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Rim e Desordens Sistêmicas


Rins e Hipertensão Arterial

Introdução

Os rins constituem um dos principais órgãos-alvo afetados pela hipertensão arterial sistêmica (HAS), juntamente com coração, cérebro e retina. A lesão renal típica decorrente da hipertensão crônica é conhecida como nefroesclerose hipertensiva ou nefropatia hipertensiva, que pode manifestar-se em duas formas clínico-patológicas distintas: benigna e maligna.

Nefroesclerose Hipertensiva Benigna

Fisiopatologia

A forma benigna caracteriza-se pela redução progressiva do lúmen das arteríolas aferentes, resultante de dois processos principais: hipertrofia da camada média vascular e desenvolvimento de arterioesclerose hialina. Essas alterações estruturais levam à isquemia crônica dos glomérulos, culminando em morte progressiva dos néfrons por meio de glomeruloesclerose focal e global.

Quadro Clínico e Diagnóstico

A apresentação clínica típica inclui hipertensão arterial associada ao desenvolvimento insidioso de doença renal crônica, evidenciada pelo aumento progressivo e lento dos níveis séricos de ureia e creatinina. Uma característica importante é a ausência de proteinúria significativa, geralmente inferior a 1,5 g em 24 horas, com exame de urina tipo I (EAS) frequentemente normal ou com alterações discretas.

🔎 Diagnóstico: A biópsia renal deve ser reservada exclusivamente para situações de dúvida diagnóstica, não sendo indicada rotineiramente.

Tratamento

A base terapêutica consiste no controle pressórico adequado. Os anti-hipertensivos de escolha para proteção renal são os inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) ou os bloqueadores do receptor de angiotensina (BRA), pela ação nefroprotetora adicional.

Nefroesclerose Hipertensiva Maligna

Fisiopatologia

A forma maligna decorre de elevação intensa e abrupta da pressão arterial, causando necrose fibrinoide das arteríolas aferentes. O achado histopatológico característico é a lesão em "bulbo de cebola", resultante da proliferação concêntrica das células musculares lisas da parede vascular.

Quadro Clínico e Diagnóstico

Pode manifestar-se como emergência hipertensiva (pressão arterial sistólica maior que 180 mmHg e/ou diastólica maior que 120 mmHg com lesão aguda de órgão-alvo). O acometimento renal assemelha-se à síndrome nefrítica, apresentando hematúria, elevação rápida de ureia e creatinina, com proteinúria variável.

⚠️ Atenção: A nefroesclerose maligna é uma emergência médica que requer redução pressórica controlada e imediata para prevenir danos irreversíveis aos órgãos-alvo.

Tratamento

O manejo prioritário consiste no controle pressórico emergencial. Os anti-hipertensivos de escolha são nitroprussiato de sódio ou nitroglicerina por via intravenosa, permitindo titulação precisa e resposta rápida.

Característica Nefroesclerose Benigna Nefroesclerose Maligna
Evolução Lenta e progressiva Rápida e abrupta
Lesão arteríolar Arterioesclerose hialina Necrose fibrinoide ("bulbo de cebola")
Proteinúria < 1,5 g/24h Variável
Quadro clínico DRC insidiosa Síndrome nefrítica aguda
Tratamento IECA ou BRA Nitroprussiato ou nitroglicerina IV

Rins e Diabetes Mellitus

Epidemiologia e Importância Clínica

A nefropatia diabética representa a principal causa de doença renal crônica dialítica no mundo. Sua presença indica risco cardiovascular elevado e piora significativa do prognóstico. Embora o diabetes mellitus tipo 1 (DM1) e tipo 2 (DM2) apresentem risco semelhante de progressão para nefropatia, esta é mais frequentemente observada no DM2 devido à sua maior prevalência populacional.

💡 Dica: Embora pareça paradoxal, DM1 e DM2 têm risco semelhante de nefropatia, mas esta é mais comum no DM2 simplesmente porque há muito mais pacientes com DM2 na população.

Fisiopatologia

O desenvolvimento da nefropatia diabética envolve fatores hemodinâmicos, metabólicos e genéticos interagindo de forma complexa. A progressão ocorre em fases bem definidas:

Fase I - Hiperfiltração (Pré-Nefropatia)

Caracteriza-se por alterações estruturais precoces: hipertrofia glomerular, espessamento da membrana basal glomerular e expansão mesangial. Como consequência funcional, observa-se hiperfiltração glomerular com ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA).

Fase II - Nefropatia Diabética Incipiente

A desorganização estrutural glomerular resulta no surgimento de albuminúria, marcando o início da nefropatia diabética propriamente dita. Nesta fase, a albuminúria encontra-se na faixa de 30 a 300 mg em 24 horas, também denominada albuminúria moderadamente aumentada ou microalbuminúria.

Fase III - Doença Renal Diabética Declarada

Caracteriza-se pela presença de macroalbuminúria (albuminúria superior a 300 mg em 24 horas ou albuminúria severamente aumentada). A partir desta fase, a doença torna-se irreversível. Manifestações clínicas sistêmicas começam a surgir, incluindo hipertensão arterial, edema periférico, retinopatia diabética e possível evolução para síndrome nefrótica (embora com albumina sérica tendendo a níveis menos reduzidos que em outras nefropatias).

Fase IV - Insuficiência Renal e Azotemia

Nesta fase terminal, desenvolve-se isquemia intersticial com arterioesclerose hialina. É importante notar que a arterioesclerose pode ocorrer antes mesmo de dano glomerular importante e albuminúria significativa, embora seja raro.

🧠 Conceito importante: Doença renal do diabetes é um termo mais amplo que engloba qualquer lesão renal em paciente diabético. Nefropatia diabética, especificamente, obrigatoriamente inclui albuminúria. Portanto, pacientes com redução da taxa de filtração glomerular (TFG) sem albuminúria não devem ser classificados como portadores de nefropatia diabética clássica.

Anatomia Patológica

As alterações histopatológicas dividem-se em dois padrões principais:

Glomeruloesclerose

Isquemia Intersticial

Fatores de Risco

Diversos fatores aumentam a suscetibilidade ao desenvolvimento e progressão da nefropatia diabética:

Diagnóstico e Rastreamento

Quando Rastrear?

Como Rastrear?

O padrão-ouro é a quantificação da albuminúria na urina de 24 horas. No entanto, o método de escolha na prática clínica é a amostra isolada (spot urinário) com cálculo da relação albumina/creatinina urinária.

Classificação Albuminúria 24h Relação Albumina/Creatinina (spot)
Normal Até 30 mg/dia Até 30 mg/g
Moderadamente aumentada (microalbuminúria) 30-300 mg/dia 30-300 mg/g
Severamente aumentada (macroalbuminúria) > 300 mg/dia > 300 mg/g
⚠️ Atenção: O exame de sedimento urinário (EAS) não é adequado para rastreamento, pois só se torna positivo em casos avançados (albuminúria > 300 mg/dia ou proteinúria > 500 mg/dia).

Indicações de Biópsia Renal

A biópsia renal deve ser reservada para situações de dúvida diagnóstica:

Tratamento

Controle Glicêmico Intensivo

Meta de hemoglobina glicada inferior a 7% (idealmente entre 6,5 e 7%). Em pacientes com doença renal crônica avançada (TFG inferior a 60 ml/min/1,73m²), recomenda-se controle menos rigoroso (HbA1c entre 7 e 7,9%) devido aos riscos de hipoglicemia e descontrole de comorbidades associadas.

Medidas Gerais

Bloqueio do Sistema Renina-Angiotensina

Inibidores da ECA (IECA) ou bloqueadores do receptor de angiotensina (BRA) devem ser prescritos para todos os pacientes com albuminúria. A associação de IECA com BRA não é recomendada. Cautela deve ser exercida em pacientes com TFG reduzida.

Controle da Pressão Arterial

Meta pressórica inferior a 130 x 80 mmHg. IECA ou BRA são a primeira escolha, oferecendo prevenção primária da albuminúria além do controle pressórico.

Controle da Dislipidemia

Estatina de intensidade moderada para todos os pacientes entre 40 e 75 anos. Pacientes de alto risco cardiovascular devem receber estatina de alta intensidade. Em pacientes com redução da TFG, preferir atorvastatina ou fluvastatina por melhor perfil de segurança.

Restrição Dietética

Restrição proteica (até 0,8 g/kg/dia) somente para pacientes não-dialíticos com albuminúria e redução da TFG. Pacientes hipertensos devem receber orientação para restrição de sódio.

Antagonistas da Aldosterona

Finerenona (antagonista seletivo não esteroide do receptor mineralocorticoide): indicada para todos os pacientes com DM2 e albuminúria, desde que TFG superior a 25 ml/min/1,73m² e normocalemia, em associação com IECA ou BRA para proteção renal adicional. Outros antagonistas da aldosterona podem ser considerados, mas sem evidência de benefício superior.

Inibidores do SGLT2

Indicados para pacientes com TFG entre 30 e 60 ml/min/1,73m² ou albuminúria superior a 200 mg/g, visando reduzir progressão para doença renal terminal, independentemente do controle glicêmico. Não devem ser iniciados se TFG inferior a 20 ml/min/1,73m², mas podem ser mantidos se já em uso. Empaglifozina e dapaglifozina têm limites inferiores de TFG de 20 e 25 ml/min/1,73m², respectivamente.

💊 Tratamento: Os inibidores do SGLT2 representam avanço importante na nefroproteção, com benefício demonstrado independentemente do controle glicêmico, sendo classe fundamental no manejo atual.

Agonistas do GLP-1

Não há estudos com desfecho renal primário suficientemente robustos. O uso deve ser considerado em pacientes com DM2 e doença renal crônica com TFG superior a 30 ml/min/1,73m² para redução da albuminúria, segundo diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes.


Rins e Anemia Falciforme

Introdução

A anemia falciforme caracteriza-se por hemólise crônica e episódios de vaso-oclusão isquêmica. O acometimento renal é multifacetado, manifestando-se por diferentes padrões de lesão: defeitos de concentração urinária (isostenúria), necrose de papila renal e glomerulopatia.

Isostenúria

Representa a manifestação renal mais comum e precoce na anemia falciforme. Resulta de isquemia crônica da medula renal, comprometendo a capacidade de concentração urinária. Clinicamente, manifesta-se por urina diluída, poliúria e tendência à desidratação, especialmente em situações de perda hídrica aumentada.

Necrose de Papila Renal

Decorre de isquemia severa das papilas renais. As manifestações clínicas incluem hematúria, dor lombar e febre. O diagnóstico é confirmado por urografia excretora, que evidencia o clássico sinal do "anel de sombra" (ring shadow), correspondente ao contorno da papila necrótica.

Glomerulopatia Falciforme

A lesão glomerular típica é a glomeruloesclerose focal e segmentar (GESF). Clinicamente, apresenta-se com proteinúria podendo evoluir para síndrome nefrótica com todas suas manifestações clássicas.

🧠 Lembre-se: A isostenúria é a lesão mais precoce e frequente, mas a glomerulopatia é a manifestação potencialmente mais grave, podendo levar à doença renal crônica terminal.

Rins e Mieloma Múltiplo

Conceitos Iniciais

O mieloma múltiplo é uma neoplasia hematológica mais prevalente em idosos, com maior incidência em indivíduos negros. O quadro clínico clássico pode ser memorizado pelo acrônimo "CARO":

O acometimento renal no mieloma múltiplo pode ocorrer por diversos mecanismos fisiopatológicos distintos.

Nefropatia por Cadeias Leves (Rim do Mieloma)

Representa a forma mais comum de lesão renal no mieloma múltiplo. Resulta da filtração glomerular de cadeias leves de imunoglobulinas (proteínas de Bence-Jones), que são tóxicas ao epitélio tubular.

Manifestações Clínicas

Nefrocalcinose

Corresponde ao depósito de cálcio no parênquima renal, secundário à hipercalcemia crônica frequentemente presente no mieloma. As manifestações clínicas incluem poliúria, nictúria e polidipsia, configurando quadro de diabetes insipidus nefrogênico por lesão da medula renal.

Amiloidose Primária (AL)

Ocorre quando há deposição glomerular de fibrilas compostas por fragmentos de imunoglobulinas. O diagnóstico é confirmado por biópsia com coloração pelo vermelho do Congo, que evidencia birrefringência verde-maçã à luz polarizada. Clinicamente, manifesta-se como síndrome nefrótica com proteinúria maciça.

🔎 Diagnóstico diferencial: A presença de síndrome de Fanconi em idoso com anemia e dor óssea deve sempre levantar suspeita de mieloma múltiplo, mesmo antes da confirmação hematológica.

Rins e Colagenoses

As colagenoses representam um grupo de doenças inflamatórias multissistêmicas de etiologia autoimune e caráter idiopático. Caracterizam-se pela produção de autoanticorpos direcionados contra componentes do tecido conjuntivo, podendo afetar múltiplos órgãos, incluindo os rins. O envolvimento renal é frequente e pode determinar o prognóstico da doença.

Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES)

O lúpus eritematoso sistêmico é uma doença autoimune sistêmica que frequentemente acomete os rins. A nefrite lúpica apresenta diferentes padrões histológicos, classificados de acordo com a gravidade e apresentação clínica.

Classificação Histopatológica da Nefrite Lúpica

A classificação da nefrite lúpica segue critérios histológicos que se correlacionam com manifestações clínicas e prognóstico:

🧠 Conceito-chave: A Classe IV é a forma mais comum e grave da nefrite lúpica, enquanto a Classe V pode cursar com complemento normal e anti-DNA negativo, diferentemente das demais classes ativas.

Abordagem Diagnóstica

A investigação da nefrite lúpica envolve etapas sequenciais para confirmar o diagnóstico e estabelecer a gravidade:

🔎 Diagnóstico: A biópsia renal não é realizada rotineiramente, mas reservada para casos com evidências laboratoriais de comprometimento significativo da função renal.

Estratégias Terapêuticas

O tratamento da nefrite lúpica é estratificado conforme a classe histológica e gravidade do acometimento:

Medidas Gerais (para todos os pacientes)
Classes I e II (Leves)

Considerar uso de azatioprina (AZA) ou micofenolato mofetil (MMF) caso a proteinúria persista consistentemente acima de 1g/dia, apesar das medidas gerais.

Classes III, IV e V (Moderadas a Graves)
💊 Tratamento: A hidroxicloroquina deve ser mantida em todos os pacientes com LES, independentemente da classe de nefrite, devido ao seu efeito protetor sistêmico.

Esclerose Sistêmica (Esclerodermia)

A esclerose sistêmica é uma doença do tecido conjuntivo caracterizada por disfunção vascular progressiva e fibrose tecidual que acomete diversos órgãos, incluindo os rins.

Crise Renal Esclerodérmica

Representa a complicação renal mais grave da esclerose sistêmica, caracterizada por vasoespasmo severo das artérias interlobares renais. Este processo resulta em isquemia glomerular que desencadeia hiperativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona, gerando um círculo vicioso de lesão renal e hipertensão.

Manifestações Clínicas
Abordagem Terapêutica

O tratamento da crise renal esclerodérmica baseia-se no uso de inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA), que interrompem o ciclo de ativação do sistema renina-angiotensina, controlam a hipertensão e protegem a função renal.

⚠️ Atenção: Na crise renal esclerodérmica, os IECA são a base do tratamento e devem ser iniciados precocemente para prevenir dano renal irreversível.

Síndrome do Anticorpo Antifosfolipídeo (SAF)

A síndrome do anticorpo antifosfolipídeo é caracterizada pela presença de autoanticorpos contra fosfolipídeos, levando a eventos trombóticos recorrentes e/ou abortamentos de repetição.

Envolvimento Renal

Aproximadamente 25% dos pacientes com SAF desenvolvem comprometimento renal, principalmente através de trombose microvascular. As manifestações incluem:

Síndrome de Sjögren

A síndrome de Sjögren é uma doença autoimune que afeta primariamente glândulas exócrinas. O acometimento renal ocorre em 10-25% dos casos, manifestando-se através de duas formas principais:

Nefrite Intersticial Linfocitária

Esta forma de envolvimento renal caracteriza-se por infiltração linfocitária do interstício renal, gerando disfunção tubular com as seguintes manifestações:

Glomerulonefrite

Quando há envolvimento glomerular, a apresentação típica é de síndrome nefrótica, com padrões histológicos variados:

🧠 Lembre-se: Na síndrome de Sjögren, a disfunção tubular é mais comum que o envolvimento glomerular, manifestando-se principalmente como acidose tubular renal tipo I.

Rins e Artrite Reumatoide

A artrite reumatoide é uma doença inflamatória crônica que acomete primariamente as articulações através de mecanismo autoimune. O envolvimento renal ocorre em aproximadamente 25% dos casos, manifestando-se de diferentes formas:

Formas de Acometimento Renal

Glomerulonefrite

Quando presente, pode manifestar-se como:

Amiloidose AA (Secundária)

Complicação da inflamação crônica, caracterizada por depósito de proteína amiloide AA. Manifesta-se tipicamente como síndrome nefrótica.

Efeitos Adversos de Medicamentos

Os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), frequentemente utilizados no tratamento da artrite reumatoide, podem causar:

💊 Atenção medicamentosa: Os AINEs devem ser utilizados com cautela em pacientes com artrite reumatoide, devido ao risco de lesão renal.

Rins e Vasculites

As vasculites constituem um grupo heterogêneo de doenças caracterizadas por inflamação da parede vascular. O padrão de acometimento renal varia conforme o calibre dos vasos afetados:

Granulomatose com Poliangeíte (Wegener)

Características Gerais

Vasculite que acomete vasos de médio e pequeno calibre, caracterizada pela clássica síndrome pulmão-rim e comprometimento do trato respiratório superior.

Manifestações Renais

O rim é acometido com síndrome nefrítica associada a injúria renal, podendo evoluir para glomerulonefrite rapidamente progressiva (GNRP).

Diagnóstico

Tratamento

🔎 Diagnóstico: O C-ANCA é altamente específico para granulomatose com poliangeíte, mas a biópsia pode não demonstrar granulomas, especialmente em biópsias renais.

Poliangeíte Microscópica

Características Distintivas

Vasculite de pequenos vasos que também apresenta síndrome pulmão-rim, porém com características que a diferenciam da granulomatose com poliangeíte:

Tratamento

A abordagem terapêutica é semelhante à da granulomatose com poliangeíte, incluindo indução com corticosteroide e imunossupressor, seguida de manutenção.

Poliarterite Nodosa

Características Gerais

Vasculite que acomete artérias de médio calibre, com características distintas:

Manifestações Renais

Diagnóstico

Realizado através de métodos de imagem (angiografia, angiotomografia) ou biópsia tecidual demonstrando vasculite necrotizante.

Tratamento

⚠️ Atenção: Na poliarterite nodosa, diferentemente das vasculites ANCA-positivas, não há acometimento pulmonar e o ANCA é negativo.

Púrpura de Henoch-Schönlein

Características Clínicas

Vasculite leucocitoclástica de pequenos vasos, frequentemente precedida por infecção respiratória. Manifesta-se pela tétrade clássica:

Acometimento Renal

Investigação e Diagnóstico

Abordagem Terapêutica

Crioglobulinemia

Características Gerais

Vasculite leucocitoclástica caracterizada por:

Acometimento Renal

Tratamento

Vasculite Calibre Vascular Marcador Característica Distintiva
Granulomatose com Poliangeíte Médio/Pequeno C-ANCA Síndrome pulmão-rim + via aérea superior
Poliangeíte Microscópica Pequeno P-ANCA Síndrome pulmão-rim sem granulomas
Poliarterite Nodosa Médio ANCA negativo Não acomete pulmão, associação com HBV
Henoch-Schönlein Pequeno - Tétrade: púrpura, artralgia, dor abdominal, nefropatia
Crioglobulinemia Pequeno Crioglobulinas, ↓complemento Associação com hepatite C

Rins e Infecções

Endocardite Infecciosa

A endocardite infecciosa representa uma condição grave que pode comprometer a função renal por meio de diversos mecanismos fisiopatológicos distintos. O acometimento renal nessa patologia ocorre através de quatro principais vias: desenvolvimento de glomerulonefrite, formação de abscessos e infartos renais, instalação de necrose tubular aguda e ocorrência de nefrite intersticial alérgica medicamentosa.

Glomerulonefrite Associada à Endocardite

Atualmente, o principal agente etiológico envolvido na endocardite com comprometimento glomerular é o Staphylococcus aureus. Esse padrão epidemiológico representa uma mudança significativa em relação ao período pré-antibiótico, quando o Streptococcus viridans predominava como agente causador.

Do ponto de vista clínico e laboratorial, o acometimento renal na endocardite manifesta-se caracteristicamente por proteinúria em níveis subnefróticos, presença de dismorfismo eritrocitário no sedimento urinário e redução dos níveis de complemento sérico.

🔬 Achados Histopatológicos: A biópsia renal pode revelar diferentes padrões de lesão glomerular, incluindo glomerulonefrite proliferativa difusa, glomeruloesclerose segmentar e focal (GESF), glomerulonefrite membranoproliferativa ou glomerulonefrite rapidamente progressiva.

A abordagem terapêutica fundamental consiste no tratamento adequado da endocardite com antibioticoterapia específica, o que geralmente resulta em melhora ou estabilização da função renal.

Abscessos e Infartos Renais

A formação de abscessos e infartos renais representa uma complicação embólica da endocardite. Clinicamente, essa condição manifesta-se tipicamente por dor em região de flanco associada à hematúria. O diagnóstico é estabelecido através de exames de imagem, como tomografia computadorizada ou ultrassonografia renal.

Necrose Tubular Aguda e Nefrite Intersticial

Essas complicações geralmente ocorrem quando o paciente com endocardite desenvolve sepse. Na necrose tubular aguda (NTA), o manejo adequado do quadro séptico, incluindo ressuscitação volêmica e controle hemodinâmico, favorece a regeneração tubular e recuperação da função renal.

Quando o contexto clínico envolve sepse associada à nefrite intersticial alérgica, deve-se considerar a possibilidade de reação medicamentosa e avaliar a necessidade de substituição do esquema antibiótico.

Leptospirose

A leptospirose representa uma zoonose de grande importância clínica, cujas manifestações graves configuram a chamada Síndrome de Weil. Essa forma severa da doença caracteriza-se por uma tríade clássica de acometimento orgânico.

⚠️ Tríade Clássica da Síndrome de Weil: Lesão hepática, hemorragia alveolar e injúria renal aguda (síndrome pulmão-rim).

Mecanismos de Lesão Renal

O comprometimento renal na leptospirose pode ocorrer através de múltiplos mecanismos fisiopatológicos, incluindo capilarite renal, necrose tubular aguda, hipovolemia e mioglobinúria secundária à rabdomiólise.

Um achado laboratorial característico e de grande valor diagnóstico é a presença de lesão renal aguda associada à hipocalemia. Esse distúrbio eletrolítico resulta do comprometimento da reabsorção de sódio no túbulo proximal, com consequente perda urinária de potássio.

💡 Dado de Alta Relevância: A combinação de insuficiência renal aguda com hipocalemia deve sempre levantar a suspeita de leptospirose no contexto clínico apropriado.

Manejo Terapêutico

O tratamento da leptospirose com acometimento renal envolve antibioticoterapia específica e, quando necessário, instituição precoce de terapia de substituição renal (diálise). Um aspecto prognóstico importante é que as alterações renais são reversíveis e tendem a desaparecer gradualmente com o tratamento adequado.

Infecção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV)

O HIV pode causar lesão renal através de um padrão histopatológico específico conhecido como glomeruloesclerose segmentar e focal (GESF) colapsante, também denominada nefropatia associada ao HIV.

Fatores de Risco e Características Clínicas

Diversos fatores aumentam o risco de desenvolvimento de nefropatia associada ao HIV, incluindo doença viral avançada (baixa contagem de linfócitos CD4+), etnia negra, uso de drogas intravenosas e idade adulta.

As manifestações clínicas são caracteristicamente dramáticas, com síndrome nefrótica grave e rapidamente progressiva. Um achado radiológico típico é o aumento do tamanho dos rins ao exame de imagem, contrastando com a redução habitual observada em outras nefropatias crônicas.

🔎 Achados Histopatológicos: A biópsia renal revela glomeruloesclerose segmentar e focal com colapso dos tufos glomerulares, padrão característico desta nefropatia.

Abordagem Terapêutica

O tratamento fundamental consiste na terapia antirretroviral (TARV), que demonstrou capacidade de retardar significativamente a evolução da nefropatia. Medidas adicionais incluem o uso de inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) ou bloqueadores do receptor de angiotensina (BRA) nos casos que desenvolvem hipertensão renovascular. Em situações selecionadas, a terapia com corticosteroides pode trazer benefícios.


Rins e Amiloidose

A amiloidose constitui um grupo de doenças caracterizado pelo depósito extracelular de substância amiloide em diversos órgãos, incluindo os rins. O espectro de manifestações clínicas dessa condição é amplo e inclui proteinúria nefrótica, cardiomiopatia restritiva, hepatomegalia, neuropatia periférica, espessamento cutâneo e macroglossia.

Amiloidose AL (Primária)

A forma primária da amiloidose, também conhecida como AL, caracteriza-se pela produção de cadeias leves de imunoglobulinas que se depositam nos tecidos. O acometimento renal nesta forma manifesta-se tipicamente por síndrome nefrótica, podendo complicar-se com trombose de veia renal e evolução para insuficiência renal. Um achado radiológico característico é o aumento do tamanho dos rins.

Amiloidose AA (Secundária)

A forma secundária, ou AA, ocorre como consequência de doenças inflamatórias crônicas e caracteriza-se pela produção da proteína amiloide A sérica. No rim, predominam os depósitos vasculares e tubulares.

Um aspecto importante é que, quando a amiloidose secundária está associada à artrite reumatoide, existe a possibilidade de desenvolvimento de glomerulonefrite rapidamente progressiva com formação de crescentes.

Diagnóstico da Amiloidose

O diagnóstico definitivo de amiloidose requer confirmação histopatológica através de biópsia. Idealmente, a biópsia deve ser realizada no órgão acometido. Entretanto, quando o órgão envolvido é nobre ou de difícil acesso, locais alternativos menos invasivos podem ser utilizados, como gordura subcutânea abdominal ou mucosa retal.

🧪 Método Diagnóstico Específico: A identificação da substância amiloide é realizada através da coloração com Vermelho do Congo, seguida de análise sob microscópio com luz polarizada, que demonstra birrefringência verde-maçã característica.

Rins e Gestação

Modificações Fisiológicas do Sistema Renal na Gravidez

A gestação promove diversas alterações fisiológicas no sistema urinário que devem ser reconhecidas para diferenciá-las de processos patológicos. Entre essas modificações, destacam-se:

🧠 Conceito Importante: A redução dos níveis de ureia e creatinina na gestação ocorre devido ao aumento do fluxo plasmático renal e da taxa de filtração glomerular. Valores considerados normais fora da gestação podem representar disfunção renal na gestante.

Pré-eclâmpsia

A pré-eclâmpsia representa uma das principais complicações da gestação e é definida pela presença de hipertensão arterial associada a proteinúria significativa (superior a 300 mg/dia), manifestando-se após a 20ª semana de gestação.

Injúria Renal Aguda na Gestação

A insuficiência renal aguda durante a gestação pode resultar de múltiplas etiologias, cada uma com características e abordagens específicas.

Causas de Injúria Renal Aguda

Hipovolemia: Pode ocorrer por hemorragia, hiperemese gravídica ou outras causas de depleção volêmica. O tratamento consiste em adequada reposição de volume.

Necrose Tubular Aguda: Resulta de hipoperfusão renal prolongada ou exposição a nefrotoxinas. A recuperação da função renal geralmente ocorre com o tratamento de suporte adequado.

Microangiopatias Trombóticas: Incluem a síndrome hemolítico-urêmica (SHU) e púrpura trombocitopênica trombótica (PTT). Caracterizam-se por anemia hemolítica microangiopática, trombocitopenia e disfunção orgânica.

⚠️ Síndrome HELLP: Representa uma forma grave de pré-eclâmpsia caracterizada por hemólise, elevação de enzimas hepáticas e plaquetopenia (Hemolysis, Elevated Liver enzymes, Low Platelets). Pode evoluir com insuficiência renal aguda e requer interrupção da gestação.

Necrose Cortical Aguda

A necrose cortical aguda representa uma complicação grave e relativamente frequente na gestação, correspondendo a 10 a 30% dos casos de insuficiência renal aguda nesse contexto.

Características Clínicas

O cenário clínico típico envolve uma complicação obstétrica, sendo o descolamento prematuro de placenta a principal causa, associado à presença de nefroesclerose arteriolar prévia.

As manifestações clínicas características incluem:

🚨 Atenção: A necrose cortical aguda tem prognóstico reservado, com alta probabilidade de evolução para doença renal crônica terminal, requerendo terapia de substituição renal definitiva.
Condição Período Gestacional Características Principais
Pré-eclâmpsia Após 20 semanas HAS + Proteinúria > 300 mg/dia
Síndrome HELLP Terceiro trimestre Hemólise + Enzimas hepáticas elevadas + Plaquetopenia
Necrose Cortical Aguda Qualquer período Anúria + Hematúria + Lombalgia (geralmente pós-complicação obstétrica)
Microangiopatias (SHU/PTT) Qualquer período Anemia hemolítica + Trombocitopenia + Disfunção orgânica