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Doenças dos Glomérulos

As doenças glomerulares representam um grupo heterogêneo de condições que afetam a unidade funcional básica do rim. Essas patologias podem manifestar-se através de diferentes síndromes clínicas, cada uma com características próprias que orientam o diagnóstico e tratamento.

Principais Síndromes Clínicas


Síndrome Nefrítica (Glomerulonefrite Aguda)

Conceito Fundamental

A síndrome nefrítica, também denominada glomerulonefrite aguda ou glomerulonefrite difusa aguda, representa essencialmente uma glomerulite - processo inflamatório que acomete os glomérulos renais. Este termo facilita a compreensão fisiopatológica da doença: trata-se de inflamação dos capilares glomerulares que compromete a filtração renal.

A inflamação glomerular pode surgir como doença primária (idiopática) ou secundária a condições sistêmicas, incluindo processos infecciosos e doenças autoimunes (colagenoses).

🧠 Conceito-chave: Síndrome Nefrítica = Glomerulite = Inflamação dos glomérulos com comprometimento da filtração glomerular

Quadro Clínico e Manifestações Diagnósticas

Tríade Clássica

A apresentação típica da síndrome nefrítica compreende a seguinte sequência fisiopatológica:

Oligúria → Quando as fendas de filtração glomerular ficam obstruídas por células inflamatórias e edema, ocorre redução acentuada do débito urinário. Define-se oligúria como diurese inferior a 400 mL em 24 horas (diferente de anúria, que é inferior a 50 mL/dia). Como o paciente mantém ingestão hídrica normal mas não consegue eliminar adequadamente os líquidos, desenvolve-se congestão volêmica.

Hipertensão Arterial Sistêmica Volume-Dependente → Consequência direta da expansão do volume extracelular por retenção hidrossalina. Trata-se de hipertensão secundária à sobrecarga de volume, não relacionada a mecanismos pressores intrínsecos.

Edema Generalizado Pressórico → Também resultado da congestão volêmica. Este edema difere completamente do edema oncótico observado na síndrome nefrótica. Na síndrome nefrítica, o edema é secundário ao aumento da pressão hidrostática capilar (edema pressórico), podendo evoluir para anasarca.

Hematúria Dismórfica

A hematúria dismórfica constitui o achado patognomônico da síndrome nefrítica. Para compreender sua importância, é fundamental diferenciar os tipos de hematúria:

🔎 Diagnóstico: A presença de hematúria dismórfica é praticamente patognomônica de síndrome nefrítica. Sempre solicitar "pesquisa de dismorfismo eritrocitário" junto ao exame de urina tipo I (EAS).

Achados Laboratoriais Complementares

Além da tríade clássica e da hematúria dismórfica, a síndrome nefrítica cursa com diversos outros achados laboratoriais importantes:

⚠️ Atenção: Proteinúria nefrótica (>3,5g/24h em adultos ou >50mg/kg/dia em crianças) pode ocorrer em 5-10% dos casos de síndrome nefrítica, sobrepondo características de ambas as síndromes.

Cilindros Urinários

Os cilindros urinários formam-se pela agregação da proteína de Tamm-Horsfall (produzida na alça de Henle) com diversos elementos celulares ou detritos no túbulo coletor. Embora frequentemente supervalorizados em provas teóricas, têm valor clínico limitado na prática diária. Os principais tipos incluem:

Tipo de Cilindro Significado Clínico Contexto Principal
Hialino Normal, sem significado patológico Pode aparecer em indivíduos saudáveis
Hemático (Eritrocitário) Patognomônico de síndrome nefrítica Glomerulonefrites
Granuloso Necrose tubular aguda Células mortas aderidas à matriz proteica
Leucocitário Inflamação tubulointersticial Nefrite intersticial (característico)
Céreo Provável evolução de cilindro granuloso Lesão tubular crônica
Largo "Cilindro da insuficiência renal crônica" Dilatação tubular por IRC
Graxo Estado de lipidúria Síndrome nefrótica
Epitelial Lesão tubular renal NTA, nefropatias tubulointersticiais

Etiologia da Síndrome Nefrítica

As causas de síndrome nefrítica dividem-se em dois grandes grupos:

1. Glomerulonefrite Pós-Estreptocócica (GNPE)

Representa a principal causa de síndrome nefrítica tanto no Brasil quanto mundialmente.

2. Glomerulonefrites Não Pós-Estreptocócicas

Causas Idiopáticas:

Relacionadas à Deposição de Imunocomplexos:

Categoria Glomerulopatias
Primárias • Doença antimembrana basal glomerular
• Glomerulopatia por C3
• Nefropatia por IgA (Berger)
• Glomerulopatia membranosa
• Glomerulonefrite crescêntica idiopática
Secundárias • Glomerulonefrite pós-estreptocócica (GNPE)
• Glomerulonefrites pós-infecciosas
• Púrpura de Henoch-Schönlein (PHS)
• Nefrite lúpica e outras doenças reumáticas
• Neoplasias
• Granulomatose de Wegener e Churg-Strauss

Glomerulonefrite Pós-Estreptocócica (GNPE)

Definição e Epidemiologia

A GNPE constitui a principal causa de síndrome nefrítica em nosso meio, representando uma sequela renal tardia após infecção por Streptococcus β-hemolítico do grupo A (também conhecido como Streptococcus pyogenes). Importante enfatizar que se trata de um evento imunológico, não de processo infeccioso propriamente dito nos rins.

Caracteriza-se como doença predominantemente pediátrica, acometendo principalmente crianças entre 2 e 15 anos de idade, com pico de incidência entre 5 e 12 anos. Existe predomínio no sexo masculino na proporção de 2:1.

🧬 Fisiopatologia: A GNPE resulta de reação cruzada (mimetismo molecular) entre antígenos bacterianos e estruturas do córtex renal. O sistema imunológico, ao combater a infecção estreptocócica, produz anticorpos que também atacam componentes glomerulares devido à semelhança antigênica.

Agente Etiológico e Vias de Infecção

Apenas cepas nefritogênicas do Streptococcus β-hemolítico do grupo A são capazes de desencadear GNPE. Os principais antígenos estreptocócicos implicados incluem:

A infecção inicial pode ocorrer por duas vias principais, cada uma com período de incubação característico:

Via Faríngea (Faringoamigdalite Estreptocócica)

Via Cutânea (Piodermite Estreptocócica)

⏱️ Memorize: Faringite → 10 dias até GNPE | Piodermite → 21 dias até GNPE

Manifestações Clínicas

Apresentação Típica: Síndrome Nefrítica Clássica

A GNPE representa o protótipo da síndrome nefrítica, cursando com início abrupto do quadro clínico completo:

Sintomas Inespecíficos

Complicações Metabólicas

Hipercalemia por Hipoaldosteronismo Hiporreninêmico: A fisiopatologia envolve a seguinte cascata: Queda da TFG → Hipervolemia → Supressão da produção de renina → Diminuição da produção de aldosterona → Redução da excreção de potássio → Hipercalemia

🩸 Achado importante: Proteinúria na faixa nefrítica (150 mg - 3,5 g/24h) é comum, mas 5-10% dos pacientes podem apresentar proteinúria na faixa nefrótica (>3,5 g/24h), configurando sobreposição de síndromes.

Diagnóstico da GNPE

O diagnóstico da GNPE baseia-se em quatro pilares fundamentais que devem ser sistematicamente investigados:

1. História de Infecção Prévia

Investigar quadro recente de faringoamigdalite ou piodermite estreptocócica (impetigo, erisipela).

2. Período de Incubação Compatível

3. Comprovação Laboratorial da Infecção Estreptocócica

Solicitar dosagem de anticorpos antiestreptocócicos:

⚠️ Importante: NÃO realizar swab de orofaringe nem cultura para detecção do estreptococo no momento do diagnóstico de GNPE. A "sequela" já ocorreu; o objetivo é documentar infecção prévia por meio de sorologia.

Observação: Os marcadores sorológicos (ASLO e Anti-DNase B) podem estar negativos em alguns casos, não excluindo o diagnóstico.

4. Hipocomplementemia Sérica

A redução do complemento sérico é obrigatória para o diagnóstico de GNPE e persiste por até 8 semanas:

🔎 Diagnóstico diferencial: Outras causas de síndrome nefrítica com hipocomplementemia incluem: nefrite lúpica, endocardite bacteriana subaguda e glomerulonefrite membranoproliferativa (GNMP). Na GNMP, a proteinúria geralmente está na faixa nefrótica e o complemento persiste baixo após 8 semanas.

Achados Histopatológicos

Microscopia Óptica e Imunofluorescência

Padrão de glomerulonefrite proliferativa difusa, com proliferação de células endoteliais e mesangiais, infiltrado inflamatório e espessamento da membrana basal glomerular.

Microscopia Eletrônica

Achado característico (embora não universal): depósitos imunes subepiteliais conhecidos como "humps", "gibas" ou "cocorvas". Quando presentes, são altamente sugestivos de GNPE.

Indicações de Biópsia Renal

A biópsia renal está indicada quando a evolução não segue o padrão esperado ("quando algo está estranho"). As principais indicações incluem:

💡 Regra prática: Se o quadro clínico não melhora em 4 semanas (exceto o complemento, que normaliza em até 8 semanas), considerar biópsia renal para investigar diagnósticos alternativos.

História Natural e Prognóstico

Evolução Temporal Esperada

Prognóstico Geral

A GNPE apresenta excelente prognóstico na população pediátrica:

🎯 Prognóstico: A função renal retorna completamente ao normal na vasta maioria dos casos pediátricos, "como se o rim fosse novo". A inflamação glomerular resolve-se espontaneamente sem deixar sequelas permanentes.

Tratamento

Princípios Gerais

NÃO existe tratamento específico para GNPE. A abordagem é exclusivamente de suporte clínico, visando controlar as manifestações da síndrome nefrítica até resolução espontânea do processo inflamatório.

Medidas de Suporte (Manejo da Síndrome Nefrítica)

Antibioticoterapia

Penicilina benzatina (dose única IM) é o antibiótico de escolha. Alternativa para alérgicos: macrolídeos.

⚠️ Atenção - Papel do Antibiótico:
• NÃO previne o desenvolvimento de GNPE (mesmo quando administrado precocemente durante faringite ou piodermite)
• NÃO melhora a GNPE já instalada
• NÃO reduz o tempo de doença renal
• OBJETIVO: eliminar cepas nefritogênicas do estreptococo como MEDIDA EPIDEMIOLÓGICA para evitar disseminação para outros indivíduos
💡 Pontos essenciais:

Síndrome Nefrítica:
• Hematúria dismórfica = patognomônica
• Oligúria + HAS volume-dependente + edema pressórico
• Cilindros hemáticos são patognomônicos
• Proteinúria na faixa nefrítica (150 mg - 3,5 g/24h)

GNPE:
• Principal causa de síndrome nefrítica no mundo
• Incubação: faringe 10 dias / pele 21 dias
• Hipocomplementemia (C3↓) por até 8 semanas
• Prognóstico excelente: 95-99% sem sequelas em crianças
• ATB não previne GNPE, apenas elimina cepas nefritogênicas
• Biópsia se evolução atípica (>4 semanas sem melhora ou C3 baixo >8 semanas)
• "Humps" na microscopia eletrônica = característico de GNPE

Alterações Urinárias Assintomáticas

As principais causas de alterações urinárias em pacientes sem sintomas clínicos evidentes são: a Nefropatia por IgA (Doença de Berger), a Síndrome de Alport e a Hematúria Glomerular Benigna.

Nefropatia por IgA (Doença de Berger)

Introdução e Epidemiologia

A Nefropatia por IgA, também conhecida como Doença de Berger, representa a glomerulopatia primária mais prevalente mundialmente. Afeta predominantemente pacientes jovens, com idade entre 10 e 40 anos (pico aos 22 anos), sendo mais comum no sexo masculino (proporção de 2:1). A característica clínica marcante é a ocorrência de hematúria intermitente, frequentemente precipitada por fatores desencadeantes inespecíficos como infecções respiratórias ou sistêmicas, exercício físico intenso, vacinação ou outros estímulos imunológicos.

🧠 Conceito-chave: Em aproximadamente 40% dos casos, a hematúria é exclusivamente microscópica, tornando a doença subdiagnosticada na população geral. O exame de urina tipo I (EAS) é fundamental no rastreio inicial.

Fisiopatologia

A doença decorre do depósito de imunocomplexos contendo IgA no mesângio glomerular, desencadeando inflamação local e lesão renal progressiva em alguns casos. Embora a maioria dos pacientes apresente curso benigno, cerca de 10% podem evoluir com características de síndrome nefrítica, representando um desafio diagnóstico importante.

Apresentação Clínica

A Doença de Berger pode manifestar-se de diversas formas, cada uma com implicações prognósticas distintas:

1. Hematúria Macroscópica Recorrente (40-50% dos casos)
2. Hematúria Microscópica Persistente (30-40% dos casos)
3. Síndrome Nefrítica (10% dos casos)

Apresentação que pode simular glomerulonefrite pós-estreptocócica, porém com características distintivas cruciais:

⚠️ Atenção: A síndrome nefrítica na Doença de Berger distingue-se da glomerulonefrite pós-estreptocócica pela ausência de período de latência (sintomas surgem no dia seguinte ao fator desencadeante) e pela manutenção de níveis normais de complemento sérico.
4. Síndrome Nefrótica (10% dos casos)

Manifestação menos comum, caracterizada por proteinúria maciça (>3,5g/24h), hipoalbuminemia, edema e dislipidemia.

5. Glomerulonefrite Rapidamente Progressiva (<5% dos casos)

Forma mais grave e rara, com deterioração rápida da função renal e necessidade frequente de terapia dialítica.

Associações Clínicas Importantes

Quando a apresentação renal se associa a manifestações dermatológicas (púrpura palpável), gastrointestinais (dor abdominal, sangramento) e reumatológicas (artrite, artralgia), deve-se considerar o diagnóstico de Vasculite por IgA (Púrpura de Henoch-Schönlein), que pode ser entendida como a forma sistêmica da Doença de Berger. Outras condições associadas incluem doença celíaca e dermatite herpetiforme.

Investigação Diagnóstica

Avaliação Laboratorial
🔎 Diagnóstico definitivo: Apesar dos achados laboratoriais sugestivos, a biópsia renal permanece como o único método confirmatório definitivo para a Doença de Berger.
Biópsia Renal

Embora seja o padrão-ouro diagnóstico, trata-se de procedimento invasivo com riscos inerentes. As indicações formais incluem:

Achados histopatológicos característicos:

Prognóstico

A evolução da Doença de Berger é extremamente variável e imprevisível, com espectro amplo de desfechos possíveis:

Fatores de Mau Prognóstico
💡 Dica importante: A intensidade e frequência das crises de hematúria macroscópica NÃO são indicadores prognósticos. Paradoxalmente, a ausência de hematúria macroscópica associa-se a pior prognóstico.

Abordagem Terapêutica

Conduta Geral

A maioria dos pacientes com Doença de Berger não requer tratamento específico, sendo conduzidos com acompanhamento clínico regular e monitorização laboratorial mensal (função renal, proteinúria e sedimento urinário).

Medidas de Suporte e Nefroproteção

Para pacientes com hipertensão arterial ou proteinúria ≥ 500mg-1g/dia:

Terapia Imunossupressora

Indicações para tratamento imunossupressor agressivo:

Esquema terapêutico:

💊 Princípio terapêutico: A abordagem na Doença de Berger é fundamentalmente de suporte, semelhante à glomerulonefrite pós-estreptocócica, com tratamento específico reservado para casos de evolução desfavorável ou apresentações graves.

Síndrome de Alport (Nefrite Hereditária)

Definição e Epidemiologia

A Síndrome de Alport, também denominada nefrite hereditária, constitui uma causa rara, porém importante, de hematúria assintomática na população pediátrica. Caracteriza-se por ser uma doença geneticamente determinada com prognóstico frequentemente reservado.

Base Genética e Padrões de Herança

O defeito molecular fundamental reside em mutações afetando a cadeia alfa-5 do colágeno tipo IV, componente estrutural essencial das membranas basais. A história familiar positiva é característica marcante da doença.

Padrões de herança identificados:

Manifestações Clínicas

Trata-se de distúrbio multissistêmico com acometimento predominante de três sistemas orgânicos:

Manifestações Renais
Manifestações Auditivas
Manifestações Oftalmológicas
🧬 Tríade clássica de Alport: Hematúria glomerular + Surdez neurossensorial + Alterações oftalmológicas (especialmente lenticone anterior).

Investigação Diagnóstica

Abordagem Terapêutica

Não existe tratamento curativo para a Síndrome de Alport. A conduta baseia-se em:

Hematúria Glomerular Benigna (Doença da Membrana Basal Fina)

Definição e Caracterização

A Hematúria Glomerular Benigna, também conhecida como Doença do Adelgaçamento da Membrana Basal Glomerular, representa uma glomerulopatia de natureza familiar ou esporádica, com prevalência comparável à Doença de Berger.

Aspectos Genéticos

Nas formas familiares, caracteriza-se por herança autossômica dominante, afetando múltiplos membros da mesma família.

Apresentação Clínica

Investigação Diagnóstica

Achados Histopatológicos na Biópsia Renal
💡 Importante: A biópsia renal geralmente não está indicada, sendo reservada para casos com dúvida diagnóstica ou presença de achados atípicos.

Prognóstico e Conduta

O prognóstico é excelente, com manutenção da função renal normal ao longo da vida. A conduta primordial consiste em:

Considerações Sobre Biópsia Renal

Indicações Formais

Complicações Potenciais


Glomerulonefrite Rapidamente Progressiva (GNRP)

Definição e Conceito

A Glomerulonefrite Rapidamente Progressiva representa uma síndrome nefrítica de evolução fulminante, caracterizada por deterioração acelerada da função renal, progredindo para insuficiência renal terminal em semanas a poucos meses. A lesão glomerular é frequentemente irreversível, tornando a GNRP uma emergência nefrológica que demanda reconhecimento e intervenção precoces.

Apresentação Clínica

Manifestações Renais

Síndrome Urêmica

Em muitos casos, as manifestações iniciais relacionam-se diretamente à uremia avançada (taxa de filtração glomerular <20% do normal, creatinina >5mg/dL):

🚨 Emergência nefrológica: A presença de síndrome urêmica constitui indicação absoluta de diálise de urgência.

Diagnóstico Histopatológico

Achado Característico: Crescentes Glomerulares

A biópsia renal na fase precoce da GNRP revela a formação de crescentes glomerulares (proliferação extracapilar) em mais de 50% dos glomérulos. Os crescentes resultam do extravasamento de monócitos e fibrinogênio para o espaço de Bowman, com formação de rede de fibrina que progressivamente comprime as alças capilares glomerulares e o folheto externo da cápsula de Bowman, culminando em necrose e esclerose glomerular irreversível.

Classificação Etiológica da GNRP

O padrão de imunofluorescência direta na biópsia renal permite a classificação da GNRP em três tipos principais, cada qual com implicações diagnósticas e terapêuticas específicas:

Tipo I: Doença Mediada por Anticorpos Anti-Membrana Basal (10% dos casos)

Tipo II: Doença Mediada por Imunocomplexos (45% dos casos)

Tipo III: Doença Pauci-Imune (45% dos casos)

Tipo de GNRP Imunofluorescência Complemento Sorologia Exemplos Clínicos
Tipo I (Anti-MBG) Padrão Linear Normal Anti-MBG + Síndrome de Goodpasture
Tipo II (Imunocomplexos) Padrão Granular Reduzido Variável Berger, GNPE, LES, Endocardite
Tipo III (Pauci-imune) Negativa Normal ANCA + Poliarterite Microscópica, Wegener
🔎 Diagnóstico: A biópsia renal constitui o padrão-ouro tanto para confirmação diagnóstica quanto para classificação etiológica da GNRP, sendo fundamental para guiar a terapia imunossupressora específica.

Síndrome de Goodpasture

Definição e Epidemiologia

A Síndrome de Goodpasture representa uma doença autoimune rara, caracterizada pela produção de anticorpos dirigidos contra a membrana basal de glomérulos renais e alvéolos pulmonares. Apresenta marcante predominância no sexo masculino (proporção 6:1) e afeta preferencialmente adultos jovens na faixa etária de 20 a 40 anos.

Fatores de Risco e Desencadeantes

Fisiopatologia

A doença resulta da formação de anticorpos IgG anti-membrana basal dirigidos especificamente contra o domínio NC1 da cadeia alfa-3 do colágeno tipo IV, componente estrutural comum às membranas basais glomerulares e alveolares. A ligação desses autoanticorpos desencadeia resposta inflamatória mediada por complemento e neutrófilos, culminando em lesão tecidual progressiva.

Quadro Clínico

Manifestações Pulmonares (Geralmente Precedem as Renais)

Manifestações Renais

💡 Sequência temporal: As manifestações pulmonares geralmente antecedem o comprometimento renal, constituindo a apresentação inicial da doença na maioria dos casos.

Diagnósticos Diferenciais

A associação de hemorragia alveolar com glomerulonefrite (síndrome pulmão-rim) pode ocorrer em diversas condições, exigindo diferenciação cuidadosa:

Espectro Clínico: Goodpasture vs Síndrome Anti-MBG Isolada

Síndrome de Goodpasture (Acometimento Pulmonar + Renal)

Síndrome Anti-MBG Isolada (Apenas Acometimento Renal)

Investigação Diagnóstica

Sorologia

Biópsia Renal (Padrão-Ouro)

Exames Complementares

🧪 Tríade diagnóstica de Goodpasture: Anticorpo anti-MBG positivo + Padrão linear na imunofluorescência da biópsia renal + Complemento sérico normal.

Abordagem Terapêutica

Tratamento de Primeira Linha: Plasmaférese

A plasmaférese constitui o tratamento padrão-ouro na fase aguda da Síndrome de Goodpasture, visando à remoção rápida dos anticorpos anti-MBG circulantes e à prevenção de lesão adicional aos órgãos-alvo.

Imunossupressão Combinada

Paralelamente à plasmaférese, inicia-se terapia imunossupressora para suprimir a produção adicional de autoanticorpos:

💊 Início imediato: A terapia deve ser iniciada imediatamente, mesmo antes da confirmação histopatológica definitiva, dada a natureza rapidamente progressiva e potencialmente fatal da doença.

Suporte e Medidas Adjuvantes

Prognóstico

O prognóstico depende fundamentalmente da precocidade do diagnóstico e do início do tratamento:


Padrão de Complemento nas Síndromes Nefríticas

O comportamento dos níveis séricos de complemento (C3 e C4) constitui ferramenta diagnóstica valiosa na diferenciação etiológica das síndromes nefríticas:

Condição Clínica Níveis de Complemento Mecanismo
Glomerulonefrite Pós-Estreptocócica Reduzidos (↓) Consumo por ativação da via alternativa
Infecções (sem GNPE) Reduzidos (↓) Consumo por resposta imune sistêmica
Glomerulonefrite Lúpica Reduzidos (↓) Consumo por imunocomplexos circulantes
Doença de Berger Normais Ausência de ativação significativa do complemento
Síndrome de Goodpasture Normais Lesão mediada por anticorpo sem consumo de complemento
Vasculites ANCA+ Normais Lesão pauci-imune sem deposição de imunocomplexos

Síndrome Hemolítico-Urêmica (SHU)

Definição e Conceito

A Síndrome Hemolítico-Urêmica representa o principal exemplo clínico de trombose glomerular, caracterizada pela tríade de anemia hemolítica microangiopática, trombocitopenia e insuficiência renal aguda. Constitui importante causa de lesão renal aguda na população pediátrica, particularmente em regiões com condições sanitárias precárias.

Epidemiologia

Fisiopatologia

SHU Típica (Associada a Diarreia - D+)

A forma clássica da SHU inicia-se com infecção gastrintestinal por cepas de Escherichia coli produtoras de toxina Shiga (também denominada verotoxina), sendo o sorotipo O157:H7 o mais frequentemente implicado.

Sequência fisiopatológica:

🧠 Fisiopatologia central: A toxina Shiga lesiona o endotélio glomerular, desencadeando formação de trombos de fibrina que consomem plaquetas e fragmentam mecanicamente as hemácias circulantes.

Quadro Clínico

Sequência Temporal Típica

Criança previamente hígida desenvolve:

Tríade Clássica da SHU

1. Anemia Hemolítica Microangiopática

2. Insuficiência Renal Aguda

3. Trombocitopenia por Consumo

🩸 Diagnóstico diferencial: A combinação de anemia hemolítica microangiopática + trombocitopenia + insuficiência renal aguda em criança com história recente de diarreia é altamente sugestiva de SHU.

Investigação Diagnóstica

Exames Laboratoriais Essenciais

Abordagem Terapêutica

Princípios Fundamentais do Tratamento

A SHU típica (associada a diarreia) é uma condição autolimitada, e o tratamento baseia-se fundamentalmente em medidas de suporte:

Medidas de Suporte

⚠️ Contraindicação absoluta: NÃO administrar antibióticos na fase aguda da gastroenterite por E. coli O157:H7, pois a lise bacteriana aumenta a liberação de toxina Shiga na circulação, potencialmente agravando o quadro de SHU.

Condutas NÃO Recomendadas

Evolução e Prognóstico

História Natural

A SHU típica é uma doença autolimitada, com duração usual de 7 a 21 dias. A maioria dos pacientes apresenta recuperação completa com suporte adequado.

Desfechos Clínicos

💡 Ponto de alerta clínico: Toda criança que desenvolve insuficiência renal aguda deve ter a SHU como hipótese diagnóstica prioritária, especialmente se houver história de diarreia recente.

Fatores de Pior Prognóstico

SHU Atípica (Não Associada a Diarreia - D-)

Representa forma menos comum da doença, geralmente relacionada a alterações genéticas ou adquiridas no sistema regulador do complemento. Caracteriza-se por:


Síndrome Nefrótica

A síndrome nefrótica representa uma condição clínico-laboratorial única na medicina, sendo definida por critérios laboratoriais específicos. Diferentemente de outras síndromes, seu diagnóstico baseia-se primariamente em achados quantitativos de perda proteica urinária. Os critérios diagnósticos variam conforme a faixa etária do paciente.

Critérios Diagnósticos Laboratoriais

Para o diagnóstico da síndrome nefrótica, utilizamos diferentes métodos de quantificação proteica:

💡 Conceito-chave: O exame de urina tipo I (EAS) não serve como padrão diagnóstico para síndrome nefrótica, pois apenas estima a proteinúria por "cruzes" sem quantificação precisa. A quantificação exata da perda proteica é essencial para o diagnóstico.

Fundamentos da Proteinúria

Para compreender a síndrome nefrótica, devemos primeiro entender a fisiologia normal da filtração proteica renal. Em condições normais, eliminamos até 150 mg/dia de proteínas na urina. Apesar de o glomérulo permitir a passagem de até 1 g/dia de proteínas, os túbulos renais reabsorvem a maior parte dessas proteínas filtradas, mantendo a excreção final em níveis fisiológicos.

Quando ocorre proteinúria patológica, podemos classificá-la de acordo com o mecanismo fisiopatológico subjacente:

Barreiras de Proteção Glomerular

Dois mecanismos principais impedem a perda proteica excessiva no glomérulo saudável:

💊 Farmacologia aplicada: Os inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) e os bloqueadores do receptor de angiotensina II (BRA) promovem vasodilatação preferencial da arteríola eferente. Isso reduz a pressão intraglomerular e consequentemente diminui a formação de filtrado e a proteinúria resultante.

Albumina e Filtração Glomerular

A albumina é a proteína mais abundante no plasma sanguíneo, com concentrações normais entre 3,5 e 5,0 g/dL. Mesmo em condições fisiológicas, ocorre filtração de pequena quantidade de albumina, com eliminação urinária de até 30 mg/dia. Este valor representa apenas uma fração dos 150 mg/dia totais de proteínas normalmente excretadas.

Manifestações Clínicas

A síndrome nefrótica clássica caracteriza-se pela tétrade: proteinúria maciça, hipoalbuminemia, edema e hiperlipidemia. Cada componente dessa tétrade gera consequências clínicas específicas que devem ser reconhecidas e manejadas adequadamente.

Proteinúria Maciça

A perda proteica urinária em grande quantidade não se limita à albumina. Diversas proteínas plasmáticas importantes são eliminadas, gerando múltiplas repercussões sistêmicas:

Redução da Albumina Sérica

A hipoalbuminemia é consequência direta da perda urinária superior à capacidade de síntese hepática. Valores normais de albumina situam-se entre 3,5 e 5,0 g/dL. Na síndrome nefrótica, observamos reduções significativas que comprometem a pressão oncótica plasmática.

Diminuição da Antitrombina III

A antitrombina III é um anticoagulante endógeno essencial para regulação da coagulação. Sua perda urinária resulta em estado de hipercoagulabilidade, aumentando significativamente o risco de eventos trombóticos, particularmente trombose venosa profunda e trombose da veia renal.

Depleção de Imunoglobulinas

A perda de imunoglobulinas, especialmente IgG, compromete a defesa imunológica humoral. Os pacientes tornam-se particularmente suscetíveis a infecções por bactérias encapsuladas, sendo o Streptococcus pneumoniae o patógeno mais relevante clinicamente. Este agente é a bactéria encapsulada mais comum na prática médica e o principal causador de peritonite primária em pacientes nefróticos.

Perda de Transferrina

A transferrina é a proteína transportadora de ferro no organismo. Sua eliminação urinária pode resultar em anemia ferropriva que não responde à reposição oral de ferro, pois não há transportador suficiente para promover a absorção e distribuição adequadas do mineral suplementado.

Alterações Hormonais e Eletrolíticas

A perda de proteínas transportadoras de hormônios pode gerar reduções nos níveis de T4 total, mimetizando hipotireoidismo. Similarmente, a diminuição de proteínas carreadoras de cálcio pode cursar com hipocalcemia laboratorial, embora geralmente sem manifestações clínicas significativas, pois o cálcio ionizado permanece normal.

🧪 Laboratorial importante: A alfa-2-globulina é a única proteína que não diminui na síndrome nefrótica. Por ser produzida pelo fígado e não ser filtrada pelos rins, ela paradoxalmente se eleva nessa condição, representando uma exceção importante ao padrão geral de hipoproteinemia.

Edema

O edema nefrótico possui características peculiares que o diferenciam de edemas de outras etiologias. Compreender sua fisiopatologia é fundamental para o manejo adequado.

Mecanismo Fisiopatológico

O edema resulta da hipoalbuminemia, que reduz a pressão oncótica plasmática. Com menor pressão oncótica, o fluido intravascular extravasa para o interstício. Trata-se, portanto, de um edema por redução de pressão oncótica, e não por aumento de pressão hidrostática como ocorre na insuficiência cardíaca.

⚠️ Erro comum: O edema nefrótico NÃO é pressórico, portanto NÃO deve ser tratado com diuréticos como primeira linha. O tratamento deve focar na correção da causa subjacente e no uso de corticoides quando indicado.
Localização Preferencial

O edema periorbitário representa a manifestação mais característica da síndrome nefrótica. A região periorbitária é particularmente sensível a reduções na pressão oncótica, tornando-se o local de acúmulo de fluido mais precoce e evidente. Embora o edema possa manifestar-se em membros inferiores, na forma de ascite ou até como edema agudo de pulmão nos casos graves, o edema periorbitário permanece como o achado clínico mais típico e sugestivo.

Resposta ao Tratamento

Uma característica marcante do edema nefrótico é sua excelente resposta à corticoterapia em muitos casos, especialmente na doença de lesão mínima. Esta resposta favorável ao corticoide contrasta com o edema de outras etiologias e pode ter valor diagnóstico e prognóstico.

Hiperlipidemia

A elevação dos lipídios séricos na síndrome nefrótica resulta de uma resposta compensatória hepática inadequada à perda proteica.

Fisiopatologia

Em resposta à hipoalbuminemia persistente, o fígado aumenta a síntese de diversas proteínas na tentativa de compensar as perdas. Além de proteínas, há aumento concomitante na produção de lipoproteínas. Entretanto, enquanto a produção de albumina permanece insuficiente para normalizar seus níveis séricos, a produção de lipoproteínas excede sua eliminação renal, resultando em hiperlipidemia sustentada.

Manifestações e Consequências

A hiperlipidemia manifesta-se clinicamente por lipidúria, evidenciada no exame microscópico da urina pela presença de corpos graxos ovalados. Quando estes corpos lipídicos se agregam à proteína de Tamm-Horsfall, formam-se os cilindros lipídicos, achado altamente sugestivo (embora não patognomônico) de síndrome nefrótica.

A hiperlipidemia crônica não tratada aumenta o risco cardiovascular, predispondo a eventos como infarto agudo do miocárdio e acidente vascular encefálico, processo denominado aterogênese acelerada.

Complicações Infecciosas

A depleção de imunoglobulinas torna os pacientes nefróticos particularmente vulneráveis a infecções bacterianas. A peritonite bacteriana primária (espontânea) causada por Streptococcus pneumoniae representa a infecção mais característica e frequente, devendo ser sempre considerada em pacientes nefróticos com dor abdominal e febre.

Hipercoagulabilidade

A síndrome nefrótica predispõe a eventos trombóticos por múltiplos mecanismos: perda de antitrombina III, hemoconcentração relativa devido ao edema, estase venosa e alterações nos fatores de coagulação. A trombose pode ocorrer em qualquer território vascular, mas a trombose de veia renal merece destaque especial por sua frequência e implicações clínicas.

Trombose de Veia Renal

Esta complicação ocorre preferencialmente em pacientes com nefropatia membranosa e glomerulonefrite membranoproliferativa, embora possa surgir em qualquer causa de síndrome nefrótica.

Quadro clínico: O rim afetado aumenta de volume de forma assimétrica, causando distensão da cápsula renal. O paciente apresenta dor lombar aguda acompanhada de hematúria e piora da proteinúria. Pode haver deterioração da função renal. No sexo masculino, quando a trombose acomete a veia renal esquerda, pode surgir varicocele de início súbito no lado esquerdo, pois a veia espermática esquerda drena para a veia renal (ao contrário da direita, que drena diretamente para a veia cava inferior).

Diagnóstico: A combinação de hematúria, piora da proteinúria, assimetria renal ao exame de imagem e deterioração da função renal em paciente nefrótico sugere fortemente trombose de veia renal.

Tratamento: Anticoagulação plena está indicada.

🔎 Diagnóstico diferencial importante: Apenas duas condições cursam com varicocele à esquerda de início súbito: (1) síndrome nefrótica complicada com trombose de veia renal esquerda e (2) câncer renal à esquerda.
🔎 Cenário em Provas: Nas questões de provas, a síndrome nefrótica geralmente é apresentada como um paciente com edema (frequentemente periorbitário) e proteinúria maciça (referida como "urina espumosa"), acompanhado de alguma complicação: trombose venosa profunda, trombose de veia renal, peritonite bacteriana espontânea, anemia ferropriva refratária, ou hiperlipidemia com risco cardiovascular.

Avaliação Diagnóstica

Diante de um paciente com síndrome nefrótica, devemos realizar investigação sistemática buscando causas secundárias e definindo a etiologia específica para direcionamento terapêutico adequado.

Exames Laboratoriais Essenciais

Biópsia Renal

A biópsia renal é quase sempre necessária em adultos com síndrome nefrótica para definição diagnóstica precisa. As glomerulopatias primárias são classificadas conforme achados histopatológicos específicos. Em crianças de 1 a 10 anos com apresentação clássica e complemento normal, pode-se presumir doença de lesão mínima e iniciar tratamento empírico sem biópsia inicial.

Métodos Diagnósticos Complementares

Métodos não invasivos têm sido estudados como alternativas ou complementos à biópsia, incluindo cintilografia com gálio-67 e pesquisa de anticorpos específicos, embora ainda não substituam a biópsia na maioria dos casos.

Etiologia da Síndrome Nefrótica

A síndrome nefrótica pode resultar de causas primárias (glomerulopatias primárias) ou secundárias (decorrentes de doenças sistêmicas). As causas primárias são classificadas segundo padrões histopatológicos específicos observados na biópsia renal.

Causas Secundárias

Múltiplas condições sistêmicas podem manifestar-se com síndrome nefrótica, incluindo lúpus eritematoso sistêmico, neoplasias, hipertensão arterial sistêmica de longa data, diabetes mellitus, amiloidose, hepatites virais, uso de drogas nefrotóxicas, entre outras.

Causas Primárias (Glomerulopatias Primárias)


Doença de Lesão Mínima

Epidemiologia

A doença de lesão mínima representa a principal causa de síndrome nefrótica na infância, respondendo por aproximadamente 90% dos casos pediátricos. Acomete tipicamente crianças entre 1 e 8 anos de idade. Em adultos, corresponde a cerca de 10% dos casos de síndrome nefrótica.

Patogênese e Histopatologia

A lesão fundamental consiste em fusão e retração dos processos podocitários (pedicelos). Esta alteração causa perda da carga negativa da membrana basal glomerular, resultando em proteinúria predominantemente seletiva (perda preferencial de albumina).

A doença possui natureza autoimune, evidenciada pela excelente resposta à corticoterapia na maioria dos casos. O termo "lesão mínima" deriva da ausência de alterações à microscopia óptica comum:

Associações Clínicas Importantes

A doença de lesão mínima pode ser precipitada ou associada a algumas condições específicas:

Quadro Clínico

Manifesta-se como síndrome nefrótica clássica com curso caracteristicamente recidivante. Observam-se períodos de piora (recidiva) alternados com remissão completa, e novamente piora. O edema periorbitário é manifestação proeminente devido à hipoalbuminemia significativa.

Complemento

Não há consumo de complemento na doença de lesão mínima. Os níveis de C3 e C4 permanecem normais.

Tratamento

A corticoterapia representa o tratamento de escolha, com taxas de resposta de 80-90% em crianças nas primeiras 4 semanas.

Esquema Terapêutico

Classificação da Resposta Terapêutica

Terapias Alternativas

Nos casos corticorresistentes ou corticodependentes, deve-se considerar imunossupressores alternativos: rituximabe, ciclosporina, tacrolimus ou micofenolato de mofetila.

💊 Ponto de alta relevância: Lembre-se do contexto clínico típico: criança de 1-8 anos com edema periorbitário, hipoalbuminemia e excelente resposta ao corticoide. Sempre investigar linfoma de Hodgkin ao diagnóstico.

Glomeruloesclerose Focal e Segmentar (GESF)

Epidemiologia

A GESF representa a principal causa de síndrome nefrótica em adultos, embora também possa acometer crianças.

Patogênese

A GESF pode ocorrer por mecanismos primários ou secundários:

GESF Primária

A patogênese permanece incompletamente esclarecida. Acredita-se que linfócitos T produzam fatores circulantes que causam lesão direta aos podócitos, resultando em sua disfunção e morte.

GESF Secundária

Desenvolve-se como sequela de outras doenças renais ou situações de sobrecarga glomerular. Condições que reduzem o número de néfrons funcionantes (rim único, nefrectomia, doença renal prévia) causam hiperfluxo compensatório nos glomérulos remanescentes. Este hiperfluxo crônico eventualmente lesa os glomérulos sobreviventes, que desenvolvem esclerose focal e segmentar. Diabetes mellitus e hipertensão arterial sistêmica de longa data também podem causar GESF secundária por mecanismos semelhantes.

Histopatologia

Associações Clínicas

Múltiplas condições podem causar GESF. Na ausência de informações específicas em questões de prova, GESF geralmente é a melhor escolha. As principais associações incluem:

🧠 Macete para prova: Se a questão menciona uma condição associada à síndrome nefrótica e NÃO é linfoma de Hodgkin, AINE, lítio, captopril, sais de ouro, D-penicilamina, hepatite B, hepatite C, LES ou neoplasia oculta, provavelmente é GESF!

Quadro Clínico

Manifesta-se com proteinúria que pode estar em qualquer nível, mas geralmente atinge faixa nefrótica. Diferentemente da lesão mínima, pode cursar com hipertensão arterial e hematúria macroscópica.

Complemento

Não há consumo de complemento na GESF. Níveis séricos de C3 e C4 permanecem normais.

Tratamento

O manejo terapêutico difere conforme a forma primária ou secundária:

Medidas Gerais (ambas as formas)

Nefroproteção com IECA ou BRA para redução da pressão intraglomerular e proteinúria. Estatinas quando houver hiperlipidemia significativa ou indicação por risco cardiovascular.

GESF Primária

Imunossupressão com prednisona 1 mg/kg/dia por 3-4 meses, seguida de desmame gradual. Taxa de remissão alcança até 70% dos casos. Em pacientes corticorresistentes ou corticodependentes, considerar rituximabe, ciclosporina, tacrolimus ou micofenolato de mofetila.

GESF Secundária

Tratamento direcionado à causa base. Não há indicação de imunossupressão, pois a fisiopatologia não é imunomediada.


Glomerulonefrite Proliferativa Mesangial

Epidemiologia

Representa 5-10% das causas primárias de síndrome nefrótica. Possui relevância limitada em provas de residência médica.

Patogênese e Histopatologia

Caracteriza-se por proliferação celular no mesângio glomerular. Esta proliferação mesangial é o achado histopatológico definidor.

Quadro Clínico

Manifesta-se com proteinúria, podendo estar em faixa nefrótica. Uma característica importante é a possível presença de hematúria, pois o envolvimento mesangial frequentemente cursa com este achado.

🔎 Importante lembrar: Apenas duas condições na síndrome nefrótica podem cursar com hematúria: (1) glomerulonefrite proliferativa mesangial e (2) trombose de veia renal.

Associações

Pode estar associada ao lúpus eritematoso sistêmico, especialmente nas classes mesangiais da nefrite lúpica.

Tratamento

Corticoterapia constitui a base do tratamento, embora os protocolos e evidências sejam mais heterogêneos que nas outras glomerulopatias.


Nefropatia Membranosa

Epidemiologia

Representa a segunda causa mais comum de síndrome nefrótica em adultos, ficando atrás apenas da GESF.

Patogênese e Histopatologia

A lesão fundamental consiste na deposição de imunocomplexos no espaço subepitelial (entre os podócitos e a membrana basal). Estes depósitos causam espessamento progressivo da membrana basal glomerular.

Marcador Diagnóstico

O anticorpo anti-PLA2R (antireceptor da fosfolipase A2) está presente em 70-80% dos casos de nefropatia membranosa primária. Representa marcador específico e pode auxiliar no diagnóstico e monitorização da atividade de doença.

Quadro Clínico

Síndrome nefrótica pura ocorre em 70-80% dos casos. O curso clínico apresenta evolução prognóstica variável, com possibilidade de remissão espontânea, manutenção estável ou progressão para doença renal crônica.

Associações Clínicas

Pode ser primária (idiopática) ou secundária a diversas condições:

Complicações

A nefropatia membranosa é a glomerulopatia com maior risco de trombose de veia renal. Estudos indicam que até 50% dos pacientes podem desenvolver esta complicação. Suspeitar quando surgir dor lombar, hematúria, assimetria renal ou deterioração aguda da função renal.

Complemento

Não há consumo de complemento na forma primária. Os níveis séricos permanecem normais.

Tratamento

A abordagem terapêutica é estratificada conforme gravidade e risco de progressão:

Tratamento Conservador

Indicado se proteinúria inferior a 4 g/dia e função renal preservada. Consiste em nefroproteção com IECA ou BRA, controle pressórico rigoroso e estatina se houver hiperlipidemia ou indicação cardiovascular. Aproximadamente 30% dos casos evoluem com remissão espontânea, justificando a conduta expectante inicial.

Observação importante: Se a nefropatia membranosa foi induzida por IECA (como captopril), pode-se tentar substituir por BRA ou trocar para outro IECA. A associação de IECA e BRA também pode ser considerada para maximizar redução da proteinúria.

Anticoagulação Profilática

Deve ser considerada, principalmente se albumina sérica inferior a 2-3 g/dL, pelo alto risco de trombose de veia renal.

Imunossupressão

Indicações para imunossupressão:

Esquema imunossupressor: Pulsoterapia inicial com metilprednisolona endovenosa, seguida de prednisona oral associada a ciclofosfamida. Não utilizar imunossupressores se taxa de filtração glomerular inferior a 30 mL/min/1,73m².

Fatores Prognósticos

Indicadores de bom prognóstico incluem:


Glomerulonefrite Membranoproliferativa (ou Mesangiocapilar)

Patogênese e Histopatologia

Caracteriza-se por expansão mesangial associada a alterações da membrana basal glomerular, gerando o achado histopatológico característico denominado "duplo contorno" ou "aspecto de trilho de trem".

Quadro Clínico

Apresenta-se como síndrome mista, podendo manifestar características de síndrome nefrótica (30-40% dos casos) e/ou síndrome nefrítica (25% dos casos). Esta sobreposição de características pode causar confusão diagnóstica.

Como há comprometimento da filtração glomerular, pode surgir oligúria, hipertensão arterial e edema, simulando glomerulonefrite pós-estreptocócica (GNPE). Este é o principal diagnóstico diferencial.

⚠️ Armadilha diagnóstica: Infecção de vias aéreas superiores pode preceder o quadro em 50% dos casos, complicando ainda mais a diferenciação com GNPE. O diferencial-chave é a persistência do consumo de complemento por mais de 8 semanas (na GNPE, normaliza em até 8 semanas).

Pode também complicar com trombose de veia renal.

Associações Clínicas

Pode ser primária ou secundária. As associações mais importantes são:

Complemento

É a ÚNICA glomerulopatia primária que consome complemento de forma persistente. Níveis baixos de C3 e/ou C4 que não se normalizam em 8 semanas são altamente sugestivos de GNMP.

🔎 Lembre-se das indicações de biópsia na GNPE: Proteinúria em faixa nefrótica por mais de 4 semanas OU complemento não normalizando em 8 semanas sugere diagnóstico alternativo (principalmente GNMP), indicando biópsia renal.

Tratamento

O tratamento da GNMP é heterogêneo devido à variedade de subtipos e etiologias. A base do manejo consiste em:

Medidas Conservadoras

Imunossupressão

Reservada para casos graves com declínio progressivo da função renal. Os protocolos variam conforme o subtipo específico de GNMP.


Consumo de Complemento na Síndrome Nefrótica

A avaliação dos níveis séricos de complemento (C3 e C4) auxilia no diagnóstico etiológico da síndrome nefrótica:

Glomerulopatia Complemento
Lesão Mínima Normal
GESF Normal
Proliferativa Mesangial Normal
Nefropatia Membranosa Normal (forma primária)
GN Membranoproliferativa ↓ (Consumido)

Indicações de Biópsia Renal na Síndrome Nefrótica Idiopática

A biópsia renal está indicada nas seguintes situações:


Glomerulopatias Secundárias e Associações-Chave

Nefroesclerose Hipertensiva

Caracteriza-se histologicamente por hipertrofia da camada média arterial associada a espessamento da camada íntima. Resulta de hipertensão arterial de longa data não controlada adequadamente.

Nefropatia por Refluxo

Pacientes com refluxo vesicoureteral crônico podem desenvolver lesão renal progressiva com apresentação como GESF secundária.

Amiloidose Renal

Resulta da deposição de fibrilas amiloides nos tecidos renais. O diagnóstico histológico é confirmado pela coloração com Vermelho Congo, que evidencia birrefringência verde-maçã à luz polarizada. Manifesta-se clinicamente como síndrome nefrótica com risco elevado de trombose de veia renal.


Conceitos Avançados sobre Síndrome Nefrótica

Provas de instituições como UNIFESP e Santa Casa de São Paulo têm exigido conhecimentos mais aprofundados sobre a fisiopatologia da síndrome nefrótica.

Mecanismos da Proteinúria Maciça

A proteinúria maciça na síndrome nefrótica decorre do aumento da permeabilidade da barreira de filtração glomerular, que pode ser gerada por diversos fatores:

Causas Genéticas

Mutações em genes que codificam proteínas estruturais do podócito ou da fenda diafragmática (nefrina, podocina, entre outras) respondem por 20-30% dos casos em crianças. A pesquisa de mutações está indicada nos casos de síndrome nefrótica corticorresistente, pois pode alterar conduta e prognóstico.

Podocitopatia

Lesão ou mutação de proteínas da fenda diafragmática causa apagamento dos prolongamentos podocitários, resultando em proteinúria maciça. Este é o mecanismo fundamental da lesão mínima e GESF.

Disfunção Imune e Fatores Circulantes

Fatores circulantes secretados por linfócitos T podem lesar diretamente os podócitos. O marcador CD80, por exemplo, é secretado por linfócitos T em pacientes com lesão mínima, funcionando como biomarcador diagnóstico e de atividade de doença. Este fator causa proteinúria maciça e fusão dos processos podocitários.

Classificações da Síndrome Nefrótica

Conhecimento crescentemente cobrado em provas, inclusive sendo questão do ENARE 2024:

Quanto à Etiopatogenia

Quanto à Idade de Início

Quanto à Histologia

Quanto ao Número de Recidivas

Quanto à Resposta ao Corticoide

Quanto à Evolução

Importância Prognóstica das Classificações

Todas essas classificações relacionam-se com o prognóstico da doença. Pacientes com síndrome nefrótica corticorresistente e/ou GESF apresentam maior probabilidade de evolução para doença renal crônica terminal com necessidade de terapia de substituição renal (diálise ou transplante).

🚨 Ponto crucial: Compreender essas classificações é fundamental não apenas para provas, mas principalmente para avaliação prognóstica e decisões terapêuticas na prática clínica.

Comparativo: Principais Síndromes Nefróticas Primárias

Característica Lesão Mínima GESF Nefropatia Membranosa GN Membranoproliferativa
Epidemiologia Principal causa em crianças (90%) Principal causa em adultos 2ª causa mais comum em adultos Menos comum
Microscopia óptica Normal Esclerose focal e segmentar Espessamento da membrana basal Duplo contorno ("trilho de trem")
Complemento Normal Normal Normal (primária) ↓ Consumido
Associações principais Linfoma de Hodgkin, AINES, lítio HIV, obesidade, refluxo Hepatite B, LES, neoplasias Hepatite C, crioglobulinemia
Resposta ao corticoide Excelente (80-90%) Moderada (até 70%) Variável Variável
Complicações típicas Infecções (S. pneumoniae) HAS, hematúria possível Trombose veia renal (50%) Pode simular GNPE