20% dos casos cursam apenas com nefrite intersticial "pura" (sem síndrome nefrótica) e cerca de 10% apresentam apenas síndrome nefrótica "pura" (sem manifestações óbvias de nefrite intersticial)
🔎 Diagnóstico Diferencial: Sempre suspeite de nefrite intersticial por AINEs em pacientes que desenvolvem síndrome nefrótica de início abrupto durante o uso destes medicamentos, mesmo na ausência de febre ou rash cutâneo!
Nefropatia Analgésica: Abuso Crônico
O uso crônico e abusivo de analgésicos, particularmente quando há combinação de múltiplos fármacos, pode levar a uma forma específica de doença renal crônica conhecida como nefropatia analgésica. Historicamente, a fenacetina foi o agente mais associado a esta condição, mas atualmente o paracetamol (que possui propriedades farmacológicas similares) também merece atenção.
Mecanismos Fisiopatológicos
A nefropatia analgésica resulta de dois processos patológicos principais:
- Nefrite intersticial crônica: inflamação persistente do interstício renal com evolução para fibrose
- Necrose de papila renal: isquemia e necrose das papilas renais, com eventual destacamento e eliminação pela urina
Características Radiológicas
A tomografia computadorizada ou urografia excretora podem demonstrar o aspecto típico da nefropatia analgésica:
- Rins bilateralmente atrofiados e de tamanho reduzido
- Contornos renais irregulares e dismórficos
- Calcificações papilares características (achado patognomônico)
- Possível identificação de defeitos de preenchimento por papilas necróticas destacadas
🧠 Conceito-Chave: A nefropatia analgésica é mais comum com o uso combinado de múltiplos analgésicos. O achado de calcificações papilares em rins atróficos é altamente sugestivo deste diagnóstico!
| Agente |
Sítio Primário de Lesão |
Manifestação Clínica Principal |
| Aminoglicosídeos |
Túbulo Contorcido Proximal |
NTA não-oligúrica + Hipocalemia |
| Anfotericina B |
Túbulo Contorcido Distal |
Hipocalemia + Hipomagnesemia + Poliúria |
| Vancomicina |
Túbulo Contorcido Proximal |
NTA (potencializada por outros fatores) |
| Beta-lactâmicos |
Interstício Renal |
Nefrite Intersticial Alérgica |
| AINEs |
Interstício + Glomérulo |
NIA + Síndrome Nefrótica |
Intoxicação por Chumbo (Saturnismo)
Exposições Ocupacionais de Risco
A intoxicação crônica por chumbo deve ser suspeitada em trabalhadores expostos nas seguintes indústrias:
- Fabricação e reciclagem de baterias automotivas
- Indústria automobilística e de autopeças
- Produção de pigmentos para tintas e corantes
- Fabricação de estabilizantes para plásticos
- Refinarias e indústria petrolífera
- Produção de cerâmica e vitrificados
- Trabalhos com solda e metalurgia
Manifestações Sistêmicas
O saturnismo apresenta um espectro amplo de manifestações clínicas que auxiliam no diagnóstico:
- Porfiria induzida: dor abdominal intensa, anemia hemolítica, neuropatia periférica
- Linha gengival de Burton: linha azul-acinzentada na margem gengival (depósito de sulfeto de chumbo)
- Manifestações neurológicas: encefalopatia, convulsões, alterações cognitivas
- Manifestações hematológicas: anemia com ponteado basófilo nas hemácias
Lesão Renal no Saturnismo
O chumbo causa toxicidade renal através de mecanismos crônicos que afetam primariamente o túbulo contorcido proximal. Os processos patológicos incluem:
- Atrofia tubular progressiva
- Fibrose intersticial
- Arterioloesclerose renal
A nefropatia pelo chumbo possui características diagnósticas peculiares:
Achado 1 - Padrão laboratorial atípico: Apesar da atrofia tubular e fibrose intersticial significativas, observa-se proteinúria mínima ou ausente com sedimento urinário normal. Este padrão contrasta com a maioria das nefropatias túbulo-intersticiais. Portanto, diante de um paciente com queda progressiva da TFG, ausência de proteinúria/alterações urinárias e história de exposição ocupacional ao chumbo, deve-se suspeitar fortemente de saturnismo.
Achado 2 - Hiperuricemia: O chumbo interfere na secreção tubular de ácido úrico, resultando em hiperuricemia e podendo desencadear crises de gota (conhecida como "gota do saturnismo").
Diagnóstico e Tratamento
- Diagnóstico: dosagem sérica de chumbo (plumbemia)
- Tratamento: terapia quelante com EDTA (ácido etilenodiaminotetracético) ou D-penicilamina para aumentar a excreção do metal
- Prevenção: afastamento da exposição ocupacional
🔎 Pista Diagnóstica: Pense em saturnismo quando encontrar: ↓TFG + proteinúria ausente/mínima + sedimento normal + história ocupacional compatível + hiperuricemia!
Intoxicação por Mercúrio (Hidrargirismo)
Exposições de Risco
A intoxicação por mercúrio ocorre principalmente nas seguintes situações:
- Extração, refinamento e manipulação de mercúrio
- Fabricação de tintas, vernizes e pigmentos
- Produção de instrumentos de medição (barômetros, manômetros, termômetros)
- Indústria de lâmpadas fluorescentes
- Garimpo de ouro (uso de mercúrio para amalgamação)
- Exposição ambiental por poluição industrial
Manifestações Clínicas
Intoxicação aguda: Predominam manifestações respiratórias (pneumonite química, edema pulmonar) e neurológicas (encefalopatia, convulsões, coma).
Intoxicação crônica: Desenvolve-se um quadro característico com:
- Gengivite: inflamação gengival com dor e sangramento
- Sialorreia: salivação excessiva
- Irritabilidade e labilidade emocional: alterações de personalidade
- Tremores finos: especialmente em extremidades (tremor mercurial)
- Alterações neuropsiquiátricas: depressão, ansiedade, insônia
Lesão Renal
O mercúrio causa toxicidade glomerular com desenvolvimento de síndrome nefrótica secundária à glomerulonefrite membranosa. Esta é uma glomerulopatia caracterizada por espessamento difuso da membrana basal glomerular por depósitos de imunocomplexos.
🧪 Mecanismo: O mercúrio atua como hapteno, ligando-se a proteínas glomerulares e tornando-as imunogênicas, o que desencadeia a formação de imunocomplexos e lesão glomerular membranosa.
Doença de Wilson (Intoxicação por Cobre)
Fisiopatologia
A doença de Wilson é um erro inato do metabolismo do cobre causado por mutações no gene ATP7B, que codifica uma ATPase transportadora de cobre. Isto resulta em deficiência funcional da ceruloplasmina (proteína transportadora de cobre), levando ao acúmulo progressivo de cobre em diversos órgãos.
Manifestações Clínicas
As manifestações da doença de Wilson incluem:
- Hepatopatia: hepatite crônica, cirrose hepática, insuficiência hepática aguda
- Manifestações neurológicas: parkinsonismo, distonia, tremores, alterações psiquiátricas
- Anéis de Kayser-Fleischer: depósitos de cobre na membrana de Descemet da córnea, visíveis ao exame oftalmológico com lâmpada de fenda (patognomônico quando presente)
- Anemia hemolítica: por toxicidade direta do cobre nas hemácias
Acometimento Renal
A lesão renal na doença de Wilson ocorre por deposição de cobre no túbulo contorcido proximal, causando disfunção tubular. Embora o comprometimento renal não seja a manifestação predominante ou mais grave da doença, pode ocorrer síndrome de Fanconi (disfunção tubular proximal generalizada) com aminoacidúria, glicosúria normoglicêmica, fosfatúria e acidose tubular renal tipo 2.
💡 Em Provas: O acometimento renal na doença de Wilson raramente é o foco principal das questões. O diagnóstico geralmente é sugerido pelas manifestações hepáticas e neurológicas associadas aos anéis de Kayser-Fleischer.
Intoxicação por Ouro
Contexto Histórico
Os compostos de ouro (sais de ouro) eram utilizados no passado como tratamento para artrite reumatoide refratária (terapia com crisoterapia). Atualmente, devido ao desenvolvimento de medicamentos mais eficazes e com melhor perfil de segurança, o uso de ouro tornou-se obsoleto.
Mecanismo de Lesão Renal
Os sais de ouro podem induzir síndrome nefrótica por desenvolvimento de glomerulonefrite membranosa, mecanismo semelhante ao observado com o mercúrio. O ouro atua como hapteno, modificando proteínas glomerulares e desencadeando resposta imunológica com formação de imunocomplexos.
Reversibilidade
Uma característica importante da nefropatia induzida por ouro é a sua reversibilidade após a suspensão do tratamento. Com a descontinuação da crisoterapia, há regressão progressiva da proteinúria e recuperação da função renal na maioria dos casos.
| Metal Pesado |
Local da Lesão |
Mecanismo/Manifestação Renal |
Achados Distintivos |
| Chumbo |
Túbulo proximal |
Atrofia tubular + fibrose intersticial |
↓TFG com proteinúria mínima/ausente + hiperuricemia ("gota do saturnismo") |
| Mercúrio |
Glomérulo |
Glomerulonefrite membranosa |
Síndrome nefrótica + exposição ocupacional (garimpo) |
| Cobre (Wilson) |
Túbulo proximal |
Disfunção tubular (Síndrome de Fanconi) |
Anéis de Kayser-Fleischer + hepatopatia + sintomas neurológicos |
| Ouro |
Glomérulo |
Glomerulonefrite membranosa |
Síndrome nefrótica reversível + história de tratamento para artrite reumatoide |
Drogas que Causam Síndrome Nefrótica
| Droga/Metal |
Padrão Histológico |
Reversibilidade |
| AINEs |
Lesão Mínima + NIA |
Reversível com suspensão |
| Mercúrio |
GN Membranosa |
Variável |
| Ouro |
GN Membranosa |
Reversível com suspensão |
Necrose Cortical Aguda
Definição e Fisiopatologia
A necrose cortical aguda representa uma forma especialmente grave e devastadora de lesão renal aguda. Diferentemente da necrose tubular aguda comum (que acomete principalmente os túbulos renais e geralmente é reversível), a necrose cortical aguda envolve necrose isquêmica de todo o córtex renal, resultando de coagulação intravascular disseminada (CIVD) grave.
A CIVD leva à formação de múltiplos microtrombos na microcirculação renal, causando isquemia cortical extensa e irreversível. O córtex renal, que contém os glomérulos e a maioria dos túbulos funcionais, sofre necrose maciça.
Apresentação Clínica Característica
A necrose cortical aguda apresenta uma tríade clínica altamente sugestiva:
- Anúria ou oligúria extrema: ausência ou redução drástica do débito urinário
- Dor lombar bilateral intensa: causada pela distensão aguda das cápsulas renais
- Achados radiológicos típicos: tomografia computadorizada demonstra calcificação do córtex renal (aspecto em "trilho de bonde" ou "tramlines") nas fases mais tardias
Principais Etiologias
As causas mais comuns de necrose cortical aguda estão relacionadas a complicações obstétricas graves e estados de choque com CIVD:
- Descolamento prematuro de placenta (DPP): causa obstétrica mais frequente
- Síndrome HELLP: complicação grave da pré-eclâmpsia com hemólise, elevação de enzimas hepáticas e plaquetopenia
- Choque séptico: com CIVD associada
- Síndrome hemolítico-urêmica (SHU): especialmente em crianças
- Outras causas de CIVD grave (trauma, queimaduras extensas, pancreatite necrosante)
🚨 Prognóstico Grave: A necrose cortical aguda é uma das poucas formas de lesão renal aguda IRREVERSÍVEL! A maioria dos pacientes evolui para doença renal crônica terminal, necessitando de terapia renal substitutiva permanente (diálise ou transplante renal).
Tratamento
O manejo da necrose cortical aguda é essencialmente de suporte, uma vez que a lesão é irreversível:
- Diálise: terapia renal substitutiva imediata e, geralmente, permanente
- Tratamento da causa base: controle da CIVD, manejo de complicações obstétricas
- Transplante renal: opção definitiva para pacientes elegíveis
- Medidas de suporte: controle hidroeletrolítico, manejo da anemia, controle pressórico
💡 Diferenciação Importante: Necrose tubular aguda (NTA) = reversível, acomete túbulos. Necrose cortical aguda = irreversível, acomete todo o córtex renal, associada à CIVD!