Os rins são órgãos retroperitoneais que apresentam dimensões normais entre 11 e 12 centímetros. Do ponto de vista didático, dividimos o parênquima renal em duas regiões anatômicas distintas: o córtex renal, localizado na porção mais periférica do órgão, e a medula renal, situada mais profundamente.
Na região medular, identificamos formações triangulares denominadas pirâmides de Malpighi (ou pirâmides renais). Estas estruturas apresentam sua base voltada para a região cortical e seu ápice direcionado para o centro do rim, sendo este ápice chamado de papila renal.
A urina, após sua formação completa, segue um caminho anatômico bem definido através das vias excretoras:
O lobo renal constitui uma unidade anatômica funcional que pode ser comparada a uma "fatia" do órgão. Cada lobo é composto por uma pirâmide medular completa associada ao tecido cortical sobrejacente, formando assim uma unidade estrutural completa.
Os rins recebem um aporte sanguíneo extraordinariamente elevado, correspondendo a 20 a 25% do débito cardíaco total, apesar de representarem apenas cerca de 0,5% da massa corporal. Esta irrigação maciça não tem como objetivo primário a nutrição do tecido renal, mas sim garantir o processo de filtração glomerular.
A artéria renal principal penetra o órgão através do hilo renal e inicia uma série de ramificações progressivamente menores, seguindo uma hierarquia anatômica específica:
A medula renal apresenta vascularização escassa em comparação ao córtex. O sangue irriga primeiro o córtex abundantemente e então desce para a medula através de vasos especializados denominados vasos retos (vasa recta). Estes capilares são extremamente finos e em pequeno número, fazendo da medula a última região a receber perfusão sanguínea. Esta característica anatômica torna a medula particularmente vulnerável em situações de hipoperfusão renal.
O néfron representa a menor unidade funcional do rim, responsável pela filtração do sangue e formação da urina. Cada rim humano contém aproximadamente 1 milhão de néfrons. Estruturalmente, o néfron divide-se em dois componentes principais:
O corpúsculo renal é formado por duas estruturas fundamentais que trabalham em conjunto para realizar a filtração:
Estrutura epitelial que envolve o tufo glomerular, representando o folheto externo ou parietal do corpúsculo. Possui também um folheto interno ou visceral, que está intimamente aderido aos capilares glomerulares. Este folheto interno é constituído por células especializadas chamadas podócitos, cujos prolongamentos citoplasmáticos interdigitados formam as fendas de filtração, estruturas cruciais para a seletividade do filtrado glomerular.
O tufo glomerular, ou glomérulo propriamente dito, é composto por três elementos estruturais essenciais:
O mesângio consiste em tecido conjuntivo especializado localizado entre as alças capilares glomerulares. Em determinados pontos, a membrana basal não circunda completamente um único capilar, tornando-se compartilhada por dois ou mais capilares adjacentes. Neste espaço interalças residem as células mesangiais, que desempenham múltiplas funções:
Para que uma substância presente no plasma seja filtrada e apareça no espaço de Bowman, ela deve atravessar três camadas estruturais sequenciais que compõem a barreira de filtração:
A barreira de filtração glomerular exerce sua seletividade através de dois mecanismos principais:
As estruturas da barreira de filtração, especialmente a membrana basal e os proteoglicanos, são ricas em cargas negativas. Este aspecto eletroquímico promove a repulsão de moléculas aniônicas (com carga negativa), como a albumina. A albumina, apesar de ter tamanho próximo ao limite de filtração, é fortemente retida devido à sua carga negativa em pH fisiológico.
Moléculas com massa molecular superior a 60 quilodaltons (kDa) tendem a ser retidas e não atravessam a barreira de filtração. Exemplos importantes:
| Molécula | Massa Molecular (kDa) | Comportamento na Filtração |
|---|---|---|
| Albumina | 68 kDa | Retida (tamanho + carga negativa) |
| Imunoglobulinas | 150-900 kDa | Totalmente retidas (tamanho) |
| Cadeias leves Ig | 24 kDa | Livremente filtradas |
Todas as estruturas da barreira de filtração podem ser alvos de anticorpos e mecanismos imunológicos. A localização específica da lesão determina o padrão histológico observado na biópsia renal e orienta o diagnóstico diferencial das glomerulopatias.
Na análise histopatológica por microscopia óptica e imunofluorescência, podemos identificar três padrões principais de deposição de imunocomplexos:
O exame de imunofluorescência em material de biópsia renal permite identificar dois padrões fundamentais que têm grande valor diagnóstico:
Representa deposição descontínua de imunocomplexos. Indica que a lesão NÃO ocorre em estrutura contínua, mas sim por deposição de complexos antígeno-anticorpo em estruturas fenestradas (endotélio) ou descontínuas. Marcadores típicos incluem IgA, IgG, IgM e frações do complemento (especialmente C3).
Doenças associadas ao padrão granular:
Representa deposição contínua ao longo da membrana basal glomerular. Este padrão indica lesão da única estrutura contínua da barreira de filtração: a membrana basal. É altamente específico da síndrome de Goodpasture (doença anti-membrana basal glomerular).
| Estrutura | Localização/Características | Funções Principais | Importância Clínica |
|---|---|---|---|
| Endotélio Capilar Fenestrado | Camada mais interna voltada para o lúmen vascular; apresenta poros (fenestras) |
• Permite passagem livre de água e pequenos solutos • Bloqueia elementos figurados do sangue (células) • Contribui para barreira de carga contra proteínas aniônicas |
Lesões endoteliais levam a depósitos subendoteliais (padrão granular à imunofluorescência) |
| Membrana Basal Glomerular | Matriz extracelular espessa situada entre endotélio e podócitos; única estrutura contínua da barreira |
• Rica em cargas negativas (proteoglicanos) • Restringe passagem de proteínas por carga e tamanho • Principal barreira física de filtração |
Alvo específico na síndrome de Goodpasture (padrão linear à imunofluorescência) |
| Podócitos e Fendas de Filtração | Células epiteliais especializadas do folheto visceral da cápsula de Bowman; prolongamentos interdigitados |
• Formam as fendas de filtração • Seleção molecular principalmente por tamanho • Manutenção estrutural do capilar glomerular |
Lesão podocitária está associada à síndrome nefrótica (proteinúria maciça); depósitos subepiteliais |
| Mesângio | Tecido conjuntivo de sustentação localizado entre as alças capilares glomerulares |
• Suporte estrutural do tufo glomerular • Regulação do fluxo sanguíneo (contração/relaxamento) • Fagocitose de debris aprisionados • Secreção de citocinas e mediadores • Integra o aparelho justaglomerular |
Lesão mesangial = hematúria (ex: nefropatia por IgA - doença de Berger) |
As doenças renais podem ser sistematicamente classificadas de acordo com a estrutura primariamente afetada ou o mecanismo fisiopatológico predominante:
Acometem primariamente o glomérulo e a barreira de filtração. Manifestam-se tipicamente com:
Afetam os túbulos renais e seus processos de reabsorção e secreção. Podem causar:
Comprometem a vascularização renal. Incluem:
Alterações no equilíbrio de fluidos, eletrólitos e pH, frequentemente secundárias a doenças renais ou que afetam a função renal:
Conjunto de manifestações clínicas decorrentes do acúmulo de toxinas urêmicas na insuficiência renal avançada:
| Categoria | Estrutura Afetada | Manifestações Principais |
|---|---|---|
| Glomerulopatias | Glomérulo | Proteinúria, hematúria, edema |
| Tubulopatias | Túbulos renais | Distúrbios eletrolíticos, acidose tubular |
| Doenças vasculares | Vasos renais | Hipertensão, isquemia renal |
| Distúrbios hidroeletrolíticos | Múltiplas | Alterações de Na, K, ácido-base |
| Síndrome urêmica | Sistêmica | Acúmulo de toxinas, disfunção multiorgânica |